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O controle social das

bacias hidrográficas no Brasil1


Fernando Pedrão*

Resumo Abstract

Há muito tempo os programas de desenvolvimento de baci- River basin development programs have, since long repre-
as hidrográficas representam o maior componente das políticas de sented a major component in national development policies. In
desenvolvimento nacional. Em cada país, certas bacias determi- each country, some basins play a key role, for energy production
nam um papel principal na produção de energia e na promoção and for promoting technology changes in rural economy. To Brazil,
de mudanças tecnológicas na economia rural. No Brasil, esses such programs gained strategic weight, as they attract financial
programas adquiriram peso estratégico, uma vez que atraíam re- and human resources. Nowadays, it is of utmost priority, to cre-
cursos financeiros e humanos. Atualmente, é prioridade máxima ate a strategic policies framework, to conduct efficient programs
a criação de uma estrutura estratégica de políticas de condução for the major river basins. That shall encompass a long run policy,
eficiente de programas para a maioria das bacias hidrográficas. along with social and environmental policies adequate to global
Com o decorrer do tempo, elas incluirão uma política que, junta- and local priorities.
mente com as políticas sociais e ambientais, serão adequadas
Key words: water basins, national development, water resources.
às prioridades globais e locais.

Palavras-chave: bacias hidrográficas, desenvolvimento nacio-


nal, vantagens estratégicas.

ALGUNS ANTECEDENTES DA técnicos. Organizações internacionais, ongs e mei-


QUESTÃO ATUAL os nacionais de comunicação transmitem um dis-
curso que pressiona nessa direção, apoiando sua
Aprofunda-se, hoje, o conflito de interesses en- legitimidade na perda de capacidade do Estado na-
tre os usos sociais da água, a produção de energia cional para alcançar uma gestão suficiente do tema
e os demais usos, entre grandes e pequenos con- e em princípios de racionalidade que se estabele-
sumidores, no meio urbano e rural. Paralelamente, cem no plano internacional. Há um problema de re-
aumentam as pressões diretas e indiretas do gran- presentação dos interesses envolvidos no tema,
de capital pela mercantilização da água, transfor- que se manifesta nos níveis econômico e político.
mando-a numa mercadoria que tende a ser contro- No plano interno, o controle monopolista da água
lada internacionalmente, por meios financeiros e aparece legitimado como parte das políticas desti-
nadas a suprimir privilégios que se reproduzem,
1
Uma primeira versão deste ensaio foi apresentada em seminário do com a modernização de interesses patrimoniais,
CADCT/CIAMB, em Ilhéus, 1997, e apareceu, depois, em coletânea edi-
tada em Barcelona. Esta versão, plenamente desenvolvida, resultou de um
tais como os dos latifúndios transferidos para a pro-
ciclo de debates sobre esse tema no Instituto de Pesquisas Sociais. dução irrigada e como os interesses na produção
* Diretor Geral do Instituto de Pesquisas Sociais, Livre Docente da UFBA, para exportação. Na prática, a continuidade do con-
professor da UNIFACS e da Faculdade Integrada da Bahia.
fcpedrao@terra.com.br trole da água por parte dos grandes proprietários

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O CONTROLE SOCIAL DAS BACIAS HIDROGRÁFICAS NO BRASIL

foi obtida através de investimentos públicos, em A disponibilidade de água é uma vantagem es-
obras, em pesquisas e na viabilização de infra-estru- tratégica insubstituível para o desenvolvimento do
tura que serviu a essa modernização concentradora. país e tende a ser olhada com cobiça por outras
Daí a necessidade de que os usos de água sejam potências, sob a cobertura de variados argumentos.
efetivamente regulados pelo mecanismo de preços e, No entanto, essa disponibilidade não é um quadro
ao mesmo tempo, a insuficiência dos preços para re- uniforme, senão uma composição de disponibilida-
gular um bem monopolizado. Estabelecer preços de e escassez relativa, que se distribui no território
pela água pode ser uma decisão da ao longo do tempo. Há um pro-
sociedade que tenha a conseqüên- Comparado com outros cesso de ampliações e de estrei-
cia de deter usos monopolistas her- países, inclusive com a tamentos da disponibilidade, que
dados do controle patrimonial da maioria dos países compreende variações da quanti-
terra ou que, simplesmente, trans- latino-americanos que dade total de água disponível,
forme a água em mercadoria con- lhe são limítrofes, junto com modificações na distri-
trolada por interesses internacio- o Brasil representa uma buição territorial dessa disponibili-
nais (PETRELLA, 2002). A decisão experiência historicamente dade.
do controle dos recursos hídricos sem paralelo em matéria No Brasil, no entanto, esse re-
torna-se uma parte essencial dos de recursos hídricos, com curso, em sua maior parte, tem sido
destinos da sociedade civil brasilei- um horizonte de mal utilizado, podendo ser degra-
ra nas próximas décadas. perspectivas que devem dado ou destruído em algumas de
Comparado com outros países, ser revistas, dada a suas partes socialmente mais im-
inclusive com a maioria dos paí- velocidade com que os portantes, com efeitos negativos
ses latino-americanos que lhe são recursos hídricos têm maiores e mais complexos que
limítrofes, o Brasil representa uma sido explorados aqueles indicados pelos quantita-
experiência historicamente sem tivos das perdas. Essas perdas
paralelo em matéria de recursos hídricos, com um dos sistemas atingem ao sistema sócio-produtivo
horizonte de perspectivas que devem ser revistas, em seu conjunto, situando-se como problemas eco-
dada a velocidade com que os recursos hídricos lógicos em seu sentido mais amplo, isto é, como re-
têm sido explorados. O Brasil possui uma dotação ferências da capacidade do meio físico de absorver
excepcional de recursos hídricos, com uma parte povoamentos em condições que se considerem so-
importante de suas bacias em localizações integra- cialmente aceitáveis.2
das ao seu sistema produtivo, ou acessíveis a ele, Esse uso incorreto só pode ser superado ao lon-
mas com a maior parte desses recursos fora do go do tempo, mediante políticas que reconheçam a
acesso atual do sistema produtivo. Ao mesmo tem- totalidade dos recursos hídricos e contemplem o
po, grande parte do país sobrevive em condições de modo tecnológico de produzir e de consumir que,
aguda escassez hídrica e convive com modos de no essencial, vem a ser o modo energético da pro-
produzir e de consumir que levam, progressiva- dução.3 A visão das bacias hidrográficas como sis-
mente, à destruição dos sistemas hídricos. temas de produção e de uso de energia permite
O quadro geral da situação hídrica do Brasil leva encontrar uma referência unificadora da pluralida-
a refletir sobre o significado estratégico da disponi- de de formas de vida, e de combinações de formas
bilidade hídrica e de como ela corresponde a uma
pressão social sobre os usos de água. Tal pressão,
2
A precedência da perspectiva social no tratamento dos problemas de
no Brasil, cresce mais que nos demais países lati- gestão do meio físico é algo que apresenta mais dificuldades que as
no-americanos, além de conter sempre um com- imediatamente visíveis. Como bem colocou Boaventura Santos (1993), é
o significado social que dá sentido ao problema ambiental, mas, para que
ponente de demanda reprimida, proporcional ao esse significado se revele, é necessária uma linguagem de análise que
atraso no crescimento do produto social e à eleva- integre os campos social e físico, ou seja, que estabeleça os termos em
que se analisam os recursos físicos.
da participação da energia hidrelétrica no balanço 3 Por modo energético da produção entende-se o requisito de energia,
energético do país. em quantidade e qualidade, necessário para realizar uma dada produção.

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de vida, que se conjugam no âmbito de cada bacia. povoamento que levam, progressivamente, a con-
Isso significa trabalhar com a complementaridade tradições em relação às disponibilidades de água.
entre as formas de produzir e as de consumir. Na escala da história recente, a construção de um
A formação de uma compreensão atualizada do grande sistema de produção de energia apoiado,
problema hídrico e das políticas de gestão dos re- essencialmente, em energia hidrelétrica, potenci-
cursos hídricos é um componente fundamental da aliza essa contradição, mostrando o significado dos
política social de hoje, especialmente para países dois aspectos básicos: a intensidade e modo de
que estão expostos a situações aproveitamento de cada sistema
de déficit hídrico significativo. Paí- Os sistemas hídricos hídrico e as interações entre os
ses como o México, a Espanha e das regiões de usos dos sistemas hídricos. Daí ser
Israel, têm modelos completos de colonização mais antiga, preciso rever o modo como se vêm
vazão de seus sistemas desde a como os do Nordeste, os sistemas hídricos: se em fun-
década de 70. Se o Brasil tem a foram profundamente ção de uma simples projeção de
pletora de água do sistema ama- atingidos por práticas de interesses atuais ou se levando
zônico e do Paraná, tem graves depredação integradas em conta a progressão das restri-
problemas de esgotamento de dis- nos métodos tradicionais ções de sobrevivência e expan-
ponibilidade nas bacias que aten- de produção, que são do país como um todo em seu
dem suas principais zonas de con- deformaram e restringiram conjunto. Tal discussão não pode,
centração econômica, além dos seu possível obviamente, ignorar interesses la-
problemas macrorregionais do semi- aproveitamento em novas tentes e preconceitos de outros
árido. formas de produção países, como em torno da chama-
Dada a tendência ao agrava- da internacionalização da Amazô-
mento da escassez hídrica, uma política adequada nia. Para o Brasil, a única maneira de garantir o
de recursos hídricos é indispensável para a sobre- controle social de seus próprios recursos é median-
vivência da sociedade brasileira, mas, para chegar te o esclarecimento das alternativas e das perspec-
a uma política com essas características, é preciso tivas de política dos recursos hídricos.
considerar a relação entre o modo de reprodução Para esse fim é preciso substituir as análises de
dos sistemas hídricos e o modo social de uso dos constatação da composição e das transformações
recursos hídricos e estabelecer com clareza as ten- das bacias, por análises que as vejam como um
dências de reprodução dos sistemas hídricos, junto conjunto, que se articula nos planos nacional e in-
com as tendências de concentração e dispersão ternacional, que tem um significado estratégico es-
dos usos de recursos hídricos no país em seu con- sencial para a estruturação do conjunto nacional.
junto e em suas regiões. Nesse contexto, os aspectos de complexidade e de
Nesse sentido, a formação econômica e social irreversibilidade nas tendências seculares são refe-
do país surge como um movimento de ocupação de rências necessárias para que se entenda como o
bacias hidrográficas ricas em recursos de superfí- sistema socioprodutivo pode evoluir.
cie e de subsolo. A maior parte do aproveitamento Os sistemas hídricos das regiões de coloniza-
das bacias tem sido, até hoje, de recursos de su- ção mais antiga, como os do Nordeste, foram pro-
perfície, inclusive no relativo à exploração de recur- fundamente atingidos por práticas de depredação
sos minerais. A compreensão da verdadeira situa- integradas nos métodos tradicionais de produção,
ção hídrica do país ainda se apóia na disponibilida- que deformaram e restringiram seu possível apro-
de dos recursos hídricos de superfície, razão pela veitamento em novas formas de produção. Essas
qual a destruição dos sistemas ecológicos é perce- modificações do potencial hídrico tornam-se es-
bida, quase exclusivamente, pela devastação dos senciais na determinação das alternativas de de-
sistemas de superfície. senvolvimento das regiões, situando restrições de
Na escala secular da história, isso significou concentração demográfica e de tipos de ativida-
que o país construiu um sistema de produção e de des.

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O CONTROLE SOCIAL DAS BACIAS HIDROGRÁFICAS NO BRASIL

Hoje há certa ambivalência e contradição entre para o futuro. A convergência dos efeitos da desi-
os objetivos tácitos no tratamento das bacias hidro- gualdade de renda e da pobreza da maior parte da
gráficas, que se manifestam entre as regiões mais população brasileira sinaliza um atraso no consumo
ricas e usuárias mais intensivas de água e as regiões direto de água e no de energia, levando a prever um
mais pobres ou menos intensamente povoadas, das aumento considerável dos usos desses recursos,
quais decorrem posturas contraditórias entre o re- em forma mais que proporcional ao crescimento do
conhecimento das restrições sistêmicas da explo- produto. Trata-se de uma progressão específica do
ração dos recursos das bacias, e a subordinação conflito de usos, que reflete uma progressão de con-
dos padrões de uso dos recursos aos interesses da flitos de interesse e sincronia ou falta de sincronia de
concentração do capital. O reconhecimento do con- tecnologias nos diferentes segmentos da produção.
flito de objetivos é um passo necessário na direção Os movimentos de industrialização e de urbani-
de construir soluções para as situações que se apre- zação criaram, no Brasil, desde a década de 50, um
sentam ao longo do tempo. conflito progressivo entre as metas de produção de
Esse conflito de objetivos se apresenta com va- energia hidrelétrica e as necessidades de um apro-
riada extensão e intensidade, no plano internacio- veitamento racional das bacias hidrográficas para
nal e no das regiões, integrando-se no plano do assentamentos humanos, para produção de alimen-
balanço energético do país em seu conjunto e ma- tos e para proteger defesas do ambiente. Problemas
nifestando-se de diversas formas de uma região a próprios da esfera da energia, tais como de custos
outra. Além de se distinguirem regiões que atraem entre energéticos e de custos de transporte de ener-
capital e regiões que expulsam capital, distinguem- gia, contribuíram para consolidar uma tendência bra-
se regiões que usam recursos de outras regiões e sileira de aproveitar as vantagens próprias para cons-
regiões que são expropriadas de seus recursos ou, truir um sistema hidrelétrico integrado.
especificamente, que perdem alguns recursos es- Desse modo, reforçou-se o significado estraté-
tratégicos, cuja falta inviabiliza o aproveitamento gico das bacias hidrográficas, tornando-se neces-
dos demais recursos. sário entender a composição de elementos presen-
No conjunto das referências que permitem iden- tes no âmbito das bacias, tanto como se tornou ne-
tificar regiões, as bacias constituem sistemas que cessário estabelecer as condições de avaliação
concentram as maiores vantagens de povoamento econômica dos programas e projetos de interven-
e que desenvolvem processos de transformação ção nesses espaços, na progressão dos cenários
diferenciados, no conjunto das condições de orga- de condições para assentamento populacional e de
nização do território. Em torno das bacias surgem disponibilidade de água para consumo direto e como
duas tendências principais e contrárias. A industria- insumo no sistema produtivo.
lização da produção leva a uma concentração da Os conflitos de objetivos em torno das bacias re-
poluição acima da média do sistema produtivo em velaram duas peculiaridades fundamentais da ques-
seu conjunto. Paralelamente, o desenvolvimento de tão energética no Brasil. A primeira delas, que os
técnicas de reciclagem e a educação ambiental in- objetivos da produção de energia são nacionais,
troduzem tendências corretivas que, se não anu- enquanto os demais objetivos são apresentados
lam os efeitos destrutivos, sinalizam novas tendên- como regionais ou locais. A segunda, que os diver-
cias associadas aos padrões de recuperação. sos objetivos são seqüencialmente interdependen-
tes. Além disso, a necessidade de se adequar pro-
AS BACIAS HIDROGRÁFICAS NA gressivamente o sistema ao perfil de disponibilida-
ECONOMIA BRASILEIRA de de energéticos. Ao diminuírem as margens de
aproveitamento hidráulico, o sistema tende a migrar
O significado histórico das bacias hidrográficas para um perfil mais concentrado em fontes não re-
na economia brasileira aparece em duas dimen- nováveis, seja de gás natural ou de energia nucle-
sões: em torno dos atuais conflitos de usos e em ar, com custos unitários crescentes para cada novo
função de níveis mínimos críticos de disponibilidade quilowatt a ser acrescentado.

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Assim, as bacias hidrográficas tornam-se áreas de interesses no plano social. As bacias são siste-
de valor estratégico cada vez maior para a progres- mas abertos, que têm suas próprias regras de alte-
são de alterações da capacidade de absorver o po- ração, como aquelas dadas pelos efeitos acumula-
voamento, para a do sistema produtivo, onde as tivos da composição dos solos, mas que acabam
possibilidades de aumento de produção de energia sendo mais alteradas pelas regras impostas pela
têm que ser confrontadas com os novos conflitos forma de organização social da produção e do con-
de interesse que surgem em cada região, e, acima sumo, com seus desdobramentos no modo de uso
de tudo, são áreas extremamente sensíveis aos de energia. A questão social relativa à ocupação e
movimentos de controle social dos recursos físicos. aos usos das bacias coloca-se, portanto, num sen-
É o sistema produtivo das bacias influindo no ambi- tido duplamente dinâmico: pelo uso social, com seus
ente social e físico das bacias e não o ambiente fí- aspectos compatíveis e seus aspectos conflitantes
sico tomado como categoria independente. e pela reprodução das bacias, atingidas pela inten-
Torna-se, portanto, necessário reconsiderar os sificação do uso e que têm um dinamismo próprio
problemas regionais relacionados com o aproveita- de sua reprodução.
mento econômico e com a sustentação ecológica das Reúnem-se, aqui, os principais elementos de juízo
bacias hidrográficas, reconhecendo que se trata de de uma análise dos problemas econômicos e ambi-
situações progressivamente cambiantes. Além disso, entais do manejo de bacias hidrográficas, levando
vê-se que no contexto do país em seu conjunto é pre- em conta a relação entre alternativas de uso de re-
ciso trabalhar com uma hierarquização das bacias, cursos e reprodução social e do sistema físico; con-
desde as grandes bacias – Amazonas e Paraná/Pa- frontando os aspectos de interpretação do funcio-
raguai – que condicionam o espaço nacional, até as namento desses sistemas com os de identificação
pequenas e mais estratégicas em relação à demanda de um interesse público, isto é, examinando as ques-
das cidades. Neste segundo sentido, a bacia mais crí- tões próprias do planejamento. Assim, resumem-se
tica do Brasil é a do Rio Paraíba e, no primeiro senti- os principais traços de uma análise regional nessa
do, as dos rios Paraná e São Francisco. escala, mostrando as inter-relações necessárias en-
No entanto, numa perspectiva da degradação e tre a análise e a concepção de políticas públicas
destruição dos sistemas hídricos, diversas bacias para bacias hidrográficas.
sofreram danos quase irreparáveis e terão de ser Com isto, distinguem-se dois níveis de análise que
objeto de políticas de recuperação a muito longo devem, de modo convergente, informar a pesquisa
prazo. Nesse caso se inserem a bacia do Rio Tietê e as políticas ambientais: o nível da análise compa-
e a maioria das bacias do Nordeste, tanto pelo efei- rativa entre bacias hidrográficas na escala nacional
to acumulado de formas predatórias de exploração e o da análise de cada bacia em particular, distin-
como pela incidência de processos de degradação guindo-se subsistemas de distintas complexidades.
acelerada em pontos de maior concentração eco- Encontra-se, portanto, uma trama interdisciplinar, que
nômica e demográfica. A importância social de cada se manifesta nos dois níveis, vendo-se que, em ge-
bacia aparece a curto prazo no número de pessoas ral, a análise comparativa de bacias corresponde
que depende dela, mas, em seu sentido mais am- ao planejamento de grandes regiões ou ao nacio-
plo, interessa às condições de reprodução da soci- nal, e que a análise de cada bacia pode se fazer a
edade em seu conjunto, no que ela depende de diversos níveis de abrangência, desde o de gran-
suas diversas condições de habitabilidade. des regiões ao planejamento local intermunicipal.
O trabalho com as bacias hidrográficas oferece
A ANÁLISE DAS BACIAS NO BRASIL a oportunidade para uma reflexão sobre a interdis-
ciplinaridade em torno de temas que compreendem
A primeira peculiaridade da questão social das os planos físico e social e em escalas de tempo ge-
bacias hidrográficas é que elas combinam as ca- ológico e histórico. O tratamento dos problemas te-
racterísticas de irreversibilidade e de complexidade óricos e práticos da interdisciplinaridade aparece
do sistema de recursos físicos com as de conflito segundo a escala da análise com que se trabalha, em

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O CONTROLE SOCIAL DAS BACIAS HIDROGRÁFICAS NO BRASIL

abrangência de fenômenos e em escala de tempo, ASPECTOS A RESSALTAR


mas, no essencial, mesmo nas escalas mais restri-
tas, na análise das bacias hidrográficas é preciso Nos últimos decênios, houve uma mudança de-
garantir uma pluralidade de pontos de vista, sufici- cisiva no modo de compreender o significado eco-
ente para, adiante, elaborar estilos de análise e de nômico e social dos recursos das bacias hidrográfi-
política em condições de acompanhar a crescente cas, mesmo quando não tenha mudado muito o modo
complexidade do tema. de usá-los. Há uma diferença fundamental entre o
O maior problema a ser considerado hoje é a ir- significado social e os usos das bacias hidrográfi-
reversibilidade das alterações das bacias, tanto por cas em sistemas de produção pré-industriais e seu
seus movimentos naturais como pelas interven- significado como parte da organização industrial da
ções de que são objeto. Não se eliminam barra- produção. Além disso, percebe-se a diferença en-
gens nem se destroem hidrelétricas. Logicamente tre aquela visão, desenvolvida desde a década de
as referências básicas da análise social das bacias 1930, quando elas foram grandes repositórios de
que se encontram sob uso relativamente intenso, recursos ao serviço da expansão industrial, e uma
ou com expectativa de transformação importante outra visão que se estabeleceu desde a incorpora-
de usos econômicos, são igualmente importantes, ção da compreensão de sistemas abertos e inte-
como referências preventivas para as que não es- grados e do significado ambiental.
tão igualmente pressionadas. É necessário ressal- A importância das bacias voltou a ser reconheci-
tar que com as tecnologias atuais, em geração de da, à medida que se passou a pensar em termos
energia e em outros usos, pode haver um aumento de um dinamismo do ambiente em que os tem-
de intensidade que não dependa, diretamente, de pos seculares dos movimentos naturais são
colonização. bruscamente alterados por intervenções con-
Mas o aumento dos usos dos recursos, direta centradas de recursos.4 Justamente, a industriali-
ou indiretamente, bem como a complexidade dos zação da produção de energia substitui a pluralida-
efeitos ambientais, correspondem às alterações na de de formas de produção e de consumo de energia
situação de povoamento. Em todo caso, a intensi- por uma forma básica, que é a produção de energia
dade de uso envolve a utilização das águas e do elétrica em larga escala.
solo, bem como a colonização do espaço regional Isso significa que se comparam os usos das ba-
da bacia. As relações entre cidade e campo têm cias em sistemas de produção pré-industriais, nos
que ser incorporadas, de modo a refletir o aumento modos de uso típicos da segunda revolução indus-
de complexidade do sistema produtivo e do siste- trial – com macro-integração dos diversos usos – e
ma de usos em cada bacia hidrográfica e a rede de em concepções contemporâneas, em que a plurali-
relações entre bacias, ao mesmo tempo, mostran- dade de usos admite margens variáveis de conver-
do que há diferentes patamares de intensidade de gência e de não convergência entre o conjunto dos
usos de recursos, que se organizam no conjunto de usos atuais e dos previstos. Essas diferenças con-
cada bacia, tornando-se referenciais de desigual- vivem em cada grande bacia. Há sistemas domi-
dade. nantes de usos de recursos e modos subordinados
A análise de bacias trata, em princípio, com o de usos que, muitas vezes, são parcialmente con-
contraste entre a reprodução natural dos sistemas traditórios com os predominantes. É preciso olhar o
e as alterações em sua reprodução, causadas por quadro atual de usos como composto de movimen-
intervenções. Por isto, considerando que as diver- tos que operam com diferentes velocidades e inte-
sas intervenções levam, progressivamente, a cer- ragem de modos distintos.
tos trajetos possíveis de alterações dos sistemas 4
O modo de pensar sobre as bacias evoluiu, do sentido de totalidade lo-
físicos, surge uma segunda referência básica, que cal, característico do planejamento iniciado pelos sistemas Orel-Kuznetsk
e do Tennessee Valley, a um sentido de totalidade global localmente arti-
é a de uma progressiva irreversibilidade das altera- culado, em que o modelo científico e o social se interpenetram. Nesse
ções das bacias hidrográficas que obriga a pensar sentido, cabe referência ao trabalho de David Bohm (1999). Tal visão
constitui uma crítica radical tácita ao enfoque de tratar os problemas de
em termos de cenários futuros. bacias simplesmente em termos de tarifas de água.

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FERNANDO PEDRÃO

De meros sistemas exportadores de energia, as ba- Assim, os possíveis benefícios sociais desses
cias hidrográficas passam a ser sistemas de recursos usos de recursos dependem, primeiro, da concate-
que têm grandes efeitos indiretos sobre espaços muito nação das iniciativas em tempo e espaço e, logo,
maiores e, principalmente, como sistemas altamente de sua oportunidade. Em outras palavras, moderni-
sensíveis, cujas alterações também têm grandes efei- zar o aproveitamento dos sistemas hidrográficos
tos indiretos. Reconsiderando os tipos de projetos eco- implica planejar e articular o planejamento a curto,
nômicos e de programas de desenvolvimento de baci- a médio e a longo prazo, sobre referências dos pro-
as hidrográficas até hoje prevalecentes, torna-se ne- cessos de concentração do perfil do desgaste dos
cessária nova concepção da operacionalidade desses recursos.
sistemas hidrográficos, levando em conta que os usos Ao argumento técnico a favor do planeja-
são intervenções mais ou menos permanentes, que al- mento soma-se um argumento social. As bacias
teram o rumo das transformações de cada bacia. hidrográficas são, geralmente, espaços privile-
As barragens são as obras públicas mais repre- giados em cada país e seu controle, por razões
sentativas dessas alterações bruscas. O reconheci- históricas ou outras, significa uma vantagem mo-
mento de que elas são obras de duração ilimitada é, nopolística, que diferencia e segmenta o mer-
na verdade, uma grande simplificação e uma transfe- cado de produtos e, certamente, obstrui o mer-
rência de risco para o futuro. Por isso, torna-se neces- cado de trabalho. Mais que em outras partes,
sária uma revisão da conceituação de tempo nos pro- aqui se impõem novas leituras da teoria da ren-
jetos de intervenção, em que se confronta a indeter- da da terra e dos modos diferenciados como ela
minação da duração das obras com uma combinação funciona, em meios exclusivamente rurais e em
de custos e riscos crescentes. A duração deixa de regiões que contêm componentes urbanos sig-
ser associada à durabilidade dos equipamentos e nificativos.
de obras específicas, para ser um objetivo obriga- No âmbito de regiões naturais, como finalmente
tório, cujo custo terá de ser apreciado como imposi- são as bacias, os recursos de terra são claramente
ção da reprodução do sistema de produção. finitos e sua utilidade está regulada pela disponibili-
Essa mudança de enfoque, obviamente, substitui dade de água. É pertinente, portanto, trabalhar
a noção de que o aproveitamento das bacias hidro- com uma adaptação especial da teoria ricardiana
gráficas pode ser orientado a um único objetivo cen- da renda da terra, admitindo que a ruptura entre o
tral, pela noção de que seu aproveitamento, neces- horizonte de terras da bacia e o das terras que
sariamente, implica uma conjugação de objetivos, não são parte dela, permite considerar que as
desigualmente distribuídos em tempo e espaço, e, terras da bacia são um conjunto rigidamente
acima de tudo, inseridos em determinados modos determinado, onde a escassez se visualiza com
de interdependência. Nesse sentido, as bacias hi- equivalente clareza.
drográficas seriam algumas das manifestações mais Mas, ao reconhecer que a utilidade das terras
claras de processos de reprodução convergente depende da disponibilidade de água, desloca-se
de recursos, em padrões territorialmente delimi- a análise da questão da qualidade da terra para
tados, em contraste com padrões não conver- a do controle social do território, que está, princi-
gentes: dispersivos ou contraditórios. Assinala- palmente, representada pelo controle social,
se que a não convergência de padrões não pode, econômico e tecnológico da água. Tal como se
em princípio, ser tomada sempre como indicador de pôde ver, através dos exemplos de “projetos de
desorganização. Tal como se vê na Física contem- desenvolvimento rural integrado” em diversos lu-
porânea, essa dispersão pode, simplesmente, indi- gares na América Latina, especialmente no Nor-
car novos padrões de ordem, subjacentes no caos.5 deste do Brasil, o modelo político modernizador,
identificado com a industrialização da agricultura
5
O desenvolvimento de uma noção “produtiva” de caos torna-se um re-
quisito lógico de um pensamento prático cientificamente sustentado, que irrigada, enfrenta as rigidezes antepostas pela
tem que trabalhar com processos entrecruzados com diferentes dinamis- estruturação política dos latifúndios, com suas
mos. Algumas pistas fundamentais nesse sentido estão nos trabalhos de
Prigogine-Stengers (1997) e de Ruelle (1993). alianças com projetos empresariais de grande

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O CONTROLE SOCIAL DAS BACIAS HIDROGRÁFICAS NO BRASIL

porte, de características tecnologicamente mo- pelo clima. Em segundo lugar, as bacias tendem a
dernas.6 mudar pela ação de fatores exógenos ao quadro
No âmbito das cidades, a renda da terra deriva- natural, destacando-se o padrão de povoamento e
da de seu controle direto e do controle da água, é as formas de uso econômico. Observa-se que os
substituída pela renda derivada da valorização do modelos de vazão, desenvolvidos sobre pressu-
espaço, onde o mecanismo urbano de criação de postos de progressões de usos econômicos, de co-
valor depende, primordialmente, de que a terra seja tas superiores a cotas inferiores, descrevem os as-
passada, de um universo de usos simples e de su- pectos terminais dos movimentos de água de su-
perfície, a um universo de usos complexos, me- perfície, podendo funcionar como reguladores das
diante o mecanismo de conversão da dimensão formas de aproveitamento econômico no eixo mon-
plana da superfície pela dimensão volumétrica dos tante-jusante, bem como oferecer indicações sobre
espaços construídos e reconstruídos. O significado os padrões interdependentes de usos que podem
do controle da terra rural, entretanto, se repete, já ser estabelecidos nos diferentes patamares de alti-
que o alcance dos sistemas de infraestrutura urba- tude, segundo os blocos de tecnologia escolhidos,
na – como de água e drenagem e de transportes – mas que deixam por resolver um aspecto funda-
delimitam os âmbitos em que a valorização se reali- mental, que é a relação entre esses modos de re-
za. Daí a necessidade de explicar a continuidade produção de superfície e os sistemas de águas sub-
entre esses dois planos de valorização do espaço, terrâneas, em suas diversas interações.
já que qualquer política regional necessita, final- A tendência geral à mudança ambiental passa,
mente, encontrar respostas para aquelas transfe- portanto, por rupturas que correspondem às mudan-
rências de capital e de trabalho que dependem ças de patamar de uso de recursos, tais como os
diretamente da valorização da terra e dos espaços, níveis mínimos para determinadas escalas de apro-
como referências da articulação de cada região. veitamento de água. Destaca-se, ainda, que essa
Diante das duas restrições fundamentais, que são visão de conjunto do tema tem que incorporar os
a compreensão do significado do desgaste de re- elementos relativos ao subsolo, especialmente às
cursos e da irreversibilidade das decisões de políti- águas subterrâneas, vendo-se que os elencos de
ca, é fundamental considerar as bacias hidrográfi- usos de superfície implicam, sempre, influências
cas como sistemas abertos que tendem sempre a sobre o modo de reposição dos recursos de subso-
mudar sobre a proporcionalidade de seus recursos lo que, em última análise, funcionam como compo-
e no modo como eles se alteram ao longo do tem- nentes de estabilidade do sistema.
po, seja por seus movimentos endógenos ou pela
ação da sociedade. Distingue-se, portanto, o modo A ABORDAGEM HISTÓRICA NA
de reprodução natural das bacias, de seu modo de ANÁLISE HÍDRICA
reprodução dado pelas alterações progressivas de
seus usos, causadas pela infra-estrutura e pelo po- Entende-se que toda análise ambiental de bacias
voamento. Nesta última parte, destacam-se todas hidrográficas refere-se ao seu funcionamento em
aquelas ações que tendem à irreversibilidade. condições de intervenção econômica e que as aná-
As bacias tendem a mudar, primeiro, pelo dina- lises de reprodução natural constituem, realmente,
mismo dos movimentos de seu próprio sistema, referências hipotéticas que permitem, sob variadas
compreendendo ações permanentes, como do sis- condições, simular as margens de alteração do sis-
tema hídrico, e fatores de incerteza, representados tema, que podem deslocá-lo gradualmente ou o
submeter a mudanças bruscas.
6
O modelo de projetos de desenvolvimento rural integrado foi desenvolvi- Assim, trata-se de uma sensibilidade física de
do nas décadas de 1960 e 70, a partir de iniciativas dos bancos interna-
cionais de fomento, primeiro do BID na Venezuela e, depois, do BIRD em
cada sistema hidrográfico, cujo desempenho se
diversos países, e caracterizou-se por combinar projetos setoriais e regio- acompanha a partir de pressupostos sobre o
nais da esfera rural em conjuntos interdependentes, com objetivos regio-
nais. Basicamente, esses projetos apoiaram-se em referências de análise perfil de tecnologias das intervenções. Portanto,
de bacias hidrográficas (PIMENTA, 2002). um problema de planejamento em seu sentido mais

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FERNANDO PEDRÃO

amplo e não apenas de um problema ecológico ou Desse modo, o sistema hidrográfico é visto como
de planejamento físico. Por isso, a montagem de um sistema ambiental dinâmico, onde se identificam
um esquema de análise das inter-relações entre os quantidades e qualidades de recursos e onde, por
componentes do sistema físico de uma bacia passa, extensão, se reconhecem componentes e quanti-
necessariamente, por uma explicação acessória dos dades que se tornam críticos em relação à reprodu-
modos tecnológicos de organização da produção. ção dos demais. São, portanto, sistemas cuja repro-
A abordagem histórica do tratamento dos recur- dução geral envolve alterações qualitativas, onde os
sos hídricos deve contemplar, pelo valores e significado dos diversos
menos, os seguintes elementos: A substituição de formas recursos mudam ao longo do tem-
a. O modo de reprodução da com- tradicionais de produção po. Nesse sentido, os dados de
binação de recursos de superfí- por formas capitalistas de evapotranspiração e os de forma-
cie e de subsolo como dois sub- produção integradas no ção de solos apresentam-se como
sistemas e, em suas interações, mercado internacional, essenciais e devem ser analisados
com seus aspectos genéricos e que tem caracterizado frente aos dados climáticos de cada
com as peculiaridades de cada o Brasil desde a década bacia em particular.
caso. de 80, traduz-se no Com o crescimento da popula-
b. O modo de reprodução biológi- estabelecimento de certos ção e o desenvolvimento do siste-
co, em sua relação com o con- rumos tendenciais de uso ma produtivo, as bacias hidrográ-
junto solo-clima. de recursos, que incidem ficas ganham um crescente signi-
c. As trajetórias de tecnologia e os na referida composição de ficado estratégico, que assume
patamares em que elas se agru- capital e de trabalho do diferentes perfis nas escalas regi-
pam, no modo como elas apre- sistema produtivo onal, nacional e internacional, se-
sentam, também, especificidades gundo sua exploração se tornar
ligadas às formas de produção e às de consumo. parte de soluções localizadas de produção e con-
d. As condições de povoamento, estável e instável, sumo ou vir a ser parte de movimentos de produção
no que estão ligadas ao controle de terra e água para exportação ou, ainda, se incorporar na produ-
e à urbanização. ção integrada de energia. O mecanismo central des-
sa valorização estratégica está nas alterações da
Esses elementos indicam as tendências que composição de recursos, que significam variações
levam à estabilidade e à instabilidade, inerentes de capacidade instalada e de especializações de
ao sistema de cada bacia hidrográfica, segundo produção. São especificações de qualidade de pro-
seu aproveitamento se faça em forma contínua dutos e qualificações para realizar determinados le-
ou discreta, e segundo seja externamente regu- ques de produtos.
lado por variações no nível hídrico de sua re- A substituição de formas tradicionais de produ-
produção. Isto quer dizer que cada sistema desen- ção por formas capitalistas de produção integradas
volve padrões de reprodução que são, finalmente, a no mercado internacional, que tem caracterizado o
referência central para todos os diversos projetos Brasil desde a década de 80, traduz-se no estabe-
que podem ser localizados nele. Frente às técnicas lecimento de certos rumos tendenciais de uso de
convencionais de elaboração, avaliação e execu- recursos, que incidem na referida composição de
ção de projetos, que tomam os dados de rentabili- capital e de trabalho do sistema produtivo.
dade financeira e seu correspondente nos efeitos na Em outras palavras, o significado estratégico das
produção, de cada projeto, coloca-se aqui a ques- bacias depende do papel que elas vêm a desempe-
tão de que o verdadeiro significado econômico nhar na produção internacionalizada. Nesse con-
dos projetos depende de sua inserção no pa- texto coloca-se que a principal observação estraté-
drão de reprodução regional, que é um dado re- gica sobre as bacias hidrográficas vincula as mar-
almente macro-econômico, que não se infere de gens de reversibilidade do aproveitamento de seus
projetos tomados isoladamente. recursos ao tempo e à oportunidade desse aprovei-

BAHIA ANÁLISE & DADOS Salvador, v. 13, n. ESPECIAL, p. 453-466, 2003 461
O CONTROLE SOCIAL DAS BACIAS HIDROGRÁFICAS NO BRASIL

tamento, considerando as proporções entre recur- d. As peculiaridades tecnológicas dos projetos de


sos que se repõem lentamente e recursos que se desenvolvimento, atuais e previstos, em cada
repõem rapidamente. A visão econômica habitual bacia, no modo como eles se concentram em ati-
desse problema focaliza os retornos dos projetos vidades primárias ou de transformação industrial.
que constituem cada esquema geral de aproveita-
mento, supondo, tacitamente, que os resultados pre- Com essas referências, vê-se que, em relação
vistos dos diversos projetos perfazem opções mais ao tema das bacias hidrográficas, há uma questão
ou menos adequadas e, em todo caso, justificadas. específica, relativa a progressões de investimentos
No entanto, ao levar em conta que os sistemas de e ao modo como elas estabelecem condições de
investimentos que se materializam em cada bacia rentabilidade do capital, que não se confunde com
dependem de grandes investimentos pouco rever- as condições de rentabilidade de qualquer projeto
síveis, ou inteiramente não reversíveis, como as tomado por separado. Essas progressões de inves-
barragens, torna-se necessário estabelecer cenári- timento constituem cadeias de empreendimentos,
os desses investimentos em relação à perda de li- em que a rentabilidade de cada um deles depende
berdade de decisão que eles acarretam. da dos demais – como no caso das interdependên-
As alterações do ambiente das bacias são, por- cias entre os rendimentos agrícolas e entre eles e
tanto, os aspectos externos das tendências que se os agro-industriais – e em que o aumento das ativi-
formam na organização do sistema produtivo, onde dades intermediárias em cada bacia significa um
se determinam os usos de recursos e onde se for- incremento de renda que favorece qualquer projeto
mam interesses no controle da água como de uma tomado por separado.
mercadoria. A mercantilização monopolizada da água Nesse aspecto, ressaltam-se os efeitos do con-
torna-se uma parte essencial do controle da forma- junto dos instrumentos – que podem ser individual-
ção de capital dos países emergentes, vindo a ser mente decididos ou vistos como programas – frente
um dos principais elementos constitutivos do neo- aos efeitos das suas partes ou dos seus compo-
colonialismo tecnificado. Daí que a adaptação ou a nentes. Destacam-se os efeitos do conjunto dos
desadaptação do sistema de recursos hídricos ao instrumentos e o de seus efeitos progressivamente
movimento mais geral da formação de capital não mais convergentes e os que incorporam tendênci-
pode ser tratada como um fenômeno meramente fí- as dispersivas ou contraditórias. Tradicionalmente
sico, mas percebida como parte do movimento so- essas duas tendências têm estado representadas
cial de controle das opções técnicas. As indicações pela produção de energia elétrica e pelos usos para
dessa convergência ou divergência podem, em prin- exploração agrícola e para consumo urbano. Em
cípio, ser indicadas pelos seguintes elementos: casos como o do Rio São Francisco, o conflito ficou
a. Os elementos determinantes da reprodução dos claramente estabelecido pela precedência dada à
recursos, distinguindo aqueles elementos regu- produção de energia, bem como pela falta de um
lares do quadro físico e aquelas anomalias de planejamento que estabelecesse limites para uma
comportamento que correspondem a uma situa- outra atividade. No entanto, há aspectos próprios
ção dada da progressão de uso dos recursos. do planejamento de bacias de grande porte em ge-
b. As alterações nos padrões e trajetórias de re- ral, que se tornam evidentes nesse exemplo. Cor-
produção dos recursos, considerando as mar- respondem aos efeitos da disposição territorial
gens de previsibilidade e incerteza, ligadas aos do capital, que é uma magnitude agregada, e di-
elementos básicos e aos secundários do quadro ferente da coleção dos efeitos dos custos de lo-
físico e do quadro social do aproveitamento dos calizar cada novo projeto, e que são próprios
recursos. dos aproveitamentos de energia, que são tipica-
c. Os elementos mais significativos de anomalia mente concentrados. Contrastam e se combinam
próprios de cada bacia hidrográfica, e sua errati- com os efeitos da evaporação, que se estendem
cidade, portanto, os elementos constitutivos de sobre o conjunto da bacia, apesar da maior in-
peculiaridade de cada bacia. tensidade na evaporação nos espelhos líquidos.

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FERNANDO PEDRÃO

A bacia do rio São Francisco é, possivelmente, um princípio de análise, primeiro proposto por Jor-
o caso mais grave neste sentido, por seu papel re- ge Ahumada e, depois, trabalhado por Albert Hirs-
gional único. Verifica-se aí que os efeitos conjuntos chmann, para captar os efeitos em cadeia a mon-
dos desmatamentos de cabeceiras de rios com os tante e jusante de cada projeto, mas que, aqui, se
da grande irrigação – os pivôs centrais – incontrola- propõe como um mecanismo subordinado à aludi-
da, refletem-se em assoreamento em lugares críti- da oportunidade dos projetos e aos desvios que re-
cos do leito do rio, resultando em enchentes e no presentam, em relação a uma situação inicial de
assoreamento do lago do Sobradinho, que é a ba- sustentabilidade do sistema hidrográfico, que cor-
cia reguladora de todo o sistema de produção de responde a sua situação antes que as interven-
energia hidroelétrica do Nordeste. ções sejam suficientes para alterar seu padrão de
Obviamente a questão da evaporação é funda- reprodução.
mental; e tanto mais importante quando as bacias
estão em regiões onde sua concentração hídrica é ELEMENTOS DE POLÍTICA HÍDRICA
mais estratégica. A questão aqui é que o perfil de
intervenções afeta a evaporação, alterando o qua- Essa visão sintética, dos aspectos de encadea-
dro de evapo-transpiração e, portanto, modificando mento e justaposição das transformações de cada
as possibilidades de aproveitamento dos recursos bacia, não pode ser tomada como válida sem se re-
em seu local de origem ou transportados para luga- conhecer, explicitamente, o papel da formação histó-
res escolhidos de uso. Assim, os efeitos de locali- rica e espacial inerente à organização econômica
zação, com seus aspectos de concentração territo- de cada bacia. A formação histórica é uma expressão
rial, podem ser matéria de planejamento, mediante síntese de um grande número de processos inter-
a escolha do local, dos tamanhos e das técnicas dependentes, que precisam ser captados através de
usadas em projetos de irrigação, bem como dos algumas das poucas manifestações que revelem,
projetos ligados à produção de energia. indiretamente, as demais. Delas interessam, em pri-
Torna-se, então, necessário comparar os efeitos meiro lugar, as estruturas de produção, as de con-
indiretos com os diretos dos investimentos e levar sumo e as de articulação, entendendo-se que as
em conta o significado da oportunidade em que primeiras compreendem o conjunto das unidades
cada projeto é realizado. Diferentemente do que se de produção dos diversos setores, as segundas
preconiza na análise convencional de projetos, o cobrem os equipamentos voltados para consumo
significado de tempo nos projetos econômicos individual e coletivo e, as terceiras, representam, es-
tem que ser aferido por sua oportunidade e pela pecialmente, os sistemas de transportes e comuni-
demora em sua realização. O distanciamento de cações.
cada projeto em relação ao momento considerado Nessa categoria destacam-se o povoamento e
adequado para seu início é um custo a ser estima- a localização de atividades produtivas, com suas
do, assim como a demora na instalação e operacio- expressões na concentração de habitação e na consti-
nalização é outro custo a ser atribuído ao nível do tuição de espaços voltados para a produção. O pro-
programa de desenvolvimento de cada bacia hidro- cesso de povoamento está representado por for-
gráfica. mas de moradia e de produção que se traduzem,
Destaca-se, também, que todos os projetos de simultaneamente, em um padrão de criação e uso de
porte significativo se articulam, de algum modo, em espaço e um padrão de pontos de concentração.
efeitos em cadeia e em efeitos combinados, incor- Subsidiariamente, dão lugar a um sistema de fluxos
rendo, sempre, em modificações dos indicadores de transportes e de comunicações que reforça ou
do conjunto. A partir desse dado, pode-se elaborar qualifica a concentração espacial.
uma tabela móvel de custos e benefícios soci- Esta visão da organização do espaço regional
ais progressivos diretos e indiretos, na qual se seria, entretanto, um mero retrato mecanicista dos
inscrevem os custos e benefícios adicionais que se fluxos regionais se não levasse em conta os pro-
obtenha desse encadeamento. É uma retomada de cessos de formação de valor e as estruturas ideo-

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O CONTROLE SOCIAL DAS BACIAS HIDROGRÁFICAS NO BRASIL

lógicas que os acompanham. Seria ingênuo supor No Brasil, estes aspectos têm de ser fortemente
que a constituição de estruturas materiais de ocu- enfatizados, dado que as grandes bacias hidrográ-
pação e operacionalização não resultassem em sis- ficas que atraem preferentemente a atenção foram
temas de interesses, no aparecimento de grupos ocupadas por sistemas fundiários ligados a formas
locais e externos de pressão, cuja presença se pro- de exploração do solo, que não se adaptam à criação
jetasse além do horizonte físico da região. de progressões de investimentos realmente signifi-
A estruturação econômica regional compreende cativas e que revelam modos de reprodução, políti-
os elementos de organização econômica e ideoló- cos e culturais, que têm mostrado grande capaci-
gica local – como, por exemplo, solidariedade entre dade para sobreviver às demandas originadas da
agricultores equivalentes ou entre vizinhos de cida- produção industrializada. E, ainda, que as grandes
des pequenas – e os elementos de participação de bacias em processo de ocupação, na Amazônia e
capitais e de trabalhadores de fora da região. Coe- fora dela, são objeto de um agravamento desses
xistem empresas e representações de empresas problemas, com a coincidência da criação de lati-
sediadas alhures, que agem segundo motivações fúndios com a proliferação de garimpos e com a
alheias aos interesses dos grupos localmente cons- presença de grandes fazendas industriais.
tituídos. Paralelamente, com diversos graus de in-
tensidade e estacionalidade, participam trabalha- OBSERVAÇÕES DE POLÍTICA
dores não residentes na área. Em síntese, em cada
região hidrográfica há um componente de esta- Há um problema fundamental de política a en-
bilidade e outro de erraticidade na constituição frentar no tratamento de cada bacia hidrográfica e
dos agentes da produção e do consumo, que no estabelecimento de diretrizes mínimas para as
tem ser levado em conta nas propostas de inter- bacias em geral, relativo ao manejo dos diversos
venção no meio físico. projetos econômicos, no que esses projetos repre-
Pesam, aqui, os elementos de capital fixo e de sentam interesses organizados e no que significam
qualificação do trabalhador, da formação cultural a subordinação dos usos dos recursos aos da con-
de cada bacia, com seus componentes materiais centração do capital. Contudo, os projetos de con-
e ideológicos. Obviamente não se pode separar trole de recursos geralmente coincidem com a es-
as tecnologias da formação cultural que sustenta truturação física de cada bacia, enquanto os projetos
sua aplicação, nem restringir o significado dos des- de exploração de recursos geralmente ultrapassam
dobramentos do uso de tecnologia ao seu impacto seus limites. A pressão por terra e água concentra-
imediato, no âmbito de projetos. Os antecedentes se nas partes mais baixas, portanto, com uma ten-
da formação social (constituindo o campo pré-es- dência à desigualdade nos usos.
trutural) e os conseqüentes (constituindo os mo- No Brasil, há um fator dominante no tratamento
dos de aproveitamento das experiências) situam das bacias hidrográficas, que é o esgotamento das
os termos econômicos da questão. As experiênci- oportunidades de produção de energia mais próxi-
as que se acumularam na bacia do Rio São Fran- mas das grandes áreas industriais. A produção de
cisco, ao longo da construção do sistema de bar- energia tende a tornar-se mais cara e socialmente
ragens, são reveladoras da complexidade dos mais onerosa, tendo, como conseqüência, que as
problemas culturais e de qualificação que se en- atenções se voltem para aproveitamentos mais dis-
volveram durante os períodos de construção e de tantes, aceitando os custos sociais indiretos des-
quando elas passaram a ser operadas como parte sas obras como inevitáveis.7 Paralelamente, há um
de um sistema regional. A relocalização de comu-
nidades significa, de fato, outro planejamento ru- 7
Alusão ao fato de que se tende a fazer barragens mais baixas, inundan-
do mais terras, eliminando vida selvagem e desorganizando a sociedade
ral, em que surgem fatores agregadores e fatores rural local. O reconhecimento de que há custos sociais irreversíveis na
de conflito, tais como a produção de drogas, junto construção de barragens levou a se considerar um horizonte de impacto
dos projetos muito maior que se costumava reconhecer, bem como a se
com os problemas sociais da concentração de de- admitir que o desencadeamento das intervenções na construção das
semprego. barragens pode levar ao aparecimento de outros custos não previstos.

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FERNANDO PEDRÃO

problema de racionalidade dos usos de água e solo parte de sistemas nacionais de produção. Assim se
para fins agrícolas, onde a pressão sobre as me- incorporam sistemas de interesses que contribuem
lhores terras se acentua, junto com o aumento dos para tornar irreversíveis as tendências de mudança
custos sociais da produção de energia. Não há uma dos sistemas ambientais hidrográficos, com um
coordenação de políticas na escala dos recursos fí- tipo de irreversibilidade socialmente determinada.
sicos das bacias, nem uma coordenação entre as Essa tendência sintetiza a relação entre a repro-
metas de produção de energia e as de produção dução do meio físico e a do meio social, constituin-
agrícola. do a base sobre a qual se pode estabelecer uma
As políticas relativas às bacias hidrográficas de- hierarquização, em que se comparem riscos am-
vem incorporar os conceitos de escala de usos e de bientais circunstanciais e riscos ambientais que
horizontes de tempo e de duração das intervenções. se tornam cumulativos e que mostram sinais de
As escalas de usos compreendem escalas de usos aceleração. A noção de risco aparece, então, como
atuais e restrições de usos futuros, levando em conta uma combinação dos elementos técnicos dos siste-
os diferenciais de tempo de reprodução – ou recom- mas locais de produção, com os riscos sociais de-
posição – dos diversos subsistemas de recursos. Os correntes da rigidez do sistema ocupacional e das
horizontes de tempo devem ser classificados por tipo correlativas dificuldades para sustentar a qualifica-
de projeto, de modo a isolar aqueles usos que apare- ção dos trabalhadores.
cem como completamente irreversíveis e aqueles ou- A perda de reversibilidade de decisões significa
tros que são completamente transitórios. um risco ambiental acumulativo, que se transfere,
Em sua aplicação, os dois conceitos são interde- progressivamente, para cada um dos empreendi-
pendentes e apontam à identificação de umbrais e à mentos que, portanto, recai nos empreendimentos
ligação de umbrais específicos com a reversibilidade novos. A irrigação enfrenta riscos crescentes de sa-
do manejo de cada bacia em seu conjunto. Mas é linização e as lavouras precisam, cada vez mais,
interessante observar que essas referências, de um- de defensivos, indicando a contradição de preten-
brais e de reversibilidade, estão ligadas às grandes der-se, por exemplo, trabalhar com um mesmo elenco
tendências da utilização das bacias hidrográficas. É de culturas ou de estabilizar um perfil de agricultura
um aspecto muito especial, da tendência geral da sobre o objetivo básico de especialização. A produ-
produção capitalista, de concentrar capital fixo e de- ção de energia enfrenta problemas crescentes de
limitar as quantidades, as especialidades e os mo- assoreamento, infiltrações, degradação de obras de
dos do trabalho que o movimenta. Os grandes in- barragem e de canais, com a necessidade de re-
vestimentos em infra-estrutura tornam-se tecnologi- novação parcial periódica. Em outras palavras, os
camente monótonos. Não somente porque pouco se grandes sistemas altamente estabilizados ten-
renovam em seus modos de funcionamento, como dem a incorrer em custos crescentes, cuja com-
porque criam ambientes tecnológicos monótonos, posição varia em nível macro-econômico e de
onde há pouco espaço para renovação. projetos específicos.
Ao longo da história, as intervenções em bacias Portanto, são necessários movimentos de reno-
hidrográficas tenderam, sempre, a modificar o modo vação de tecnologia que atinjam esses sistemas,
de recomposição dos sistemas físicos, introduzindo flexibilizando-os ao nível de atividades específicas,
sistemas social e institucionalmente rígidos, ligados de tipo de aproveitamento, que finalmente atinjam
ao manejo de sistemas de infra-estrutura também cada sistema em seu conjunto. A observação his-
rígidos. São as sociedades regionais da irrigação, tórica mostra, dos canais do Egito antigo aos da
que se tornam permanentes à medida que organi- Lombardia e do Languedoc medieval, aos da anti-
zam seus sistemas de comercialização e desenvol- ga Palestina, aos da Europa moderna, que deman-
vem sistemas de transportes e armazenagem de dam uma manifestação do interesse público, que
seus produtos. São, também, as sociedades urba- não pode ser confundida com a de uma burocrati-
nas que se fazem presentes nas bacias hidrográfi- zação estatal. Mas, certamente, não pode ser al-
cas, na forma de produção de energia, tornando-as cançada pela simples proliferação de usos incon-

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O CONTROLE SOCIAL DAS BACIAS HIDROGRÁFICAS NO BRASIL

trolados de água e solo, por parte de interesses planejamento dos sistemas hídricos, é preciso res-
individuais, de pessoas ou empresas, como vem gatar a noção prática de trabalhar com o planeja-
sendo a norma no Brasil. Aqui, levar ao extremo o mento socialmente necessário e desenvolver estra-
atendimento de pretensões individuais de uso de tégias para o longo prazo.
água e solo significa estabelecer poder de mono-
pólio sobre uma oferta restrita de recursos e, princi-
palmente, admitir uma contradição entre a raciona- REFERÊNCIAS
lização dos interesses individuais e a dos coletivos.
Tecnicamente não há como admitir a conciliação da ALTVATER, Elmar. Os desafios da globalização e da crise ecoló-
lógica dos aproveitamentos individualmente decidi- gica para o discurso da democracia e dos direitos humanos, em
A crise dos paradigmas em ciências sociais e os desafios para o
dos com a dos aproveitamentos estrategicamente
século XXI. Rio de Janeiro: Contraponto, 1999.
decididos, toda vez que se reconhecem suas impli-
cações sobre a recomposição dos recursos e a rigi- ANDRADE, Manoel Correia de. O processo de ocupação do es-
paço regional do Nordeste. Recife: SUDENE, 1979.
dez dos seus usos.
A inferência inevitável desta linha de análise é BOHM, David. A totalidade e a ordem implicada. São Paulo:
uma proposta de planejamento regional integrado, Cultrix, 1999.

com uma abordagem específica à escala de bacias BRASIL. Ministério do Meio Ambiente. Secretaria de Recursos
hidrográficas, por parte de uma autoridade gover- Hídricos. Política nacional de recursos hídricos, legislação. Bra-
sília: 2001.
namental com poder real de decisão, com repre-
sentações locais, entretanto, trabalhando com pre- CARVALHO, Otamar de. A economia política do Nordeste. Rio
cedência de objetivos sociais a longo prazo sobre de Janeiro: Campus, 1987.

quaisquer aproveitamentos individuais a curto e CARRERA-FERNANDEZ, José; GARRIDO, Raimundo José. Eco-
médio prazo. Os interesses privados têm que ser nomia dos recursos hídricos. Salvador: EDUFBA, 2003.
regulados, sob pena de que se aprofundem os con-
LEITE, Antonio Dias. A energia no Brasil. Rio de Janeiro: Com-
flitos de interesses e se destruam recursos insubs- panhia das Letras, 1998.
tituíveis. Paralelamente, essa proposta leva a tra-
LIMA, Jandir Ferrera de. A geoeconomia da macroregião platen-
balhar com o vetor de tecnologia como o indicador se. Salvador: CME/UFBA, 1987.
mais próximo da caracterização dos riscos ambien-
tais. A valorização do interesse social sobre o priva- PEDRÃO, Fernando. Elementos de uma economia política da ener-
gia. Revista de Desenvolvimento Econômico. Salvador, nov. 1998.
do, bem como do público sobre o individual e a do
planejamento sobre a ação de empresas individu- ______. O planejamento socialmente necessário. Bahia Análise
& Dados, Salvador, set. 2002.
ais são imperativos da preservação dos sistemas
físicos e da superação das tendências à rigidez dos PETRELLA, Ricardo. Uma necessidade vital se torna mercado-
sistemas sociais. ria. Le Monde Diplomatique, Cadernos Diplô, Paris, 2003.

Assim, vemos que os imperativos regionais, simul- PIMENTA, Ely de Oliveira Rosa. A intervenção do Estado no desen-
taneamente, revelam interdependências das ações volvimento rural, estudo do projeto integrado de desenvolvimento
públicas e privadas de interesse social, indicativas da Bacia do Rio Paraguaçu. Salvador: Edição do autor, 2001.

da necessidade de planejamento. O planejamento PRIGOGINE, Ilya; STENGERS, Isabelle. A nova aliança. Brasí-
é o processo de explicitação de interesses, com os lia: UNB, 1997.
conflitos e ajustes neles envolvidos, que permite RUELLE, David. Acaso e caos. São Paulo: UNESP, 1993.
distinguir quais aspectos são socialmente mais im-
SAMPAIO, Teodoro. O Rio São Francisco e a Chapada Diaman-
portantes e quais outros podem ser deixados para
tina. Rio de Janeiro: Companhia das Letras, 2002.
ajustes circunstanciais. Planejar implica trabalhar
com uma compreensão objetiva da estruturação do SANTOS, Boaventura de Souza. Introdução a uma ciência pós-
moderna. São Paulo: Graal, 1989.
mercado e das condições concretas de concentra-
ção de capital com que se convive (PEDRÃO, 2002). TOLMASQUIN, Mauricio; ROSA, Luiz Pinguelli. A reforma do setor
Frente à perspectiva de problemas crescentes de elétrico no Brasil e no mundo. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1998.

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