Você está na página 1de 153

1

O ruído findara já. O fumo dissipava-se como ténues farrapos cinzentos de nevoeiro

sobre a terra torturada, as vedações despedaçadas e os pessegueiros cortados em palitos pelo fogo dos canhões. Por um momento o silêncio, se não mesmo a paz, caiu sobre aqueles poucos quilómetros quadrados de terreno onde, momentos antes, os homens gritavam e se despedaçavam uns aos outros na fúria do ódio antigo, e combatiam numa velha disputa, caindo depois para o lado, exaustos.

Dava a impressão de que, por tempo incalculável, passara uma tempestade ameaçadora rolando de horizonte para horizonte por sobre a terra encharcada que parecia esguichar para o céu o relinchar dos cavalos e as vozes roucas dos homens; o zumbido do metal e o estrondo quando ele acabava; o relâmpago do fogo que queimava e o brilho do aço; a magnificência das cores ondulando ao vento da batalha.

Depois tudo acabou e ficou o silêncio.

Mas o silêncio era uma nota estranha que não possuía direitos sobre este campo ou dia, e foi quebrado pelo queixume e pela dor, pela súplica por água, e pela imploração da morte a súplica, o chamamento e o queixume que se prologariam por horas sob o sol de Verão. Mais tarde, as formas confusas tornar-se-iam silenciosas e imóveis e haveria um odor capaz de agoniar todos quantos passassem, e as sepulturas seriam pouco profundas.

Havia o trigo que nunca seria colhido, árvores que não voltariam a florir quando a Primavera por ali passasse outra vez e, na lomba que se estendia até à crista, as palavras que ficaram por dizer, os feitos que ficaram por fazer e as trouxas empapadas que gritavam bem alto o vazio e a devastação da morte.

Havia nomes orgulhosos que eram agora mais orgulhosos ainda, mas já nada mais senão nomes a ecoar através dos tempos a Brigada de Ferro, o 5º de New Hampshire, o 1º de Massachusetts, o 16º do Maine.

E havia Enoch Wallace.

Ele ainda segurava o arcabuz despedaçado e havia bolhas nas suas mãos. Tinha a cara enegrecida pela pólvora. Os sapatos estavam empastados de pó e sangue.

Ele ainda estava vivo.

2

O Dr. Erwin Hardwicke rolava o lápis para um lado e para o outro entre as palmas das mãos, o que se tornava irritante. Olhava pra o homem sentado do outro lado da secretária com certa ponderação.

- O que eu não consigo entender disse Hardwicke é por que razão viria você ter conosco.

- Bem, vocês pertencem à Academia Nacional e eu pensei que

- E vocês ao Serviço Secreto.

- Repare, doutor, se prefere, chamemos a isto uma visita não oficial. Faça de conta que eu sou um cidadão intrigado e que entrei aqui para saber se me podia dar uma ajuda.

- Não quero dizer com isto que não gostasse de o ajudar, mas não sei como fazê-lo. Tudo isto é tão pouco claro e tão hipotético.

- Com a breca, homem disse Claude Lewis você não pode negar a evidência, por pouco que eu saiba.

- Então está bem disse Hardwicke comecemos do princípio outra vez, ponto por ponto. Você diz que tem um tal

- O seu nome é Enoch Wallace disse Lewis Cronològicamente, tem cento e vinte e

quatro anos de idade. Nasceu numa quinta a poucos quilómetros da cidade de Millville em Wisconsin, a 22 de abril de 1840, e é filho único de Jedediah e de Amanda Wallace. Alistou-se entre os primeiros voluntários recrutados por Abe Lincoln. Pertencia à Brigada de Ferro, que foi possìvelmente aniquilada em Gettysburg em 1863. Mas Wallace conseguiu de qualquer maneira ser transferido para outra unidade de combate e lutou em Virgínia sob as ordens de Grant. Tomou parte na última batalha em Appomattox

- Você foi indagar a respeito dele.

- Verifiquei os seus registos. O registo de incorporação no State Capitol em Madison. O resto, incluindo a passagem à disponibilidade, aqui em Washington.

- Você diz que ele aparenta trinta anos.

- Nem mais um dia. Talvez até menos do que isso.

- Mas não falou com ele.

Lewis sacudiu a cabeça.

- Pode não ser o mesmo homem. Se você tivesse impressões digitais

- No tempo da Guerra Civil disse Lewis não pensavam em impressões digitais.

- Os últimos dos veteranos da Guerra Civil morreram há vários anos afirmou

Hardwicke. Existe um homem do tambor, confederado, penso eu. Deve haver algum engano.

Lewis abanou a cabeça. Também pensei o mesmo, quando o caso me foi entregue.

- Como foi que o caso lhe pôde ser entregue? Como é que o Serviço Secreto pode ser envolvido num assunto como este?

- Tenho que admitir que não é muito vulgar concordou Lewis. Mas as coisas estavam tão enredadas

- A imortalidade, que você dizer.

- Isso perturbou-nos o espírito, talvez. A possibilidade de ser assim. Mas apenas ocasionalmente. Havia outras considerações. Deu nas vistas por um conjunto de circunstâncias estranhas.

- Mas o serviço secreto

Lewis sorriu. Você está a pensar, porque não um organismo científico? Lògicamente, acho que deveria ter sido. Mas um dos nossos homens tropeçou no caso. Estava em férias. Tinha parentes em Wisconsin. Não naquela área precisamente, mas a cerca de cinquenta quilómetros de distância. Ouviu uns rumores apenas uns rumores muito vagos, quase uma alusão casual. Deste modo, resolveu meter o nariz no assunto. Não descobriu grande coisa mas o suficiente para pensar que algo ser passava.

- É isso que me intriga disse Hardwicke. Como poderia um homem viver durante

cento e vinte e quatro anos numa localidade sem se tornar uma celebridade de que o mundo ouviria falar? Já imaginou o que os jornais fariam com uma coisa destas?

- Eu estremeço quando penso nisso afirmou Lewis.

- Você ainda não me contou como as coisas se passaram.

- É um pouco difícil de explicar disse Lewis. Você teria que conhecer a região e o

povo que nela vive. A parte sudoeste de Wisconsin é limitada por dois rios, o Mississipe a oeste e o Wisconsin mais ao norte. Para cá dos rios a terra é plana, estendendo-se por uma planície ampla e rica, com herdades e vilas prósperas. Mas junto à margem a terrra é rude e escarpada; altas colinas e encostas e fundas ravinas e penhascos, e há certas zonas formando baías ou bolsas isoladas. São servidas por estradas más, e as herdades pequenas e toscas são habitadas por pessoas que estão mais próximo, talvez, do tempo dos pioneiros de há cem anos do que estão do século XX. Possuem automóveis, claro, e telefonias e, em breve, talvez, televisão. Mas são espiritualmente conservadores e tribais nem toda a gente, com certeza, nem mesmo muitos deles, mas apenas nestes locais pequenos e isolados.

Em determinada altura havia muitas herdades nas tais bolsas isoladas, mas hoje é difícil um homem fazer vida numa quinta desse género. Lentamente, as pessoas têm abandonado essas áreas por razões económicas. Vendem as propriedades pelo que lhes queiram dar e vão para outro lado, principalmente para as cidades, onde possam arranjar um modo de vida.

Hardwicke concordou com a cabeça, e disse: - E os que ficaram são, com toda a certeza, os mais conservadores e tribais.

- Precisamente.

A maior parte da terra pertence agora a proprietários ausentes que

não fazem quaisquer tenções de a cultivar. Podem criar nela algumas cabeças de gado, e é tudo. Não é mau de todo para quem queira reduzir os impostos, se precisar. E no tempo

do Banco de Propriedades muitos desses terrenos foram colocados nele.

- Quer você dizer-me que esses colonos da floresta é assim que lhes chama? estão envolvidos numa conspiração de silêncio.

- Talvez não seja nada tão formal ou elaborado como isso disse Lewis. é apenas o

seu modo de fazerem as coisas, um legado da filosofia antiga do pioneiro esforçado. Cuidavam dos seus próprios assuntos. Não queriam que ninguém se intrometesse com eles nem se intrometiam com ninguém. Se um homem quisesse viver até aos cem anos, poderia ser uma coisa de pasmar, mas só a ele dizia respeito. E se quisesse viver só e que o deixassem em paz entretanto, também só a ele dizia respeito. Podiam comentar o facto entre eles, mas não falariam nisso a ninguém. Ficariam melindrados se algum forasteiro tentasse trazer o assunto à conversa.

“Após algum tempo, suponho eu, acabaram por aceitar o facto de Wallace se manter jovem enquanto que eles envelheciam. O espanto inicial desapareceu e, provàvelmente, não falaram muito mais sobre o caso, nem mesmo entre eles. As novas gerações aceitaram-no porque os mais velhos não viam nisso nada de extraordinário e de qualquer modo ninguém via muito Wallace porque ele se mantinha retirado.

“E nas redondezas o facto, depois de discutido, tornou-se uma espécie de lenda outra história disparatada que não valia a pena esmiuçar. Talvez apenas uma anedota entre aquela gente no caminho de Dark Hollow. Uma daquelas coisas ao género de Rip Van Winkle que provàvelmente não conteria uma palavra de verdade. Um homem poderia parecer ridículo se se imiscuisse no assunto.”

- Mas o vosso homem meteu-se nele.

- Sim. Mas não me pergunte porquê.

- Contudo não foi indigitado para dar seguimento ao caso.

- Precisaram dele noutro lado. E, além disso, era conhecido na região.

- E você?

- Deu-me dois anos de trabalho.

- Mas agora sabe a história.

- Não totalmente. Há agora mais dúvidas do que havia a princípio.

- Você viu o homem.

- Muitas vezes respondeu Lewis. Mas nunca falei com ele. Não penso que ele alguma

vez me tenha visto. Dá um passeio diário antes de ir buscar o correio. Bem vê, ele nunca sai de onde está. O carteiro traz-lhe as pequenas coisas de que necessita. Um saco de

farinha, meio quilo de presunto, uma dúzia de ovos, charutos, e às vezes umas bebidas.

- Mas isso deve ser contra os regulamentos postais.

- Não há dúvida que é. Mas os carteiros há anos que o fazem. Não prejudicam nada até

que alguém reclame. E ninguém o fará. Os carteiros são provàvelmente os únicos amigos

que já teve.

- Eu parto do princípio que esse tal Wallace não se dedica muito à agricultura.

- Absolutamente nada. Tem uma pequena horta, e não faz mais nada. O sítio voltou a tornar-se quase um ermo.

- Mas ele tem de viver. Deve vir-lhe dinheiro de qualquer lado.

- E vem respondeu Lewis. De cinco em cinco, ou de dez em dez anos, envia uma mão- cheia de pedras preciosas para uma organização em Nova Iorque.

- Legal?

- Se não é negócio limpo, quer você dizer; creio que é. Se alguém quisesse levantar

problemas, suponho que há ilegalidades. Não de começo, quando ele principiou a enviá-

las, há uns tempos atrás. Mas as leis mudam e suspeito que tanto ele como o comprador desprezam algumas delas.

- E você não se importa?

- Fiz umas indagações na firma respondeu Lewis e eles estavam bastante nervosos.

Por uma coisa, estavam a roubar a ignorância de Wallace. Disse-lhes que continuassem a comprar e, ainda, que se alguém viesse procurar saber alguma coisa mo indicassem

imediatamente. Disse-lhes também que se mantivessem calados e que não alterasem nada.

- Você não quer que ninguém o espante disse Hardwicke.

- Tem toda a razão, não quero. Quero que o carteiro continue a atuar como distribuidor e a firma de Nova Iorque a comprar as pedras. Quero que tudo continue tal qual como está. E antes que me pergunte donde vêm as pedras, digo-lhe desde já que não sei.

- Talvez ele tenha uma mina.

- Teria que ser uma grande mina. Diamantes, rubis e esmeraldas, tudo na mesma mina.

- Tenho a impressão de que, mesmo ao preço por que lhas pagam, ele tira um rendimento muito razoável.

Lewis concordou com a cabeça. Aparentemente, só manda um carregamento quando está sem dinheiro. Não terá necessidade de muito. Vive bastante modestamente, a avaliar pelos alimentos que compra. Mas assina muitos jornais diários e revistas e dúzias de publicações científicas. Compra muitos livros.

- Livros técnicos?

- Alguns, claro, mas a maior parte versando sobre os novos progressos. Física, Química e Biologia todo esse género de assuntos.

- Mas eu não

- Evidentemente que não. Nem eu. Ele não é nenhum cientista. Ou, pelo menos, não

tem oficialmente nenhuma instrução científica. Nos velhos tempos em que frequentou a escola não se sabia muito a esse respeito pelo menos no sentido da educação científica actual. E o que quer que seja que ele tenha aprendido então não seria de grande utilidade agora, em qualquer circunstância. Frequentou a escola uma dessas escolas da província com uma classe única e passou um Inverno no que chamavam uma academia que

funcionou por um ano ou dois na aldeia de Millville. Se não sabe, deixe-me dizer-lhe que isso era consideràvelmente melhor que o nível médio por alturas de 1850. Ele era, segundo parece, um rapaz de certo modo brilhante.

Hardwicke sacudiu a cabeça. Parece inacreditável. Você verificou tudo isso?

- Na medida do possível. Tive que o fazer com todo o cuidado. Não queria que ninguém

desse por isso. E esqueci-me de lhe dizer ele escreve muito. Compra destes grandes livros de registo encadernados, às dúzias de cada vez. Compra tinta de escrever ao litro.

Hardwicke levantou-se da secretária e começou a passear de um lado para o outro da sala.

- Lewis disse ele se você não me tivesse mostrado as suas credenciais e eu as não tivesse examinado, tomaria tudo isto por uma brincadeira de mau gosto.

Voltou atrás e sentou-se de novo. Pegou no lápis e começou a rolá-lo entre as palmas das mãos uma vez mais.

- Está metido nisto há dois anos disse ele. Não tem ideia nenhuma?

- Nem uma respondeu Lewis. Estou absolutamente desnorteado. Por isso é que estou aqui.

- Conte-me mais da vida dele. Depois da guerra, mais concretamente.

- Morreu-lhe a mãe enquanto ele andava longe. O pai e os vizinhos enterraram-na

mesmo na herdade. Era assim que muito gente então fazia. O jovem Wallace conseguiu uma licença, mas não chegou a tempo de assistir ao funeral. Ainda não era costume embalsamar os corpos nesse tempo e as viagens eram muito demoradas. Voltou depois para a guerra. Tanto quanto consegui saber, foi esta a sua única licença que teve. O pai passou a viver só, trabalhando na herdade, de cujos serviços dava muito boa conta. A avaliar pelo que consegui descobrir, era um bom fazendeiro, mesmo excepcionalmente bom para a sua época. Assinava várias publicações da especialidade e era dotado de ideias progressistas. Dedicou a sua atenção a problemas como a alternância das colheitas e a prevenção da erosão. A herdade estava longe de se poder comparar às modernas, mas dava-lhe para viver e ainda lhe sobejava um pouco que ele fazia por pôr de parte.

“Depois Enoch regressou da guerra e durante cerca de um ano trataram da terra juntos. O velhote comprou uma segadora uma dessas máquinetas puxadas por cavalos com um

barra em forma de foice para cortar feno ou cereais. Era o que de mais progressivo se podia fazer. Batia a foice aos pontos.

Então uma tarde o velhote saiu para ceifar um campo de feno. Os cavalos espantaram- se. Alguma coisa os deveria ter assustado. O pai de Enoch foi projetado para fora do assento e para a frente, diante da barra em forma de foice. Não se pode dizer que tenha sido uma morte bonita.

Hardwicke fez uma careta de repugnância. Horrorosa disse ele.

“ Enoch saiu a recolher os restos do pai e levou o corpo para casa. Depois pegou numa arma e foi à procura dos cavalos. Encontrou-os ao fundo do campo de pastagem e matou- os a ambos, deixando-os lá ficar. Foi precisamente assim. Durante anos os seus esqueletos ficaram no campo de pastagem, onde ele os matara, ainda atrelados à segadora até que os arreios apodreceram.

“Em seguida voltou a casa e trouxe o pai para fora. Lavou-o, vestiu-lhe o fato preto melhor e deitou-o numa prancha, indo depois ao celeiro fazer um caixão. Em seguida, cavou uma campa ao lado da mãe. Acabou-a á luz de candeeiro, indo depois para casa e ficando acordado toda a noite, sentado ao pé do pai. Quando veio a manhã foi contar o sucedido ao vizinho mais próximo que por sua vez comunicou aos outros, indo alguém buscar um padre. Nessa tarde fizeram o funeral, voltando Enoch para casa. Aí tem vivido sempre desde essa altura, mas nunca cultivou a terra. Isto é, excepto a horta.”

- Você disse-me que essa gente não conversava com estranhos. Mas parece que conseguiu saber muita coisa.

- Foram precisos dois anos para isso. Tive de me infiltrar entre eles. Comprei um carro

que desse nas vistas, meti-me a caminho de Millville e fiz constar que era um pesquisador de arália.

- Um quê?

- Um explorador de arália. Arália é uma planta.

- Sim, bem sei. Mas há anos que não existe mercado para ela.

- Há um pequeno mercado e ocasional. Os exportadores levam alguma. Mas eu procurei

também outras plantas medicinais e fingi um extenso conhecimento sobre elas e sua utilidade. “Fingi” não é bem o termo; tive de estudar a fundo muitas delas.

- O tipo de alma simples acrescentou Hardwicke que aquela gente podia

compreender. Uma espécie de cultura retrovertida. E inofensivo, também. Talvez não

muito bom da cabeça.

Lewis concordou. As coisas correram melhor do que eu pensava. Limitei-me a vaguear por ali e as pessoas vinham falar-me. Cheguei mesmo a encontrar alguma arália. Havia uma família a salientar a família Fisher. Moram no vale do rio abaixo da herdade de Wallace, que fica na crista por cima das escarpas. Viviam lá há quase tanto tempo como a família Wallace, mas de um género totalmente diferente. Os Fishers são uma tribo que se dedica à caça do cuati, à pesca e ao fabrico de bebidas alcoólicas. Viram em mim uma alma

gémea. Eu estava igualmente sem recursos e sem fundos como eles. Ajudava-os nas bebidas alcoólicas, tanto a fazer como a beber, e de vez em quando, na revenda. Ia à pesca e à caça com eles, e sentavamo-nos a conversar, enquanto me indicavam um sítio ou dois onde podia encontrar alguma arália – “sang”, como eles lhe chamavam. Creio que um cientista sociável podia encontrar nos Fishers uma mina de ouro. Têm lá uma rapariga surda-muda, mas uma beleza, com mais encantos que os botões de

- Conheço o género disse Hardwicke. Nasci e criei-me nas montanhas do sul.

- Foram eles que me falaram dos dois homens e da segadora. E assim, subi um dia

àquele canto do campo de pastagens de Wallace e fiz umas escavações. Encontrei um

crânio de cavalo e alguns ossos mais.

- Mas não havia processo de saber se era um dos cavalos de Wallace?

- Talvez não responde Lewis. Mas encontrei também parte da segadora. Não restava muito dela, mas o suficiente para a identificar.

- Voltemos à história sugeriu Hardwicke. Depois da morte do pai, Enoch ficou na herdade. Nunca de lá saiu?

- Lewis sacudiu a cabeça. Vive na mesma casa. Nada foi mudado. E, aparentemente, a casa não envelheceu mais do que o homem.

- Esteve na casa?

- Não lá dentro. À porta. Vou contar-lhe como foi.

3

Tinha uma hora. Sabia que tinha uma hora, porque estudara o horário de Enoch Wallace durante os últimos dez dias. E desde a altura que saía de casa até regressar com o correio, nunca levava menos de uma hora. Às vezes mais, quando acontecia o carteiro atrasar-se ou ficarem a conversar. Mas não podia contar com mais de uma hora, pensou Lewis.

Wallace desaparecera no fundo da encosta, em direção dos rochedos que encimavam a face da escarpa, com o rio Wisconsin a correr lá em baixo. Ele iria escalar os rochedos e parar aí, de pé, com a espingarda apoiada debaixo do braço, para contemplar o descampado do vale do rio. Depois desceria dos rochedos outra vez e abriria caminho por entre o arvoredo até ao sítio onde, na estação própria, cresciam os chorões cor-de-rosa, e daí novamente morro acima para a Primavera que jorrava da encosta mesmo por baixo do velho planalto que permanecera abandonado por mais de um século, e em seguida ao longo da crista até atingir a estrada quase coberta de ervas e por ela abaixo até a caixa do correio.

Nos dez dias em que Lewis o observara, nunca tinha mudade de trajecto. Parecia até que nunca tinha mudade pelos anos fora, pensou Lewis. Wallace não tinha pressa. Caminhava como se o tempo lhe pertencesse. E parava ao longo do caminho para renovar relações com velhos amigos seus uma árvore, um esquilo ou uma flor. Era um homem rude e ficara-lhe muito do soldado velhos modos e hábitos deixados pelos amargos anos de campanha sob as ordens de muitos chefes. Caminhava de cabeça erguida e ombros recuados e movia-se com as passadas largas de quem conhecera marchas forçadas.

Lewis saiu do denso arvoredo que fora dantes um pomar e no qual algumas árvores, torcidas, nodosas e acinzentadas pela idade, ainda suportavam o seu lastimoso e amargo carregamento de pomos.

Parou junto da vedação do pomar e ficou por um momento a mirar a casa no cimo da colina, e pareceu-lhe por um instante que a casa estava envolvida numa luz especial, como se um invulgar raio de sol mais etéreo tivesse atravessado o espaço para incidir sobre aquela casa, destacando-a de todas as outras casas do mundo. Banhada por aquela luz, a casa tinha uma aparência sobrenatural, como se, na verdade, pudesse ter sido colocada à parte como uma coisa especial. E depois a luz, se alguma vez lá estivera, desaparecera e a casa partilhava da luz solar normal dos campos e dos bosques.

Lewis sacudiu a cabeça e disse para consigo mesmo que aquilo tinha sido um tontice ou, talvez, uma ilusão de óptica. Até porque não havia nada que se parecesse com um luz solar especial e a casa não era mais de que uma casa, embora maravilhosamente conservada.

Era o género de casa que já se não via muito frequentemente nos nossos dias. Era rectangular; comprida, estreita e alta, com adornos baratos antiquados e de mau gosto ao longo das goteiras do telhado e das empenas. Possuía uma certa secura que não tinha nada a ver coma idade; era seca desde o dia em que fora construída seca, simples e forte, como as pessoas que albergava. Mas por muito seca que fosse, erguia-se empertigada e limpa, sem a pintura a estalar, sem sinais de desgaste pelo tempo, e sem dar a entender ruína.

Encostada a um topo havia uma construção mais pequena, uma barraca apenas, como se fosse uma estrutura diferente que tivesse sido transportada para ali doutro lugar qualquer e empurrada contra o topo, tapando a porta lateral da casa. Talvez a porta de acesso à cozinha, pensou Lewis. A barraca fora, sem dúvida, usada como lugar para pendurar a roupa e deixar as galochas e as botas, com umas bancadas para vasilhas de leite e, talvez, um cesto para recolher os ovos. Do telhado estendia-se cerca de um metro de chaminé.

Lewis subiu em direção à casa rodeando a barraca e, aí, num dos lados, encontrou uma porta entreaberta. Subiu para o alpendre e empurrou-a completamente para trás, quedando-se de espanto a olhar para o quarto.

Afinal não era um simples barraca. Era, segundo parecia, a dependência em que Wallace vivia.

O fogão donde partia a chaminé ficava a um canto, um antigo fogão de cozinha, mais pequeno do que os fogões de cozinha doutros tempos. Sobre ele estava colocadas uma cafeteira, uma frigideira e uma grelha. Pendurados em grampos num quadro por detrás

dele estavam outros utensílios de cozinha. No lado oposto ao fogão, encostada à parede, estava uma cama de quatro colunas, coberta com um cobertor grumoso, envolvido num modelo de coberta feita de muitos retalhos de cores variadas, tal como fora o encanto das senhoras do século passado. Noutro canto havia uma mesa e uma cadeira e, por cima da mesa, pendurada na parede, uma prateleira onde estavam empilhados alguns pratos. Sobre a mesa estava um candeeiro a petróleo, amolgado pelo muito uso, mas com a chaminé limpa, como se tivesse sido lavada e polida ainda nessa manhã.

Não havia nenhuma porta de comunicação com a casa, nem sinal de que alguma vez tivesse havido. A superfície da parede exterior da casa estendia-se inteiriça de modo a formar a quarta parede da cabana. Era inacreditável, pensou Lewis, que não houvesse porta alguma, que Wallace vivesse ali, naquela cabana, quando existia uma casa para habitar. Como se houvesse alguma razão para a não ocupar e, ainda, pela qual fosse obrigado a ficar junto dela. Ou talvez estivesse a cumprir qualquer género de penitência, vivendo naquela cabana como um eremita medieval teria vivido numa choça no bosque ou numa caverna deserta.

Estava de pé no meio da cabana e olhava em volta, esperando poder encontrar um indício que o levasse à compreensão desta circunstância fora do normal. Mas não havia nada, para além do simples e árduo facto de viver, das mais elementares necessidades da vida o fogão para cozinhar os alimentos e aquecer a dependência, a cama onde dormir, a mesa em que comer e o candeeiro para tudo iluminar. Nem mesmo um chapéu abandonado (embora, e só agora pensara nisso, Wallace nunca tivesse usado chapéu), ou um casaco ali deixado.

Nem sinais de revistas ou jornais, e Wallace nunca viera da caixa do correio de mãos vazias. Assinava o New York Times, o Wall Street Journal, o Christian Science Monitor e o Washington Star, assim como muitas revistas científicas e técnicas. Mas sinal deles ali não havia, nem dos muitos livros que comprava. Não havia sinal, também, dos livros de registo encadernados. Absolutamente nada em que um homem pudesse escrever. Talvez que aquela cabana, pensou Lewis, por qualquer razão de disfarce, não passasse de um lugar para vista, muito cuidadosamente montado para fazer crer que era ali que Wallace vivia. Provàvelmente, no fim de contas, ele vivia na casa. Contudo, se assim era, porquê todo aquele esforço, não muito bem sucedido, de resto, para fazer crer o contrário?

Lewis virou-se na direcção da porta, saiu da cabana e deu a volta à casa até chegar ao alpendre que conduzia à entrada principal. Parou no fundo das escadas e olhou em volta. Tudo era silêncio. O Sol já ia alto no céu e o dia estava a aquecer, e aquele canto abrigado da Terra permanecia repousado e silencioso, à espera do calor.

Olhou para o relógio e restavam-lhe quarenta minutos, pelo que subiu as escadas e atravessou o alpendre até chegar à porta. Lançou a mão à maçaneta e rodou-a ùnicamente, ela não rodou; ficou exactamente na posição em que estava, tendo os dedos, sobre ela cerrados, feito meia volta no movimento de rotação.

Intrigado, voltou a tentar e, uma vez mais, não conseguiu rodar a maçaneta. Era como se estivesse coberta por uma camada rija e escorregadia, uma camada de gelo fino, sobre a qual os dedos escorregavam sem exercer qualquer pressão na maçaneta.

Baixou a cabeça para ver de perto se havia qualquer vestígio de ter sido coberta, e nada viu. A maçaneta apresentava-se perfeitamente bem bem de mais, talvez. Até porque estava limpa, como se alguém a tivesse limpado e polido. Não tinha pó algum nem sinais do tempo.

Experimentou riscá-la com a unha, mas esta deslizou e não deixou marca alguma. Passou a palma da mão pela superfície da porta e notou que a madeira estava escorregadia. O roçar da mão não provocara qualquer atrito. Deslizara na madeira como se estivesse untada, mas não havia qualquer sinal disso. Não havia indícios de nada a que atribuir o escorregadio da porta.

Dirigiu-se da porta para a parede e verificou que esta tinha a mesma propriedade. Experimentou de igual modo a unha e a palma da mão sobre ela e obteve o mesmo resultado. Havia qualquer coisa a cobrir aquela casa, que a tornava lisa e escorregadia tão lisa que o pó não podia depositar-se na sua superfície nem o tempo podia manchá-la.

Deslocou-se ao longo do alpendre até chegar a uma janela e nessa altura, ao voltar-se para ela, compreendeu qualquer coisa em que não tinha reparado antes, qualquer coisa que contribuia para que a casa parecesse mais sóbria do que era na realidade. As janelas era pretas. Não tinha reposteiros, cortinas ou persianas; eram simplesmente uns rectângulos negros, como olhos vazios do crânio nu que era a casa.

Aproximou-se mais da janela e encostou a cara ao vidro, cobrindo a face de ambos os lados, junto aos olhos, com as mãos erguidas, para os proteger da luz solar. Mas, mesmo assim, não conseguiu ver para dentro do quarto. Em vez disso, ficou a olhar para um poço de escuridão que, de modo bastante curioso, não tinha qualidades de reflexão. Não conseguia ver-se reflectido no vidro. Via apenas a escuridão, como se a luz atingisse a janela e fosse por ela absorvida, por ela sugada e retida. Não havia refracção da luz que atingia aquela janela.

Deixou o alpendre e, lentamente, deu a volta à casa, examinando-a à medida que passava. As janelas eram todas poços negros e vazios que sugavam a luz incidida sobre elas, e todo o exterior era escorregadio e rijo.

Bateu com o punho na parede, e foi o mesmo que bater numa rocha. Examinou as paredes de pedra dos alicerces nos sítios em que estavam expostas, e era lisas e escorregadias. Havia falta de argamassa entre as pedras e, mesmo nestas, podiam ver-se superfícies desencontradas mas, ao passar a mão pela parede, não se sentia qualquer rugosidade.

Qualquer coisa invisível fora espalhada sobre a rugosidade da pedra, apenas o suficiente para encher as covas e as superfícies desencontradas. Mas não se notava. Era quase como se não houvesse nada.

Erguendo-se da posição em que examinava a parede, Lewis olhou para o relógio. Faltavam apenas dez minutos. Tinha que se despachar.

Desceu a colina em direcção ao emaranhado do pomar. Parou junto à vedação e olhou para trás; neste momento a casa pareceu-lhe diferente. Já não era apenas uma construção.

Revestia-se de uma personalidade, tinha um olhar de través trocista, e havia um riso abafado e malévolo a borbulhar lá dentro, pronto a explodir.

Lewis embrenhou-se no pomar e abriu caminho por entre as árvores. Não havia nenhuma vereda e, sob as árvores, a erva e o joio cresciam a grande altura. Ele afastou os ramos tombados e contornou uma árvore cujas raízes tinham sido postas a descoberto por alguma tempestade de vento, muitos anos atrás.

À medida que caminhava, esticava-se para arrancar aqui e ali uma maçã, mirradas e

ácidas, dando uma única dentada em cada uma delas para depois as deitar fora, porque nenhuma prestava para comer, como se pudessem ter retirado do solo abandonado uma

certa amargura básica.

Na extremidade mais distante do pomar encontrou a vedação e as campas que encerrava. Aqui, já o joio e a erva não eram tão altos e a vedação apresentava sinais de ter sido reparada recentemente e, aos pé de cada campa, no lado oposto às três lápidas mortuárias toscas, de pedra calcárea da região, havia uma moita de peónias, sendo cada uma delas uma grande massa de plantas ao acaso, que tinham crescido indisciplinadamente durante anos.

De pé, ante a estacaria danificada pelo tempo, ela sabia que tropeçara com o jazigo da família Wallace.

Mas só lá deviam estar as duas lápidas. E quanto à terceira?

Deu a volta à vedação até à cancela descaída e entrou no jazigo. Aos pés das campas, leu as legendas gravadas nas pedras. A gravação era angulosa e tosca, dando a impressão de ter sido feita por mãos inexperientes. Não havia frases piedosas, nem linhas de versos, nem gravações de anjos ou de cordeiros ou ainda de outras figuras simbólicas, tal como era uso nos anos de 1860. Havia apenas os nomes e as datas.

Na primeira lápida: Amanda Wallace 1821 1863

Na segunda: Jedediah Wallace 1816 1866

E na terceira lápida ---------

4

Por favor, dê-me esse lápis disse Lewis.

Hardwicke parou de o rolar entre as palmas das mãos e estendeu-lho.

- Quer também papel? perguntou.

- Se fizer o favor disse Lewis.

Inclinou-se para a secretária e puxou-o ràpidamente.

- Aqui está disse ele, devolvendo o papel.

- Mas isto não faz sentido disse ele. Com excepção do algarismo que está em baixo.

- O algarismo oito deitado de lado. Sim, bem sei. O símbolo de infinito.

- Mas, e o resto?

- Não sei disse Lewis. É a inscrição que estava na lápida. Eu copiei-a

- E agora sabe-a de cor.

- Tenho obrigação disso. Estudei-a bastante.

- Nunca, na minha vida, vi nada que se parecesse com isso afirmou Hardwicke. Não é que eu seja uma autoridade. Na realidade, até conheço muito pouco nesse campo.

- Pode ter a consciência tranquila. Ninguém sabe nada acerca disso. Não apresenta

semelhança nenhuma, por mais remota que seja, com qualquer lingua ou inscrição conhecida. Informei-me junto de homens que sabem. Não foi só um, mas uma dúzia deles. Disse-lhes que a encontrara numa parede rochosa. Tenho a certeza de que muitos deles pensam que eu não estou bom da cabeça. Uma daquelas pessoas que tentam provar que os romanos, os fenícios, os irlandeses ou qualquer coisa do género, se fixaram na América antes da chegada de Colombo.

Hardwicke pousou sobre a secretária a folha de papel.

- Estou a ver o que você quer dizer afirmou quando declara ter agora mais dúvidas

do que quando começou. Não é apenas a questão de um jovem com mais de um século de idade, mas também o que diz respeito ao aspecto vítreo da casa e à terceira lápida tumular com a tal inscrição indecifrável. Diz você que nunca falou com Wallace?

- Ninguém fala com ele. Com exceção do carteiro. Faz o seu passeio diário e leva a arma com ele.

- E as pessoas têm medo de lhe falar?

- Por causa da arma, quer você dizer?

- Bem, sim, suponho que, inconscientemente, era isso. Gostaria de saber por que razão a leva ele.

Lewis sacudiu a cabeça. Não sei. Tentei ligá-la ao resto, descobrir uma razão para ele a trazer sempre consigo. Pelo que consegui descobrir, ele nunca disparara a espigarda. Mas não penso que seja por causa da espingarda que as pessoas não lhe falam. Ele é um anacronismo, qualquer coisa que vive doutra era. Ninguém o teme, tenho a certeza disso. É demasiado conhecido naquelas paragens para que alguém o receie. É demasiado familiar. Faz parte da terra, como uma árvore ou um monte. Mas, mesmo assim, ninguém se sente à vontade na sua presença. Chego a supor que muitas dessas pessoas, se fossem levadas até junto dele, não se sentiriam bem. Na medida em que é qualquer coisa que eles não são qualquer coisa maior do que eles e, ao mesmo tempo, bastante menor. Como se ele fosse um homem que se tivesse afastado da sua própria humanidade. Eu penso que, lá

no fundo, muitos dos seus vizinhos se sentem um pouco envergonhados dele porque, de algum modo, talvez ignòbilmente, evitou envelhecer, o que constitui uma da penas e, possìvelmente, também um dos direitos de todo o género humano. E talvez que esta vergonha íntima possa contribuir em parte para que não queiram falar a seu respeito.

- E você gastou muito tempo a observá-lo?

- Houve uma altura em que o fiz. Mas agora tenho um grupo. Observam-no por turnos

regulares. Temos uma dúzia de pontos de observação, e mantêmo-nos em observação alternada por todos eles. Não há uma hora, dia a dia, em que a casa de Wallace não esteja vigiada.

- Na verdade, este caso mantém-vos atarefados.

- E penso que com razão respondeu Lewis. Ainda há outra coisa.

Curvou-se e pegou na pasta que colocara ao lado da cadeira. Abrindo-a, tirou um molho de fotografias e entregou-as a Hardwicke.

- Que pensa você disto?

Hardwicke pegou nelas, e gelou sùbitamente. Tornou-se lívido. As mão começaram a tremer-lhe e pousou cuidadosamente as fotografias sobre a secretária. Vira apenas a de cima; nenhuma das outras.

Lewis viu a interrogação no seu rosto.

- Dentro da campa disse. Na que fica por baixo da lápida com aquela estranha inscrição.

5

O receptor de mensagens assobiou ruidosamente, e Enoch Wallace pôs de parte o livro

em que estivera a escrever, levantando-se da secretária. Atravessou o quarto em direcção

ao aparelho. Premiu um botão e empurrou uma chave fazendo parar o zumbido.

O aparelho começou a trabalhar e a mensagem começou a aparecer no visor, a princípio

imperceptível tornando-se depois mais escura até aparecer nítida. Dizia:

NI. 406301 PARA A ESTAÇÃO 188327. VIAJANTE A 16097.38. ORIUNDO DE THUBAN VI. SEM BAGAGEM. TANQUE LÍQUIDO NO.3. SOLUÇÃO 27. PARTIDA PARA A ESTAÇÃO 12892 ÀS 1643.16. CONFIRME.

Enoch lançou um olhar ao grande cronómetro galático pendurado na parede. Faltavam quase três horas.

Tocou num botão, e uma fina chapa metálica com a mensagem impressa saiu dum dos lados do aparelho. Por baixo dele, o duplicado era registado automàticamente no arquivo

respectivo. O aparelho fez um ruído imperceptível e o visor ficou limpo uma vez mais à espera.

Enoch puxou a chapa metálica para fora, prendeu-as pelos furos nuns ganchos próprios e pousou os dedos no teclado para escrever:

NO. 406301 RECEBIDO. CONFIRMA DE MOMENTO. A mensagem apareceu no visor e ele deixou-a lá ficar.

Thuban VI? Já lá estivera antes algum deles? , pensava. Assim que tivesse os trabalhos concluídos, passaria á cabina de preenchimento para verificar.

Era um caso de tanque líquido e esses, em regra, eram os menos interessantes de todos. Era normalmente difícil manter uma conversa com eles, porque muito frequentemente o seu conceito de linguagem era difícil de manobrar. E muito frequentemente, também, o seu processo de pensamento peculiar provava ser muito divergente de molde a fornecer uma base normal de comunicação.

Apesar de tudo, recordava-se ele, isso nem sempre era verdade. Tinha havido aquele viajante num tanque, vários anos antes, de qualquer ponto em Hyidra (ou seria em Hyades?), que o fez estar a pé a noite inteira e que por pouco não conseguiu despachar a tempo, ocupando-lhe horas a fio (estabelecendo uma comunicação recíproca não pròpriamente com palavras) ao mesmo tempo que no curto período de que dispunham conseguiam estabelecer uma grande camaradagem e, talvez, alguma fraternidade.

Ele, ela ou aquilo nunca haviam tocado nesse ponto nunca mais voltou. E assim tinha de ser, pensou Enoch; muito poucos voltavam. A grande maioria deles estava apenas de passagem.

Mas tinha-o, a ele, a ela ou àquilo, o que quer que fosse, mencionado nos seus registos, como os tinha a todos, nos seus mais simples pormenores, registados no papel. Para o escrever, lembrava-se bem, ocupara quase inteiramente o dia seguinte, dobrado sobre a secretária; todas as histórias que lhe tinha contado, todos os vislumbres que captara duma terra distante, linda e apetecida (apetecida porque havia tanta coisa a seu respeito que ele não conseguia compreender), todo o calor e afinidade que brotava entre ele e aquele ser vivo disforme, retorcido, e feio, de um outro mundo. E a todo o momento, todos os dias, era tentado a tirar aquele diário da fila dos outros e reviver aquela noite outra vez. Contudo nunca o fizera. Era estranho, pensava, como nunca tinha havido tempo, ou nunca parecera ser a altura, para o folhear e reler em parte o que registara através dos anos.

Voltou-se do receptor de mensagens e rolou um reservatório líquido No. 3 em posição debaixo do materializador, colocando-o no local exacto e prendendo-o. Depois puxou uma mangueira retráctil e rodou o selector para o No. 27. Encheu o reservatório e deixou que a mangueira se escapasse de novo para dentro da parede.

De novo voltou ao receptor, limpou o visor e enviou a confirmação de que tudo estava pronto para o viajante de Thuban, recebeu a resposta de que a sua mensagem fora entendida, colocando depois o receptor na posição neutral, pronto a receber de novo.

Abandonou o receptor para se dirigir à cabine de preenchimento que ficava junto da sua secretária e puxou uma gaveta a abarrotar de minutas de preenchimento. Deu uma vista de olhos, e lá estava o Thuban VI, com a referência de 22 de Agosto de 1931. Caminhou em direção à parede coberta do chão até ao tecto com livros, revistas e diários, e encontrou o livro de registos que pretendia. Pegou nele e voltou para a secretária.

O dia 22 de Agosto de 1931, reparou ele quando localizou o lançamento, fora um dos

seus dias menos sobrecarregados. Houvera um viajante apenas, que fora o Thuban VI. E, embora o registo respeitante a esse dia enchesse quase uma página na sua letra miudinha

e difícil, não dedicara senão um parágrafo ao visitante.

Dizia: Chegou hoje um ampola líquida de Thuban VI. Não poderia ser descrita de outra maneira. É simplesmente uma porção de matéria, provàvelmente de carne, e que parece passar por uma espécie de mudança rítmica de forma, dado que periòdicamente é globular, começando depois a achatar até repousar no fundo do reservatório, como uma bolacha. Então começa a contrair-se e a inchar, até se transformar finalmente numa bola. Esta mudança é bastante lenta e obedecendo, sem dúvida, a um ritmo determinado, mas só na medida em que obedece a um ciclo. O período mais curto necessário para completar o ciclo foi de sete minutos e o mais longo de dezoito. Talvez que num intervalo de tempo mais longo se possa determinar o período rítmico, mas não tive tempo para isso. O tradutor semântico não funcionou com ela, embora me tivesse uma série de estampidos agudos, como se estivesse a bater com as garras umas nas outras, apesar de não ter garras, que eu visse. Quando consultei o manual de pasigrafia compreendi que o que ele me queria dizer era que estava bem, que não necessitava de atenção e que, por favor, o deixasse em paz. O que passei a fazer dai em diante.

E no fim do parágrafo, apertada no pequeno espaço que restava, estava a anotação: Ver 16 de Out. 1931.

Voltou as páginas até ao dia 16 de Outubro e, como verificou, esse fora um dos dias em que Ulysses chegara para inspecionar a estação.

O nome dele, claro, não era Ulysses. Na realidade, nem sequer tinha nome. Entre a sua

gente não havia necessidade de nomes; havia outra terminologia para identificação que era de longe mais expressiva do que nomes. Mas essa terminologia, mesmo no seu conceito básico, era de molde a não ser entendida, e muito menos utilizada, por seres humanos.

- Eu vou passar a chamar-lhe Ulysses recordava-se Enoch de lho ter dito da primeira vez que se encontraram. Preciso de lhe chamar qualquer coisa.

- Estou de acordo disse-lhe então o estranho ser (deixando de ser considerado como tal a partir desse momento). Poderá saber-se porquê o nome de Ulysses?

- Porque é o nome de um grande homem da minha raça.

- Agrada-me que o tenha escolhido respondeu o ser recentemente baptizado. Soa-me

de um modo digno e nobre, e agrada-me usá-lo entre nós dois. Eu passarei a chamar-lhe

Enoch, já que vamos trabalhar em conjunto por muitos anos.

E já lá iam muitos anos, pensava Enoch, com o livro de registos aberto naquela anotação

de Outubro de há mais de trinta anos. Anos que foram de satisfação e de enriquecimento duma maneira que ninguém podia ter imaginado, até ao momento em que tudo se

esclarecera perante ele.

E continuaria, pensou, por muito mais tempo do que já passara por muitos séculos mais, talvez por mil anos. E ao fim desses mil anos, que saberia ele então?

Contudo, pensou, talvez o conhecimento não fosse a parte mais importante disso.

E nada daquilo, sabia-o bem, podia passar despercebido, porque já havia interferências.

Havia observadores, ou pelo menos um observador, e, dentro de pouco tempo, quem quer que fosse podia começar a apertar o cerco. Qunto ao que iria fazer ou como enfrentaria a ameaça não tinha ideia nenhuma até que o momento chegasse. Era qualquer coisa que já estivera para acontecer. Qualquer coisa que ele já esperava que acontecesse durante aqueles anos todos. Havia razão para perguntar, bem o sabia, porque não acontecera mais cedo. Ele falara a Ulysses no perigo que isso representava, logo no primeiro dia em que se encontraram. Estava ele sentado nas escadas que davam acesso ao alpendre e, ao pensar agora nisso, lembrava-se tão nìtidamente como se tivesse passado no dia anterior.

6

Estava sentado nos degraus naquele fim de tarde. Observava os grandes topos brancos das nuvens ameaçadoras de tempestade que se amontoavam do outro lado do rio, para além dos montes Iowa. O dia estava quente e abafado, e não corria a mais ligeira brisa. Lá fora, no pátio da quinta, uma meia dúzia de galinhas salpicadas de lama esgaravatavam sem cessar, mais para se manterem em acção, segundo parecia, do que na esperança de encontrarem algum alimento. O bater das asas dos pardais, quando voavam entre a empena do celeiro e a sebe de madressilva que marginava o campo para além da estrada, tinha um som áspero e seco, como se as penas das asas tivessem ficado rígidas com o calor.

E para ali estava ele sentado, pensou, a olhar para as nuvens anunciadoras de

tempestade, quando havia trabalho para fazer milho pra cortar, feno para apanhar e

trigo para ceifar e enfardar.

Apesar do que pudesse ter acontecido, um homem ainda tinha a vida para viver, dias para serem conduzidos pelo melhor que se pudesse conseguir. Foi uma lição, recordava a si mesmo, que ele deveria ter aprendido em toda a sua plenitude naqueles últimos anos. Mas a guerra era, de certo modo, diferente do que acontecera ali. Na guerra sabia-se que era assim, já se contava com isso e estava-se preparado quando tal acontecia; mas aquilo não era a guerra. Era antes a paz para que tinha voltado. Um homem tinha o direito de esperar que num mundo de paz ainda existisse de facto, como uma muralha que deixasse lá fora a violência e o horror.

Continuava sentado nos degraus, com os punhos apoiados nos joelhos, e olhava as nuvens de tempestade amontoando-se a Oeste. Podia significar chuva que a terra aproveitaria ou podia não ser nada, porque por cima dos vales que desciam para o rio as

correntes de ar sopravam ao acaso e não havia maneira de ninguém poder dizer para onde se deslocariam aquelas nuvens.

Ele não tinha visto o viajante até o momento em que se voltou para entrar o portão. Era alto e esguio, com a roupa coberta de pó e, pelo aspecto, tinha feito uma grande caminhada. Subiu pela vereda e Enoch deixou-se estar sentado à espera dele, observando- o, sem se mover nos degraus.

- Bom dia disse finalmente Enoch. Está um dia quente para andar a pé. Porque não se senta um pouco.

- Apetece-me realmente disse o estranho. Mas antes disso, diga-me, posso beber um golo de água?

Enoch pôs-se de pé. Venha daí. Vou dar-lhe água fresca da bomba.

Atravessou o pátio até chegar à bomba. Tirou a concha do grampo onde estava pendurada e entregou-a ao homem. Agarrou no braço da bomba e accionou-o para cima e para baixo.

- Deixe-a correr um pouco disse ele. Demora um bocado para vir bem fresca.

A água jorrou do cano, escorrendo sobre as pranchas que formava a cobertura do poço.

Vinha aos esguichos à medida que Enoch accionava o braço.

- Acha que vai chover perguntou o estranho.

- Não se sabe nada respondeu Enoch. Temos que esperar para ver.

Havia qualquer coisa neste viajante que o perturbava. De facto, não era nada que pudesse apontar, mas uma certa estranheza que era vagamente inquietante. Observava-o cuidadosamente enquanto dava à bomba e chegou à conclusão de que, provàvelmente, as orelhas daquele estranho eram um pouco pontiagudas de mais em cima, mas atribuiu isso à sua imaginação, porque, quando voltou a olhar, achou-as perfeitamente normais.

-

Suponho que a água já deve estar fria disse Enoch.

O

viajante baixou a concha e esperou que enchesse. Ofereceu-a a Enoch, que abanou a

cabeça, dizendo:

- Você primeiro. Precisa mais do que eu.

O estranho bebeu-a com sofreguidão e babando-se todo.

- Outra? perguntou Enoch.

- Não, obrigado. Mas, se quiser, eu encho novamente a concha para si.

Enoch deu à bomba e quando a concha já estava cheia, o estranho entregou-lha. A água estava fria e Enoch, notando pela primeira vez que estava com sede, bebeu-a quase até ao fim.

Voltou a pendurar a concha no grampo e disse para o homem Agora, vamo-nos sentar.

O estranho sorriu. Não me desagrada a ideia disse ele.

Enoch puxou um lenço vermelho da algibeira e enxugou a cara. Está um ar carregado disse -, vem aí chuva.

Enquanto enxugava a cara, apercebeu-se sùbitamente do que o perturbara acerca do viajante. Apesar da roupa salpicada de lama e dos sapatos cobertos de pó, que atestavam a longa caminhada, apesar do calor daquele tempo de trovoada, o estranho não estava a transpirar. Parecia tão fresco como se estivesse estado deitado à vontade sob uma árvore, em tempo primaveril.

Enoch meteu o lenço na algibeira e voltaram ambos para os degraus, sentando-se aí, um ao lado do outro.

- Você fez uma longa viagem disse Enoch, espiando-o despercebidamente.

- Muito longa, na verdade. Sou um verdadeiro exemplar da minha terra.

- E ainda tem muito que andar?

- Não, disse o estranho -, creio que cheguei ao meu destino.

- Quer dizer

retorquiu Enoch, deixando a pergunta em suspenso.

- Quero dizer, precisamente aqui, sentado nestes degraus. Tenho andado à procura de um homem e penso que esse homem é você. Não sabia como se chamava nem onde procurá-lo, mas sabia, mesmo assim, que havia de encontrá-lo um dia.

- Mas eu disse Enoch, atônito. Porque andava à minha procura?

- Andava à procura de um homem que obedecesse a vários requisitos. Uma das coisas

acerca dele era que devia ter olhado para as estrelas e procurado saber o que elas eram.

- Sim, realmente fiz isso. Muitas noites, no acampamento, deitei-me nos cobertores e

olhei o céu, observando as estrelas e perguntando a mim mesmo o que eram, como tinham sido colocadas lá no alto e, o mais importante de tudo, porque tinham sido lá colocadas. Ouvi dizer que cada uma delas é um outro Sol como o que ilumina a Terra, mas não sei

nada sobre isso. Penso até que não há ninguém que saiba muito acerca delas.

- Há quem saiba bastante acerca delas disse o estranho.

- Você, talvez disse Enoch troçando um pouco, visto que o estranho não parecia ser pessoa que soubesse muito do que quer que fosse.

- Sim, eu. Embora não saiba tanto como muitos outros.

- Tenho perguntado algumas vezes se as estrelas são outros sóis, ou não serão também outros planetas com outra gente.

Lembrava-se de se sentar, à noite, à volta da fogueira, tagarelando com os companheiros para passar o tempo. Mencionou uma vez a ideia da possibilidade de haver outra gente noutros planetas, girando à volta de outros sóis, tendo os companheiros todos

escarnecido dele, ridicularizando-o durante vários dias, pelo que nunca mais voltou a falar nisso. Não era que isso tivesse muita importância, pois nem mesmo ele acreditava muito; nunca fora mais do que uma especulação em volta da fogueira.

- Você acredita nisso? perguntou o estranho.

Enoch respondeu: - Era apenas uma noção muito vaga.

- Não era tão vaga como isso disse o estranho. Existem outros planetas e outra gente. Eu sou um deles.

- Mas você

exclamou Enoch, emudecendo repentinamente.

- A cara do estranho abrira-se ao meio e começara a cair e, debaixo dela, viu num relance outra cara que não era humana.

E ainda no momento em que a falsa cara humana se desprendia da outra, um grande relâmpago estalou através do céu e o pesado estrondo da tempestade parecia sacudir a terra ouvindo-se lá ao longe o ímpeto da chuva ao cair pelos montes fora.

7

Foi assim que tudo começou, pensava Enoch, quase há cem anos. A fantasia da fogueira tornara-se realidade, e a Terra estava agora nas cartas das galáxias, como uma estação de trânsito para as mais diversas pessoas viajando de estrela para estrela. Foram estranhos em tempos, mas agora já não havia estranhos. Não havia nada que se parecesse com isso. Independentementre da forma e da finalidade a que se propunham, eram todos gente.

Voltou a olhar para o registo datado de 16 de Outubro de 1931 e passou-lhe os olhos por alto. Quase no fim estava a frase:

Diz Ulysses que os Thubans do planeta VI são talvez os maiores matemáticos da galáxia. Desenvolveram, segundo parece, um sistema numérico superior a qualquer outro existente, especialmente valioso no uso de estatísticas.

Fechou o livro e sentou-se sossegadamente na cadeira, pensando se os estatísticos de Mizar X sabiam do trabalho dos Thubans. Talvez soubessem, pensou, pois certamente que alguma da matemática que usavam não era convencional.

Afastou o livro de registos para o lado e rebuscou na gaveta da secretária e tirou o mapa. Desdobrou-o à sua frente, sobre a secretária, e observou-o intrigado. Se pudesse ter a certeza, pensou ele. Se, ao menos, conhecesse melhor as estatísticas de Mizar. Durante os últimos dez anos, ou mais, trabalhara naquele mapa, verificando e tornando a verificar todos os factores, em confronto com o sistema de Mizar, em experiências sucessivas, para determinar se os factores que usava eram os que devia empregar.

Deu um murro na secretária. Se, ao menos, pudesse ter a certeza. Se, ao menos, pudesse falar com alguém. Mas isso era algo que ele evitara fazer, porque isso seria o mesmo que pôr em evidência todo o atraso da raça humana.

Apesar de tudo, ele era humano. Era curioso, pensava, que tivesse de permanecer humano, que, num século de união com os habitantes de muitos outros astros, ele tivesse que continuar como um homem da Terra, através de tudo.

Até porque, sob muitos aspectos, as suas ligações com a Terra tinham sido cortadas. O velho Winslowe Grant era o único ser humano com quem, agora, passara a falar. Os vizinhos evitavam-no, e não havia mais ninguém, não incluindo os observadores, e os que raramente via mas apenas vestígios deles, sòmente os lugares onde haviam estado.

Só o velho Winslowe Grant, a Mary e as outras pessoas que viviam na sombra vinham de vez em quando partilhar de suas horas de solidão.

E aquilo era tudo quanto tinha na Terra, o velho Winslowe, a gente do vale e os acres de terreno que se estendiam em volta da casa mas não a própria casa, que era agora um local estranho para ele.

Fechou os olhos e recordou como fora a casa nos tempos antigos. Existira uma cozinha naquele mesmo local onde estava sentado, com um fogão de ferro, preto e enorme no seu canto, exibindo uma fila de dentes de fogo ao longo da fenda feita pela grelha. Havia uma mesa encostada à parede onde comiam os três, de cujo aspecto se lembrava, com a galheta do vinagre, o copo que continha as colheres e a Lazy Susan com a mostarda, o molho de pimentos e outros, formando um conjunto, uma espécie de centro de mesa no meio da toalha com quadrados vermelhos que a cobria.

Numa noite de inverno, teria ele três ou quatro anos no máximo, supunha, estava a mãe ao fogão, atarefada com a ceia. Ele, sentado no chão no meio da cozinha, brincava com uns pedaços de madeira, enquanto se ouvia lá fora o uivar abafado do vento rondando as goteiras do telhado. O pai acabava de entrar, vindo do estábulo onde estivera a ordenhar, trazendo consigo uma rajada de vento e um remoinho de neve que invadiram a casa. Fechara depois a porta, desaparecendo o vento e a neve, que ficaram fechados lá fora, condenados à escuridão da rua e ao deserto da noite. O pai colocou o balde de leite que trazia sobre a pia da cozinha, reparando Enoch que ele tinha as barbas e as sobrancelhas cobertas de neve e que tinha geada nos bigodes, envolvendo a boca toda.

Ainda conservava aquela imagem, eles os três, como manequins históricos colocados no armário de um museu o pai com a geada nos bigodes e as grandes botas de calfe que lhe chegavam aos joelhos; a mãe com a face congestionada de estar ao fogão, com uma touca guarnecida de renda na cabeça, e ele, no chão, a brincar com pedaços de madeira.

Havia uma coisa de que se lembrava, talvez com mais nitidez do que do resto. Em cima da mesa estava um grande candeeiro e, pendurado na parede por detrás dele, um calendário, sobre cuja gravura incidia a luz do candeeiro como um foco. Representava o velho Santa Claus seguindo no seu trenó ao longo de um caminho no bosque, cujos pequenos habitantes saíam para o ver passar. Via-se uma grande lua suspensa sobre as árvores e havia uma espessa camada de neve no chão. Um casal de coelhos, sentado na neve, olhava muito compenetrado para Santa, e, ao lado deles, um veado e, mais adiante, um cuati com a cauda enrolada aos pés, e ainda um esquilo e um passarinho lado a lado, num ramo inclinado sobre o conjunto. O velho Santa tinha o chicote erguido num gesto de

saudação, com as maçãs do rosto coradas e um sorriso feliz, enquanto as renas atreladas ao trenó tinham frescura, alma e altivez.

Através dos anos, este Santa de meados do século dezanove, deslizara pelas alas nevadas do tempo, com o chicote erguido numa saudação feliz às criaturas do bosque. E a luz dourada do candeeiro seguira com eles, continuando a brilhar sobre a parede e a toalha aos quadrados vermelhos que cobria a mesa.

Afinal ainda ficou alguma coisa desse tempo pensou Enoch a lembrança, o pensamento e o calor confotável de uma cozinha de infância numa noite tempestuosa de Inverno.

Mas o que perdurara fora só o espírito e o pensamento, e nada mais. Agora já não havia cozinha alguma, nem a sala de estar com o seu sofá antiquado nem a cadeira de baloiço; nem a sala de visitas com a sua pomposa elegância de brocados e sedas, nem o quarto de hóspedes no primeiro piso e os quartos dos da casa no segundo.

Tudo desaparecera e apenas ficara uma dependência. O segundo andar e todas as outras divisões tinham sido desmanteladas. A casa era agora um grande quarto. Dum lado era a estação galática, e do outro o espaço em que vivia o seu encarregado. Tinha uma cama a um canto, um fogão que funcionava por um sistema desconhecido na Terra e um frigorífico duma marca desconhecida. As paredes estavam cobertas de armários e prateleiras a abarrotar de revistas, livros e jornais.

Ficara apenas uma coisa dos tempos idos, a única coisa que Enoch não permitira que fosse destruída pela estranha equipa que montara a estação o velho e maciço fogão de sala feito de tijolos e pedra da região que estava encostado à parede da sala de estar. Ainda ali estava, a única coisa a recordar os velhos tempos, o que restava da Terra, com a sua grande prateleira de carvalho trabalhado que o pai cinzelara com uma navalha de um tronco maciço e alisara à mão com uma plaina e uma raspadeira.

Sobre o fogão, e espalhados pela prateleira e pela mesa, estavam objetos e utensílios que não tinham origem nem nomes terrenos a acumulação contínua através dos anos de ofertas de viajantes amigáveis. Algumas delas tinham utilidade, enquanto outras serviam apenas para vista, havendo outras sem utilidade nenhuma para um elemento da raça humana ou sem possibilidade de aplicação na Terra, e ainda muitas outras a respeito de cuja finalidade ele não fazia ideia e que aceitara, confundido, gaguejando muitos agradecimentos, dos indivíduos bem intencionados que as trouxeram.

No outro extremo da sala estava colocada a massa intrincada de maquinaria, elevando- se à altura do antigo segundo andar, que lançava os passageiros através do espaço que se abria de estrela a estrela.

Era como que uma estalagem, pensava ele, um local de paragem, um cruzamento das estrelas galáticas.

Enrolou o mapa e voltou a metê-lo na secretária. Colocou o livro de registos que pusera de lado no seu lugar entre os outros que estavam na prateleira.

Lançou um olhar ao relógio na parede e viu que estava na hora de se pôr a caminho.

Encostou a cadeira á secretária e enfiou o casaco que estava pendurado nas costas dela. Tirou a espingarda do suporte e, voltando-se para a parede onde ela estivera pendurada, disse a palavra necessária. A parede deslizou silenciosamente, atravessando ele pela passagem aberta para a cabana escassamente mobiliada. Atrás de si, a parede voltou a deslizar, não ficando nada que pudesse indicar que não fosse outra coisa que uma parede sólida.

Enoch saiu da cabana para um dia lindo de fim de Verão. Dentro de algumas semanas, pensou, viriam os primeiros sinais do Outono e o ar frio. Floriam já as primeiras plantas e, como tinha reparado no dia anterior, alguns dos primeiros ásteres da cerca começavam já a verdejar.

Virou a esquina da casa e tomou a direcção do rio, descendo a passos largos o longo campo deserto invadido pelo mato de aveleiras e por grupos acidentais de árvores.

Aquilo era a Terra, pensou um planeta feito para o Homem. Mas não exclusivamente para o homem, na medida em que era também para a raposa, para o mocho e a doninha, para a serpente, a cigarra, o peixe, para toda a vida prolífera que enchia o ar, a terra e a água. E não só para aqueles seres nela nascidos, como também para outros, oriundos de diferentes planetas que à distância de anos-luz eram essencialmente o mesmo que a Terra. Até porque Ulysses, os Hazers e todos os outros podiam viver neste planeta, se necessário ou quisessem, sem desconforto e sem auxílios artificiais.

Os nossos horizontes são tão vastos e conhecêmo-los tão pouco! Até mesmo agora, com foguetões flamejantes de Canaveral empenhados em quebrar as antigas fronteiras, não sonhamos com a sua grandeza.

Ficara-lhe a dor, sempre crescente, de contar a toda a humanidade as coisas que aprendera. Não tanto as coisas específicas, embora algumas delas pudessem ser bem utilizadas pelo género humano, como as generalidades, o facto específico e fundamental de que havia inteligência por todo o universo, de que o Homem não estava só, de que nunca voltaria a estar só, tendo apenas, para isso, que descobrir o caminho necessário.

Atravessou o campo e a faixa de arvoredo, saindo junto da grande barreira de rocha que encimava a encosta que dava para o rio. Parou aí, de pé, como acontecera em milhares de outras manhãs, e contemplou o rio arrastando o seu azul prateado através da terra arborizada do vale.

Ô velha água, disse ele, falando baixinho para o rio, tu viste o que aconteceu as faces de quilómetro dos glaciares que vieram, ficaram e se foram, arrastando-se em direcção ao pólo, milímetro a milímetro, levando consigo a água em fusão daqueles mesmos glaciares, numa enxurrada que trouxe a este vale uma enchente como se já não vê; o mastodonte, o javali e o enorme castor vagueavam por estas velhas colinas e tornavam a noite ruidosa com os seus urros; os pequenos bandos de homens silenciosos que corriam pelos bosques, trepavam as encostas ou chapinhavam na tua superfície, conhecedores dos bosques e da água, de corpo fraco mas forte propósito, de tal modo persistentes como nada fora até aí e, ainda há pouco tempo, essa outra geração de homens que traziam sonhos na cabeça, crueldade nas mãos e terrível certeza de um objectivo ainda maior nos seus corações. E, antes disso, porque esta terra é muito mais antiga do que frequentemente se pensa, as

outras espécies de vida, as muitas variações de clima e as transformações que a própria Terra sofreu. E que pensas tu disto?, perguntou ele ao rio. Porque a lembrança, a perspectiva e o tempo te pertencem e já era altura de saberes as respostas ou, pelo menos, algumas delas.

Tal como o Homem podia saber algumas das respostas se tivesse vivido durante milhões de anos assim poderia saber as respostas milhões de anos volvidos sobre esta mesma manhã de Verão, se ainda por cá andasse.

E eu podia ajudá-lo, pensou Enoch. Não podia fornecer-lhe as respostas mas podia ajudá-lo na sua porfia por elas. Podia dar-lhe fé e esperança, como podia dar-lhe uma finalidade como nunca tivera até aqui.

Mas ele bem sabia que não se atrevia a fazê-lo.

Lá em baixo, um falcão planava em círculos lentos sobre a grande estrada do rio. O ar estava tão límpido que Enoch teve a sensação de que se apurasse um pouco a vista, poderia ver cada uma das penas naquelas asas abertas. Aquele lugar tinha uma qualidade quase irreal, pensou. A grande distância que a vista alcançava, o ar límpido e a sensação de desprendimento que atingiam quase a grandeza do espírito. Como se isto fosse um lugar especial, um daqueles lugares especiais que cada homem deve buscar para si mesmo, e considerar-se afortunado se alguma vez o encontrar, porque outros houve que nunca o encontraram, embora o julgassem. E, pior ainda, houve mesmo quem nunca o procurasse.

Ele continuava de pé sobre a rocha e contemplava o rio, observando o falcão pachorrento, a corrente de água e o verde tapete de árvores, e o seu espírito voou para aqueles outros lugares até que o pensar neles o aturdiu. E, então, chamou àquilo a sua terra.

Voltou-se lentamente, desceu do rochedo e caminhou por entre as árvores, seguindo o caminho que calcara através dos anos.

Tencionava descer a colina por um caminho que lhe permitisse dar uma vista de olhos pelo canteiro de chorões cor-de-rosa para ver como despontavam, para tentar adivinhar a beleza que seria novamente sua em Junho, mas decidiu que não valia a pena, dado que estavam escondidos num local isolado, e nada podia tê-los danificado. Houve uma altura, cem anos antes, em que eles floriram por todas as colinas e ele viera para casa com grandes braçadas deles, que sua mãe pusera no grande jarro castanho que tinha, e durante um ou dois dias a casa estivera cheia da intensidade do seu rico perfume. Mas agora vingavam com dificuldade. O pisar do gado que andava a pastar e as pessoas que colhiam as flores fizeram-nos desaparecer das colinas.

Algum dia, pensou, antes das primeiras geadas, iria visitá-las novamente e satisfazer-se com a ideia de que eles lá estariam na Primavera.

Deteve-se por momentos para observar um esquilo que brincava num carvalho, e se acocorara para seguir um caracol que se lhe atravessara no caminho; parou depois junto a uma árvore maciça e examinou os musgo que lhe crescia no tronco. E seguiu o saltitar errante de uma ave canora, silenciosa e em fuga, à medida que ele se agitava de árvore em árvore.

Seguiu o caminho que o conduziu para fora do bosque e ao longo da berma do campo, até chegar à nascente que brotava da encosta da colina.

Sentada ao lado da nascente estava uma mulher que ele reconheceu como sendo Lucy Fisher, a filha surda-muda de Hank Fisher, que vivia lá em baixo, junto ao rio.

Parou para observá-la, pensando em como era cheia de graça e de beleza, com aquela graça e beleza naturais duma criatura primitiva e só.

Estava sentada junto da nascente e tinha uma das mãos erguida, segurando nas extremidades dos dedos longos e mimosos, qualquer coisa que brilhava. Tinha a cabeça levantada com um olhar vivo e vigilante, o seu corpo era direito e elegante, e também ele tinha aquele aspecto quase assustado de serena vigilância.

Enoch aproximou-se lentamente e parou atrás dela, a cerca de um metro; viu nessa altura que era uma borboleta o que ela segurava nas pontas dos dedos, uma daquelas borboletas grandes, vermelhas e douradas, que aparecem no fim do Verão. Uma asa do inseto mantinha-se erecta e direita, enquanto a outra estava dobrada e amarfanhada e tinha perdido algum do pó que emprestava brilho à cor. Reparou, então, que ela não estava, de facto, a segurar a borboleta. Esta estava apenas pousada no ponta de um dedo, agitando a asa boa muito ligeiramente, de vez em quando, para manter o equilíbrio.

Mas tinha-se enganado, reparou, ao pensar que a segunda asa estava danificada, dado que podia ver agora que ela fora simplesmente dobrada e torcida de qualquer maneira. Visto que, naquele momento, ela se endireitava lentamente e que o pó (se alguma vez desaparecera) tinha voltado novamente, e se erguia ao lado da outra.

Caminhou em redor da rapariga de modo que ela o pudesse ver e, quando o viu, não houve qualquer sobressalto de surpresa. E isso, sabia-o, era natural, dado que ela devia estar habituada a alguém que se aproximasse por trás e lhe aparecesse de repente.

Ela tinha os olhos brilhantes e havia, pensou ele, um ar sagrado na sua face, como se tivesse a alma em êxtase. E achou-se de novo a imaginar, o que acontecia de cada vez que a via, como seria para ela viver num mundo de duplo silêncio, incapaz de comunicar. Não totalmente incapaz de comunicar, talvez, mas excluída daquele fluxo livre de comunicação que era o direito de nascimento do animal racional.

Houvera, como sabia, várias tentativas para inscrevê-la numa escola oficial para surdos, fracassando cada uma delas. Fugira uma vez, e vagueara durante dias antes de ser, finalmente, encontrada e levada para casa. Noutras ocasiões entregara-se a actos de desobediência, recusando-se a cooperar em qualquer lição.

Ao olhar para ela, sentada ali com a borboleta, Enoch pensou que sabia o motivo. Ela tinha um mundo, um mundo muito seu, a que estava habituada e no qual sabia como conduzir-se. Não seria uma inválida naquele mundo, como seria, com toda a certeza, se tivesse sido forçada, integrada, no mundo das pessoas normais.

Que benefício lhe traria o alfabeto mímico ou a leitura dos lábios, se lhe roubassem alguma serenidade interior de espírito que só ela possuía?

Lucy era um ser dos bosques e das colinas, da flor da Primavera e do voo dos pássaros do Outuno. Conhecia esta coisas, vivia com elas, e era, de um modo algo pessoal, uma parte específica delas. Era alguém que habitava à parte um velho e perdido compartimento do mundo natural. Ocupava um lugar que o Homem de há muito abandonara, se é que, de facto, alguma vez lhe pertenceu.

E ali estava ela sentada, com o vermelho e o dourado ardentes da borboleta pousados

no dedo, com o sentido de vigilância e de expectativa e, talvez, de mérito, brilhando-lhe no rosto. Estava bem viva, pensou Enoch, como coisa nenhuma, que ele soubesse, alguma vez

estivera.

A borboleta estendeu as asas, abandonou, voando, o dedo dela e seguiu, agitadamente,

despreocupada e sem receio, por sobre a erva bravia e os ásteres do campo.

Ela voltou-se e seguiu-a com o olhar para a ver desaparecer junto ao topo da colina até onde o velho campo subia, virando-se depois para Enoch. Sorriu e agitou as mãos, como o bater das asas vermelhas e douradas, mas havia nisso qualquer coisa mais uma sensação de felicidade e uma expressão de bem-estar, como se quisesse significar que tudo corria bem no mundo.

Se, ao menos, eu pudesse ensinar-lhe a pasigrafia da minha gente da galáxia, pensou Enoch então poderíamos falar, os dois, quase tão bem como com o fluxo de palavras da língua humana. Com tempo, podia não ser muito difícil, pois que a lingua de sinais galática obedecia a um processo natural e lógico que a tornava quase instintiva desde que se aprendesse o princípio base.

Também na Terra, nos primeiros tempos, existiram línguas por sinais, e nenhuma tão desenvolvida como a usada entre os aborígenes da América do Norte, de tal maneira que um Ameríndio, fosse qual fosse a sua língua, se podia exprimir entre muitas outra tribos.

Mas mesmo assim, a língua por sinais do índio era, quando muito, uma muleta que permitia a um homem coxear quando não podia correr. Enquanto que a da galáxia era, em si mesma, uma língua adaptável a muitos meios e métodos diferentes de expressão. Tinha sido desenvolvida através de milénios, com a contribuição de muita gente diferente, e tinha sido apurada, sacudida e polida durante os séculos, até se tornar, actualmente, um instrumento a serviço das comunicações, que se mantinha pelos seus méritos próprios.

Havia necessidade de um tal instrumento, porque a galáxia era uma verdadeira Torre de Babel. Nem mesmo a ciência de pasigrafia da galáxia, polida como estava, podia suplantar todos os obstáculos, nem garantir, em certos casos, o mínimo essencial de comunicações. Não só porque existiam milhões de línguas, mas também porque algumas não podiam operar segundo o princípio do som, visto que as respectivas raças eram incapazes da sua percepção. Até mesmo o próprio som era ineficaz quando determinada raça se exprimia por meio de ultra-sons que outras não podiam ouvir. Havia a telepatia, claro está, mas para todos os telépatas havia um milhar de raças que constituíam blocos telepáticos. Havia muitas que mantinham, habitualmente, apenas línguas por sinais e outras que só podiam comunicar por um sistema de escrita ou pictográfico, incluindo algumas que traziam dentro do corpo quadros químicos em que escreviam. E havia, ainda, a raça de invisuais, surdos e sem articulação verbal dos astros misteriosos do extremo da galáxia,

que usava o que, provàvelmente, era a mais complicada de todas as línguas galáticas um código de sinais conduzidos ao longo do seu sistema nervoso.

Enoch estava ao serviço há quase um século e, mesmo assim, pensava, com o auxílio da língua por sinais universal e do tradutor semântico, que pouco mais era do uma reles (embora complicada) invenção mecânica, ainda tinha dificuldade em saber, às vezes, o que muitos deles diziam.

Lucy Fisher pegou numa caneca que estava a seu lado enfeitada à moda com uma tira de casca de vidoeiro entrelaçada e mergulhou-a na nascente. Estendeu-a a Enoch que se aproximou, ajoelhando-se para beber. A caneca não estava bem vedada, pelo que a água lhe escorria pelo braço, molhando-lhe o punho da camisa e o casaco.

Acabou de beber de devolveu-a. Lucy tomou-a numa das mãos e estendeu a outra, para lhe afagar a fronte com as pontas dos dedos suaves, o que para ela significava uma bênção.

Ele manteve-se calado. Deixara há muito de lhe falar, por ter a sensação de que o movimento dos seus lábios, emitindo sons que ela não podia ouvir, de certo a chocaria.

Em vez disso, acariciou-lhe a face com a palma da mão num gesto demorado que pretendia siginificar uma reafirmação de afecto. Em seguida pôs-ser de pé e, após uma breve troca de olhares, voltou-se e seguiu caminho.

Atravessou o pequeno regato que corria da nascente, tomou o caminho que vinha da orla da floresta e atravessava o campo, seguindo em direcção ao topo da colina. A meio da encosta voltou-se e viu que Lucy o observava. Acenou-lhe num adeus, respondendo-lhe ela de igual modo.

Fora há doze anos ou mais, recordava-se, que a vira pela primeira vez, como um fadazinha de dez anos e, ao mesmo tempo, como um ente selvagem que corria pelos bosques. Só muito tempo depois se tornaram amigos, embora ele a visse com frequência, a vaguear pelas colinas e pelo vale, como se fossem o seu campo de recreio que o eram, efectivamente.

Tinha-a visto crescer, pelos anos fora, encontrando-a frequentemente nos seus passeios diários, e cimentando-se entre os dois, deste modo, um entendimento de que só os que vivem isolados e à margem dos outros são capazes, mas entendimento baseado em mais alguma coisa do que isso no facto de que cada um deles possuir um mundo muito seu, mundos esses que lhe abriram os olhos para qualquer coisa que os outros raramente viam. Não que qualquer deles tivesse alguma vez falado ao outro, ou tentado apenas falar, no seu mundo privado, mas a realidade desses mundos privados era um facto nas suas consciências, proporcionando-lhes firmes alicerces para sobre eles erguerem o edifício da sua amizade.

Lembrava-se do dia em que a vira no local onde cresciam os chorões, ali de joelhos e a olhar para eles, sem colher nenhum, e de como parara a seu lado e lhe agradara ver que ela não fizera tenção de colhê-los, sabendo que, ao olhá-los, encontravam ambos uma alegria e uma beleza intangível.

Chegou ao cimo do monte e desceu pela estrada coberta de erva que conduzia à caixa do correio.

Não se enganara, disse para consigo, independentemente do que lhe tivesse parecido à segunda vista. A asa da borboleta estivera despedaçada, amarfanhada e descolorida pela falta de pó. Fora uma coisa estropiada, de novo se recompusera totalmente e afastara-se voando.

8

Eram horas de Winslowe Grant aparecer.

Enoch, ao chegar à caixa do correio, olhou a poeira levantada pelo seu caminhar para a ver galopar pela crista do monte. Tinha sido um ano de seca, pensou. Chovera pouco, o que prejudicava as colheitas. Contudo, pra dizer a verdade, havia actualmente poucas plantações nos montes. Tempos houve em que existiam pequenas herdades acolhedoras ao longo da estrada, quase pegadas umas às outras, com os celeiros de cor vermelha e as casas brancas. Mas, agora, muitas das propriedades tinham sido abanadonadas, mesmo na sua maioria, e tanto as casas como os celeiros não eram já nem vermelhos nem brancos, mas tinham sim a cor cinzenta da madeira exposta ao tempo, com as vigas do telhado e vergar e vazias de gente.

Não tardaria muito que Winslowe chegasse e Enoch preparou-se para esperar. O carteiro podia ter-se detido junto à caixa de correio dos Fishers, ali ao virar da esquina, embora eles, em regra, recebessem pouca correspondência, na maioria panfletos de propaganda e outras coisas no género que eram enviadas indistintamente aos proprietários rurais. Não que isso interessasse aos Fishers, pois às vezes passavam-se dias sem que eles fossem levantar o correio. Se não fosse Lucy, talvez mesmo nunca o levantassem, visto que era ela quem normalmente, se lembrava de o ir buscar. Os Fishers eram, na realidade, uma família sem grandes recursos. Tinham a casa e todas as outras construções em estado de desabar sobre eles e cultivavam uma pequena leira de milho que era inundada, a maior parte das vezes, pelas cheias do rio. Ceifavam algum feno duma courela junto ao rio e tinham uma junta de cavalos magrizelas, meia dúzia de vacas pachorrentas e umas tantas galinhas. Tinham um chaveco de um automóvel e um alambique escondido algures na margem do rio, e caçavam, pescavam, montavam armadilhas e, geralmente, não tinham contas. Contudo, vistas bem as coisas, não eram maus vizinhos. Dedicavam-se ao seu trabalho e nunca incomodavam ninguém, a não ser quando, periòdicamente, davam uma volta pela vizinhança, todos juntos, distribuindo panfletos a favor de qualquer seita protestante desconhecida, de que Mãe Fisher se tornara membro numa reunião efectuada anos antes numa barraca de Millville.

Winslowe não parou na caixa dos Fishers, mas apareceu à esquina com o carro a fumegar e envolvido numa nuvem de pó. Parou-o e desligou o motor.

- Deixá-lo a arrefecer por um tempo disse ele.

O motor dava estalidos ao começar a arrefecer.

- Você hoje veio depressa - disse-lhe Enoch.

- Não houve correspondência para muita gente. Limitei-me a passar pelas suas caixas, sem parar.

Meteu a mão no saco que estava no assento ao lado do seu, e tirou um maço atado com um cordel para Enoch vários jornais e mais duas publicações diárias.

- Você recebe muita coisa, mas quase nunca cartas.

- Não me resta ninguém que queira escrever-me respondeu Enoch.

- No entanto, desta vez tem uma carta.

Enoch, sem conseguir disfarçar a sua surpresa, olhou e viu a ponta de um sobrescrito a aparecer entre os jornais.

- É uma carta particular e não das publicitárias disse Winslowe com satisfação. Nem de negócios.

Enoch colocou o maço debaixo do braço, ao lado da espingarda.

- Provàvelmente não será grande coisa disse ele.

- Talvez não disse Winslowe, com um brilho de astúcia no olhar.

Tirou da algibeira um cachimbo e a bolsa do tabaco, e pôs-se a enchê-lo vagarosamente. O motor continuava a estalar. O Sol caía a pino de um céu sem nuvens. A vegetação ao longo da estrada estava coberta de pó, e exalava um cheiro acre.

- Consta-me que o tal fulano da arália voltou disse Winslowe em ar de conversa, mas sem evitar um tom de confidência. Esteve ausente três ou quatro dias.

- Talvez tenha ido vender a colheita.

- Se quer que lhe diga, ele não anda à procura de arália, mas sim de outra coisa.

- Andou à procura dela bastante tempo.

- Antes de mais nada respondeu Winslowe é difícil encontrar mercado para ela; e

mesmo que se encontrasse, não existe arália alguma. Foi um bom mercado há uns anos. Os chineses utilizavam-na com fins medicinais, suponho. Mas agora não existe nenhum acordo com a China. Lembro-me de que quando era rapaz costumávamos ir à procura dela. Nem nesse tempo era fácil encontrá-la. Mas muitos dias conseguia-se encontrar um pouco.

Encostou-se no assento e, serenamente, puxou umas fumaças.

- É curioso o que se está a passar disse ele.

- Nunca vi o homem.

- Passa o tempo metido no bosque, a apanhar várias espécies de plantas. Tenho a

impressão de que talvez seja uma espécie de mago. Deve andar a apanhar material para as suas feitiçarias ou coisas do género. Passa muito do seu tempo a cavaquear com os Fishers e a beber do seu licor. Embora hoje já não se fale muito nisso, eu continuo a acreditar em magia. Há muita coisa que a ciência não consegue explicar. Repare, por exemplo, na filha dos Fishers, a muda, é capaz de fazer feitiço com os animais.

- Também me constou respondeu Enoch.

E mais do que isso, pensou. Também é capaz de pôr boa uma borboleta com as asas partidas.

Winslowe soergueu-se no assento e disse:

- Já me esquecia. Tenho mais qualquer coisa para si.

Apanhou do chão um embrulho de papel pardo e entregou-o a Enoch.

- Isto não é correio. É uma coisa que eu fiz para si.

- Muito obrigado disse Enoch, recebendo-o.

- Vá, abra-o.

Enoch hesitou.

- Cos diabos, não seja envergonhado.

Enoch rasgou o papel e eis que viu uma estatueta em madeira que o representava. Era feita de madeira amarela, cor de mel, com cerca de trinta centímetros de altura. Brilhava ao sol como cristal dourado. Representava-o a caminhar, com a espingarda debaixo do braço e caminhando contra o vento, a avaliar pela atitude ligeiramente vergada e pelas rugas no casaco e nas calças.

Enoch respirou fundo e quedou-se a contemplá-la.

- Os meus parabéns disse ele esta é a melhor peça trabalhada que já vi.

- Fi-la de um pedaço de madeira que você me deu o Inverno passado. Foi a melhor

madeira para talhar que até hoje me veio ter às mãos. Rija e quase sem grão nenhum. Não oferecia perigo de se partir, lascar, nem fragmentar. Pode fazer-se um corte onde se quiser que a javalha não se desvia, e a superfície de corte fica brilhante. Basta esfregá-la

um pouco, e nada mais.

- Você não sabe quanto isto representa para mim disse Enoch.

- Durante anos, você tem-me dado enormes quantidades de madeira. Diversas

qualidades dela que nunca ninguém viu. Todas de primeira qualidade e lindas. Já era

tempo de eu lhe trazer qualquer coisa.

- E você tem feito muito por mim, trazendo-me encomendas da vila.

- Enoch disse Winslowe gosto de si. Não sei o que faz nem vou perguntar-lho; mas, de qualquer maneira, gosto de si.

- Gostaria de poder contar-lhe o que faço respondeu Enoch.

- Bem disse Winslowe, sentando-se ao volante não me interessa muito o que cada

um de nós é, desde que nos entendamos bem. Se algumas das nações aprendessem a lição de boa vizinhança como a nossa lição de como se entenderem o mundo seria muito melhor.

Enoch apoiou com a cabeça, com um ar grave. E não parece estar muito bem, pois não?

- Com certeza que não disse o carteiro ponto o motor a trabalhar.

Enoch deixou-se ficar, a ver o carro desaparecer ao fundo da encosta, levantando uma nuvem de poeira ao passar.

Depois olhou outra vez para a sua estatueta em madeira.

Aquela figura parecia caminhar no cimo de um morro, à mercê da violência do vento e vergado para se proteger da tempestade.

Porque? Gostaria de saber. Que teria visto nele o carteiro para o retratar como se caminhasse ao vento?

9

Pousou a espingarda e o correio sobre a relva poeirenta e, cuidadosamente, voltou a embrulhar a estatueta no papel. Tinha resolvido pô-la sobre o fogão de sala ou, talvez ainda, na mesinha de café que estava ao lado da sua cadeira preferida, no canto ao pé da secretária. Queria tê-la, admitiu, algo perturbado, sempre à mão, onde pudesse vê-la e agarrá-la sempre que lhe apetecesse. E ficou maravilhado com o profundo prazer, que lhe tocava o coração e enchia a alma, que a oferta do carteiro lhe proporcionara.

Não era, sabia-o bem, que raramente recebesse presentes. Mal passara uma semana sobre o dia em que os estranhos viajantes lhe deixaram vários. Tinha a casa numa grande confusão, e na cave havia já uma parede coberta de prateleiras a abarrotar de coisas que lhe haviam oferecido. Talvez fosse, disse para consigo, pelo facto de aquele ser um presente da Terra, de alguém de sua espécie.

Meteu a estatueta debaixo do braço, pegou na espingarda e no correio, e pôs-se a caminho de casa, seguindo pela vereda coberta de ervas que fora, em tempos, a estrada da diligência que conduzia à herdade.

A erva crescera formando tufos cerrados entre os antigos sulcos, que tinha sido cavados tão fundo na argila pelas rodas revestidas de ferro das diligências daquele tempo, que eram ainda um pedaço de terra nua e batida, apenas, na qual planta alguma conseguira, até agora, criar raízes. Mas, de ambos os lados o matagal, invadindo o campo desde a orla da

floresta, era da altura de um homem ou mais, de tal modo que, ao passar por ali agora, se caminhava entre alas de verdura.

- Mas em determinados pontos, dum modo inexplicável talvez devido à natureza do solo ou a meros caprichos da natureza a altura do matagal tinha diminuido, chegando a ver-se daí todo o panorama desde o topo da colina até ao vale do rio.

Foi de um desses pontos de posição vantajosa que Enoch viu brilhar por um instante qualquer coisa junto de um grupo de árvores na berma do velho campo, não muito longe da nascente onde tinha encontrado Lucy. Franziu o sobrolho ao ver aquele reflexo e quedou-se no caminho esperando que se repetisse. Mas nada aconteceu.

Era um dos observadores, bem o sabia, servindo-se de um binóculo para vigiar a estação. O que ele vira fora o reflexo do sol nas lentes.

Quem estaria ali? E porque andariam a vigiá-lo? Aquilo já durava havia algum tempo mas naquela altura, e o que era estranho, limitavam-se a observá-lo. Não houvera qualquer interferência. Ninguém tentara aproximar-se dele e, a seu ver, essa aproximação teria sido bastante simples e natural. Se o quisessem, poderiam provocar um encontro casual durante qualquer dos seus passeios matinais.

Mas, aparentemente, ainda não lhes tinha apetecido conversar.

Então, que pretenderiam eles fazer? Pensava. Manterem-se-lhe na peugada, talvez. E, sendo assim, já se podiam ter posto ao corrente do seu género de vida, logo nos dez primeiros dias em que o observaram.

Ou talvez estivessem à espera que acontecesse alguma coisa que lhes pudesse dar uma ideia do que ele fazia. E, nesse sentido, esperava-os apenas uma certa decepção. Podiam observá-lo durante mil anos que continuariam sem nada saber.

Afastou-se do miradouro e seguiu estrada acima vagarosamente, preocupado e intrigado pela presença dos observadores.

Talvez não tivessem ainda tentado contactá-lo, pensou, por causa de certas histórias que deviam constar a seu respeito. Histórias essas de que ninguém, nem mesmo Winslowe, lhe falaria. Gostaria de saber que género de histórias teria sido a vizinhança capaz de inventar a seu respeito, até agora histórias fabulosas para serem contadas em sussurro à lareira?

Podia ser um bem para ele não conhecer as histórias, pensou, embora fosse quase certo que existiam. E também podia ser um bem para ele que os observadores não tivessem tentado contactá-lo. Porque enquanto não o fizessem ainda ele estava razoàvelmente seguro. Enquanto não fizessem perguntas não havia necessidade de respostas.

Você é, realmente, o mesmo Enoch Wallace que marchou a combater a favor do velho Abe Lincoln, em 1861? Perguntar-lhe-iam. E a resposta podia ser uma só. Sim, sou o mesmo homem.

Essa era a única pergunta, de quantas lhe fizessem, a que podia responder com verdade. Para todas as outras haveria, necessàriamente, silêncio ou evasiva.

Iriam perguntar-lhe como era possível que não tivesse envelhecido como tinha podido manter-se jovem quando toda a humanidade envelhecia. E não podia explicar-lhes que não envelhecia dentro da estação, que isso só acontecia quando saía à rua, que envelhecia uma hora por dia nos seus passeios diários, que podia envelhecer cerca de uma hora a trabalhar na horta, e cerca de quinze minutos sentado nos degraus da escada para apreciar um belo pôr de sol. Mas que, assim que voltava e entrar em casa, o processo de envelhecimento era totalmente eliminado.

Não lhes podia dizer isso. E havia muito mais que ele não podia dizer-lhes. Podia chegar a altura, uma vez que entrassem em contacto com ele, que teria de evitar as perguntas e cortar por completo as suas relações com o mundo, mantendo-se isolado entre as paredes da estação.

Tal procedimento não lhe traria incómodo físico algum, porque podia viver dentro da estação sem qualquer inconveniente. Não teria necessidade de nada porque os estranhos viajantes lhe forneceriam tudo de que precisasse para se manter vivo e bem. Comprava de vez em quando comida da que os humanos comem, encomendando-a da vila por intermédio de Winslowe, mas apenas porque sentia um grande desejo de comida do seu planeta, em especial daqueles alimentos simples da sua infância e dos seus dias de campanha.

E até mesmo esses alimentos podiam ser fornecidos pelo processo de duplicação. Um naco de presunto ou uma dúzia de ovos podiam ser enviados para outra estação e aí ficar, como modelo padrão para a emissão de impulsos análogos, que lhe seriam enviados a pedido, à medida que deles necessitasse.

Mas havia uma coisa que os estranhos viajantes lhe não podiam proporcionar os contactos humanos que ele mantivera através de Winslowe e do correio. Uma vez encerrado na estação, estaria completamente desligado do mundo que conhecia, cujo contacto mantinha sòmente através dos jornais e das revistas. Uma telefonia não tinha possibilidade de funcionar dentro da estação por causa da interferência motivada pelas instalações.

Passaria a não saber o que acontecesse no mundo, já não teria conhecimento de como iam as coisas lá fora. O seu mapa sofreria com isso e tornar-se-ia inútil, em grande parte; muito embora, disse para consigo, já fosse quase inútil nessa altura, na medida em que não tinha a certeza da aplicação correcta dos factores.

Mas a par de tudo isto, sentiria a falta daquele pequeno mundo exterior que conhecia tão bem, aquele cantinho do mundo tão extenso que cabia nos seus passeios. Foram eles, talvez mais do que nenhuma outra coisa, que o mantiveram humano e cidadão da Terra.

Perguntou a si mesmo até que ponto era importante que ele se mantivesse, intelectual e emocionalmente, como um cidadão da Terra e um elemento da raça humana. Talvez não houvesse razão para que assim fosse, pensou. Com o cosmopolitismo da galáxia ao seu alcance, podia, até, ser uma atitude provinciana da sua parte o estar tão decidido em continuar a identificar-se com o velho planeta de origem. E podia ficar a perder com isso.

Mas não era com ele voltar as costas à Terra. Era um lugar que ele amava demasiado muito provàvelmente mais que aos outros seres humanos que não tinham conseguido, como ele, um vislumbre de mundos distantes e nunca supostos. Um homem, disse para consigo, deve pertencer a alguma coisa, tem necessidade de ser leal e de se identificar. A galáxia era grande demais para que qualquer ser pudesse permanecer nela, indefeso e só.

Uma cotovia saltou da relva e levantou voo elevando-se no céu a grande altura; ao vê-la, esperou que o trinado de uma canção doce brotasse daquela garganta e caísse do azul. Mas não houve canção alguma, como teria havido na Primavera.

Seguiu estrada abaixo até que viu à sua frente, colocada no topo do monte, a estação em toda a sua rigidez.

Era curioso que pensasse nela como estação e não como sua casa; mas, de facto, era estação há mais tempo do que tinha sido casa.

Havia nela uma feia solidez, como se se tivesse plantado no cimo da colina e tencionasse aí ficar para sempre.

Ficaria, com toda a certeza, se alguém assim o quisesse e pelo tempo que se quisesse. Nada poderia atingi-la.

Mesmo que algum dia fosse forçado a permanecer dentro das suas paredes, a estação continuaria inacessível aos olhares da humanidade e à sua curiosidade.

Não poderiam arrombá-la, perfurá-la nem demoli-la. Nada poderiam fazer. Toda a curiosidade, especulação e análise não trariam ao Homem mais nada que não fosse o conhecimento da existência de um edifício, deveras invulgar, no alto da colina. Porque podia resistir a tudo, com excepção de uma explosão termonuclear e, talvez, mesmo a isso.

Entrou no pátio e voltou-se para olhar para trás, na direcção do grupo de árvores donde partira o reflexo instantâneo que vira, mas não viu nada que pudesse indicar a presença de alguém.

10

Dentro da estação, o receptor de mensagens assobiava dolorosamente.

Enoch pendurou a espingarda, colocou o correio e a estatueta sobre a secretária e atravessou a sala a correr em direcção ao receptor.

Carregou no botão, premiu o manípulo e o ruído parou. Leu então no visor:

NO. 406.302 PARA ESTAÇÃO 18327. CHEGAREI AO PRINCÍPIO DA TARDE PELA VOSSA HORA. TENHA O CAFÉ QUENTE. ULYSSES.

Enoch sorriu. Ulysses e o seu café! Era o único de entre aqueles estranhos que tinha apreciado algum dos alimentos ou das bebidas da Terra. Outros houve que os provaram, mas só uma ou duas vezes.

Aquilo com Ulysses teve a sua graça. Gostaram um do outro de entrada, desde aquela tarde de tempestade em que estiveram sentados nos degraus da escada, e em que a máscara de forma humana se lhe soltou da cara.

Era um rosto medonho, sem graça e repulsivo. O rosto de um palhaço cruel, pensou ele na altura. E ficou a maginar no motivo daquela comparação, mal a tinha pensado, até porque os palhaços nunca eram cruéis. Mas ali estava um que podia sê-lo com o colorido remendado do rosto, o brutal e cerrado par de mandíbulas e o corte delgado da boca.

Depois viu-lhes os olhos, e foi como se o resto não existisse. Eram grandes, tinham tal suavidade e um tal brilho de compreensão e, ao olharem-no, exprimiam o mesmo sentimento que qualquer outro ser podia exprimir estendendo-lhe as mãos, em sinal de amizade.

A chuva viera uivando pelo campo fora fazendo ouvir o seu matraquear no telhado da barraca e caindo, em seguida, sobre eles, em rajadas oblíquas que martelavam com violência a poeira que cobria o pátio, enquanto as galinhas, apanhadas de surpresa e salpicadas de lama, corriam frenèticamente à procura de abrigo.

Enoch pôs-se de pé num ápice e agarrou o outro pelo braço, puxando-o para debaixo do alpendre.

Ali ficaram de pé, a olharem um para o outro quando Ulysses deitou as mãos à mascara e a fez tombar, mostrando uma cabeça esférica sem um único cabelo e o rosto pintado. O rosto de um índio selvagem, pintado para uma cerimônia guerreira, com excepção de que aqui e ali havia traços de palhaço, como se todo o trabalho de pintura tivesse sido levado a cabo para realçar o inconsciente ridículo da guerra. Mas mesmo ao fitá-lo admirado, Enoch sabia que não se tratava de pintura, mas da coloração natural daquele ente que viera de algures, entre os astros.

Para além das dúvidas que pudesse haver ou do que se pudesse pensar, Enoch não tinha dúvida alguma que aquele estranho ser não era da Terra. Não era humano. Podia apresentar-se em forma humana, com dois braços e duas pernas, com uma cabeça e um rosto. Mas havia nele um quê de inumano, quase uma negação do humano.

Talvez outrora, pensou, pudesse ter havido demónios; mas ia longe o tempo (embora isso se não verificasse nalgumas regiões da província) em que se acreditava em demónios, em fantasmas ou em quaisquer outros seres da tribo do terror que, na imaginação do homem, tinham um dia andado pela Terra.

Tinha vindo dos astros, dissera ele. E talvez assim fosse. Contudo, não fazia sentido. Nunca ninguém o imaginara, mesmo na mais elementar fantasia. Não havia nisso nada a que nos agarrarmos, nada que sustentasse essa ideia. Nada havia de concreto nem de positivo. Deixava um espaço vazio no curso do pensamento que, num futuro, podia vir a ser preenchido, mas que, presentemente, não era mais que um túnel de inquietante assombro que que se prolongava no espaço e no tempo.

- Não se precipite disse o estranho. Eu sei que não é fácil. E não posso fazer nada para o facilitar. Além disso, não tenho processo de provar que venho das estrelas.

- Mas você fala tão bem.

- Na sua língua, quer você dizer. Não foi muito difícil. Bastava você ter conhecimento de

todas as línguas que se falam na galáxia para compreender porque não foi muito difícil. A

sua língua não é complicada. É elementar, e há muitos conceitos com que não tem necessidade de jogar.

Era razoável, no parecer de Enoch.

Se assim o desejar, posso ausentar-me para qualquer lado por um dia ou dois, para dar- lhe tempo a que pense. Voltaria então. Nessa altura já se teria decidido.

Enoch teve um sorriso pateta, que lhe provocou uma sensação estranha no rosto.

- Isso dar-me-ia tempo para espalhar o alarme pela região disse ele. Poderia ter uma emboscada à sua espera.

O outro sacudiu a cabeça. Tenho a certeza de que de que não o faria. Correrei esse risco. Se quiser eu

- Não respondeu Enoch, com tal calma que até ele se surpreendeu. Não, quando

temos que encarar de frente uma coisa, há que encará-la. Aprendi isso na guerra.

- Sei que o fará. Sei que o fará como deve ser. Não me enganei a seu respeito, e sinto-me orgulhoso por isso.

- Enganar-se a meu respeito?

- Você não vai pensar que entrei aqui ao acaso. Sei muito a seu respeito, Enoch, Talvez tanto como você, ou ainda mais.

- Sabe o meu nome?

- Claro que sei.

- Pois bem. E quanto ao seu?

- Você deixa-me deveras embaraçado respondeu-lhe o outro. Não tenho o que se

possa chamar um nome. É certo que a identificação se enquadra no uso da minha raça, mas nada que se possa exprimir em linguagem.

Sùbitamente, e sem razão alguma, Enoch recordou aquela figura vergada sobre um vedação, com um cajado numa das mãos e uma navalha na outra, aparando-o plàcidamente, enquanto os projectéis dos canhões lhe assobiavam por cima da cabeça, e a menos de um quilómetro de distância os arcabuzes ribombavam e estalejavam na nuvem de fumo da pólvora que se erguia sobre a linha de batalha.

- Sendo assim, você precisa de ter um nome por que possa chamá-lo disse ele e esse nome será Ulysses. Tenho que chamar-lhe qualquer coisa.

- Estou de acordo disse o estranho. Mas, poderei perguntar-lhe porquê o nome de Ulysses?

- Porque é o nome de um grande homem da minha raça.

Era disparatado, claro está. Não havia qualquer parecença entre ambos aquele general vergado, da União, que aparava o cajado, debruçado sobre a vedação, e este outro, de pé no alpendre.

- Agrada-me que o tenha escolhido. Soa-me a digno e nobre, e terei prazer em usá-lo

entre nós os dois. Eu passarei a tratá-lo por Enoch, como amigos que se tratam pelo primeiro nome, porque iremos trabalhar juntos por muitos anos de sua vida.

Começava a compreender agora e vacilava ao pensar nisso. Talvez por ser tudo tão confuso, não tivesse compreendido imediatamente.

Talvez disse Enoch tentando afastar a ideia que se apossva dele com excessiva rapidez pudesse oferecer-lhe qualquer coisa para tomar. Posso fazer-lhe café

- Café disse Ulysses, dando um estalido com os lábios. Você tem café?

- Vou fazer uma grande cafeteira dele. Vou deitar-lhe um ovo para dentro para o aclarar

- Estupendo. O café é a melhor das bebidas que tomei em todos os planetas que tenho visitado.

Entraram na cozinha. Enoch espertou as brazas no fogão e pôs mais lenha. Pegou na

cafeteira, deitou-lhe água do cântaro e pô-la a ferver. Foi à despensa buscar ovos e desceu

à cave para buscar presunto.

Ulysses, sentado muito direito na cadeira da cozinha, observava-o enquanto trabalhava.

- Come presunto e ovos? perguntou Enoch.

- Como de tudo. A minha raça é de fácil adaptação. Foi por essa razão que me enviaram

a este planeta como que nome lhe dão vocês? batedor, se não estou em erro.

- Explorador sugeriu Enoch.

Era fácil conversar com ele, disse Enoch para consigo era quase como se falasse com outra pessoa, embora, só Deus sabe, se parecesse muito pouco com uma pessoa. Em vez disso, parecia uma ultrajante caricatura de um ser humano.

- Você vive nesta casa há muitíssimo tempo. Já lhe tem afeição.

- Tem sido a minha casa desde que nasci respondeu Enoch. Estive ausente durante quase quatro anos, mas nunca deixou de ser a minha casa.

- Também eu terei prazer em voltar para a casa. Há muito tempo que já estou ausente. Numa missão como esta, demora-se sempre muito tempo.

Enoch pousou a faca que utilizara para cortar uma fatia de presunto e deixou-se cair pesadamente numa cadeira. Fixou Ulysses, sentado do outro lado da mesa.

- Você? perguntou. Você vai para casa?

- Claro que sim respodeu Ulysses. Agora que a minha tarefa está quase concluída. Eu tenho uma casa. Pensou que não tivesse?

E assim era. Nunca lhe ocorrera ligar um ser como aquele à ideia de lar. Porque só os seres humanos tinham um lugar a que davam o nome de lar.

- Qualquer dia falar-lhe-ei da minha casa. Um dia, poderá mesmo visitar-me.

- Lá longe, entre as estrelas disse Enoch.

- Agora parece-lhe estranho. Levará um certo tempo a habituar-se à ideia. Mas, à

medida que nos for conhecendo a todos nós você compreenderá. E espero que goste de

nós. Não somos más pessoas, pode crer. Nenhuma das nossas várias espécies.

As estrelas, disse Enoch para consigo, existiam lá longe na solidão do espaço, e nem sequer fazia ideia da distância a que se encontravam, do que eram nem da sua razão de ser. Eram um outro mundo ou antes, muitos outros mundos. Viviam lá pessoas, talvez mesmo muitas outras pessoas; provàvelmente, um tipo diferente de gente para cada estrela diferente. E mesmo ali, naquela cozinha, estava sentado um deles, à espera que a cafeteira fervesse, e que se fritasse o presunto e os ovos.

- Mas porquê? perguntou. Mas porquê?

- Porque somos um povo que viaja respondeu Ulysses. Precisamos aqui de uma

estação. Queremos transformar esta casa numa estação e que seja você a tomar conta

dela.

- Esta casa?

- Não podíamos construir uma estação porque, se o fizéssemos, teríamos gente a

indagar sobre quem a construía e com que fim. Assim, somos forçados a aproveitar uma construção já existente e a transformá-la segundo as necessidades. Mas sòmente o interior. Deixamos a parte exterior tal como está, isto é, no seu aspecto. Porque não deve suscitar perguntas. Não deve

- Mas viajar

- De estrela para estrela disse Ulysses. Faz-se mais depressar do que pensá-lo. É

mais rápido do que um piscar de olhos. Há aquilo a que vocês chamam maquinismos, mas

não o são no sentido que lhes atribuem.

- Terá de desculpar-me disse Enoch, confuso. Mas parece-me de tal modo impossível.

- Lembra-se de quando trouxeram a via férrea até Millville?

- Sim, recordo-me disso. Era ainda uma criança.

- Então pense assim. Isto é precisamente outra linha férrea e a Terra é apenas outra

cidade, pelo que esta casa será a estação para a nova linha. A única diferença está em que

na Terra, só você saberá da sua existência. Até porque ela não será mais do que um ponto de descanso e desvio. Ninguém na Terra poderá comprar bilhetes para viajar nessa linha.

Postas as coisas deste modo tomavam, claro está, um aspecto muito simples; mas, estavam longe de o ser, pressentia Enoch.

- Vagonetas no espaço? perguntou.

- Não são vagonetas, são uma outra coisa. Não sei como começar por explicar-lhe

- Talvez seja melhor escolher outra pessoa. Alguém que possa compreender.

- Não há ninguém neste planeta que de longe possa compreender. Não, Enoch,

trataremos tão bem do assunto consigo como com qualquer outro. Em muitos aspectos, melhor do que com qualquer outro.

- Mas

- O que é, Enoch?

- Nada.

Lembrava-se agora de ter estado sentado nos degraus a pensar em como se encontrava só e acerca de como começar de novo, sabendo que não podia fugir a recomeçar, que devia começar por esgaravatar e construir a sua vida de novo.

E eis que de repente, lhe surge esse novo começo mais assombroso e temível do que tudo quanto pudesse ter sonhado, mesmo num momento insano.

11

Enoch arquivou a mensagem e enviou a confirmação:

NO. 406302 RECEBIDO. CAFÉ AO LUME.

ENOCH.

Limpando o visor, dirigiu-se para o tanque de líquido No. 3 que preparara antes de sair. Verificou a temperatura e o nível da solução, e certificou-se uma vez mais de que o tanque estava devidamente colocado em relação ao materializador.

Daí dirigiu-se para o outro materializador, o oficial e de emergência, colocado ao canto, e verificou-o cuidadosamente. Estava bem, como de costume. Estava sempre bem, mas nunca deixava de o verificar antes de cada visita de Ulysses. Nada poderia fazer se alguma coisa estivesse mal, além de enviar uma mensagem urgente para a Central Galática. Num caso desses, viria alguém no materializador para repará-lo.

Porque o materializador oficial e de emergência era precisamente o que o seu nome indicava. Era utilizado apenas em visitas oficiais do pessoal da Central Galática ou em possíveis emergências, sendo o seu funcionamento absolutamente independente da estação local.

Ulysses, como inspetor desta e de muitas outras estações, podia ter utilizado o materializador oficial sempre que quisesse e sem aviso prévio. Mas, durante os anos que

viera à estação, e Enoch recordava-o com uma pontinha de orgulho, nunca deixara de prevenir que chegava. Era uma atenção que não dispensavam a todas as outras estações da grande rede galática, embora algumas delas pudessem receber tratamento igual.

Nessa noite, pensou, iria provàvelmente contar a Ulysses a vigilância a que a estação estava sendo sujeita. Talvez já o devesse ter feito mais cedo, mas tivera relutância em admitir que a raça humana pudesse ser um problema para a instalação galática.

Já não tinha esperança na sua obsessão de querer apresentar a gente da Terra como boa e razoável; talvez não tivessem atingido ainda a total maturidade. Era uma gente esperta e activa e, por vezes, compassiva, mesmo compreensiva, mas que falhava lamentàvelmente em muitos outros aspectos.

Se lhes dessem uma oportunidade, se os deixassem entrar no assunto, se, ao menos, lhes dissessem o que havia no espaço, então eles despertariam e pôr-se-iam a um nível superior e, com o decorrer do tempo, viriam a ser admitidos na grande confraria da gente das estrelas.

Uma vez admitidos, provariam o seu valor e marcariam posição, por serem ainda uma raça jovem e cheia de energia por vezes, talvez mesmo com demasiada energia.

Enoch abanou a cabeça e atravessou a sala, indo sentar-se à secretária. Puxando o maço do correio para s sua frente, tirou-lhe o cordel de que Winslowe se servira para o atar.

Havia os jornais diários, uma revista semanal, duas outras publicações a Nature e a Science e a carta.

Empurrou os jornais e as revistas para o lado e pegou na carta. Era uma carta de avião como carimbo de Londres, trazendo no remetente um nome que não lhe era familiar. Ficou intrigado, a pensar por que razão lhe escrevia, de Londres, um desconhecido. Contudo, considerou, quem quer que lhe escrevesse de Londres ou de qualquer outro sítio, seria sempre um desconhecido. Ele não conhecia ninguém em Londres nem em qualquer outro ponto do globo.

Abriu a carta e desdobrou-a à sua frente, sobre a secretária, puxando para perto o candeeiro, de modo a fazer incidir a luz sobre o papel.

Leu: Caro senhor, creio que não me conhece. Sou um dos vários editores do jornal inglês “Nature”, de que o senhor é assinante de há muitos anos a esta parte. Não utilizo papel timbrado do jornal, por ser esta carta particular e não oficial e, por outro lado, nem mesmo muito agradável.

Talves lhe interesse saber que o senhor é o nosso mais antigo assinante. O seu nome figura na nossa lista de assinante há mais de oitenta anos.

Embora tenha a consciência de que isso não me diz pròpriamente respeito, gostaria de saber se foi o senhor, pessoalmente, quem assinou a nossa publicação durante todo este tempo, ou se é possível ter sido o seu pai ou alguem de sua família o assinante inicial, tendo o senhor, simplesmente, deixado que a assinatura continuasse em nome dele.

O meu interesse constitui, sem dúivida, uma curiosidade injustificada e indesculpável, pelo que o senhor está no seu direito de ignorar a pergunta, se assim o desejar, o que será absolutamente justo. Mas, se quiser ter a amabilidade de me responder, ficar-lhe-ei muito agradecido.

Posso alegar, apenas, em minha defesa, o facto de estar ligado à nossa publicação há tanto tempo, que sinto um certo orgulho por saber que alguém achou valer a pena assiná-la por mais de oitenta anos. Duvido que muitas publicações possam gabar-se de ter mantido um tão prolongado interesse da parte de qualquer pessoa.

Com os protestos do meu maior respeito.

Atenciosamente.

E depois a assinatura.

Enoch afastou a carta para longe.

Cá voltamos nós ao mesmo, disse para consigo. Mais um observador, embora discreto e delicado, sem dar a impressão de querer criar problemas.

Mas era mais um que tinha reparado, alguém que sentira uma ponta de curiosidade pelo facto do mesmo homem assinar uma revista por mais de oitenta anos. E haveria cada vez mais, à medida que os anos fossem passando. Não tinha que se preocupar apenas com os observadores escondidos fora da estação, mas também com os outros que o eram em potência. Um homem podia fazer os possíveis para passar despercebido que, mesmo assim, não conseguia esconder-se. Mais cedo ou mais tarde, o mundo daria por ele e viria uma multidão postar-se à sua porta, impaciente por saber porque se escondia.

Não valia a pena, sabia-o, ter esperança por muito mais tempo. O mundo apertava-lhe o cerco.

Porque não me deixam em paz?, pensou. Se, ao menos, pudesse explicar-lhes a situação, talvez o deixassem sossegado. Mas não podia esplicar-lhes. E, ainda que pudesse, nem todos, mesmo assim, lhe deixariam a porta.

No outro extremo da sala soou o besouro do materializador, a chamar a atenção, o que sobressaltou Enoch.

O Thuban tinha chegado. Estava no tanque, como uma bolha escura e globular de

matéria e, por cimo dele, flutuando na solução, via-se um cubo de qualquer coisa.

Podia ser a bagagem, pensou Enoch. Mas a mensagem dizia que não haveria bagagem.

Precisamente na altura em que se precipitava pela sala, chegou-lhe aos ouvidos o estalido habitual Era o Thuban a falar-lhe.

- Um presente para si disse ele .Vegetação morta.

Enoch espreitou para o cubo que flutuava no líquido.

- Tome. Trouxe-o para si disse o Thuban.

Desajeitadamente, Enoch respondeu, tamborilando com os dedos na parede de vidro do tanque: - Os meus agradecimentos, amável senhor. E, ao dizê-lo, ficou na dúvida se teria usado a forma apropriada de se dirigir àquela bolha de matéria. Qualquer pessoa podia ficar terrìvelmente embaraçada, no respeitante a essa questão particular de etiqueta. Havia alguns daqueles seres a que devia dirigir-se em linguagem adornada (variando ainda os adornos de caso para caso) e outros a quem falava nos termos mais simples e rudes.

Meteu a mão no tanque e tirou o cubo, reparando que era um bloco de madeira pesada, negra como o ébano e com os veios tão unidos que mais parecia uma pedra. Sorriu ao pensar como, tendo escutado a explicação de Winslowe, se tornara um perito na apreciação da madeira, do ponto de vista artístico.

Colocou-a no chão e voltou para o tanque.

- Importa-se de me dizer o que vai fazer com ela? Para nós, é um material muito útil.

Enoch hesitou, procurando desesperadamente recordar-se do sinal de código para “esculpir”.

- E, então inquiriu o Thuban.

- Terá que desculpar-me, amável senhor. Não utilizo esta linguagem com frequência e, como tal, não me exprimo com facilidade.

- Por favor, ponha de parte o “amável senhor”. Sou um ser vulgar.

- Dar-lhe forma tamborilou Enoch Dar-lhe uma forma diferente. O senhor vê? Então mostro-lhe uma.

- Não sou visual disse o Thuban. Sou muitas outras coisas, mas não visual.

- Era esférico quando chegou, e agora principiava a achatar-se.

- Você é um ser bípede disse o Thuban.

- Sou, realmente.

- E o seu planeta. É um planeta sólido?

“Sólido?”, pensou Enoch a si mesmo. “Ah, sim, sólido em oposição ao líquido”.

- Uma quarta parte é sólida respondeu. O resto é líquido.

- O meu é quase todo líquido. Só uma pequenina parte é sólida. É um mundo muito sossegado.

- Quero perguntar-lhe uma coisa.

- Pergunte.

- O senhor, ou melhor, os senhores são matemáticos?

- Sim. É um excelente entretenimento. Mantém o espírito ocupado.

- Quer dizer que não a utilizam?

- Oh, sim, utilizámo-la em tempos. Mas já não precisamos de utilizá-la mais. Temos tudo de que necessitávamos, há muito tempo. Agora serve de entertenimento.

- Tenho ouvido falar do vosso sistema de notação numérica.

- É muito diferente disse o Thuban. É um conceito muito melhor.

- Pode explicar-mo?

- Conhece o sistema de notação usado pelos habitantes do Polaris VII?

- Não, não conheço respondeu Enoch.

- Sendo assim, não há interesse algum em falar-lhe do nosso. Devia conhecer primeiro o do Polaris.

E era tudo, pensou Enoch. Já devia saber. Havia tantos conhecimentos na galáxia de que ele sabia tão pouco, compreendendo muito pouco do pouco que sabia.

Havia homens na Terra que fariam sensação com isso. Homens que dariam anos de vida para saber o pouco que ele sabia, e que poderiam servir-se de tudo isso.

Existia lá longe entre as estrelas um sólido conjunto de conhecimentos, constituindo uns uma ampliação do que a humanidade conhecia, dizendo outros respeito a assuntos com que o homem não sonhara ainda, e que eram utilizados em processos e com finalidades que o homem ainda não concebera. E nunca poderia conceber, se fosse abandonado a si mesmo.

Outros cem anos, pensou Enoch. Quanto aprenderia ele noutros cem anos? Ou mesmo noutros mil?

- Agora vou descansar disse o Thuban. Tive muito prazer em conversar consigo.

12

Enoch afastou-se do tanque e apanhou o bloco de madeira. No chão, brilhava uma pequenina poça do líquido que escorrera dele.

Atravessou a sala com ele em direcção a uma das janelas, para o examinar. Era pesado, negro e de veio apertado e, a um canto, tinha ainda um pedaço de casca. Tinha sido serrado. Alguém o cortara ao tamanho para caber no tanque em que descansava o Thuban.

Recordou um artigo que lera um dia ou dois antes, num jornal diário, no qual um cientista afirmava que nenhuma grande inteligência se podia desenvolver num mundo líquido.

Mas esse cientista estava enganado, atendendo ao desenvolvimento da raça Thuban e ao facto de existirem outros mundos líquidos que eram membros da comunidade galática. Havia muita coisa que o homem teria que desaprender, bem como outras que aprender, se alguma vez se inteirasse da cultura galática.

A limitação da velocidade da luz, por exemplo.

Porque, se nada se movesse mais rápido do que a velocidade da luz, então o sistema de transporte galático seria impossível. Mas não se devia censurar o Homem, lembrou, por ter estabelecido a velocidade da luz como uma limitação básica. As observações eram para o Homem como para qualquer outro, quanto a isso tudo quanto podia utilizar como dados sobre que assentar as suas premissas.

E desde que a ciência humana não descobrira nada, por enquanto, que seguramente se

deslocasse a uma velocidade maior que a da luz, era válida a suposição de que nada podia

deslocar-se a uma velocidade superior a essa. Mas válida apenas como uma suposição, e nada mais.

Os modelos de impulso que transportavam as criaturas de estrela para estrela eram quase instantâneos, independentemente da distância.

E ali ficou a pensar no assunto, tendo de admitir que, na realidade, ainda era difícil para qualquer pessoa acreditar nisso.

Momentos antes, a criatura que estava ali repousara em outro tanque numa outra estação, tendo o materializador reconstruído o seu modelo não apenas do corpo como até mesmo da sua força vital, daquilo que lhe dava vida. Em seguida, o ciclo de impulsos percorrera os abismos espaciais quase instantânemente até atingir o recipientes daquela estação, onde o modelo fora utilizado para reconstituir o corpo, a mente, a memória e a vida daquele ser que agora jazia morto a muitos anos-luz de distância. E no tanque, o novo corpo e o novo espírito, memória e vida, tomaram uma forma quase instantânea um ser completamente novo, mas absolutamente como o antigo de tal modo que se mantinha a identidade e a consciência (tendo, o pensamento, sido interrompido apenas momentâneamente), a ponto de, para todos os efeitos, a criatura ser absolutamente a mesma.

Havia limitações para os modelos de impulso, mas que não tinham nada que ver com a velocidade, porque podiam atravessar a galáxia de extremo a extremo num muito curto intervalo de tempo. Mas, em certas circunstâncias, os modelos tendiam a desintegrar-se e daí a necessidade de haver muitas estações muitos milhares delas. As nuvens de poeira ou de gases, ou ainda as zonas de alto grau de ionização, pareciam desmembrar os modelos, pelo que nos sectores da galáxia onde se verificavam estas condições os intervalos entre as estações tinham sido consideràvelmente encurtados para manter a fidelidade do modelo-tipo. Havia regiões que tinham de ser contornadas em consequência das distorções causadas pela grande concentração de gases e poeira.

Enoch perguntou a si mesmo quantos corpos do ser que repousava agora no tanque teriam ficado noutras estações do percurso tal como aquele corpo dentro de poucas

horas iria jazer morto no tanque, logo que o seu modelo fosse enviado de novo, através das ondas de impulso.

Era um longo rasto de morte deixado através das estrelas, pensou, para ser destruído por uma lavagem de ácido e atirado para dentro das fossas, continuando o ser o seu caminho até chegar ao destino, para consumar o propósito de sua viagem.

E que propósitos teriam todos aqueles seres que passavam pelas estações espalhadas

pelo espaço? Houve certas ocasiões em que, conversando com os viajantes, soube dos seus propósitos, embora a maioria nunca lho tivesse dito nem ele tinha o direito de saber. Ele era, apenas, o encarregado da estação.

o seu intuito fosse o de fomentar a hospitalidade, embora nem sempre, porque

muitas criaturas havia que não se prestavam a isso. Apenas, e em certa medida, o homem que vigiava o funcionamento da estação e que a mantinha a operar, que preparava tudo

para receber os viajantes e que os punha de novo a caminho na altura devida. Que era, também, quem realizava as pequenas tarefas e lhes dispensava as atenções de que pudessem necessitar.

Talvez

Olhou para o bloco de madeira e pensou quanto ele iria agradar a Winslowe. Muito raramente se conseguia uma madeira tão negra ou com os veios tão unidos.

Que pensaria Winslowe se soubesse que as criaturas que esculpira eram feitas de madeira vinda de planetas desconhecidos e a muitos anos-luz de distância. Winslowe devia ter perguntado a si mesmo muitas vezes, tinha a certeza, donde viria aquela madeira e como a teria arranjado e o seu amigo. Mas nunca lho perguntara. Sabia também, como é evidente, que havia qualquer coisa de estranho naquele homem que ia todos os dias à caixa do correio para se encontrar com ele. Mas também nunca lho perguntara.

A amizade era assim, pensou Enoch.

Também aquela madeira que ele tinha nas mãos era uma prova de amizade a amizade das estrelas por um humilde encarregado de uma estação longínqua e primitiva, perdida numa das espirais mais afastadas do centro da galáxia. Ao que parecia, espalhara-se através dos anos e do espaço, a notícia de que um certo encarregado de estação era colecionador de madeiras exóticas e foi assim que elas apareceram. Não apenas das raças que ele considerava suas amigas como das que lhe eram totalmente estranhas, tal como a bolha que nesse momento repousava no tanque.

Colocou a madeira em cima da mesa e dirigiu-se para o frigorífico. Tirou dele um naco de queijo que Winslowe lhe comprara vários dias antes, e um pequeno pacote de fruta que um viajante de Sirrah X lhe trouxera no dia anterior.

- Foi analisado dissera-lhe ele e pode comê-lo sem receio. Não lhe perturbará o metabolismo. Provàvelmente já comeu disso alguma vez. Ah, não comeu. Desculpe. É uma delícia. Se gostar, para a próxima vez trago-lhe mais.

Tirou do guarda-loiça que estava ao lado do frigorífico um pão, pequeno e achatado, que era uma parte da ração que lhe enviava, regularmente, a Central Galática. Feito de um cereal desconhecido na Terra, sabia nìtidamente a nozes com um ligeiro aroma a

especiaria desconhecida. Pôs a comida naquilo a que chamava mesa de cozinha, embora, na realidade, não houvesse cozinha. Colocou depois a cafeteira do café ao lume, voltando para a secretária.

A carta ainda ali estava, aberta sobre a secretária, pelo que a dobrou e meteu numa

gaveta.

Rasgou as cintas castanhas que envolviam os jornais e empilhou-os ao lado. Tirou do monte o New York Times e foi pôr-se a lê-lo na sua cadeira predileta.

ACORDO PARA NOVA CONFERÊNCIA DE PAZ, dizia o cabeçalho da primeira página.

A crise mantivera-se em efervescência durante um mês ou mais, a mais recente de uma

série de crises que tinha mantido o mundo suspenso por um fio durante anos. E o pior de tudo, pensou Enoch, era que muitas delas eram crises fabricadas, com uma ou outra parte procurando tirar vantagem no implacável jogo de xadrez das políticas do poder, que se mantinha em curso desde o final da segunda Grande Guerra.

Os artigos do Times relacionados com a conferência soavam a desespero, quase a fatalismo, como se os articulistas, talvez mesmo os diplomatas e todos os outros intervenientes, soubessem que a conferência não resolveria nada se é que, de facto, não contribuísse para tornar a crise ainda mais profunda.

Os observadores nesta capital (escrevia um dos funcionários da delegação do “Times” em Washington) não estão convencidos de que a conferência venha a servir, no momento presente, como aconteceu em conferências semelhantes anteriores, quer para atrasar a divulgação dos resultados, quer para melhorar as perspectivas de um acordo. Existe, em muitos sectores, a preocupação evidente de que a conferência venha, em vez disso, a avivar as chamas da controvérsia sem que, em compensação, abra caminhos a um possível compromisso. Na opinião pública, uma conferência deve proporcionar o momento e local para a moderada ponderação dos factos e dos pontos de argumentação, mas pouco vêem na convocação desta conferência quaisquer indícios de ser esse o caso.

A cafeteira do café estava já quase a deitar por fora, e Enoch, atirando ao chão o jornal, atravessou a sala em duas passadas para a tirar precipitadamente do fogão. Tirou uma chávena do guarda-loiça e dirigiu-se com ela para a mesa.

Mas, antes de começar a comer, foi à secretária, abriu uma gaveta e tirou o mapa que estendeu sobre a mesa. Mais uma vez se interrogou sobre a sua validade, embora em determinados pontos parecesse, por vezes, fazer um certo sentido.

Baseara-se na teoria de estatística dos Mizar, tendo sido forçado, dada a natureza do assunto, a trocar alguns factores e a substituir determinados valores. Procurava saber, pela milésima vez, se teria errado nalgum ponto. Teria a sondagem e a substituição que fizera destruído a validade do sistema? Se assim era, como poderia ele corrigir os erros de modo a restabelecê-la?

Eis os factores, pensou: o índice de natalidade e a população total da Terra, o índice de mortalidade, os valores fiduciários, a extensão do custo de vida, a assistência dos locais do culto, os progressos da medicina, os desenvolvimentos técnicos, os índices da indústria, os

contratos de trabalho, as administrações mundiais de comércio e muitos outros, incluindo alguns que, à primeira vista, podem não parecer de grande importância: o preço de leilão dos objectos de arte, preferências de férias e movimentos correlativos, a velocidade dos transportes, e a incidência de insanidade.

Ele sabia que o método estatístico desenvolvido pelos matemáticos de Mizar, uma vez aplicado correctamente, seria eficaz em qualquer parte, independentemente do objecto de aplicação. Mas tinha sido forçado a adaptá-lo, na transferência das condições existentes num planeta desconhecido para as que se verificam na Terra e, em consequência dessa adaptação, continuaria ele a ser válido?

Tremia ao olhar para ele. Visto que, se não tivesse cometido erro algum, se tivesse aplicado tudo com acerto, se a adaptação não tivesse adulterado o conceito, então, a Terra caminhava para outra grande guerra, para um holocausto de destruição nuclear.

Soltou os cantos do mapa, que se enrolou por si mesmo.

Pegou num dos frutos que o ser de Sirrah lhe trouxera e trincou-o. Saboreou-o deliciado. Era de facto tão bom como lhe garantira aquele ser estranho que mais parecia um pássaro, concluiu.

Houve um altura em que, recordava-se, alimentara alguma esperança que o mapa baseado na teoria Mizar pudesse mostrar, senão um processo para acabar de vez com a guerra, pelo menos uma maneira de manter a paz. Mas o mapa nunca dera qualquer indício de se estar a caminhar para a paz. Inexoràvelmente, implacàvelmente, apontava o caminho para a guerra.

Quantas mais guerras poderia o povo da Terra suportar?

Ninguém podia dizer, como é óbvio; provàvelmente, só mais uma. Visto que as armas que seriam utilizadas no conflito próximo não tinha sido ainda avaliadas em todo o seu potencial, nem havia ninguém que, de facto, pudesse fazer uma estimativa segura das consequências que essas armas provocariam.

A guerra já era suficientemente má quando os homens se enfrentavam de armas nas mãos; mas em qualquer guerra actual, grandes massas destruidoras iriam chocar-se nos céus para engolir cidades inteiras dirigidas, não para concentrações militares, mas para populações inteiras.

Pegou novamente no mapa, voltando a empurrá-lo de seguida. Não tinha necessidade de consultá-lo mais. Sabia tudo de cor. Não havia a mais ligeira esperança. Podia continuar a estudá-lo e a embrenhar-se nele até que a sentença se consumasse, que isso nada alteraria. Não havia esperança alguma. O mundo estava uma vez mais em convulsão, envolvido numa espessa neblina de fúria e desamparo, a caminho da guerra.

Ele continuava a comer, sabendo-lhe o fruto cada vez mais melhor. “Para a próxima vez trago-lhe mais”, dissera-lhe o ser. Mas podia acontecer que tardasse muito em voltar, podia mesmo nunca mais voltar. Muitos deles passavam por ali uma única vez, enquanto outros apareciam quase todas as semanas viajantes habituais de há muito, que se tornaram seus amigos íntimos.

Recordava-se ainda daquele pequeno grupo de Hazers que, anos antes, tinham combinado prolongar o tempo de escala na estação, para que pudessem sentar-se à volta daquela mesma mesa e ficar a conversar horas a fio, chegando sempre carregados de canastras e de cestos de coisas para comer e para beber, como se fosse um piquenique.

Mas, por fim deixaram de vir e desde há anos que não via nenhum deles. E lamentava o facto, pois tinham sido os melhores de todos os companheiros.

Bebeu mais uma chávena de chá, reclinado na cadeira, pensando nos bons tempos em que o grupo de Hazers o visitava.

Chegou-lhe aos ouvidos um ligeiro restolhar e, levantando ràpidamente os olhos, viu-a sentada no sofá, vestindo uma daquelas recatadas saias de roda que se usavam por volta de 1860.

- Mary! exclamou ele com surpresa, pondo-se de pé.

Ela sorriu-lhe naquele jeito que lhe era peculiar e estava tão bela como nenhuma outra mulher

- Mary disse ele é tão agradável tê-la por cá.

Nesse momento reparou que, inclinado sobre o fogão de sala e vestido na cor azul da União, com o sabre à cinta e com o seu farto bigode negro, estava outro de seus amigos.

- Olá, Enoch cumprimentou David Ransome. Espero não virmos incomodar.

- De maneira nenhuma disse-lhe Enoch. Como podem dois amigos incomodar?

Ele estava de pé ao lado da mesa e revivia o passado, aquele passado bom e despreocupado, o passado perfumado de rosas e confiante que nunca o abandonara.

Algures na distância, ouvia-se o som do pífaro e do tambor, e o chocalhar do equipamento de combate enquanto os rapazes marchavam para a guerra, com o coronel, glorioso no seu grande uniforme, montado no corpulento cavalo negro, e os estandartes regimentais que ondulavam à brisa forte de Junho.

Atravessou a sala em direcção ao sofá, e fez uma pequena vénia a Mary.

- Se me permite, minha senhora disse ele.

- Faça o favor respondeu ela. Se está ocupado

- De modo algum. Esperava que viessem.

Sentou-se no sofá, sem se chegar muito a ela, e viu-lhe as mãos entrelaçadas, com força, sobre o regaço. Teve vontade de as tomar nas suas e segurá-las por um momento, mas sabia que não podia fazê-lo.

Na realidade, ela não estava ali.

- Há quase uma semana que não o via disse Mary. Como vai o seu trabalho, Enoch?

Ele abanou a cabeça. Continuo com os mesmos problemas. Os observadores continuam lá fora. E o mapa indica guerra.

David abandonou o fogão e aproximou-se atravessando a sala. Sentou-se numa cadeira e ajeitou o sabre.

- A guerra, dada a maneira como combatem actualmente, seria deplorável declarou. Não foi assim que nós combatemos, Enoch.

- Não, não foi assim que nós combatemos. E, para além de todo o mal que uma guerra comporta, haveria algo de pior. Se a Terra sofrer outra guerra, os seus habitantes serão impedidos, se não para sempre pelo menos durante muitos séculos, de ingressar na comunidade do espaço.

- Talvez não seja assim tão mau disse David. Podemos não estar preparados para nos associarmos aos seres do espaço.

- Talvez não admitiu Enoch. Duvido muito que estejamos, mas poderemos vir a estar

um dia. E esse dia seria afastado para um futuro longínquo se houvesse outra guerra. É possível disse Mary que eles nunca venham a saber. Refiro-me à guerra. Não vão a lado nenhum, além desta estação.

Enoch abanou a cabeça, discordando. Viriam a saber. Penso que eles estão a observar- nos. E de qualquer modo, saberiam pelos jornais.

- Os jornais que você assina?

- Guardo-os para Ulysses. Naquele canto está um monte deles. Leva-os para a Central

Galática de cada vez que vem. Ele interessa-se muito pela Terra, como sabe, desde os tempos que cá passou. E, da Central Galática, depois de os ter lido, tenho a impressão que

os envia para os pontos mais distantes da galáxia.

- Imagine o que diriam os departamentos de promoção de vendas desses jornais, se fizessem ideia da amplitude da sua circulação disse David.

Enoch sorriu ao pensar nisso.

- Pobre Enoch disse Mary pesarosa. Nós para aqui a gracejar quando ele tem problemas.

- Não é a mim que compete resolvê-los, claro está disse-lhe Enoch. Preocupam-me,

apenas. Basta-me ficar dentro da estação, e não terei problemas. Uma vez fechada esta porta, os problemas do mundo ficarão lá fora.

-Mas você não pode fazer isso.

- Não, de facto não posso.

- Penso que tem razão ao supor que essas tais raças podem estar a observar-nos, com o objectivo de um dia convidarem a raça humana a unir-se a eles. Doutro modo, porque teriam querido estabelecer uma estação aqui na Terra? disse David.

- Estão, constantemente, a ampliar a sua rede disse Enoch. Necessitam de uma

estação neste sistema solar para promoverem a sua expansão neste braço da espiral.

- Sim, isso é verdade disse David mas não era necessário que fosse a Terra. Podiam ter construído uma estação em Marte utilizando um deles para olhar por ela e continuarem a servir os seus interesses.

- Já tenho pensado nisso muitas vezes exclamou Mary. Eles queriam uma estação na Terra e que fosse entregue a um homem da Terra. Deve haver um motivo para isso.

- Tive esperanças de que assim fosse disse-lhe Enoch mas receio bem que viessem cedo de mais. É cedo demais para a raça humana. Não estamos amadurecidos. Somos ainda jovens.

- É uma pena dissse Mary. Teríamos muito que aprender. Eles sabem muito mais do que nós. O conceito que têm da religião, por exemplo.

- Eu não sei se é de facto uma religião respondeu Enoch. Parece ter pouco do aparato

que nós associamos à religião. Não se baseia na fé, nem na necessidade de fazê-lo. Baseia- se no conhecimento. Essa gente sabe, bem vê.

- Refere-se à força espiritual?

- Ela existe, tão certamente com todas as outras forças que constituem o universo. Há

uma força espiritual, tal como existe o tempo, o espaço, a gravitação e todos os outros

fatores que constituem o universo imaterial. Existe e podem estabelecer contacto com ela

- Mas não acha que a raça humana se pode aperceber disso? perguntou David. Não a

conhecem mas apercebem-se dela. E procuram atingi-la. Não estão de posse do conhecimento, por isso têm de fazer o melhor que podem com a fé. E essa fé vem-lhes de muito longe, talvez dos tempos pré-históricos mais recuados. Seria uma fé tosca, então, mas um género de fé, como que uma tentativa para abarcá-la.

- Suponho que sim disse Enoch. Mas não era, de facto, na força espiritual que eu

estava a pensar. Há todo o resto, as coisas materiais, os métodos e as filosofias de que a raça humana não se pode utilizar. Aponte um qualquer, de entre quase todos os ramos da ciência, e haverá nele qualquer coisa para nós, mais do que aquilo que temos. Mas voltou a lembrar-se daquele assunto deveras singular que era a força espiritual, e da não menos singular máquina construída milhões de anos antes, por intermédio da qual o povo

galático conseguia estabelecer contacto com essa força. Essa máquina tinha um nome, mas não havia na lingua inglesa uma palavra que a designasse com precisão. “Talismã”, era a palavra que mais se aproximava, embora não fosse totalmente exacta. Contudo, fora a palavra usada por Ulysses quando, anos antes, conversaram sobre ela.

Havia tanta coisa, tantos conceitos, pensou, existentes na galáxia e que não podiam ser designados com precisão em qualquer das linguas terrenas. O Talismã era mais do que um simples talismã e a máquina por esse nome designada mais do que uma simples máquina. Ela envolvia, para além de certos conceitos mecânicos, um conceito físico, provàvelmente qualquer espécie de energia física desconhecida na Terra. Era isto e muito mais. Lera

alguma coisa sobre a força espiritual e sobre o Talismã e concluíra por essa leitura, como se recordava, quão difícil seria para a raça humana, comprendê-los.

O Talismã podia ser operado apenas por certos seres, dotados de certo tipo de intelecto, além de outras coisas (seria, pensou, com certos tipos de alma?). “Sensitivos” fora a palavra usada na sua tradução mental do termo que exprimiria esse tipo de gente, mas uma vez mais, não tinha certeza de a palavra se adaptar com exactidão. O Talismã estava entregue aos mais capazes, mais eficientes ou mais devotados (o que quer que fossem) dos sensitivos galáticos, que o transportava de estrela para estrela numa espécie de progressão eterna. E, em cada planeta, as pessoas vinham estabelecer um contacto pessoal e individual com a força espiritual através da intervenção e actuação do Talismã e dos seus operadores.

Ele sentiu que estremecia ao pensar nisso o puro arrebatamento de tocar a espiritualidade que inundava a galáxia e, sem dúvida alguma, o Universo. Isso seria uma garantia, pensou, uma garantia de que a vida ocupava um lugar especial no grande esquema da existência, de que qualquer pessoa, por muito pequena, fraca, ou insignificante que fosse, podia mesmo assim contar para alguma coisa na imensidão do espaço e do tempo.

- O que tem, Enoch? perguntou Mary.

- Nada. Estava sòmente a pensar. Desculpem-me. Agora vou dar-lhes atenção.

- Estávamos a falar do que podíamos encontrar na galáxia disse David. Havia, por

exemplo, aquela estranha espécie de matemática. Falou-nos dela uma vez, e era qualquer

coisa

- Refere-se à matemática de Arcturus disse Enoch. Pouco mais sei do que lhes disse. É muito complicada. Baseia-se em símbolos de comportamento.

“Havia uma certa dúvida”, disse para consigo, “em se lhe poder chamar mesmo matemática; embora, através de uma análise, ela se nos apresentasse como tal. Era qualquer coisa de que os cientistas da Terra podiam, sem dúvida, servir-se para tornar possível e mecanização das ciências sociais, tão lógica e eficientemente como se tinha servido da matemática vulgar para construir as engenhocas da Terra”.

- E a biologia daquela raça de Andrómeda disse Mary. Aqueles que colonizaram todos esses planetas disparatados.

- Sim, bem sei. Mas a Terra teria que amadurecer um pouco no seu aspecto intelectual e

emocional antes de podermos aventurar-nos a utilizá-la tal como o povo de Andrómeda a utiliza. No entanto, suponho que teria aplicação entre nós.

Teve um estremecimento interior ao pensar em como os Andrómedas a utilizavam. E isso, sabia-o, era uma prova de que ele não passava de um ser da Terra, sujeito a todas as tendências, preconceitos e princípios do espírito humano. Até porque o que os Andrómedas tinham feito era absolutamente lógico. Se a sua forma física actual não lhes permitia colonizar um planeta, então não havia outra coisa a fazer senão modificá-la. Impunha-se que se transformassem num tipo de ser capaz de viver nesse planeta e que,

sob essa forma, tomassem conta dele. Se tinha necessidade de serem vermes, então transformavam-se em vermes o mesmo para insectos, mariscos ou o que quer que fosse preciso. E não transformavam apenas o corpo como também o intelecto, de acordo com o necessário para viver naquele planeta.

- Há, ainda, todas as drogas e medicamentos disse Mary. Os conhecimentos médicos

que podiam ser aplicados na Terra. Havia aquele embrulhinho que a Central Galática lhe enviou.

- Um pacote de drogas capazes de curar todas as doenças na Terra disse Enoch. E

isso talvez me doa mais do que tudo. Saber que estão ali no armário, precisamente neste

planeta, onde há tanta gente que necessita delas.

- Você podia mandar amostras para as organizações médicas ou para quaisquer outras relacionadas com drogas disse David.

Enoch abanou a cabeça. Claro que pensei nisso. Mas preciso da aprovação da galáxia. Tenho uma obrigação para com a Central Galática. Eles tomaram grandes precauções para que a estação não fosse conhecida. Há Ulysses e todos os outros meus amigos. Não posso destruir-lhes os planos, nem posso desempenhar o papel de traidor. Porque, pensando bem, a Central Galática e o trabalho que está a desenvolver são mais importantes do que a Terra.

- Dupla lealdade disse David, em tom de troça.

- É isso, exactamente. Houve uma altura, há muitos anos, em que pensei em enviar

artigos para apreciação a algumas das revistas científicas. Não para as revistas médicas,

naturalmente, porque nada sei de medicina. As drogas ali estão, na prateleira, com instruções quanto ao modo de as usar, mas são meramente umas quantas pílulas, pós, unguentos, ou lá o que são. Mas tomei conhecimento de outras coisas e aprendi outras. Não fiquei a saber muito a respeito delas, como é natural, mas pelo menos com algumas noções sobre novas diretrizes. O bastante para que alguém pudesse servir-se delas como ponto de partida. Alguém que soubesse como aplicá-las.

- Mas, repare disse David isso não traria resultado. Você não tem quaisquer

habilitações técnicas nem de pesquisa, nem qualquer diploma. Não está ligado a nenhuma escola ou instituto. As revistas não publicam os seus trabalhos se você não apresentar provas da sua capacidade.

- Claro que compreendo isso. Foi por essa razão que nunca escrevi os artigos. Sabia que

não teriam utilidade. E não posso culpar as revistas. Elas têm que ter consciência das responsabilidades. As suas páginas não são facultadas a qualquer. E ainda que

encarassem os artigos com suficiente respeito para quererem publicá-los, teriam que procurar saber quem eu sou. E isso conduzi-los-ia directamente a esta estação.

- Mas, ainda mesmo que conseguisse evitá-lo apontou David continuaria a não tomar uma atitude franca. Você disse há pouco que tinha um dever de lealdade para com a Central Galática.

- Se, neste caso particular, conseguisse evitá-lo, não haveria mal nisso. Se me limitasse a lançar ideias e deixar que alguns cientistas da Terra as desenvolvessem, em nada prejudicaria a Central Galática. O problema mais importanate seria, como é óbvio, não revelar a fonte de origem.

- Mesmo assim, muito pouco haveria que, de facto, lhes pudesse contar. Quero dizer

com isto que, duma maneira geral, você não sabe o bastante para alicerçar estudos futuros. Na medida em que muitos dos conhecimentos galáticos não obedecem aos padrões estabelecidos.

- Bem sei, disse Enoch. A mecanização mental de Mankalinen III, por exemplo. Se a

Terra soubesse disso, a nossa gente poderia encontrar um guia para o tratamento de neuróticos e de perturbados mentais. Poderíamos despejar todas as instituições desse género e destruí-las ou utilizá-las para outros fins. Não haveria necessidade delas. Mas só o povo de Mankalinen nos podia dizer como. Sei apenas que se tornam notados pela sua mecanização mental, e nada mais. Não faço a mais pequenina ideia do que isso seja. Esse

conhecimento só nos poderia vir deles.

- Vocês estão a falar, na realidade, de todas as ciências indesignáveis aquelas que nenhum ser humano já pensou.

- Como nós, talvez disse David.

- David! exclamou Mary.

- Não faz sentido estarmos a fingir sermos gente disse David, zangado.

- Mas são disse Enoch. São gente para mim. Vocês são as únicas pessoas que tenho. Qual é o problema, David?

- Penso que chegou a altura de dizer o que somos na realidade. Que somos uma ilusão. Que somos criados e evocados. Que existimos para um único fim, para vir conversar consigo, para vir ocupar o lugar das pessoas verdadeiras que não pode ter.

- Mary, você não pensa também do mesmo modo! Não pode pensar assim! exclamou Enoch.

Estendeu os braços para ela, deixando-os cair depois aterrorizado com a ideia do que estivera prestes a fazer. Fora a primeira vez que tentara tocar-lhe. Fora a primeira vez, em todos aqueles anos, que se esquecera.

- Desculpe-me, Mary. Não devia tê-lo feito.

Ela tinha os olhos brilhantes de lágrimas.

- Quem me dera que pudesse disse. Oh, como eu desejaria que pudesse!

- David disse ele sem voltar a cabeça.

- David saiu disse Mary.

- Já não voltará exclamou Enoch.

Ela sacudiu a cabeça.

- O que se passa, Mary? Que significa isso? Que fiz eu?

- Nada, excepto ter-nos feito parecer demais com gente. Assim, tornámo-nos mais

humanos, até sermos completamente humanos. Já não somos fantoches nem bonecos, mas realmente pessoas verdadeiras. Penso que David deve estar ofendido com isso não por ser gente; mas pelo facto de, sendo gente, continuar a ser uma sombra. Isso não tinha importância quando éramos bonecos ou fantoches, porque não éramos humanos, então. Não tínhamos sentimentos humanos.

- Mary, por favor. Mary, desculpe-me por favor.

Ela inclinou-se para ele com a face iluminada por uma profunda ternura. Não há nada que perdoar. Pelo contrário, suponho que deviamos estar-lhe gratos por isso. Você criou- nos a partir de um amor e de uma necessidade de nós, e é maravilhoso sabermos que somos amados e indispensáveis.

- Mas eu já deixei de criá-los alegou Enoch. Houve uma altura, há muito tempo, em

que tive de fazê-lo. Mas agora já não. Agora vêm visitar-me por vossa livre vontade.

Desde há quanto tempo?, pensou. A primeira foi Mary, e David o segundo. Foram os primeiros de todos, e eram os mais chegados e mais queridos.

Antes disso, antes mesmo de ter experimentado, levou anos a estudar aquela ciência indesignável entroncada na taumaturgia de Alphard XXII.

Houve tempos em que, dado o espírito da época, aquilo teria sido considerado magia negra, mas não era. Ao contrário, era a manipulação metódica de certos aspectos naturais do universo, de que, por enquanto, a raça humana nem sequer suspeitava. Talvez aspectos que o Homem nunca viria a descobrir, porque não possuía, pelo menos de momento, a necessária orientação de espírito científico para iniciar a pesquisa que deve preceder a descoberta.

- David sentiu que não poderíamos continuar assim para sempre, a cumprir com as

nossas tranquilas visitas disse Mary. Teria que chegar a altura de encararmos o que somos de facto.

- E os outros?

- Lamento, Enoch, mas os outros também.

- E você? E quanto a si, Mary?

- Não sei. Comigo é diferente. Quero-lhe muito.

- E eu

- Não é isso que quero dizer. Não compreende! Estou apaixonada por si.

Ele quedou-se surpreendido, fixando-a, e pareceu-lhe que o mundo rugia, como se estivesse estático e o mundo e o tempo todo passassem impetuosamente por ele.

- Se ao menos tudo tivesse ficado como estava ao princípio disse ela. Então

estávamos contentes com a nossa existência, e as nossas emoções eram tão superficiais que parecíamos bem felizes. Como crianças felizes a correr ao Sol. Mas depois crescemos.

E penso que eu mais do que ninguém.

Ela sorriu-lhe com lágrimas nos olhos.

- Não tome isso tão a sério, Enoch. Nós podemos

- Minha querida, - disse ele apaixonei-me por si desde o primeiro dia que a vi. Penso que talvez mesmo antes disso.

Estendeu-lhe a mão, retirando-a depois bruscamente, ao lembrar-se.

- Eu não sabia disse ela. Não lhe devia ter dito. Você pôde calar-se até eu lhe dizer que também o amava.

Enoch concordou com a cabeça.

Ela baixou os olhos. Meu Deus, nós não merecemos isto. Não fizemos nada para merecê-lo.

Levantou a cabeça e olhou para ele. Se ao menos pudesse tocar-lhe.

- Podemos continuar como até aqui. Pode vir ver-me sempre que queira. Nós podemos

Ela abanou a cabeça. Não daria resultado. Nenhum de nós o suportaria.

Sabia que ela tinha razão. Sabia que estava tudo acabado. Durante cinquenta anos, tanto ela como os outros tinham vindo visitá-lo. E nunca mais viriam. O país das fadas fora esmagado e quebrara-se o encanto. Seria deixado só - mais só do que nunca, mais só do que antes de a ter conhecido.

Mary nunca mais voltaria, nem ele tornaria a chamá-la, ainda que pudesse, e tanto o seu mundo irreal como seu irreal amor, o único amor que já verdadeiramente tivera, desapareceriam para sempre.

- Adeus, minha querida disse ele.

Mas era demasiado tarde. Ela já havia desaparecido.

E pareceu-lhe ouvir muito ao longe, o gemido do receptor que anunciava ter chegado uma mensagem.

13

Ela dissera que deviam encarar de frente o que eram.

E que eram eles? Não o que pensava que fossem, mas o que eram de facto? Que pensavam eles que eram? Talvez soubesse muito melhor do que ele.

Para onde teria ido a Mary? Quando deixou aquela sala, em que espécie de limbo

E se assim fosse, que espécie de existência

desaparecera?

Seria que ainda existia?

levaria? Estaria ela guardada algures, como uma criança guardaria a boneca numa caixa

encostada ao fundo do armário com todas as outras bonecas?

Tentou imaginar o limbo e viu-o como um vazio e, a ser verdadeiro, um ser empurrado para o limbo seria uma existência dentro da inexistência. Não haveria nada nem espaço nem tempo, nem luz, nem ar, nem cor nem visão, apenas um nada infindável que necessàriamente deve estar algures fora do Universo.

Mary! Gritou ìntimamente. Mary, que fiz eu?

E a resposta estava ali, crua e nua.

Ele imiscuira-se numa coisa que não tinha compreendido. E, além de tudo, cometera o pecado ainda maior de pensar que compreendia. A questão era que tinha compreendido sòmente o necessário para pôr o conceito em acção, mas não o suficiente para ter consciência das consequências.

A criação implicava responsabilidade e não estava preparado para assumir mais que a

responsabilidade moral pelo mal que fizera, e mesmo essa, a menos que trouxesse em si

uma possibilidade de mitigar o mal, era uma coisa sem utilidade nenhuma.

Ele odiavam-no e ofendiam-no, e não se queixava porque os trouxera para a vida e lhes mostrara a terra prometida de humanidade, levando-os depois pelo caminho de regresso. Dera-lhes tudo o que um ser humano possuía com excepção do mais importante de tudo a capacidade de existir no mundo humano.

Todos o odiavam, menos Mary e, para ela, era pior do que ódio, porque estava condenada, pela grande virtude humana que lhe concedera, a amar o monstro que a criara.

Odeie-me, Mary, suplicou. Odeie-me, como os outros!

Pensara neles como seres irreais, mas isso fora apenas um nome que pensara para si mesmo, por conveniência própria, um rótulo cómodo que lhes pusera para ter um modo de identificá-los quando pensava neles.

Mas o rótulo fora errado, porque não eram irreais nem fantasmagóricos. À vista, eram sólidos e materiais, tão reais como qualquer pessoa. Era apenas quando se tentava tocar- lhes, que não eram reais porque, ao fazê-lo, não se encontrava nada.

Uma ficção do seu espírito, pensara a princípio, mas já não tinha certeza. A princípio vinham só quando os chamava, usando o conhecimento e a técnica que adquirira através do estudo que fizera do trabalho realizado pelos taumaturgos de Alphard XXIII. Mas não os chamara nos anos mais recentes. Não houve ocasião para isso. Antecipavam-se a ele e vinham antes que os chamasse. Apercebiam-se da necessidade que tinha deles antes mesmo de ele próprio se aperceber. E lá estavam, à espera, para passarem uma hora ou uma tarde.

Invenção do seu espírito, com toda a certeza, porque lhes dera forma, talvez inconscientemente na altura, sem saber porque os formara assim, vindo a saber mais

recentemente embora tivesse tentado não saber, embora tivesse ficado muito mais satisfeito se o não soubesse. Porque nunca quisera admitir, tentara antes afastar de si o conhecimento do motivo, mantendo-o no mais recôndito do seu espírito. Mas agora que tudo acabara, quando já não importava, admitiu-o finalmente.

David Ransom era ele próprio, como ele sonhara ser, como ele quisera ser mas, claro está, como nunca fora. Era o arrojado oficial da União, de uma patente não tão alta de molde a torná-lo obstinado e insuportável, mas um bom pedaço acima do homem vulgar. Era garboso, cortês e positivamente endiabrado, amado por todas as mulheres e admirado por todos os homens. Era um chefe nato e um bom camarada simultâneamente, tanto em casa como no campo de batalha ou no salão.

E Mary? Era curioso como nunca lhe chamara outro nome que não fosse Mary, pensou. Nunca lhe dera um apelido. Fora simplesmente Mary.

E era simultâneamente duas mulheres pelo menos, se não mais do que isso. Era Sally

Brown, que vivera ali ao fim da estrada e há quanto tempo não pensava nela? Era estranho que não tivesse pensado nela, que se impressionasse agora com a recordação de uma rapariga que fora sua vizinha em tempos, chamada Sally Brown. Porque ambos estiveram apaixonados uma vez, ou talvez tenha pensado apenas que estavam. Até mesmo porque nos últimos anos, quando ainda se lembrava dela, nunca estivera absolutamente certo, mesmo quando a via através da névoa romântica do tempo, se teria sido amor ou apenas o romanticismo dum soldado que partia para a guerra. Fora um género desastrado de amor, tímido e desajeitado, o amor da filha do fazendeiro pelo filho do fazendeiro vizinho. Tinham decidido casar quando ele voltasse da guerra; mas, uns dias depois de Gettysburg, recebera uma carta, mais de três semanas depois de ter sido escrita, pondo-o ao corrente de que Sally Brown morrera de difteria. Ficou desgostoso, recordava-se agora, mas não conseguia recordar-se quão profundamente, embora, provàvelmente, tivesse sido um sentimento profundo, pois a moda de então exigia que assim fosse e por muito tempo.

Assim, Mary era positivamente Sally Brown em parte, mas não totalmente. Era também aquela alta e majestosa filha do Sul, a mulher que vira por momentos apenas ao marchar por uma estrada poeirenta sob o sol escaldante de Virgínia. Havia uma mansão, uma daquelas grandes casas das plantações, à beira da estrada, e ela estava ao portão, ao lado de uma das grandes colunas brancas, vendo passar a marcha do inimigo. Tinha o cabelo preto e o rosto mais branco que a coluna, e estava tão direita e orgulhosa, tão provocante e altiva, que passou a recordá-la, a pensar e a sonhar com ela embora nunca tivesse chegado a saber o seu nome durante todos aqueles dias poeirentos, árduos e ensanguentados da guerra. Perguntava-se, ao pensar e sonhar com ela, se tais pensamentos e sonhos podiam ser infiéis à sua Sally. Sentado à volta da fogueira, quando a conversa amainava e ainda, enrolado nos cobertores e olhando as estrelas, fantasiava o processo de, após a guerra acabar, voltar àquela casa em Virgínia e encontrá-la. Ela podia já lá não estar, mas tomaria mesmo assim o caminho do Sul para procurá-la. Mas nunca o fez; nunca fizera realmente tenções de a procurar. Fora um sonho arquitetado junto da fogueira e nada mais.

Assim, Mary fora a síntese de ambas fora Sally Brown e a bela desconhecida de Virgínia que estava de pé junto da coluna para ver passar as tropas. Ela tinha sido a

sombra de ambas e talvez de muitas outras ainda não concebidas por ele, um composto de tudo quanto até aí conhecera, vira ou admirara nas mulheres. Fora um ideal e uma perfeição. Fora a sua mulher ideal, criada pelo seu espírito. E agora, tal como Sally Brown, repousava na sua campa; como a bela de Virgínia, perdida na neblina dos termpos; como todas as outras que possam ter contribuído para que a modelasse, desaparecera ao pé dele.

Tinha-a amado, com toda a certeza, pois era fora a combinação de todos os seus amores era como se fosse um diagrama de todas as mulheres que amara (se é que de facto amou alguma) ou das que pensou amar, mesmo em abstracto.

Mas nunca lhe passara pela cabeça que ela viesse a amá-lo. E até tomar conhecimento do amor que ela lhe dedicava, conseguira esconder no coração o seu amor por ela, sabendo que ele lhe não permitia alimentar esperanças e que era impossível, mas fazendo-o da melhor maneira.

Perguntava a si mesmo onde estaria ela naquele momento, onde se refugiara no limbo que tentara imaginar ou nalguma existência estranha, à espera, sem saber quando voltaria para ele.

Segurou a cabeça entre as mãos, sentando-se numa atitude de sofrimento e de culpa, com o rosto coberto pelos dedos.

Ela não viria nunca mais. Rezava para que nunca voltasse. Seria melhor para os dois se ela nunca mais voltasse.

Se, ao menos, tivesse a certeza do local onde estaria, pensou. Se pudesse ter ao menos a certeza de que estava morta e não torturada pelos seus pensamentos. Acreditar que ela era sensível estava para além do que se podia conceber.

Ouviu o barulho do apito que dizia estar à espera um mensagem e levantou a cabeça das mãos. Mas não se ergueu do sofá.

Estendeu a mão entorpecida para a mesinha de café que estava á frente do sofá, com o tampo coberto de algumas das mais coloridas quinquilharias que tinham sido deixadas ali como presentes dos viajantes.

Pegou num cubo de qualquer coisa que podia ter sido alguma espécie estranha de vidro ou de pedra translúcida nunca fora capaz de concluir o que era e envolveu-a com as mãos. Olhando para ele, viu no seu interior um pequenino quadro, a três dimensões e pormenorizado, dum munto de fadas. Era um local bonito e fora do vulgar, situado no interior do que podia ter sido uma clareira da floresta rodeada pelo que pareciam ser cogumelos em floração, e caindo do ar, como se dele fizesse parte, aquilo que para qualquer pessoa, parecia ser uma chuva de cristais de neve, cintilando e brilhando à luz violeta de um grande sol azul. Havia coisas que dançavam na clareira e que mais pareciam flores do que animais, mas moviam-se com tal graça e poesia que, ao vê-las, se sentia uma certa excitação. Depois o mundo de fadas desapareceu e surgiu num outro local um local selvagem e sombrio, com escarpas horrendas, descarnadas e salientes, elevando-se a grande altura contra um céu vermelho e tempestuoso, enquanto grandes objectos voadores percorriam as escarpas em toda a sua altura, enquanto havia outros pousados,

muito obscenamente, em finas saliências que deviam ter sido alguma espécie de árvores disformes crescendo da parede de rocha. E do fundo, duma distância que apenas se podia adivinhar, vinha o trovejar solitário dum rio impetuoso.

Voltou a colocar o cubo em cima da mesa. Perguntou a si mesmo o que seria aquilo que se via nas suas profundezas. Era o mesmo que voltar as páginas de um livro que tivesse em cada uma delas a gravura de um lugar diferente, mas nada que dissesse onde era aquele lugar. Quando lho ofereceram, passou horas fascinado, a obervar a mudança dos quadros quando o segurava nas mãos. Não aparecera nunca nenhum quadro que apresentasse a mais remota semelhança com outro, havendo uma diversidade infindável deles. Tinha-se a sensação de que não eram quadros, de facto, mas que se estava a olhar para a própria cena e que a qualquer momento se podia perder o equilíbrio, onde quer que se estivesse empoleirado, e mergulhar, de cabeça para baixo, no próprio local que se estava a observar.

Depois fartou-se dele, porque não fazia sentido percorrer totalmente uma longa série de locais que não tinham identificação. Não fazia sentido para ele, claro está, mas o mesmo não diziam, certamente, os nativos de Enif V que lho haviam oferecido. Podia ser, tanto quanto sabia, de grande significado e um tesouro de muito valor.

O mesmo acontecia com muitas das coisas que possuía.

Até mesmo as que lhe davam prazer, sabia bem, podia ele utilizá-las erradamente ou, pelo menos, dum modo que podia não ser intencional.

Mas havia algumas cujo valor compreendia e avaliava, embora em muitas ocasiões a sua função fosse de pouca utilidade para ele. Havia o relógio pequenino que indicava as horas locais em todos os setores da galáxia, e embora fosse intrigante, e mesmo essencial em certas circunstâncias, valia pouco para ele. E havia ainda o misturador de perfumes, cujo nome era o mais aproximado que conseguira arranjar, que permitia criar o cheiro específico desejado. Bastava conseguir a mistura que se quisesse e pô-lo a funcionar, que a sala tomava esse cheiro até que o desligassem. Tinha-se divertido a trabalhar com ele, para recordar aquele dia agreste de Inverno em que, depois de experimentar durante muito tempo, conseguira o cheiro de flores de macieira, e vivera um dia de Primavera enquanto a ventania uivava lá fora.

Estendeu o braço e pegou outra peça uma coisa linda que sempre o intrigara, mas para a qual nunca descobrira a utilidade se é que, de verdade, tinha alguma. Podia ser apenas um objecto de arte, disse para consigo, uma coisa bonita que servia sòmente para se ver. Mas tinha um certo tacto (se era essa a palavra) que o levara a acreditar que podia ter alguma função específica.

Era uma pirâmide de esferas, com as esferas sucessivamente mais pequenas assentes sobre as maiores. Tinha cerca de quarenta centímetros de altura e era uma peça graciosa, com uma esfera de cada cor não eram pintadas apenas, mas sim com cada uma das cores tão profunda e verdadeira que se sabia instintivamente ser a cor intrínsica de cada esfera, que cada uma delas, desde o centro até a superfície, era toda ela da sua cor particular.

Não havia indício algum de ter sido usado qualquer meio semelhante a cola, quer para montar as esferas quer para as manter nos seus lugares. Parecia, a qualquer pessoa, que alguém as tinha simplesmente empilhado, uma em cima da outra, e que assim ficaram.

Segurando nela, procurou recordar-se de quem lha tinha oferecido, mas não se lembrava.

O apito do receptor de mensagens continuava a chamar e havia trabalho para fazer.

Não podia ficar ali sentado a tarde com a cabeça na lua, disse para consigo. Voltou a

colocar a pirâmide de esferas sobre a mesa e, levantando-se, atravessou a sala.

A mensagem dizia:

NO. 406.302 PARA ESTAÇÃO 18327. NATIVO DE VEGA XXI CHEGA ÀS 16532,82.

SEM BAGAGEM. SÓ CABINA, CONDIÇÕES

PONTO DE PARTIDA INDETERMINADO. LOCAIS. CONFIRME.

Enoch sentiu uma animação de felicidade, ao olhar para a mensagem. Seria bom ter de novo um Hazer consigo. Já decorrera um mês ou mais sobre a passagem do último pela estação.

Lembrava-se do primeiro dia em que conhecera um Hazer, quando vieram cinco de uma vez. Devia ter sido em 1914 ou, talvez, 1915, pensou. Estava-se na Primeira Guerra Mundial, a que toda a gente chamava a Grande Guerra.

O Hazer chegaria quase ao mesmo tempo que Ulysses e os três juntos podiam passar

uma tarde agradável. Não era frequente dois bons amigos visitarem-no ao mesmo tempo.

Ficou um pouco horrorizado ao pensar no Hazer como amigo, porque, era mais do que provável, nunca conhecera aquele ser. Mas isso pouca importância tinha porque um Hazer, qualquer Hazer, acabaria por ser um amigo.

Colocou a cabina em posição por baixo do materializador e fez uma verificação completa para ter a certeza de que tudo esta como devia, indo depois ao receptor para enviar a confirmação.

E, durante todo o tempo, a memória continuou a incomodá-lo. Teria sido em 1914, ou

talvez um pouco mais tarde?

Na cabina dos catálogos, puxou uma gaveta e encontrou Vega XXI sendo o primeiro registo datado de 12 de Julho de 1915. Encontrou o livro de registo na prateleira e puxou- o para fora, levando-o para a secretária. Voltou as páginas ràpidamente até encontrar a data.

14

12 de Julho de 1915 Chegaram esta tarde (às 3:20 p.m.) cinco seres de Vega XX, os primeiros da sua espécie a passar por esta estação. São bípedes e humanóides, e tem-se a impressão de não são de carne que a carne seria compacta demais para o tipo de seres

que são mas, evidentemente, são de carne como qualquer outro. Têm brilho, não como uma luz visível, mas têm à sua volta uma aura que os acompanha onde quer que estejam. Constituíam os cinco uma unidade sexual, concluí, embora não esteja muito certo de

compreender, porque é muito confuso. Estavam felizes e eram amistosos, e traziam um ar de ligeiro divertimento, não a respeito de qualquer coisa em particular mas a respeito do próprio Universo, como se tivessem gostado de qualquer espécie de graça cósmica e muito

confidencial que mais ninguém conhecia.

festival (embora esta possa não ser a palavra exacta para designá-lo) noutro planeta, onde outras formas de vida estavam a reunir-se para uma semana de Carnaval. Não fui capaz de saber como nem porque tinham sido convidados. Constituía para eles, com toda a certeza,

uma grande honra terem sido convidados para lá ir mas, pelo que me foi dado a ver, não pareciam pensar assim, tomando-o, antes, como um direito. Estavam muito felizes e despreocupados, muito seguros de si mesmos e equilibrados mas, voltando a pensar nisso, sou levado a supor que são sempre assim. Senti-me mesmo um pouco invejoso por não ser capaz de tanta despreocupação e alegria como eles, e tentando imaginar quão frescos a vida e o Universo deviam parecer-lhes, e um pouco melindrado por eles poderem ser, impensadamente, tão felizes como eram.

Estavam num feriado e iam a caminho de um

Eu tinha pendurado umas redes para que pudessem descansar, de acordo com as instruções, mas não se utilizaram delas. Traziam cabazes cheios de comida e de bebidas e sentaram-se à minha mesa, começando a conversar e a banquetear-se. Convidaram-me a sentar com eles e escolheram-me dois pratos e uma garrafa, que me asseguraram poder comer e beber sem receio, sendo o resto de longe algo duvidoso para um metabolismo como o meu. A comida era deliciosa e de um género que nunca tinha provado sendo um dos pratos muito semelhante aos mais raros e delicados dos velhos queijos, e o outro de uma doçura celestial. A bebida era, de certo modo, parecida com os melhores brandes, de cor amarela e não mais pesado do que a água.

Fizeram perguntas a meu respeito e do meu planeta, sendo delicados e parecendo verdadeiramente interessados, e sendo ainda rápidos com compreenderem as coisas de que lhes falava. Disseram-me que iam com destino a outro planeta cujo nome eu ainda não tinha ouvido, e conversaram uns com os outros, com alegria e satisfação, e de tal maneira que eu não parecia ter sido posto de parte. Pela conversa, apurei que estava patente, no festival do dito planeta qualquer forma de arte. Essa forma de arte não era sòmente constituída de música e pintura, mas era composta de som, cor, emoção, forma e outros predicados para os quais parecia não haver palavras na língua da Terra, e que eu não entendo inteiramente, ficando apenas com uma noção muito ligeira do que diziam neste aspecto particular. Fique com a impressão de uma sinfonia tridimensional, embora esta não seja bem a expressão exacta, que tinha sido composta não por um único ser mas por uma equipa. Falavam entusiàsticamente da forma de arte e pareceu-me compreender que ela não duraria umas horas apenas, mas dias, que era mais uma experiência do que uma audição ou um espetáculo, e que a assistência não se limitava a sentar-se e a ouvir, mas podia, se quisesse, e devia fazê-lo para lhe captar o máximo, participar nela. Mas não compreendi como podiam participar e achei que não devia perguntar-lhes. Falavam da gente que iriam encontrar e de quando os tinham visto pela última vez, fazendo amplas considerações a seu respeito, embora de uma maneira delicada, dando a impressão de que tanto eles como muitos outros andavam de planeta em planeta com um propósito feliz.

Não consegui saber se havia outra finalidade, que não fosse o prazer do fazerem. Concluí que devia haver.

Falaram de outros festivais e nem todos diziam respeito à arte em forma única, mas a outros aspectos mais especializados de arte, dos quais não consegui ficar com uma ideia adequada. Parecia encontrarem uma grande e exuberante alegria nos festivais e fiquei com a impressão de que certas expressões à margem da arte contribuíam para essa felicidade. Não me associei a eles nesta parte da conversa porque, francamente, não houve oportunidade. Teria gostado de fazer algumas perguntas, mas não tive ocasião. Suponho que se a tivesse tido, as minhas perguntas parecer-lhes-iam estúpidas, mas tivesse eu oportunidade, não me incomodaria muito com isso. Apesar disso, eles tentaram, de algum modo, fazer-me sentir que estava incluído na conversa. Não houve uma tentativa evidente para fazê-lo e, mesmo assim, fizeram-me sentir que estava na companhia deles e que não era, simplesmente, um encarregado de estação com quem passariam pouco temp. De vez em quando diziam qualquer coisa na lingua do seu planeta, que é uma das mais bonitas que já ouvi, mas conversavam principalmente na lingua vernácula usada por uma quantidade de raças humanóides, uma espécie de inglês de calão, feita por conveniência, e suponho que o faziam em atenção a mim, o que era de facto uma grande amabilidade. Creio que são, na verdade, o povo mais civilizado que encontrei. Disse que tinha brilho e penso que quero dizer com isso que brilham espiritualmente. Parecia que eram acompanhados, de algum modo, por uma névoa cintilante e dourada que tornava feliz tudo em que tocava quase como se se movessem num mundo especial que ninguém mais encontrara. Ao estar sentado à mesa com eles, eu parecia estar incluído nessa neblina dourada e sentia-me diferente, sossegado, com fortes correntes de felicidade fluindo-me nas veias. Perguntava a mim mesmo porque caminho teriam eles e o seu mundo atingido aquele estado dourado, e se também o meu podia atingi-lo num futuro distante.

Mas por detrás desta alegria estava uma grande vitalidade, o espírito efervescente, em cachão, com um núcleo de força e um prazer de viver que parecia encher-lhes os poros e todos os instantes do seu tempo.

Dispunham apenas de duas horas, e passaram tão depressa que tive de acabar por lembrar-lhes que era altura de partirem. Antes de se irem embora, deixaram dois embrulhos na mesa dizendo que eram para mim, agradeceram-me pela mesa (em que estranho pé puseram as coisas), disseram adeus e entraram para a cabina (para a maior de todas), após o que os enviei para o destino. Mesmo depois de terem partido, a névoa dourada parecia demorar-se na sala e só horas depois desapareceu completamente. Quem me dera ter partido com eles para o tal planeta com o seu festival.

Um dos embrulhos que deixaram continha uma dúzia de garrafas da bebida que parecia brande e as próprias garrafas eram, cada uma delas, um objecto de arte, todas diferentes umas das outras, e feitas do que estou convencido ser diamante, embora não faça ideia se seria diamante fabricado ou talhado de algumas rochas grandes. De qualquer modo, calculo que cada uma delas é dum valor inestimável, tendo gravada uma perturbante variedade de simbolismos, e, contudo, cada uma delas possuindo uma beleza própria especial. Na outra caixa estava uma bem, suponho que, à falta de outro nome, se lhe podia chamar uma caixa de música. A caixa em si é de marfim, de marfim amarelo velho tão liso como cetim, e coberta de um conjunto compacto de figuras, gravadas em forma de

diagrama, que devem ter algum significado que não compreendo. Tem no cimo um círculo metido numa escala graduada e, quando fiz girar esse círculo para a primeira graduação, ouviu-se música e espalhou-se pela sala um jogo de luzes de muitas cores, como se estivesse cheia de muitos tipos de cores diferentes e, por toda ela, uma sugestão longínqua daquela névoa dourada. Vinham também da caixa, perfumes que enchiam a sala, e sentimento, emoção o que lhe queiram chamar mas qualquer coisa que tomava posse de nós e nos tornava tristes ou alegres consoante o modo como nos impressionava a música, a cor e o perfume. Vinha dessa caixa um mundo no qual se vivia segundo os estímulos que desse modo nos eram fornecidos vivendo-os com toda a plenitude, toda a emoção, crença e razão de que éramos capazes. Aquilo era, garanto, uma gravação da arte de que tinham falado. Não tinha apenas uma combinação, mas 206, porque é esse o número de graduações, e porque cada graduação corresponde a uma combinação distinta. Daqui para o futuro vou experimentá-las todas, tomar apontamentos e dar-lhes nomes de acordo com as suas características. Penso, assim, colher alguns ensinamentos ao mesmo tempo que me distraio.

15

As doze garrafas de diamante, de há muito vazias, reluziam em fila sobre o fogão de sala.

A caixa de música, sendo um dos seus objectos preferidos, estava cuidadosamente

guardada dentro dum armário. Pesaroso, Enoch pensou que durante todos aqueles anos, apesar de se servir dela sistemàticamente, não tinha ainda escutado todas as gravações. Extasiava-se tanto com algumas delas que as repetia frequentemente. Assim, ultrapassara em pouco o meio da escala.

Os cinco Hazers voltaram diversas vezes, talvez por terem encontrado na estação ou no seu operador alguma qualidade que lhes agradava. Ajudaram-no na aprendizagem da língua de Vega e trouxeram-lhe trechos de literatura e muitas outras coisas, tornando-se, sem dúvida, os melhores amigos entre os estranhos seres que conhecera (sem falar de Ulysses). De repente deixaram de voltar, o que o deixou intrigado e o levou a perguntar por eles aos outros Hazers que apareciam na estação. Mas nunca conseguiu saber o que lhes acontecera.

Sabia muito mais, agora, a respeito dos Hazers, das suas formas de arte, tradições, costumes e história, do que em 1915, quando pela primeira vez escreveu sobre eles. Mas estava muito longe de apreender muitos dos seus conceitos elementares.

Desde aquele dia em 1915, conhecera muitos deles. Lembrava-se de um em particular

o velho e experiente filósofo que morrera, ali, no chão junto do sofá.

Tinham estado sentados a conversar. Ainda podia lembrar-se do assunto. O velho explicava-lhe o código perverso de ética, ao mesmo tempo irracional e cómico forjado por aquela curiosa raça de vegetais-sociais que conhecera numa das suas visitas a um planeta distante, para além do anel da galáxia. O velho Hazer tinha bebido, estava extremamente bem disposto, falando de tudo com grande entusiasmo.

Sùbitamente, a meio de uma frase, calou-se e tombou lentamente para a frente. Estupefacto, Enoch deitou-lhe a mão. Mas antes que pudesse segurá-lo, o velho escorregou para o chão.

A névoa dourada extinguiu-se lentamente e o corpo ficou caído ali, anguloso, ossudo e

obsceno, uma coisa terrìvelmente estranha, uma coisa que, simultânemente, inspirava dó e era monstruosa. Enoch teve a sensação de que nunca assistira até aí a nada tão monstruoso.

Enquanto vivo, fora impressionante. Mas agora, na morte, era um monte de ossos envolvidos num pergaminho ordinário. Enoch concluiu, horrorizado, que era a névoa dourada que fazia com que o Hazer parecesse tão impressionante e belo, tão cheio de vitalidade e vivacidade, pleno de dignidade. A névoa dourada era a sua vida; quando desaparecia tornavam-se meros seres tão horrorosos e repelentes que, ao olhá-los, nos sentíamos estremecer.

Seria a névoa a força vital dos Hazers que eles usavam como uma forma de disfarce? Usariam eles por fora a sua força vital enquanto todas as outras criaturas a usavam interiormente?

O vento gemia no beiral do telhado, enquanto ele via, através da janela, os exércitos de

nuvens arredondadas que passavam, deixando ver, de quando em quando, a Lua que subia

no Céu, a Oriente.

A estação estava fria e só uma solidão que tudo abarcava, mais do que a mera solidão

terrestre podia atingir.

Enoch atravessou a sala para se dirigir ao receptor de mensagens. Pediu uma ligação directa para a Central Galática e ficou à espera, com as mãos crispadas sobre o aparelho.

TRANSMITA, disse a Central Galática.

Resumidamente e com a maior objectividade de que foi capaz, Enoch comunicou o que se passara.

Do outro lado não houve a mínima hesitação nem fizeram quaisquer perguntas. Limitaram-se a dar instruções (como se fosse qualquer coisa que acontecesse constantemente) sobre como a situação devia ser resolvida. O Vegan devia ficar no planeta em que morrera, dando-se ao corpo um destino de acordo com os costumes desse mesmo planeta. Esta era a lei de Vega e, de igual modo, uma questão de honra. Um Vegan devia ficar onde tombava morto, tornando-se esse local, para sempre, parte integrante de Vega XXI. Havia locais desses espalhados por toda a galáxia, disse a Central.

- AQUI; COSTUMAMOS ENTERRAR OS MORTOS (transmitiu Enoch).

- ENTÃO, ENTERRE O VEGAN.

- LEMOS UMA PASSAGEM OU DUAS DO NOSSO LIVRO SAGRADO.

- SENDO ASSIM, LEIA-LHE UMA. PODE FAZER TUDO ISSO?

- POSSO. MAS, HABITUALMENTE, É FEITO POR UM PADRE. NÃO SER ACONSELHÁVEL NESTE CASO.

- DE ACORDO. PODE SER VOCÊ A FAZÊ-LO?

CONTUDO, ISSO PODE

- SIM, POSSO.

- ENTÃO É PREFERÍVEL QUE O FAÇA.

- VIRÃO PESSOAS DE FAMÍLIA OU AMIGOS ASSISTIR À CERIMÔNIA?

- NÃO.

- VOCÊ VAI AVISÁ-LOS?

- COMO MERA FORMALIDADE, CLARO. ELES JÁ SABEM.

- MAS MORREU APENAS HÁ MOMENTOS.

- TODAVIA, JÁ SABEM.

- E COM RESPEITO À CERTIDÃO DE ÓBITO?

- NÃO É NECESSÁRIA. ELES SABEM DE QUE MORREU.

- E A BAGAGEM? HÁ UM BAÚ.

- FIQUE COM ELE. É SEU. É UMA RECOMPENSA PELOS SERVIÇOS QUE PRESTA AO VENERÁVEL DEFUNTO. TAMBÉM FAZ PARTE DA LEI.

- MAS PODE CONTER COISAS IMPORTANTES.

- FICARÁ COM O BAÚ. RECUSÁ-LO SERIA INSULTAR A MEMÓRIA DO MORTO.

- MAIS ALGUMA COISA?

- É TUDO. PROCEDA COMO SE O VEGAN FOSSE UM DOS SEUS.

Enoch limpou o visor e voltou para a sala. Parou junto ao Hazer, concentrando forças para pegar nele e pô-lo no sofá. Estremeceu ao tocar-lhe. Estava sujo e medonho, dando a impressão de que havia uma máscara a cobrir aquele ente brilhante que estivera a conversar com ele.

Passou a gostar dos Hazers e a admirá-los desde que os conhecera, e ansiava sempre pelas suas visitas. Agora, para ali estava, tremendo como um cobarde, incapaz de tocar num morto.

Não era apenas horror o que sentia, mas qualquer coisa mais e muito diferente, que não sabia o que era. Era, ainda, um amigo seu que estava ali e que, como tal, exigia dele respeito, amor e atenção.

Entregou-se cegamente à sua tarefa. Levantou-o. Reparou que quase não tinha peso como se, na morte, tivesse perdido uma das suas dimensões tornando-se, de certo modo, mais pequeno e insignificante. Seria que a névoa dourada tinha em si todo o peso?

Deitou o corpo no sofá e endireitou-o o melhor que lhe foi possível. Depois saiu, foi à barraca acender um candeeiro e levou-o para o celeiro.

Há anos que lá não ia, mas tudo estava na mesma. Protegido do tempo por um telhado estanque, permanecera em bom estado e seco. Havia teias de aranha nas vigas e pó por todos os lados. Pelas brechas do sótão pendiam hastes do feno antigo que fora ali guardado. Cheirava ainda a animais e a estrume há muito desaparecidos.

Enoch pendurou o candeeiro num grampo e subiu as escadas para o sótão. Trabalhando às escuras, porque não se atrevia a trazer o candeeiro para junto daquele montão poeirento de feno seco, encontrou um molho de pranchas de carvalho metido debaixo das goteiras do telhado.

Ali, lembrou-se, naquele mesmo local, existira em tempos uma caverna a fingir na qual, em pequeno, passara feliz muitos dias de chuva, quando não podia sair à rua. Fora Robinson Crusoe na caverna da ilha deserta, um foragido escondendo-se dos perseguidores, ou um fugitivo evitando a cilada de índios caçadores de escalpes. Tivera uma pistola de madeira feita por ele, que serrara de uma tábua, alisando-a depois com uma navalha e um pedaço de vidro. Tratara-a carinhosamente através da sua infância até ao dia em que o pai, ao regressar de uma viagem à cidade, lhe trouxe uma espingarda.

Escolheu pelo tacto as pranchas de que necessitava. Levou-as até junto da escada e deixou-as escorregar cuidadosamente.

Descendo a escada, dirigiu-se ao sítio onde estavam guardadas as ferramentas. Abriu a caixa e verificou que estava cheia de ninhos de ratos abandonados. Tirando às mãos cheias a palha, o feno e a erva que os roedores tinha utilizado para tornar mais confortável

a sua casa de outrora, pôs as ferramentas a descoberto. Tinham perdido o brilho, estavam escurecidas pela prolongada falta de uso, mas não tinham qualquer ferrugem e mantinha os gumes afiados.

Escolhendo aquelas de que precisava, meteu mãos à obra. Há um século, pensou, fizera

o mesmo que estava a fazer agora, a trabalhar à luz do candeeiro para construir um caixão. Nessa altura, era o pai que jazia em casa.

As pranchas de carvalho estavam secas e rijas, mas as ferramentas ainda lhe permitiam trabalhá-las. Serrava, aplainava e martelava, ficando no ar um cheiro a serradura. O celeiro estava confortável e silencioso, na medida em que a camada de feno que estava no sótão abafava os gemidos do vento.

Verificou, ao acabar o caixão, que era mais pesado do que imaginara, pelo que teve de recorrer ao carrinho de mão, que estava encostado à parede do estábulo dantes ocupado pelos cavalos. Afanosamente, parando com frequência para descansar, levou-o até ao pequeno cemitério que havia dentro do pomar de macieiras.

Ali, cavou outra campa ao lado da do pai. Não a cavou tão funda como desejaria, com a profundidade habitual, porque sabia que, se o fizesse, não seria capaz de lá meter o caixão. Assim, à luz do candeeiro assente sobre um montão de detritos, levou-a até pouco mais de metade daquela profundidade. Um mocho aproximou-se, vindo do bosque, e pousou algures no pomar, escondido, piando de vez em quando. A Lua afundava-se a Oeste e as nuvens, agora menos espessas, rasgavam-se para deixarem ver as estrelas.

Acabou, finalmente, quando a luz do candeeiro vacilava já por se estar a acabar o petróleo.

De novo na estação, Enoch procurou um lençol para nele envolver o corpo. Meteu a Bíblia na algibeira, pegou no Vegan amortalhado e, ao romper da aurora, pôs-se a caminho do pomar. Meteu o Vegan no caixão, pregou o tampo e saltou da campa.

De pé, à beira dela, tirou a Bíblia da algibeira e abriu-a na página que pretendia. Leu em voz alta, sem ter grande necessidade de apurar a vista para seguir o texto, pois era parte de um capítulo que lera muitas vezes.

Em casa de meu Pai há muitas moradas; se assim não fosse, ter-vos-ia dito

Pensava, ao lê-lo, na verdade que aquilo encerrava; em como era necessário haver muitas moradas para abrigar todas as almas da galáxia e de todas as galáxias que, provàvelmente, estavam espalhadas pelo espaço. Contudo, se houvesse entendimento, uma poderia bastar.

Acabou de ler a recitou a oração fúnebre, de cor e o melhor que pôde, sem estar absolutamente certo de todas as palavras; mas, o suficiente para lhe dar um sentido. Em seguida, tapou a cova com terra.

As estrelas e a Lua tinha desaparecido e o vento caíra. Na quietude da manhã, o céu era, a Leste, de um rosa opalino.

Enoch permaneceu de pé à beira da campa, com a pá na mão.

- Adeus, meu amigo disse.

Voltou-se depois e, aos primeiro alvores da manhã, regressou à estação.

16

Enoch levantou-se da secretária, pegou no livro de registos e foi colocá-lo no seu lugar na estante.

Voltou-se e ficou parado, hesitante.

Tinha várias coisas para fazer. Devia ler os jornais. Devia fazer o diário. Havia dois jornais das últimas edições do Journal of Geophysical Research a que devia dar uma vista de olhos.

Mas não lhe apetecia fazer nenhuma delas. Havia de mais em que pensar, com que se preocupar e com que se afligir.

Os observadores continuavam lá fora a espiá-lo. Perdera os amigos que viviam na sombra, e o mundo caminhava para uma guerra.

Contudo, talvez não devesse preocupar-se com o que acontecia no mundo. Podia renunciar a ele, separar-se da raça humana quando quisesse. Se nunca saísse à rua, nem abrisse a porta, não lhe faria diferença nenhuma o que se passasse no mundo nem o que lhe pudesse acontecer. Porque ele tinha um mundo. Tinha um mundo maior do que pudessem sonhar os que viviam fora da estação. Não precisava da Terra.

Mas, ao mesmo tempo que assim pensava, sabia que não podia levar aquilo à risca. Porque, dum modo estranho e curioso, ainda precisava da Terra.

Dirigiu-se para a porta, proferiu a frase mágica e ela abriu-se. Passou para a barraca, fechando-se aquela atrás dele.

Voltou a esquina da casa e sentou-se nos degraus que conduziam ao alpendre.

Fora ali que tudo começara, pensou. Estivera sentado ali, naquele longínquo dia de Verão em que as estrelas, atravessando o espaço imenso, vieram ter com ele.

O Sol estava já muito baixo a Oeste, e cedo seria noite. Começava a arrefecer, soprando uma brisa fresca que subia das concavidades do vale. Do outro lado do campo, na orla do bosque, os corvos volteavam no céu e grasnavam.

Seria muito difícil fechar a porta e mantê-la fechada, bem o sabia. Seria custoso nunca mais sentir o sol ou o vento, nunca mais sentir o cheiro das estações à medida que passavam pela Terra. O Homem não estava ainda preparado para isso. Não se tornara ainda capaz de criar o seu ambiente próprio, a ponto de poder emancipar-se completamente das características físicas do seu planeta de origem. Necessitava do Sol, do solo e do vento para permanecer homem.

Devia fazer aquilo mais amiudadamente, pensou Enoch, sentar-se ali, sem fazer nada, apenas a olhar, vendo as árvores e o rio a Oeste, e o azul dos montes Iowa do outro lado do Mississipi, observando os corvos a voltear no céu e os pombos a empertigarem-se no topo do celeiro.

Valia a pena fazê-lo todos os dias porque, o que era mais uma hora de envelhecimento? Não tinha necessidade de poupar as suas horas pelo menos agora. Poderia vir a altura em que se tornaria cioso delas e, quando esse dia chegasse, podia entesourar as horas e os minutos, até mesmo os segundos, de uma forma tão avara quanto fosse capaz.

Ouviu o ruído de pés que corriam, no momento em que voltavam a esquina mais distante da casa. Era alguém que corria aos tropeções, exausto, como se tivesse vindo de muito longe.

Pôs-se de pé num pulo para ver quem era que se dirigia a ele, cambaleando e de braços abertos. Agarrou-a com uma das mãos quando ela se aproximou, encostando-a a si para que não caísse.

- Lucy! gritou. Lucy! Que aconteceu?

Sentiu as mãos quentes e pegajosas nas costas dela e, olhando para uma, viu que estava coberta de sangue. As costas do vestido estavam ensopadas e escuras.

Segurou-a pelos ombros e afastou-a de si para lhe ver o rosto. Estava molhado de chorar e tinha uma expressão de terror.

Ela afastou-se dele e voltou-se. Descobriu os ombros e parte das costas. Estavam marcados por longos golpes que ainda sangravam.

Tornou a puxar o vestido para cima e virou-se para ele. Fez um gesto como a querer dizer alguma coisa e apontou para trás, para os lados do sopé da colina, em direcção ao campo que descia para o bosque.

Olhando naquela direcção, reparou que vinha alguém pelo bosque, quase na orla do velho campo deserto.

Ela devia ter visto também, dado que se encostou a ele, a tremer, pedindo-lhe protecção.

Levantou-a nos braços e correu para a barraca. Disse a frase habitual, a porta abriu-se e entraram para a estação. Ouviu atrás de si o deslizar da porta que se fechava.

Uma vez lá dentro, ficou parado, com Lucy Fisher nos braços, reparando que cometera um grande erro que num momento de maior calma não o teria feito, que, se tivesse pensado duas vezes, não o teria cometido.

Mas actuara num impulso, sem pensar. Ela tinha-lhe pedido protecção e, ali, tê-la-ia, nada do mundo poderia atingi-la. Mas era um ser humano e nenhum, além dele, devia jamais ter atravessado a ombreira da porta.

Estava feito e não havia maneira de modificar as coisas. Depois de ter entrado, já nada havia a fazer.

Atravessou a sala com ela, indo pô-la no sofá. Lucy olhava para ele, sorrindo-lhe tìmidamente, como se não soubesse se lhe era permitido sorrir num lugar como aquele. Levantou a mão para limpar as lágrimas que lhe molhava a face.

Olhou ràpidamente em volta fazendo com a boca um O de espanto.

Ele acocorou-se, bateu com a mão no sofá e agitou um dedo, na esperança de que ela compreendesse que devia ficar ali, que não devia sair dali para lado nenhum. Fez um gesto largo com o braço como a significar tudo o que ela podia recordar mais tarde com respeito à estação, e sacudiu a cabeça com a maior severidade de que foi capaz.

Ela observava-o fascinada, sorrindo-lhe depois e concordando com a cabeça, em sinal de que tinha compreendido.

Enoch segurou-lhe numa das mãos, afagando-a tom toda a suavidade, tentando tranquilizá-la, fazêla compreender que tudo correria bem se se deixasse ficar onde estava.

Lucy sorria, agora mais à vontade. Apontou com a outra mão para a mesinha de café, que estava carregada de objectos estranhos. Enoch disse-lhe que sim com a cabeça, pegando ela num deles e ficando a observá-lo, admirada.

Ele pôs-se de pé e dirigiu-se para a parede em que estava pendurada a espigarda. Pegou nela e saiu para a rua, a fim de enfrentar o que quer que a tivesse perseguido.

17

Vinham dois homens a subir pelo campo em direcção à casa. Enoch reparou que um deles era Hank Fisher, o pai de Lucy. Conhecera-o, de passagem, há muitos anos, durante um dos seus passeios. Hank explicara-lhe, muito tìmidamente e quando não havia

necessidade de nenhuma explicação, que andava à procura de uma vaca que se tinha tresmalhado. Mas Enoch deduzira, pelos seus modos furtivos, que a missão que o levara ali, em vez de ser procurar uma vaca, era antes qualquer coisa mais obscura, embora não pudesse fazer ideia do que seria.

O outro homem era mais novo. Talvez não tivesse mais de dezasseis ou dezassete anos. Era mais do que provável tratar-se de um dos irmãos de Lucy.

Enoch parou junto do alpendre e esperou.

Hank trazia um chicote enrolado numa das mãos e, ao olhar para ele, Enoch compreendeu o motivo daquelas feridas nos ombros de Lucy. Sentiu uma cólera súbita, mas tentou dominá-la, pois sabia ser mais fácil lidar com Hank Fisher se mantivesse a calma.

Os dois homens pararam a cerca de três passos de distância.

- Boa tarde disse Enoch.

- Viu a minha rapariga? pertuntou Hank.

- E se a tivesse visto?

- Hei-de descobrí-la gritou Hank, mostrando o chicote.

- Nesse caso, creio que não lhe direi nada.

- Você escondeu-a afirmou Hank.

- Pode procurá-la.

Hank deu um passo em frente, mas reconsiderou.

- Ela teve o que merecia gritou. E ainda não acabei. Não há ninguém, nem mesmo da minha família, que me impeça de o fazer.

Enoch não respondeu, o que provocou nele uma certa indecisão.

- Ela intrometeu-se disse. Não tinha nada que o fazer. O assunto não lhe dizia respeito.

- Eu estava apenas a treinar o “Butcher” – disse o jovem. – “Butcher” é um cachorro galgo.

- É verdade disse Hank. Não estava a fazer nada de mal. Os rapazes apanharam um

cuati pequeno uma noite destas. Deu-lhes muito trabalho. Aqui o Roy atou-o a uma árvore e segurou o “Butcher” pela trela. Deixou que o “Butcher” lutasse com o cuati, mas sem lhe

fazer mal. Puxá-lo-ia antes que isso acontecesse, e deixá-los-ia descansar um pouco.

- É o melhor processo de treinar um cão para a caça ao cuati disse Roy.

- É verdade. Foi para isso que o apanharam esclareceu Hank.

- Precisávamos dele para treinar o cachorro.

- Está tudo muito certo. Mas que tem isso que ver com a Lucy?

- Ela resolveu intervir esclareceu Hank. Fez menção de acabar com o treino. Tentou arrancar o “Butcher” das mãos de Roy.

- Ela compadeceu-se de mais para uma surda-muda disse Roy.

- Tem tento na língua observou o pai, com severidade, virando-se para ele com ar de ameaça.

Roy encolheu-se, recuando um degrau.

Hank dirigiu-se a Enoch.

- Roy atirou-a por terra. Não devia tê-lo feito. Devia ter tido mais cuidado.

- Não foi de propósito. Fiz um gesto com o braço, assim, apenas para a manter afastada do “Butcher”.

- Pois foi. Fê-lo com mais força do que contava. Mas não havia razão nenhuma para ela

fazer o que fez. Imobilizou o “Butcher” para que não pudesse lutar com o cuati. Sem lhe

tocar com um dedo, tolheu-lhe completamente os movimentos, ao ponto de não conseguir mover um músculo. Isto fez com que Roy perdesse a cabeça. Não lhe aconteceria o mesmo a si? perguntou, dirigindo-se a Enoch.

- Penso que não. Além disso, não sou treinador de cães.

Hank ficou pasmado com aquela falta de compreesão, mas continuou a contar: - Roy ficou furioso. Não permitiria que ninguém, nem mesmo a irmã, imobilizasse aquele cão. Assim, foi atrás dela, que o paralisou, tal como fizera ao “Butcher”. Nunca, na minha vida, tinha visto uma coisa como aquela. Roy empertigou-se, caindo depois para o chão, com as pernas flectidas sobre o peito e os braços enrolados sobre si mesmo. E para ali ficaram no chão, ele e o “Butcher”, com duas bolas. Mas não fez nada ao cuati. Não o paralisou. Apenas fez aos que lhe pertenciam.

- Não senti qualquer dor. Absolutamente nada disse Roy.

- Eu estava sentado ali explicou Hank com este chicote na mão. Presenciei tudo, mas

nada fiz até ver o Roy naquele estado. Compreendi, então, que aquilo já tinha ido longe demais. Sou um homem compreensivo; não me importo que se encantem animais ou outras coisas no género. Tem havido muito gente capaz de fazê-lo. Não tenho nada contra

isso

Mas essa coisa de imobilizar cães e pessoas

-

Quer dizer, então, que lhe bateu com o chicote disse Enoch.

- Fiz o que devia respondeu Hank, com solenidade. Não estou disposto a ter bruxas

na família. Apliquei-lhe um par de chicotadas, ao mesmo tempo que ela tentava convencer-me a parar. Mas eu tinha que cumprir com a minha obrigação, e continuei a bater-lhe. Se me tivesse dado tempo, tirar-lhe-ia o bruxedo do corpo. Foi então que ela aplicou o seu poder sobre mim, mas de um modo diferente: cegou-me cegou o seu próprio pai! Não conseguia ver nada. Andei aos tropeções pelo pátio, aos gritos e a esfregar os olhos. Depois, quando voltei a ver, já ela tinha fugido. Ainda a vi correr pelo bosque, em direcção à colina. Assim, o Roy e eu, viemos atrás dela.

- E pensa que está aqui escondida?

- Sei que está respondeu Hank.

- Pois bem, procure-a.

- É precisamente isso que vou fazer. Roy, encarrega-te do celeiro.

- Enquanto ele se dirigia para lá, Hank entrou na barraca, saindo logo de seguida para se dirigir à capoeira.

Enoch ficou à espera, com a espingarda debaixo do braço.

Sabia que estava metido em trabalhos mais do que já estivera até aí. Não havia possibilidade de uma conversa razoável com homens do género de Hank. Naquele momento, não compreenderia qualquer tentativa de aproximação. Sabia que nada podia fazer, senão esperar que ele se acalmasse. Então, talvez houvesse possibilidade de uma conversa sensata.

Os dois homens regressaram das buscas.

- Não está em parte nenhuma, aqui à volta disse Hank. Está dentro da casa.

Enoch sacudiu a cabeça. Ninguém pode entrar naquela casa.

- Roy, sobe aquela escada e abre a porta disse-lhe o pai.

Roy olhou para Enoch, receoso.

- Vai, disse-lhe ele.

Roy caminhou lentamente e subiu os degraus. Atravessou o alpendre, pôs a mão na maçaneta da porta e deu uma volta. Tentou de novo, voltando-se depois.

- Pai, não consigo abrir.

- Coa breca. Não sabes fazer nada.

Hank alcançou a escada em dois passos, e atravessou apressadamente o alpendre. Deitou a mão à maçaneta e apertou-a com força. Experimentou-a várias vezes. Voltou-se, zangado, para encarar Enoch.

- O que se passa aqui?

- Eu bem lhe disse que não conseguia entrar.

- Uma fava, é que não consigo! rosnou Hank.

Atirou o chicote a Roy e desceu o alpendre, apontou em direcção a um monte de lenha que estava junto da barraca. Arrancou do cepo o pesado machado de dois gumes.

- Cautela com esse machado avisou Enoch. Tenho-o há muito tempo, e faz-me muita falta.

Hank não lhe deu resposta. Subiu ao alpendre e tomou posição em frente da porta.

- Afasta-te, disse ao filho. Preciso de espaço.

Roy afastou-se.

- Espere um momento pediu-lhe Enoch. Tenciona fazer esssa porta em pedaços?

- É precisamente o que tenciono fazer.

Enoch concordou, gravemente. Se quiser tentar, não me importo.

Hank firmou-se bem nas pernas, agarrando o machado pelo cabo. O aço brilhou instantâneamente acima dos ombos, precipitando-se, depois, para baixo.

O gume do machado atingiu a superfície da porta, escorregando nela e desviando-o para

o lado. A lâmina quase atingia atingia a perna de Hank que, na violência do movimento, deu meia volta sobre si mesmo.

Olhava espantado para Enoch, com os braços esticados e os dedos ainda cerrados sobre

o cabo.

- Experimente outra vez convidou aquele.

Hank tinha o rosto vermelho, de cólera.

- Garanto que o faço! gritou.

Voltou a tomar posição e, desta vez, desfechou o golpe, não sobre a porta, mas sim na janela que estava ao lado.

Ouviu-se o som metálico dos fragmentos que voavam em todos os sentidos.

Hank encolheu-se, deixando cair o machado. Tinha uma lâmina partida. A janela estava intacta, sem um arranhão, sequer. Ficou paralisado de espanto, a olhar para o machado partido, como se não conseguisse compreender. Em silêncio, estendeu uma das mãos para receber o chicote que Roy lhe entregou.

- No seu lugar, não tentaria fazer uma coisa dessas. Tenho os movimentos muito

rápidos disse Enoch, acariciando a coronha da espingarda. Tê-lo-ia na mão, antes que pudesse erguer o chicote.

Hank arfava. Você tem o demónio dentro de si, Wallace. Também ela. Trabalham ambos em conjunto. Encontram-se às ocultas no bosque.

Enoch esperava, não tirando os olhos deles.

- Que Deus me ajude exclamou Hank. A minha filha é uma bruxa!

- Penso que deviam voltar para casa. Se encontrar Lucy, levar-lha-ei.

Nenhum deles se moveu.

- Ainda não lhe disse tudo o que tinha a dizer. Você escondeu a minha filha em qualquer lado, e há-de pagar-mas por isso.

- Quando quiser, mas agora não respondeu Enoch. Fez-lhes um gesto imperioso com a espingarda.

- Ponham-se a mexer ordenou ele. E não voltem atrás, nehum de vós.

Hesitaram por um momento, olhando para ele, tentando adivinhar-lhe os pensamentos, descobrir o que poderia fazer a seguir.

Voltaram-se lentamente e, caminhando lado a lado, meteram pela colina abaixo.

18

Devia tê-los morto a ambos, pensou. Não mereciam viver.

Baixou os olhos sobre a espingarda e verificou que tinha as mão de tal modo crispadas na arma, que os dedos estavam brancos e rígidos, de encontro ao castanho acetinado da madeira.

Respirou fundo, na tentativa de dominar a cólera que fervia dentro dele, prestes a explodir. Se se tivessem demorado um pouco mais, se os não tivesse obrigado a irem-se embora, sabia que se deixaria arrastar por aquela cólera cada vez maior.

Tinha sido melhor assim, mesmo muito melhor. Estava admirado como conseguira segurar-se. Sentia-se satisfeito por isso porque, mesmo assim, no pé em que estavam as coisas, a situação já era bastante má.

Haviam de dizer que ele era um louco; que os fizera fugir à frente da arma. Podiam mesmo dizer que tinha raptado Lucy e que a mantinha em seu poder contra a vontade dela. Nada os impediria de lhe causarem todos os problemas de que fossem capazes.

Não tinha ilusões sobre o que pudessem fazer, pois conhecia o género, vingativo em toda a sua pequenez insignificantes insectos viciosos da raça humana.

Deixou-se ficar ao lado do alpendre, vendo-os descer a colina, ao mesmo tempo que pensava como era possível, do seio de uma família tão decadente, ter surgido uma rapariga como Lucy. O seu defeito físico tinha-lhe servido, provàvelmente, de protecção contra aquela gente; impedido-a de ser como eles.

Tinha cometido um grande erro, ao deixar-se envolver num assunto daqueles. Tinha muito a perder; devia ter-se mantido à parte.

Mas, mesmo assim, que podia ele ter feito? Poderia ele ter-se recusado a dar protecção a Lucy, quando o sangue lhe corria dos golpes que tinha nos ombros e lhe ensopava o vestido? Deveria ele ter ignorado a súplica frenética que lhe vira no rosto?

Podia tê-lo feito de outra maneira, pensou. Podia ter havido outras maneiras, mais inteligentes, de resolver o caso. Mas não houve tempo para isso. Apenas tivera tempo de pô-la a salvo e de voltar à rua para recebê-los.

Agora, ao pensar naquilo, concluiu que talvez tivesse sido melhor não sair de casa. Se tivesse ficado na estação, nada teria acontecido.

Foi impensadamente que saiu à rua para falar com eles. Era, humanamente, o que devia fazer, mas não fora atilado. Mas já estava feito, e não podia voltar atrás. Se fosse agora, tê- lo-ia feito de um modo diferente, mas não existia segunda oportunidade.

Voltou-se, pensativo, e entrou na estação.

Lucy estava sentada no sofá, com um objecto brilhante na mão. Olhava para ele com admiração, e havia no seu rosto a mesma expressão de vivacidade que lhe vira naquela manhã, quando segurava a borboleta.

Colocou a espingarda sobre a secretária e deixou-se ficar ali imóvel; mas ela deve ter-se apercebido da sua chegada, pois levantou os olhos ràpidamente. Em seguida, voltou a pousá-los no objecto brilhante que tinha nas mãos.

Enoch reparou que se tratava da pirâmidade de esferas e que, agora, todas elas giravam lentamente, em sentidos alternados. Ao fazê-lo, brilhavam em cintilações de cores diversas, como se, dentro de cada uma delas, existisse uma fonte de luz suave e quente.

Ele suspendeu a respiração perante a beleza que o maravilhava com a mesma admiração que experimentara ao tentar descobrir o que era aquele objecto e para que servia. Tinha-o examinado centenas de vezes, intrigado, sem nunca ter conseguido descobrir nada de importância.

Pelo que lhe tinha sido dado observar até aí, concluíra tratar-se de um objecto que servia apenas para vista, embora tivesse a sensação constante de que aquilo tinha uma finalidade, e que devia funcionar, de qualquer modo.

Agora, estava a funcionar. O que ele tentara descobrir uma centena de vezes, conseguira-o Lucy logo à primeira tentativa.

Reparou no enlevo com que ela a observava. Seria possível que conhecesse a sua finalidade?

Enoch atravessou a sala e tocou-lhe no braço. Lucy levantou os olhos para ele, mostrando um brilho de felicidade e excitação no olhar.

Apontou interrogativamente para a pirâmide, tentando perguntar-lhe se sabia o que era aquilo. Mas não o compreendeu. Ou talvez soubesse, sabendo também como seria impossível explicar-lhe a finalidade. Ela voltou a apontar para a mesinha, com o seu carregamento de bugigangas e parecia rir pelo menos, havia um ar de riso no seu rosto.

Parecia uma criança, em frente de uma caixa cheia de brinquedos novos e maravilhosos. Seria apenas isso, o que tudo aquilo representava para ela. Sentir-se-ia feliz e excitada, ùnicamente por se ter apercebido, de súbito, de toda a beleza e novidade das coisas amontoadas sobre a mesinha?

Enoch voltou à secretária, pegou na espingarda e pendurou-a.

Ela não devia estar na estação. Nenhum ser humano, além dele, devia entrar na estação. Trazendo-a para ali, quebrara o acordo tácito com os seres estranhos que tinha feito dele o encarregado da estação. Contudo, de todas as pessoas que podia ali trazer, Lucy era a única com possibilidade de ser excluída dessa restrição, porque nunca seria capaz de contar o que visse ali.

Não podia ficar, bem o sabia. Teria de levá-la a casa. Se o não fizesse, viriam em massa procurá-la.

A história de uma surda-muda desaparecida atrairira os jornalistas. A notícia seria dada em todos os jornais, pela televisão e pela rádio, e os bosques ficariam pejados de gente, à sua procura.

Hank Fisher contaria como tentara arrombar a casa, sem o conseguir, procurando outros fazer o mesmo.

Enoch transpirava, ao pensar nisso.

Todo o trabalho que tivera durante aqueles anos, para manter as pessoas afastadas, resultaria em vão. Aquela casa estranha, isolada no topo de uma colina, tornar-se-ia um mistério para o mundo, um desafio e um alvo das atenções gerais.

Foi ao armário dos medicamentos buscar o unguento que fazia parte das drogas fornecidas pela Central Galática.

Encontrou-o e abriu a caixa. Ainda havia mais de metade. Usara-o durante anos, mas de longe em longe. De facto, não havia necessidade de usá-lo em grandes quantidades.

Atravessou a sala até ao local onde Lucy esta sentada, e parou atrás do sofá. Mostrou- lhe o que trazia e, por gestos, explicou-lhe para que servia. Ela descobriu os ombros, e Enoch debruçou-se para observar os ferimentos.

Já não sangrava, mas a carne estava vermelha e inflamada.

Espalhou o unguento nos sulcos deixados pelo chicote, com a maior suavidade.

Lucy tinha curado a borboleta, pensou; mas não podia curar-se a si mesma.

A pirâmide de esferas continuava a cintilar, lançando uma sombra de cor por toda a

sala.

Estava a funcionar; mas que estaria a fazer?

Funcionava, finalmente, mas nada acontecia em consequência disso.

19

Ulysses chegou ao anoitecer.

Enoch e Lucy tinham acabado de jantar e estavam sentados à mesa, quando se ouviram os seus passos.

Ao vê-lo, Enoch achou que ele se parecia, mais do que nunca, com o palhaço cruel. O seu corpo tinha o aspecto de pele de gamo curtida. O colorido malhado da pele parecia brilhar com uma fraca luminosidade, e o rosto ossudo, a cabeça calva, as orelhas achatadas, pontiagudas e coladas ao crânio, emprestavam-lhe um aspecto medonho.

Se não se conhecesse a sua bondade e delicadeza, era capaz de aterrorizar um homem, a ponto de o deixar sem pinga de sangue.

- Temos estado à sua espera. A água para o café está a ferver.

Ulysses deu um passo em frente, e estacou.

- Está outra pessoa consigo. Um humano, diria eu.

- Não há perigo disse-lhe Enoch.

- É uma fêmea, não é verdade? Arranjou uma companheira?

- Não é minha companheira.

- Você tem agido com ponderação, durante todos este anos disse-lhe Ulysses. Na nossa situação, uma companheira não é muito aconselhável.

- Não se preocupe. Tem um defeito. Não pode comunicar. Não houve nem fala.

- Um defeito?

- Sim, de nascença. Nunca ouviu nem falou. Não pode contar nada do que aqui vê.

- Linguagem de sinais?

- Também não sabe. Recusou-se a aprender.

- É sua amiga?

- Desde há alguns anos respondeu Enoch. Veio pedir-me protecção. O pai bateu-lhe com um chicote.

- O pai sabe que está aqui?

- Supõe que sim, mas não tem a certeza.

Ulysses saiu da sombra, lentamente, e parou sob a luz.

Lucy olhava para ele, impávida. Mantinha o olhar sereno, sem pestanejar, sequer.

- Ela não tem medo de mim disse Ulysses. Não foge nem grita.

- Não poderia gritar, ainda que quisesse.

- À primeira vista, devo parecer muito repugnante a qualquer ser humano.

- Ela não vê, apenas, o aspecto exterior. Vê, também, o íntimo.

- Assustar-se-ia se lhe fizesse uma vénia, à maneira dos humanos?

- Penso que ficaria muito contente.

Ulysses curvou-se numa vénia, cerimoniosa e exagerada, com uma mão sobre o ventre, dobrando-se pela cintura.

Lucy sorriu e bateu palmas.

- Está a ver exclamou Ulysses, contente penso que deve gostar de mim.

- Então, porque não se senta, e tomamos uma chávena de café sugeriu Enoch.

- Já me tinha esquecido. Ao ver este ser humano, varreu-se-me da lembrança a ideia do café.

Sentou-se no lugar onde estava uma terceira chávena, à espera dele.

Antecipando-se a Enoch, Lucy foi buscar o café.

- Ela percebe o que se diz?

Enoch abanou a cabeça. Você sentou-se, e a chávena estava vazia.

Lucy deitou o café, indo sentar-se, depois, no sofá.

- Ela não fica ao pé de nós? perguntou Ulysses.

- Está entusiasmada com aquela mesa cheia de bugigangas. Pôs uma delas a funcionar.

- Tenciona mantê-la aqui?

- Não posso. Hão-de vir à procura dela. Tenho que levá-la para casa.

- Não me agrada nada disse Ulysses.

- Nem a mim. Temos que partir do princípio de que não devia tê-la trazido para aqui.

Mas, na altura, pareceu-me que não podia fazer outra coisa. Não tive tempo de pensar nisso.

- Não fez mal nenhum disse-lhe Ulysses, com brandura.

- Não pode prejudicar-nos. Sem a possibildiade de comunicar

- Não se trata disso. Ela constitui para nós um problema, e não me agradam mais complicações. Vim esta noite para lhe dizer, Enoch, que estamos em apuros.

- Em apuros? Mas, não aconteceu nada.

Ulysses bebeu um grande golo de café.

- É bom disse ele. Já experimentei levá-lo em grão para fazer em casa. Mas não tem o mesmo sabor.

- Mas ia a dizer

- Lembra-se do Vegan que morreu aqui, há vários anos?

- Enoch abanou a cabeça. O Hazer.

- O ser tem um nome

- Enoch riu-se. Não gosta das nossas alcunhas?

- Não estamos habituados a elas respondeu Ulysses.

- O nome que lhe dei é uma prova do meu afecto.

- Você enterrou o Vegan?

- No cemitério da minha família, como se me pertencesse. Li sobre a sua campa umas passagens da Bíblia.

- Fez muito bem. Era assim que devia ser. Fez tudo o melhor possível. Mas o corpo desapareceu.

- Desapareceu? Não pode ser! exclamou Enoch.

- Tiraram-no da campa.

- Mas você não pode saber uma coisa dessas protestou Enoch. Como poderia saber?

- Eu não, mas os Vegans. Eles é que sabem

- Mas estão a anos-luz de distância

Depois, vacilou. Na verdade, quando naquela noite em que o velho morreu, comunicou com a Central Galática, disseram que os Vegans sabiam o momento em que morrera e, ainda, que não havia necessidade de certidão de óbito, dado que sabiam do que tinha morrido.

Parecia impossível, como é óbvio, mas havia muitas impossibilidades na galáxia que se tornavam depois compreensíveis para quem pisasse terreno sólido.

Seria possível que cada Vegan mantivesse uma espécie de contacto mental com todos os outros? Ou que algum centro sensorial (para dar uma designação humana a qualquer coisa que mal se podia compreender) mantivessem uma espécie de ligação entre todos os Vegns vivos, sabendo onde estavam, como estavam e o que faziam?

Na verdade, podia existir qualquer coisa no género. Não estava para além das capacidades que se encotravam a cada passo pela galáxia. Mas, manter um contacto semelhante com o Vegan morto, era outra coisa.

- O corpo desapareceu, - disse Ulysses posso garantir-lhe. Atribuem-lhe uma certa responsabilidade.

- Os Vegans?

Sim, os Vegans e a galáxia.

- Fiz o que podia disse Enoch, com calor. Fiz o que era necessário. Segui o

estabelecido na lei Vegan. Prestei ao morto as minhas homenagens, e as homenagens do meu planeta. Não está certo que a minha responsabilidade se mantenha eternamente. Não é que acredite que o corpo desapareceu, na realidade. Ninguém o levaria, nem mesmo sabia sabia da sua existência.

- Pela lógica humana, você tem razão, com toda a certeza. O mesmo não acontece pela

lógica Vegan. Neste caso, a Central Galática terá tendência para apoiar os Vegans.

- Os Vegans aventurou Enoch são meus amigos. Nunca encontrei nenhum de que não gostasse, ou com que não me desse bem. Posso tratar do assunto com eles.

Se isso apenas dissesse respeito aos Vegans, estou convencido de que poderia fazê-lo. Não teria que se preocupar. Mas a situação complica-se. Superficialmente, parece um acontecimento bastante simples, mas há muitos factores. Os Vegans, por exemplo, já sabiam há tempos que o corpo tinha desaparecido, o que os perturbou, claro está. Mas, à parte certas considerações, mantiveram-se silenciosos.

- Não tinham necessidade de o fazer. Podiam ter vindo procurar-me. Não sei o que se poderia fazer

- Não se calaram por sua causa, mas sim por outra coisa.

Ulysses acabou de beber o café e serviu-se de outra chávena. Acabou de encher a de Enoch, que estava meia, e pôs a cafeteira de lado.

Enoch esperou.

- Você pode não se ter apercebido explicou Ulysses mas, na altura em que a estação

foi estabelecida, algumas raças da galáxia ofereceram uma oposição considerável a isso. Citaram-se muitas vezes, como acontece em todas as situações idênticas, que a razão fundamental reside, principalmente, nas vantagens rácicas e regionais. Uma situação idêntica, suponho, às contínuas manobras que se verificam na Terra, para beneficiar, econômicamente, um grupo ou outro, ou uma nação.

Enoch concordou com a cabeça. Tive essa impressão. Mas não me preocupei muito com o assunto.

- É, em grande parte, uma questão de orientação disse Ulysses. Quando a Central Galática iniciou a sua expansão neste braço de espiral, isso significava que não havia esforços nem tempo disponíveis para a expansão noutras direcções. Há um grande grupo de raças que sonha, há muitos anos, expandir-se para algumas das nebulosas mais próximas. Não faz o menor sentido, claro está. Com as técnicas que possuímos, são absolutamente possíveis as viagens mais longas para outras nebulosas. E outra coisa as nebulosas parecem ser extraordinàriamente isentas de poeiras e gases, de modo que, uma vez lá, podíamos expandir-nos com maior rapidez do que em muitas outras partes da galáxia. Mas isso não passa de especulação, pois não sabemos o que iríamos encontrar. Depois de muitos esforços despendidos e de muito tempo, pouco ou nada saberíamos. Mas eles representam uma forte atracção para certos espíritos.

Enoch concordou. Estou a ver. Seria o primeiro passo aventurado fora da galáxia. Seria mesmo, talvez, o primeiro passo na rota que nos conduziria a outras galáxias.

Ulysses olhou para ele, admirado. Também você disse ele. Já devia saber.

- Sou um dos tais espíritos disse Enoch, com ênfase.

- Bem, de qualquer modo, levantou-se o problema quando começámos a deslocar-nos

para esta direcção. Como fàcilmente compreenderá, estamos ainda no início da nossa

expansão neste sentido.

Levará séculos a completar a rede de estações.

Temos menos de doze estações, quando precisamos de cem.

- Quer então dizer, que o assunto está ainda a ser discutido. Ainda se está a tempo de cancelar o projecto relativo a este braço de espiral.

- Exactamente. E é isso que me preocupa. Pois tencionam servir-se do incidente do

corpo desaparecido como argumento contra a expansão desta rede. Têm tido a adesão de outros grupos que visam interesses especiais. E esses grupos com interesse especiais vêem uma maior possibilidade de conseguirem o que pretendem, se conseguirem destruir esse projecto.

- Destruí-lo?

- Sim, destruí-lo. Farão alarido, tão depressa o incidente do corpo seja divulgado,

fazendo constar que um planeta tão bárbaro como a Terra, não é local indicado para uma

estação. Insistirão para que esta estação seja abandonada.

- Mas, não podem fazer uma coisa dessas!

- Lá isso, podem. Dirão que é degradante e perigoso manter uma estação tão bárbara,

em que até as campas são violadas, num planeta em que o venerável defunto não pode descansar em paz. É o género de argumento altamente emocional, que terá larga aceitação

e apoio nalgumas secções da galáxia. Os Vegans fizeram o possível. Tentaram encobri-lo, por causa do projecto. Nunca tinham feito uma coisa assim. São um povo orgulhoso e sentem indiferença pelas honras talvez mais profundamente do que muitas outras raças e ainda, para maior benefício, tencionavam aceitar a desonra. E tê-lo-iam feito se tivessem conseguido manter o silêncio. Mas a história transpirou de qualquer maneira mercê de uma boa espionagem, sem dúvida. Assim, não podem consentir numa publicidade desonrosa. O Vegan que chega esta noite é um representante oficial, encarregado da entrega de um protesto.

- A mim?

- A si e, por seu intermédio, à Terra.

- Mas a Terra não está incluída nisto. A Terra nem sequer sabe.

- Claro que não sabe. Na medida em que interessa à Central Galática, você é a Terra. Representa a Terra.

Enoch sacudiu a cabeça. Era uma maneira absurda de pensar, mas não devia estranhar. Era o modo de pensar com que devia contar. Não se considerava de espírito tacanho. Estava treinado na maneira de pensar dos humanos, a qual persistia, mesmo depois de todos aqueles anos, ao ponto de ter de considerar errada qualquer maneira de pensar que estabelecesse conflito com ela.

Aquela ideia de abandonar a estação da Terra também estava errada. Não fazia sentido, porque abandonar a estação não implicava a destruição do projecto. Contudo, destruía, pela certa, as esperanças que alimentara para a raça humana.

- Mas, ainda que tenham que abandonar a Terra, podem ir para Marte. Podem construir

lá uma estação. Se houver necessidade de uma estação neste sistema solar, há outros planetas.

- Não está a compreender. Esta estação é, apenas, um ponto de ataque. Não passa de

um pretexto. O objectivo é destruir o projecto, para aplicar noutro o tempo e o esforço

gastos aqui. Se somos forçados a abandonar uma estação, isso constitui para nós um descrédito. Então, todas as nossas razões e a nossa capacidade de julgar têm de ser revistas.

- Mas, ainda que o projecto fosse destruído apontou Enoch não há a certeza de que

algum grupo ganharia. Apenas atiraria para um novo debate a questão de saber onde seria

enpregue o tempo e a energia. Você diz que há muitas facções com interesses especiais, que se reuniram para nos combater. Suponha que ganham. Terão, depois, de se guerrear umas às outras.

- Claro que sim; mas, nessa altura, cada uma delas tem a possibilidade de conseguir o

que quer ou, pelo menos, julga que a tem. Mas, para que qualquer delas tenha essa possibilidade, é indispensável que esse projecto venha a ruir. Existe um grupo no extremo da galáxia que pretende deslocar-se às secções pouco populosas de determinado sector. Ainda acreditam numa lenda antiga, que afirma ter-se aquela raça desenvolvido como resultado de imigrações provenientes de outras galáxias. Pensam que, se conseguirem atingir aqueles pontos limítrofes, transformarão a lenda em história, para maior glória sua. Outro grupo pretende atingir um pequeno braço de espiral, em virtude de se dizer que, há muito tempo, os seus antepassados captaram algumas mensagens indecifráveis que, supõem, partiram daquela direcção. A história aumentou através dos anos, até que hoje estão convencidos de poderem encontrar, naquele braço de espiral, uma raça de gigantes intelectuais. Há sempre, como é natural, uma pressão que é consequência disto e se faz

sentir no seio do núcleo galático. Deve compreender que estamos no princípio, que a galáxia está ainda muito por explorar, que os milhares de raças que formam a Central Galática são constituídas de pioneiros. Como resultado, está contìnuamente sujeita a todos os géneros de pressões.

- Você dá a impressão de não ter muita esperança de manter esta estação, aqui na Terra.

- Quase não tenho esperança nenhuma. Mas no que lhe diz respeito, há a possibilidade

de uma opção. Pode ficar aqui e fazer uma vida normal, ou pode ser colocado noutra estação. A Central Galática espera que decida continuar conosco.

- Dá a impressão de que não há mais nada a fazer.

- Receio que não, Enoch. Peço desculpa de lhe trazer más notícias.

Enoch ficou abalado. Más notícias! Pior do que isso. Era o fim de tudo.

Sentiu o desmoronar, não apenas do seu mundo pessoal, mas de todas as esperanças para a Terra. Desaparecendo aquela estação, a Terra seria abandonada pela galáxia, sem qualquer esperança de auxílio, sem oportunidade de compreender o que a esperava na

galáxia. Ficando só e desprotegida, a raça humana seguiria os caminhos antigos, caminhando para um futuro cego e louco.

20

O Hazer estava envelhecido. A névoa dourada que o envolvia tinha perdido o brilho da

juventude. Tinha uma luminosidade suave, profunda e rica não era como a névoa que cegava, de um ser mais novo. Caminhava com dignidade, tendo a cabeça branca, deslumbrante, coberta de qualquer coisa que não eram cabelos nem penas. Havia brandura no seu rosto, aquela brandura que, num homem, podia ser exprimida em rugas respeitáveis.

- Lamento que o nosso encontro tenha uma causa tão deplorável. Contudo, em

quaisquer circunstâncias, tenho muito prazer em conhecê-lo pessoalmente disse ele a Enoch. Tenho ouvido falar de si. Não é frequente um ser doutro planeta ter a seu cargo

uma estação. Por este facto, tenho andado intrigado consigo. Perguntava a mim mesmo que género de criatura seria você.

- Não tem necessidade de estar apreensivo a respeito dele disse Ulysses, um pouco bruscamente. Respondo por ele. Somos amigos há anos.

- Sim, já me esquecia disse o Hazer. Foi você que o descobriu.

- Olhou em volta, pela sala. Outro. Não sabia que havia dois. Só sabia de um.

- É uma amiga de Enoch disse Ulysses.

- Então houve contactos com o planeta.

- Não, não houve contacto nenhum.