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A histeria na contemporaneidade

A Histeria sumiu?

A Histeria no DSM:
A histeria foi subdividida de acordo com a localização ou a origem dos sintomas.

 A personalidade histérica é subdividida e descrita no capítulo dos transtornos de


personalidade:

- Histriônica
- Borderline

- Dependente

 A antiga neurose histérica é inserida dentro dos:

- Transtornos somatoformes;
- Transtornos dissociativos;

 A histeria traumática para a ser denominada de transtorno de estresse pós-


traumático

Ataque Histérico epileptiforme, “Pseudocrise”:

A Histeria sumiu?

Na área da psicopatologia psicanalítica, atualmente, cada vez mais contundentes


questionamentos têm sido feitos acerca do que caracteriza a histeria. No final do século XX e
início do século XXI, ainda é possível conceituá-la da mesma forma que Freud a descrevia, no
final do século XIX? A histeria sumiu?

Por mais que se tenha disseminado este pensamento, é de grande importância desmitificar
essa ideia, a histeria ainda existe nos tempos modernos, mas adquiriu outras formas de
manifestação. As mudanças culturais significativas que ocorreram influenciaram diretamente
na forma como a Histeria vem a ser classificada. Conclui-se que a histeria tem de ser olhada
sob novos pontos de vista. Por exemplo, a Anorexia, Bulimia, Ansiedade e Síndrome do Pânico
podem ser redescritas como um retorno crítico ao conceito psicanalítico de histeria.
Kaës (citado pelos autores acima) assinala a existência, na atualidade, de uma crise dos
vínculos sociais, tanto os dos indivíduos, como os diferentes componentes da vida social e
cultural, quanto entre os indivíduos. Existe perturbação da organização dos mitos familiares,
da constituição do si mesmo familiar, das funções e dos papéis dentro da família. Os mitos
familiares estão sendo negados e substituídos, total ou parcialmente, por mitos sociais
”atuais‟, os quais, igualando os indivíduos e as famílias, transformam os primeiros em “não
sujeitos‟, “em um número‟. Ocorre então perturbação no processo de subjetivação, com
consequências não banais na constituição da identidade e da integração do si mesmo familiar,
das identidades individuais e dos vínculos mesmos. Vários são os mitos do tempo presente: da
auto geração; do consumo e da possessão; do “homem ou mulher de êxito; do ideal (ou de
ilusão) individualista; do indivíduo produtor- consumidor; do imediato; da imagem; da
independência do indivíduo como valor quase absoluto, unido ao da cultura dos três Es
(eficiência, eficácia, economia) e ao do nível econômico alcançado como valor supremo; dos
ideais de domínio e controle; da valorização do ilimitado e dos limites extremos, entre outros.
Todos eles tendem a negar as origens, com a consequente perda da noção de pertencer a uma
linhagem e da consciência de fazer parte de uma história familiar, com seu passado e presente,
incluindo a possibilidade de criação de fantasias de projeção ao futuro, mais além da geração
atual. Não há gerações passadas, nem futuras, o mito dá valor só ao urgente, ao presente, ao
aqui e agora.
Vêm ao encontro dessas conclusões as mudanças culturais importantes pelas quais passam
as sociedades pós-modernas. Elas têm contribuído para a queda dos asseguradores
metassociais – as grandes estruturas que funcionam como marco e regulam a vida social e
cultural. As mudanças culturais significativas que estão ocorrendo influenciam diretamente
essas mudanças. A histeria, de acordo com a autora, enquanto reflexo de uma época,
funcionaria como um paradigma da condição de seu tempo. E, no tempo de Freud, as
influências contemporâneas – o relativismo, a queda da razão, a ênfase no amor e na
sexualidade – pareciam servir de estímulo para o aparecimento das manifestações histéricas.
Dado o transcorrer do tempo e as mudanças culturais, o que a histeria pode refletir hoje em
dia? Qual é o paradigma deste tempo para que ela venha ocorrer? Onde e de que maneira se
apresenta? A suposição de que alguma alteração tenha ocorrido na dinâmica do psiquismo
refere que antigamente havia uma submissão à lógica da repressão que hoje não é tão mais
poderosa como parecia no passado. Hoje estamos à mercê da exigência da livre expressão dos
desejos. O ideal de liberdade, que parece ser realidade nesse contexto de mutação cultural,
implica o aprisionamento do sujeito em uma região de limbo, onde se encontram
desorientados, perdidos; em um mundo onde ele não sabe mais se está vivendo ou sonhando.

A liberdade, nesses termos, torna-se danosa, porque se tudo é permitido, não exige mais dos
indivíduos tanta reflexão nem escolha. O fato é que o mal-estar atual é diferente daquele
que Freud indicou, e talvez possamos dizer que a neurose, enquanto representante de uma
defesa contra a falta nos dias de hoje, apresente uma defesa contra os excessos. É possível que
nisso se constitua uma explicação para a epidemia de alguns sintomas hoje em dia, sejam eles
classificados como orgânicos ou psíquicos. Esse fenômeno nos faz pensar nas expressões
sintomáticas, principalmente nas doenças em posição de destaque nos dias atuais, as quais, ao
menos para nós, atualizam a denúncia do mal-estar contemporâneo, como a depressão e o
pânico. Existem, ainda, as doenças classificadas como sendo do espectro histérico: a anorexia,
a bulimia, toda a sorte de dismorfias corporais etc. E as identificadas como síndrome de dor
crônica, por exemplo, a fibromialgia (Zanotti et al., 2013). Melman (2003) apresenta três
questões clínicas atuais, dentro do processo da mutação cultural: a depressão, as toxicomanias
e a histeria (está em dimensão coletiva). No momento cultural em que nos encontramos, a
histeria aparece mais nitidamente de duas maneiras: pela estimulação ao espetáculo e pelo
que Melman (2003) chama de “comunitarismo”. No fim, ambas são formas de
um sujeito se fazer notado, reconhecido. O espetáculo tem a ver com o estado propenso a
exibição de tudo, desde o mais supérfluo ao que geralmente seria tratado como mais
valorizado na vida, como as trocas pessoais – está aí o gosto pelos reality shows, que não nos
deixa em contradição. É cada vez mais dominante e crescente na sociedade essa vocação para
o espetáculo, como se fosse o caminho ideal para se entrar no mundo. O outro caminho, o
comunitarismo, ocorre pela reunião de diversas vozes separadas a fim de se transformar numa
espécie de reivindicação, que geralmente reclama uma identidade. Separadas, as vozes
dos sujeitos ignorados no campo da representação, são vozes
mudas (Arantes, 2014; Melman, 2003).

A Histeria no DSM:
Atualmente a histeria foi excluída no DSM, com a fragmentação desse termo. A histeria,
passou por diversas transformações, na qual foi subdividida e alterada em seu núcleo, de
acordo com a localização ou a origem dos sintomas. Na Antiguidade, a histeria era relacionada
à sexualidade feminina; após, na Idade Média, foi associada à bruxaria e punida pelos tribunais
da Inquisição. No decorrer da história, foi considerada uma doença de simulação, caindo em
descrédito; somente com Charcot (1825-1893), que descreveu com detalhes o quadro
histérico, ela voltou a ser considerada. Freud (1893), seguindo os passos de Charcot, estudou
profundamente a histeria e seus processos psicodinâmicos, desenvolvendo um vasto material
sobre o assunto (Matos, Matos, & Matos, 2005). Modificações significativas começaram a
surgir no campo da histeria, a partir do DSM –IV.
A personalidade histérica é subdividida e descrita no capítulo dos transtornos de
personalidade (histriônica [2], borderline [3] e dependente [4]);

[4]- A característica essencial do Transtorno da Personalidade Dependente é uma necessidade


invasiva e excessiva de ser cuidado, que leva a um comportamento submisso e aderente e ao
medo da separação. Têm grande dificuldade em tomar decisões corriqueiras (por ex., que cor
de camisa usar para ir ao trabalho ou se devem levar o guarda-chuva) sem uma quantidade
excessiva de conselhos e reasseguramento da parte dos outros (Critério 1).
Esses indivíduos tendem a ser passivos e a permitir que outras pessoas (frequentemente uma
única pessoa) tomem iniciativas e assumam a responsabilidade pela maioria das áreas
importantes de suas vidas. Os adultos com este transtorno tipicamente dependem de um dos
pais ou do cônjuge para decidir onde devem viver, que tipo de trabalho devem ter e com que
vizinhos devem fazer amizade.

[2]- Pessoas com transtorno histriônico não sabem lidar com a falta de atenção e precisam,
sempre, ser o centro de todos os olhares. Para isso, elas costumam apresentar um
comportamento sedutor exagerado, usam a aparência física para conseguir atenção e tendem
a dramatizar as emoções. Além disso, os histriônicos acreditam que as relações pessoais são
mais íntimas que a verdade. Costumam ainda fazer discursos carentes e apresentar mudanças
emocionais repentinas.

[3]- Quem tem o transtorno Borderline problema costuma ter mudanças rápidas de humor,
tem medo de ser abandonado e quer evitar, a qualquer custo, o abandono. Por isso mesmo,
seus relacionamentos costumam ser instáveis e intensos demais. Essas pessoas também têm
comportamento suicida recorrente e voltado a automutilação. Além disso, pessoas com
borderline costumam ter pensamentos paranoides em períodos de estresse e são compulsivas
por alguma coisa, como compras, álcool ou drogas.

A antiga neurose histérica é inserida dentro dos transtornos dissociativos [5] e transtornos
somatoformes [7];

[5]- as manifestações de natureza psicológica passaram a ser denominadas dissociativas.

[7]- Os sintomas histéricos de natureza física (sensitivo-motor) passaram a ser denominados


somatoformes (incluindo-se aqui a conversão e a somatização)

A histeria traumática para a ser denominada de transtorno de estresse pós-traumático [8]


(Matos et al., 2005). A histeria perde seu sentido original, ramificando-se em diversos
transtornos, que já não levam em conta questões do inconsciente, desejos e pulsões, traumas
e afetos. Esta nova percepção do quadro de histeria pretende acompanhar os avanços da era
atual, entretanto, nega, de certa forma, a história da expressão histérica, que traz as marcas da
psicanálise, do inconsciente e do recalque.

Ataque Histérico epileptiforme, “Pseudocrise”:

O que Charcot denominava-o de “hístero-epilepsia” tornou-se conhecido pela neurologia e


Psiquiatria como Ataque Histérico epileptiforme ou “Pseudocrise”.
O ataque histérico epileptiforme é tão comum que ganhou, na atual neurologia, um nome:
“pseudocrise”. Conversões histéricas povoam os ambulatórios médicos e chegam à mesa
cirúrgica; ” crises conversivas, de natureza essencialmente psicogênica. A crise psicogênica
não-epilética é um tipo de crise semelhante superficialmente com uma crise epiléptica, mas
sem a característica associada a descargas elétricas da epilepsia. Em vez disso, elas são de
origem psicológica, e pode ser pensado como semelhante à uma convulsão.
As chamadas pseudocrises têm sido motivo de inúmeras controvérsias entre os profissionais
que cuidam de pacientes com epilepsia. Uma longa história de encontros e desencontros,
sobreposições e diferenciações clínicas precedem os debates atuais que visam separar as
manifestações especificamente epilépticas de outras formas de quadros convulsivos de origem
psíquica, sobretudo daqueles de natureza histérica.
O termo pseudocrise é permeado por conotação no mínimo errônea, quando não
abertamente pejorativa. Pacientes, ao ouvirem do médico que são portadores de tal
transtorno, com frequência discordam deste diagnóstico, uma vez que para eles suas crises se
apresentam como bastante reais. Podem não identificar os fatores desencadeantes e, menos
ainda, a dinâmica psíquica que propicia a deflagração do evento aparentemente epiléptico.
Porém, eles sabem que têm crises. Nos últimos anos, tem havido uma preocupação, por parte
dos especialistas, em substituir a denominação pseudocrise pela de crise pseudo-epiléptica ou
crise não-epiléptica psicogênica, entre outras. Esta mudança baseia-se na constatação de que
o paciente, ao apresentar convulsão psicogênica, de fato apresenta uma crise real do ponto de
vista daquele que a experimenta, embora não originada em alterações bioelétricas cerebrais
próprias de uma crise epiléptica. Sua origem está associada a processos psíquicos geralmente
inconscientes, conduzindo a manifestações sintomáticas de natureza dissociativa e conversiva
muito semelhantes aos ataques epilépticos do tipo “Grande Mal”. Portanto, afirmar-se que o
evento é uma pseudocrise parece negar preconceituosamente o sofrimento do paciente, e não
contribui para a compreensão do fenômeno. Além disso, a existência e a grande frequência
desses eventos psicopatológicos contradizem a ideia amplamente difundida de que os
fenômenos maiores da histeria e o chamado ataque histérico praticamente estariam
desaparecidos de nossas sociedades urbanas ocidentais. Pelo contrário, as crises pseudo-
epilépticas constituem apenas uma das inúmeras formas sob as quais o ataque histérico
subsiste na cultura contemporânea.

As crises pseudo-epilépticas pertencem à categoria das convulsões dissociativas, segundo a


classificação estabelecida pela CID -10 (OMS, 1993). Por sua vez, o DSM-IV (APA, 1995)
classifica esses fenômenos dentro da categoria de transtornos conversivos.

Pela própria natureza psicopatológica em questão, os pacientes com crises pseudo-epilépticas


necessitam de uma abordagem psicanalítica para a superação de seu quadro mórbido, sendo
que este tratamento é bastante complexo, principalmente no início, pelo fato do paciente
exprimir seu sofrimento psíquico (e a satisfação pulsional propiciada pelo sintoma) mais
através de fenômenos psicomotores (as crises “convulsivas”) do que pelo discurso,
convertendo em sinais somáticos os conteúdos psíquicos.

Relato:

Nos últimos seis anos, a jovem Luciane Fátima, de 29 anos, conviveu diariamente com crises
em que ficava inconsciente e, enquanto se debatia, chegou a quebrar vários dentes e até o
braço. Diagnosticada como epiléptica, tomava diversos anestésicos e medicamentos
específicos. O quadro agravou-se a tal ponto que, em setembro e outubro deste ano, ficou
internada na Unidade de Tratamento Intensivo do Hospital das Clínicas de Porto Alegre,
respirando artificialmente. Foi então encaminhada ao Hospital São Lucas, da PUC-RS, com a
perspectiva de fazer uma cirurgia para livrar-se do foco do mal. Os médicos descobriram,
entretanto, que ela simplesmente não tinha a doença. O seu problema era emocional.
O diagnóstico foi possível graças a um exame de video-eletrencefalografia (V-EEG): internada
num quarto, com eletrodos fixados em sua cabeça, a paciente foi filmada durante dois dias. O
exame mostrou que, durante as crises, não havia mudanças elétricas no cérebro. Ou seja: elas
tinham origem na psique.
O caso de Luciane Fátima é comum no Brasil. Estima-se que cerca de 60 mil pacientes são
equivocadamente tratados como epilépticos, mas, na verdade, sofrem de problemas de fundo
emocional, classificados como histeria, depressão, ansiedade, transtorno bipolar e síndrome
do pânico, entre outros
http://abp.org.br/portal/clippingsis/exibClipping/?clipping=1342