Você está na página 1de 31

Economia e História: a importância das instituições do

século XIX e XX na obra de Thorstein Veblen


Rafael Barbieri Camatta 1
Alexandre Ottoni Teatini Salles 2

Resumo
O economista e sociólogo americano Thorstein B. Veblen (1857-1929) é considerado o precursor
da Escola Institucionalista Original. Segundo o autor não há isenção ou neutralidade do cientista
com o seu objeto de estudo, portanto, toda teoria deve ser estudada tendo-se em vista a conjuntura
histórica sobre a qual foi formulada. Suas principais contribuições à ciência econômica surgiram
no intervalo entre 1875 e 1915. Assim, o artigo tem por objetivo discutir o impacto deste contexto
histórico econômico, político e social em sua obra. Para tanto, ao longo do texto são apresentados
DOJXQVGRVIHQ{PHQRVTXHGH¿QLUDPHVWHSHUtRGR DUHYROXomRWHFQROyJLFDDFULVHGHGHÀDomRDV
críticas ao Padrão Ouro, o protecionismo, a concentração e racionalização da produção e aspectos
OLJDGRVjGHPRJUD¿DPmRGHREUDHFRQVXPR DVVLPFRPRDLQÀXrQFLDGHVWHVREUH9HEOHQHHP
TXDLVREUDVHVWmRUHÀHWLGDVWDLVLQÀXrQFLDV
Palavras-chave: Thorstein Veblen; Instituições; Velha economia institucional.

Abstract

American economist and sociologist Thorstein B. Veblen (1857-1929) is considered the precursor
of Original Institutionalist School. According to the author, there is no exemption or neutrality
between the scientist and his object, therefore, any theory should be studied keeping in view the
historical context upon which it was formulated. His main contributions to economics arose in the
range between 1875 and 1915. Then, the article aims to discuss the impact of economic, political,
social and historical context in his work. To this end, throughout the essay, we present some
SKHQRPHQDWKDWGH¿QHGWKHSHULRG WHFKQRORJLFDOUHYROXWLRQGHÀDWLRQFULVLVWKHFULWLFLVPRIWKH
Gold Standard, protectionism, concentration and rationalization of production and aspects relating
WRGHPRJUDSKLFVODERUDQGFRQVXPSWLRQ DVZHOODVWKHLQÀXHQFHRIWKLVRQ9HEOHQDQGLQZKLFK
ERRNVDQGSDSHUVVXFKLQÀXHQFHVDUHUHÀHFWHG

Keywords: Thorstein Veblen; Institutions; Old institutional economics.

(1) Graduado em 2010 pela Universidade Federal do Espírito Santo. Mestre em 2014 pela Universidade
Federal do Espírito Santo. E-mail: rbcamatta@gmail.com.
(2) Graduado em 1990 pela Universidade Federal do Espírito Santo. Mestre em 1997 pela Universidade
Federal Fluminense. Doutor em 2007 pela University of Hertfordshire. E-mail: aotsalles@gmail.com.

Leituras de Economia Política, Campinas, (23), p. 57-87, jul./dez. 2015.


Rafael Barbieri Camatta / Alexandre Ottoni Teatini Salles

Introdução
O economista e sociólogo americano Thorstein B. Veblen (1857-1929) é
considerado o precursor da Escola Institucionalista Original, cuja obra seminal
foi publicada em 1899 sob o título A Teoria da Classe Ociosa: Um Estudo
Econômico das Instituições (doravante TCO). Nesta obra pioneira, ele buscou
compreender e analisar características do comportamento humano até então não
incorporadas à análise econômica convencional tais como: hábitos, instintos,
instituições, costumes, códigos de conduta, valores ligados a comportamentos
idiossincráticos e rivalidades sociais3(PYiULDVSDUWHVGHVXDREUD9HEOHQGH¿QH
instituições como hábitos de pensamento disseminados e arraigados na cultura de
XPDFRPXQLGDGHTXHGH¿QHPVHXHVWLORGHYLGDHTXHHYROXHPKLVWRULFDPHQWH4.
Segundo Hodgson (1998), a abordagem institucionalista Vebleniana não pretendeu
desenvolver uma teoria geral das instituições, mas sim um conjunto de diretrizes
GHFRPRHODVHYROXHPHPIXQomRGHFLUFXQVWkQFLDVKLVWyULFDVHVSHFt¿FDV
O contexto histórico no qual Veblen estava inserido foi determinante
para a elaboração de suas ideias. Suas principais obras surgiram no intervalo
entre 1875 e 19155SHUtRGRFODVVL¿FDGRSRU+REVEDZQ  FRPRThe Age of
Empire. Assim, o artigo tem por objetivo discutir o impacto do contexto histórico,
HFRQ{PLFRSROtWLFRHVRFLDOGR¿QDOGHVpFXOR;,;HLQtFLRGRVpFXOR;;QDREUD
do autor. Neste sentido, vale a pena ressaltar que, segundo Veblen (1919) não há
isenção ou neutralidade do cientista com o seu objeto de estudo. Portanto, toda
teoria deve ser estudada tendo-se em vista a conjuntura histórica sobre a qual

(3) Vale salientar que a abordagem Vebleniana não é a única corrente institucionalista. Samuels
(1995) subdivide os institucionalistas em três Escolas distintas, quais sejam: o Velho Institucionalismo
(ou Institucionalismo Original), a Nova Economia Institucional, e os Neo-institucionalistas. Tratando
HVSHFL¿FDPHQWHGRWUDEDOKRGHVHQYROYLGRSRU9HEOHQHSRURXWURVDXWRUHVUHQRPDGRVGHVWDWUDGLomRFRPR-RKQ
&RPPRQVH:HVOH\0LWFKHOO6LOYD  FODVVL¿FDHVWDDERUGDJHPFRPRInstitucionalismo Clássico. Para
PDLRUHVGHWDOKHVVREUHHVWHVDVSHFWRVWD[RQ{PLFRVYHMDWDPEpP0D\KHZ  5XWKHUIRUG  
Hodgson (1998); Dequech (2002) e Conceição (2002).
(4 (PVXDVSDODYUDVLQVWLWXLo}HVVmRGH¿QLGDVFRPR³habitual methods of procedure” (Veblen 1898a,
S ³prevalent habits of thought´ 9HEOHQSHS H³habitual methods of carrying
on the life process of the community in contact with the material environment in which it lives” (Veblen, 1899,
S ³settled habits of thought common to the generality of men” (Veblen, 1909, p. 626).
(5) Theory of the Leisure Class: An Economic Study of Institutions (1899); Theory of Business
Enterprise (1904); The Instincts of Workmanship and the State of the Industrial Arts (1914); e Imperial Germany
and the Industrial Revolution (1915).

58 Leituras de Economia Política, Campinas, (23), p. 57-87, jul./dez. 2015.


Economia e História: a importância das instituições do século XIX e XX na obra de Thorstein Veblen

foi formulada. Ao longo do texto, será discutido como os fenômenos históricos


foram importantes para o desenvolvimento intelectual do autor, e em quais obras
HVWDVLQÀXrQFLDVHVWmRUHÀHWLGDV(VWHHVWXGRPRVWUDTXHDSURGXomRFLHQWt¿FDGH
Veblen se manteve muito coerente com sua percepção de que os fenômenos do
mundo real resultam de um processo evolutivo das instituições.
A conjuntura histórica à época de Veblen já demonstrava elevado grau
GHLQWHJUDomRFRPHUFLDOH¿QDQFHLUDPXQGLDORTXHWRUQDQHFHVViULRXPDDQiOLVH
das instituições em nível internacional, não apenas dos EUA como faz Cavalieri
(2009). O próprio Veblen tinha uma visão mais ampla da evolução das instituições,
não se restringindo ao estudo das instituições estadunidenses, como mostra o
livro Imperial Germany and the Industrial Revolution publicado em 1915. Por
isso, a proposta deste artigo em examinar a história do período a partir de vários
autores (não necessariamente institucionalistas), de tal maneira que se consiga
apreender as idiossincrasias históricas em nível global, aí sim, focadas em suas
raízes institucionais. Martins (1975, p. 58) mostra que no livro The Engineers and
the Price System de 1921, Veblen desenvolve uma abordagem cosmopolita acerca
GR GHVHPSHQKR GD LQG~VWULD 6HJXQGR HOH ³   9HEOHQ HUD LQWHUQDFLRQDOLVWD H
tampouco admitia que uma posição consistentemente tecnocrática pudesse incluir
os objetivos particularistas e irracionais inerentes ao ponto de vista nacional”.
$¿PGHFXPSULURVREMHWLYRVSURSRVWRVRDUWLJRIRLGLYLGLGRHPVHWH
seções além desta introdução. A seguir discute-se brevemente a conjuntura
KLVWyULFDGRV(8$DR¿QDOGRVpFXOR;,;FRPYLVWDVDFDSWXUDUDVSHFWRVHVVHQFLDLV
da formação econômica e histórica deste país que foram objetos de investigação
de Veblen. Da seção 2 à 6 discorre-se sobre temas que marcaram o período e como
HVWHVLQÀXHQFLDUDPDREUDGH9HEOHQ$VHomRGLVFXWHDUHYROXomRWHFQROyJLFD
GRSyVVHJXQGDUHYROXomRLQGXVWULDOHPVHJXLGDDSUHVHQWDVHDFULVHGHGHÀDomR
e suas consequências para o período estudado; nas seções 4, 5 e 6 examina-se a
FRQFHQWUDomRHUDFLRQDOL]DomRGDSURGXomRDOJXQVDVSHFWRVOLJDGRVjGHPRJUD¿D
mão-de-obra e ao consumismo, respectivamente. 3RU¿PEUHYHVFRQVLGHUDo}HV
¿QDLVFRQFOXHPRDUWLJR

Leituras de Economia Política, Campinas, (23), p. 57-87, jul./dez. 2015. 59


Rafael Barbieri Camatta / Alexandre Ottoni Teatini Salles

2FRQWH[WRKLVWyULFRGDHFRQRPLDGRV(8$QR¿QDOGRVpFXOR;,;
Logo no início desta seção é importante mencionar que, além da TCO,
a publicação de dois artigos em 1898 lançou as bases teóricas e epistemológicas
do programa de pesquisa que deu origem ao que Hamilton chamou em 1918
de Economia Institucional. Assim, pode-se dizer que esta foi a primeira Escola
de Pensamento da Ciência Econômica que não surgiu em solo Europeu, pois
seus pilares essenciais foram estabelecidos nos Estados Unidos. Assim, o artigo
dedica-se de início a examinar as características históricas da economia deste
país.
Mesmo passando por uma longa crise econômica (1873-1896) que
culminou na depressão de 1894, foi no período entre a guerra civil americana e
R¿QDOGRVpFXOR;,;TXHRV(8$VHWRUQDUDPXPDSRWrQFLDPXQGLDO0XQKR]
 D¿UPDTXHHQWUHDIXQGDomRGDUHS~EOLFD  HR¿PGDJXHUUDFRP
o México (1848) a extensão territorial norte americana foi multiplicada por 11
vezes6$OpPGLVVRHQTXDQWRDSRSXODomRPXQGLDOGREUDDRORQJRRVpFXOR;,;
nos EUA ela multiplica por seis.
Tanto a conquista do Oeste quanto a política imperialista dos Estados
Unidos se baseavam na doutrina do “destino manifesto”, que preconizava ser
o dever do povo americano levar a religião e o desenvolvimento capitalista
DRV SRYRV PHQRV ³HVFODUHFLGRV´ $OpP GH H[SURSULDU WHUULWyULRV PH[LFDQRV D
expansão para o oeste foi marcada pela expulsão – mediante forte resistência –
GRVSRYRVLQGtJHQDV$VEDVHVOHJDLVSDUDHVWDDomRIRUDPGH¿QLGDVSHORIndian
Removal Act GH  SURPXOJDGR SHOR HQWmR SUHVLGHQWH $QGUHZ -DFNVRQ
Outras conquistas importantes para a expansão territorial americana foram o
$ODVND FRPSUDGRGD5~VVLDHP HDDQH[DomRGR+DYDtTXHHQYROYHXR
¿QDQFLDPHQWRGHUHEHOGHVSHORJRYHUQRGRV(8$HQWUHRVDQRVGH
Além disso, a promulgação do Homestead Act em 1862 teve um importante papel
na atração de imigrantes Europeus, sedimentando assim a ocupação territorial do
país (Lee, 1979).
Com o esgotamento da expansão fronteiriça por volta de 1890, a política
QRUWHDPHULFDQDVHYROWDSDUDDREWHQomRGHQRYRVPHUFDGRV(VWDLQÀH[mRHP
PXLWR VH GHYH j FULVH GH VXSHUSURGXomR H GHÀDomR RFRUULGD QHVWH SHUtRGR$V
(6) Os EUA anexam aproximadamente 40% do território mexicano.

60 Leituras de Economia Política, Campinas, (23), p. 57-87, jul./dez. 2015.


Economia e História: a importância das instituições do século XIX e XX na obra de Thorstein Veblen

autoridades políticas perceberam que o mercado interno era incapaz de absorver


o montante do que era produzido internamente, e portanto, necessitavam de novos
mercados consumidores. A partir de então, o imperialismo econômico dominou
a política externa norte-americana. Prova disto é que muitas de suas intervenções
na esfera da política econômica internacional, especialmente no que se refere
à abertura dos mercados de outros países, se valeram de seu poderio militar.
Exemplo disto foi o episódio relatado por Chang (2002) do infamous ‘Black Ship’
incident, quando em 1854 navios americanos aportaram em Edo impondo pela
força militar a abertura dos mercados japoneses.
A expansão da frota naval do país em muito se deve à publicação do livro
7KH,QÀXHQFHRI6HD3RZHU8SRQ+LVWRU\de autoria do comandante do U.S. War
Naval College, Alfred Mahan (1840-1914). Nesta obra, relata Munhoz (2009),
ele expõe a importância do poder naval às potências ao longo da história assim
como a necessidade de manter controle sobre pontos estratégicos ao longo do
RFHDQR3DFt¿FR$LQG~VWULDQDYDOTXHVHFRQVROLGDQRVDQRVVHJXLQWHVpDEDVH
para a indústria bélica que representa uma das formas diretas de dinamização da
economia norte americana pelo Estado.
(P PHDGRV GR VpFXOR ;,; KDYLD XPD GLYLVmR FODUD HQWUH R QRUWH
industrializado e o sul agrário e escravista. O governo federal distribuía
JUDWXLWDPHQWH WHUUDV QD UHJLmR RHVWH GH PRGR D SRYRDU D ³~OWLPD IURQWHLUD´
dentro do território americano. Estas porém se concentravam em poder de
grandes pecuaristas e empresas do ramo ferroviário. Grande parte do ímpeto
GHFUHVFLPHQWRGHPRJUi¿FRQHVWDUHJLmRGHYHXVHjFRUULGDGRRXURPHGLDQWH
descobertas de reservas nos estados do Colorado e de Nevada na década de 1850.
(PFRPRHP0RQWDQDH:\RPLQJQRGHFrQLRVHJXLQWHHHP'DNRWDQRVDQRV
1870. Os povoados fundados por mineiros se desenvolveram ao longo do tempo
HVHWRUQDUDPFHQWURVGHJUDQGHGHQVLGDGHGHPRJUi¿FD&RQWXGRjPHGLGDTXH
a atividade mineradora chegava à exaustão, era substituída pela agricultura e
pecuária.
1R 6XO DSyV R ¿P GD HVFUDYLGmR HP  LPSODQWRXVH XP VLVWHPD
de partilhamento da terra. Neste, o agricultor deveria repassar uma parcela
considerável da produção ao proprietário da terra e, por conta disto, muitos se
prendiam a um ciclo de dívida. O sistema levou à superprodução de tabaco,

Leituras de Economia Política, Campinas, (23), p. 57-87, jul./dez. 2015. 61


Rafael Barbieri Camatta / Alexandre Ottoni Teatini Salles

algodão e ao esgotamento de largas porções de solo sulista. Outras características


que mostram a diferença de desenvolvimento entre sul e norte são a forte
dependência econômica do primeiro em relação ao segundo, principalmente no
que tange à modesta produção industrial, à mão de obra barata e não especializada,
e o emprego de mão-de-obra infantil (U.S. Department of State, 2005b).
'LDQWH GD FULVH GHÀDFLRQiULD DJUiULD H DRV DOWRV FXVWRV GR WUDQVSRUWH
ferroviário (discutido na seção seguinte), surge nos EUA uma instituição
denominada Patrons of Husbandry, comumente conhecida como The Grange
(A Granja). Esta buscava unir a classe agricultora através de sistemas de
comercialização, lojas, fábricas e cooperativas próprias. Apesar de muitos dos
objetivos não terem sido alcançados, algumas leis voltadas à redução das tarifas
de transporte ferroviário e estoque foram aprovadas. Em meados da década de
1880 a Grange foi substituída por organizações denominadas Farmer’s Aliances,
que eram voltadas abertamente à representação política de seus membros (U.S.
Department of State, 2005a).
Nos centros urbanos, o operariado se defrontava com baixos salários e
condições de vida degradantes. Muitas fábricas empregavam mão-de-obra de
mulheres e crianças (principalmente no Sul) pagando salários ainda menores.
Nesta época, o intenso movimento imigratório incentivado pelo próprio
governo norte-americano aumentava o número de trabalhadores internamente,
SULQFLSDOPHQWHGHEDL[DTXDOL¿FDomRUHGX]LQGRDLQGDPDLVRVVDOiULRV6HJXQGR
Munhoz (2009), somente na década de 1860 houve um aumento de 56% da massa
de trabalhadores, e de 80% no número de unidades industriais, não obstante o
JUDQGH r[RGR GHPRJUi¿FR UXPR DRV FDPSRV GH EDWDOKD GD JXHUUD FLYLO (VVHV
SURFHVVRV FRQWULEXtUDP SDUD TXH DR ¿P GR VpFXOR ;,; RV (8$ WLYHVVHP
uma população majoritariamente urbana. Em 1874, aprovou-se a primeira lei
trabalhista do país voltada para a redução da carga horária de mulheres e crianças
para 10 horas diárias.
2JUDQGHQ~PHURGHGHPLVV}HVGHYLGRjFULVHGHÀDFLRQiULDHDDFXPXODomR
de estoques, assim como as péssimas condições de trabalho resultaram em
inúmeras greves, protestos e agitações que muitas vezes geraram situações de
vandalismo. Segundo Munhoz (2009), entre as décadas de 1880 e 1890, eclodiram
aproximadamente 24 mil greves no país. Nestas condições, surgem organizações
sindicais que buscavam a preservação da integridade trabalhista. Por exemplo, a

62 Leituras de Economia Política, Campinas, (23), p. 57-87, jul./dez. 2015.


Economia e História: a importância das instituições do século XIX e XX na obra de Thorstein Veblen

Amercian Federation of Labor (AFL) tinha o objetivo de lutar pela elevação dos
salários, redução da carga horária e pela melhoria das condições de trabalho (U.S.
Department of State, 2005a).
Outro aspecto importante acerca do contexto histórico dos EUA no século
;,; p TXH HVWH SDtV IRL GRV TXH PDLV XWLOL]RX GH SUiWLFDV SURWHFLRQLVWDV SDUD
a proteção de sua indústria nascente. Além do aumento constante e vertiginoso
das tarifas de importação, outros instrumentos foram de suma importância em
sua estratégia de catching up. &KDQJ   D¿UPD TXH R JRYHUQR SDWURFLQRX
diversos centros de pesquisa agrícola (Instituto de Indústria Animal e o Instituto de
Química Agrícola), aumentou os investimentos em educação pública e participou
ativamente da modernização infraestrutural de transportes.
Nos EUA pós-guerra civil (1861-1865), ainda havia segregação da
participação política sulista no congresso nacional à revelia da vontade do
presidente Abraham Lincoln. O Reconstruction Act, de 1867, dividiu o Sul em
cinco territórios militares (governados cada um por um general nortista), não
obstante a presença de um governo estabelecido nestas áreas. Esta situação só
foi contornada em 1872 com o Amnesty Act que restabeleceu a autonomia dos
HVWDGRVVXOLVWDV&RPDYLWyULDQRUWLVWDDGYHLRR¿PGDHVFUDYLGmR XPDGDVVXDV
principais bandeiras) promulgado através da 13ª emenda constitucional. Porém
diversas práticas racistas de segregação foram adotadas principalmente em
territórios sulistas. Nos 50 anos entre a guerra civil e a primeira guerra mundial,
os EUA deixaram de ser uma economia rural para se transformar em uma das
PDLRUHV SRWrQFLDV LQGXVWULDLV H SROtWLFD GR LQtFLR GR VpFXOR ;; 1HVWD pSRFD
tinha seu território densamente povoado, ensino público gratuito, imprensa livre,
e liberdade de culto religioso.
3RUpP D LQÀXrQFLD GDV JUDQGHV FRUSRUDo}HV DWUDYpV GH lobbys gerou
uma onda de corrupção em todas as esferas de governo. Nesta conjuntura,
surge o movimento progressista com o objetivo de aumentar a justiça social,
a transparência, a regulação das grandes corporações, e o serviço público de
qualidade. Nesta época, houve um grande esforço do governo e da imprensa do
SDtV HP GHQXQFLDU H UHIRUPDU D KHUDQoD GHL[DGD SHOR FDSLWDOLVPR GR ¿QDO GH
VpFXOR;,;SULQFLSDOPHQWHQRWDQJHQWHjVJUDQGHVFRUSRUDo}HVHjFRUUXSomRQD
esfera política (U.S. Department of State, 2005a, 2005b)

Leituras de Economia Política, Campinas, (23), p. 57-87, jul./dez. 2015. 63


Rafael Barbieri Camatta / Alexandre Ottoni Teatini Salles

)RLQHVWHFDOGRGHFXOWXUDHFRQ{PLFDVRFLDOHSROtWLFDGR¿PTXHQDVFHH
VHGHVHQYROYHLQWHOHFWXDOPHQWHRDFDGrPLFR7KRUVWHLQ9HEOHQ6HJXQGR0D\KHZ
  R FRQWH[WR KLVWyULFR H JHRJUi¿FR QR TXDO HOH FUHVFHX LQÀXHQFLDUDP
fortemente sua formação. Ele nasceu no estado de Wisconsin (meio oeste
norte americano), em 1857, e cresceu neste ambiente de constantes e rápidas
transformações sociais e tecnológicas advindas da guerra civil e da vigorosa
industrialização do país. Como pode-se concluir da análise acima, Veblen
testemunhou a transformação norte americana de um país majoritariamente
DJUiULRHUXUDOHPXPDSRWrQFLDLQGXVWULDOHXUEDQD1RLQtFLRGRVpFXOR;;HVWH
SURFHVVRFXOPLQDQR¿PGDHVWUXWXUDGHPHUFDGRSUHGRPLQDQWHPHQWHFRPSRVWD
SRU¿UPDVJUDQGHVSURGXWRUDVGHXPDPHUFDGRULD~QLFDFXMRSURSULHWiULRSRGH
VHULOXVWUDGRSHOD¿JXUDFDULFDWXUDOGR³robber baron”. Esta se transforma numa
estrutura corporativista na qual as grandes empresas passam a produzir mercadorias
GLIHUHQFLDGDVDVHPXOWLSOLFDUHPQ~PHURGH¿OLDLVHDVH¿QDQFLDUDWUDYpVGHXP
sistema bancário moderno (HOBSON, 1983). Concomitantemente, a propriedade
GHVWDV ¿UPDV SDVVD SDUD RV DFLRQLVWDV GHVOLJDGRV GD IXQomR JHUHQFLDO&RPR p
sabido, estas transformações às quais Veblen testemunhou não se restringiram
aos EUA e serão tratadas ao longo do artigo.
$³VRFLHGDGHGHIURQWHLUD´pDSRQWDGDFRPRXPGRVIDWRUHVGHWHUPLQDQWHV
para a aceitação e propagação da teoria econômica Institucionalista nos EUA
e consequente resistência à economia clássica, disseminada na Europa7. Nas
iUHDVGHIURQWHLUDHGHEDL[DGHQVLGDGHGHPRJUi¿FDDVUHVWULo}HVLQVWLWXFLRQDLV
e as tradições tornam-se enfraquecidas, pois faltam mecanismos para reforçar
sua vigência. Foi justamente neste ambiente que surge teoria econômica
Institucionalista.
&DYDOLHUL   UHVJDWD GD KLVWRULRJUD¿D QRUWH DPHULFDQD XPD
periodização dividida em duas fases. A primeira, denominada Guilded Age,
compõe o período do pós-guerra civil até a década de 1890, a partir da qual
inicia-se a fase batizada de Era Progressiva. A Guilded Age compõe um período
de consolidação do sistema econômico industrial moderno em detrimento de
uma economia primário exportadora escravista, característica principal do sul
(7) Como exemplo, pode-se citar a incompatibilidade das teorias clássicas de renda da terra (David
Ricardo) e de crescimento populacional (Thomas Malthus) com o ambiente institucional do oeste norte
DPHULFDQRSDXWDGRSRUJUDQGHGLVSRQLELOLGDGHGDWHUUDHEDL[DGHQVLGDGHGHPRJUi¿FD

64 Leituras de Economia Política, Campinas, (23), p. 57-87, jul./dez. 2015.


Economia e História: a importância das instituições do século XIX e XX na obra de Thorstein Veblen

derrotado na guerra civil. A reconstrução do pós-guerra, o enriquecimento das


classes altas, o surgimento das grandes corporações e a corrupção compõem
características de destaque no período.
Por sua vez, a Era Progressiva foi marcada por uma sociedade
majoritariamente urbana. Nesta, houve uma tentativa de recuperação dos ideais
dos Founding Fathers, ou seja, a reversão de um novo capitalismo oligopolista e
corrupto para um sistema liberal no qual houvesse oportunidades de crescimento
para todos os americanos. Esta tendência crítica se concentrava nas classes
médias do país, principalmente entre médicos, advogados e intelectuais das mais
diversas áreas (sociologia, história, economia, entre outras). Este segmento social
encontrava-se insatisfeito com a desigualdade econômica trazida pela atuação
GDV JUDQGHV FRUSRUDo}HV HP HVSHFLDO VREUH D LQ¿OWUDomR GHVWDV QD SROtWLFD GR
país, em todas as suas esferas de atuação. Esta classe (surgida durante a Gilded
Age) representa o foco da análise da sobre os hábitos de consumo da classe
alta norte americana, elaborada na TCO de Veblen. O autor também estudou o
comportamento de outro agente deste período, qual seja, o proprietário absenteísta,
TXHWUDGX]RSDGUmRGHFRQGXWDGRVDFLRQiULRVGDVJUDQGHV¿UPDVjpSRFD
Intelectualmente, as ideias reformistas desta parcela insatisfeita tinha o
contraponto no ideário conservador dos apologistas. Estes, segundo Cavalieri
(2009, p. 81):
Eram os propagandistas das virtudes do grande capital, da gratidão
que os norte-americanos deviam a empresários como Vanderbilt,
5RFNIHOOHU H &DUQLJLH (UDP RV SRUWDYR]HV GH XPD FODVVH TXH QD
DÀXrQFLD GD VRFLHGDGH DPHULFDQD VH WRUQDULDP RV SURSULHWiULRV
absenteístas, alvos prediletos das mordazes críticas de Veblen.
Em suma, esta seção procurou captar aspectos essenciais da formação
econômica e política dos EUA. As seções seguintes se encarregam de discutir
SRQWRVHVSHFt¿FRVGDFRQMXQWXUDKLVWyULFRLQVWLWXFLRQDOGDREUDGH9HEOHQ

2 A segunda revolução industrial e a análise de Veblen sobre a indústria em


seu Theory of Business Enterprise
$ VLJQL¿FDWLYD GLIHUHQFLDomR HQWUH R SDWDPDU GH UHQGD SHU FDSLWD GH
países que ingressaram originalmente na produção maquinofatureira e as nações

Leituras de Economia Política, Campinas, (23), p. 57-87, jul./dez. 2015. 65


Rafael Barbieri Camatta / Alexandre Ottoni Teatini Salles

UHWDUGDWiULDVDFLUUDVHHPSULQFtSLRVGRVpFXOR;,;6HJXQGR+REVEDZQ  
entre 1750 e 1800, a renda per capita era semelhante entre estes grupos de países,
porém a partir de então há um aumento progressivo desta diferença. Em 1880,
os países industrializados alcançaram o dobro da renda per capita das nações
DWUDVDGDV (VWH PRYLPHQWR VH LQWHQVL¿FD QR VpFXOR VHJXLQWH 3RU H[HPSOR HP
1913 no primeiro grupo, esta renda era três vezes superior à do segundo, enquanto
que em 1950 esta diferença sobe para cinco vezes; em 1970, alcança sete vezes.
Esse afastamento se deve majoritariamente à presença maciça de investimentos
em tecnologia nos primeiros.
Como se sabe, a primeira revolução industrial emerge a partir de inovações
PDMRULWDULDPHQWHRULXQGDVGRSUySULR³FKmRGHIiEULFD´RXVHMDRHPSUHViULRH
VHXVHPSUHJDGRVGHVHQYROYLDPQRYDVWpFQLFDVDSDUWLUGRTXH¿FRXFRQKHFLGRQD
literatura como learning by doing. Todavia, a segunda revolução industrial possui
FDUiWHU PXLWR PDLV WpFQLFRFLHQWt¿FR XPD YH] TXH JUDQGH SDUWH GDV LQRYDo}HV
surgiu a partir de pesquisa acadêmica sediada nas Universidades e em laboratórios
GHSHVTXLVD3DUWHVLJQL¿FDWLYDGHVWDVLQRYDo}HVRFRUUHDWUDYpVGDGHVFREHUWDHGR
estudo de novos materiais e de novas técnicas de gerenciamento. Esta diferença
é primordial no entendimento do distanciamento entre as nações. Enquanto as
inovações da primeira revolução industrial consistiam em maquinário simples
facilmente transferido (legal ou ilegalmente) e/ou copiado, este fato não se repete
na segunda devido à maior complexidade das técnicas e do maquinário industrial.
Além de criar uma grande distância com relação à renda per capita
entre os dois mundos, o desenvolvimento da tecnologia determinou também
uma superioridade militar e consequentemente, política. A segunda revolução
industrial atingiu com grande intensidade o setor bélico e trouxe consigo algumas
inovações radicais, principalmente em relação a explosivos, armas de repetição
HWUDQVSRUWHDYDSRU +REVEDZQ $WpHQWmRRVSULQFLSDLVFRQÀLWRVVHPSUH
foram disputados sob relativa igualdade de tecnologia bélica, porém a utilização
GHVWDV LQRYDo}HV HVWDEHOHFHX GLVWLQo}HV LPSRUWDQWHV TXH HVWUDWL¿FRX R SRGHULR
militar em favor das potências europeias.
A partir de então, o mundo se divide em dois: países industrializados e
países não-industrializados. Os primeiros possuíam relações políticas entre si e com
os não-industrializados, enquanto os últimos se relacionavam majoritariamente

66 Leituras de Economia Política, Campinas, (23), p. 57-87, jul./dez. 2015.


Economia e História: a importância das instituições do século XIX e XX na obra de Thorstein Veblen

com os primeiros. Os países desenvolvidos estavam concentrados no centro e no


noroeste europeu, assim como algumas de suas colônias (com destaque para os
EUA). Outras partes da Europa, tão importantes no impulso inicial mercantilista
(penínsulas Itálica e Ibérica), haviam arrefecido quanto a sua capacidade de
crescimento econômico. Assim, em 1880, os EUA já despontava como um
potencial líder mundial, porém à época a Europa ainda representava o centro
GHPRJUi¿FRHFRPHUFLDOGRPXQGRHDLQGDSRVVXtDXPDSURGXomRLQGXVWULDOGXDV
vezes maior que a americana. Além disso, surgiram no velho continente algumas
das inovações industriais paradigmáticas para o século seguinte como veículos
PRWRUL]DGRVHRFLQHPD +REVEDZQ 
A diferenciação entre os dois mundos nota-se principalmente devido à
presença das inovações bélicas e industriais supracitadas. Outras características
como a alta densidade populacional, a produção industrial e o percentual maior
de força de trabalho alocada na indústria8 não serem características restritas
DR PXQGR GHVHQYROYLGR 4XDQWR j HVWD GLIHUHQFLDomR +REVEDZQ  S 
sugere que:
Compared with this difference, the differences between stone-age societies
such as those of the Melanesian islands and the sophisticated and urbanized
VRFLHWLHV RI &KLQD ,QGLD DQG WKH ,VODPLF ZRUOG VHHPHG LQVLJQL¿FDQW
What did it matter that their arts were admirable, that the monuments
of their ancient cultures were wonderful, and that their mainly religious
philosophies impressed some western scholars and poets at least as much
as, indeed probably more than, Christianity?

Em consonância com esta característica histórica de heterogeneidade do


desenvolvimento econômico e social das nações, Veblen (1904, 1921) discute a
evolução da indústria de modo a demonstrar a diferença entre os interesses em duas
IDVHVGLIHUHQFLDGDV1DSULPHLUDIDVHDVIiEULFDVVmRFRQWURODGDVSHORV³FDSLWmHV
GDLQG~VWULD´¿JXUDTXHUHXQLDFDUDFWHUtVWLFDVGHJHUHQWHLQYHQWRUHSURSULHWiULR
6HJXQGR0DUWLQV  HVVD¿JXUDSROLYDOHQWHGRSURSULHWiULRJHUHQWHLQYHQWRU
observa-se nos primórdios da Revolução Industrial principalmente entre os
ingleses. Na segunda fase, as indústrias são propriedades do Absentee Owner,
RXVHMDKiXPGLVWDQFLDPHQWRHQWUHRGRQRPXLWDVYH]HVOLJDGRDR³EDQTXHLUR
(8) Com exceção de Bélgica, Bretanha, França, Alemanha, Suíça e Holanda todas as demais nações
possuíam maior percentual da força de trabalho alocado na agricultura.

Leituras de Economia Política, Campinas, (23), p. 57-87, jul./dez. 2015. 67


Rafael Barbieri Camatta / Alexandre Ottoni Teatini Salles

investidor”, os técnicos e engenheiros que trabalham diretamente na parte


³PHFkQLFD´GDLQG~VWULDHDVWDUHIDVGHJHUrQFLD
9HEOHQ D¿UPD TXH VXUJH QHVWD IDVH GLYHUJrQFLD GH LQWHUHVVHV HQWUH D
¿JXUD GR SURSULHWiULR H GR JHUHQWH (VWDV SRGHP VHU DVVRFLDGDV jV GXDV IDVHV
GD UHYROXomR LQGXVWULDO DWp R ¿QDO GR VpFXOR ;,; WDO FRPR DSUHVHQWDGDV SHOD
KLVWRULRJUD¿DWUDGLFLRQDO9HEOHQ  DWULEXLjWHFQRORJLD industrial arts) um
papel central para o entendimento do funcionamento do sistema econômico. Este
propõe que a ciência econômica deveria considerar além dos fatores de produção
tradicionais (terra, trabalho e capital) também a tecnologia (industrial arts)
e o papel do empreendedor, pois estes tem grande importância no processo de
multiplicação da riqueza.
Além da ampliação da diferença de renda entre países, há um aumento
da desigualdade social entre classes intrapaíses. Esta acirra a capacidade de
demonstração de riqueza das classes superiores e incentiva a tentativa de emulação
do consumo deste pelas classes inferiores.
1RV(8$LQWHQVL¿FDomRGDVDWLYLGDGHVPLOLWDUHVDSDUWLUGD*XHUUD&LYLO
estimulou a manufatura e o crescimento econômico – principalmente com a
utilização do vapor e do ferro – e o desenvolvimento de inovações. Essa tendência
é observada pelo número de patentes registradas, que atingiram 36 mil até 1860 e
passaram a 440 mil em 1890. Após a guerra civil, a agricultura também passa por
uma revolução tecnológica uma vez que o uso da terra passa a ser mais intensivo
FRPDXWLOL]DomRGHPDTXLQiULRHWpFQLFDVGHSURGXomRPDLVVR¿VWLFDGDV$VVLP
além da cultura de subsistência, surgem as grandes plantações comerciais9. Entre
1860 e 1910, o número de fazendas em território norte americano triplica (de dois
para seis milhões), enquanto a área cultivada quase dobrou. O progresso técnico
na agricultura (assim como a expansão das terras cultivadas no oeste) possibilitou
TXHHVWDSURGX]LVVHRQHFHVViULRSDUDVXSULURLQWHQVRFUHVFLPHQWRGHPRJUi¿FR
por todo o território do país (U.S. Department of State, 2005a).

(9) Em 1862, com o Land Grant College Act, o governo dos EUA destina em cada unidade federativa
sítios agrícolas nos quais funcionariam centros de pesquisa agropecuária e industrial. Estes recebiam fundos
GLUHWDPHQWH GR 'HSDUWDPHQWR )HGHUDO GH $JULFXOWXUD FRP R REMHWLYR GH ¿QDQFLDU H[SHULPHQWRV HP QRYDV
tecnologias.

68 Leituras de Economia Política, Campinas, (23), p. 57-87, jul./dez. 2015.


Economia e História: a importância das instituições do século XIX e XX na obra de Thorstein Veblen

6HJXQGR &UDLJ  S  ³The parochialism and regionalism


characteristic of an agricultural society must give way to a habit of thinking
in national and international terms”. A partir desta mudança, a renda deve ser
investida em atividades que estimulavam o crescimento econômico – como
infraestrutura e educação – em detrimento de adornos para uma classe ociosa
tradicional. E ainda, o nível de investimentos deve ser superior à taxa de
crescimento populacional. Na Europa, estas mudanças institucionais ocorreram
em diferentes momentos para cada nação. Como era de se esperar, a Grã-Bretanha
IRLDSLRQHLUDQHVWHSURFHVVRWHQGR¿QDQFLDGRFRPHPSUpVWLPRVHWHFQRORJLDD
industrialização da Bélgica.
$LQGDQRHQWRUQRGR¿PVpFXOR;,;D$OHPDQKDHD)UDQoDGHVSRQWDP
como novas potências industriais. Na Itália, a indústria manteve um ritmo de
FUHVFLPHQWRDFHOHUDGRDSyVDXQL¿FDomRSRUpPHVWHIRLLQWHUURPSLGRSHODJXHUUD
WDULIiULDFRPD)UDQoDHP¿QVGDGpFDGDGHHSHODLQFDSDFLGDGHHPREWHU
os recursos necessários para manter a taxa de crescimento da economia. A
atividade agrícola e as instituições sociais que o acompanham se mostraram mais
HQUDL]DGRVQD,WiOLD(VSDQKDH3RUWXJDOFULDQGRDVVLPXPDPDLRUGL¿FXOGDGH
para a expansão da indústria nestas regiões.
Não obstante a resistência à mudança institucional que acompanha
o desenvolvimento da atividade agrícola, este setor passou por importantes
transformações decorrentes de novas técnicas advindas da segunda revolução
industrial. Barraclough (1976) menciona que entre algumas técnicas que
PRGL¿FDUDP SURIXQGDPHQWH R VHWRU HVWmR D XWLOL]DomR GH DGXER H WpFQLFDV GH
conservação de alimentos. Quanto à conservação, se destacam a pasteurização
(com o destaque para o leite, em 1890), e esterilização, e a utilização de estanho
nas latas de conserva (que proporcionou maior durabilidade da comida enlatada)10.
O aumento da produção mediante a introdução destas novas técnicas foi essencial
SDUDVXSULURHOHYDGRDXPHQWRGHPRJUi¿FRGRSHUtRGR
Em 1880, o carvão representava a principal forma de combustível, e a
energia hidroelétrica (em seu estágio rudimentar) ainda não tinha se disseminado
para a indústria, estando concentrada na atividade agrícola. O motor de

(10) A produção de produtos vegetais enlatados passou de 400 mil itens anuais em 1870 para 55 milhões
em 1914. Esse aumento foi de extrema importância para suprir as necessidades das guerras que se seguiram.

Leituras de Economia Política, Campinas, (23), p. 57-87, jul./dez. 2015. 69


Rafael Barbieri Camatta / Alexandre Ottoni Teatini Salles

combustão interna, assim como a utilização do petróleo como fonte de energia,


estava tecnicamente pronto para o consumo em massa. De fato, sua introdução
no mercado marca o início da segunda revolução industrial. Na esteira deste salto
tecnológico paradigmático, incluem-se: diversos tipos de turbinas e motores de
combustão interna; o telefone; o gramofone; o telégrafo; a lâmpada incandescente;
YHtFXORV DXWRPRWLYRV D FLQHPDWRJUD¿D H D LQG~VWULD DHURQiXWLFD 2 ULWPR
vertiginoso do progresso se mostrava ainda mais rápido nas telecomunicações
e na capacidade de produção de mercadorias, principalmente na Europa e nos
(8$1RSHUtRGRGHDKiXP³HQFXUWDPHQWR´GDVGLVWkQFLDVPHGLDQWH
as viagens ferroviárias transcontinentais e da introdução das comunicações de
longa distância, tornada possível principalmente pelo telégrafo que tinha um
custo bem inferior ao telefone à época (Salles, 2013).
Em suma, a segunda revolução industrial representou um novo
SDUDGLJPD FLHQWt¿FR H WHFQROyJLFR DSOLFDGR j LQG~VWULD 9LQFHQWLQL H 3HUHLUD
(2010) apontam que estas são facilmente notadas especialmente nos seguintes
setores: eletricidade (fontes e capacidade de geração de energia); química (novas
matérias-primas sintéticas); motores à combustão (tornando o petróleo central
no crescimento econômico11); metalurgia (aço, níquel, alumínio); indústria
bélica (armas de repetição, submarino e torpedo); agricultura (fertilizantes,
máquinas agrícolas); telecomunicações (telégrafo, telefones, cabos submarinos);
transportes intercontinentais (transiberiana, transeuropeias, transandina); e canais
interoceânicos (Suez e Panamá).
Barraclough (1975) enumera outras inovações de fundamental importância
na evolução das técnicas e conhecimentos na medicina, higiene e nutrição (com a
ampliação da utilização do clorofórmio), dos antissépticos e técnicas assépticas.
Data deste período (pós 1870) a grande era da bacteriologia, com o surgimento dos
trabalhos inovadores de Louis Pasteur e Robert Koch, assim como o surgimento
da microbiologia e da bioquímica. Através dos avanços nestas novas ciências foi
possível a descoberta do primeiro antibiótico (penicilina) em 1928.
+REVEDZQ   D¿UPD TXH FRP D UHQRYDomR LQGXVWULDO DGYLQGD GDV
inovações, algumas indústrias de base se deslocam para as colônias, mesmo sobre
forte pressão contrária dos países centrais. Alguns exemplos são: infraestrutura
(11) No período, os EUA e a Rússia eram os maiores produtores de petróleo.

70 Leituras de Economia Política, Campinas, (23), p. 57-87, jul./dez. 2015.


Economia e História: a importância das instituições do século XIX e XX na obra de Thorstein Veblen

(estradas de ferro e portos); indústria extrativa (minerais); agricultura (subsistência


e agroexportadora); indústrias têxteis e de alimentos processados.
À época, existia um modelo dos determinantes institucionais necessários
SDUDTXHXPSDtVVHWRUQDVVHXP(VWDGRQDomROLEHUDOGHVHQYROYLGR+REVEDZQ
(1989, p. 22) esclarece este aspecto da seguinte forma:
It should form a more or less homogeneous territorial state, internationally
sovereign, large enough to provide the basis of national economic
development, enjoying a single set of political and legal institutions of
a broadly liberal and representative kind (i.e. it should enjoy a single
constitution and the rule of law), but also, at a lower level, it should have
a fair degree of local autonomy and initiative. It should be composed of
‘citizens’, i.e. of the aggregate of the individual inhabitants of its territory
who enjoyed certain basic legal and political rights, rather than, say, of
corporations or other kinds of groups and communities. Their relations
with the national government should be direct and not mediated by such
groups. And so on.
A importância da indústria, do progresso técnico e do homem de negócios
é discutida no livro The Theory of Business Enterprise, de 1904. Neste, Veblen
GHVFUHYHRHQWUHODoDPHQWRHQWUHRVVHWRUHVLQGXVWULDLVHD¿UPDTXHQmRKiVHWRU
intensivo em capital que seja totalmente independente dos demais. Nesta época, a
indústria como um todo já havia abandonado suas características manufatureiras
e baseava-se principalmente em indústrias intensivas em capital12. Veblen (1904)
descreve a tendência à padronização oriunda da indústria, e como esta afeta
as demais instituições sociais. Segundo ele, a padronização afeta a formação
das preferências, facilitando a aceitação em massa de bens para consumo em
diferentes culturas.
Este ponto de vista é complementar à TCO uma vez que nesta obra a
diferenciação dos produtos é um dos mecanismos mais importantes para a
formação de preferências. A diferenciação do produto encontrada em Veblen
compreende produtos capazes de satisfazer a necessidade de concorrência
entre consumidores através de demonstração pecuniária. A este fenômeno de

(12) Posteriormente, no artigo On the Nature of Capital de 1908, o autor discute o papel primordial da
tecnologia e do conhecimento na evolução da propriedade privada.

Leituras de Economia Política, Campinas, (23), p. 57-87, jul./dez. 2015. 71


Rafael Barbieri Camatta / Alexandre Ottoni Teatini Salles

ostentação de riqueza, ele chamou de consumo conspícuo. E ao fato do agente


procurar imitar o padrão de consumo das classes superiores, ele chamou de
HPXODomR$VGH¿QLo}HVGHFRQVXPRFRQVStFXRHHPXODomRSHFXQLiULDLPSOLFDP
na pressuposição de uma diferenciação do produto. A este respeito, Veblen
S HVFUHYHX³(VVHFRQVXPRHVSHFLDOL]DGRGHEHQVHQWUHWDQWRMiQXP
momento da evolução econômica, [...] se tinha constituído num sistema mais ou
menos elaborado, como força pecuniária. O início da diferenciação no consumo
é mesmo anterior a qualquer força pecuniária”.
1HVWD SHUVSHFWLYD DV ¿UPDV SURGX]HP EHQV GLIHUHQFLDGRV GH PRGR
a suprir esta demanda. Veblen aborda a diferenciação do produto a partir do
comportamento emulativo do consumidor, ou seja, seu desejo de receber honra
e de distinção das classes inferiores. Isto nada mais é do que uma evidência da
importância para o autor da diferenciação do consumo. O consumo conspícuo
e as demais formas de emulação podem ser entendidos como uma forma de
FRQFRUUrQFLD HQWUH FRQVXPLGRUHV FXMR REMHWLYR ¿QDO p PDLRU GHPRQVWUDomR GH
riqueza possível.

$FULVHGHGHÀDomRGD(XURSDHGRV(8$QR¿QDOGRVpFXOR;,;
O crescimento econômico no período posterior à industrialização na
Europa não alcançou os resultados esperados. A falta de experiência e o excesso de
entusiasmo dos empresários, bem como a ausência de regulação estatal, levaram
DRVXUJLPHQWRGHEROKDVHFULVHV¿QDQFHLUDVHFRPHUFLDLVGXUDQWHRSHUtRGR&UDLJ
(1989) enumera alguns exemplos típicos desta fase como a queda acentuada
QR YDORUGDV Do}HV GD ¿UPDEnglish Railroad em 1860 (que teve repercussões
importantes na Bolsa de Valores de Londres), e a crise na construção civil alemã
em 1873.
Durante o período entre 1870 e 1890, estas crises repercutiram no
arrefecimento progressivo nas taxas de crescimento do comércio internacional.
1mR REVWDQWH +REVEDZQ   D¿UPD TXH D SURGXomR GH IHUUR SDVVRX GH 
milhões em 1870 para 23 milhões de toneladas em 1890; enquanto a produção
de aço, considerada como um importante indicador da industrialização, subiu de
PHLR PLOKmR SDUD  PLOK}HV GH WRQHODGDV$OpP GR VLJQL¿FDWLYR FUHVFLPHQWR
das potências recém-industrializadas (EUA e Alemanha), e do intenso ritmo de
FUHVFLPHQWRGDSURGXomRLQGXVWULDOQD,QJODWHUUD±FHQWUR¿QDQFHLURHFRPHUFLDO

72 Leituras de Economia Política, Campinas, (23), p. 57-87, jul./dez. 2015.


Economia e História: a importância das instituições do século XIX e XX na obra de Thorstein Veblen

mundial – outros países como Suécia e Rússia também haviam se industrializado


neste período.
O caso particular da Alemanha é discutido extensivamente por Veblen no
livro Imperial Germany and the Industrial Revolution, de 1915. Neste, o autor faz
uma análise histórica da transformação das instituições (leis, costumes, mudanças
tecnológicas) que permitiram a escalada econômica deste país. Ele examina o
aumento vertiginoso da força industrial alemã, e assevera que o estabelecimento
e a evolução destas instituições permitiram um crescimento que ultrapassasse a
primazia econômica britânica.
Em suma, pode-se perceber que este período foi marcado por importantes
transformações tecnológicas e institucionais que resultaram em um rápido
FUHVFLPHQWRGDSURGXomRPXQGLDO$VVLPDGHSUHVVmRGR¿QDOGRVpFXORGH;,;
IRLSURYRFDGDSRUXPDXPHQWRVLJQL¿FDWLYRGDSURGXomRLQGXVWULDOSULQFLSDOPHQWH
nos principais países da Europa e nos EUA, e, como consequência, pela queda
nos preços das mercadorias (inclusive agrícolas), nas taxas de juros e de lucros
nestas nações13+REVEDZQ  DSUHVHQWDTXHQD,QJODWHUUDRQtYHOJHUDOGRV
preços caiu 40% entre 1873 e 1896 e o preço do ferro decresceu 50% entre 1871
HHQRYDPHQWHHQWUHH2VHWRUPDLVDIHWDGRSHODGHÀDomRIRL
a agricultura, e por consequência, foi neste setor que houve grande parte dos
problemas sociais. A agricultura havia sofrido uma forte expansão nas décadas
anteriores a 1870, fato que aumentou fortemente o número de produtos agrícolas
em circulação. A crise de superprodução agrária preocupava as nações ao redor
do globo, pois mesmo em países industrializados (exceto a Inglaterra) a produção
agrícola ainda ocupava de 40 a 50% da mão de obra masculina. Uma sublevação
deste contingente representava riscos políticos graves14.
1HVWH¿QDOGHVpFXORRUiSLGRFUHVFLPHQWRGDDJULFXOWXUDQRV(8$HR
uso crescente de tecnologias agrícolas e de transporte foram os principais fatores
que contribuíram para a crise agrária europeia. De acordo com Craig (1989), a
expansão da malha ferroviária (que cresce 300 pontos percentuais entre 1860 e
(13) 9HEOHQGLVFXWHRFRQFHLWRHFRQ{PLFRGH³VXSHUSURGXomR´QRDUWLJRThe Overproduction Fallacy,
de 1892.
(14) Alguns dos fenômenos sociais atribuídos à crise agrária são: Revolta dos Famintos na Rússia
 DXPHQWRGRSRSXOLVPRQRV(VWDGRV8QLGRV PRYLPHQWRLQLFLDGRHP1HEUDVNDH.DQVDVJUDQGHV
produtores de trigo); e revoltas camponesas na Irlanda, Espanha, Sicília e Romênia

Leituras de Economia Política, Campinas, (23), p. 57-87, jul./dez. 2015. 73


Rafael Barbieri Camatta / Alexandre Ottoni Teatini Salles

1880) permitiu uma redução dos fretes e um aumento na velocidade de escoamento


intracontinental da produção de grãos. A introdução de novas tecnologias de
propulsão marinha permitiu que essa produção chegasse de maneira rápida e
barata aos mercados europeus. Da mesma forma, ocorre um salto tecnológico
nos sistemas de refrigeração, permitindo o escoamento da atividade pecuária para
mercados intercontinentais.
Além deste forte incremento da produção agrícola norte-americana
– principalmente nas terras recém-anexadas do Oeste – outros países como
Argentina, Austrália e Canadá entraram no comércio internacional de
commodities agrícolas. Nos EUA, a péssima situação dos agricultores contava
com um fator além dos baixos preços do mercado internacional uma vez que estes
estavam sujeitos a sobretarifa da logística ferroviária monopolista do país (U.S.
Department of State, 2005a).
Em The Theory of Business Enterprise Veblen discute este processo
histórico caracterizado por transformações abruptas em um grupo de países,
LQWHUFDODGR SRU FULVHV SHUtRGRV GH SURVSHULGDGH H GHSUHVVmR GH LQÀDomR H GH
GHÀDomR6HJXQGRHOH S ³GXULQJWKHODVWWZHQW\\HDUVRIWKHQLQHWHHQWK
FHQWXU\SHULRGVRIH[DOWDWLRQKDYHRQWKHZKROHJURZQOHVVSURQRXQFHGDQGOHVV
IUHTXHQWZKHUHDVSHULRGVRIGHSUHVVLRQRUµKDUGWLPHV¶KDYHJURZQPRUHIUHTXHQW
DQGSURORQJHGLIQRWPRUHSURQRXQFHG´2DXWRUGHPRQVWUDTXHDVÀXWXDo}HV
entre períodos de alta e baixa da atividade econômica estão interligados. Grande
SDUWHGDVSHUWXUEDo}HVVXUJHPQDHVIHUD¿QDQFHLUDHDWLQJHPVHFXQGDULDPHQWHD
HVIHUDSURGXWLYDGHYLGRjQHFHVVLGDGHGH¿QDQFLDPHQWRGDVHJXQGDSHODSULPHLUD

 2XWUDV UHVSRVWDV j FULVH GH GHÀDomR FRQFHQWUDomR H UDFLRQDOL]DomR GD


produção
(P IXQomR GD FULVH GHÀDFLRQLVWD GLVFXWLGD DQWHULRUPHQWH VXUJLUDP
RXWURV GRLV IHQ{PHQRV TXH PRGL¿FDUDP UDGLFDOPHQWH R PRGR GH SURGXomR
industrial nos EUA. O primeiro é relativo ao aumento da concentração industrial
que viria a culminar na primeira lei antitruste da história, a Sherman Anti-Trust
Act, promulgada nos EUA em 1890. Porém, de início esta foi majoritariamente
utilizada contra a formação de sindicatos uma vez que estes foram considerados
como um truste de trabalhadores, por isso, sujeitos às regulações previstas na lei.

74 Leituras de Economia Política, Campinas, (23), p. 57-87, jul./dez. 2015.


Economia e História: a importância das instituições do século XIX e XX na obra de Thorstein Veblen

Segundo Chang (2002), a legislação começa a ser utilizada de maneira persistente


contra os grandes conglomerados com a fundação do Bureau of Corporations em
1905, e passa por uma modernização em 1914 com o Clayton Antitrust Act. A
ROLJRSROL]DomRVHREVHUYDGHPDQHLUDPDLVVLJQL¿FDWLYDQDVJUDQGHVLQG~VWULDV
pesadas, tais quais as de carvão, armamentos e petróleo, assim como bens de
consumo em massa como tabaco e sabão. Essa tendência teve início no período
GHGHSUHVVmRQR¿PGRVpFXOR;,;SRUpPFRQWLQXRXDSyVVXDVXSHUDomR
Este processo de oligopolização ocorre quando indústrias e bancos
expandem suas atividades a níveis nacional e internacional e nesta expansão
surgem iniciativas para conluio entre concorrentes. Este visava diminuir os
FXVWRV GH SURGXomR D PDQXWHQomR GRV SUHoRV HP QtYHLV DUWL¿FLDOPHQWH PDLV
HOHYDGRV H D GLYLVmR GR PHUFDGR (VWD UHODomR HQWUH ¿UPDV JLJDQWHV WRPRX
contornos diferenciados ao redor do mundo. Nos EUA e Inglaterra, a prática mais
comum era a absorção de competidores menores através de compra acionária e a
IRUPDomRGHWUXVWHVQRTXDODV¿UPDVFRPELQDYDPDVTXDQWLGDGHVGHSURGXomRH
o preço de venda (por exemplo, Craig (1989) menciona a Standart Oil, nos EUA,
e a Tobacco Company, na Grã-Bretanha). Na Alemanha, a forma mais popular
de concentração era o Cartel, no qual todas as empresas de determinado ramo
regulavam conjuntamente a compra de insumos, áreas de exploração, técnicas de
vendas e preços. Muitas vezes cartéis de diferentes países se reuniam de modo
a manter conformidade entre suas políticas de preços e de vendas Acerca da
FRQFHQWUDomRGRVHWRUEDQFiULRQD,QJODWHUUD&UDLJ S D¿UPD
Of special interest in this connection was the tendency of banking concerns
to combine. In England the last years of the century saw a steady decline in
the total number of banking concerns. There had been 600 banking houses
LQ(QJODQGLQ%\WKHUHZHUHRQO\¿IW\¿YHDQGWKLVVKULQNDJH
was to continue into the postwar period, so that there were only eleven
EDQNLQJKRXVHVLQDQG¿YHVL[WKVRIWKHFRXQWU\¶VEDQNLQJEXVLQHVV
was handled by the ‘Big Five’: the Midland Bank, the Westminster Bank,
Barclay’s, Lloyd’s, and the National Provincial.

$ MXVWL¿FDWLYD GH H[LVWrQFLD GDV FRUSRUDo}HV H WUXVWHV FRPELQDo}HV


de corporações) nos EUA estava relacionada à tentativa de evitar crises
de superprodução, implicando em enormes custos sociais proveniente da

Leituras de Economia Política, Campinas, (23), p. 57-87, jul./dez. 2015. 75


Rafael Barbieri Camatta / Alexandre Ottoni Teatini Salles

diminuição da concorrência15. Essas organizações possuíam um maior poder de


barganha com os sindicatos e empresas de logística (fretes ferroviários e navais),
e capital necessário para competir em mercados internacionais. Com relação à
tecnologia, os trustes contribuíam para um melhor desempenho das empresas
TXHRFRQVWLWXtDPPHGLDQWHRDFHVVRGHVWDVjVSDWHQWHVGHWRGDVDVGHPDLV¿UPDV
ali presentes. As grandes corporações norte-americanas passam a ser controladas
SRUJUXSRV GHLQYHVWLGRUHV¿QDQFHLURVTXHHUDPDWUDtGRVSHODSRVVLELOLGDGHGH
antecipação dos lucros e pequena responsabilidade em caso de falências. Nas
SULPHLUDV GpFDGDV GR VpFXOR ;; RV WUXVWHV IRUDP VXEVWLWXtGRV SHOD IRUPD GH
organização denominada holding, as quais representam agregações de diversos
setores numa mesma corporação (U.S. Department of State, 2005b).
Segundo Craig (1989, p. 264), o padrão de concentração do período
envolvia a participação do Estado:
As industrial capitalism extended its domain in the years after 1871, it began,
in certain respects, to change its character. The rugged individualism and
the unalloyed competitive spirit that marked the entrepreneurs of the early
stages of capitalism disappeared; and their successors relied increasingly
on government aid and on forms of combination intended to reduce the
rigors and inconveniences of competition.

Além do crescente protecionismo, os estados nacionais contribuíram de


outras formas para a manutenção e expansão da indústria local, muitas vezes
incentivando a concentração industrial. A lei alemã General Company Law de
1870 facilitou o crescimento das grandes corporações. Elas saltam de 2.100 no
início da década de 1880 para 5.400 em 1912.
Por outro lado, o Estado foi responsável por diversas tentativas de limitar
a tendência de concentração industrial. O presidente americano Stephen Grover
Cleveland assinou em 1887 o Interstate Cleveland Act que objetivava o reduzir
o excesso de tarifas no comércio interestadual (principalmente no que tange a
logística via estradas de ferro). A crescente antipatia contra o poderio econômico
e político dos trustes e das grandes corporações pressiona o governo a aprovar o

(15) Destaca-se como exemplos de setores dominados por grandes corporações norte americanas
HP¿QVGRVpFXOR;,;HLQtFLRGRVpFXOR;;3HWUyOHRDOJRGmRDo~FDUWDEDFRERUUDFKDWHOHFRPXQLFDo}HV
transporte e aço.

76 Leituras de Economia Política, Campinas, (23), p. 57-87, jul./dez. 2015.


Economia e História: a importância das instituições do século XIX e XX na obra de Thorstein Veblen

Sherman Antitrust Act. Aprovado em 1890, este proibiu as restrições ao comércio


interestadual em qualquer ramo de atividade e previu diversas maneiras de
enforcement baseadas em fortes penalidades. Esta lei só foi aplicada amplamente
no governo Roosevelt (1933-45).
O Clayton Antitrust Act de 1914 foi outro avanço na regulação antitruste
norte-americana. Autorizava a Federal Trade Commission a sancionar ordens
contra métodos de competição desiguais, além de regular e investigar abusos
corporativos. Entre as práticas proibidas pelo ato estão: a formação de diretorias
conjugadas, discriminação de preços entre consumidores, utilização de restrições
legais em disputas com trabalhadores, e a posse de ações ordinárias de empresas
de semelhante atividade (U.S. Department of State, 2005a).
Além de implementar estes incentivos e regulações, aumentou também
a participação direta do Estado na economia. O crescimento econômico à época
exigia um padrão de infraestrutura (malha ferroviária e rodoviária, construção de
canais) cujo capital privado muitas vezes não era capaz de desenvolver devido
à falta de interesse em investimentos de longo prazo. Craig (1989) mostra que
a participação do governo federal foi essencial em pelo menos dois países. Nos
EUA, na construção das estradas de ferro intercontinentais, e na França com a
utilização de títulos da dívida pública para investimentos na malha rodoviária no
governo de Napoleão III.
Veblen (1921) examina a concentração industrial na esteira da discussão
que ele elabora acerca de sua caracterização das fases da evolução da indústria.
Conforme discutido anteriormente, para o autor houve uma primeira fase pautada
pela presença dos capitães da indústria, que assumiram diversas tarefas relativas
à produção. Esta foi seguida de uma segunda fase, na qual há uma separação dos
papéis de gerentes e proprietários. Assim, na primeira, observa-se que a estrutura
de mercado compreende uma estrutura atomizada de diversas empresas guiadas
pela livre iniciativa. Posteriormente, com a saturação dos mercados devido à
VXSHUSURGXomRRDXWRUD¿UPDTXHDOLYUHLQLFLDWLYDSDVVDDQmRVHUPDLVXPERP
SDUkPHWURSDUDGH¿QLURQtYHOGHSURGXWRVODQoDGRVDRPHUFDGR1HVWDIDVHDV
exigências de mercado passam a ser a combinação entre produtores e a restrição
de produção.

Leituras de Economia Política, Campinas, (23), p. 57-87, jul./dez. 2015. 77


Rafael Barbieri Camatta / Alexandre Ottoni Teatini Salles

2VHJXQGRIHQ{PHQRTXHPRGL¿FRXDHVWUXWXUDSURGXWLYDGDVHFRQRPLDV
industriais foi o desenvolvimento de técnicas voltadas para a otimização da
produção dentro da estrutura fabril. Fundadas por F. W. Taylor, essas técnicas foram
denominadas 6FLHQWL¿F 0DQDJHPHQW e objetivavam organizar e desenvolver o
setor metalúrgico americano (Taylorismo). Nos anos 1920, estas técnicas foram
DEVRUYLGDVSHODLQG~VWULDHXURSHLD6HJXQGR+REVEDZQ S HVVDWpFQLFD
se baseia em três métodos:
This aim was pursued by three major methods: (i) by isolating each worker
from the work group, and transferring the control of the work process
from him, her or the group to the agents of management, who told the
worker exactly what to do and how much output to achieve in the light of
(2) a systematic breakdown of each process into timed component elements
(‘time and motion study’), and (3) various systems of wage payment which
would give the worker an incentive to produce more.
Neste período, a empresa se afasta da concepção antiga da manufatura
DGPLQLVWUDGDSRUVHX~QLFRSURSULHWiULRSDUDVHDSUR[LPDUGD¿JXUDPRGHUQDGDV
grandes corporações, administradas por executivos contratados por acionistas.
1RWDVH XPD PRGL¿FDomR WDQWR GD JRYHUQDQoD GD ¿UPD TXDQWR QR SURFHVVR
de produção. Este movimento é analisado por Veblen (1904, p. 13) conforme
demonstra o trecho a seguir:
With a fuller development of the modern close knit and comprehensive
industrial system, the point of chief attention for the business man has
shifted from the old-fashioned surveillance and regulation of a given
industrial process, with which his livelihood was once bound up, to an
alert redistribution of investments from less to more gainful ventures,
and to a strategic control of the conjunctures of business through shrewd
investments and coalitions with other business men.
2DXWRUD¿UPDTXHGXUDQWHDVGXDVGpFDGDV¿QDLVGRVpFXOR;,;KRXYH
XPQ~PHURJUDQGHGHIXV}HVGHLQG~VWULDV(PDOJXQVFDVRVHVWDVEHQH¿FLDUDP
a sociedade em geral devido aos ganhos de escala alcançados. Porém, o interesse
em fusões muitas vezes está na obtenção de lucros pecuniários, em detrimento
GDH¿FLrQFLD(VWDFRQWUDGLomRGHLQWHUHVVHVJHUDSRUXPODGRIXV}HVGHSRXFR
UHWRUQRSURGXWLYRHVRFLDO$GHPDLVGL¿FXOWDRXWUDVIXV}HVTXHWUDULDPEHQHItFLRV
sociais não obstante serem tecnológica e institucionalmente possíveis.

78 Leituras de Economia Política, Campinas, (23), p. 57-87, jul./dez. 2015.


Economia e História: a importância das instituições do século XIX e XX na obra de Thorstein Veblen

'HPRJUD¿DHPmRGHREUD
A concentração do setor industrial foi contemporânea a uma tendência
parecida no mercado de trabalho. Da mesma maneira, os operários se reuniram
em grandes sindicatos que aumentaram progressivamente sua capacidade política
GHQHJRFLDomRFRPDVJUDQGHV¿UPDVHFRPR(VWDGR'HDFRUGRFRP&UDLJ  
D FULDomR GD RUJDQL]DomR VLQGLFDO GDWD GR LQtFLR GR VpFXOR ;,; QD ,QJODWHUUD
)UDQoDH%pOJLFDSRUpPIRLDSDUWLUGR¿PGHVWHPHVPRVpFXORTXHRVVLQGLFDWRV
passaram a desempenhar um forte papel político na defesa dos interesses da classe
RSHUiULD(VWDVRUJDQL]Do}HVWRUQDPVHPDLVDWXDQWHVFRPR¿PGDVUHVWULo}HV
MXUtGLFDV VREUH VXD FULDomR H RSHUDomR$VVLP SDVVDP GH DJUHJDo}HV SDFt¿FDV
de uma minoria educada, voltada a prestar assistência em caso de acidentes de
trabalho e desemprego, para entidades de ampla participação operária, capazes de
suspender a produção de suas respectivas indústrias.
Em sua segunda fase, a revolução industrial foi acompanhada de uma
LQWHQVL¿FDomRGRPRYLPHQWRRSHUiULRHPIXQomRGDVWHUUtYHLVFRQGLo}HVHPTXH
a classe estava submetida. Os trabalhadores passam a organizar-se não somente
em sindicatos, mas também em partidos políticos. Vincentini e Pereira (2010)
apontam que em 1864 aconteceu a I Internacional (encontro da Associação
,QWHUQDFLRQDO GRV 7UDEDOKDGRUHV  FRP R REMHWLYR GH XQL¿FDU R PRYLPHQWR
operário mundial; e em 1871 o movimento da Comuna de Paris toma a capital
francesa e institui o primeiro governo operário da história. Em 1889, organizou-
se a II Internacional (realizado pela mesma associação) que se caracterizou pelo
forte antagonismo entre socialismo e anarquismo, com a expulsão deste último.
1R¿QDOGRVpFXOR;,;HVWHVPRYLPHQWRVPLJUDUDPUXPRjVFRO{QLDVHXURSpLDV
FRPH[FHomRGRV(8$RQGHRVVLQGLFDWRVSRVVXtDPRXWUDRULHQWDomR¿ORVy¿FD
$ FULVH GHÀDFLRQiULD JHUD GXDV QRYDV WHQGrQFLDV TXDQWR j IRUoD GH
WUDEDOKR $ SULPHLUD p D HPLJUDomR TXH WRPRX FRQWRUQRV VLJQL¿FDWLYRV QD
Espanha, Itália, Áustria, Hungria, Rússia, e região dos Bálcãs16. A segunda é
cooperação através da criação de cooperativas (instituição proveniente deste
SHUtRGR HFUpGLWRFRRSHUDWLYR +REVEDZQ 

(16) Neste período, países como o Brasil ofereciam diversos incentivos à imigração. Há que se notar
TXHQHVWH¿PGHVpFXOR;,;$UJHQWLQDH%UDVLOUHFHELDPDSUR[LPDGDPHQWHPLOLPLJUDQWHVSRUDQR

Leituras de Economia Política, Campinas, (23), p. 57-87, jul./dez. 2015. 79


Rafael Barbieri Camatta / Alexandre Ottoni Teatini Salles

As novas técnicas industriais exigiam, concomitantemente, empresas


de larga escala e concentração urbana da mão de obra. Nesta conjuntura se
REVHUYD XPD UHGXomR VLJQL¿FDWLYD GDV HPSUHVDV IDPLOLDUHV (VWDV SDVVDP D
QmR FRQVHJXLU ¿QDQFLDPHQWR QHFHVViULR SDUD VXD H[SDQVmR QHP OLGDU FRP
o maquinário cuja operação necessitava de um grande número de operários.
Barraclough (1974) aponta que só na Alemanha, entre 1880 e 1914 o número
de pequenas empresas (até cinco funcionários) caiu pela metade, enquanto as
¿UPDVFRPIXQFLRQiULRVRXPDLVGXSOLFRX1HVWHFHQiULRGR¿PGHVpFXOR
;,;DXUEDQL]DomRDFRQWHFHXGHIRUPDEDVWDQWHDFHOHUDGDJHUDQGRXPDJUDQGH
concentração de trabalhadores nas cidades que supriu completamente a demanda
de mão-de-obra da indústria, gerando até uma elevação na taxa de desemprego.
As metrópoles cresciam rapidamente e incorporavam as vilas em seu entorno,
e absorviam todo o contingente que fugia da crise que ocorria no meio rural,
decorrente da importação barata de alimentos. As cidades com 100 mil habitantes
aumentaram vertiginosamente, e diversas metrópoles atingiram a marcada de um
PLOKmRGHKDELWDQWHVWDLVFRPR1RYD,RUTXH&KLFDJR)LODGpO¿D%HUOLP9LHQD
6mR3HWHUVEXUJR%XHQRV$LUHV5LRGH-DQHLUR7yTXLR&DOFXWiH2VDND
Quanto aos níveis de escolaridade, em 1880 o mundo desenvolvido
apresentava altos índices de alfabetização entre homens e um nível crescente entre
mulheres. Em nações subdesenvolvidas, o número de analfabetos continuava
EHPVLJQL¿FDWLYRPHVPRHQWUHDVFODVVHVDEDVWDGDV1RSHUtRGRDHOLPLQDomR
dos povos nativos (índios, aborígines e tribos africanas) já havia se consolidado
e tomava contornos de genocídio em diversos países (EUA, Brasil e Austrália).
O emprego de mão-de-obra escrava se encontrava quase erradicado, com a
H[FHomR GH &XED H %UDVLO TXH GHFODUDUDP ¿P GD HVFUDYLGmR HP  H 
UHVSHFWLYDPHQWH $]HYHGR%ODFNEXUQ 
3DUD9HEOHQR¿PGDPmRGHREUDHVFUDYDWHPIRUWHLPSOLFDomRVREUH
os hábitos de pensamento da sociedade. A reorganização social pós regime
escravista tende a prevalecer os instintos e hábitos voltados ao trabalho industrial
H¿FD](VWHSRQWRpDERUGDGRQD7&2 S GDVHJXLQWHIRUPD
Enquanto o trabalho continua sendo executado exclusivamente, ou
usualmente, por escravos, a degradação de todo o esforço produtivo está
por demais constante e inibidoramente presente na ideia dos homens
para permitir ao instinto ao artesanato um efeito mais sério no setor da

80 Leituras de Economia Política, Campinas, (23), p. 57-87, jul./dez. 2015.


Economia e História: a importância das instituições do século XIX e XX na obra de Thorstein Veblen

XWLOLGDGHLQGXVWULDOPDVTXDQGRDIDVHTXDVHSDFt¿FD FRPHVFUDYLGmRH
VWDWXV SDVVDSDUDDIDVHSDFt¿FD FRPWUDEDOKRDVVDODULDGRHSDJDPHQWRHP
dinheiro)RLQVWLQWRFRPHoDDRSHUDUFRPPDLVH¿FiFLD
Por sua vez, em relação ao trabalho assalariado, no período de crise
GHÀDFLRQiULDQRWDVHXPFRQVWDQWHDXPHQWRGRVVDOiULRVUHDLV(VWHVDVVLPFRPR
os custos rígidos de capital, não acompanharam a redução geral dos preços.
Posteriormente, após a segunda metade da década de 1890, o crescimento salarial
que caracterizou o período da grande depressão cessa, havendo queda dos salários
UHDLV QD ,QJODWHUUD H )UDQoD HQWUH  H  +REVEDZQ   D¿UPD TXH
este fato contribuiu para as agitações populares às vésperas da primeira guerra
mundial17.
No livro The Vested Interests and the Common Man (1919), Veblen
apresenta sua teoria sobre as mutações institucionais na relação empregador-
HPSUHJDGRDGYLQGDVFRPDUHYROXomRLQGXVWULDO2DXWRUD¿UPDTXHDVFRQGLo}HV
de trabalho e salários eram barganhadas de maneira pessoal entre trabalhadores
e proprietários, primordialmente nas guildas de trabalho e posteriormente
nas fábricas embrionárias. Esta relação desaparece com o aparecimento das
instituições de grandes corporações de capital aberto extremamente mecanizadas.
Com isto, o poder de barganha dos trabalhadores decresce mediante o aumento da
distância entre empregados e proprietários. Nesta discussão Veblen desenvolve
o importante conceito de Absentee Ownership of Anonymous Corporate Capital.
Veblen (1904) examina as instituições que permeiam as concepções do
operariado de modo a discutir a aceitação dos hábitos de pensamento socialistas
nas diferentes classes em diferentes momentos da história. Para o autor, o apelo
HJDQKRGHLPSRUWkQFLDGRPDU[LVPRQR¿QDOGRVpFXOR;,;HVWDYDGLUHWDPHQWH
ligado aos hábitos trazidos pela industrialização e urbanização. Este fato pode ser
observado na ampla disseminação destas ideias nos centros urbanos e intelectuais,
em detrimento das regiões rurais.

6 Consumismo
2 IHQ{PHQR GHQRPLQDGR FRQVXPLVPR LQLFLRXVH QR VpFXOR ;9,, QD
Europa devido ao aumento de riqueza e do número de produtos advindos das
colônias. Ou seja, este remonta a épocas em que foram introduzidas às especiarias

(17) Veblen (1904, p. 32) discute brevemente a relação entre salários e produção

Leituras de Economia Política, Campinas, (23), p. 57-87, jul./dez. 2015. 81


Rafael Barbieri Camatta / Alexandre Ottoni Teatini Salles

como café, tabaco e sedas nos mercados europeus. Consequentemente este


KiELWRPLJUDSDUDRV(8$ DLQGDFRORQLDO RQGHVHJHQHUDOL]DQR¿QDOGRVpFXOR
;,; 1HVWH SHUtRGR R Q~PHUR GH PHUFDGRULDV GLIHUHQFLDGDV VH PXOWLSOLFD
exponencialmente, assim como sua demanda. Este hábito disseminou-se
JOREDOPHQWH FRP R SURJUHVVLYR DXPHQWR GH LQÀXrQFLD QRUWH DPHULFDQD FXMD
LQÀXrQFLDFXOWXUDO SURSDJDQGDR¿FLDOP~VLFDFLQHPDHOLWHUDWXUD DWLQJHJUDQGH
parte dos países do mundo.
A cultura de consumo em massa exerce uma grande pressão sobre
a produção industrial. O fordismo, método de produção intensivo em divisão
do trabalho, componentes padronizados, e organização produtiva, foi capaz de
reduzir consideravelmente os custos industriais e aumentar sua produtividade.
Este sistema surge na indústria automobilística e logo se dissemina para as demais
linhas de produção. Segundo Smart (2010), a produção e o consumo em massa
são duas faces da mesma moeda, ou seja, se houver uma retração em uma destas
pontas, a economia mergulha em um período de crise.
O consumismo anterior à revolução industrial restringia-se a um
pequeno segmento social, composto pela elite agrária e aristocrática. O advento
da industrialização e da urbanização promoveu uma brutal elevação do trabalho
DVVDODULDGR6LPXOWDQHDPHQWHVXUJHXPÀX[RFRQVWDQWHGHRIHUWDDVVLPFRPR
um contingente de demanda por um número cada vez maior de mercadorias
GLYHUVDV (VWH ~OWLPR LQWHQVL¿FRXVH FRP D PHOKRUD ¿QDQFHLUD GDV FRQGLo}HV
operárias, que passavam a demandar quantidades maiores de bens diferenciados.
A absorção dos hábitos de pensamento que compõe uma sociedade industrial não
IRLLQVWDQWkQHD6HJXQGR*RRGZLQet al (2008), durante esta fase incipiente da
industrialização, os operários ingleses tinham o hábito de trabalhar somente o
necessário para cobrir os gastos da semana. Os trabalhadores valorizavam mais
tempo de lazer em detrimento de maiores salários. A adaptação, muitas vezes
traumática (diminuição salarial, trabalho forçado), aconteceu de modo que os
operários passaram a se ver como primordialmente como consumidores.
Uma das principais contribuições de Veblen à ciência econômica é a
discussão acerca da formação das instituições relativas ao consumo da classe
ociosa. Estas instituições se disseminam nas classes inferiores que passam emular
os padrões de consumo das classes superiores. Veblen descreve o fenômeno do

82 Leituras de Economia Política, Campinas, (23), p. 57-87, jul./dez. 2015.


Economia e História: a importância das instituições do século XIX e XX na obra de Thorstein Veblen

consumismo a partir da contaminação das preferências de consumo dos bens


GHOX[RGHFLPDSDUDEDL[R FODVVHVVXSHULRUHVLQÀXHQFLDPDVSUHIHUrQFLDVGDV
demais classes). Há, porém, uma diferença entre o fenômeno do consumismo
geral para o consumismo da classe ociosa, o primeiro se realiza em produtos
industriais padronizados enquanto o segundo se realiza através da obtenção de
bens diferenciados e de alto preço.
Portanto, o conceito de consumismo divide-se entre consumo em
massa, que englobam os primeiros produtos, e consumo perdulário, relativo aos
segundos, ambos estão relacionados ao consumo conspícuo exposto por Veblen.
Segundo o autor, os artigos artesanais são apreciados devido a sua exclusividade
e dispendiosidade de tempo e esforço, enquanto as mercadorias industriais,
produzidas a baixos custos, são rejeitadas pelas classes superiores. Desta forma
as mercadorias produzidas em massa não possuem a capacidade de demonstração
pecuniária para a classe ociosa, pois podem ser amplamente consumidas pelos
agentes pertencentes aos segmentos inferiores de renda.

&RQVLGHUDo}HV¿QDLV
Este artigo teve por objetivo principal apresentar uma interpretação
do contexto histórico no qual o fundador da Escola Institucionalista Original
desenvolveu seu trabalho sobre a natureza e a importância das instituições. A
DQiOLVH DFLPD SURFXURX DSUHVHQWDU FRPR HVWH FRQWH[WR LQÀXHQFLRX D REUD GH
9HEOHQ $ SHVTXLVD FRQ¿UPD TXH 9HEOHQ IRL IRUWHPHQWH LQÀXHQFLDGR SHODV
LQVWLWXLo}HV YLJHQWHV QR ¿QDO GR VpFXOR ;,; (P ~OWLPD DQiOLVH VXD REUD p
coerente com sua proposta epistemológica de que toda ciência deve ser estudada
a luz dos fenômenos históricos na qual foi produzida.
Por este motivo, a discussão acima focalizou as mudanças históricas
subjacentes a diversas instituições que eram o alvo da análise Vebleniana. Nota-se
uma importante mudança no eixo central do sistema capitalista na virada do século
;,;SDUDRVpFXOR;;2XVHMDGHXPDHVWUXWXUDDWRPtVWLFDHFRQFRUUHQFLDOSDUD
um sistema de caráter majoritariamente concentrado em grandes corporações, em
nível doméstico e internacional. A própria prática do protecionismo conjuntamente
FRP D EXVFD LPSHULDOLVWD SRU QRYRV PHUFDGRV D ¿P GH GHVDIRJDU D JLJDQWHVFD
produção industrial do período, foram responsáveis pela escalada de hostilidades

Leituras de Economia Política, Campinas, (23), p. 57-87, jul./dez. 2015. 83


Rafael Barbieri Camatta / Alexandre Ottoni Teatini Salles

entre os países europeus que veio a culminar na primeira guerra mundial em


1914. Com a proximidade da guerra, há uma retroalimentação da necessidade
de intervenção estatal pois os governos eram forçados a controlarem setores
estratégicos, como indústria de base, de combustível e de telecomunicações.
Neste período as organizações econômicas dos países desenvolvidos
apresentam um grau de desenvolvimento intermediário, porém muito inferior
ao que hoje é cobrado dos países subdesenvolvidos como necessário ao
desenvolvimento econômico e social (Chang, 2002). Muitas instituições
UHODFLRQDGDVDRFRQVXPRDLQGDYLJHQWHVKRMHWHPVXDRULJHPQR¿QDOGRVpFXOR
;,;H9HEOHQWHPXPDLPSRUWDQWHFRQWULEXLomRQRHVWXGRGHVWDVHGHFRPRR
agente toma a decisão num ambiente econômico.
A Classe Ociosa, cuja análise representa uma das principais contribuições
Veblenianas à Ciência Econômica, representa um segmento social já arcaico à
época da publicação da TCO, HP9HEOHQGHL[DFODURTXHDVPRGL¿FDo}HV
institucionais contemporâneas aos seus escritos se posicionavam contrárias à
existência desta classe. A crescente importância do homem de negócios (Veblen,
  R ¿P GD HVFUDYLGmR H D UHYROXomR LQGXVWULDO 9HEOHQ   DOWHUDUDP
profundamente os hábitos de pensamento, mesmo nas classes superiores. Estes
hábitos passam a valorizar as atividades industriais produtivas, em detrimento da
demonstração pecuniária.
Conforme exposto ao longo do artigo, a teoria institucionalista
9HEOHQLDQD IRL LQÀXHQFLDGD SHODV LQVWLWXLo}HV GH VXD pSRFD 3URYD GLVWR p TXH
o autor desenvolve princípios essencias à análise de temas dos mais diversos,
como por exemplo: revolução tecnológica, oligopolização, crises industriais,
FULVHV ¿QDQFHLUDV LPSHULDOLVPR JHUPkQLFR FUHVFLPHQWR LQGXVWULDO JHUPkQLFR
SDGURQL]DomR¿PGDPmRGHREUDHVFUDYDHFRQVXPLVPR$VLPSOLFDo}HVGHVXDV
concepções trazem à tona elementos teóricos importantes para o exame destes
temas no capitalismo contemporâneo.

5HIHUrQFLDVELEOLRJUi¿FDV
AZEVEDO, Celia Maria M. Abolicionismo: Estados Unidos e Brasil, uma
KLVWyULDFRPSDUDGD VpFXOR;,; 6mR3DXOR$QQDEOXPH

84 Leituras de Economia Política, Campinas, (23), p. 57-87, jul./dez. 2015.


Economia e História: a importância das instituições do século XIX e XX na obra de Thorstein Veblen

BARRACLOUGH, Geoffrey. Introdução à história contemporânea. Rio de


-DQHLUR=DKDU(GLWRUHV
BLACKBURN, Robin. A queda do escravismo colonial 1776-1848. São Paulo:
Record, 2002.
CAVALIERI, Marco A. O surgimento do institucionalismo Norte-Americano: um
ensaio sobre o pensamento e o tempo de Thorstein Veblen. Tese (Doutorado)–
UFMG/Cedeplar, Belo Horizonte, 2009.
CAVALIERI, Marco A. O surgimento do institucionalismo norte-americano de
Thorstein Veblen: economia política, tempo e lugar. Economia e Sociedade,
Campinas, v. 22, n. 1, p. 43-76, abr. 2013
&+$1*+D-RRQ.LFNLQJDZD\WKHODGGHUGHYHORSPHQWVWUDWHJ\LQKLVWRULFDO
perspective. London: Anthem Press, 2002.
CONCEIÇÃO, O. A. C. O Conceito de instituição nas modernas abordagens
institucionalistas. Revista Economia Contemporânea, v. 6. n. 2, p. 119-146, 2002.
CRAIG, Gordon A. Europe, 1815-1914 )ORULGD +DUFRXUW %UDFH -RYDQRYLFK
Publishers, 1989.
'(48(&+ 'DYLG 7KH GHPDUFDWLRQ EHWZHHQ WKH ³2OG´ DQG WKH ³1HZ´
institutional economics: recent complications. Journal of Economic Issues, v.
;;;9,QS
EICHENGREEN, Barry. Globalizing capital: a history of the International
0RQHWDU\6\VWHP1HZ-HUVH\3ULQFHWRQ8QLYHUVLW\3UHVV
GALLAROTTI, Giulio. M. The anatomy of an international monetary regime:
the classical gold standard 1880-1914. Oxford: Oxford University Press, 1995.
*22':,1 1HYD 1(/621 -XOLH $ $&.(50$1 )UDQN :(,66.23)
Thomas. Consumption and the consumer society. In: GOODWIN, Neva; NELSON,
-XOLH $ $&.(50$1 )UDQN :(,66.23) 7KRPDV Microeconomics on
context. Sharp: Medford, 2008.
+2%6%$:1(ULF-The age of empire, 1875-19141HZ<RUN3DQWKHRQ%RRNV
1989.
+2%621-RKQ$$HYROXomRGRFDSLWDOLVPRPRGHUQRXPHVWXGRGDSURGXomR
mecanizada. São Paulo: Abril Cultural, 1983.

Leituras de Economia Política, Campinas, (23), p. 57-87, jul./dez. 2015. 85


Rafael Barbieri Camatta / Alexandre Ottoni Teatini Salles

HODGSON, Geoffrey M. The approach of institutional economics. Journal of


Economic Literature, v. 36, n. 1, 1998.
/((/DZUHQFH%Kansas and the Homestead Act, 1862-19051HZ<RUN$UQR
Press, 1979.
/,1+$5(60DULD<(PIDFHGRLPSHULDOLVPRHGRFRORQLDOLVPR,Q6,/9$
F. C. T. da. Impérios na história5LRGH-DQHLUR(OVHYLHU
MARTINS, Carlos. E. A tecnocracia na história. São Paulo: Alfa-Omega, 1975.
0$<+(: $QQH  7KH EHJLQQLQJV RI LQVWLWXWLRQDOLVP  Journal of Economic
Issues, v. 21, n. 3, Sept. 1987.
081+2= 6LGQH\ -  $ FRQVWUXomR GR ,PSpULR (VWDGXQLGHQVH  ,Q 6,/9$
Francisco Carlos Teixeira da. Impérios na história  5LR GH -DQHLUR (OVHYLHU
2009.
U.S. DEPARTMENT OF STATE. Bureau of International Information Programs.
Outline of U.S. History. Growth and transformation. Washington, 2005a.
Disponível em: http://usinfo.state.gov/.
________. Bureau of International Information Programs. Outline of U.S.
History. The civil war and reconstruction. Washington, 2005b. Disponível em:
http://usinfo.state.gov/.
587+(5)25'0DOFROP7KHROGDQGWKHQHZLQVWLWXWLRQDOLVPFDQEULGJHVEH
built? Journal of Economic IssuesY;;,;QS
587+(5)25'0DOFROP,QVWLWXWLRQDOHFRQRPLFVWKHQDQGQRZJournal of
Economic Perspectives, v. 15, n. 3, p. 173-194, 2001.
SAMUELS, Warren. The present state of institutional economics. Cambridge
Journal of Economics, v. 19, p. 569-590, 1995.
6$//(6$OH[DQGUH27,QVWLWXWLRQDOIUDPHZRUNRIWKHFODVVLFDOJROGVWDQGDUG
H[DPLQLQJWKH¿UVWKLVWRULFDOZDYHRI¿QDQFLDOJOREDOL]DWLRQHistória Econômica
& História de Empresas, v. 16, n. 1, p. 101-134, 2013.
SILVA, Vagner Luís da. Perspectivas teóricas no Institucionalismo clássico.
Revista de Ciências Humanas, v. 12, n. 1, p. 145-164, jan./jun. 2012.
SMART, Barry. Consuming: historical and conceptual issues. In: SMART, B.
Consumer society: critical issues and environmental consequences. London:
Sage Publications, 2010.

86 Leituras de Economia Política, Campinas, (23), p. 57-87, jul./dez. 2015.


Economia e História: a importância das instituições do século XIX e XX na obra de Thorstein Veblen

VEBLEN, Thorstein B. The overproduction fallacy. Quarterly Journal of


EconomicsYQ-XO
________. Why is economics not an evolutionary science? The Quarterly
Journal of Economics-XOD
BBBBBBBB7KHLQVWLQFWRIZRUNPDQVKLSDQGWKHLUNVRPHQHVVRIODERUAmerican
Journal of Sociology, v. 4, n. 2, 1898b.
________ (1899). A teoria da classe ociosa: um estudo econômico das
instituições. São Paulo: Abril Cultural, 1983.
________. The theory of the business enterprise  1HZ -HUVH\ 7UDQVDFWLRQ
%RRNV
________. On the nature of capital. Quarterly Journal of Economics, v. 22, n.
4, 1908.
________. The instinct of workmanship and the state of the industrial arts1HZ
<RUN7KH0DF0LOODQ&R
________ (1915). Imperial Germany and the industrial revolution. Kitchener:
%DWRFKH%RRNV
BBBBBBBB7KH SODFH RI VFLHQFH LQ PRGHUQ FLYLOL]DWLRQ DQG RWKHU HVVD\V 1HZ
<RUN%:+XHEVFK
________ (1919). The Vested interests and the common man. London: FB & c
Ltd., 2014.
BBBBBBBB  7KHHQJLQHHUVDQGWKHSULFHV\VWHP2QWDULR%DWRFKH%RRNV
2001.
VISENTINI, Paulo F.; PEREIRA, Analúcia D. História Mundial Contemporânea
(1776-1991): da independência dos Estados Unidos ao colapso da União
Soviética. Brasília: FUNAG, 2010.

Leituras de Economia Política, Campinas, (23), p. 57-87, jul./dez. 2015. 87