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Título do original: “Legion”
Edição integral
Copyright © 1983 William Peter Blatty

Criação ePub: Relíquia
Capa: Relíquia
Tradução: A. B. Pinheiro de Lemos
Digitalização: LAVRo

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SUMÁRIO PARTE UM CAPÍTULO 1 CAPÍTULO 2 CAPÍTULO 3 CAPÍTULO 4 CAPÍTULO 5 CAPÍTULO 6 CAPÍTULO 7 CAPÍTULO 8 PARTE DOIS CAPÍTULO 9 CAPÍTULO 10 CAPÍTULO 11 CAPÍTULO 12 CAPÍTULO 13 CAPÍTULO 14 CAPÍTULO 15 CAPÍTULO 16 EPÍLOGO O AUTOR E SUA OBRA .

Para Billy e Jennifer .

Meus agradecimentos a meu bom amigo Jack Vizzard por primeiro sugerir a teoria do Anjo. e à adorável Julie Jourdan.. . sem cujo estímulo e apoio este romance não poderia ler sido escrito.

" Marcos 5: 9 . porque somos muitos’."Jesus perguntou ao homem o seu nome e ele respondeu: 'Legião.

PARTE UM .

como pano sacudido. . sim. as coisas salpicadas pelos raios do sol. blocos de desenho e riscos de giz. e suas mãos se enfiaram mais fundo no bolso do capote. — Acho que o encontraram. tenente. O helicóptero de busca sobrevoava ruidosamente as águas escuras. nas margens do rio gelado. com o rosto franzido num ar de concentração. verde. E depois baixou os olhos para o horror a seus pés. e eles se moviam sem fazer barulho. naquela casa de barcos. depois estremeceu. Abruptamente. a prova estava ali. com suas luzes piscando suavemente. Um signo do Zodíaco. — É mesmo? — É. em astecas arrancando corações pulsantes. Alguma coisa saíra errada entre o homem e seu criador.. — Martelo? Ah. Somente a respiração tinha vida. — Como? — O martelo. no final do terror da manhã — Acho que estamos quase acabando aqui. Saía gelada e depois se dissipava no ar inerte. Eles o encontraram. Creio que Gêmeos. por causa do frio. sim. espalhando-se pelo Potomac com uma claridade alaranjada. vermelho. em câncer e crianças de três anos enterradas vivas. ele se levantou e virou-se para Kinderman: — Lembra-se daqueles talhos na mão esquerda da vítima? — O que há com eles? — Acho que formam um desenho.. Olhou para o sol que subia por trás do Capitólio. Stedman olhava fixamente para a lona. Ali perto. os motores da draga cinzenta da polícia resfolegavam. Especulou se Deus não seria alheio e cruel. registrando tudo com câmeras fotográficas. lamacentas. a bondade. a cotovia. Os gritos da mulher haviam se tornado ainda mais penetrantes. O detetive ficou observando. Diminuía ao amanhecer como uma esperança a se desvanecer. 13 DE MARÇO Ele pensou na morte em seus infinitos gemidos. — É mesmo? Kinderman estreitou os olhos. Ele escutou. Olhou e viu Stedman. Os pensamentos de Kinderman voltaram à realidade Ele levantou os olhos e viu a turma do laboratório no atracadouro. tenente. o patologista da policia. abaixado sobre um joelho. Suas vozes eram abafadas. ao lado da lona grossa com que acabara de cobrir alguma coisa no atracadouro. meros fragmentos sussurrados. Estavam procurando pistas com conta-gotas. inclinando um pouco a cabeça. tubos de ensaio e pinças. enquanto o aparelho ia se tornando cada vez menor. como vultos num sonho. Seu corpo estava imóvel. mas depois lembrou-se de Beethoven. silenciosas. Rasgavam o seu coração e se espalhavam pelas árvores retorcidas. — Deus! Ouviu um barulho adejante. CAPÍTULO 1 DOMINGO.

” O homem não era apenas uma cadeia de nervos. “Em parte. — Antinatural. como aquele que sou também estará”.” O patologista acompanhou o olhar de Kinderman. Amém. contudo. tentou as evasivas . tamanha mixórdia do Criador. O coração de Kinderman parou por um instante Ele respirou fundo. embora os átomos de seu corpo estivessem continuamente mudando. Elétrons viajavam de um ponto para outro sem jamais atravessar o espaço intermediário. — Um dia estranho para se morrer — murmurou o patologista. pensou ele. qual era o valor do trabalho? Qual era o sentido da evolução? — Ele está morto num aspecto — murmurou Kinderman. Evitava-se virar comida e sempre havia uma possibilidade de se morrer num desmoronamento. Não vira tudo? “E agora isto. apenas pela diversão. apenas pela emoção. com estrelas explodindo e mandíbulas ensanguentadas. Kinderman baixou os olhos para a lona. acuando a razão num labirinto sem saída e deixando Kinderman convencido de que o universo materialista era a maior superstição de seu tempo. mas não no impossível: não numa regressão infinita em acasos. — Nenhuma morte é natural. que o homem se sentia obrigado a tentar distinguir o certo do errado. num terremoto ou na cama. — Há uns dez ou doze anos. A respiração de Kinderman revelava os sinais de enfisema. decapitado ou estrangulado. com manchas vermelhas do ar gelado. tenente? — Nada. Deus tinha os seus mistérios. não pode ser”. um pensamento em busca de seu criador. E depois olhou para o rio. Certo. Reapareceu um instante depois e logo voltou a sumir sob a Key Bridge. Esquecera-o. “Não é possível.” Por um momento. Javé: "Eu estarei lá. Era razoável. Uma turma de remadores da Universidade de Georgetown deslizou silenciosamente para além da popa volumosa da draga. Após quarenta e três anos na polícia. Lamentava não estar usando o cachecol naquele dia. O homem tinha uma alma. Alguém criara o mundo. puxou ainda mais as dobras do capote. todas as manhãs ainda era o mesmo ao despertar? Sem uma vida posterior. pois se vestira com muita pressa. — O que foi que disse. o vapor branco sibilava em seus lábios. Sua mão. de ser esfolado vivo. Pois um olho haveria de querer se formar para quê? Para ver? E por que deveria ver? A fim de sobreviver? E por que deveria sobreviver? E por quê? E por quê? A indagação inútil assombrava as nebulosas. já vira acontecer. Uma luz estroboscópica faiscava. pois a lei da vida era a lei de se alimentar num universo apinhado de um extremo a outro. a se sentir indignado com tudo o que era monstruoso e diabólico. Mas era tudo muito confuso. o próprio esquema da criação era afrontoso. Ele acreditava em milagres. ou que o amor e os atos da vontade pudessem ser reduzidos a neurônios disparando no cérebro. “Não. pensou Kinderman. Pois como podia a matéria refletir sobre si mesma? E como Carl Jung vira um fantasma em sua cama? E como a confissão de um pecado podia curar uma doença física? E como. de se tomar um xarope de veneno de rato dado pela mãe ou ser frito em óleo por Gêngis Khan. — E temos certeza de que ele está morto? — Está sim “Num certo sentido”. — Há quanto tempo Gêmeos está morto? — perguntou Stedman.

Depois disso. bem larga. a não ser em sua própria cabeça. o primeiro chimpanzé não torna a puxar a alavanca. Tentam se ajudar mutuamente. ‘‘Que mão ou olho imortal?” Kinderman franziu o rosto à recordação da enfermaria de psicóticos infantis de um hospital. Nem em seu corpo: os dedos curtos e grossos estavam impecavelmente cuidados. e o resultado sempre foi o mesmo. e o filhote. um menino de oito anos cujos ossos não haviam crescido desde que era bebê. de bainha. mas o chimpanzé vê seu companheiro na jaula gritando. Não havia nada de excepcional por aí. Mas desta vez foi impossível. mas punha seus ovos em ninhos alheios. imediatamente matava os irmãos adotivos. os olhos castanhos e úmidos. ou que o mundo da realidade exterior não existia em parte alguma. Seus olhos perceberam uma mancha de ovo aqui e ali. não era aquilo. o chapéu mole de feltro. e sai da máquina uma linda banana. Como sempre. por mais faminto que esteja. Experimentaram com cinquenta ou cem chimpanzés. um aprendiz de Dillinger. sua atitude e os movimentos delicados sugeriam um vienense dos velhos tempos. ainda pareciam contemplar tempos passados. Já ouvira falar daqueles devaneios. os outros levam seus ossos para o cemitério dos elefantes. com uma pena arrancada de algum pássaro pintado e reles. Eles estão morrendo de stress por causa da comida e do suprimento de água. de um choque elétrico. o passarinho de papo preto que levava mel chilreava alegremente. Até aí. algum sádico. A glória e a beleza da criação podiam justificar a angústia de uma criança assim? Ivan Karamázov merecia uma resposta.familiares: imaginar que o universo e tudo o que nele havia não passavam de pensamentos na mente do Criador. e se aconchegou ainda mais no capote. meio puído. nos gramados. procurando o seu banquete. muito grande. que puxou a alavanca. a calça amarrotada. estava ficando senil. Se um deles morre muito longe. Kinderman estudou o volume que estava sob a lona. Eram cinquenta leitos com grades. Stedman observou-o com um interesse profissional. O horror era o mal na estrutura da criação. e assim nada fora dele sofria de verdade. sempre que vê outro chimpanzé na jaula. Não. mas o leão rasgava a barriga do antílope e o minúsculo ichneumonídeo se alimentava dos corpos vivos das lagartas. Está certo. Entre elas. descaídos nos cantos. O patologista piscou os olhos. Algumas vezes isso funcionava. Mas aquele era o primeiro exemplo que ele testemunhava pessoalmente. mas nada percebeu de anormal na maneira de vestir do detetive: o capote de tweed. Pela delegacia circulavam intensos rumores de que Kinderman. tudo bem. As canções das baleias eram obsessivas e maravilhosas. não é mesmo? Mas agora os nossos bons doutores fazem uma jaula e colocam outro chimpanzé lá dentro. — Os elefantes estão morrendo das coronárias. que ultimamente vinham ocorrendo com uma frequência cada vez maior. pensou Stedman. com uma bicada certeira. as bochechas caídas brilhavam de tão ensaboadas. Mas sabia que esse sempre fora o estilo de Kinderman. Stedman. Mas isso não aconteceu em . sob os lindos lilases. aturdido. não era o mal que escolhemos ou infligimos. cada um contendo uma criança a berrar estridentemente. — Como? — Na selva. "O homem é uma loja ambulante de roupas de segunda mão”. — O chimpanzé puxa uma alavanca. O primeiro se aproxima. — E na Universidade de Princeton estão fazendo experiências com chimpanzés — continuou Kinderman. perpetuamente empenhado em cuidar de flores. Puxa a alavanca e a banana aparece. pensou ele. quando rompia a casca. excêntrico ou não. os comentários irrelevantes. pode ter havido algum marginal.

— Ponto um. O amor de Deus ardia com um calor escuro e intenso. de onde isso vinha? "E quando a minha Julie tinha três anos sempre dava para outra criança qualquer bala ou brinquedo que ganhava. No silêncio. um set de poder espantoso. . "porra". E era assim que se sentia agora em relação ao problema do mal. não podemos continuar a nos encontrar assim. — Eu não sabia disso. “Qual foi o chimpanzé que já enganou uma compradora para levar toda a sua linha de primavera de negligés? Isso é absurdo. mas limitado? O detetive imaginou um deus assim no tribunal. “Não vim a este mundo para vender de porta em porta a máxima de Guilherme de Occam”. Haveria sombras na natureza de Deus? Será que Ele era brilhante e sensível. mas retorcido? Depois que tudo fosse dito e feito.E. como fizera em tantos casos de homicídio. “Mas como isso é possível?”. descobertos na França. declarando: “Culpado com uma explicação.noventa por cento dos casos. ele podia ouvir o rio se esbatendo no atracadouro. indagou o detetive. Quem já ouviu falar de um caso assim?” E ai estava o paradoxo. era a pressão e injustiça do mundo da experiência e um saco de balas abaixo do peso indicado. pensou Kinderman. que a tribo os mantivera vivos. As crianças entravam no mundo sem bagagem. Algo estava diferente. "E pense nas crianças". Deus lhe daria uma porrada tão violenta na cabeça que ele passaria a eternidade explicando ao sol como conhecera Arnold Schwarzenegger e lhe apertara a mão. nunca experimentei. e constatou-se que haviam vivido por dois anos com lesões graves que os incapacitavam. mas não irradiava qualquer luz. certamente a mais simples que abrangia todos os fatos. Os motores da draga haviam parado. É estupidez. Alguma coisa sussurrava em sua alma que a verdade era espantosa e estava de alguma forma ligada ao pecado original. Sabia que não havia nada mais intenso que o senso de justiça de uma criança. "bosta". O mal físico e o bem moral se entrelaçavam como os fios da voluta encravados no código de ADN do cosmo. um ferimento sangrando na mente que nunca sarava. Tinha um lema: “Meu pressentimento. Virou-se e enfrentou o olhar paciente de Stedman. O detetive levantou os olhos. exceto a própria inocência.” Mais tarde. A bondade delas era inata. Haveria um corruptor à solta no universo? Um Satã? "Não. dissera muitas vezes a seus aturdidos companheiros. Dois esqueletos de Neanderthal.” Satã deixava o paradoxo intacto. a resposta para o mistério seria que Deus era realmente Leopold e Loeb? Ou seria possível que Ele estivesse mais próximo de ser um putz (expressão norte-americana que significa. Kinderman deslocou um pouco o peso do corpo. Era racional e óbvia. pensou ele. A teoria tinha seus atrativos. N.) do que qualquer pessoa já imaginara até aquele momento. E também os gritos estridentes da mulher. Meritíssimo”. Mas Kinderman rejeitava-a sumariamente. minha opinião”. preferindo subordinar a lógica à sua intuição. Não era o poder que corrompia. já tentou encostar o dedo numa frigideira em brasa e mantê-lo assim? — Não. foram meticulosamente examinados. de como as coisas deveriam ser. aproximadamente. do que era certo. Não era adquirida e não era um interesse consciente. Era evidente. ela aprendera a guardar tudo para si mesma. mas apenas por analogia e vagamente. Ponto dois. e em certa ocasião até mesmo a um computador. refletiu. Totalmente. Kinderman continuou a olhar para a lona.

ruminou Kinderman.” — Mais alguma coisa. assistente de Kinderman. — Pois eu já tentei. Mesaque e Abedenego ‘Então o rei. O anotador-chefe entregou uma prancheta a Stedman. A dor tinha os seus proveitos. O comportamento deles era descontraído. enquanto se mantinha a pele da cabeça repuxada. Estudou as folhas que estavam na prancheta. O patologista acenou com a cabeça e a turma se afastou. Sentada perto dele estava a mãe soluçante. Um dos homens soltou uma risada. O olhar de Kinderman tornou a se deslocar para o patologista. E depois ordenou que o homem. pensou Kinderman. mais nada. sombriamente. o White Tower. o homem das provas. onde se encontrou com a turma do laboratório de policia. Stedman entregou-lhe a prancheta. Como? "O Grande Fantasma no Céu ainda não nos revelou”. Mas ponha o dedo numa frigideira em brasa e saberá. “Três ovos mexidos. Isso mesmo. e ele ficou olhando o patologista sombriamente. Lê-se nos jornais que alguém morreu num incêndio de hotel. pensou Kinderman. estando furioso. Com bastante bacon. Kinderman se perguntou o que teriam dito. tentando confortá-la. Eles viraram uma esquina e desapareceram. "Pensa que estou louco. Jovem e frágil. está bem? E esquente o pão. Ficava aberto a noite inteira. Kinderman observou-o a se encaminhar para a casa de barcos. na M Street. Tome um café. encobrindo os cabelos muito curtos. Atkins assentiu. fosse levado para o fogo e fritado na frigideira.” — Não. continuava secreto”. ele usava um casaco azul de lã por cima do paletó do terno marrom de flanela. “O código secreto de Annie. sem dizer nada. de Georgetown. ordenou que frigideiras e caldeirões fossem esquentados. Estavam com pressa. e ordenou que se cortasse a língua do primeiro que falara e que se cortassem também suas mãos e seus pés. tenente? “Sim Sadaque. — Já podemos levar o corpo? — Ainda não.” O calor tinha suas vantagens. acompanhada por uma enfermeira. não se pode imaginar.” Mas nunca se sabe realmente o que isso significa. olhando para a mãe. O sargento Atkins. a Órfã. provavelmente a caminho do desjejum. vá embora. Kinderman observou a expressão dele com interesse. o desenhista. calçadas com pedras. É impossível. “Trinta e dois mortos no incêndio do Mayflower. "As cabeças vão rolar”. Não se pode avaliar. que passava um braço por seus ombros. afastou-se alguns passos e sentou-se no banco diante da casa de barcos. Um gorro preto de lã estava enterrado em sua cabeça até as orelhas. Dali a pouco estariam gracejando e se queixando das esposas nas ruas vazias. ainda vivo. pensou em Macbeth e no gradativo embotamento do senso moral. Uma gargalhada ressoou. Louise. Seus passos soaram alto no cascalho do caminho e os levaram rapidamente além da ambulância e dos serventes à espera. Stedman agora estava sozinho e ficou parado. As pálpebras de Kinderman descaíram. . “Olhe só para ele”. Suma daqui. Kinderman consultou seu relógio e acenou também com a cabeça. “Então você sente alguma coisa. Alguém mais estava falando com ele agora. talvez no aconchego do White Tower. mas o cérebro podia suspendê-la a qualquer momento. É impossível conversar sobre coisas assim. o medidor e o anotador- chefe. Stedman acenou com a cabeça. — Stedman. por favor. Dói demais.

lançando olhares desolados para o casaco e o gorro. Isso é ótimo. — E há mais isto. Se a morte fosse como a chuva. quando a filha de Kinderman sofrera aquele acidente de automóvel quase fatal. Kinderman pegou-o delicadamente pela parte de cima. Atkins. — O que havia para fazer agora. Os olhos de Atkins eram pequenos. da cor do jade. comece a falar. — Também estou aqui. Ele era leal como um cachorro. Somos parte do mistério. — Sou eu. afora isso? Chorar? — Estou atento.. — O que é isto? — Um prendedor de cabelos de mulher.. — Uma pena. Kinderman. eram um pouco virados para dentro e proporcionavam a Atkins uma perpétua expressão meditativa. é todo ouvidos. esperançoso. que ele escondia não por dissimulação. de plástico. Por toda parte dos remos. pensou ele. Eram úteis. Lá dentro havia alguma coisa rosada. — Algumas pontas de cigarro — acrescentou Atkins. por que nos sentiríamos assim.Alan”. franzindo o rosto enquanto o levantava na altura dos olhos. Kinderman virou-se. ele já arrancara de cima de Kinderman um gigante drogado que empunhava uma faca. Impressões digitais? — Muitas. Inteligência e determinação fervilhavam em Atkins. Faziam Kinderman se lembrar de um monge. “todos esses anos de mutilações e mortes violentas. Os exames talvez revelassem o tipo sanguíneo. Dê as boas notícias de Ghent. seu anacronismo ambulante.” . antes de fitá-lo nos olhos. Mas estúpido era uma coisa que Atkins não era. E. Virgínia. na opinião de Kinderman. do tipo que se vê nos filmes. O cansaço se espalhava pelos ossos de suas pernas e se prolongava pela terra abaixo. Kinderman o adorava. Tirara férias para fazê-lo. — O que é? Era Atkins. Vamos. Podia ajudar a identificar o assassino. O mesmo acontece comigo. Kinderman estreitou os olhos. — Há alguma coisa gravada. — Alguns cabelos no corpo. ele escondia algo por trás daquela máscara impassível. senhor. Atkins estendeu um envelope de celofane. algo maravilhoso e exuberante. Por quê?” Kinderman ansiava por estar em casa. — Tenente. de rosto impassível e estúpido. Martin Luther. — Sei que é você. Com trinta e dois anos. "Great Falls. e estou escutando. absolutamente natural. Alan? Você e eu em particular. Posso ver. o sábio judeu. Embora franzino de corpo. e ainda há alguma coisa que sente dentro de você. e o tenente sabia disso muito bem. Atkins passara doze dias e noites na sala de visitas da enfermaria do hospital. tenente. aproximando o envelope. Mas estão manchadas demais. veterano naval do Vietnam. Kinderman fingiu contemplá-lo com aversão. egresso da Universidade Católica. — Isso mesmo. — Isso é muito bom. em sua cama. mas por uma nobreza da alma.

3618. Atkins deu de ombros e guardou-o no outro bolso do casaco. filho de Lois Annabel Kintry. comecei a fazer o café. preparo as iscas e faço o café. Já há fregueses por volta das seis horas. Kinderman baixou o envelope e olhou para Atkins. Ela tinha dois. .. que alugava material de pesca. não pode continuar. Depois saí para contar os barcos Às vezes desaparecem. por Joseph Mannix. Mas hoje não havia ninguém à espera. caiaques. Comprei dois.. guardando o envelope no bolso do casaco. oh. — É de uma criança. em Georgetown. Atkins. já entendi. viúva.C. Eles cortam a corrente com um alicate. domingo. É quando geralmente abro a casa. Atkins ainda hesitou. vi. Minha filha tinha um prendedor assim. Olhou para a casa de barcos. Meu nome é Joseph Francis Mannix e moro na Prospect Street. O depoimento de Mannix fora breve: “DEPOIMENTO DE JOSEPH MANNIX” Meu nome é Joe Mannix e. trinta e oito anos. Washington.. ao chegar para abrir o estabelecimento.) Cheguei. Está frio. Às vezes eles já estão esperando quando chego aqui. Depois me virei para tornar a entrar. . Ponha-o de novo. ponha-o logo. Sou proprietário e gerente da Casa de Barcos Potomac.. abri a porta. professora de línguas da Universidade de Georgetown. Estremeceu. Atkins. suavemente. — Temos aquela mulher ali — repetiu ele. Deveria entregar o jornal da casa de barcos por volta das cinco horas daquela manha. Esse cabelo rente é ainda pior. canoas e botes. Pare de bombardear Halphong. — Estou bem. o agente encarregado da investigação adia o interrogatório. Isso já acabou. entrei.. — Temos aquela mulher ali. como? (Interrupção do agente encarregado da investigação.)’’ A vítima era Thomas Joshua Kintry. Chego aqui todos os dias por volta das cinco e mera da manhã. Atkins tornou a ajeitar o gorro na cabeça. Obediente. não. o gerente. vi o carrinho do garoto e a pilha de jornais. Thomas Kintry era entregador do Washington Post. Hoje não faltava nenhum. Lembro nitidamente. meu Deus! (Interrupção: testemunha se controla. (A testemunha gesticula na direção do corpo da vítima. — Pois eu não estou. Peguei o jornal na frente da porta e. suspirando. — Ponha-o de novo — disse Kinderman. tenente. O corpo fora descoberto no atracadouro da casa de barcos naquela manhã. claro. D. — Devolveu o envelope a Atkins. — poderia fazer o favor de tirar esse gorro ridículo? Não estamos representando Dick Power em Ai vem a marinha. e vi. O telefonema de Mannix para a delegacia ocorrera às . Por isso é que os conto. Atkins deu de ombros. Isso foi há muitos anos... — Temos quem? — A velha. Comprei-o para ela.) Claro. mas Kinderman acrescentou: — Vamos. 13 de março.. um garoto negro de doze anos. — Vendem essas coisas nas barracas de souvenirs de Great Falls.

Não esqueci. Mas não podia ou não queria responder às perguntas. Kintry hoje. Dê-lhe sopa… uma sopa quente. Já se encontrara com o menino. — Ela está na casa de barcos. Não havia casas nas proximidades. por baixo de um chambre azul de lã. Ela fora encontrada a cerca de cinquenta metros da casa. forradas de lã. durante o dia inteiro. E cavilhas de carpinteiro idênticas tinham sido . O que não aconteceu. Lois Kintry adotara-o quando ele tinha três anos.. apaticamente. E agora encerrada. — Atkins. A temperatura era congelante. tenente. — Providencie para que ela fique bem agasalhada. E então Kinderman se agachou. — Já acabou com o corpo. E depois levantou a lona e deixou que seu olhar percorresse os braços. outrora transportavam passageiros de um lado para outro. puxadas por cavalos. por uma extensão de oitenta quilômetros. pregado pelos pulsos e pés às extremidades planas de remos de caiaque. Kintry para casa. — Thomas Kintry. — Já sei. Kinderman virou a cabeça e fixou Atkins com um olhar penetrante. Ele sacudiu a cabeça. dispostos na forma de uma cruz. E leve a enfermeira também. dando a impressão de que estava senil. Talvez na casa dos setenta anos. como se estivesse perdida. mas Kinderman não o deixou. Mas Kinderman o reconhecera prontamente.cinco e trinta e oito. Ninguém sabia o que ela estava fazendo ali. suas sobrancelhas se uniram numa expressão de perplexidade. olhando ao redor.. Ela usava um pijama estampado. como as de um pardal”. tenente? Kínderrnan baixou os olhos para a lona ensanguentada. e ele desviou os olhos para o rio. Mannix o teria reconhecido. — A velha. Atkins fez menção de falar. O menino fora crucificado. atordoada ou catatônica.. junto com o endereço e o telefone. — Ela está bem aquecida? — perguntou ele. o peito. Stedman voltou. Falarei com ela. com lágrimas nos olhos. Uma vida nova. apoiando-se num joelho. — Ela deve comer. gramada. Entregava o jornal naquela área havia apenas treze dias. as pernas. em seu trabalho no clube da polícia. já sei. perdoe-me — murmurou ele. de algodão. de um canal agora seco. — Ela tomou um caldo de carne. A velha. Depois. Leve-a logo para casa. com o esforço. Era muito usado agora pelas pessoas que gostavam de correr. de pé na margem sul. Se estivesse há mais tempo. suavemente. contanto que esteja bem quente. enlaçando o corpo com os braços. A identificação da vítima fora imediata.. ''São muito finas. pois tinha o nome bordado no blusão verde quadriculado. — Caldo de carne é muito bom. chinelas rosa. Pagarei pessoalmente o tempo extra. O menino era órfão e já tivera pelagra. um caminho fora de uso pelo qual as barcaças de madeira. desorientada e assustada. Atkins se afastou para cumprir a ordem de Kinderman. — repetiu Kinderman. — Temos um cobertor em torno dela e a lareira está acesa. — Será que Thomas Kintry já acabou? Os soluços tornaram a envolvê-lo. resfolegando e gemendo um pouco. leve a sra. a mulher estava tremendo. Mande-a ficar com a sra. Thomas Kintry era mudo. pensou Kinderman.

Kintry olhou para a lona. — Muito bem. Leve o corpo e suma da minha vista. forrado de pele. — Entregue a Delyra — disse Kinderman ao sargento. meio rasgado. Repôs a lona no lugar e levantou-se. Ficou olhando para baixo. Kinderman esperou um pouco e depois indagou: — Elas já foram? — Já. — Acha que isto pode ter sido usado? Stedman assentiu. com a respiração ofegante. o sargento abriu o pano e mostrou o que parecia ser um socador de carne que se usava em qualquer cozinha. o signo de Gêmeos. Kinderman examinou os talhos da palma da mão esquerda de Thomas Kintry.. por favor? Ela estava sentada num sofá amarelo.marteladas no alto do crânio. — É um tipo usado em restaurantes — comentou Stedman. a sra. A lenha ardia e crepitava numa imensa lareira. — Espere um pouco! — chamou-o Kinderman. com o chapéu à sua frente. seguro pela aba. Stedman assentiu. a fim de chamar a turma da ambulância. — Vou entrar para falar com a velha. penetrando a dura-máter e finalmente o cérebro. Só que menor. Era verdade. Stedman. com uma policial ao seu lado. Ele olhou para a outra mão e constatou que faltava o indicador. Aguarde um minuto. com o olhar vazio fixado em alguma coisa interior. cinzentas. pulou para o cais e aproximou-se. — Muito bem. Havia imensas conchas nas paredes. Você cheira a formol e morte. no que deveria ter sido o grito silencioso de dor e terror insuportáveis do menino mudo. O sangue escorrera em filetes sinuosos sobre os olhos ainda arregalados de pavor. Mesmo que fosse Deus. Kinderman olhou para ele. Thomas Kintry”. pode ir passear. Fora cortado. Kintry acenou com a cabeça. formavam um desenho. Sem dizer nada. de pedras grandes. sim — respondeu Stedman. entrando pela boca escancarada. arredondadas. O detetive sentiu um calafrio percorrer-lhe o corpo. e as duas mulheres se levantaram Kinderman teve de desviar os olhos por um momento. — Estão entrando no carro. Kinderman observou atentamente por um momento e depois disse: — Minha mulher tem uma coisa assim. Para o seu filho. Vi muitos assim no exército. num círculo. Kintry. vamos ver o que há aí — disse Kinderman. — Pode nos dizer seu nome. usando um blusão preto de couro. . Kinderman adiantou-se e murmurou suavemente: — Espere até a mãe ter ido embora. O interior da casa de barcos estava quente. Uma pausa. O sargento acompanhou o olhar de Kinderman. — Ou em cozinhas grandes de instituições. Atkins estava falando com a enfermeira e a sra. sargento. A draga estava atracada. Kinderman postou-se diante dela resfolegando. A sra. diante da lareira. Stedman virou-se. Stedman começou a se afastar. A velha não parecia vê-lo nem ouvi-lo. Para o schnitzel. Tomou cuidado para não tocá-lo com as mãos. Agora não. E pensou: "Descobrirei seu assassino.. Trazia alguma coisa embrulhada em pano e já estava prestes a falar quando Kinderman o conteve: — Espere mais um pouco. Um sargento da polícia.

excitamento e contrariedade. rasgadas e sem capa. Iluminaram suavemente o rosto e os olhos da velha. — A policial assentiu. em cima da mesa. perto da Foxhall Road.Os olhos do detetive se contraíram de perplexidade. — Ela estava usando isto? — Estava. à beira do canal seco. Os olhos de Kinderman lançaram uma indagação silenciosa para a policial. Kinderman tornou a olhar para a mulher. senhora? Não houve resposta. o que estava fazendo mais acima. — Poderia nos dizer seu nome. Ele pegou e leu o que estava gravado. Kinderman inclinou-se um pouco para a frente.” Uma suspeita mais terrível ocorreu-lhe em seguida: a mulher poderia ter testemunhado o assassinato e talvez isso a tivesse desequilibrado e traumatizado. No silêncio. — Não consegui encontrar o outro — explicou a policial. Deu várias instruções. “Um cachorro? Isso mesmo. Lá fora. por favor. perto do seu chapéu. e ainda . Tinha a impressão de discernir um desenho nos movimentos: com as pernas comprimidas. algo pequeno e rosa. Isso explicaria por que estava chorando. Ela estava fazendo movimentos estranhos. onde encerrava a sequência com diversos puxões. Ele sentou-se numa cadeira diante da velha e gentilmente pôs o chapéu em cima de uma pilha de revistas velhas. uma nuvem afastou-se da frente do sol e os raios débeis de inverno entraram como uma graça inesperada por uma janela próxima. E quando escovei seus cabelos. onde morava há apenas seis anos. minha cara? Não houve resposta. ritmados. fazia um movimento pequeno e esquisito. com as mãos e os braços. — E por isso não usei esse quando lhe escovei os cabelos. e depois erguia a mão acima da cabeça. O detetive experimentou uma emoção de descoberta e espanto. Ele continuou a observar por mais algum tempo e depois levantou-se. — Está bem. ela continuou os seus misteriosos movimentos. Talvez o cachorro tenha fugido e ela não conseguiu encontrá-lo. pelo menos temporariamente. Kinderman virou-se e deixou a casa de barcos. Estava faltando o n de Virgínia. A velha era possivelmente uma testemunha do crime. — Poderia nos dizer seu nome. onde fora encontrada? Ocorreu-lhe imediatamente que talvez a velha estivesse meio senil e houvesse saído de casa para passear com um cachorro. pequenos e bruscos. Virgínia”. emprestando-lhes uma expressão de terna devoção. e isso foi um ato de caridade. — Leve-a para a enfermaria policial. o chapéu cobriu um anúncio de uísque. que imediatamente assentiu e disse baixinho: — Ela tem se mantido assim o tempo todo. e Kinderman acrescentou: — Você escovou os cabelos dela. desligou a mente e foi para a pequena e aconchegante casa em estilo Tudor. em letras pequenas: “Great Falls. abandonadas numa mesinha de madeira entre os dois. Kinderman experimentou uma mistura de compaixão. Fique com ela. por falar nisso. E depois sua atenção foi atraída por uma coisa que não percebera antes. a velha levantava as mãos alternadamente até a coxa. Jourdan. a não ser quando lhe demos algo para comer. Precisavam dar um jeito de fazê-la falar. Mas o que estaria fazendo ali àquela hora? E com aquele frio? E. até descobrirmos quem é ela. Rompera o hábito de morar em apartamento para agradar à esposa.

O que seria? “Nada. Achei que seria melhor se partíssemos bem cedo. salmão defumado e picles. Eu" Um sorriso afetuoso iluminou os olhos dele. em voz alta. Kinderman levantou os olhos para o relógio da parede. é estranho. sua sogra? A cozinha era em estilo colonial. por favor. Preparei o de sempre para você e guardei na geladeira. em voz alta. Viu um bilhete em cima da mesa. Mas logo o passarinho se calou e o único som era do relógio de pêndulo na parede.” — E por William F. estou em casa. Viu o Washington Post de domingo na cadeira à esquerda. serviu-se de café e sentou se à mesa com tudo. e pendurou-os num cabide no pequeno vestíbulo. Trancou o coldre e o revólver na gaveta de uma arca pequena e escura. Cortou e esquentou dois pães. Não podia fazer mal. Sou eu.chamava a área um pouco rústica de “campo”. Mas onde estava Mary? E Shirley.” — Eu também — murmurou o detetive. Teria parado? Não. violenta e misteriosa. . Julie. Largou o bilhete em cima da mesa. Ficou sentado tomando o café. seu herói. inspetor Clouseau. e depois adiantou-se pesadamente até a mesa. Está doente. — Que judeu saberia distinguir bordo de queijo? Não saberiam. um passarinho estava cantando. Verificou a hora: oito e quarenta e dois.” Tomou um gole do café. Olhou para o prato de comida à sua frente Seu estômago estava vazio. “Isso mesmo. que uma morte como a de Kintry devesse ocorrer justamente naquele dia. em voz alta. Tirou o chapéu e o casaco. Estava funcionando. precisa de ajuda. sua filha de vinte e dois anos. Kinderman lançou um olhar sombrio para as panelas e diversos utensílios que estavam pendurados em ganchos na coifa do fogão. Pegou-o e leu: “Billy querido Não fique zangado. pensou. Lá fora. tomates. mas ele não podia comer. Todos os goyim estariam indo para a igreja. encontrou o creme de queijo. Sentia alguma estranheza na cozinha. tentando imaginá-los na cozinha de alguém no gueto de Varsóvia. “Digam uma prece por Thomas Kintry. Remexeu-se na cadeira. Levantou os olhos. certamente estava dormindo. o décimo segundo aniversário de uma morte igualmente chocante. Está planejando ficar em casa esta noite ou vai sair para patinar no gelo do Potomac com Omar Sharif e Catherine Deneuve? Beijos. mas quando o telefone nos acordou mamãe insistiu em que deveríamos fazer uma visita a Richmond. É impossível. — Mary? Não houve resposta. Perdera o apetite. Entrou na casa e gritou: — Benzinho. Sentiu o cheiro de café fresco e foi até a cozinha. Mas quem está em Richmond? Divertiu-se no Encontro de Grupo Policial? Mal posso esperar o momento de chegar em casa e ouvir as novidades. num prato na geladeira. Ela disse que os judeus devem se manter unidos no sul. Era uma coincidência macabra. Kinderman — acrescentou ele. — Bordo — murmurou ele. E mais outra prece. “Com este tempo? Ele deve ser mandado para um hospício. pois tinha o hábito de conversar consigo mesmo quando estava sozinho.

“Isso mesmo. saiu. Observou as pessoas no atracadouro. mais especialmente alguém que já sabia o que acontecera. o deus e olhou consternado para o casaco. Estava trancada e um cartaz anunciava FECHADO. Kinderman sabia disso pessoalmente. formulando a mesma pergunta para algum recém-chegado. perseguir. aturdido e indeciso. Kinderman foi até a porta da casa. Trancou o carro. Recostou-se na parede da casa de barcos. definir as pistas que nem sabia ter visto. ‘‘Não é tão bom sem o gosto de picles antes. o garoto não tinha conhecidos ou hábitos condenáveis.’’ Pegou o açúcar-cande. Ficou ali até o meio-dia. perturbado. Ficou parado por algum tempo. com as palmas viradas para baixo. Olhou para o título.” Então por que seus cabelos estavam arrepiados? Levantou as mãos. Tinha de sair. Saltou do carro. Voltou a guardar o livro e prontamente tirou outro. pensativo. Lá fora. E. O vento soprou um copo de plástico pelo caminho e ele ficou escutando os pequenos impactos. pôs o chapéu e o casaco. Sem saber como chegara lá. A cena deixou-o angustiado. entrou e partiu. Atravessou um pequeno parque até uma ponte que cruzava o canal. Ele poderia estar naquele grupo no atracadouro. depois. “Gêmeos? Impossível. Guardou o prato dc comida na geladeira. perto do rio. Pensava em dormir um pouco. Pegou o revólver. Aqui e ali havia um Washington Post numa porta. Era Esperando Godot.Você está cansado. onde sempre havia um livro. O detetive tornou a sacudir a cabeça. embora ninguém parecesse saber o que acontecera exatamente. e desviou os olhos. Sentia que já espremera de Mannix o pouco que ele sabia e era melhor deixar em paz a mãe de Kintry naquele momento. sem observar nenhum suspeito. conversando. Ele olhou para o banco ao lado da porta e depois sentou-se. Abruptamente. Esse monstro está morto. saiu da cozinha e subiu para o segundo andar. agir. não poderia ser. Já o lera duas vezes e conhecia perfeitamente o perigo de tornar a se absorver em suas páginas.” Sacudiu a cabeça e levantou-se com um suspiro. pois procuravam um maníaco. Por volta das onze horas já não . lavou a xícara de café na pia. Mas parou no alto da escada e murmurou: — Gêmeos. com um tique nervoso ou uma expressão de drogado. Ouviu a água correndo no chuveiro de Julie. deixar o inconsciente trabalhar. desembrulhou e comeu. Virou-se e tornou a descer para o vestíbulo. Os curiosos já haviam aparecido e circulavam. talvez perguntando “O que aconteceu? Alguém foi assassinado?" Kinderman procurou alguém sorrindo fixamente demais. Tirou Cláudio. Kinderman encaminhou-se para o seu carro. Por que isso?” Ouviu Julie acordar e ir para o seu banheiro. Soltou um suspiro de alívio e abriu-o no ato dois. De qualquer forma. por seu contato regular com Thomas Kintry. O laboratório nada informaria até a noite. Seguiu por uma trilha até a casa de barcos. meus cabelos estão arrepiados. o copo ficou imóvel. Meteu a mão no bolso interno do casaco. indeciso. Sabia que os assassinos psicóticos frequentemente saboreavam a atenção que seus atos violentos despertavam. Mas o quê? Os caminhos habituais de investigação e dedução estavam eliminados. descobriu-se estacionado ilegalmente na 33rd Street. Deveria estar fazendo alguma coisa. com a respiração sibilante. parou com a mão na maçaneta. Queria fingir ser um velho que estava passando o domingo à beira do rio. mas continuava por ali. mas o romance de Robert Graves oferecia o perigo de absorvê-lo involuntariamente na leitura. talvez permitindo que o assassino escapasse à sua observação.

fixando os olhos no chapéu de Kinderman. Encaminhou-se para o sargento de plantão. O quê? Pensou por um momento. Olhou finalmente para o seu relógio e contemplou os barcos que estavam presos por correntes ao atracadouro. na esperança de que alguém aparecesse. abriu o carro. assoou o nariz. Estendera a mão para pegar o telefone quando Atkins entrou. — Nenhuma novidade — respondeu Kinderman. Kinderman ficou imóvel. Kinderman fitou-o enquanto ele fechava a porta. mas não conseguiu definir. — Alguma novidade sobre o garoto. tenente? — perguntou o sargento.’’ A assinatura era “Damien”. Achei que deveria voltar. — Sinto-me emocionado por estar vivo numa época e num lugar em que até uma garota cega pode trabalhar na polícia. — O que foi uma boa ideia. — Robin Tennes.. — Mandei você ficar com a sra. Atkins. Entrou finalmente em sua própria sala. entre as duas janelas. O carro era um Chevrolet Camaro sem identificação. Na parede do fundo. lendo a dedicatória: “Continue a vigiar esses dominicanos. Kintry. Guardou o Godot e foi embora. Kinderman entregou-lhe a multa e se afastou. Ele tirou um lenço. sem ter verificado a multa. presente de Thomas Kintry. assim como gente da escola. Tirou-a de baixo do limpador e fitou-a com uma expressão de incredulidade. — Tão cedo? Atkins foi se sentar na cadeira diante da mesa.. olhou para as fotos colocadas nos lados da caixa: sua mulher e sua filha. Uma parede estava ocupada por um mapa bastante detalhado da zona noroeste da cidade. virou um pouco a caixa e deparou com a fotografia de um padre de cabelos escuros. mas tinha as placas do Distrito Policial. Tirou o gorro. esquivando-se às perguntas dos curiosos. amassou o lenço de papel e jogou-o na cesta de lixo. Ele subiu e atravessou a sala dos detetives. — Absolutamente nada. — Ah. Abruptamente. um exemplar de bolso do Novo Testamento e uma caixa de plástico com lenços de papel. Ainda se assoando. — Quem estava distribuindo as multas por estacionamento proibido na 33rtl esta manhã. estava pendurado um pôster de Snoopy. Kinderman sentou-se à mesa. com o casaco abotoado. — Kinderman . — O irmão e a irmã dela apareceram. — Largou o telefone e cruzou as mãos à sua frente. como um buda vestido. Não tinha qualquer ideia definida do lugar para onde ir e terminou na delegacia de Georgetown. ainda de casaco e chapéu. da universidade. enquanto outra estava coberta por um quadro-negro. O olhar do detetive subiu para o sorriso no rosto rude e depois para a cicatriz acima do olho direito. sargento? O sargento levantou os olhos para ele. Ele amassou a multa e meteu-a no bolso. é você. Havia na mesa uma agenda. tenente.havia ninguém no atracadouro e o fluxo cessara. Descobriu uma multa por estacionamento em local proibido no para brisa de seu carro. Tenho muita coisa para você fazer. — Não se preocupe com a insolência — disse-lhe Kinderman. mas permanecera por mais uma hora. entrou e partiu. Alguma coisa o incomodava.

Atkins? Eu não sabia. Atkins virou-se para ele. madre Teresa. — Tudo continua frio. Confesso que estou impressionado. — Um trabalho heroico. — Mas Gêmeos está morto há doze anos! — Será mesmo. — Saúde. entre em contato com Francis Berry. enquanto Atkins tirava do bolso um caderninho de anotações de capa vermelha e uma caneta esferográfica. Por acaso está querendo dizer que todas aquelas manchetes nos jornais eram verdadeiras? E também os noticiários de rádio e televisão? É espantoso.esperou. — Pela vigésima vez. — Obrigado. Quero tudo o que ele tenha sobre o assassino Gêmeos. — O homem não ouve música. — Kinderman virou-se para Atkins. levantando a caneta para aumentar a ênfase. Todo o arquivo. Ryan piscou os olhos. — Então por que está desperdiçando o meu tempo? — Só queria saber se há alguma novidade. Na semana passada. pela décima nona vez. — Mishkin deixa recados com ameaça de morte. Saiba que está na presença da majestade. se algum dia voltar e descobrir que os moradores mudaram qualquer coisa. entrando na sala e fechando a porta. Ryan assumiu uma expressão irritada e saiu da sala. Mas também o sol só apareceu esta manhã. Não devemos encobrir os nossos astros. Tem mais alguma pergunta a fazer ao oráculo. aturdido. um autêntico gigante. Kinderman espirrou e pegou um lenço de papel. acrescentando: — Juro que desta vez nós o mandamos para o hospício. — Ele tenta. Entre logo de uma vez. impassível. Ele era o investigador-chefe do Esquadrão Gêmeos. Ryan? — Ainda não. Atkins. a história de Mishkin. — Vigésima — corrigiu-o Atkins. ele virou-se para Atkins. Ryan atendeu ao chamado de Kinderman. Gostaria de saber qual foi o ponto alto da carreira de Atkins conosco? Pois vou lhe dizer. A porta se entreabriu e a cabeça do chefe do laboratório apareceu. — E como a Homicídios entra nisso? — indagou Ryan. Atkins estava escrevendo. Ryan — disse Kinderman. — Ele engoliu. — Pare de bisbilhotar pelas portas. Ainda está na Delegacia de Homicídios de San Francisco. Kinderman acompanhou-o com os olhos. senhor. Atkins assentiu. senhor. Um homem merece o seu justo reconhecimento. o notório malfeitor: O crime dele? Seu invariável modus operandi? Ele arromba os apartamentos e muda de lugar todos os móveis. Tem alguma coisa para me dizer. Redecora tudo. — Observe o jovem Atkins. Atkins — comentou Kinderman — Homérico. . há alguns anos. Ryan.. ele nos trouxe Mishkin. Ryan? Vários reis do Oriente estão esperando a sua vez. com um pequeno sorriso a lhe entortar os cantos da boca. Depois que a porta foi fechada. Só depois é que continuou: — Primeiro. O tenente sacudiu a cabeça.. — Preste atenção.

sonho com o futuro.. — E depois verifique se apareceu alguém à procura da velha. naquele frio de rachar. — Está certo. antes de ele chegar à casa de barcos. Ele respondeu que o problema só lhe causaria insônia quando os computadores começassem a se preocupar com a possibilidade de seus componentes estarem ficando desgastados. se alguém não telefonou para reclamar o seu jornal só pode ter sido por dois motivos. Pegue o nome do supervisor de Kintry e passe-o pelo computador do FBI. — Kinderman limpou o nariz e livrou-se do lenço de papel. Deus os abençoe. acha que chegará o dia era que os computadores serão capazes de pensar? : — Duvido muito. você teria de guardá-lo num galpão imenso. O matraquear de um teletipo começou a subir do andar inferior. — Ainda não. — Há outra possibilidade. Atkins. Kinderman suspirou e fitou seu assistente. Alguém na área de entrega de jornais de Kintry pode tê-lo matado. — Quem consegue pensar num lugar assim? Atkins assentiu. Verifique antes de vir para cá. O teletipo parou abruptamente. — Isso mesmo. Mas. É um tiro no escuro. enquanto isso. os nomes de todos os assinantes da área devem entrar também no computador. é bem possível que o assassino não estivesse simplesmente dando um passeio e deparado com Kintry por acaso. Qual o computador que você conhece que pode fazer isso? . boa sorte. Deve verificar também esses nomes no computador do FBI. Faça um cruzamento da lista e mande também para o computador os nomes que ficaram de fora. Quase a metade dos jornais de Kintry não foi entregue. As pessoas fazem questão de seu jornal aos domingos. Minha mão está no bolso. a fim de poder escondê-lo de sua vizinha. E não pode fazer mal. senhor. Alguém que já recebera o seu jornal. eles estão muito bem. senhor. — Eu também.. Meus sentimentos. quem está brincando com quem? Se todos aqueles maravilhosos cientistas do Japão pudessem fabricar um cérebro artificial. Atkins. Descubra se o homem já teve algum problema com a polícia. Além do mais. Poderia ter matado o garoto e depois levado o corpo para o atracadouro. Portanto. Sabem que o ciúme não é uma variedade de jogo de Atari. senhor. — Mais uma coisa. — Ligue para o departamento de distribuição do Washingion Post. Às cinco horas da manhã. Alguém sabia que ele estaria ali. a sra. Li cena vez a resposta de um teólogo a quem foi feita essa pergunta. Portanto. Por falar nisso. — Então vai me arrumar tudo o que tem nos arquivos sobre Gêmeos. Não estou certo? É uma besteira dizer que a mente é de fato o cérebro. Kinderman olhou na direção do barulho. ou o assinante está morto ou é o assassino. — Obrigado. É perfeitamente possível. Atkins. Computadores. Atkins. Atkins parou de escrever e levantou os olhos para o tenente com uma expressão desconfiada. Descubra no Post quem telefonou para se queixar de que não recebeu o jornal. os dos que não reclamaram. Mas isso significa que meu bolso é minha mão? Cada bêbado da M Stteet sabe que um pensamento é um pensamento e não algumas células ou chazerei em ação no cérebro. Briskin. — Certo. a quem teria de assegurar que não há nada de esquisito acontecendo por ali. Kinderman balançou a cabeça.

E não apenas eu. querido? — Maravilhoso. o grande físico. — Qual é o problema? — Todos os anos.. mas hoje tenho de animar o padre Dyer. — Já entendi. o psiquiatra. Ele vai gostar. de J. previsível. Sonho com coisas que você nunca poderia imaginar. meu anjo precioso. seus veados! — O que está havendo por aí? — perguntou a mulher de Kinderman. Ele atendeu. — E não vai almoçar? Você não come direito quando não estou em casa. O que me parece mais estranho. Esqueça essa possibilidade.. — Levarei Dyer ao cinema e discutiremos bastante. meu bem.. Quanto a Mannix. neste dia.. — A porta de uma sala de detenção bateu atrás do suspeito. um verdadeiro santo. Atkins. O telefone tocou. Você vai ou não jantar em casa esta noite? — Acho que não. — Eu não fiz nada! Larguem-me. A linha particular. — Está certo. De qualquer forma. Podemos voltar agora. — Como está seu dia. sacudiu a cabeça. ele fica na pior. prepararei um prato e o deixarei no forno. querida. na minha mente. Três assassinatos. Não podia ser de outra forma.. o cara da teoria dos quanta. A Mãe Mistério. — Kinderman falando.. é que Stedman não constatou qualquer sinal de que talvez Kintry tenha sido atingido primeiro na cabeça. e chegaríamos em casa por vulta das duas horas. — Obrigado. — Então é hoje? — Exatamente. querida. meu bem? — Não posso falar agora. certo? — Não posso falar. Kinderman olhou para os botões. com o que fizeram? Ele estava consciente. Ele resistia vigorosamente e gritava imprecações. quatro estupros e um suicídio. — Que emocionante. Como está Richmond? Ainda está aí? — Claro. — Olá. E também Jung. Atkins. Não tem importância. Lera Experiência com o tempo. Por Deus. — Você é um amor. querida... Como isso seria possível. W. — Já eliminou Mannix? — Não estou querendo dizer que sonho com o futuro em geral. a alegria de sempre com os rapazes da 6a Delegacia. estava consciente! — Kinderman baixou os olhos. — Eu tinha esquecido. Dunne. E Wolfgang Pauli. A Mãe dos Gracos está ao lado. — Devemos procurar por mais de um monstro. Quando a carpa vai sair da banheira. — Bill? Era sua esposa. eu o conheço há dezoito anos. Dois guardas arrastavam um suspeito pela sala. Pode se comprar um carro usado dessa gente. ele é pai de sete filhos. Acabamos de ver o prédio do Capitólio. — Coisas dos goyim. Afora isso. É todo branco. a quem chamam de pai do neutrino. Ela se meteu na cabine telefônica com você. Alguém tinha de segurar o garoto. Outra coisa: tranque as janelas esta noite .

Chame-me pelo bip. Esperando o melhor. fofinha querida. . Sentia-se inquieto. — Para você também. E depois pode me encontrar no Clyde’s ou de novo aqui. — Você tem muito que fazer. Portanto. — E poderia deixar um bilhete sobre a carpa. procurando livrar-se do pressentimento. — Para quê? — Eu me sentiria melhor Abraços e beijos. querida? Não quero chegar em casa e esbarrar nela inesperadamente. sentia pena de ambos. — A única coisa que deve lhe interessar é que há algo de podre no reino da Dinamarca. Lorde Jim. Atkins ficou observando-o atravessar a sala dos detetives. O que seria? Kinderman o sentira. sumia de vista. algo que não podia compreender. Adeus. desvencilhando-se das perguntas como se fossem mendigos numa rua de Bombaim. banhados pelo sol. Bill! — Até mais. Ele desligou e levantou-se. Havia trevas se atiçando. Espero que aproveite bem o seu cruzeiro de luxo no Patna. Atkins sacudiu a cabeça. querida. Avise-me quando o laboratório tiver alguma coisa. Levantou-se e foi até a janela. Quanto a mim. — Até mais. virou-se para começar a trabalhar. Kinderman passou pela porta e saiu para o mundo de homens que morrem. é melhor começar. — Oh. Escutou o barulho do tráfego. Isso era mais do que evidente. Acreditava no mundo e nos homens. embora sentisse o movimento. Olhou para os monumentos de mármore branco da cidade. — A carpa não é da sua conta — disse Kinderman. Atkins observava-o. Qualquer coisa. Atkins já sentia a falta dele. quentes e reais. Verifique os vazamentos. estarei no Biograph Cinema das duas às quatro e mera. O tenente encaminhou-se para a porta. E um instante depois descia a escada.

na M Street. sem qualquer expressão: — Uma vida pura. — O que tem cara de beagle? O policial? Dyer assentiu. E depois fora para o refeitório. — Ficarei aqui até as quinze para as duas. um padre jesuíta. murmurando: — Juro por Deus que não posso acreditar! Enquanto falava. Depois da missa. maravilhado. ele fica tão deprimido que tenho de animá-lo. CAPÍTULO 2 Joseph Dyer. S. . descera até o cemitério jesuíta. neste dia. mon père. J. presunto. Dyer virou seus brilhantes olhos azuis para o reitor e disse. começara o seu domingo com a Missa de Cristo. — Todos os anos. Healy ficou observando. — É um homem interessante — comentou o reitor. e depois. — É hoje? Dyer voltou a assentir. costeletas de porco. pão de milho. Já o conhece. consumindo porções gigantescas de tudo: panquecas. O padre Healy sacudiu a cabeça e tomou um gole de café. celebrando a esperança na vida posterior e rezando por misericórdia para toda a humanidade. Joe? — perguntou Healy. esquecendo a sua posição na discussão entre os dois a respeito de Donne. como um poeta e um padre. um prazer interrompido quando um homem se sentou ao lado de Kinderman. assistiram quase a metade de Relíquia macabra. — Onde consegue meter tudo isso. observando. ovos com bacon. o ruivo sardento e pequeno construir um sanduíche de carne de porco e panquecas. Estendeu a mão para a garrafa de leite e serviu-se de outro copo. O tenente Kinderman. fez alguns comentários pertinentes sobre o filme. Sentara-se ao lado do reitor da universidade. — Algum plano para hoje. irlandês. enquanto Dyer despejava um lago de melado de bordo em seu prato. pôs a mão na coxa do policial. devidamente apreciados. tornando a encher a boca. na depressão do terreno do campus. professor de religião da Universidade de Georgetown. fascinado. Kinderman virou-se para ele. onde colocara algumas flores diante de uma lápide em que estava escrito DAMIEN KARRAS. fechou uma algema no pulso do homem. Joe? Vai ficar por aqui? — Quer me mostrar a sua coleção de gravatas ou o quê? — Tenho o discurso que farei na próxima semana na Associação dos Advogados da América. de quarenta e cinco anos de idade. Seguiu-se um pequeno tumulto. incrédulo. Gostaria de dar uns retoques. enchendo a boca. O reitor tomou outro gole de café. Dyer e Kinderman encontraram-se no Biograph Cinema. padre Healy. E ele adora cinema. um amigo de muitos anos. E depois irei ao cinema com um amigo. olhando fixamente para a tela. — Eu tinha esquecido. revigorando sua fé e renovando seu mistério.

à procura de Dyer. não fariam mal algum.. E você? — Também estou. pensou Kinderman. pelo noticiário das seis horas... — Não posso ir para casa. a dos Padres à Espreita? — Estava tentando me fazer invisível. Kinderman olhou ao redor. — Aquele patético putz. — Vamos comer alguma coisa no Tombs. — Estragou o filme para mim. juntando as golas do casaco. Olhava pela rua acima. tenente.enquanto Kinderman o conduzia para o saguão e chamava um carro da polícia para levá-lo. — Sem brincadeira. — Metade do filme? — Lembro o resto. O olhar de Dyer passou pelo rosto do detetive. — Você parece cansado.. — Está sendo ridículo. Kinderman aproximou-se. — murmurou o tenente. O homem esticou a cabeça pela janela do banco traseiro.. Seu amigo parecia exausto e profundamente perturbado. a fim de que não se visse o colarinho clerical. Por que não vai para casa e dorme um pouco? "Agora ele está preocupado comigo”. — E outras dez. — Você já tinha visto esse filme pelo menos dez vezes. — Puxa. — Você parece terrivelmente cansado. — Sou amigo íntimo do senador Klureman. — Tenho certeza de que ele vai lamentar profundamente quando souber. Bill. — Está mentindo. — Parece abatido — insistiu Dyer. Kinderman pegou o braço do padre. — Basta darem um susto nele e depois podem soltá-lo — disse Kinderman ao guarda que estava ao volante. Havia alguma coisa muito errada. — Kinderman acrescentou para o motorista: — Avanti! O carro da polícia afastou-se. tristemente. Talvez no Clyde’s ou no F. Bill. Dyer parou um momento depois. Avistou-o finalmente. com visível preocupação. Scott’s. Podemos pedir um pouco de nosh e discutir e criticar. é muito divertido sair com você. e os dois saíram andando. estendendo a mão e tocando em Dyer.. . — É verdade. — Mas fracassou — disse Kinderman jovialmente. — E por que não? — Por causa da carpa. esperando num portal. Um caso difícil? — Nada demais. — Olhe só. Aqui está o seu braço. Uma pequena multidão se concentrara. talvez vinte. — Você também. — Estou bem. — O que está fazendo? Fundando uma nova ordem.

obrigado. Por causa da carpa. moça. “Melhor. — E agora vamos decidir: Clyde’s. Tornou a ouvir as mesmas respostas de antes. As pontas dos dedos estavam lívidas.)? Ela. em que estava uma omelete grande de coco e curry. desta vez mantendo o telefone bem perto da boca. Subindo e descendo. padre Joe? Isso mesmo. para esquecer a noite. Um peixe saboroso.. rindo. — Então o Clyde’s. ela. Muito obrigado.. — Achei que você ia dizer isso. — E você. para ser mais exato. Tombs. nadando na banheira. — Três fatias serão suficientes? — Duas bastam. Atkins desligou. Por isso só vou para casa depois que a carpa esteja dormindo. Mas. usada em situações variadas. Atkins estava assustado. Já tem agora uma imagem dela? Ótimo. vai querer uma sétima xícara? — Não. Não demora muito para que ela esteja cozinhando uma carpa. E eu não aguento mais. Achou que tinha entendido mal ou talvez não tivesse se explicado direito. com significados como “viu?". Está bem perto de mim. E recomeçou. Virou a luz da mesa. que dá à minha esposa no Chanukah presentes de Chutzpah e Kibbutz Número Cinco. pensou Kinderman. Bruce Dern. “né?”. nu (Expressão iidiche de sentido impreciso. — E foi “carpa” mesmo que eu disse.. — Pode me trazer mais um pouco de tomate para o hambúrguer? Kinderman estava abrindo um lugar na mesa para o prato de batatas fritas que a jovem garçonete de cabelos escuros trouxera. por favor. Kinderman chegou mais perto de Dyer.. . por baixo das unhas. ou F. Não tenho nada contra a carpa.E. que se queixa que eu ando em más companhias e estou de alguma forma ligado a Al Capone. Tenho medo de matá-la se a encontrar acordada. Certamente percebeu que eu não tomo banho há dias. Está certo. Mais uma coisa. — E não deu outra coisa. — Obrigado — disse. — Mais café? — Não. afastando-a de seus olhos. não é mesmo. No pequeno cubículo sem janelas. Atkins sentou-se à sua mesa. podia ouvir a própria respiração. — O detetive olhou para Dyer. obrigado. etc N. os melhores. — Entendo. Livrando-se das impurezas. Descendo e subindo. piscando os olhos. E há três dias ela está nadando na banheira. Scott’s? — Billy Martin’s. Três. como supostamente está cheia de impurezas. Shirley. Dyer afastou-se dele. — A mãe da minha Mary está nos visitando. E saíram andando. Shirley comprou a sua carpa viva.. Dyer largou o garfo ao lado do prato. muito melhor’’.. — Repita. — Quer saber de uma coisa estranha? Pensei ter ouvido você falar “carpa”. “alô?”. perfumes fabricados em Israel. muito brancas. fitando-o com um olhar firme e sombrio. — Não banque o difícil. Já fiz uma reserva no Clyde’s. Estendeu a mão para a luz. pondo o prato entre ele e Dyer. obrigado. com o rosto a dois ou três centímetros do rosto do padre.

. — Quais são os seus prediletos. — Não pode fazer mal . azul e branca. sem a menor hesitação. Mencione hereges. — E quais são os outros quatro? — O mesmo. diz o herege. — Acho que já o vi umas vinte vezes — comentou o padre. qualquer coisa. padre. O jesuíta assentiu. padre? Poderia indicar pelo menos os cinco melhores. Kinderman pegou seu garfo. Torquemada acena com a cabeça e diz: “Guarda. O Chef Milani parte em seu socorro. Por acaso está doente? — Está temperado demais — respondeu o padre. — Vamos voltar ao filme. — Casablanca. hesitante. Atkins é um homem de decisões imediatas. desolado. — Está na minha lista dos dez melhores filmes de todos os tempos — declarou Kinderman. — Quer saber qual é o meu filme predileto? — Apresse-se. Kinderman olhou para o prato de Dyer. Está satisfeito? — Estou. e ele dará uma lista de dez. — A felicidade não se compra.. — Não está comendo. Muito se pode dizer pelos dois lados”. — É mesmo? E quais os cinco filmes prediletos dele? — Os cinco primeiros? — Isso mesmo. Deixe o connaisseur lhe dizer o que está muito condimentado. Estendeu a mão para o maço de cigarros que estava na toalha quadriculada. — Rex Reed está numa cabine telefônica. — Temperado demais? Já o vi mergulhar batata frita em mostarda. — Ele pode enunciar a nata de qualquer categoria. — Você pediu uma descoberta arqueológica. danças. Mas não importa. Dyer deu de ombros. aguardando minha ligação. — Ele assente — murmurou Kinderman. É uma excelente escolha Kinderman estava radiante. — Quem pode escolher os cinco melhores de qualquer coisa? — Atkins — respondeu o detetive prontamente. pois tem bom gosto e geralmente está certo. Ora. — “Deus é um tênis”. filmes. sorrindo e se encaminhando para a cozinha. deixe-o ir embora. sim. sorrindo. Ele é louco por esse filme. É o que resulta de tanta cantoria e guitarras nos seus ouvidos. por favor — disse Kinderman. jovialmente. — Meus lábios estão selados.da qual comera muito pouco. despejando sal sobre as batatas fritas. Largou o garfo e ficou olhando sem qualquer expressão para o prato dele. Dyer soprou a fumaça de sua primeira tragada. na ordem de preferência. cortou e pôs na boca um pedaço da omelete de Dyer. — Já vou trazer o tomate — disse a garçonete. é preciso parar com esses julgamentos precipitados. — Mas não com frequência suficiente — comentou Kinderman.

— Nunca pensei que guardassem muito dinheiro nessas lojas. olhando para Kinderman com uma expressão estranha. Pensei que lhe tivesse dito. — Posso levar? Ele assentiu. — Adoro o filme. — Morreu há um ano e meio. e de noite rouba lojas desguarnecidas. Dois bebês perdidos na floresta. Gandhi — disse Kinderman. Ela olhou para a omelete na frente de Dyer. — Aqui está. — Eu lhe contei. e a garçonete removeu o prato. — Posso lhe trazer outra coisa? — Não precisa. Dyer se animou. é ético que funcionários do governo tenham dois trabalhos. Bill. me ajuda durante o dia. padre. como está sua mãe? Dyer estava apagando o cigarro naquele instante. — Alguma coisa errada com a omelete? — Não — respondeu Dyer — Está apenas dormindo. como sempre. . — Eu não sabia. — Ele está bem. — Atkins chama esse filme de “A jornada de um longo dia para o bode”. O único problema é que eu não tinha fome. senhor. Eles estão economizando todo o dinheiro que podem para os móveis. de profunda ternura. Ficou imóvel. — Bill. empurrando o prato de batatas fritas na direção de Dyer. — Por falar nisso. — Onde será o casamento? — Num caminhão. ou estou sendo muito exigente? Agradeceria o seu conselho espiritual. — É inocente e bom. Por falar nisso. que Deus a abençoe. — Lamento muito. A noiva trabalha num supermercado. Kinderman sacudiu a cabeça. — Coma alguma coisa. A garçonete aproximou-se. — Você disse a mesma coisa a respeito de Eraserhead. A omelete está ótima. enquanto Atkins. — Mas isso é ótimo! — Ele vai casar com a namorada de infância. — Obrigado — disse Kinderman. — Não mencione essa indecência — resmungou Kinderman. Enche o coração da gente. A moça riu. Ela apontou para o prato. ela está morta. e em junho estará casado. pôs na mesa o prato com fatias de tomate. O padre ignorou as batatas e perguntou: — Como está Atkins? Não o vejo desde a missa da véspera de Natal. O que é lindo. O detetive parecia consternado.

quando falou comigo. para não mencionar o sistema gastrintestinal e determinada estética . Ela tomou tudo. minha irmã. São Francisco de Clyde’s está falando aos passarinhos. “Terremoto na Índia.. Entrei no quarto e dei-lhe a extrema-unção. Dyer pôs a mão no pulso de Kinderman. eles me disseram que mamãe já estava morta. eu vou embora. — Ao longo dos anos algum irmão telefonando para dizer: “Joe. — Desculpe. com as células do cérebro afetadas. Ela está bem. o detetive inclinou-se para a frente e continuou: — Penso muito no problema do mal. Continue. vendo que os olhos de Kinderman se enchiam de lágrimas. baixando os olhos para as mãos. Não é tão boa quanto “Ora. . o corpo uma mera sombra do que já fora. murcha. acho que nunca lhe disse isso. — Outra expressão popular. Bill.. — Deus inventaria alguma coisa como a morte? Em termos bem simples.. Kinderman esfregou os olhos. — Não diga bobagens... a visão e a audição quase sumidas. Bill. Dyer inclinou a cabeça por cima da mesa. Quando terminei. sofrendo muito. Ela disse: “Foi uma oração maravilhosa. — Tenho meus hobbies. Dyer desviou os olhos. filho”. — Ora. foi que ali estava aquela anciã de noventa e três anos. Lúgubre e sinistra. É uma boa coisa para se dizer. — Acho que tive cinco ou seis alarmes falsos — acrescentou ele. Levei o maior susto. Deve ter sido terrível. mamãe está morrendo.. isso.. Ora.. tornando a olhar para Kinderman. Acabaria ficando entediado. Você não gostaria de viver para sempre. — Se começar a se debulhar em lágrimas. pronto. isso.. É melhor você vir até aqui”.. Estimulado. Mas o que realmente me emocionou. Ela me fitou nos olhos e disse: “Joe. cruzadas sobre a mesa. — E parou de falar. Bill. Servi um scotch com gelo e voltei ao quarto. meu irmão. Joe. padre. isso”. é uma ideia nojenta. diz a manchete. — Lamenta muito. — Não devo me esquecer do que acaba de falar. por favor. Não é popular. não foi. Viu estudantes tomando cerveja em canecas grossas. a coisa que me emocionou mais do que qualquer outra. que fui até a cozinha sem dizer nada. Mas é triste pensar que as mães são tão falíveis. O jesuíta riu. E dessa vez aconteceu. — Não. Tirei o copo vazio de suas mãos. — É que me parece que o próprio mundo é uma vítima de homicídio — balbuciou Kinderman.... quando falou comigo toda ela estava ali. Levantou os olhos desconsolados para o padre. foi uma bênção. — Pois eu não Ela estava com noventa e três anos. — A coisa que não posso esquecer. mas ainda assim é um sucesso.. uma imagem de Kintry pregado nos remos atingiu sua mente como uma bala. ela abriu os olhos e me fitou. está tudo bem. mas. Bill. — Pronto. o médico. — Continue. não é um sucesso. Kinderman assentiu. . E depois morreu. mas você é um homem maravilhoso. milhares de mortos”. E agora podia me arrumar um drinque?” Fiquei tão atordoado. Quando cheguei. e enquanto isso temos câncer e bebês mongoloides. A vitrola automática entrara em funcionamento no bar e ele olhou na direção do som.

Qual é a sua teoria? A atitude de Kinderman tornou-se furtiva. — Sem brincadeira. — Não importa. De onde tiramos as noções de “mal”. Podemos ter um bom Deus com tais absurdos acontecendo? Um Deus que vagueia alegremente pelo cosmo como algum Billie Burke onipotente. cautelosamente. Bill. O tenente Kinderman está cuidando do caso. — Deixe-me ver. enquanto crianças sofrem e as pessoas que amamos definham e morrem? Seu Deus sempre recorre à Quinta Emenda nesta questão. — É essa a sua teoria? — perguntou Dyer. Conhece os gnósticos? — Sou torcedor dos Bullets. Para dizer a verdade. inclinou a cabeça para frente. Depois. — Bill. tentando elucidar o enigma. correndo os olhos pela sala. É uma coisa nova. É a minha ideia mais nova”. — Daqui a pouco vai me dizer que São Pedro era católico.. não deveríamos estar pensando que é ruim. K. como se estivesse à procura de algum agente secreto à escuta.. Então Deus disse ao tal anjo que mencionei. — Estou apenas repetindo. Mas isso só contribui para aprofundar o grande mistério. Só que ele não era perfeito e por isso temos agora os chazerei a que me refiro.relacionada com os nossos corpos que Audrey Hepburn não gostaria que mencionássemos em relação a seu rosto.. Uma coisa grande. o importante é que bem no meio desse horror há uma criatura chamada homem que pode compreender que é horrível. — Minha maneira de encarar o mundo é como se fosse o cenário de um crime — murmurou ele. Se o mundo é ruim. padre. — Não. O que não acontece com os homens. como se fosse um conspirador. Mas não se preocupem. conforme lhe fora ordenado. — Estou apenas repetindo. A garçonete tornou a se aproximar e pôs a conta na mesa. Os gnósticos achavam que um “delegado” criou o mundo. mas o padre insistiu: — Somos uma parte do mundo. — Você é um caso perdido. — Então por que a Máfia deveria ficar com todas as oportunidades? — Palavras esclarecedoras. — Isso é insuportável. desde os salmistas até Kafka. O peixe não se sente molhado na água. Vá criar o mundo por mim. Uma coisa espantosa. pegando-a. tenho . — Também li isso em G. Bill. O anjo saiu e criou o mundo. Enquanto isso. padre. Kinderman mexeu distraidamente o café frio. esse Delegado: “Tome aqui. é assim que sei que o seu Chefão não é alguma espécie de Jekyll e Hyde. Quando será o seu próximo sermão? Eu adoraria ouvir mais algumas de suas profundas opiniões. — murmurou Dyer. — Está me entendendo? Estou reunindo as provas. Isso serviria para livrar a cara de Deus.. Ele pertence ao ambiente. padre. Estaríamos pensando que as coisas que chamamos de ruins são apenas naturais. são dois dólares. O detetive estava tentando impedi-lo de falar. Chesterton. a grande história de detetive no céu que vem deixando as pessoas malucas. “cruel” e “injusto”? Não se pode dizer que uma linha está um pouco torta a menos que se tenha uma noção do que é uma linha reta.

Um vírus. vendo o seu sangue escorrer até o fim. As sobrancelhas de Dyer se juntaram. mas Dyer fez sinal para que ficasse sentado. É uma coisa a que sou muito sensível. Não cobro nada. Pode ser qualquer coisa. Subitamente. — Acendeu o cigarro. — Essa é a pista? — Pois aqui vai outra: o sistema nervoso autônomo. — Aguente firme que já captamos o seu sinal. Vai acabar caindo em cima deles e os deixará com a maior dor de cabeça. indo para aqui e ali fazendo isso e aquilo. — Estou perdido.diversos cartazes de “Procura-se”. Uma alergia. — A história de sua vida. apagou o fósforo e jogou-o no cinzeiro. Era emocional. — Você está doente? Qual é o problema? Dyer tirou um cigarro do maço. o sangue não pode coagular sem que haja catorze pequenas operações separadas ocorrendo dentro de seu corpo. E também as trepadeiras que podem encontrar água a quilômetros de distância. — Mas isso é tudo o que vai me dizer a respeito de sua teoria? — protestou Dyer. Enquanto isso. numa ordem determinada: pequenas plaquetas e aqueles corpúsculos. — Coisas que supostamente não têm consciência estão se comportando como se tivessem. — Kinderman aproximou seu rosto de Dyer. padre. . — Está tudo bem — murmurou o padre. — Obrigado. — Coagulação? — Quando você se corta. Sacudiu a cabeça. De qualquer forma. Não me esqueço do seu voto de pobreza. a xícara escapuliu dos dedos de Dyer Seus olhos estavam desfocados. pegando sua xícara de café. ou você fica com cara de tolo. — Tenho sentido essas tonteiras ultimamente — Já foi ao médico? — Já. Kinderman recostou se abruptamente. não importa como. — Dyer deu de ombros — Meu irmão Eddie teve a mesma coisa há anos. — Vou lhe dar uma pista. — Isso é tudo. Minha última palavra. — O que houve. Seu comportamento parecia normal outra vez. — Não é nada. como quer que se chamem. carrancudo. Nunca mande guias xerpas carregarem uma pedra. padre Joe? Kinderman estava alarmado. mas ele não descobriu nada. Tudo tem de se processar da maneira exata. — Você é a prova viva da minha tese. Kinderman pegou a xícara e endireitou-a. Poderia fazer a gentileza de colocá-los no campus? São de graça. — Não está me dizendo a sua teoria. antes que escorresse para o colo de Dyer. Começou a se levantar. professor Irwin Corey. vou me internar amanhã para fazer alguns exames. depois limpou o café entornado com um guardanapo. aprendi minha lição. Assistiu àquele filme de horror chamado Alien? — Assisti. Coagulação.

— Internar? — No Hospital Geral de Georgetown. Kinderman mandara fazer uma comparação de rotina entre os cabelos dela e os fios encontrados na mão de Kintry. Nenhum se queixara de não ter recebido o jornal. — É mesmo? Atkins relatou duas constatações. — Pode me dar licença por um momento. — Não me deixe sozinho com a conta — disse Dyer. padre Joe? Kinderman levantou se. Dyer baixou o rosto para as mãos e riu. Ele tirou do cinto e desligou-o. O bip de Kinderman soou. Todos haviam recebido. até mesmo aqueles para quem Kintry só entregaria depois de sua passagem pela Casa de Barcos Potomac. Está desconfiado de que sou alérgico às provas dos estudantes e quer uma confirmação científica. O detetive não respondeu. Foi ao telefone. — Alguma coisa esquisita está acontecendo. — Cinco e mera murmurou. O segundo fato se relacionava com a velha. — A carpa está dormindo. com o rosto impassível virado para Dyer. O despertador do relógio de pulso de Kinderman começou a tocar. tenente. ligou para a delegacia e falou com Atkins. Todos haviam recebido o seu jornal depois de o menino ter morrido. Ele o desligou e verificou a hora. O padre-reitor insiste. . Eram os mesmos. A primeira referia-se aos assinantes da área de entrega dos jornais de Kintry. resfolegando.

os olhos castanhos. acrescentou: — E um café puro. "Amor da minha vida!". e de repente ele disparou numa curva fechada. Mas. e olhou para as flores. Doc. Sua mente estava em seu coração. aturdida. radiante. o de sempre — murmurou Amfortas. através da janela. ele estava afastado há apenas alguns minutos. O merceeiro inclinou-se para o compartimento aberto onde estavam guardados os produtos preparados naquela manhã. O que estavam lhe dizendo? Alguma coisa. Algo mais. Eles haviam percorrido metade de Bora Bora de bicicleta. Virando-se para a cafeteira e as xícaras de plástico. — Isso mesmo. . observando seu rosto com uma expressão gentil. Tirou um dólar e entregou-o ao merceeiro. onde sabia que ela não poderia vê-lo. Empertigou-se. Vincent. Charlie Price. transbordando de afeto. — Obrigado. Pareciam tremeluzir com um grito silencioso. Seu pedido estava pronto. — Tornou a passar a noite inteira trabalhando no laboratório. CAPÍTULO 3 Quando ela o viu. Sua voz era triste e suave. Estava remexendo num bolso do casaco azul-marinho que usava por cima do traje branco do hospital. envolveu o pão com um papel fino. com as flores flamejantes estendidas. Doc? Um saco de papel estava sendo dobrado e fechado. Amfortas levantou os olhos. parado no meio da estrada. apesar disso. misterioso. Algumas horas. a filha do merceeiro. A mesma coisa de sempre? Amfortas não escutou. Mais do que angústia. como o amor de anjos congregados perante Deus. escorrendo pelas faces. — Parece cansado. alegremente. Estava parado na pequena e estreita mercearia e lanchonete. — Um chop suey para o doutor — murmurou Price. — A mesma coisa de sempre. junto à vitrine da frente. colocou-o dentro de um saquinho e largou-o no balcão. O merceeiro contemplou o seu rosto abatido. Lágrimas afloraram a seus olhos. sentada numa cadeira. estava atrás do balcão. com a surpresa. o velho merceeiro. perto da Universidade de Georgetown. E quando ela fez a curva ele estava esperando. — Não deve exagerar — comentou o merceeiro. em enxames ardentes. Freou logo depois. ela soltou uma exclamação de prazer e começou a correr. saltou da bicicleta e correu para colher uma braçada de papoulas vermelhas que cresciam na beira da estrada. E no momento seguinte o sol estava nos braços dele. Viu Lucy. Perguntou-se como sua vez chegara tão depressa. — Bom dia. passas e nozes. com os braços estendidos. esperando no balcão. — Não a noite inteira. Os outros fregueses haviam saído. pegou um pão doce grande. Charlie. Olhou ao redor. distraidamente. sombrios como florestas. gritou ela. Passou pela porta. Ela freou. Amfortas assentiu. coberto com canela em pó. o jovem rosto risonho. Charlie. — Eu o amo. Doc? Ele voltou.

Continuou parado até que os gritos nítidos se desvaneceram. Do outro lado da rua havia uma pensão feminina e uma escola de serviço de estrangeiros. Era parte de seu exercício. — Seremos então parte d'Ele — Como de nós mesmos? — Talvez não. pensativo. — Qual é o problema? — Perder você para sempre. Sentiu o calor do café em sua mão. de dois andares. Até aquele dia. através do saco. até chegar a sua casa apertada. Ficava a pouca distância da mercearia e era uma casa modesta e muito antiga. A equipe de remo de Georgetown subia correndo a escadaria. abriu o saco e tirou o pão. Uma das mãos segurava o saco de encontro ao peito. Ela costumava buscar para ele nos domingos. O merceeiro apoiou um braço numa prateleira. O merceeiro foi postar-se ao lado da filha e os dois ficaram observando-o. — Voltamos a Deus depois da morte. Alto e magro. Amfortas ficou observando enquanto eles apareciam no alto da escadaria e depois disparavam na direção do campus logo desaparecendo. Um momento depois. fixando o alto do lanço comprido de degraus de pedra que mergulhava na M Street. muito abaixo. — Todos esses anos e nunca o vi sorrir — murmurou Lucy. Amfortas sentou-se na varanda branca. um quarteirão à direita ficava a Igreja da Santíssima Trindade. Olhou na direção da Prospect Street. com os ombros encurvados. abraçando-o. Ann. ficou parado por um instante. Podemos perder nossa identidade. Há anos que aquela escadaria era conhecida como “Degraus de Hitchicock”. Vincent. Amfortas pegou o saco. deixando-o sozinho no corredor silencioso em que os atos dos homens estavam embaçados e a vida não tinha qualquer outro propósito que não o de esperar. — Lembre-se do que eu disse. Ela se levantou com um riso feliz e foi sentar no colo dele. circulando . — Ela estava falando do pai que perdera no ano anterior e ele queria confortá-la. — Por que não? Por acaso não me ama? — Mas você tem apenas vinte e dois anos! — E isso é tão horrível assim? — Tenho o dobro da sua idade. contraindo-se no esforço de não chorar. Os sinos da igreja repicaram e estorninhos alçaram voo da Santíssima Trindade. com a cabeça inclinada pata baixo. mas disse: — Eu não poderia casar com você. a sineta da porta da frente retiniu e ele estava na calçada. — Não esquecerei. Deixou a Prospect Street e foi andando lentamente pela 36th Street. ele nunca temera a morte. — Eu o manterei sempre jovem. — E por que deveria sorrir? Ele eslava sorrindo. Mais além estava o rio e a casa de barcos. à direita. Algum dia você estará me empurrando numa cadeira de rodas. Ele viu o rostinho dela começar a se encher de lágrimas. Amfortas ouviu gritos e o barulho de pés correndo.

fora obrigado a remover determinadas porções dos lóbulos temporais. Pegou o saco e o volumoso Washington Post de domingo. cinzento. sete e vinte e cinco.numa dança frenética. balançando os galhos dos sabugueiros nas ruas. Começou a girar os dedos na palma. o residente apresentando cada caso novo. depois tornou a largá- lo no saco. depois tornou a sair e trancou a porta. O residente era novo e não percebeu o sobressalto de Amfortas ao ouvir o nome da doença. Amfortas podia ir a pé de sua casa até o hospital em dois minutos. Juntos. estendia-se até o lado oeste da 37th Street. conferiu a hora. Ele entrou na melancolia da casa vazia. O 404 era um economista. Perdera a sua missa das seis e mera. começou a caminhar para um horizonte distante. Ao final da reunião. sem qualquer outra bagagem que não sua angústia e solidão. Nunca o encapavam. Pessoas começavam a deixar a igreja. Seu julgamento e seu domínio dos fatos eram espantosos. Virou-se e olhou para o céu. a que há três anos assistia diariamente. O exterior moderno esparramava-se entre a O Street e a Estrada do Reservatório. Depois. e apresentava sintomas de lesão cerebral. Amfortas fazendo perguntas ao paciente. Eram sete e quinze. no quarto andar. na frente da porta. Pressionou com os três dedos. Estava a cento e cinquenta milhões de quilômetros do sol. além do rio. Como pudera perdê-la? Olhou por um momento para o pão que segurava. um caso provável de meningite. De um instante para outro. o oposto à lesão. Depois. Respondera a três cartas. ele não era capaz de reter as lembranças mais recentes. dois dedos da mão esquerda na palma direita. O residente estava à sua espera. Amfortas abotoou lentamente o suéter. o economista fizera um sumário de seu plano em mera hora. Levantou as mãos e pôs o polegar esquerdo no pulso direito. O jornal estava sujo de tinta. Amfortas parou a manipulação. especificamente. voltara à sua sala e sentara-se à sua mesa. assim como os conhecimentos do código atual. Naquela manhã. baseado nos problemas que os senadores o haviam encarregado de estudar naquela manhã. chegou à ala de neurologia. Olhou para as mãos. quando se submetera a uma operação cerebral por causa de epilepsia. Estava ficando encoberto. O Hospital Geral de Georgetown era imenso e relativamente novo. Seus problemas haviam começado seis meses antes. . Nuvens pretas deslizavam rapidamente para oeste. Quando voltou a pensar no mundo. As árvores estavam desfolhadas. pôs o saco e o jornal na mesinha do pequeno vestíbulo. passando de um quarto para outro. exatamente às sete e mera. ignorando completamente o outro. iniciaram a ronda. de cinquenta e quatro anos. acompanhava os movimentos dos dedos. Vestia cuidadosamente um lado do corpo. O 402 era um vendedor de trinta e seis anos. Um mês antes de ser internado no Hospital Geral de Georgetown o paciente comparecera a uma reunião de um comitê do Senado e por nove horas seguidas e extenuantes apresentara um novo plano para a revisão do código fiscal. num ato reflexo. A mão direita. virara-se para a secretária e dissera: — Tenho a impressão de que eu deveria ter comparecido hoje a uma reunião do Senado. A paciente 411 era uma moça de vinte anos. “negligência unilateral’’. sem qualquer alternativa. Foram necessárias seis horas só para organizar os detalhes do plano e fixá-los de maneira ordenada. Amfortas olhou para o relógio. sem qualquer consulta às anotações que acabara de fazer. O cirurgião. um vento forte soprava. Discutiam os diagnósticos enquanto avançavam pelo corredor. Só barbeava um lado do rosto.

Depois que a deixaram. quando ele andava. Ou para o coração despedaçado. e Amfortas encerrou a experiência. Passava o tempo todo deitada sobre o lado esquerdo e gritou quando o residente fez um esforço para virá-la de costas. sentava ou deitava. sofrera um pequeno ferimento na cabeça e passara a se queixar de uma terrível dor ali. Perdera um braço no ano anterior e continuava a sofrer dores terríveis na mão que não mais possuía. — Isso deve aliviá-lo por algum tempo. Podemos ajudá-lo? Amfortas recomendou uma injeção de novocaína no gânglio simpático torácico superior. A sensação de ainda possuir a mão permanecera. e o coto começava a ter contrações clônicas. Amfortas se inclinou e gentilmente massageou a região sacra. mexer os dedos. No 420 estava um carpinteiro de cinquenta e um anos que se queixava de um “membro fantasma”. sem falar nas costas. nódulos de tecidos regenerados do nervo. mas depois subia para o ombro. Mas não mais do que isso. O carpinteiro acenou com a cabeça. quando a dor estava em seu ponto extremo. chegava mesmo a tentar pegar objetos com a mão inexistente. A dor se tomou intensa demais depois de uns poucos minutos. Ele se submetera a uma operação de reconstrução. mantendo-o assim. Sem pensar. Eles deixaram o quarto em silêncio. Ela parecia deslocar-se pelo espaço como um membro comum. Uns poucos meses. Ele se queixava de ter a sensação de que os ossos do dedo indicador estavam sendo perfurados. ela se recusara a relatar sua história. flexionasse o pulso e depois levantasse o braço numa posição de chave de braço. Desde os dezesseis anos de idade ela se queixara de dores abdominais tão persistentemente. com catorze cirurgias abdominais. — Não sei o que fazer. em outras. que se tornara um caso excepcional. pois a mão se contraía e recusava-se a relaxar. Amfortas sabia que não havia cura para o membro fantasma. e o carpinteiro teve a princípio “sensação de coceira” e uma impressão nítida do formato da mão. Não havia força de vontade que pudesse mover qualquer parte da mão. Avançando pelo corredor. tão intensa que fora realizada uma descompressão subtemporal. Agora. em que foram removidos pequenos neuromas. A mulher gritou e tremeu violentamente. Houvera alívio inicialmente. A sensação parecia começar na ponta desse dedo. Havia ocasiões em que a sensação tensa na mão era insuportável. mas agora ele sentia que podia flexioná-la. Poderia me dizer por quê? O carpinteiro pediu-lhe que comprimisse os dedos sobre o polegar. o residente deu de ombros. E depois viera a dor insuportável. Amfortas concordou com o residente em que ela devia ser . Quando a dor finalmente se desvanecia. Amfortas fez uma pergunta ao carpinteiro: — Sua maior preocupação parece ser a tensão na mão. e a mão fantasma adquiriu uma postura constante. O carpinteiro informava que frequentemente se sentia nauseado. ao longo dos anos. sua queixa era de dores angustiantes nos braços e pernas. Depois a dor voltou. O distúrbio evoluira de maneira normal. a tensão parecia atenuar um pouco. mas nunca o suficiente para permitir um movimento. O neurologista o atendeu. A princípio. Depois. Eu não posso. era como se um bisturi estivesse sendo repetidamente cravado no local do ferimento original. o carpinteiro explicara. com os dedos comprimindo o polegar e o pulso flexionado ao máximo. A 424 era uma dona de casa. dizendo: — Acontece que você pode baixar a mão.

por muitos meses. sufocando ou punindo qualquer manifestação de sentimentos agressivos. aplicando uma pressão para cima na base do cérebro. e a levitação. entre as quais a micropsia. auras de gostos e cheiros desagradáveis. Havia às vezes ações violentas. Era um dos serventes do hospital. Normalmente. com uma indicação de possível dependência de cirurgia. onde pusera cerca de uma dúzia de lâmpadas num balde com água e insistentemente as fazia afundar. — Dê-me sua mão. O caso do servente era mais próximo da norma. E de dor A 425. assim como do oposto. operavam lentamente. causada pelo aparecimento no campo visual de uma área luminosa. Sempre bizarras. Um homem que tinha uma lesão no lóbulo temporal. com uma possível lesão do lóbulo temporal. de trinta anos. sem qualquer fonte aparente. a teicopsia era um sintoma de enxaqueca. as vitimas são inofensivas. Tais ataques podiam se tornar seriamente destrutivos. Além disso. Falava de uma barra de chocolate que tinha um gosto “metálico” e se referia ao cheiro de “carne podre”. apenas inadequadas. imitando-lhe cada palavra e ação. característica de um ataque psicomotor. em que os objetos parecem menores do que são. outra dona de casa. com anorexia e vômito consequentes. jamais vu — uma sensação de estranheza num ambiente familiar. O eletroencefalograma fora particularmente agourento. comprimiam e esmagavam a medula. O consumo de álcool muitas vezes os desencadeava. Havia também fugas de déjà vu. Essa era geralmente a história de uma paciente clássica de enxaqueca. não fora capaz de se lembrar do que fizera. crônica. Era um automatismo. conforme se constatara posteriormente. Tumores daquela natureza. gentilmente. o que também acontecia com a teicopsia. se não fossem cuidados. tais fugas eram geralmente de curta duração. Posteriormente. que atacava a paciente sob a forma do distúrbio. matara a esposa quando se encontrava num estado de furor epiléptico. embora em casos raros se prolongassem por muitas horas e fossem consideradas totalmente inexplicáveis. O 427 era o último. uma cegueira temporária. insidiosamente. sensação de se levantar pelo ar. queixava-se de dor de cabeça. Willie — disse Amfortas. Outra paciente a ser encaminhada à Psiquiatria. um homem de trinta e oito anos. A hostilidade reprimida gradativamente acumulava a raiva inconsciente. Mas a dor estava confinada a um lado da cabeça. um hemangioma. . Esses episódios eram frequentemente precedidos por um peculiar estalar dos lábios. se fosse o caso. embora nunca tivesse aprendido a pilotar e não tivesse posteriormente qualquer recordação do evento. O servente também tivera um breve episódio de um fenômeno conhecido como “o sósia”. mas finalmente adquiriam um impulso súbito e. a paciente era de uma família que dava a maior importância ao sucesso e mantinha rígidos padrões de comportamento. Vira alguém à sua imagem e semelhança. e apenas no dia anterior fora descoberto num depósito no porão. Havia ainda alucinações visuais. o que se costumava chamar de “ação automática”.encaminhada à Psiquiatria. sem qualquer apoio. latejante. O resultado era a morte. delimitada por linhas sinuosas. dependendo das emoções inconscientes do paciente. Sua história estava repleta de ataques uncinados. em questão de uma semana. Era o caso de um homem que pilotara um pequeno avião de um aeroporto da Virgínia até Chicago. A pior possibilidade era uma lesão. Normalmente.

à espera do resultado. Amfortas parou e soltou a mão. — Qualquer uma serve. Não estava prestando atenção. senhor. Longe dos pacientes. Atribuiu a isso o comportamento inesperado ou talvez à juventude da moça e à possibilidade de nada se poder fazer para salvá-la da invalidez grave ou mesmo de uma morte horrivelmente dolorosa. Amfortas pediu informações atualizadas sobre os pacientes mais antigos da ala. Ele pôs dois dedos da mão esquerda na palma do servente e o polegar direito no pulso. Amfortas mostrou-se tenso e retraído. Tal como os internos e residentes agrupados no corredor. — De nada. O residente reparou na transição repentina. — Como está indo a sua pesquisa. uma cirurgia a tempo ainda salvaria a vida de Willie. — Qual delas? — perguntou o servente. determinado agora a romper a estranha barreira entre os dois. Mesmo agora. que em breve se transformou num debate acalorado. Somente assim poderiam ter certeza de que a lesão existia e estava próxima dos estágios finais. Amfortas não pôde ouvir. a definição foi rápida: — Já determinei uma tomografia cerebral — disse o residente. mas sabia que os neurologistas pesquisadores possuíam a reputação de ser introvertidos. O residente olhava para Amfortas com uma expressão ressentida. comprimiu e começou a mexer os dedos. Quando o residente chegou à moça com suspeita de meningite. Amfortas compareceu a uma conferência de toda a equipe. Amfortas acenou com a cabeça em concordância. A esquerda. A mão do servente se contraiu e começou a acompanhar o movimento dos dedos. — Talvez seja melhor reservar uma sala de operações. começou uma discussão. As dez horas. Ao chegarem ao servente. perto da entrada da ala psiquiátrica. Amfortas e o residente estavam parados ao lado da máquina automática de café. Discutiram os diagnósticos. quase brusco. — Há quanto tempo está empenhado nela? — insistiu ele. embora estivesse sentado à mesa. Por volta das nove e mera. — Três anos — respondeu Amfortas. senhor. — Obrigado. empurrando um carrinho com medicamentos. — Já fiz isso — disse ele. Vincent? O residente acabara de tomar o café e estava amassando o copinho. marcada para se prolongar até o meio-dia. sobre a política interdepartamental. Ele observou-a. reticentes e estranhos. antes de jogá-lo no lixo. as formalidades eram abandonadas. — E já encontrou alguma brecha? — Não. Willie. Amfortas deu de ombros. Uma enfermeira passou. definindo os novos. Depois da preleção. O residente forneceu-as. Sua indiferença estava começando a irritar o jovem residente. O chefe da Neurologia fez uma preleção sobre esclerose múltipla. — Quero fazer de novo — murmurou Amfortas. — Não vou me preocupar. — Não precisa se preocupar. Foi então que Amfortas disse: . O servente atendeu-o.

— Peço licença por um momento.
Retirou-se e ninguém sequer percebeu que estivera na sala. Ao final da discussão, o chefe
da Neurologia estava gritando:
— Já estou cansado dos bêbados neste serviço! Fiquem sóbrios ou não apareçam na minha
ala!
Foi uma coisa que todos os internos e residentes ouviram. Enquanto isso, Amfortas voltara
ao quarto 411. A moça que parecia ter meningite estava sentada na cama, olhando
hipnoticamente para o aparelho de televisão, montado na parede do outro lado. Quando
Amfortas entrou, os olhos dela se desviaram para ele. Ela não mexeu a cabeça, A doença já lhe
provocara a rigidez do pescoço. Mexer-se era muito doloroso.
— Olá, doutor.
Apertou um dos botões do controle remoto da televisão. A imagem se apagou. Amfortas
apressou-se em dizer:
— Não precisa... pode deixar a televisão ligada.
Ela olhava para a tela vazia.
— Não há nada agora. Nenhum programa bom.
Ele parou ao pé da cama e observou-a. A moça era sardenta, usava um rabo-de-cavalo.
— Está confortável? — perguntou Amfortas.
Ela deu de ombros,
— Qual é o problema?
— É uma chatice. — Os olhos dela voltaram a se fixar em Amfortas. As olheiras eram
imensas, mas ela sorriu. — Não há nenhum programa bom na televisão durante o dia.
— Está dormindo bem?
— Não.
Amfortas pegou a ficha da moça. Haviam receitado hidrato de cloral.
— Deram me pílulas, mas não funcionam.
Amfortas pôs a ficha no lugar. Quando tornou a olhar
para a moça, ela virara o corpo na direção da janela, dolorosamente. Olhava para fora.
— Não posso ficar com a televisão ligada à noite? Sem o som?
— Posso lhe arrumar fones de ouvido — sugeriu Amfortas. — Assim não incomodará
ninguém.
— Todas as estações saem do ar às duas hoeas da madrugada — murmurou a moça,
apaticamente
Amfortas perguntou o que ela fazia
— Jogo tênis.
— Profissionalmente?
— Exato
— Dá aulas?
Ela não o fazia. Jogava num circuito de torneios.
— Está no ranking?
— Estou. Número nove.
— No país?
— No mundo.

— Desculpe a minha ignorância.
Amfortas sentiu um calafrio percorrer-lhe o corpo Não podia saber se a moça tinha
conhecimento do que talvez a aguardasse. Ela continuou a olhar pela janela E murmurou:
— Acho que tudo isso não passa de recordação, agora.
Amfortas sentiu uma pressão no estômago. Ela sabia. Ele puxou uma cadeira para o lado da
cama e indagou que torneios ela vencera. A moça se animou.
— Venci o francês e o italiano. Fui absoluta no ano em que ganhei o francês.
— E como foi o italiano? A quem você venceu na final?
Conversaram sobre tênis por mais de mera hora, Amfortas finalmente consultou o relógio e
levantou-se para sair. No mesmo instante, a moça voltou a se retrair, olhando pela janela.
— Está tudo bem — murmurou ela.
Amfortas podia sentir os escudos se ajustando ruidosamente em seus lugares.
— Tem família na cidade? — perguntou ele.
— Não.
— E onde está sua família?
Ela virou o corpo com dificuldade e ligou a televisão, dizendo distraidamente
— Estão todos mortos.
As palavras foram quase abafadas pelo barulho da televisão. Quando Amfortas saiu, os
olhos dela ainda estavam fixados no aparelho.
No corredor, ele ouviu-a chorar.
Amfortas ignorou o almoço e ficou trabalhando em sua sala, terminando relatórios sobre
alguns casos. Dois eram de epilepsia, em que os ataques eram desencadeados da maneira mais
estranha possível. No primeiro caso, uma mulher de trinta e pouco anos, o ataque era induzido
pelo som de música. No segundo caso, a menina de onze anos precisava apenas olhar para a
mão.
Todos os outros casos apresentavam formas de afasia - um paciente que repetia tudo o que
lhe era dito, um paciente que podia escrever, mas era totalmente incapaz de ler o que escrevera,
e uma paciente incapaz de reconhecer uma pessoa somente pelas feições faciais, pois o
reconhecimento exigia a audição da voz ou a percepção de uma característica destacada, como
uma verruga ou uma cor rara nos cabelos.
As afasias estavam relacionadas com lesões do cérebro.
Amfortas tomou um café, tentando se concentrar. Não conseguiu. Largou a caneta e
contemplou a fotografia que estava em cima de sua mesa. Uma moça deslumbrante.
A porta da sala abriu-se abruptamente e o chefe da Psiquiatria, Freeman Temple, entrou,
com seus passos ágeis, levantando-se um pouco na ponta dos pés, enquanto andava. Arriou numa
cadeira perto da mesa.
— Tenho uma garota para você! — disse ele, alegremente.
Temple esticou as pernas e depois cruzou-as confortavelmente, enquanto acendia uma
cigarrilha. Largou o fósforo apagado no chão.
— Juro por Deus que você vai adorá-la — continuou Temple. — Tem pernas que sobem até
o rabo. E os peitos! Um deles é do tamanho de uma melancia e o outro não fica atrás. E ainda
por cima adora Mozart. Vince, você tem de sair com essa garota!
Amfortas observava-o sem qualquer expressão definida. Temple era baixo, estava na casa

dos cinquenta anos, mas tinha uma exuberância maliciosa e juvenil, uma alegria constante. Seus
olhos, no entanto, eram como trigais ondulando à brisa, adquirindo às vezes uma expressão
calculista e letal. Amfortas não confiava nele nem o apreciava. Quando não estava se gabando
de suas conquistas amorosas, Temple falava de suas lutas de boxe na universidade. Tentava
fazer com que todos o chamasse de "Duke”.
— Era assim que me chamavam em Stanford — Insistia ele. — Todos me tratavam de
"Duke”.
Proclamava às enfermeiras mais bonitas que sempre evitava as brigas porque, “nos termos
da lei, minhas mãos são consideradas armas letais”. Tornava-se insuportável quando bebia, pois
seu charme infantil se convertia em mesquinhez. E estava bêbado naquele momento, desconfiou
Amfortas, ou alto, devido às anfetaminas. Se não as duas coisas.
— Estou saindo com a amiga dela — acrescentou Temple. — Ela é casada. E daí? Qual é o
problema? Não faz a menor diferença. Mas a sua é solteira. Quer o telefone dela?
Amfortas pegou a caneta e baixou os olhos para os papéis de sua mesa. Fez uma anotação,
enquanto dizia, calmamente:
— Não, obrigado. Há anos que não saio com uma mulher.
Abruptamente, o psiquiatra pareceu ficar sóbrio. Olhou fixamente para Amfortas, com uma
expressão dura e fria.
— Sei disso.
Amfortas continuou a trabalhar.
— Qual é o problema? — indagou Temple. — Você é impotente? Acontece com frequência
em sua situação. Posso curá-lo com hipnose. Posso curar qualquer coisa com hipnose. Sou bom.
E bom de verdade. Sou o melhor que existe.
Amfortas continuou a ignorá-lo. Fez uma correção num papel
— O maldito eletro está quebrado. Pode imaginar uma coisa dessas?
Amfortas persistiu em seu silêncio, continuando a escrever.
— Muito bem, que diabo significa isso?
Amfortas levantou os olhos e viu Temple metendo a mão no bolso. Ele tirou uma folha de
memorando dobrada e jogou-a em cima da mesa. Amfortas pegou-a e desdobrou-a. Havia uma
frase enigmática, numa letra que parecia ser a sua: "A vida é menos capaz”.
— Que diabo significa isso? — repetiu Temple, com uma atitude agora abertamente hostil.
— Não sei — respondeu Amfortas.
— Não sabe?
— Não fui eu que escrevi.
Temple levantou-se de um pulo, avançou para a mesa.
— Mas você me deu isso ontem, na presença da enfermeira-chefe! Eu estava muito ocupado
na ocasião e guardei-o no bolso sem ler. O que significa?
Amfortas empurrou o memorando para o lado e continuou com seu trabalho, repetindo:
— Não fui eu que escrevi.
— Você está louco? — Temple pegou o bilhete e sacudiu-o diante do rosto de Amfortas. —
A letra é sua! Não está vendo os círculos por cima do i? Diga-se de passagem que esses
círculos são sinais de um distúrbio.
Amfortas riscou uma palavra e escreveu por cima. O rosto do psiquiatra de cabelos

Em criança. Mais tarde. depois de bater insistentemente. ouviu palavras sussurradas: — Peitos grandes. Amfortas deu uma aula na Faculdade de Medicina da Universidade de Georgetown. Minha tomografia já ficou pronta? — Já. quadris e espinha. também não foram capazes de produzir qualquer dor. informara não ter sentido dor quando seu corpo fora submetido a um forte choque elétrico. Uma variedade de estímulos.brancos ficou vermelho Ele foi até a porta e abriu-a bruscamente. quando examinada por um psiquiatra. Não houve perguntas. De tarde. que era geralmente proporcionada pela sensação de dor. E. Precisava terminá-lo naquela semana. sentou-se e esperou. como a inserção de um bastão pela narinas. Amfortas finalmente perguntou: — É positivo? . Eu ia ligar para você. Submetera-se a diversas operações ortopédicas. a água extremamente quente e a um banho gelado muito prolongado. — É melhor você marcar uma consulta comigo — resmungou Temple. e está ficando cada vez mais doido! Temple saiu e bateu a porta. Não naquele momento. Não podia se lembrar de ter um dia espirrado ou tossido. depois. O cirurgião atribuía seus problemas à falta de proteção das articulações. A mulher acabou desenvolvendo graves problemas médicos. e sofrerá queimaduras de terceiro grau depois de passar alguns minutos ajoelhada num radiador. e ele ficava esperando que os passos se afastassem. Deixe-me entrar para ajudá-lo. normalmente considerados formas de tortura. batimento cardíaco ou respiração. a fim de olhar pela janela o pôr do sol. Ela deixava de transferir o peso do corpo quando estava de pé. Morrera aos vinte e nove anos de infecções maciças que não podiam ser controladas. Ele sabia que era Temple. que protegiam os olhos. Amfortas estava de volta à sua sala às três horas e trinta e cinco minutos. Sabia que não poderia trabalhar então. Amfortas verificou o relógio. Imaginou que Temple estivesse com o ouvido grudado na porta. — Aqui é Vincent. Trancou a porta. Amfortas ficou olhando para o bilhete por algum tempo. E depois voltou ao trabalho. enquanto mastigava. o reflexo da mordaça só podia ser obtido com muita dificuldade e os reflexos das córneas. Houve uma pausa longa. não se virava no sono e não evitava determinadas posturas que produziam inflamações nas articulações. E outro momento de silêncio. seu maluco. Faltavam vinte minutos pata as cinco quando telefonou para um amigo em outro hospital. sim. também neurologista. sob a aplicação de estímulos. E finalmente ouviu os seus passos lépidos se afastando. como mudanças patológicas nos joelhos. e por algum tempo não ouviu barulho do outro lado da porta. Amfortas manteve o silêncio. mesmo antes de ouvir a voz irritada do outro lado da porta: — Sei que está ai dentro. arrancara a ponta da língua com uma mordida. Houve um momento em que alguém sacudiu a maçaneta. Igualmente anormal era o fato de que não apresentava alterações na pressão sanguínea. — Você é um homem hostil e irado. estavam totalmente ausentes. beliscões nos tendões ou injeções de histamina subcutâneas. Alguém batia na porta ocasionalmente. Fez uma análise do caso de uma mulher que desde a infância fora incapaz de sentir dor. Eddie.

Preciso de todo o tempo que puder obter para a minha pesquisa. De qualquer forma. Os homens eram como pequenas chamas de velas. Tom e eu concordamos sobre os novos pacientes. Raramente havia fila naquela hora. — Amém — disse Amfortas. escreveu uma carta. que examinamos hoje. pois nada mais contava. Tirarei todas as coisas que estão em minha mesa até o final da semana.. Outro silêncio. e ele ficou de pé no fundo.. Os corpos alquebrados que tratara ao longo dos anos haviam lhe incutido a noção da fragilidade e da solidão do homem. Adeus. Reunia as chamas das velas. .” Amfortas deixou a sala. quando se adiantara. Pesarosamente. Mas Deus se lhe esquivava. Porém. — Pode deixar que cuidarei de tudo. A igreja estava repleta. — É. tremeluzindo num terrível vazio. Mas sei que você respeitará meu desejo de não comentar a decisão que estou tomando. O departamento tem sido maravilhoso. Vincent Amfortas. até que você possa encontrar um substituto para mim. Resolveu voltar no dia seguinte. nada havia em que se segurar. pôs a carta na caixa do chefe da Neurologia e saiu do hospital. Encontrara os vestígios enigmáticos d'Ele no cérebro. cuidadosamente. Tom Soames é muito competente e meus pacientes estão seguros aos cuidados dele. "Prezado Jim: É muito difícil dizer e lamento muito. mas preciso ser dispensado de minhas funções regulares a partir desta noite de quinta-feira. Obrigado por tudo. Até terça-feira estarão concluídos meus relatórios sobre os pacientes antigos. numa união que se elevava e iluminava a noite.. poderá me encontrar no laboratório ou em casa. mas não posso garantir. tenho amado a beleza de vossa casa. separadas. — E que possa se tornar para nós uma cura eterna. Amfortas lançou um olhar para as filas do confessionário.. Faria uma confissão geral dos pecados de toda a sua vida. Pegou um papel timbrado do departamento numa gaveta da direita e depois. Estavam compridas. — Ó Senhor. mas o Deus do cérebro apenas o chamara. Sua voz estava quase inaudível. Isso era tudo o que podia importar. Podia pegar a missa vespertina. sim. Depois de terça-feira tentarei estar disponível para consultas. Eram quase cinco e mera. acompanhando a missa com uma esperança angustiante. firmemente. pensou ele. Haveria tempo suficiente na missa da manhã. Ed. endereçada ao chefe da Neurologia. Sei que a minha decisão é súbita e vai lhe causar alguns problemas. e acelerou os passos na direção da Igreja da Santíssima Trindade. Lamento muito. Ao final. E você também. 15 de março. Essa percepção punha a humanidade ao seu alcance. Deus o mantivera a distância. escuro e interminável. além de sua fé. — Vince… Mas Amfortas já estava desligando.

uma seringa descartável e uma ampola cor de âmbar. O jornal estava desarrumado. uma pata com roupas de menina. Tateou à procura do interruptor. a sala estava desarrumada. Era tudo de que Amfortas precisava ou que desejava. arrumar e limpar a casa inteira. Havia fones de ouvido Estava cansado demais para aquilo também. entrou no quarto. Abriu a porta da frente e entrou em casa. Subiu a escada cambaleando. Mas. no músculo da coxa. Acomodou-se numa poltrona. levou as mãos às têmporas. Sentou-se na cama. tirando dela uma mecha de algodão. seus olhos fixaram-se na cerâmica verde e branca da mesinha de cabeceira. A calça ainda estava nos joelhos. A desordem nunca o incomodara antes. Não dispunha de energia no momento. Mas agora experimentava um estranho impulso de endireitar tudo. Um momento depois injetava seis miligramas de Decadron. mobiliada. Depois afivelou o cinto e desceu. . em seu colo. expondo as coxas. com móveis ordinários. Havia um quarto e um estúdio lá em cima. e o jornal se espalhou pelo chão. fundiram-se num só. as seções separadas. foi para a pequena sala de estar. Alguém o lera. acendeu todas as luzes. Amfortas perdeu a noção do tempo. Era algo como a sensação anterior a uma longa viagem. Ofegou. Mantinha uma maleta médica ao lado da cama. desabotoou e baixou a calça. Teve um sobressalto quando acendeu a luz da cozinha. O Dilaudid já não era suficiente. e no instante seguinte a dor de cabeça estava lhe dilacerando o cérebro. Uma inscrição dizia: BUZINE SE ACHA QUE SOU LINDA. Estava ligado a um amplificador. Adiou aquilo para o dia seguinte. O coração e a cabeça pulsavam em ritmos diferentes.. Sentou-se na cama. A casa era alugada. A ampola cor de âmbar estava em sua mão. Sentia-se cansado. acendeu a luz. Baixou os olhos para o Washington Post. Amfortas estendeu-se na cama e esperou. Pensou em lê-lo enquanto esquentava um jantar congelado. depois de algum tempo. Tomara sua decisão. A sala dava para a cozinha e para um pequeno recanto onde se faziam as refeições. Abriu-a então. Como sempre. de um falso estilo colonial. notou. Ao levantá-la. Levantou-se. Foi para a sala e recolheu o Washington Post de domingo que estava caído no chão. Pegou o saco e o Post no vestíbulo.. Olhou para um toca-fitas numa prateleira. um esteroide. Ele ficou imóvel por um instante. olhando fixamente. ou como esvaziar sua mesa no hospital. Na mesa do recanto para as refeições estavam os restos de um desjejum e um exemplar do Washington Post de domingo. Olhou ao redor.

13 de março de 1983. Resultados dos exames: Sangue: 0.06% etanol peso/volume Urina: 0. Laboratório: Bethesda Idade: 12 Raça: Negra Sexo: M Data do recebimento: 3 de março de 1983 Suspeito(s): Nenhum Provas apresentadas por: Dr. Positivo: cloreto de sucinilcolina. CAPÍTULO 4 DIVISÃO DE SERVIÇOS DE LABORATÓRIO Seção de Ciência Legal Relatório de laboratório. 18 miligramas. Thomas Legista: Samuel Joshua Hirschbetg. negativo para antidepressivos tricíclicos e monóxido de carbono. negativo para narcóticos e analgésicos.08% etanol peso/volume Sangue e urina: Negativo para quantidades significativas de cianureto e fluoreto. negativo para anfetaminas. naturais e sintéticos. Francis Caponegro Seu caso: 50 REG LAB: 77-N-025 Vítima(s): Kintry. Alan Stedman Um vidro de sangue e um vidro de urina para verificação de álcool e tóxicos. benzodiazepina. negativo para barbitúricos. . Ph D. negativo para metais pesados. glutarimídeos e outras drogas sedativo-hipnóticas. anti-histaminas. carbamatos. fenciclidina. Para: Alan Stedman CC: Dr.

— É farblundjet. Deu de ombros e acrescentou: — Todos sabemos que os cabelos nunca podem oferecer uma identificação absolutamente positiva. — Como pode ser? Estavam sentados em torno de uma mesa. Como Stedman e Atkins.. estava sem paletó.. Mesmo assim… — Mesmo assim. As medulas dos cabelos eram idênticas. Quem pode saber? . — Adora dizer isso. tamanho e número por unidade de extensão das escamas sobrepostas das cutículas. — repetiu Kinderman. o movimento seguro de um mundo em que havia ordem e cujo chão não desaparecia sob seus pés. não é mesmo. Baixou os olhos para a fotografia da mulher e depois para o copinho de chá em sua mão. Kinderman precisava de atividade ao seu redor. Stedman? — É basicamente um relaxante muscular — explicou Stedman — É usado como anestesia. Como poderia evitar? Marcava o seu caso. Principalmente em terapia de eletrochoque. Os cabelos encontrados na mão de Kintry tinham raízes recentes e arredondadas. Dez miligramas para cada vinte quilos de peso do corpo causam a paralisia instantânea." Kinderman pensou nessa passagem de Platão. na espessura. Atkins. Ele precisava da lua. Kinderman. formato. o assassino tinha de saber o que estava fazendo. como é mesmo o nome? — perguntou Kinderman. enquanto ele continuava: — Foi injetada uma droga chamada sucinilcolina. Kinderman podia ouvir. Kinderman assentiu e o patologista acrescentou: — Devo ressaltar que a droga quase não deixa margem para erro. isolando-os do resto da sala. homens. esse é um mistério que não posso compreender. — Talvez um anestesista. Stedman e Ryan. Espetou o limão com um dedo. — Todos sentiram um sobressalto. devido ao superaquecimento da sala.. dos homens e máquinas movimentados e ruidosos. como preces esquecidas. Um cone de silêncio envolveu-os. — Qual o sentido? — perguntou Kinderman aos outros. CAPÍTULO 5 “Há uma doutrina escrita em segredo segundo a qual o homem é um prisioneiro que não tem o direito de abrir a porta e fugir. Kintry tomou quase vinte miligramas. — Claro que não é uma identificação positiva — disse Ryan. no meio da sala dos detetives. Kinderman sacudiu a cabeça. Não poderia se mexer ou gritar. mas os sons eram abafados e muito distantes. — Mesmo assim. A droga ataca o sistema respiratório. Contudo. o que indicava luta... nas duas amostras. Coçou um músculo no antebraço. — O que o matou? — Choque — respondeu Stedman. somos posses deles. — Então era um médico — disse Kinderman. — E asfixia lenta.. A fim de obter o efeito que desejava. acredito também que os deuses são nossos guardiões e que nós. mexendo-o um pouco. — Sucinilcolina. — Para que se usa essa. — Não pode ser — murmurou ele. E depois de dez minutos não poderia respirar. Ainda estava de casaco.

Sinto um calafrio na mente. uma coisa linda. Era como se fosse contagiado pelos pensamentos triviais deles. mas as impressões digitais estavam borradas. os ovos precisam de alimento. Atkins ficou observando Kinderman tomar o chá. — E o que me diz da velha. Podem ir embora. Kinderman viu Stedman olhando para o relógio e disse: — Vá para casa. Então. Assim. Atkins? Apenas voar e picar durante o dia inteiro. contanto que seja uma vida saudável. Para começar. Apenas o suficiente. Atkins? Não. Não tem importância. o mais comum de todos. Não haviam sido encontrados vestígios de sangue em suas roupas. eles passaram pela porta e os sons se desvaneceram. esqueça. imerso em seus pensamentos. Ninguém sabe como. só pensando agora no jantar e no tráfego. Os exames antígenos de sangue. Foram trocadas amenidades de despedida e Ryan e Stedman escaparam para as ruas. Não vai descobrir nada. — Tomou um gole do chá e depois murmurou: — Cloreto de sucinilcolina. indicavam que o fumante tinha sangue tipo O. Por falar nisso. Ora. A busca no local do crime não proporcionara muita coisa. na maior alegria? Não. O fato é que o alimento deve estar vivo. a vespa não pode jogar uma rede sobre um bando de cigarras. tenente. encontramos uma seringa no local do crime? — Não encontramos nenhuma seringa — disse Ryan. — Esta coisa sobre os jornais. não conhece. Mas se a vespa consegue simplesmente paralisar a cigarra. Quase ninguém conhece. Mas não importa. A vespa sai de seu ovo. Voltem pata suas famílias e falem dos judeus. de repente. Enquanto Kinderman os observava se afastarem. Mas essa vespa é incrível. Depois. É um mistério. a sala dos detetives voltou a ter vida para ele. por exemplo. homens gritando. qualquer que seja o nome dela. Kinderman olhou para ele. não é mesmo? E com acesso a essa droga. Mas a vespa-caçadora pensa em tudo. É um bebê. não é tão fácil assim. hein. Isso mesmo. Atkins. Kinderman tornou a baixar os olhos para o chá e sacudiu a cabeça.. podia ouvir telefones tocando. A putrefação seria fatal para o ovo e a larva. o problema . subitamente animado. Voltarei a verificar no Post amanhã. Não é uma vespa comum. — Não adianta. Você pensou que a vida era fácil para as vespas. Há muitos problemas. Mas em um mês está plenamente desenvolvida e tem os seus próprios ovos. Você não vai descobrir nada. seu período de vida é de apenas dois meses. Alguma coisa terrível está rindo de nós.Pelo menos alguém com conhecimentos médicos. De jeito nenhum. Você também. uma pequena vespa. Era verdade que o malho tinha as marcas dos impactos nos pregos. viu-o enfiar os dedos dentro do copinho. Atkins… Ele levantou os olhos e enfrentou o olhar firme de Atkins. enquanto uma cigarra viva e normal esmagaria o ovo ou então o comeria. feitos com a saliva que havia nas pontas de cigarro. — Conhece a vespa-caçadora. — Já era de se esperar. as cigarras são ótimas. tirar a fatia de limão. depois dá-las aos ovos e dizer: “Aqui está o jantar”. Ryan. Mas é um tipo especial e apenas um tipo: um inseto vivo. uma cigarra. Bem pouco tempo. Um mistério. Kinderman suspirou. deixá-la cair de novo no chá.. Só pede ser. estoicamente. Vamos ficar nas cigarras. Stedman. Há alguma explicação. espremê-la. tenente? Ninguém a procurara ainda. — Tem de ser um erro. Atkins.

Atkins. com os olhos vagos. Argentina. Mastigue chicletes e tome uma limonada. — Estou mesmo. Kinderman levou a mão à aba do chapéu. Para fazer isso. — Sua teoria sobre o caso? — Não sei. ao extrair das páginas de . certo? Pois vou lhe dizer uma coisa. Muito bem.. Talvez não. A menos ou a mais. Atkins. Pode ser. isso é outro tsimmis. Mas voltemos à vespa- caçadora. enquanto ficamos sentados aqui. enquanto paralisam insetos por todo o país. a vespa precisa saber exatamente onde picar a cigarra. Boa observação. — Fez um gesto abrangente. Atkins.. — Espere um instante. Atkins. Instinto. Atkins — e as cigarras estão cobertas por aquelas armaduras —. enquanto isso… A voz de Kinderman definhou e uma trovoada distante ressoou debilmente. continuou parado ali. Estou apenas falando. olhando ao redor. Será que não podemos encontrar um meio de convivência? — Que tal "instintivo”? — Também verbolen (Proibido). É espantoso. Mas voltou um instante depois. — Nunca diga “instinto”. Muito maior. Depois. Atkins remexeu-se em sua cadeira. — A velha. — O sargento levantou-se. Kinderman folheou os livros e finalmente murmurou um “Ah!".estará resolvido e haverá comida na mesa. — Está tudo relacionado. Mas não. É necessário todo esse conhecimento médico-cirúrgico. Adieu. Isso mesmo. a cigarra voa ou morre. onde uma chuva leve começava a bater. — Jamais confie nos fatos — balbuciou ele. amassou o copinho vazio e jogou-o fora. Não é espantoso? Como isso é possível? — É o instinto — disse Atkins. no entanto. o que exigiria um conhecimento total da anatomia da cigarra. perto da porta. Mas. Kinderman ficou furioso. por toda parte. sabendo o que Kinderman queria ouvir. Kinderman continuou a olhar para dentro por algum tempo. Atkins disse: — Tenente. vou embora.. Também não fico impressionado por palavras como “gravidade”. — murmurou Kinderman. Está tudo bem. Kinderman continuou parado ao lado da mesa. E se divirta. Ele olhava agora para uma janela. Ele levantou-se. Caiu na cesta de papéis.. pensativo. Cheiram mal. Abruptamente. está com ele. Atkins. Quanto a mim. e eu lhe dou minha palavra de que também nunca falarei em "parâmetros”. Todas as vespas-caçadoras. Odeiam os homens e odeiam a verdade. Atkins. Isso explica? Dê um rótulo e levante a cortina para o milagre. O que é instinto? Um nome explica tudo? Alguém diz que o sol não se levantou hoje em Cuba e você responde: “Não tem importância. Atkins. — Só mais uma coisa. por um momento. Hoje é o Dia em que o Sol não se Levantou em Cuba". Um ponto a seu favor. estão cantando Não chores por mim. abruptamente. vasculhando os bolsos à procura de livros. Faz parte da minha teoria. Tem razão. — Os fatos nos odeiam. ele virou-se e afastou-se. Quanta à velha. é outro caso. — Vá visitar sua namoradinha. Atkins. Não precisa ficar assim. Mas hesite em segui-la. hesitante. — Ela está nos levando ao mistério. e tem de calcular exatamente quanto veneno injetar.

Kinderman partiu. Dê outro palpite. A velha estava banhada pelos raios estranhos de uma lâmpada cor de âmbar. E dessa vez não voltou. e com as mãos enfiadas nos bolsos do casaco. Atkins? — Você. — Não sei. — O que significa Lúcifer? — Portador de Luz. Jourdan podia ouvir-lhe a respiração regular e mais tamborilar da chuva contra uma janela. seus braços se levantaram e as mãos efetuaram os movimentos padronizados e misteriosos que Kinderman vira na Casa de Barcos Potomac. — Ele estava com o nariz a does ou três centímetros do rosto do sargento. Apreensiva. — Não olhe. atravessando lentamente a sala dos detetives e descendo a escada. gentilmente: — Está se sentindo bem. Levou-o ao peito. — E qual é a forma mais comum de energia? — Luz. Ela saiu. Havia um som estranho na sala. Atkins. procurando ficar o mais confortável possível. — Quem escreveu isso. — Assim é melhor. E. tornou a abri-los. é a extrema dificuldade ou mesmo a impossibilidade de conceber este imenso e maravilhoso universo como o resultado do acaso cego ou da necessidade". — Não estou olhando. A policial Jourdan estava sentada na sombra. com isso. com isso. Não sabia que estava assustada até que suspirou instintivamente de alívio ao descobrir que o som fora causado por cubos de gelo mudando de posição num copo ao lado da cama. Mas tornou a voltar. Depois tirou o chapéu e perguntou. — O teste para tenente só acontecerá no próximo ano. Kinderman passou algum tempo a olhar fixamente pata a mulher. Kinderman pegou cuidadosamente uma cadeira e colocou-a suavemente ao lado da . com um sentimento de gratidão. E depois. Fechou os olhos. acima de sua cama. — Sei disso. — Pode dar uma volta — disse ele a Jourdan. e os olhos vazios contemplando os seus sonhos.uma obra de Teilhard de Chardin um bilhete que escrevera no verso de um papel de bala. num canto da sala de detenção. — Cautelosamente. abruptamente. Mudou de posição na cadeira. o tenente tornou a se afastar. subitamente. Depois. relacionada com a razão e não com os sentimentos. Em A origem das espécies. — Mais uma coisa. Alguma coisa estalando. — Charles Darwin. Atkins. — E qual é a essência do universo? — Energia. minha cara? A velha não disse nada. com os braços dos lados do corpo. Viu a porta se abrindo. Kinderman estendeu o papel e começou a ler: — “Outra fonte de convicção na existência de Deus. Kinderman guardou o pedaço de papel e levantou os olhos. sonolenta. Estava imóvel e silenciosa. que entrou sem fazer barulho. Jourdan esquadrinhou a sala. E. Era Kinderman. Bem de leve.

contudo. Você parece cansado. Claro que não há motivo. Kinderman comentou: — Você parece perturbada. Os movimentos tinham um significado. E saiu. Kinderman ficou sentado àquela luz estranha por quase uma hora. O detetive aproximou-se e estudou-a atentamente. “sua luz atinge apenas cones no olho. sempre que afastava os pensamentos dos fatos. Kinderman estudou o rosto da mulher. Boa noite. O instinto era desconcertante. Desculpe tê-la incomodado. — A velha falou alguma coisa? Jourdan soprou a fumaça e sacudiu a cabeça. Mary estava à sua espera na cozinha. Jourdan parecia aliviada — Obrigada. como um código. ela o encarnava. Segurando o chapéu pela aba com as duas mãos. "É uma faxineira trabalhando e nada mais’’. usando um chambre azul- claro de lã. — Não. com um lenço vermelho na cabeça. pensou ele. por favor. — E comeu? — Um pouco de mingau de aveia. Ansiava por sua cama. — Você está muito cansada. de sua respiração e de seus pensamentos. — Não sei. Ela é patética demais. Quando os movimentos da velha finalmente cessaram. É apenas um pressentimento. um mundo em que os neutrinos eram considerados fantasmas e os elétrons podiam voltar para trás no tempo. “Olhe diretamente para as estrelas mais fracas e elas desaparecem”. — Jourdan deu de ombros. Há enfermeiras. Tinha um rosto vigoroso e olhos brejeiros. Rejeitava o envolvimento da velha no assassinato. mas olhe para o lado e vai vê-las. Ela parecia apreensiva.” Kinderman sentiu que. emaranhados. pois a luz se espalha. tenente. de alguma forma que não podia explicar. a fim de resolver o seu caso. Mas qual seria? As mãos projetavam sombras na parede oposta. Tinha uma expressão de santidade. hieróglifos pretos. e havia nos olhos algo estranhamente parecido com anseio. voltou para casa. pensou ele. com os olhos um pouco irrequietos. Vá para casa. mas apenas processos num mundo de sombras e ilusões em constante transformação. E agora é melhor ir para casa. Mas a gente fica arrepiada lá dentro. Detesto ter que deixá-la. Outra vez em contato com a normalidade. com o barulho da chuva. passando um esfregão pelo chão. Ela bateu a cinza que não existia. Pensa mesmo que devo ir embora? — Você foi maravilhosa. E sopa. Sentou-se e ficou observando-a atentamente. dona. Ela virou-se e afastou-se rapidamente. — Não sei o que há comigo. — Acho que estou exausta." Kinderman observou uma faxineira velha trabalhando. Meditou sobre os quarks e os comentários de físicos de que a matéria não era constituída de coisas. naquele universo novo e estranho. pensou ele. "Ela também sentia a mesma coisa”. devia olhar para o lado. Bill. "Mas o quê? Qual é o problema? Não fora a velha. não disse nada. o detetive levantou-se e olhou para a cama. Jourdan estava fumando no corredor.cama. — Jourdan bateu a cinza de novo. sentada à mesa pequena. — Todas são iguais. . mas forte. disse: — Boa noite. — Olá. Kinderman ficou observando-a.

— Está com fome. Somente as goyim (Plural de "goy”. tenho uma notícia de que você não vai gostar. — Não pode estar falando sério. Por falar nisso. . — Como foi o seu dia. Mamãe não pôde deixar de comentar em voz alia: “Esses judeus estão doidos” — E onde está a nossa venerável mavin (“Expert”. — Melhor como? — É mais claro lá fora. As judias tropeçam.E. ovos com bacon e germe de trigo. — Graças a Deus. — Então esta noite também não há banho. pelo menos não como um assunto de conversa. — Quero um banho com muita espuma. E melhor. Quando vamos comer a carpa. "especulúlti". Beijou-a na testa e sentou-se. nu? — Você pode tomar banho de chuveiro. — Amanhã. Em iidiche no original N. Bill. Mary? Estou talando sério.) dançam no escuro. Ela pode ouvi-lo. "não judeu". — Meus olhos pesam uma tonelada. Julie quer mudar seu sobrenome para Febré. Ela sabe que posso fazer alguma coisa maluca com aquele peixe. Ouvira as notícias.) do fundo do rio? — Dormindo. Mary já sabia de Kintry. amor. — A carpa teve quíntuplos. Ela pode ver os sapatos de ponta. E não gostam. Bill? — Muito divertido. — Comemos um desjejum muito tarde por lá. Mas haviam combinado muitos anos antes que o trabalho de Kinderman jamais se intrometeria na paz de sua casa. — Estou. Será que a carpa se importaria com a espuma? Estou disposto a negociar uma reaproximação. O detetive estava apático. Bill. — Quais são as novidades? — perguntou ele. — Bill.E. — Seja mais delicado. Em iidiche no original N. Bill? — Não muita. — Aula de dança à noite? — São apenas oito horas. — Chegou perto. — Como está Richmond? Ela fez uma careta. É melhor. — Ela só deveria dançar durante o dia. onde está Julie? — Na aula de dança. — No sono? Mas claro. — Há um pouco de peito de galinha — E a carpa? Mary riu. claro. sim. O Fantasma da Banheira está sempre vigilante. As chamadas noturnas não podiam ser evitadas. como sempre.

ele estaria rindo de nossa cara neste momento.E. Kinderman subiu e poucos minutos depois já estava dormindo. Algumas estavam sentadas ou deitadas em suas camas. homens alados. benzinho. querido.. Eu o amo. E a Arca não terá nada que se pareça com um gnu. E devemos agradecer a Deus pelo fato de o faraó não estar por aqui. não tinha sensação do corpo. empenhadas em diversas atividades. Tinha a impressão de estar numa vasta catedral. — Ela diz que pode ser melhor para sua imagem como bailarina. E o sonho era lúcido: sabia que estava dormindo em sua cama e sonhando. — As coisas poderiam ser piores.. sem qualquer inflexão: — Julie Febré. inclinando-se para um teto de altura espantosa. a fim de combinar com o nome. Kinderman suspirou e baixou a cabeça até o peito. Seus rostos estavam concentrados. todos esnobes de Dubuque. e Kinderman ouviu um deles dizer: — Pode me ouvir? Seres estranhos circulavam. É isso o que acontece com toda a mistura em nossa cultura? Daqui a pouco vai aparecer o dr. — É possível. Havia centenas de pessoas. feito de pedra. — Boa noite. A princípio. com nomes como Melody ou Tab. Não demorou muito para que surgissem aldeias e depois cidades. Kinderman murmurou. sentia-se vigoroso e forte. perto de Kinderman. Tinham a aparência que deveriam ter. — A Arca faz uma parada em Richmond? Ele estava com o olhar perdido no espaço. — Não está. estou mesmo cansado. estava de pé no interior de um prédio titânico. tinha uma recordação total dos acontecimentos do dia. Uma imensa extensão estava ocupada por camas do tipo que se encontra em hospitais. Como em qualquer outro sonho. todas tranquilas. reunia se em tomo de uma mesa. Sonhou. Apesar disso. Subitamente. estreitas e brancas. — Eu também a amo. — Kinderman levantou-se e foi beijá-la no rosto. As paredes eram lisas e de uma cor rosa suave. metidas em pijamas ou usando chambres. Bill. Bernie Feinerman para ajeitar o nariz dela. — Por favor. enquanto outras andavam de um lado para outro. não. e ele sabia que nunca poderia descrevê-las. que eram ao mesmo tempo comuns e estranhas. como anjos. Em iidiche no original N. — Os Salmos de Lance — murmurou. . — Boa noite. usando uniforme de médico. — Você está exausto. — Por que não? — Os judeus são farmischt e não Febré. aquele goniff (Pessoa oportunista e inescrupulosa. estava voando sobre campos de cores intensas. Um grupo de cinco. A maioria estava lendo ou conversando. E depois vem a Bíblia e o Livro de Febré. talvez mais. Ele assentiu. mas eram de alguma forma esquisitas. — Tem razão. E algum dia vão encontrar os remanescentes da Arca em Hamptons. na qual havia alguma espécie de transmissor de rádio.). mas apenas bichos de aparência impecável. Bill. Está brincando. vá se deitar — disse Mary. — Estou me afogando.

Continuaram a conversar. Ele fora um estudante rabínico por anos. Mas chegamos aqui primeiro. Pareciam estar ministrando medicamentos ou se empenhando numa conversa em voz baixa. — É um mistério. — Não sei. Kinderman avistou seu irmão Max. — Estou contente em vê-lo. Max. Max? Este aqui? — É o mundo em que meditamos sobre nós mesmos. — Uma pausa. — Onde estamos? — indagou Kinderman. indefinidas. avistou a claridade do amanhecer. eu não estou sonhando.Deslocavam-se entre as camas e as colunas de sol que entravam pelas janelas redondas. O clima geral era de paz. sem qualquer pressa. O que significava? — Anjos médicos — murmurou ele. Mary remexeu-se ao lado dele. Bill. Kinderman encaminhou-se para Max. tornando-se cada vez mais insubstancial. fechou a porta e . Kinderman acordou e levantou a cabeça. Junto com essa compreensão súbita veio uma certeza absoluta de que Max não era uma ilusão. que se estendiam até onde sua vista podia alcançar. de vidro fosco. Depois de encontrá-lo. — Sabe para onde se vai depois? — Não. E Kinderman lembrou-se de que ele estava morto. as declarações de Max tornaram- se vagas. até que finalmente Max era um fantasma balbuciando coisas incompreensíveis. Kinderman deixou a cama sem fazer barulho e foi para o banheiro. e Kinderman por fim perguntou. Bill. E ele disse. O irmão sacudiu a cabeça gravemente e respondeu: — Não. Ninguém o notou. — Parece um hospital — comentou Kinderman. Kinderman ficou outra vez indeciso e inseguro. nos quais os mortos nunca são percebidos como tal. voltando depois a seu trabalho. Kinderman cumulou-o de perguntas sobre a vida posterior. até sua morte. Kinderman foi andando entre as fileiras de camas. pelas beiras. Através de uma fresta nas cortinas de uma janela. em 1950. Como em sonhos comuns. — E todos nós somos tratados aqui. em determinado momento: — Temos duas almas. Max? — Não no mundo dos sonhos. que virou a cabeça e fitou-o cordialmente enquanto passava. Quando Kinderman o pressionou para explicar a resposta. bruscamente: — Deus existe. — Todas essas pessoas estão mortas? Max assentiu. Tateou à procura do interruptor. Não temos certeza. — E o que é o mundo dos sonhos. e sentou-se com ele na cama. no sono. e acrescentou: — Agora estamos ambos sonhando. Deixou a cabeça recair no travesseiro e pensou no sonho. com exceção talvez de um anjo. Max deu de ombros. em voz alta. o sonho começou a se desvanecer.

sacudindo a cabeça. Claro’’. que não poderiam ser resolvidos de outra maneira? O problema do mal existiria no mundo por desígnio? A alma assumiria um corpo. Contudo. — Momzer — murmurou. Jung estava acordado em seu leito no hospital. Seria o sonho uma iniciativa do seu inconsciente. Ele não o fazia.’’ Kinderman afagou seus pensamentos por algum tempo e concluiu que a teoria do sonho desmoronava quando confrontada com o sofrimento dos animais superiores. “está perto. Mas as emoções predominantes que Jung experimentara — e continuara a sentir pelos seis meses subsequentes — foram depressão e raiva por estar de volta a um corpo. imerso em seus pensamentos. pensou ele. porque lhe aparecera na sua forma arquetípica. Aquele era diferente de qualquer outro sonho que já tivera. Kinderman puxou a descarga. a fim de poder ser homem. . oferecendo-lhe pistas para o problema do sofrimento? Talvez. “Mas há alguma coisa aí”. — Duas almas. assim como os homens vestiam trajes de mergulho para entrar no oceano e trabalhar nas profundezas de um mundo estranho? Será que escolhíamos a dor que inocentemente sofríamos. Depois da vida. Levantou a tampa do vaso e urinou.acendeu a luz. perguntou-se Kinderman. Talvez também alguma Flórida. olhou para a banheira. que descreve o encontro do psiquiatra com a morte. Lembrou-se de “Visões". “Todos nós somos tratados aqui. um ensaio de Jung. Seria o sonho do futuro? Um prenúncio de sua morte? Sacudiu a cabeça. Anjos médicos. seus sonhos do futuro tinham uma estrutura definida. "Tudo se ajusta. acima do planeta. Ele continuava a olhar. Preparou um chá e se sentou à mesa.” Precisava de um salto final e surpreendente para conseguir que tudo tivesse sentido e ficasse preservada a bondade de Deus. um instante depois. O homem não seria a mesma coisa que um panda que joga xadrez? poderia haver honra. pensou Kinderman. exigindo que o devolvesse a seu corpo. Seria essa a resposta?. Seria o universo tridimensional uma construção artificial. a silhueta de seu médico aparecera. quando subitamente sentira que deixava o corpo e se elevava pelo espaço. Quando estava prestes a entrar num templo que flutuava no espaço. Viu a carpa deslizando indolentemente. Ele estava hospitalizado. coragem ou bondade? Um deus que fosse bom não poderia deixar de intervir quando ouvisse o choro de uma criança que sofria. Não. apagou a luz e desceu. E tinha certeza de que estava prestes a alcançar esse ponto. E aquele não tinha. em coma. Kinderman se perguntou se seria possível para um homem ser um homem sem sofrimento ou pelo menos a possibilidade de sofrimento. Afetara-o profundamente. a de um caduceu de Cós. Mas isso não aconteceria porque o homem lhe pedira para assumir tal atitude? Porque o homem deliberadamente escolhera a provação. Desviou os olhos. Enquanto o fazia. antes de os tempos começarem e os firmamentos surgirem? Um hospital. É o mundo em que meditamos sobre nós mesmos. — Não no mundo dos sonhos — murmurou. um mundo e um universo que agora percebia como “caixas”. assumindo a forma arquetípica. e o médico caíra doente poucas semanas depois e não demorara a morrer. apenas. Não faria mal algum. O gnu certamente não escolhera a dor e o cão mais leal não tinha uma vida posterior. vem uma semana na Porta Áurea. na qual se deveria entrar para a solução de problemas específicos. a fim de poder concluir o seu trabalho na Terra. E. Sua primeira emoção fora de preocupação por seu médico. pegou seu chambre num dos ganchos atrás da porta. O psiquiatra censurara-o.

A mãe de Mary estava parada ali. Adiantou-se rapidamente e tirou o fone do gancho. — Estarei aí num instante. Estava no confessionário. Desligou. de cara amarrada. era baixa. escutando a confissão de alguém. com voz cansada. Ninguém na igreja tinha qualquer ideia de quem fizera isso.E. Abruptamente. Kinderman olhou para o lado e fez uma careta. — É para você. Tinha oitenta anos. Nunca mais me obrigue a ir lá. rápidos e leves. — Vou fazer um chá quente. com o rosto contraído. — Nu? Kinderman observou-a enquanto ela ouvia e depois estendia o fone. Ela pareceu pensar naquilo por algum tempo. O que teria acontecido com o tempo? — Como estava Richmond? — perguntou ele. Quase sete horas. — Pois estou acordado — disse Kinderman. — Pode deixar que eu atendo — disse a mãe de Mary. encostou a mão na xícara de Kinderman e depois lançou-lhe um olhar como o que Deus devia ter exibido para Caim ao saber da notícia. depois foi até o fogão e disse: — Vou fazer um chá. Kinderman olhou para o seu relógio. seus cabelos prateados estavam presos num coque. Levantou-se e foi atender. Kinderman examinou-a. — Eu não sabia que você estava acordado — disse ela. . quando fora decapitado. O telefone tocou. ela tornou a aproximar-se da mesa. — Schvartzers' ("Negros”. ruidosamente. Ela pôs uma chaleira no fogo.). Ele levantou os olhos. — Está frio — disse ela. na Igreja da Santíssima Trindade. Sua expressão tornou-se atordoada. Durante a missa das seis e mera. — Kinderman falando — disse ele. — Já tomei. — É um fato. Outro dos seus amigos gângsteres. Soaram passos na escada. um padre católico fora assassinado. inescrutavelmente. Kinderman suspirou. Em iidiche no original N. "pessoas de cor”. Os passos se aproximaram da mesa. Nunca antes vira um roupão preto. Ele escutou. — Tome mais. e começou a murmurar em iídiche.

Ele imaginou um trem de carga transportando balas da pequena fábrica de munições perto de Cleveland. — Está certo. 14 DE MARÇO A existência de vida na Terra dependia de uma determinada pressão da atmosfera. — Mantenha apenas as quatro pessoas que foram testemunhas. ainda na igreja. Horacio Hornblower. — Podemos dispensar os paroquianos? Kinderman estava sentado num banco perto do local do crime. onde sempre julgara que eram fabricadas. Qual é a nossa atual situação? — Ninguém viu absolutamente nada fora do normal — disse Atkins. . O trem não podia se mexer a menos que fosse puxado por uma locomotiva. Tenho uma ideia. perguntou-se Kinderman. indiferentemente. O Motor Primal sem Motor. A Causa Primeira sem Causa. Se tudo devia ter uma causa. Seria o único traje no cabide das possibilidades? Por que não outra espécie de coisa. Seu rosto tinha uma expressão de dor reprimida. Prolongando-se até o infinito. inteiramente diferente. CAPÍTULO 6 SEGUNDA-FEIRA. Todas es portas da Igreja da Santíssima Trindade estavam fechadas. pode deixá-los sair — disse o tenente a Atkins. concluiu o detetive. Estavam parados perto do altar lateral à esquerda. dependia da constante operação de forças físicas. Acabou se decidindo pela galeria do coro e encaminhou-se para lá. Zero vezes infinito é igual a zero. os vagões não dariam a qualquer outro vagão o que careciam. alguma coisa que fosse totalmente diferente de um vagão. que estavam dispensados. Cada vagão era movido pelo que estava na frente. mas o sangue ainda escorria pela nave. E o que causava tudo isso?. Kinderman refugiou-se em seus pensamentos. mordendo o lábio inferior. Atkins assentiu e depois procurou um local mais elevado. Haviam fechado a porta do confessionário. e havia um guarda uniformizado vigiando cada uma. por sua vez. uma coisa específica. e Kinderman viu-o conversando com Stedman. Quem sabe?” Um dentista imortal podia fazer obturações para sempre. que por sua vez dependiam da posição da Terra no espaço. por que não Deus? O detetive estava efetuando um mero exercício e imediatamente respondeu a si mesmo que o princípio da causalidade derivava da observação do universo material. Mas o que sustentava o universo agora? O universo seria a causa de sua própria constituição? Faria alguma diferença se os elos de corrente de causa e efeito se estendessem indefinidamente? “Não ajudaria”. que era movimento. de onde pudesse anunciar aos devotos dispersos. Seria uma contradição?. um dos confessionários dos fundos da igreja. Nenhum vagão se movia por si mesmo. O universo seria eterno? “Pode ser. na frente de uma imagem da Virgem Maria. Essa pressão. perguntou-se Kinderman. — Tenente? — Estou com você. O velho padre acenava com a cabeça de vez em quando. O pároco recebera permissão para entrar. enquanto a turma do laboratório circulava. que por sua vez dependia de uma determinada constituição do universo. dividindo-se em poças separadas.

sonhando todo o episódio. "Mas não foram os russos. “Eles lhe diriam que ficou totalmente meshugge1 ("Doido". tenente. Cara demais. foco automático. Ele podia pensar que seu governo lhe mentira e enviara outros americanos antes. como Marte fora bombardeado por meteoritos e agitado por erupções vulcânicas. — Pois então aceite como um ato de fé. praticamente qualquer arranjo de seus materiais poderia ter acontecido. Kinderman virou-se e olhou para Ryan.E. saindo para as ruas à luz do dia. comidos pelos judeus durante a Páscoa N. dando uma atenção especial aos pequenos puxadores de metal. Ele retornou à luta para reorganizar suas convicções. Se ficasse de olho no seu encanador. lente. — De que adiantaria? — Estou prolongando o trabalho. diafragma. O departamento passou a me pagar por hora. É uma Nikkon. era razoável se admitir que. pensou. Kinderman sabia.” Mas talvez tivesse ocorrido um pouso de alguma outra nação. era pensar que. “Um astronauta americano pousa em Marte e encontra uma câmera na superfície”. este é o lugar apropriado’’. acalentava uma mãe adormecida durante uma tempestade e a despertava ao mais leve grito de seu filho. contém mais de uma centena de bilhões de células cerebrais e quinhentos trilhões de conexões sinápticas. Um olho humano é encontrado em Marte. Em iidiche no original N.E. o sentimento de desespero que o dominava. agora não estaria me fazendo perguntas ridículas. Sonhava e compunha música e as equações de Einstein. Ryan insistiu: — Não vejo qualquer interesse nas impressões do padre. Um computador capaz de manipular todas as suas funções . Mas a única coisa que ele não faria. ainda que só se veja a luz de um fóton. “Isso mesmo. pensou. Podia até concluir que estava sofrendo de alucinações. Ou poderiam ser seres extraterrenos que haviam primeiro visitado o planeta Terra e pegado a câmera para estudo. e que a câmera era simplesmente uma dessas combinações fortuitas.) com a exposição a alguma espécie de raio cósmico e depois o meteriam numa instituição especial. ao longo de muitos bilhões de anos. espaço e matéria? A chaleira pensa que é a única coisa que existe? — Eu estava pensando. a geometria e as máquinas que exploravam as estrelas. criava a linguagem.” Obturador. "biruta". — Está bem. “É o momento. Um artefato poderia ter-se formado pelo acaso? No olho humano há dezenas de milhões de conexões elétricas que podem manipular dois milhões de mensagens simultâneas. — Quer que eu chame a United Press ou devemos manter esse milagre aqui na igreja? — Devemos procurar as impressões digitais que ficaram naqueles painéis corrediços dentro do confessionário.) e um emblema de cadete do espaço. deixando novamente Kinderman com a sensação de doença.. Ryan afastou-se. O cérebro humano. Este é o lugar apropriado. — Do lado de dentro só se encontrariam as impressões do padre — comentou Ryan.fora do tempo.. com uma porção de matzohs (Pães ázimos. pouco mais de um quilo de tecido. Como explicaria a presença da câmera ali? Podia pensar que seu pouso não tivesse sido o primeiro. — Por que acha que convocamos este encontro? Procure as impressões do lado de fora dos painéis e também por dentro. regulador de velocidade.” Podia ouvir os passos dos paroquianos deixando a igreja.

As pessoas que Atkins retivera na igreja estavam sentadas nos dois últimos bancos. As centenas de milhões de anos de evolução desde o paramécio até o homem não resolviam o mistério. Vou me apresentar. Kinderman levantou-se com um suspiro e acompanhou Atkins até outro confessionário. como se estivesse ansioso por seu destino e impaciente pela morte de seus sóis que esfriavam. — Só mais umas poucas perguntas. As células do sangue se enfileiram quando encontram a constrição de uma pequena vera. do qual o universo nunca poderia se recuperar. Um cérebro humano é encontrado em Marte. Atkins? Será mesmo? Ryan estava passando um pó pelo lado externo dos painéis e Kinderman observou-o por um momento. se o ouvido humano fosse mais sensível. Poderia fazer a gentileza de entrar no confessionário? O confessionário era dividido em três partes distintas. — Não se esqueça do lado de dentro — lembrou ele. um advogado na casa dos quarenta anos. Quando se tocam. O mistério era a própria evolução. Paterno. as células do coração batem em ritmos diferentes. Primeiro. Um corpo humano é encontrado em Marte. um furacão empilhando palhas em medas. The Tombs. em Maryland. — Será mesmo. um graduado de Georgetown e proprietário do 1789. E. para um estado final de pleno acaso. na casa dos cinquenta. passam a bater como uma só. Era Richard McCooey. com o corpo do padre ainda lá dentro. George Paterno era o treinador de futebol americano da Bullis Prep. uma atraente moça de vinte anos. no entanto. O cérebro pode detectar uma unidade de mercaptan entre cinquenta bilhões de unidades de ar. A evolução era um teorema escrito numa folha que flutuava contra a correnteza do rio. sr. no fundo e à direita das portas. Ao seu lado sentava se um homem bem-vestido. . de uma complexidade sempre crescente. até entrar em contato com outra célula. onde o detetive se encontrara muitas vezes com um amigo falecido vários anos antes." — Já esvaziamos a igreja. Um planejador estava em ação. era estudante da Universidade de Georgetown. ''E o que mais? É tão evidente quanto pode ser. Susan Volpe. pois ele também era proprietário de um popular restaurante num porão. e Kinderman calculou que devia ter trinta e poucos anos. um restaurante a um quarteirão da igreja. com suas pálpebras gradativamente descaindo. Quando um homem ouve o barulho de patas no Central Park não deve olhar ao redor à procura de zebras. A tendência fundamental da matéria era para uma desorganização total. — Levarei apenas um momento. Richard Coleman. tenente. trabalhava no gabinete do procurador geral. — Ótimo. — Não esquecerei — murmurou Ryan.cobriria a superfície inteira da Terra. por favor — disse Kinderman. Era baixo e forte. O olhar de Kinderman fixou-se em Atkins e depois desviou-se para o confessionário. No compartimento do meio. ouviria as moléculas de ar colidindo. que negava a sua própria natureza. Kinderman parou para examiná-las. Kinderman o conhecia. ali estava a evolução pensou Kinderman. pensou Kinderman. A cada momento suas conexões estavam sendo desfeitas e ele se lançava no vazio de sua própria dispersão inconsequente.

Disse que ouviu o painel se fechando do lado oposto em determinado momento. enquanto a história de Paterno era de que pensara que o homem de blusão ainda não terminara. Terminada a confissão. com capuz. cabeça raspada e suéter de gola rulê. o padre mantinha o painel do seu lado aberto. do lado esquerdo. Lembra-se disso? — Lembro-me. mas descrito como tendo olhos verdes. virara-se para ouvir a confissão de um homem à direita. depois fechou a porta de Paterno. Quando um penitente fazia a confissão. o homem de blusão eslava do outro lado. — Escute com toda a atenção. um homem com cerca de vinte anos. entrou no compartimento do confessor e se sentou. Tornou a abrir o painel de Paterno. Por volta das seis e trinta e cinco daquela manhã. Havia um painel corrediço em cada parte. aparentemente sem ter feito sua confissão. Paterno? Paterno estava ajoelhado no compartimento do penitente. mas descrito como usando calça branca e um blusão preto de lã. O lugar do velho fora ocupado por McCooey. Kinderman pensou na resposta por algum tempo. disse: . o falecido. por favor. — Enquanto estava no confessionário — continuou Kinderman —. Quando Paterno começou a se levantar. tinham genuflexórios e portas. Ele olhou para Kinderman. bastante escura. depois entrou o velho e finalmente o sr. com um saco de compras. Tanto ele como Paterno havia ficado esperando na escuridão. não ouvi. o fato é que a vez de Volpe ou Coleman nunca chegara. McCooey. Paterno não saíra do confessionário. saiu do compartimento esquerdo do confessionário. ficava sentado o confessor. — Fecharei o painel do seu lado — disse a Paterno. piscando os olhos. — Ouviu alguma coisa? — Não. Nessa ocasião. — E disse que presumiu que o homem de blusão terminara. lentamente. Fora Coleman quem notara o sangue escorrendo por baixo da porta. antigo reitor da Universidade de Georgetown. Depois de um período descrito como “longo”. depois de fazer uma confissão bastante longa. Contudo. Depois de seis ou sete minutos. — Sr. com o mínimo de claridade que entrava por uma grade no alto da porta. abriu o painel do outro lado. — Isso mesmo. o velho saiu. Qualquer que fosse a verdade de suas declarações. McCooey alegando que presumira estar o padre ocupado com Paterno. bem claros. esse homem saiu e o lugar foi ocupado por um homem idoso. ainda mais porque Paterno estava na sua frente.equipado com uma porta. Kinderman assentiu. — Ouviu o painel deslizar de novo? Como se o padre se lembrasse de repente de que ainda havia uma coisa que queria dizer? — Não. dos lados do confessor. no escuro. Fechou o painel do lado de Paterno. O lugar foi então ocupado por George Paterno. ele fechava aquele painel e abria o do outro lado. Depois. também ainda não identificado. onde um segundo penitente aguardava. padre Kenneth Bermingham. ainda não identificado. Os outros dois compartimentos. À cor estava gradativamente voltando ao que parecia ser uma pele azeitonada.

do lado esquerdo. — Então houve uma pequena hesitação ao deslizar? — Exatamente como você acabou de fazer. — Ouviu alguma coisa? — Ouvi o painel fechar. depois de uma pausa: — Como se o painel deslizasse até certo ponto. Abriu a porta e olhou para Paterno. — Foi mais de dez minutos? . Um pouco alto. — Mais alto do que o normal? — Um pouco alto. — Dez minutos? — Não sei. Abriu o painel e olhou para Paterno. — Cinco minutos? — Não sei. largou o puxador de metal e. encontrou o puxador no fundo do painel e fechou-o o máximo que pôde. empurrou-o pelo resto da distância. Paterno obedeceu. sr. fechando-o com uma pancada abafada. usando a pressão das pontas dos dedos no seu lado do painel. — Descrevê-lo? — Isso mesmo. Bastante alto. — Acho que fiquei. — E quanto tempo se passou desde que ouviu o barulho até o momento em que o corpo foi descoberto? — Não me lembro. — E não fitou espantado por sua vez não chegar logo depois disso? — Se eu fiquei espantado? — Porque sua vez não chegou. — Mais do que o habitual? — Foi. até fechar. Paterno. parasse em seguida e tornasse a deslizar. Nesse ponto. antes de esbarrar em seu pulso. sim. depois. — Parecia o mesmo som que ouviu quando esperava que o padre se virasse para o seu lado? — Exatamente o mesmo. por favor. Mas acabou dizendo. Kinderman enfiou a mão no compartimento do confessor. Kinderman levantou se e foi até o compartimento do penitente. Kinderman saiu do compartimento do confessor e ajoelhou-se do lado do penitente da direita. descreva-o. — E como pode ter certeza de que foi fechado? — Houve um baque ao final. Como foi o som? Paterno parecia hesitante. — Feche o seu painel e preste atenção. — Fique onde está. — Exatamente o mesmo? — Exatamente — Descreva-o. por favor.

— Não ouviu nenhuma palavra? — Nenhuma. — Não tem certeza? — Não. com o Ato de Contrição. não tenho. — Nenhum murmúrio? — Nenhum. — Pois não? — Quanto tempo acha que ele ficou no confessionário? — Talvez sete ou oito minutos. — Pois não? — O velho com a sacola de compras. — Mas não ouviu nada dessa vez? — Não. Coleman. sr. O advogado fitou-o. aturdida. O detetive disse- lhe: — O velho com a sacola de compras. ele ficou na igreja ou foi embora? Ela contemplou-o com os olhos vidrados por um momento e depois respondeu: — Talvez eu o tenha visto ir embora. Kinderman digeriu as respostas por um momento e depois perguntou: — Houve outros sons enquanto estava no confessionário? — Vozes? — Qualquer coisa. Volpe? A moça ainda estava abalada e fitou-o. — Costuma ouvir vozes quando está no confessionário? — Às vezes. O advogado estava olhando para o relógio. como costuma acontecer no final. Volpe. Pode voltar ao seu lugar. Talvez um pouco mais. — Obrigado. Kinderman observou-os. — Havia alguma coisa esquisita no comportamento dele? — Esquisita? — Havia alguma coisa estranha no homem. Volpe? Ela teve um sobressalto. Coleman? — Ele apenas parecia um pouco senil — respondeu Coleman. — Disse que ele já devia passar dos setenta anos? . — Notou alguma coisa. — Srta. Mas só quando as pessoas falam alto. srta. Depois da confissão. — Pensei que por isso ele demorara tanto. — Ele continuou na igreja depois que terminou a confissão? — Não sei. — Não tenho certeza. — Não ouvi ninguém falando. Paterno levantou-se depressa e foi sentar-se junto com os outros. Desviando os olhos de Kinderman. mas não tenho certeza. srta. sr.

Estava estalando um pouco os lábios e mais nada — Estalando os lábios? — Isso mesmo. quase não olhei para ele. A verdadeira história é que esse badejo que saiu do frio não fica na praia. essa é a fábula. sempre lendo. uma pequena tentativa. Apenas respira um pouco. Quer melhor? Tudo científico? Pois estou aqui para atendê-lo. Apenas normal. passa a tocar banjo e a cantar as histórias de seus tempos felizes em terra. Cobriu o percurso em oito passos. reparou alguma coisa estranha no homem de blusão? — Não. cada vez melhor. Fontainebleau. a vida de playboy está acabada. Isto é. nasceu a lenda da Carpa de Piltdown. Ou talvez não. talvez por centenas de milhões de anos. Kinderman pensou naquilo por algum tempo. Havia um brilho de satisfação nos olhos do advogado. Não resta a menor dúvida de que é possível. acompanhe-os até a porta. Obrigado pelo tempo de vocês. E finalmente declarou: — Isso é tudo. que Deus me ajude. na mente popular. jamais se divertindo no . como se Atkins estivesse viajando para Moçambique e pudesse não voltar. — E muito. uma simples fungadela. Bernie”. — Mas pode dizer se ele estava irritado? — Estava calmo. — Srta. . Muito bem. E. Miami Beach. É importante. Acho que vou ficar por aqui e respirar”. É possível que tenha se retirado em seguida. na porta. Kinderman olhou para a moça. depois volta ao CTI do oceano. . tão simples assim. Atkins acompanhou as testemunhas até o guarda. quando morre. Mas Atkins voltou e postou-se diante dele: — Pois não. os descendentes sempre tentando. mas Kinderman observou-o com uma preocupação ansiosa. muito magro. — E depois ficou na igreja — disse Kinderman. ele põe alguns ovos. Um testamento assinado: “Façam isso por seu pai. Eles insistem em dizer que tudo é acaso. — Eu não disse isso. porque toda essa prática está passando para os genes. E finalmente um deles. Depois de toda essa prática. até o dia em que um peixe mais esperto olha ao redor e diz: "Maravilhoso. Se o peixe respira o ar. deixa um testamento dizendo que seus filhos devem tentar respirar na terra. senhor? — Mas uma coisa a respeito da evolução. sr. E depois volte aqui. Foi para o seu banco e talvez tenha dito a penitência. — E o homem de cabeça raspada e o homem de blusão? — acrescentou Kinderman. Assim. — Alguém pode me dizer se ficaram na igreja ou foram embora? Não houve resposta. Obrigado. a cada geração. — Apenas normal? — Isso mesmo. Volpe. de óculos. Com todo o amor. Mas é tudo um schmeckle. Bilhões de peixes aparecem na praia. Andava com dificuldade. Sargento Atkins. E os filhos atendem. cai morto no mesmo instante. — Não foi nada. — Aceito a correção. Coleman. Passa o tempo fazendo isso e talvez consiga respirar mais um pouco. não há sobreviventes. — Ele andou? Para onde? — Para o seu banco. Assim continua.

Isso lhe garantirá o ingresso de graça no Clube Cosmos. dentro de certos limites. o homem de cabeça raspada e o homem de calça branca e blusão preto de lã. precisa de comida. bárbaros. ao que eu saiba.. Cada peixe tem de recomeçar do início. Mas. e nada muda nos genes em apenas uma vida. respira o ar e continua respirando. é o suficiente. E essa é a história que sai das bocas dos cientistas para a sua credulidade. tudo fácil. Mas não há por que se preocupar. estou simplificando. que todos os seus filhos não têm qualquer dificuldade em respirar ar durante todo o tempo. E isso. embora esse problema torne toda a coisa impossível. precisa de água. Há mais ainda. Em relação a essa teoria sobre o peixe há um pequeno problema. o homem com a sacola de compras. até que a casca surja lépida e faceira e diga: ‘Desculpe o atraso. Não tem qualquer conhecimento médico. O réptil está sorrindo. Até ai. Atkins. Não poderia acontecer. e muita comida. não é mesmo? Sem qualquer dificuldade. por uma incrível coincidência? Posso lhe garantir que essa é uma ideia que somente os idiotas adotam. Pense nisso. estamos procurando um psicótico com conhecimentos médicos. A coisa não é tão fácil assim. Além disso. Enquanto isso. E a clara do ovo toma a lugar da água. mas bem pouco conhecimento. mas o rabino falou demais’. está tudo acabado. pois acontece que toda essa prática de respirar não chega a parte alguma mesmo numa velocidade máxima. O grande slogan para o peixe é “Um dia de cada vez”. Conheço McCooey e sei que ele é relativamente são. Isso o deixa um pouco nauseado? Pois vou me apressar. o embrião não pode se livrar de seus refugos. Está certo. não demora muito está jogando boliche com os schvartzers. Vou parar por aqui. Mas como isso pode ter acontecido? Todas as mudanças que se deram no embrião aconteceram ao mesmo tempo. porque todas essas transformações. Mas o bebê réptil. é claro. embriões. e adeus. Eles sobem para a terra seca e põem seus ovos. O único problema deles é andar e talvez vomitar. O mesmo acontece com Paterno. ou vai secar lá dentro e nunca nascerá. Mas aqui está a história dos répteis.. Ficaria tudo perdido. E Deus sabe que isso não os detém. São crimes brutais. faz questão de manter à sua vista cada peça de roupa que possui. mas já é o bastante por enquanto. precisamos de uma bexiga. Está certa. Paterno. O segundo ponto é que temos agora cinco pessoas como suspeitas: McCooey. estamos como répteis até os nossos tokis. porque vai se tornar uma pessoa adulta. para manter as coisas certas.. têm de acontecer ao mesmo tempo! Está me entendendo? Todas ao mesmo tempo! Se falta uma delas sequer. Ou “filo”. A gema do ovo não pode aparecer e depois ficar esperando um milhão de anos. Fale com as pessoas em Okeefenokee e elas lhe dirão. Há também necessidade de alguma espécie de draydle. o assassino também é o assassino de Kintry. crescida. Portanto. Em . Mas ainda é cedo. É a comida. E assim se forma uma casca resistente. antes que a outra se processasse. E diz para você: ‘Estou indo embora’. não haveria nenhum assassinato aqui hoje..ginásio com os colegas. Cada mudança estaria derhangenel imediatamente. totalmente vinculadas à emiss ("Verdade". no ovo do réptil. Só que a clara precisa de um invólucro em torno ou se evapora. Enquanto isso.. em relação a este crime. A ciência nos apresenta muitos fatos. inclusive o fato de que em seu quarto. no ovo. Por causa dessa casca. Mas não é o que eles também fazem? Hoje em dia... É desnecessário dizer. Dentro do ovo aparece um bocado de gema e diz ‘Aqui estou’. alguma ferramenta que o pequeno embrião possa usar para escapar da casca dura. Teria ocorrido a maior gritaria. considera-se automaticamente gênio qualquer schlump que diz “vertebrado”. Sem o uso de um agente paralisador instantâneo. Você precisa de alimento? Pois vai ter.. “Não estou dizendo que sou contra a evolução.

Mas o homem de blusão viu o padre em seguida. com tanta espera. — Obrigado pelo lembrete oportuno. Kinderman encaminhou se para o outro confessionário. Pode ter acontecido assim. É possível que o homem de blusão esteja nervoso. obtenha de Bullis a história médica dele. não. Kinderman sempre gostara dele. É um dos outros. O sargento assentiu. o que significa que ele estava vivo. Mas o homem de blusão também pode ser o assassino. Portanto. Ou que tenha ficado cansado. E uma vez tomaram uma cerveja no Tombs. Todas as fotos já haviam sido tiradas. O sangue fora removido e os ladrilhos cinzentos e lisos brilhavam. é claro. a respeito dos sons dos painéis. Ainda estavam úmidos. como Coleman pensa. mas vai embora sem falar com o padre. É possível que ele estivesse com vontade de peidar. O velho está esperando.B. a fim de que o homem com a sacola de compras não percebesse que o padre estava morto. No terceiro. Mas a verdade é que o assassino não precisa ficar esperando no confessionário. o assassino é o homem de cabeça raspada. Para ser franco. Cruzou os braços. havia muito tempo. Estava curioso sobre as perguntas que Kinderman fizera antes a Paterno. Pode ter pensado que estava perdendo a maior parte da missa. — Preste atenção. Conhecera o padre assassinado. Ryan estava se aproximando. McCooey e Paterno estão de fora. Ele poderia fechar o painel. — Temos uma porção — respondeu Ryan. O homem de blusão está esperando enquanto o de cabeça raspada comete o assassinato. e a suposta senilidade poderia ser uma encenação. — Pois vou começar a ler seus direitos — disse Kinderman. Ryan afastou-se e foi sentar-se na ponta de um banco. ao longo dos anos. Esse é o segundo roteiro. As palavras haviam sido pronunciadas. Ryan? — perguntou Kinderman. por trás dele. junto com Dyer. Outro caso.” Kinderman fez uma pausa. Restava apenas o exame de Kinderman. — Pois temos. Ele o protelara. Talvez até fossem necessárias para que esse nível funcionasse. Ou um bisturi. Atkins virou a cabeça. e resolva ir embora sem fazer a confissão. tornara a encontrá-lo. Kinderman fitou-o impassivelmente. quando na verdade apenas cochilou no escuro. Qualquer razão é possível. antes de arrematar: "O resto é silêncio”. não sei o que eu faria sem você. A decapitação com um arame ou uma tesoura de poda não exige muita força. — Tem razão — disse o detetive a Ryan. Atkins desconfiava de que as divagações de Kinderman encobriam o funcionamento de sua mente em algum outro nível. — Do lado de dentro e também de fora. que fora seu assistente.iídiche no original N. — Como podemos trabalhar com aquele cadáver lá no confessionário? Ali estava. Esse é o roteiro principal. Olhou para o chão. Ele mata o padre. Mas sabia que era melhor não perguntar. fecha o painel e deixa o confessionário. O terceiro ponto é que o velho seria perfeitamente capaz de cometer o crime.). de cara amarrada. Uma faca afiada também poderia fazer a mesma coisa. — Do lado de dentro. O . — Tem impressões digitais para mim. Ele foi também o último a ver o padre. Stedman acabara com o corpo há muito tempo. pusera-os em contato. E de vez em quando. E se é senil. — Um único jogo de impressões bem claras será suficiente. no fundo da igreja. O velho ficou muito tempo no confessionário. talvez tenha pensado que fez a confissão. O relato sobre o assassinato saíra numa cadência rápida e incisiva.

" “Pois então vamos acabar. “Deus existe.. Kinderman respirou fundo mais algumas vezes antes de se mexer. K. Afastou-se lentamente para frente da igreja. Mas quem sabia o que um Deus com defeitos poderia fazer? Se fosse menos que todo-poderoso. Deus. Estava faltando o dedo indicador direito.detetive ficou parado ali por algum tempo. a cabeça estava no colo de Bermingham. Quem está precisando?’’ Seus pensamentos resvalaram para a possibilidade de Deus ser um ser de poder limitado. pensativo. Kinderman cruzou as mãos no colo e contemplou-as. abruptamente. Baixou a mão e largou- a. Atkins observou-o. pensando: “Um homem tão grande e parece completamente desamparado". o Autor da gravidade e do cérebro. que novas torturas perversas Ele não poderia arquitetar? Um Deus limitado? Kinderman tratou de repelir o pensamento. Descobrira que a noção de um Deus que não fosse todo- poderoso era tão assustadora quanto a inexistência de um Deus. Ele não podia dominar o câncer e a tiririca que invadia os gramados? Kinderman olhou para o crucifixo acima do altar e. Muito bem Devemos mantê-lo.” Mas não haveria qualquer limite para a tolerância de Deus? Kinderman lembrou-se de uma frase de G. Kinderman teve de baixar os olhos para vê-los. Muito bem. virada para fora. Kinderman largou a mão e olhou para o pequeno crucifixo preto pendurado na parede. O detetive sacudiu a cabeça." O pulo de sua mente de Deus para a perfeição não teve transição. Chesterton: “Quando o dramaturgo entra em cena. Mas Kinderman não podia deixar de resistir vigorosamente. Kinderman enfiou as mãos nos bolsos do casaco e olhou pata o chão. lentamente. O padre Bermingham estava sentado na cadeira do compartimento. o Pai das órbitas e das nebulosas girando. Atkins virou-se e foi falar com Stedman. Sem Deus. Sei disso. Era uma identidade sem movimento. Viu Kinderman parar quase na frente da igreja e sentar num banco." Mas em que Ele poderia estar pensando? Por que Ele não intervinha? “Livre-arbítrio. “Por que não?” A resposta era simples e direta. nessa posição. Havia sangue por toda parte. "Qual é a sua participação nesta história do macaco? Vai ou não responder? Prefere chamar um advogado? Devo ler seus direitos? Fique calmo. “Desígnio e causalidade". Posso lhe dar proteção. atrás da cadeira. os olhos do padre morto estavam arregalados. o Pastor das luas de Saturno. Examinou a palma e viu a marca de Gêmeos. Talvez ainda mais. como o Deus vaidoso. Permaneceu imóvel. a Presença nos genes e nas partículas subatômicas. um rústico? Um pobre coitado? Não pode ser. Virou-se bruscamente e saiu do compartimento.. sua expressão foi se tornando dura e exigente. exibindo uma expressão de terror. Basta que me responda a umas poucas perguntas. Atkins estava ali. está certo?” O rosto do detetive começou a se desanuviar e ele olhou para o crucifixo com humildade e . Em posição vertical. levantou os olhos e abriu a porta do confessionário. Levantou cuidadosamente a mão esquerda do padre. respirando fundo. As mãos estavam dispostas como se a segurassem para mostrá-la. por algum tempo. Depois. Sou seu amigo. — Avise Stedman. Podem tirá-lo e verificar suas impressões digitais. Sentia-se abandonado. “Deus. por que Ele não poderia também ser menos que todo-bom. a peça está acabada. caprichoso e cruel de Jó? Com toda a eternidade à sua disposição. — Podem levá-lo — murmurou. Examinou a outra. a morte pelo menos era um final. pensou.

fico logo aflito. Está muito emocionado. provavelmente de mentiras. Não poderia fazer mal. É humano. nesses poucos momentos. Quem se importa com isso? Não tem nenhuma importância. sai nadando para a praia como um doido. Já tenho Ryan. Não preciso ter a prova de que você realizou todos aqueles milagres. não é alguma imagem apregoada. “Quem é você? O filho de Deus? Não. posso sentir alguma coisa flutuar dentro do meu peito. Ninguém poderia sequer inventar.” . inteiramente nu. Ninguém aqui da terra jamais poderia dizer o que você disse. consistisse no total reconhecimento de uma verdade. é jovem. Era basicamente isso o que eu queria lhe dizer. Perguntei apenas para ser polido. mas sei que é Alguém. como se estivesse enlouquecendo. alguma coisa que dá a impressão de que lá esteve durante todo o tempo. E você sabe como eu sei? Pelo que você disse. Quem se intrometeu nesse departamento? Mas não importa. Quando leio ‘Amai a vosso inimigo’. que pensei que poderia partilhar com você. que os homens possam tê-lo inventado é um pensamento que me proporciona esperança. Quem poderia imaginar? As palavras o denunciam. Pedro devia amá-lo muito. Mal posso acreditar que tenha acontecido. Apenas nas janelas. “Mais uma coisa. Não é uma imagem goyscher sagrada. E por que não? Ele é um pescador. você sempre pode dar uma sacudidela nas janelas. “Mas já chega de amenidades. Lembra-se de quando os discípulos estavam no barco e o viram parado na praia e compreenderam que era você. Vou me calar. deve aproveitar. Estamos aguentando. Eu sei. Não sei quem você é. Amarra- o na cintura e salta do barco. mas não quer se retardar a vesti-lo. pega o trapo mais próximo — lembra-se disso? —. que havia se levantado dos mortos? Pedro estava de pé no convés. e mesmo agora o pensamento de que você possa existir me proporcionaria segurança e uma alegria que eu não poderia conter. Não quero começar nenhuma encrenca. sabe que não acredito nisso. Gostaria de afagar seu rosto e fazê-lo sorrir. “E eu também. algo pequeno. Isso é tão claro quanto um riacho. Você reparou? Jó não teve de passar por essa aflição. Isso o espanta? Pois é verdade. Mas naquele instante ele não pode esperar que o barco chegue à praia.admiração nos olhos. manda lembranças. Por acaso se importaria? Mas por que deveria? Estou apenas falando. tudo ao mesmo tempo. não perca o sono a se preocupar com esse problema. E se a situação se tornar muito complicada. Não se importa que eu seja um pouco franco não é mesmo? Não pode fazer mal. está bem? Não preciso de nenhum prédio caindo em cima da minha cabeça. Que você tenha existido é um pensamento que me proporciona refúgio. surpreendente e real. Estamos todos muito bem sob esse aspecto. cheia de reverência e formalismo. Quem é você? O que está querendo de nós? Que soframos como você sofreu na cruz? Pois é o que estamos fazendo. E também que o padre Bermingham. Não é uma coisa e tanto? Fico exultante sempre que penso nisso. E então sei que você é Alguém. um mito projetado. Assim. É como se todo o meu ser. Quem pode deixar de constatar isso? Você é Alguém. fora de si de alegria por constatar que é você. seu amigo. Por favor.

o anjo é imediatamente um holocausto. do lado direito do confessionário. na direção de Atkins. Ficou olhando fixamente para a caixa de lenços de papel. não me confunda com os fatos. Onde está Ryan? — Está fora. não tem estágios de fogo lento. em cima da mesa. o que quer que seja. Combinavam com as do outro lado do painel. Inclinou-se abruptamente. criando problemas para todo mundo? É uma piada. Kinderman sentou-se à mesa e empurrou para o lado alguns livros. Atkins levantara a ficha de Paterno. incendiado por um amor que jamais haverá de diminuir”. Não de acordo com a sua Igreja. de seus lantzmen. — Tem alguma ideia do motivo pelo qual a velocidade da luz deve ser a velocidade máxima no universo? — Não. Atkins o esperava. Preste atenção. Haviam encontrado impressões digitais no puxador de metal e na madeira ao redor do painel. Mesmo sendo um anjo caído. dobrado. Parecia imerso em seus pensamentos. — Diz também que essa situação nunca muda… anjo caído. — Foi o homem com a sacola de compras ou o de blusão. Não poderia ser. — O tenente começou a ler: — “O conhecimento de um anjo é perfeito. — Kinderman deu de ombros. o que dava para o penitente. o fogo do amor de um anjo não vai aumentando lentamente. Por causa disso. Por quê? — Não sei. — Estava apenas perguntando. e abriu-o onde estava o marcador. já que estamos nisso. uma conflagração intensa. Está aqui. — Não tem o menor interesse — alegou ele. Por favor. a fim de arrumar espaço para o relatório datilografado. E. neste livro chamado Satã. . A informação do Washington Post não mudara. Kinderman suspirou e recostou-se na cadeira. anjo shmallen. — Deparei com esta passagem por acaso. O relatório estava pronto. que outrora contivera picles. E não eram do padre. O uso de sucinilcolina no assassinato do padre estava confirmado. todos padres e teólogos católicos. em vez disso. — Era de se imaginar. — Tenho de pensar em cada pergunta? Kinderman pegou na floresta de livros verdes um exemplar. CAPÍTULO 7 TERÇA-FEIRA. sabe o que diz a sua Igreja sobre a natureza dos anjos? — Puro amor — respondeu Atkins — Exatamente. Por que nunca me disse isso antes? — Nunca me perguntou. E por que então toda essa história sobre demônios sempre shmutzing de um lado para outro. um papel encerado. — A talidomida cura a lepra — murmurou distraidamente. — Kinderman largou o livro entre os outros. mas Kinderman dispensou-a. 15 DE MARÇO Kinderman entrou em sua sala às nove horas. E pôs-se a estudá-lo.

fibra. E aí está o livre-arbítrio do homem. treinou pombos para serem pilotos camicases.” Kinderman largou o livro. É incrível. F. onde está o tal ‘estímulo’ que os behavioristas dizem que é necessário para que esse passarinho realize todas as operações. — Sei que não fará mesmo. a fim de que o penitente seguinte não veja o . Isso é um fato. — Não farei. E quando a taça está quase pronta. para cobrir apenas o exterior do ninho. Skinner fez uma coisa muito interessante: na Segunda Guerra Mundial. girando o corpo. Estava procurando outro livro quando Atkins perguntou: — Qual o significado das impressões digitais? — Aqui está! — exclamou Kinderman. Atkins. — Você pensava que era muito simples fazer ninhos. — Kinderman esperou por um instante. A parede em torno da entrada é reforçada. realizando uma série de manobras acrobáticas. Kinderman lançou-lhe um olhar furioso. a fim de ficar um buraco de entrada. até que alguns pedaços ficam grudados. esticando depois e usando para firmar tudo. não faça isso de novo. começam novos padrões de ação: compressão com o peito e bater das patas. primeiro de lado. Pois vou lhe falar agora sobre a petinha. liquens e penas. Depois que a taça se forma. — O que acabei de dizer. Começa então o trabalho com as fibras. Olhou para o livro e começou a ler: — “A petinha usa quatro materiais de construção diferentes: musgo. Essas atividades continuam até que uma plataforma tenha adquirido estrutura. o domo do ninho concluído. — Petinha? Kinderman fitou-o com uma expressão inescrutável. Pode procurar a confirmação em algum livro. A petinha volta ao musgo e começa a erguer uma taça em torno da plataforma. — Podemos aprender alguma coisa com as aves. Isso é inteligência? A petinha tem uma inteligência como a de um pé de feijão. a petinha passa a colher liquens. encontra um galho que se bifurca da maneira certa. Quando a taça está dois terços acabada. o que faz sentada. Mas acontece que estavam sempre se perdendo e faziam seu vôos explosivos sobre a Filadélfia. do lado de acesso mais conveniente. Escute o que diz este livro a respeito da petinha. E deve saber também que um pouco de musgo aqui. — Podemos aprender alguma coisa com as aves? — indagou Atkins. Atkins? Preste mais atenção. apenas confirmam o que eu já sabia. encontrando o livro que procurava e abrindo-o numa página virada ao contrário. — como a petinha faz seu ninho. um pouco de líquen ali constituem passos na direção de algum padrão ideal.. Primeiro. E como um ponto secundário. O assassino tem de fechar o painel. Os pombos tinham pequenas bombas amarradas na barriga. a rotina de construção é alterada. Atkins? Alguma espécie de parede pré-fabricada que se produz em Phoenix? Pois pense no que realmente acontece! O passarinho deve ter alguma noção de como o ninho deve parecer. — Por favor. As impressões digitais nada significam. mas o passarinho persiste. depois verticalmente. O musgo é recolhido e colocado na forquilha.. Mas então o que orienta a sua atividade? Acha que Ryan poderia construir um ninho assim? Mas não importa. A maior parte do musgo cai. que a petinha esfrega no musgo até grudar. treze tipos diferentes de trabalho de construção? B. Começa agora o trabalho de revestimento interno com penas. uma pequena espetadela.

— Muito obrigado. O padre estava na cama quando Kinderman entrou no quarto. Adieu. Talvez não. Atkins. — Neurologia. — Parou na porta. Esse é também o significado do fato de o som ter sido interrompido por um instante. — O nome dele. — Para um menino ou uma garota? — Para um menino. Procure a velha. em alguma outra ocasião: quem usaria calça branca no inverno? Um pensamento. uma pausa. depois o fechamento do painel. O detetive esperava que o tivessem mantido ocupado . Verifique se ela já está falando. — Muito engraçado — comentou a moça. senhor? Falou mesmo padre? — Falei. — Ouvi direito. E terminou de fazê-lo pelo lado de fora. Esse é também o significado do som muito alto que Paterno ouviu quando o painel do outro lado foi fechado. confortavelmente absorto na leitura de um jornal levantado diante do rosto. Passou de novo pela porta e não voltou. sim. Kinderman deu duas paradas a caminho do Hospital Geral de Georgetown. A moça lançou um olhar para o urso e depois para Kinderman. pensou Kinderman. Kinderman passou pela porta. Tinha no braço um urso grande de pelúcia. Kinderman levantou-se e foi pegar seu casaco. Chegou ao balcão de informações com um saco cheio de hambúrgueres do White Tower. providencie retratos falados dos suspeitos. A pasta de Gêmeos chegou? — Ainda não. Tinha uma inscrição: SE O PORTADOR TIVER DEPRESSÃO. Não se esqueça de mim. A moça da recepção olhou para a camiseta do urso. O assassino não poderia empurrar o painel até o fim pelo lado de dentro. antes de verificar a relação de pacientes. — Oi. DÊ-LHE CHOCOLATE IMEDIATAMENTE. O assassino queria convencer quem estivesse por perto de que concluira sua confissão e o padre ainda estava vivo. O deslizar. moça! — chamou Kinderman. — Dê um telefonema a cobrar. E convoque as testemunhas da igreja. Atkins estava sem saber por onde começar. Dyer se internara mais ou menos na ocasião em que o crime estava ocorrendo. É uma moça gentil. O assassino é o velho com a sacola de compras ou o homem de blusão preto de lã. quarto andar. Avanti. por ouvirem-no fechar o painel. Será que ele sabia?. vestido com um short azul-claro e uma camiseta. Sinto que devo estar preparado para lamentações profundas. Padre Dyer. Isso elimina o homem de cabeça raspada. As impressões e os sons estranhos são do lado direito. As impressões digitais são do assassino. Usava os óculos de leitura e estava sentado na cama. Vire à direita ao sair do elevador. — Vou visitar Dyer no hospital. sorrindo. — É apenas uma conveniência. por favor? — Padre Joseph Dyer. mas voltou um instante depois. Ele ficou no lado esquerdo. — Um tema para discussão. conforme disse Paterno. E também tem de fazer com que suspeitemos de outra pessoa.padre morto. Eu o verei nas águas de Babilônia. 404. — O chapéu está na minha cabeça? — Está.

— Tome aqui. Dyer apontou pata o pedaço pequeno e redondo de esparadrapo na parte interna do . Uma enfermeira baixa e corpulenta entrou no quarto. Estaria lendo a notícia do assassinato? O detetive olhou o jornal. Kinderman relaxou. jogando seus germes em cima de mim? — O que está lendo? — indagou Kinderman. Era o que se podia presumir pela atitude descontraída e a expressão serena do jesuíta. Dyer começou a abrir o saco.e alheio ao mundo exterior desde então. puxou-a para perto da cama e sentou. — Estou entendendo. do jornal. E daí? — O olhar do jesuíta desviou-se para o urso. Não posso dar conselhos espirituais no vácuo. padre. o mesmo lugar de onde você veio. É do White Tower. Trazia um torniquete de borracha e uma seringa hipodérmica. Mas o padre estava absorto na leitura. — De novo? Como assim? — Alguém me tirou sangue há dez minutos. — Preciso saber o que está acontecendo. — Women‘s Wear Daily. E achei que combinava com você. — Talvez eu coma um. — Não posso acreditar que você estivesse lendo Women’s Wear Daily. — Pegou uma cadeira. A representação hoje é de Anastácia. Pensei que tivesse me dito que não há nada de errado com você. — Vai sentar ou continuar parado aí. — Tenho de tirar um pouco do seu sangue. pálido de repente. Pôs o urso e o saco nas mãos do padre. — Está brincando comigo. Os sinais eram bons. Aproximou-se de Dyer. à procura do título da matéria. — Não acha que deveria em vez disso ler a respeito de seu departamento ou coisas assim? Quem sabe os Exercícios espirituais? — Não dão informações sobre todas as modas — comentou o padre.. — De novo? A enfermeira estacou abruptamente. Era evidente que Dyer gozava de perfeita saúde e ainda não tomara conhecimento do assassinato. — E então? — disse Dyer. Kinderman aproximou-se da cama. suavemente. — Coma os hambúrgueres. soturnamente. cautelosamente. em seguida e teve um violento acesso de tosse. — Nunca se pode saber. padre. — Não estou com fome. E ficou subitamente paralisado. — Isso é para mim? — Acabei de encontrar na rua. Seus olhos exibiam a firmeza de uma veterana.. — Pois então coma a metade. Dyer não o percebeu parado alí e Kinderman pôde estudar o rosto dele à vontade. — Ah. — Não gosta? — Tenho dúvidas sobre a cor — murmurou Dyer. — E de onde vem a outra metade? — Do espaço.

beligerante. — Desisto. Obrigado. PEGOU UMA CARPA DE MAIS DE METRO E MEIO E DECIDIU NÃO ESCREVER A RESPEITO DELA. padre? Estamos na Quaresma. — Aqui está o buraco. Quem precisa disso? A verdade é que você é um pé no tokis. Deu uma mordida grande e depois levantou os olhos para ver um médico entrando no quarto. Está sensacional. Ele meteu a mão no saco e tirou um hambúrguer. Olhou para um lado e outro do corredor e depois berrou: — Quem espetou o paciente do 404? Dyer ficou olhando pela porta aberta e comentou. Entregou-o a Kinderman. Quando vão fazer o exercício de ataque antiaéreo? — Eu já ia esquecendo. — As crianças estão morrendo de fome nas ruas de Calcutá. outra vez sombrio: — Adoro toda essa atenção. Mas o que eu consigo? Um padre que conhece os últimos lançamentos de Giorgio’s e trata as pessoas como o Cubo Mágico de Rubik. — Tirou um hambúrguer do saco e começou a comer. — Hum. — Onde encontrou isso? — Em Nosso Mensageiro Dominical. Por falar nisso. É o segredo desse hambúrguer. E tomei um banho. à mesa.antebraço esquerdo.. — Está gostando dos hambúrgueres. — O detetive observou Dyer pegar um segundo hambúrguer. severamente: — Tem razão. sim. A maioria dos judeus que escolhe um padre para fazer amizade sempre arruma alguém como Teilhard de Chardín. Kinderman levantou os olhos para Dyer. — Estava guardando para você. A legenda dizia: ERNEST HEMINGWAY. Observar Dyer deixara Kinderman com fome. QUANDO PESCAVA NAS MONTANHAS ROCHOSAS. Quer saber de uma coisa? Já estou começando a me sentir melhor. . — A mãe de Mary chorou. — Quero. — Quer um hambúrguer? Dyer estendeu o saco. — Virou-se e saiu do quarto. desconsolada. Não posso negar que estou com a maior vontade. sempre torcendo-as entre seus dedos à procura das cores certas. O cartum mostrava um pescador de imenso bigode. — Dá para sentir. a carpa ainda está na sua banheira? — Foi executada à noite. Abriu a gaveta da mesinha de cabeceira e pegou um cartum extraído das páginas de uma revista. com uma expressão solene. Bill. — É o picles que me deixa doido. — disse Dyer. — É porque não comem as vacas. — Estou isento do jejum.. — O que se pode chamar de pacífico. — É mesmo um lugar agradável — disse Kinderman. Por motivo de doença. ao lado de uma carpa gigantesca. A enfermeira olhou e murmurou.

Pegou a ficha de Dyer e estudou-a. Amfortas acenou com a cabeça e parou no pé da cama. esse seu médico — comentou Kinderman. — Apresento-lhe o dr. — Muito engraçado. — Prazer em conhecê-lo — disse Kinderman. — É bastante tempo. Não pôde sequer fazer muita coisa para lhe aliviar a dor. — Ah. Bill. — Ah. mas não conseguiu salvá-la. E ficou profundamente abalado. Amfortas. — Lamento muito. — Desde quando Milton Berle está praticando medicina? — Pobre coitado... Foi recente? — Há três anos. Começou logo depois que a mulher morreu. — Alguém me disse que terei alta amanhã — comentou Dyer. — E nunca mais se recuperou do choque.. Parece um ímã para as almas transtornadas. Bill.. — E sei mesmo. — Este é o meu amigo tenente Kinderman — acrescentou Dyer. Dobrou à esquerda no corredor e desapareceu. “O que ele está pensando?”. Amfortas olhou diretamente para o detetive. perguntou-se o detetive. mas alguma coisa se agitou no fundo dos olhos tristes e escuros. — Que tipo de pesquisa? — Sobre a dor. Mas ela morreu de meningite. Seu rosto permaneceu grave e melancólico. — Bom dia. Vai deixar a enfermaria esta noite. Amfortas tornou a acenar com a cabeça e pôs a ficha no lugar. Escrevia alguma coisa na ficha. Quer dedicar-se inteiramente ao trabalho de pesquisa. Kinderman pensou naquilo com o maior interesse. — Você parece saber muito a respeito dele. — As enfermeiras pareciam muito agradáveis — arrematou Kinderman. pois Amfortas logo se virou e saiu do quarto. — Divórcio? — Não. “É um sorriso o que estou percebendo por trás desses olhos?” O contato foi momentâneo. Vincent — disse Dyer. — Tem razão. — Devo tirar alguma conclusão pessoal desse comentário? . Vincent abriu-se comigo ontem. Ela morreu. — Eu já estava começando a gostar daqui — acrescentou Dyer. Vincent cuidou dela pessoalmente. Ele estuda a dor. — Há muita raiva fervendo dentro dele. — Ele fala? — Você sabe o que acontece com o colarinho clerical. Amfortas parecia não estar ouvindo-os. pela primeira vez desde que entrara no quarto.. — Pobre coitado? Qual é o problema dele? Já fez amizade com ele? — Vincent perdeu a mulher..

Outra pessoa na sala começa a falar com a garota. — Estou me referindo ao inconsciente. absorto na Women’s Wear Daily. fazendo uma porção de perguntas.. grandes nomes do passado. . — Esse é um problema apenas meu? — indagou Kinderman. Ouve os médicos e enfermeiras falando a seu respeito. pegou o jornal e abriu-o. certo? Diz a ela que a partir daquele momento não poderá vê-lo. — O que estão ensinando nas suas escolas? Passam o tempo todo discutindo amenidades teológicas no Seminário Ostrich para Cegos? Esse é um problema de todos. espantado. Quando todos voltarmos a Deus. é como se não tivesse acontecido nada. — É o procedimento comum quando se está perto de um louco. — Ou seja. essa coisa que agora conhecemos como inconsciente. — Que missa? — A das seis e mera da manhã. Tem toda a minha atenção. Escute o que Binet fez um dia. o urso não passou de uma porcaria sem importância. — Mas Kinderman suspirou. — Compreendo. Dyer ignorou o comentário. — Sobre a minha presença aqui no hospital e tudo o mais. enquanto Dyer acrescentava: — Mas quando se desperta da anestesia. Há anos que assiste à missa diariamente. — O urso deixou-me profundamente comovido.. na Igreja da Santíssima Trindade. — Estive pensando. — Concorda comigo? — perguntou Dyer. — Ele é católico? — Quem? — Toulouse-Lautrec. Alfred Binet foi um deles. Amfortas é católico ou não? — É. tenho pensado muito a respeito do seu problema. — Estas pessoas aqui estão quase sem roupa — disse Kinderman. fizeram todas essas experiências e descobriram que dentro de nós há uma segunda consciência. Sente a dor do bisturi. — Que problema? — O problema do mal. ouvi-lo ou saber o que ele está fazendo. — É melhor você começar a me tratar bem. — É verdade — disse Kinderman. Alguns psicólogos. Pega uma garota e a hipnotiza. — A sua presença aqui no hospital sem que haja nada de errado com você — corrigiu-o Kinderman. Põe um lápis na mão dela e papel à sua frente. talvez seja assim que acontecerá com a dor do mundo. — Comecei a pensar sobre as coisas que tenho ouvido a respeito da cirurgia. — Pode começar. — Kinderman levantou os olhos para fitá-lo. — Dizem que a pessoa sob o efeito de anestesia fica com o inconsciente a par de tudo. Bill. — Se a carapuça serve. — murmurou Dyer. Posso falar? — É muito perigoso. pode usá-la. — Eis aí uma novidade. De quem mais eu poderia estar falando a não ser do nosso doutor? — Você ê muitas vezes indireto. Por falar nisso. atônito.

continua a conversar com o primeiro psicólogo. transformam-se em monstros pelas terríveis mutações. a garota vai escrevendo as respostas para as perguntas de Binet! Não é espantoso? E tem mais. talvez mesmo tenha alterado todo o ambiente físico. a inteligência superior. Em determinado momento.. Tenho mais dois penitentes esperando no corredor. como os animais.. — O inconsciente. — As sobrancelhas de Kinderman se uniram. Começam a comer carne. está prestes a deslindar o problema do mal. Binet vai fazendo suas perguntas. E enquanto fala com o primeiro psicólogo. eles ficam inteiramente doidos e farmischt. é verdade o que você falou a respeito da cirurgia. não me machuque”. ao mesmo tempo.. isso de novo. Binet espeta a mão da garota com um alfinete. Talvez isso tenha criado os vírus que causam as doenças. — O que é exatamente? Quem é? O que tem a ver com o inconsciente coletivo? É tudo parte da minha teoria. — Kinderman inclinou-se para a frente. — É grande demais para você assimilar — disse Kinderman. Faz com que Deus pareça um pouco rabugento. — E estou falando fisicamente. Nem mesmo Deus pode evitar. Não podem evitar. Dyer desviou os olhos. padre.. com um gesto de impaciência.. — É uma piada. vão ao banheiro e gostam de rock. Acontece a mesma . se cada homem fosse uma das células de seu corpo? O olhar de Kinderman tornou-se abruptamente desconfiado. É genético. — Você está dominado pela inveja porque Kinderman. o judeu sagaz. fazendo com que tenhamos agora terremotos e catástrofes naturais. Mas o lápis continua em movimento e escreve as palavras: “Por favor. — Por que não me conta a sua teoria? Vamos ouvi-la e acabar logo com isso. — Ora. — Não acha que isso é um pouco improvável? — Claro que não. O pecado é uma condição que foi transmitida pelos genes. — E se cada homem que nasceu fosse uma parte de Adão? — indagou Dyer. De onde foi que tirou essa ideia? — O que acha dela? — Mostra que você está pensando. — Se o pecado foi o fato de os dentistas explodirem a Terra há muitos milhões de anos com alguma coisa como bombas de cobalto.Enquanto isso. Mas essa noção não funciona. — Por que não? — Porque é muito judia. Dyer virou a cabeça. — Estou vendo que não é apenas o catecismo dominical que aprendeu. Ela nada sente. Todos esses jogos de bingo estão tornando-o um pouco aventureiro. Não é extraordinário? Seja como for. Mas quem é? Kinderman lembrou-se subitamente de seu sonho e da declaração enigmática de Max: “Temos duas almas”. — Mas o que há de errado com o pecado original? — Os bebês são responsáveis por alguma coisa feita por Adão? — É um mistério. Mas admito que pensei muito nessa noção. com os olhos agora faiscando.. Quanto aos homens. — Meu cérebro gigantesco é como um esturjão cercado por barrigudinhos. — murmurou Kinderman. então teríamos mutações atômicas desse tsimmis. aborrecido. Alguém está sentindo todo o corte e a costura.

— O que há de errado com jornais desse gênero? Mickey Rooney viu um fantasma que parecia Abe Lincoln. — Tenho aqui alguns livros de que você pode gostar. Meu inconsciente está schmeckling tudo. Dyer parecia ofendido. — Isso é como uma luta de boxe — murmurou ele. Dyer bocejou. lave o rosto que está quase na hora do jantar’’ e esquecer todo o resto? Ele não poderia dar um jeito nos genes? O Evangelho diz para perdoar e esquecer. — De que tipo? Histórico? — Escrúpulos — pediu Dyer. visivelmente exasperado. Não deve se excitar antes do almoço. — Foi até o pé da cama e pegou a ficha médica de Dyer. o Globe ou o Star? — Acho que o Star sai na quarta-feira. — É do seu Evangelho — continuou Kinderman. Onde mais se pode ler notícias assim? O detetive meteu as mãos nos bolsos. mas esqueci de trazê-lo. vou lhe trazer um romance. olhando para a televisão apagada. Dyer virou-se e recostou a cabeça nos travesseiros. com cara de cansado. desde o início. padre. mas será que Deus não pode fazê-lo também? A vida futura é a Sicília? Puzo deveria saber disso. — Está certo. repondo a ficha no lugar.coisa com o que eu disse a respeito dos genes. Ele estendeu os livros e Dyer verificou os títulos. — Invasores Espaciais? Dyer virou a cabeça para fitá-lo e perguntou: — Poderia me trazer um jornal? — Qual deles? O National Enquirer. — Não ficção — murmurou ele. contrariado. — Depois do almoço. Não é isso mesmo? — Fico ansioso em encontrar qualquer ponto de contato entre nossos planetas. Kinderman fitou-o sem qualquer expressão. Virou-se e seguiu lentamente para a porta. Não pode me trazer um romance? Kinderman levantou-se. Mas quem está contando? — Se não encontrar Escrúpulos. Ele não poderia dizer “Adão. — Muito chato. Teremos O poderoso chefão quatro em dois segundos. Vamos encarar a verdade. O detetive assumiu uma expressão maliciosa. — Pare de me insultar e preste atenção à pista. E eu também vou almoçar. padre. estarás fazendo a mim. — Eu já estava no capítulo 3. Ele pode começar tudo de novo. . — Eles poderiam ao menos ter aqui um jogo de Invasores Espaciais — murmurou Dyer. — Vou lhe dar outra pista — propôs Kinderman — Eu gostaria que eles consertassem logo esse estúpido aparelho. — O que fizeres ao menor deles. Deus poderia acabar com toda essa tolice absurda no momento em que lhe aprouvesse. — Ainda estou trabalhando nela. pode trazer Princesa Margarida. — Mas qual é a sua teoria? — insistiu Dyer. — Depois de devorar três hambúrgueres? — Dois.

— Não posso lhe falar aqui. Por favor. Seus olhos escuros e cansados procuraram os do detetive. — Ele está bem — disse Amfortas. É melhor vestir um capote. Desejo que ela tenha boa sorte. Viu Amfortas ao lado da mesa de controle. — Vai lhe fazer muito bem. Uma coisa terrivelmente importante. Somente você pode. — Para onde vamos? Tem de ser um lugar próximo. Não seria possível irmos a algum lugar melhor para conversar? — Olhou para o relógio. usando um suéter azul-marinho. — Está certo. — Kinderman passou o braço pelo do neurologista e foi conduzindo-o na direção dos elevadores. Espere um instante. Eu me sentiria muito culpado. Amfortas afastou-se. assumindo uma expressão trágica de preocupação. Já posso ver a manchete: “Neurologista derrubado por frio excessivo. suavemente. Kinderman aproximou-se. vamos conversar. por favor. — Sei disso. pensou Kinderman. — Vai ficar com frio. — Este suéter está ótimo — insistiu Amfortas. — Talvez pudéssemos almoçar juntos. — Isto é suficiente. que vou pegar meu agasalho. Gordo desconhecido procurado para interrogatório’’. É muito importante. podemos ir — disse a Kinderman. — Está bem. Precisa de um pouco de ar fresco nas faces. Voltou pouco depois. — Não é. — Vamos ao The Tombs. Amfortas sondou os olhos do detetive por um momento e finalmente disse: — Está certo. parecendo cauteloso. — Mas obrigado por sua preocupação. não. apesar disso. Precisa se agasalhar melhor. Somos ambos amigos do padre Dyer. escrevendo numa prancheta. Ele estava sorrindo? Quem podia . O tom de urgência atraiu a atenção do médico. Como está. Mas depois não diga que não o avisei. não se pode dizer que é exatamente a imagem da saúde. Kinderman olhou para o suéter. sacudindo a cabeça. E um pouco de nosh não o deixaria mais magro. Um blusão já serve. — Dr. Avançou um pouco pelo corredor e parou. Já vi que você é teimoso. O detetive lançou um olhar avaliador para o médico. Mas não poderia ser na minha sala? — Estou com fome. Mas. voltando a se concentrar na prancheta. eu não posso ajudá-lo. “Quanto mistério existe neles!” — Eu gostaria de lhe falar sobre o padre Dyer. Kinderman saiu do quarto. Mas o problema é outro. Algo mais quente. “Esses olhos". — É uma refeição que nunca faço. Kinderman parecia desanimado. — Muito bem. Pegue um casaco. — Qual é o problema? Kinderman olhou ao redor. — Pois então apenas fique me observando. Sua mãe sabe dessa bobagem de omitir as refeições? Mas não importa. Amfortas? O neurologista levantou o rosto.

O The Tombs tinha toalhas quadriculadas em vermelho e branco nas mesas. embora às vezes fossem um aviso de tumor no cérebro. — Não mande consertar o aparelho de TV do quarto dele. — Ele sabe? — E já conversamos sobre isso. — Foi típico dele. onde a cerveja era servida em grossas canecas de vidro. tenente? . cruzadas sobre a mesa.. enquanto desciam os degraus do The Tombs. um homem num hospital. Depois que se sentaram. — Foi para isso que me trouxe até aqui? — Não seja rão insensível. Olhava para as mãos. ele vai saber.. impassível. um balcão esférico de carvalho escuro. Não queria me preocupar com sua angústia e por isso fez uma encenação. Se consertar a TV. Amfortas fitou-o. — Vamos para lá. Além do mais. As paredes estavam cobertas por gravuras e litografias do passado de Georgetown. Kinderman desviou os olhos. pensou Kinderman. Amfortas não disse nada. o detetive fez algumas perguntas sobre o estado de Dyer. Kinderman comentou: — Estou com muita fome. qualquer que seja o seu estado. incrédulo. — Como? — Não mande consertar o aparelho de TV do quarto ou ele descobrirá. O detetive pareceu ficar aturdido. naquele caso decorriam mais provavelmente de tensão e excesso de trabalho. — Pois aquele padre era amigo de Dyer. O bar ainda não estava apinhado. Estava com a cabeça abaixada. O padre Dyer tem uma alma delicada. — O que estava querendo me dizer? Kinderman inclinou-se para a frente. — Por que me trouxe até aqui. Avise às enfermeiras. — Vai comer alguma coisa. — Descobrirá o quê? — Não ouviu falar do assassinato do padre? — Claro que ouvi. — Tensão? Quem poderia imaginar? O homem parece mais relaxado do que macarrão. — Acontece que ele já sabe. — Qual é o problema de Dyer? — perguntou ele. como se ignorasse tudo. E também não deixe que ele receba jornais. doutor? Amfortas sacudiu a cabeça.saber? “Ele é um caso muito duro”. doutor. A caminho do The Tombs. com uma expressão e uma atitude vagamente agourentas. O que se podia concluir era que os sintomas descritos por Dyer. — Excesso de trabalho? — repetiu o detetive. Amfortas parecia preocupado e respondeu em frases curtas ou sacudindo a cabeça. com um ar de reconhecimento e resignação. doutor. não deve receber noticias assim. Kinderman encontrou um reservado vazio num canto mais ou menos isolado. pois faltavam alguns minutos para o meio-dia.

Kinderman baixou os braços. Não pude me conter.. Era jovem. Mas essa não é a questão no momento. estudava na universidade. Você se importa? Eu precisava de alguma artimanha para podermos conversar um pouco a esse respeito. — Por quê? Tenho certeza de que não foi para falar sobre a televisão. com um gesto da mão. Pode trazer para mim. mas Amfortas recusou. — Poderia me trazer um chá. E mais nada. — Eu menti — balbuciou o detetive. . — É verdade. num gesto de espanto. erguendo as mãos acima da cabeça. E me diga uma coisa: por que a gravata e o colete verdes? — É o dia de São Patrício. com gengibre e nozes? — Temos. — Com qualquer coisa. Amfortas permaneceu como uma presença sombria. Mas ele dissera um gracejo? — E também a tortilla — murmurou Kinderman. — Isso mesmo — disse Amfortas. Neste momento. Vão querer mais alguma coisa? — Tem canja de hoje? — Com macarrão. por favor. — Uma xícara de café. Seu olhar era desconcertante. Leva-me à loucura. — Também não vou almoçar — disse Kinderman. sim. Não sei como manter uma cara impassível. as faces começavam a se avermelhar rapidamente. Seu rosto estava agora inteiramente vermelho. Usava gravata e colete verdes. — Sobre o quê? — Dor. sou culpado. um homem chamado Ryan. doutor. doutor. sinto-me embaraçado e lhe devo desculpas. afinal? — Vai me perdoar? Eu queria sondar sua mente. com uma fatia de limão? E alguns bolinhos. — Sou muito transparente. Virou o rosto e começou a sacudir a cabeça. polidamente. Mas sabiam que eu era fraco e insistiram: “Minta ou terá quiche e uma fatia de melão quente no almoço!" — Uma tortilla seria mais eficaz — disse Amfortas. — Não vou comer nada — disse ele. Forças estranhas me dominam. por favor. porém. — Os dois vão almoçar? — indagou. Estou perdoado? Ou talvez com a sentença suspensa? — Tem alguma dor recorrente? — Tenho. prolonga-se por toda a semana. — O que é então? Um garçom apareceu com cardápios antes que o detetive pudesse responder. Sou indigno. Menti. Amfortas fitava-o atentamente. Estendia os cardápios para ambos. suavemente. sorrindo. O rosto do neurologista se mantinha inescrutável e seu olhar ainda era impassível. é um especialista. — Pois traga alguns. Seus olhos estavam opacos e esbugalhados. Não é o assunto. senhor. sim. No The Tombs. — Por que eu o trouxe até aqui? — repetiu Kinderman. O padre Dyer disse que trabalha nisso.. — O que você quer. Tem aqueles redondos. como se ele fizesse um grande esforço para sustentar o olhar do médico. O detetive virou a cabeça. Ofereci-lhes bolinhos e elas disseram: “Não amole’’. — Tornou a virar-se para Amfortas.

a vergonha da minha delegacia. Não pode fazer mal. pouco antes de bater no chão? Ouço rumores a respeito de tais coisas. São queimadas vivas. Não estão gravemente feridas. Está feliz agora. doutor? Está bem. doutor? Use o meu cérebro para experiências e descobrirá por que isso acontece. Ou o choque. É horrível. Já sabe que sou detetive de homicídios. — Mas não sei com certeza. — Por que isso o preocupa? — Qual é a sua religião. os católicos o convertem num santo. conforme lemos nos jornais depois. — É tudo especulação . Mas qual é a resposta pata a minha pergunta? Amfortas baixou os olhos para a mesa e disse suavemente. — Sou testemunha de muita dor que é infligida a pessoas inocentes. o sangue tende a afluir para os órgãos vitais. — Ele deu de ombros. E eu terei pelo menos um pouco de paz quando morrer. nem sequer comem as baratas. Diversas coisas poderiam acontecer. fitando Kinderman nos olhos. Além disso.. Isso é verdade. — Não pode deixar um homem manter um resquício de dignidade. sim. — Um homem circula a perseguir cobras como um lunático. Deus as salva de uma dor horrível? É como naquele filme. Mas o que essas crianças estão sentindo. Isso explica as informações de que a pele se torna entorpecida. doutor? — Sou católico. vai compreender. não podem sair. Com crianças no automóvel. num esforço para protegê-los. com as maneiras pelas quais criancinhas inocentes podem morrer. — Estava falando em dor. — Pois então saberá. — Kinderman virou-se de novo para Amfortas e acrescentou: — Pequenas cobras de jardim. — Estou ficando velho. O detetive deu de ombros. — É tudo uma loucura — murmurou ele. Esse é um comportamento racional. totalmente inofensivas. — Mas o que acontece se todas essas coisas não ocorrerem? — insistiu o detetive. doutor? — Você é um detetive de homicídios muito estranho — comentou Amfortas. por exemplo. doutor? — Pensei que estivesse com muita fome. — Uma verdade. O céu pode esperar. A inalação de fumaça pode matar as crianças antes do fogo. Minhas indagações estão relacionadas com a bondade de Deus. Os mortos não nos contam. — Ninguém sabe. em que o anjo tira o herói do avião avariado. mas o carro está em chamas. as crianças presos lá dentro. Esse problema tem me levado à loucura durante toda a vida! Havia um esboço de sorriso nos olhos do médico. Kinderman olhou para a outra mesa. Saberei a resposta. não é mesmo? — Já. doutor? Ouvi em algum lugar que a pele se torna insensível. Em vez de dar-lhe uma linda cela acolchoada num sanatório. tenho de pensar um pouco nessas coisas.. O garçom acenou com a cabeça e afastou-se para providenciar os pedidos. foi outra mentira. Poderia ser verdade? Há um acidente de automóvel. Sempre me comporto assim Sou um mentiroso totalmente incorrigível. Só podemos supor. No final. onde estava uma caneca cheia de cerveja. Ou um ataque cardíaco.

— Como Deus pode deixar que tal horror continue? É um grande mistério. Outros não farejavam o fósforo aceso. cessam de funcionar e a dor acaba. — O sr. pensou Kinderman. — Darei o recado. Não á tão importante assim. transcorrem vinte segundos. — A dor é uma coisa estranha — continuou Amfortas. — Não é para mim. Kinderman. até a morte. — Poderia perguntar se ele pode falar comigo por um momento? Se ele estiver muito ocupado. Deve tomar toda a sopa. desde a infância até a maturidade. A pessoa está plenamente consciente. o cachorro reagia da mesma maneira a um segundo ou terceiro fósforo aceso. a dor é a mais terrível que se possa imaginar. Também não se sabe com certeza quanto tempo se passa até que isso aconteça. Mas não pode ser mais de dez segundos. O problema está me corroendo. o sistema nervoso fica sobrecarregado. como batidas e o som de raspar. Até lá. Tem vitaminas e coisas que só são mencionadas no Torá. recuaram num reflexo e no instante seguinte voltaram a farejar a chama. — Não costuma pensar a respeito dessas coisas? E não fica furioso? Amfortas hesitou por um instante. em que terriers escoceses foram criados em jaulas isoladas. — Falarei com ele. Quando estavam plenamente crescidos. Kinderman estava sacudindo a cabeça. não há problema. O garçom afastou-se. E se estiver ocupado. — Como Amfortas começasse a recusar. olhando para baixo. mas também não . Mas os cachorros não reagiram de uma maneira normal. Amfortas desistiu e deixou o garçom pôr a sopa na sua frente. Mas não mencionei uma coisa: quando a dor se torna insuportável.. Dê-a ao doutor. McCooey está por aqui? — perguntou Kinderman. Estava pondo a sopa diante de Kinderman quando este o deteve com um gesto. senhor? — William F. com as implicações mais peculiares. sentindo a dor em toda a sua intensidade. — Estava tentando responder de acordo com as suas pressuposições. Qual é o seu nome. Está cheia de benesses estranhas. O garçom chegou com os pedidos. “Qual é o seu segredo?” Tinha a impressão de discernir aflição e um anseio em partilhá-la. doutor. sofreram a aplicação de estímulos dolorosos.. — Acho que está lá em cima — respondeu o garçom. Há também experiências com cachorros. que pudessem lhes causar desconforto. Sua adrenalina está sendo bombeada ao máximo. Para de funcionar e a dor termina. Não seja teimoso. por favor. Amfortas olhava para a sopa. sendo privados dos estímulos ambientais. Muitos colocaram o focinho num fósforo aceso. depois sustentou o olhar do detetive. não precisa se incomodar. Ele me conhece. — Pois então especule. — Ele levantou os olhos. Quando a chama se apagava. — Ah. Kinderman interrompeu-o: — Não me obrigue a chamar sua mãe. Amfortas descreveu para o detetive uma série de experiências de 1957. inclusive dos menores ruídos. Quando os terminais nervosos queimam. — Talvez eu o tenha levado a interpretar o problema de maneira errada — disse Amfortas. — Desde a primeira sensação. — Cerca de dois por cento das pessoas aliviadas de uma dor prolongada desenvolvem graves distúrbios mentais. "Esse homem está morrendo de vontade de me dizer alguma coisa”.

quando os responsáveis pela experiência a encostavam em seus focinhos. Estou ficando velho. Preciso ir. Em contraste. Como o amor de Deus. mas o neurologista não disse mais nada. Mas interrompa-o assim mesmo. Ando muito rabugento. — O Sr. mas encaminhou-se para a escada que levava ao segundo andar. doutor: Deus não poderia ter pensado em algum outro meio de nos proteger? Em alguma outra espécie de sistema de alerta para informar que nossos corpos estão com problemas? — Como um reflexo automático? — Algo como uma campainha que começasse a soar em nossa cabeça. criados num ambiente normal. — Não estou com fome. gentilmente. Amfortas levantou o rosto e fitou o detetive nos olhos — É de admirar que acredite em Deus. . — Olhou para o relógio. — A dor é muito misteriosa — concluiu Amfortas. — Então por que nossos corpos não poderiam ser imunes aos ferimentos? — Pergunte a Deus. O garçom ainda parecia em dúvida. que tilintou ao bater no prato. E os cachorros não reagiam a espetadelas insistentes. Achei que não deveria incomodá-lo. doutor. — Estou perguntando a você. — Pode interrompê-lo. toda essa coisa a que chamamos de alma? Amfortas tornou a consultar o relógio e repetiu: — Acabei de me lembrar de uma coisa. — Não conheço a resposta. por diversas vezes. — Não acha que é tudo um conjunto de neurônios. — Acabei de me lembrar de uma coisa. Lamento muito. Kinderman? — O garçom estava de volta. reconheciam o possível dano e num instante os pesquisadores não eram mais capazes de tocá- los com uma chama ou espetá-los. — Está ficando fria. McCooey parecia muito ocupado lá em cima. — Mas disse que não era importante! — E não é. E às vezes não sou sensato. Amfortas tomou uma colherada e depois largou a colher. Kinderman tornou a concentrar sua atenção em Amfortas. outros cachorros das mesmas ninhadas.faziam qualquer esforço para evitar a chama. — Então o que faz no seu laboratório? — Tento descobrir como acabar com a dor quando não precisamos dela. senhor. doutor — disse ele. Kinderman esperou. — Diga-me francamente. — Sr. O detetive pareceu ficar irritado. — Está certo. — Tome a sua sopa. com todo o seu conhecimento do funcionamento do cérebro — comentou Kinderman. Preciso ir. — O que aconteceria então quando você cortasse uma artéria? Poria um torniquete imediatamente ou aguentaria a campainha até terminar a mão de bridge? E se fosse uma criança? Não daria certo.

Como podem então tornar-se o que são em seu cérebro? Há vários outros mistérios que você deve considerar. deixando apenas as que são necessárias para alcançar seus objetivos no momento. E algumas pessoas com a maior parte do cérebro removida . tenente. Ele relaxou e perguntou. É verdade? Seja honesto. Não pode ficar mais um minuto? Além do mais. Um é o “executivo” ligado aos pensamentos. doutor? Quem precisa recorrer a essa coisa chamada alma quando o cérebro está obviamente fazendo essas coisas? Não estou certo? Amfortas inclinou-se um pouco para frente. Uma expressão agradável estampou-se no rosto de Amfortas. Fique mais um pouco. O que está tomando essa decisão? O que está tomando a decisão de tomar essa decisão? E aqui vai outra coisa em que pensar. você é bombardeado por centenas. É a mesma coisa que um padrão de descargas elétricas que correm entre fios no cérebro? Você olha para uma laranja. como essas coisas podem ser o mesmo fato? Quando você pensa no universo. A cada segundo. Avista uma grande extensão homogênea. talvez milhares. Algum nervo fora atingido. como o contém dentro de seu cérebro? Ou. mas sou terrivelmente tímido quando se trata de conhecer novas pessoas. de impressões sensoriais. — Não importa. os cérebros dos esquizofrênicos são muitas vezes mais bem estruturados que os cérebros de pessoas sem problemas mentais. os objetos desta sala? Têm formas diferentes de tudo o que existe em seu cérebro. tenente? — É essa chazerei do cérebro contra a mente. As pessoas me dizem o tempo todo que sou muito indireto e estou tentando corrigir isso. Mas filtra todas imediatamente. gostaria que me dissesse algo: as coisas a que chamamos de sentimentos e pensamentos não passam de neurônios que estão disparando no cérebro? — Está querendo saber se são a mesma coisa que os neurônios? — Isso mesmo. Ele ficaria. seria indelicadeza sair agora. Ainda não terminei o meu chá. Há anos que tenciono visitar algum neurologista para falar sobre isso. Mas a projeção cortical desse círculo em seu lóbulo occipital não é circular. Minha tigela de sopa matzoh entornou. enquanto o velho branco senil fica falando e babando. Assim. embora possivelmente em demasia. Mas aqui está você. Ocupa um espaço elipsoidal. Isso é civilizado? Nem mesmo um curandeiro faria uma coisa assim. diga-se de passagem. — Por que pensa assim? — E por que não. aumentando algumas cabeças encolhidas para passar o tempo. É o que se chama de boas maneiras. “Será que estou louco? Ele já fez isso!” — Onde você estava? — Como? — murmurou Amfortas. Coisas que me atormentam. Mas estou indo muito longe nesse assunto? Diga-me francamente. Enquanto isso. Falou efusivamente: — Vamos supor que você esteja olhando para o céu. Ainda tenho algumas coisas que preciso dizer. — Qual é a sua opinião? Kinderman acenou com a cabeça. Produz uma imagem circular em seu campo sensorial. — Em que posso ajudá-lo. dizendo quase firmemente: — Acho que são a mesma coisa. Kinderman parecia perplexo. Essas decisões incontáveis são tomadas a cada segundo em menos de uma fração de segundo.

apontando para o médico. tenente. — O prazer é meu. — Prazer em conhecê-lo. um blazer azul-marinho e uma calça cinza de flanela. o detetive viu McCooey se aproximando da mesa. olhou para o relógio. — Wilder Penfield não acha que a mente seja o cérebro. — Já tinha me dito isso. — É mesmo? — É. Estou me referindo a coisas como o espanto e a autopercepção. E alguns de nós chegam ao ponto de achar que a própria consciência não está concentrada no cérebro. tenente. Amfortas — disse Kinderman. É um dístico. — Adoro dísticos. Concordo com você. Pelo canto do olho. dr. E Sir John Eccles pensa da mesma forma. — Ele toca numa célula do cérebro e a pessoa ouve uma voz do passado. esteja tudo espacialmente situado dentro da consciência. — Richad McCooey. — Exatamente os meus sentimentos — disse ele a Amfortas. a mente não é o cérebro. — Queria falar comigo. E um pensamento final para você. mas sim algo que lhes estava sendo feito. inclusive o cérebro. E com isso o neurologista inclinou-se sobre a sopa e pôs-se a tomá-la famintamente. — “Se a massa do cérebro fosse a massa da mente. Ou experimenta uma determinada emoção. — Qual é o problema? — É o chá — respondeu Kinderman. sim. — Mas o que me diz desse cientista que usa elétrodos? — indagou Kinderman. Tenho certeza. então o cérebro possui algumas capacidades totalmente desnecessárias para a sobrevivência física do corpo. — Você é um homem muito estranho. Há motivos para suspeitar que todo o corpo humano.. McCooey virou-se para o detetive. — O chá? — Que tipo está usando atualmente? . Ainda usava as cores de sua escola. As sobrancelhas de Kinderman se altearam. — Adoro este em particular — continuou Amfortas. — Mas seus pacientes sempre disseram que todas as coisas produzidas neles pelos elétrodos não eram parte deles.. — Fico espantado ao ouvir tais noções de um homem da ciência — comentou Kinderman.continuam a funcionar individualmente. — Como? Amfortas olhou para o detetive por cima da colher de sopa. E se a mente é o cérebro. tenente? Kinderman levantou os olhos para McCooey. Ele estava com os óculos sem aros e parecia atencioso. assim como o próprio mundo exterior. É um fisiologista britânico que ganhou o prêmio Nobel por seus estudos do cérebro. — Estou bancando um pouco o advogado do diabo. o urso estaria atirando no meu traseiro”. McCooey inclinou-se e apertou a mão do neurologista. — É Wilder Penfield — respondeu o neurologista.

tenente? Os olhos de Amfortas esquadrinhavam Kinderman atentamente. — Eu me lembro. Por que pergunta? — Se alguém no hospital quisesse roubar um pouco. Obrigado. — Era sobre isso que queria me falar? — Eu poderia falar de uma centena de banalidades e não sei mais o quê. Kinderman olhou para Amfortas. poderia fazê-lo? — Poderia. quando ninguém estiver olhando. Isto é. — Quer dizer que alguém que não fosse do hospital poderia roubar a droga? — Se soubesse o que procurar. — Estamos de partida. McCooey virou-se sem dizer mais nada e afastou-se. — Agradeço e retribuo. Mas é bastante usada na terapia de eletrochoque. — Gosta desse filme? — Gosto. Teria de conhecer a programação de requisição e entrega da droga. É um homem muito cortês. — O que pediram? — Só isto. — Sorriu com a recordação. — É muita gentileza sua. Mas por que pergunta? Kinderman tornou a esquivar-se à pergunta. — Não. — Se eu perguntasse no hospital. Juro por Deus. — Trabalha às vezes na Psiquiatria? — Às vezes. Foi para isso que me trouxe até aqui. — Costuma usá-la no hospital? — Claro. Mas essa ternura e . — O gosto parece um pouco diferente. — Eu também. que acabara de tomar a sopa. Admito que sou um grande apreciador de schmaltz. Joe Pendleton estava sempre dizendo isso. — Muito bom — comentou Kinderman. — Tem mais alguma pergunta? Amfortas encostou a mão na xícara de café. — Esta é uma mesa para seis. McCooey fitou-o sem qualquer expressão. — Lipton’s. Está me entendendo? Como estávamos conversando. eu mesmo não a uso. — Eis aí uma expressão que eu adoro. é claro que eles haveriam de querer parecer eficientes e diriam que é impossível. — Como? — Pode tirar de um carrinho de remédio. não foi. Faz-me lembrar de O céu pode esperar. Estava fria. vou dispensá-lo. O mesmo de sempre. tenente. — Sucinilcolina — disse Kinderman. McCooey olhou friamente para a mesa. Kinderman sentiu que alguma coisa saía dele espontaneamente. Mas já que estamos aqui… — O detetive não concluiu a frase. presumi que me diria a verdade. — Sua mãe vai receber um bom relatório. Mas como é um homem bastante ocupado.

.. . a tendência é não olhar para as outras pessoas. Mas acho que não era. Kinderman avaliou-o agora com um novo interesse. — Nunca o tinha visco antes? — Não sei.. Mas ainda ficou por um momento. — Quando se está esperando o momento da confissão. Mas o quê? O quê? — Já acabou o café. revisando os pecados.inocência. Estavam transbordando com alguma coisa. Amfortas novamente surpreendia o detetive. doutor. pelo menos não me lembro. — Pode jurar que não era ele? — Não. E finalmente disse: — A sucinilcolina. Kinderman estendeu a mão. Deveríamos conversar sobre essas coisas em outra ocasião. O detetive suspirou.. — Vi. não acho. Kinderman observou-o a caminhar entre as mesas. Ah. — Não acha mesmo? — Não. — Tem certeza? McCooey pensou por um instante. Fica-se na maior parte do tempo olhando para baixo. — É uma preparação para a morte. E duvido muito que fosse. — Vou ficar. Vejo milhares de pessoas em minhas casas todos os anos. Kinderman suspirou. McCooey levantou-se e aproximou-se. — Mas viu o homem de blusão. — O homem que estava à minha mesa — disse Kinderman. pagou a conta e depois subiu os degraus até o escritório de McCooey. O detetive procurou os olhos trágicos. Se eu o vi. que vida. doutor? — Já. — Tem toda a razão. Perguntou sobre isso por causa do assassinato. e pagarei a conta. Depois. depois se levantou para ir embora. Amfortas acenou com a cabeça e afastou-se. — Deu uma boa olhada no rosto dele? — Dei. — Viu ou não? — Acho que não. mordeu o lábio inferior e sacudiu a cabeça. — Não o viu na fila para a confissão ontem? — Hã. fitando Kinderman nos olhos. Kinderman deixou o escritório de McCooey e seguiu a . sim. depois subir a escada e desaparecer.. Chamou o garçom. Mas não posso dizer se era o mesmo. . Amfortas apertou-a firmemente. Encontrou-o conversando com um contador. Sei que é um homem muito ocupado. já desapareceu. Foi muito gentil em me dispensar um pouco do seu tempo. não é mesmo? — É. sim.. — Tem alguma reclamação contra o ketchup? Kinderman fez um sinal para ele. inescrutável por trás dos óculos. McCooey fitou-o.

A vendedora olhou os títulos e comentou: — Tenho certeza que ela vai adorar. concluiu Kinderman. até sua alta. — Também acho. Kinderman foi até o balcão. Virgínia”. — Mais alguma coisa? O detetive não ouviu a moça. Continha um conjunto de prendedores de cabelo cor-de-rosa. Viu o Relatório Hite sobre a sexualidade masculina. Abriu uma página ao acaso e leu. Ficou olhando fixamente para ela. Encontrou Escrúpulos e tirou-o da estante. levando os livros. E foi nesse instante que uma coisa atraiu sua atenção. Kinderman procurou alguma bugiganga engraçada para acrescentar ao tesouro. O balcão estava repleto. Tirou uma embalagem plástica de uma caixa. mas acabou escolhendo um romance gótico. Procurou mais alguma coisa para ajudar o jesuíta a manter o equilíbrio. “Ele vai devorar este livro imediatamente”. sacudindo a cabeça. Entrou na loja do térreo e foi para a seção de livros. cada um com a inscrição “Great Falls. pé para o hospital. .

começando pelo primeiro andar. da enfermeira de plantão ou até da assistente social. A segurança era rigorosa. com o zíper aberto. Kinderman correu os olhos pelas paredes. — A enfermeira Allerton. passavam os dias na imobilidade. Para isso. acatando ordens que eram cumpridas ao pé da letra. Haviam feito investigações sobre a velha encontrada perto da casa de barcos. de um dos médicos. sempre diferentes. que produzia um estado de senilidade prematura. Havia também depressivos e esquizofrênicos. muitas vezes com expressões fixas e bizarras no rosto. além de alcoólatras. Duas fotos o mostravam na pose meio agachada de um pugilista. ao lado da Neurologia. O olhar de Kinderman deslocou-se para Temple. No quarto andar. pacientes de pós-derrame e vítimas da doença de Alzheimer. E em todas ele sorria para a câmera. um cubículo estreito. com dezenove ou vinte anos. A outra seção era a chamada parte aberta. Entre o labirinto de corredores e quartos dos pacientes. Ali ficavam os pacientes propensos a acessos de violência. Sua doença fora classificada a princípio como uma forma ligeiramente catatônica de demência . Estavam cobertas por diplomas e fotografias de Temple. estava de luvas. Totalmente distanciados de seu ambiente. Estavam sentados na sala dele. Ao lado da mesa havia um quadro: “Um alcoólatra é aquele que bebe mais do que seu médico”. Não havia qualquer medida de segurança na seção aberta. num formulário de autorização. Seu nome era Martina Otsi Lazlo. Uma era a enfermaria dos mais agitados. Às vezes se mostravam suscetíveis à palavra. CAPÍTULO 8 O Departamento de Psiquiatria do Hospital Geral de Georgetown estava localizado numa ala grande. E por acaso ela está de serviço neste momento. Todas as outras fotos mostravam Temple enlaçando mulheres bonitas. Fora transferida do Hospital Distrital. Na base do bloco estavam impressas as seguintes palavras: PARA SER TIRADA EM CASO DE EMERGÊNCIA. Os pacientes ali eram inofensivos. A maioria era de idosos e ali estavam por causa de senilidade em estágios diversos. para si mesmos e para os outros. E já está vindo pata cá — informou Temple. Kinderman mostrara uma fotografia dela em cada setor do hospital. — Não posso acreditar que essa mulher tenha recebido permissão para sair daqui desacompanhada — comentou o detetive. Era dividido em duas seções principais. — Quem assinou a autorização para ela sair? — perguntou Kinderman. ela fora reconhecida como paciente da seção aberta. Parecia jovem. perto do posto da enfermeira da seção aberta. era necessário apenas a assinatura. Havia ainda um punhado de pacientes que eram catatônicos passivos há muito tempo. na Psiquiatria. onde passara quarenta e um anos. camiseta e a proteção de cabeça do boxe universitário Seu olhar era ameaçador. Os pacientes tinham até permissão para deixar o hospital durante o dia ou mesmo se ausentar por alguns dias. como os paranoicos e os catatônicos ativos. Havia cinza de cigarro espalhada pelos papéis. a espada da lenda do rei Artur. havia também celas acolchoadas. Kinderman baixou os olhos para a mesa e viu uma cultura verde da Excalibur. evitando o alto da calça do psiquiatra.

Esse diagnóstico persistira. O rosto do psiquiatra começou a ficar vermelho. — Das duas horas da tarde até as dez da noite. entrou na sala. Uma enfermeira jovem e atraente. assinou a autorização de saída para a sta. mas Kinderman interrompeu-o: — Já os vi. senhor. — Havia algo mais acontecendo. senhor. Ela nem mesmo saiu no meu turno. — Srta. A enfermeira se mostrava nervosa e afogueada sob o olhar dele. Temple começou a imitar os gestos. A enfermeira levantou os olhos para ele. Ela passou tanto tempo no Hospital Distrital que ninguém mais se interessava por seu caso. — Temple estendeu a autorização para a enfermeira. — Era o seu turno — comentou Temple. . — Examinei o caso dela e percebi imediatamente que havia algo estranho — disse Temple. — Ê mesmo? — Ela está agora em nossa enfermaria. doutor? Temple olhou para a enfermeira. — Qual é o significado dos movimentos? Uma batida de leve na porta impediu a resposta. acrescentando: — Está datada de sábado e assinada por você. Temple ficou contrariado com a falta de mira. não assinei. na época de sua inauguração. — Isso é ótimo para ela. — Lazlo? Não. Perderam até os primeiros registros dela.precoce. — Então o que é isto? — Temple pegou uma autorização de cima da mesa e começou a ler para a enfermeira: — Paciente: Lazlo. Com as mãos. enquanto examinava a autorização. Juro que não fui. hem? — O que deseja. Assinou a autorização de saída no sábado. Martina Otsi. até a transferência de Lazlo para o Hospital Geral de Georgetown. em 1970. Ação: Permissão para visitar o irmão em Fairfax. — Entre — disse Temple. na casa dos vinte anos. Mas errou o alvo e o fósforo foi cair em cima da pasta aberta de um esquizofrênico. — Essa letra não é sua? — indagou Temple. — Ninguém mais sabe o que está fazendo. Acendeu uma cigarrilha e jogou o fósforo negligentemente na direção de um cinzeiro em cima da mesa. Lazlo no sábado? — Como? — Lazlo. Temple acrescentou para o detetive. O rosto da enfermeira ficou ainda mais franzido. — Não escrevi isto. Ela as mexe assim. E um dia a vi fazendo aqueles gestos estranhos. menina? — Não fui eu. Fiz uma conferência dos pacientes às nove horas e ela estava na cama. Virgínia. com uma expressão maliciosa: — Escolhida a dedo. não é mesmo? A enfermeira parecia aturdida. Allerton. até 22 de março. um tipo de senilidade que começa na adolescência. — Está querendo brincar comigo. Kinderman não podia deixar de antipatizar com o psiquiatra. embora a terminologia mudasse.

— O que é diferente? — indagou Temple. Oh. — Não está preocupado com o incidente? — Claro que não. Kinderman examinou a autorização. — Temple arrancou a autorização da mão dela e começou a examiná-la. — É verdade. Lazlo sair do hospital? — Isto é um hospício! — exclamou Temple. . — Já sei o que é.. — Não acha que é muito estranho alguém falsificar uma autorização para deixar a srta. a letra é a minha. depois virou-se rapidamente e saiu da sala.. — Está se referindo à equipe? — É uma coisa contagiosa. — Parece a minha letra. — Claro. — Temple olhou para a enfermeira. Mas tenho certeza que não fui eu que escrevi.. — Isso não é conhecido como paranoia? — Muito esperto. Kinderman devolveu a autorização a Temple. Um pouco de cinza caiu em seu ombro. Tornou a pegar a autorização e acrescentou: — Provavelmente foi uma brincadeira de algum interno meio retardado. Lazlo? Temple deu de ombros. Apareça quando tiver uma folga e lhe pagarei um café. deixando uma mancha escura.. — Está tudo certo.. estendendo a mão. a letra seria parecida com a sua. Ou talvez de alguém que esteja querendo me prejudicar. não sei mais nada! — A enfermeira examinou novamente a autorização. Tem alguma coisa diferente. Ele espanou-a. mas não é. em lugar de pontos? — Posso dar uma olhada? — perguntou Kinderman. — Obrigado. — Não importa? — Eu estava brincando. não importa.. — A srta. levantando os braços. — Deixe-me dar uma olhada. — O que foi mesmo que disse? — Nada. A enfermeira Allerton acenou com a cabeça. — Isto não passa de lixo. enquanto a enfermeira insistia: — Eu não escrevi isso. — Os olhos de Temple se reduziram ao mínimo. — Uma pausa. — Mas a quem em particular está se referindo? — Ora. — Mas se fosse esse o caso. meu bem. Isto é um hospício.. e nem todos os malucos são pacientes. nada. — Ela própria pode ter escrito. — Temple pegou a autorização de cima da mesa e largou-a no cinzeiro. — Acho que tem razão — murmurou Temple. — Não sei direito. Kinderman olhou para o psiquiatra.. Temple entregou-lhe a autorização. Está se referindo a esses pequenos círculos. não é mesmo? Os pequenos círculos sobre os is. — Não! Isto é. — Mas por que alguém haveria de querer fazer uma coisa dessas? — Já lhe falei.

Também sou uma espécie de detetive. — E quem a falsificou? — Não sei. A palavra foi pronunciada enfaticamente. Lazlo? Temple voltou a fitá-lo nos olhos. — Isso é mesmo verdade? Quer dizer que é seguro trazê-la de volta para cá? — Eu diria que sim. tudo é feito com máquinas. — Tem. O detetive observou-o em silêncio por um momento e depois perguntou: — Qual é o significado dos estranhos movimentos da srta. — E por que pensou assim? — Não sou exatamente um estúpido. Mas está mesmo convencido de que a autorização foi falsificada? — Não tenho a menor dúvida. sim. — Inclinou-se para a frente. não é mesmo? É a mesma coisa. — A condição humana. Lazlo saindo? Ela estava acompanhada? — Não sei. — Vou lhe explicar o que fiz. Lazlo tem a ver com os assassinatos? — Não sei. Os movimentos de Lazlo possuem um padrão. — Não estou entendendo mais nada. Desviou os olhos depois de um momento e disse: — Não. enquanto esperava. pensou Kinderman. Temple imitou os gestos da mulher. como sabe. — Um dia eu estava na oficina de um sapateiro. — Sei que não é. Ao contrário. Sei que vai apreciar. — É mesmo? — Não resta a menor dúvida. — Foi o que pensei. Mas posso descobrir. é um homem extremamente inteligente. Fiquei observando-o trabalhar. Lazlo na cama? — Claro. esperando que ele consertasse a sola de um sapato. Você não para de fazer essas perguntas. Agora. em todas as ocasiões. com um sorriso de satisfação. — Alguém viu a srta. Eu fizera a pergunta por causa de um súbito pressentimento que me ocorrera. Mas o que há de tão importante nisso? Tem alguma relação com os assassinatos? — Que assassinatos? — Ora. creio que servo-croata. Ela está envolvida. sob muitos aspectos. — Meu trabalho é bastante parecido com o seu. mas não diretamente. Deixarei um bilhete. — Costuma haver alguma conferência dos pacientes depois das nove horas da noite? — A enfermeira do plantão da madrugada faz uma conferência das camas às duas horas — Poderia perguntar a ela se viu a srta. — Mas o que a srta. O garoto e o padre. rindo: . — Pode acontecer. — Há alguém na sua equipe que costuma fazer círculos em cima dos is? Temple fitou Kinderman nos olhos. O sapateiro respondeu. Mas aproximei-me dele e perguntei: “Como fazia esse trabalho antes de ter as máquinas?” Ele era velho e falava com um sotaque forte. sabe muito bem. Enfaticamente demais.

uma mulher na casa dos quarenta anos. — O que acha do meu trabalho de detetive? — indagou o psiquiatra. identificou-se inteiramente com o homem. Conversei com o residente psiquiátrico a respeito dela. Pode adivinhar qual era a ocupação dele? — Era sapateiro? — Isso mesmo. Quando ele a deixou. — Temple recostou-se na cadeira. Um dia fui ao quarto da mulher. Encostei meu ouvido no dele e escutei. Não tinha a menor dúvida de que a mulher estava de miolo mole. E perguntei: “Em que ouvido escuta o estalido?” Ele respondeu: É sempre no esquerdo. — É muito interessante — comentou Kinderman. — Soltou uma risadinha. Acho que foram cinco dólares. em seu tímpano. E ocorre ainda cedo. Mas. Ela não pôde suportar a perda e por isso tornou-se ele. depois de trancar a porta. e fazia estágio em ginecologia. Examinando-a. Sabia que ele estava internado há quase seis anos? Por causa do estalido. Acima de tudo. um depressivo. havia uma paciente. Não vai acreditar no que ela contou a todas as enfermeiras”. — Eu estava pensando… Quando era estudante de medicina. é preciso ser criativo. — A pessoa tem a capacidade para isso ou não tem. levando uma pequena escada de mão e um lençol de borracha. até o pescoço. Pedi a ele: “Mostre- me como fazia”. Desci da escada. Sempre. exultante. Ele me fitou nos olhos e disse: “Freeman. — Sou bastante favorável ao uso da hipnose — continuou Temple. com toda a . É um instinto. Nunca no outro”. Os dias foram passando e cada vez mais eu me convencia de que ela era pirada. Mas o residente psiquiátrico não se convencia. pelo resto de sua vida. E fiquei esperando. E sabe que aquilo se parecia exatamente com os movimentos que a srta. estava constantemente resvalando e fazendo o ruído. Ela não podia acreditar no que estava vendo. ajeitou meu sapato entre os joelhos e começou a trabalhar. Um dia depois esbarrei com o residente psiquiátrico no almoço. Ele conversou com a mulher e depois me disse que não concordava com o meu diagnóstico. com quem pensava que ia casar. antes de arrematar. tirei o pau para fora e mijei em cima da cama. Ele sentou-se. mas ofereci-lhe algum dinheiro. peguei e dobrei o lençol. que sentia dores misteriosas na cona.“Fazíamos tudo à mão”. Adivinhe o que descobri! Pouco antes de ficar doida. E sabe que pude ouvir nitidamente o estalido? E bastante alto! O martelo. Lazlo sempre faz? Era a mesma coisa! Entrei em contato com o irmão dela na Virgínia e fiz-lhe algumas perguntas. levando o lençol e a escada. Era evidente que ele pensava que eu era um idiota. Kinderman sentia uma tristeza profunda. Assim que soube que o estalido era real. você estava certo em relação àquela mulher. Subi na escada. Lazlo foi abandonada pelo namorado. — Muitos médicos não gostam. com as tiras de couro compridas imaginárias com que se costumava ligar as solas nos sapatos. a srta. — Muito mesmo. Mas essas pessoas podem ficar pior do que já estão? A verdade é que a gente tem de ser detetive e inventor para ser bom de fato. Quando eu era residente. Acham que é perigoso demais. Um pensamento súbito me ocorreu quando acabei de entrevistá-lo. pensava que estava doido. e então ficava deprimido. que escutava continuamente. E já tem mais de cinquenta anos. Um dos seus sintomas era um estalido no ouvido. Perguntei: "Importa-se se eu escutar?” Ele disse que não. ela tinha apenas dezessete anos. trabalhei num estudo sobre um paciente. superou prontamente a depressão. fiquei convencido de que o caso dela era de psiquiatria. Ele alegou que estava ocupado demais para isso. Nós o curamos com uma cirurgia e lhe demos alta. E saí do quarto. Pus o lençol sobre ela.

Quase todos eram idosos e olhavam fixamente. E ele se mostrou bastante cordial.. Eu gostaria de conhecê- lo. Mas o centro das atividades era uma vasta sala de recreação. Temple abriu a porta. vivem desdenhando a psiquiatria. apaticamente. Tenho o maior orgulho dele. sempre se tem de fazer uma porção de coisas. Outra coisa: será que alguém poderia me mostrar o local? — Kinderman levantou-se. o psiquiatra apontou para um grupo de pacientes. Kinderman visitou toda a seção aberta. para o vídeo. — Não se preocupe. — Espere um instante. tenente. Não há outro jeito. o neurologista? Os olhos do psiquiatra se estreitaram um pouco. Sei que é um homem ocupado e não poderia tomar o seu tempo. Lazlo costuma ficar. apontando para a direita. Faço questão de mostrar-lhe tudo pessoalmente. — Eu me sinto um pouco culpado. — O local em que a srta. — Eles discutem o dia inteiro sobre o programa a assistir. Ali está um paciente típico. Abriu-me os olhos para muitas coisas. A enfermeira de serviço passa a maior parte do tempo funcionando como juíza. uma mesa de pingue- pongue e um aparelho de TV. Alguns médicos. — É aqui que se concentra a ação — comentou Temple. — Não há qualquer problema — insistiu Temple. De jeito nenhum. Kinderman levantou as mãos. Não pode imaginar quanto. Está com o homem certo. com um posto de enfermaria. a maioria com quartos para os pacientes. Amfortas. Era um labirinto de corredores. de outros ramos. — Nossa conversa foi muito instrutiva. Quando Temple e Kinderman chegaram lá. — Por aqui — disse Temple. Apenas o mencionei porque almoçamos juntos.satisfação: — É isso aí. — Temple apontou para um homem de . Havia ainda uma pequena lanchonete e instalações para fisioterapia. — Tem certeza de que não será incômodo? — Este lugar é como um filho para mim. que via televisão. Vestiam pijamas. Conhece o dr. Temple também se levantou e esmagou a cigarrilha no cinzeiro. doutor.. — Ele se mostrou o quê? — Foi muito simpático. Kinderman foi atrás dele. — Por falar nisso. roupões e chinelas. — Já era de se esperar que falasse mal da psiquiatria. — Ele não fez nada disso. — Está enganado — protestou Kinderman. — Não há necessidade. — Eu lhe mostrarei tudo pessoalmente. — Não vou mesmo incomodá-lo? — Claro que não. — Eles parecem estar felizes agora — disse Kinderman. almocei hoje com um colega seu. embora houvesse também uma sala de reuniões e gabinetes para a equipe. num gesto de protesto. — Não passam de uns imbecis. fazendo um esforço para acompanhar seus passos elásticos. Kinderman passou pela porta e Temple seguiu-o.

Está vendo aquela mulher de chapéu esquisito? Outra beleza. Esse cara é realmente pirado. A doença mental é que o levou a escutar as vozes. Já viu qual é? Temple apontava para uma mulher obesa. — Já vi — disse Kinderman. em folhas farfalhando. Tomam todos os dias. perguntou-se Kinderman. — Não demorou muito para que ele estivesse escutando as vozes no chuveiro — continuou Temple. — Não. Agora. com o olhar perdido no espaço. Ele pode estar certo. Estavam derreados e apáticos. de feltro azul. estava parada na frente dos dois. E foi assim que começou. Sentia uma estranheza na alma. Tende a deixá-los ainda mais apáticos. As chinelas deslizavam ruidosamente pelo assoalho. — E traz outras drogas além de Thorazine? . — Como o estalido no ouvido? — Não. — Nada de toalhas — disse a mulher para Temple. Não podia mais suportá-las. ela me viu! — exclamou o psiquiatra. — Ei. presas por alfinetes. — Está vindo para cá! A mulher se arrastava rapidamente na direção deles. Ele é mesmo. — Temple bateu com um dedo em sua cabeça. — O carrinho de medicamentos vem até aqui? — Claro. Mais um dos meus sucessos. E ali está Lang. E depois comentou. Principalmente Thorazine. — O psiquiatra ficou em silêncio por um momento. e estava coberto por barras de chocolate. E quando um dia levamos a nova cota de toalhas. — Ela costumava guardar toalhas — explicou Temple. Lera algum livro sobre o assunto. — Ele é castrofrênico. A mulher virou-se e começou a voltar para o grupo. Seu chapéu era redondo. ela começou a berrar e jogá-las fora. Depois em galhos sacudidos pelo vento. É claro que as drogas não ajudam. — E depois em qualquer água em movimento. de meia-idade. observando a mulher se acomodar em seu lugar. “Por que isso me soa familiar?”. sentada com a turma da televisão. E logo estava ouvindo as vozes no sono. não pode se livrar delas. Não demorou muito para que ela tivesse tantas toalhas no quarto que mal podia se mexer. Era um excelente químico e de repente passou a escutar vozes num gravador. No mar. Na semana seguinte passamos para vinte toalhas e na outra para quarenta. — Nada de toalhas — repetiu o psiquiatra. Diz que a televisão as abafa. observando alguns pacientes nas cadeiras. Aceite a minha palavra. sem qualquer inflexão na voz: — Acho que o chocolate será a próxima etapa. — A maioria é de vegetais. — Eles são muito quietos. — Não têm nada aqui. Mas curei-a disso. De pessoas mortas. — Essas vozes o deixam mentalmente doente? — perguntou Kinderman. Pensa que inimigos estão sugando todos os pensamentos de sua mente. Durante uma semana. — As drogas? — Os medicamentos que eles tomam. É o cara mais atrás.quepe de beisebol. Respondendo a suas perguntas. no grupo que via televisão. Na torneira. Um instante depois. — Roubava-as dos outros pacientes. Não sei o que dizer. Kinderman olhou ao redor. nós lhe demos sete toalhas extras a cada dia.

por favor? — Poderia fazer o favor de se animar um pouco? . Um som que causa arrepios. Perdeu os órgãos genitais. O sol de fim de tarde incidia obliquamente sobre ele. tudo o que se ouve nesta sala é o arrastar de chinelas. tenho de dizê-la imediatamente. Kinderman observava o homem junto à janela. Fica sempre assim? Kinderman reconheceu com surpresa que era verdade o que Temple dizia. — Há pacientes aqui que tenham conhecimentos médicos? — Uma estranha pergunta — É o meu albatroz. Não posso evitar. sem saber como responder.” — Posso ver agora o quarto da stra. O psiquiatra deu de ombros. Desde que entrara no gabinete dele. depois virou a cabeça e fitou o detetive. Kinderman virou-se para ele. corpulento. virou-se e fez um gesto na direção de um paciente. Continuou a olhar para frente por mais algum tempo. — Só há uma enfermeira aqui. — E só isso é necessário. — Temple pôs as mãos nos quadris e olhou fixamente para frente. — Ele foi médico na Coréia. estava de pé perto dela com um braço apoiado no balcão. escrevendo um relatório. — Quase? — Ainda é um recurso ocasional… quando não há outro jeito. não é mesmo? Está pensativo desde que chegou ao meu gabinete. Mas. Como ele conseguira isso? Kinderman fitou os olhos dele. Temple parecia desorientado por um instante. — É o meu trabalho — murmurou Kinderman. de meia-idade. Lazlo. Temple virou a cabeça para fitar Kinderman. — Pois então mude. Ela estava ocupada. Estava sentado junto a uma janela. sentia-se meio estranho. — Quando a televisão está desligada. Virou-se e olhou para o posto da enfermeira. nos anos 50. Especialmente se o carrinho estiver indo para a ala dos agitados. Seu rosto era inexpressivo. instalado numa cadeira. um homem magro. Kinderman acenou com a cabeça. — Eu? — Tende a ficar remoendo as coisas. Um atendente preto. olhando pata fora. Havia um vórtice lá dentro. — Por quê? — Apenas uma pergunta. tenente. O psiquiatra dominara seu espírito. — É lá que se faz a terapia de eletrochoque? — Quase não se usa mais essa terapia. Alguém me perguntou um dia: “O que posso fazer com as dores de cabeça que sinto sempre que como carne de porco?” Sabe o que respondi? “Pare de comer carne de porco. — Você parece deprimido. depois. — É possível. observando os pacientes na sala. dividindo seu corpo em luz e escuridão. Quando penso numa coisa. Há quase trinta anos que não diz uma só palavra.

— Há bem pouca coisa aqui — comentou Temple. Os livros de Dyer. — Preciso ir agora — murmurou Kinderman. — Estou tentando. Entraram no quarto. doutor. Teve um estranho pressentimento. tenente? — E talvez a noite também. Havia toalhas e sabonete no banheiro. Lazlo de volta? — perguntou ele. Tenho certeza de que poderei ajudá-lo. O psiquiatra acompanhou Kinderman para fora do Departamento de Psiquiatria. Eles nunca podem dizer: “Obrigado por me passar a mostarda'’. Kinderman continuou parado onde estava por um momento. Soltou um suspiro. Pareceu fluir através dele e depois se desvanecer. um instante antes de desaparecer: — Eu o verei por aí. — Muito obrigado por tudo. Sentia o volume no bolso do casaco. A boca do psiquiatra se contraiu. Podia ouvir as solas de borracha afastando-se rapidamente. Kinderman baixou os olhos e sacudiu a cabeça. — Já recebi sete transfusões desde que você . — Conhece o caminho pata a saída? — Conheço. Eram três horas e cinquenta e cinco minutos. Temple levou Kinderman por um corredor e depois outro. Quando entrou no quarto. E teve a impressão de que esquecera alguma coisa. Depois que o som morreu. O quarto estava praticamente vazio. Sentiu subitamente uma aragem fria passar por seu rosto. telefone para mim ou venha me procurar aqui. Kinderman deu uma olhada no armário. — Estou sempre ao seu dispor. — Isso é ótimo. Se voltar a ficar deprimido. O quarto dela é aqui perto. Qual é o problema? Kinderman levantou o rosto para fitar os olhos do outro. até o começo da Neurologia. — Quando teremos a srta. — Ainda esta noite. Kinderman correu os olhos pelo pequeno quarto. Estavam vazias. — Demorou bastante — queixou-se ele. experimentou uma sensação de alívio imediata. Olhou para a janela. — Ótimo. tenente. — Posso ver. — Valeu o seu dia. Outro roupão azul estava pendurado lá dentro. — Sempre senti pena dos behavioristas. Despediram se nas portas da seção aberta. — Temple empurrou uma porta e acrescentou. — Por que está sacudindo a cabeça? — perguntou Temple. Dyer levantou os olhos do seu missal. — Qual é a escola psiquiátrica que você segue? — Sou um behaviorista intransigente. — Ótimo. Virou à direita e afastou-se rapidamente. — Tenho de voltar daqui — disse Temple. Ainda estava na cama. E isso era tudo. Tomarei todas as providências necessárias. Estava fechada. Dê-me todos os fatos e eu lhe direi com antecedência o que uma pessoa vai fazer. escutando. — Tenho certeza de que é por algum motivo. Verificou as gavetas. — Por nada. Vamos agora. Olhou para o relógio. beligerantes.

O homem de blusão tinha bigode? Ninguém falou em bigode na igreja. Volpe. Não poderia encontrar uma para trabalhar? As moscas não são tão horríveis quanto dizem. A décima segunda noite está passando no Folger e não aqui. — Srta. — Eu tinha certeza — Kinderman deslocara-se para o pé da cama. — Há missões jesuíticas na Índia. o Grego. Sabe por que Cristo foi crucificado. com um sorriso afetuoso. encostado na parede. padre. Kinderman saiu para o corredor e desapareceu. deu uma olhada e depois a repôs no lugar. Preciso ir. — Por que a pressa? — Quero voltar à leitura de Escrúpulos. padre? Preferiu isso a ser visto em público com esses livros. — Kinderman largou os retratos falados e esfregou o rosto com a mão. Ao contrário. — O casco pode não aguentar a pressão Ele foi até sua mesa. onde pegou a ficha médica de Dyer. depois. Bill — murmurou ele. — Pois então vá. E Escrúpulos já está traduzido para o hindi. Atkins estava à sua espera. por baixo de um blusão de couro preto brilhante. — Meshugge. são muito bonitas. padre. terá todos os seus confortos e os chotch-kelehs habituais ao seu lado. A vida de Monet e Conversas com Wolfgang Pauli. — A mãe Índia está chamando-o. tenente. E também tenho dois pacientes em outra ala. Srta. — Essa foi a contribuição da srta.partiu. — Vai me perdoar se eu largar agora essa discussão mística? Estética demais sempre me dá dor de cabeça.. E. Volpe. voltou a concentrar-se na leitura do missal. Kinderman virou-se e encaminhou-se pata a porta. entrou em seu gabinete e fechou a porta. Kinderman parou ao lado da cama e largou os livros na barriga de Dyer. — Dá para perceber. De volta à delegacia. — Foi alguma coisa que eu disse? — perguntou Dyer. Dyer ficou olhando para a porta aberta. — Não seja esnobe. com um suéter preto de gola rulê. — Tenho uma coisa para lhe dizer. Além disso. — E eu também não. apresento-lhe Julie Febré. fitando-o da porta. O que está pensando. Atkins? Pare com isso. Contemplou-os impassivelmente por um instante e depois lançou um olhar rabugento para Atkins. E o outro ofusca a minha imaginação. Usava jeans azuis. com uma expressão desolada. Volpe.. — Estes são os suspeitos? — Ninguém reparou direito neles. — Vamos mergulhar fundo demais. — Até a próxima. O velho parece um abacate senil querendo passar por Harpo Marx. capitão Nemo — disse Kinderman. O que é isto? O detetive inclinou-se sobre a mesa e pegou os dois retratos falados. Kinderman atravessou a ruidosa sala dos detetives. — Já o li. todas de cores diferentes. Sem falar em vários milhões de exemplares do Kamasutra. — Conforme você pediu. . ambos padres: Joe DíMaggio e Jimmy.

são essas coisas. porém. — Ele é culpado de alguma coisa. E depois. Está certo.. Não é espantoso que todos tenham dito isso? Pense também no teorema de Bell. Estou certo? E ajudava a aliviar a dor. Um médico psiquiatra. descubro que há atrito entre os dois. Estou vendo-a em cima da mesa. Cada um teve essa experiência. — Fique calado. — Pois continue a guardá-las. Mas se aparentemente estiver dando cobertura a outra pessoa. não importa a distância entre elas. Atkins. — Tenho algumas noticias para lhe dar. O que deduz de tudo isso. sujeira. — Agora não. E. Atkins: em qualquer sistema de duas partículas. quando pergunto ao psiquiatra imaginário se alguém de sua equipe possui uma certa excentricidade no jeito de escrever. alguém como o chefe de Psiquiatria do hospital. faz um esforço obviamente desajeitado para me fazer pensar que está dando cobertura a um colega… digamos um neurologista que está trabalhando no problema da dor. Não podia fazer mal. Mas acho que sim. como uma raposa. Maryland. Além disso. mas não quer fazê-lo abertamente. — Nunca em toda a sua vida. é outra coisa que eles disseram. a srta. que lhes diz: “Subam para Mim. Contudo. Aqui não é Newark”. absoluta. por favor. Volpe certamente vale dez do Moriarty dele. Contaram que sentiram que todo o universo era eles. talvez apenas noventa por cento. uma só pessoa. Isso acontece. passando por tudo o que é esgoto. — Kinderman sentou. senhor. lixo. Imaginam que estão descendo pela terra. Não vai me perguntar nada sobre isso? — O que aconteceu? — Ainda não estou pronto para discutir o assunto. Está envolvido. dizem os físicos. O importante. tenente. Todos eram uma só coisa. Mas é o suficiente. Enquanto estão fazendo isso. alterar o movimento de uma delas muda simultaneamente o movimento da outra. Atkins? — O psiquiatra quer denunciar o neurologista. existia um hospital para pacientes que estavam morrendo de câncer. Nemo? Minha visão não está mais toldada. não importa qual seja a sua vida anterior ou religião. — Sherlock Holmes teve mais facilidade. depois vira o rosto para o lado e diz um não muito alto. agora. E por isso lhes aplicavam doses maciças de LSD. Tive um dia fascinante no Hospital Geral de Georgetown. Depois começam a subir e subir. Não precisou enfrentar um retrato falado do cão dos Baskervilles. O referido psiquiatra me fita nos olhos por duas ou três horas. Talvez não. Atkins? Lembre-se de que o homem estaria dificultando a ação da justiça. estão na presença de Deus. então nunca desconfiariam dele. não importa que sejam galáxias ou anos-luz! — Tenente. Entendido? Basta presumir os fatos hipotéticos. E acontece uma coisa estranha. com uma cara de extremo cansaço. quando está falando comigo! Tenho mais uma coisa para lhe .. e ficou olhando fixamente para os desenhos. e de repente tudo é lindo. Em Beltsville. há muitos anos. Estamos subindo à superfície. Tudo acadêmico. tenho uma coisa mais importante para lhe contar. neste caso hipotético. Será que não pode perceber quando um homem está tentando morrer? Exige uma concentração total. quero sua opinião a respeito de uma coisa. Todos passam pela mesma experiência. — E por que não. Mas concordo com sua opinião. — A pasta de Gêmeos chegou. — Sei disso.

— Era mesmo a única saída para ela. com exceção do líder. — Kinderman inclinou-se para a frente. suavemente: — Aquela velha era um verdadeiro gigante. O tenente levantou-se. — A velha está morta — informou Atkins. É óbvio. Atkins. casamento e morte? Atkins deu de ombros. Vai à missa todos os domingos. o tenente acrescentou. Os nomes que deve procurar são Vincent Amfortas e Freeman Temple. Não duvido nada. Providencie que a levem para lá. “Então. Atkins? Pense nisso. parou e voltou para a mesa. Nemo. e depois o entregarei às mãos dos torturadores. Seu inconsciente.. O contato é Temple.. — Foi novamente até a porta. — Uma resposta das mais esclarecedoras. Posso lhe garantir que só vai encontrar lá peixes de aparência estúpida. enquanto isso. um goniff. uma carpa gigantesca. foi até a porta. Contemplou-o por um instante. Não deixe que ele o hipnotize. — Como? — Morreu esta tarde. você é um homem de três pingos. — O que a matou? — Uma parada cardíaca. O sobrenome dela é Lazlo. abriu-a. Perpétua. sacudindo-a. Atkins. Pense agora no universo como seu corpo. — Pegou a pasta de Gêmeos. Ela pertence ao Hospital Geral de Georgetown. Ligue para o hospital e tome as providências necessárias. — Ele sentia uma tristeza pungente e profunda. Se Cristo não tivesse se deixado crucificar. Num mundo em que o amor nunca perdura. batismo. na evolução. como um sistema autônomo. Kinderman tornou a guardar o prendedor na gaveta e fechou-a. — Levantando os olhos para Atkins. Enquanto isso. — Espero que agora ela esteja com ele. — Andar faz bem ao coração. Desfrute a sua viagem ao fundo do mar. nas vespas-caçadoras. o que o controla?”. Só mais uma pergunta. Mas não possui inteligência própria. Dr.dizer. com os olhos brilhando. Atkins. Sua mente consciente não o está dirigindo. O que o está dirigindo. ela foi um gigante. — Verifique no computador todas as receitas de sucinilcolina apresentadas este mês e no mês passado. que pesa treze . — Abriu uma gaveta e tirou o prendedor de cabelos que haviam encontrado no atracadouro. — Não admito o escárnio. não posso ficar sentado aqui conversando para sempre. afetuosamente: — Martina Otsi Lazlo. E lembre-se do inconsciente coletivo. E murmurou. Atkins. — Ela tem um irmão na Virgínia. É o chefe de Psiquiatria do hospital. Faz todas aquelas coisas aparentemente inteligentes para manter seu corpo vivo e funcionando. Temple. — Por que não? Como dizem os de preto. Ela é uma paciente psiquiátrica.. Atkins? — Não. você me pergunta. Kinderman ficou olhando fixamente para Atkins por um momento e depois abaixou a cabeça. Ele é capaz de fazê-lo pelo telefone.. Não fale nada. virou-se. — Não costumo pensar nessas coisas. — Pense no sistema nervoso autônomo. Agradeço seu esforço e tempo. Falou ou não com a velha? O que não tem importância. tomaríamos conhecimento da ressurreição? Não responda.

Julie estava sentada à mesa. Atkins.toneladas e tem o cérebro de um boto. laconicamente. Acomodou-se à mesa. Atkins não pôde ouvir. — Sem você. Os braços de Julie estavam cruzados e apoiados na mesa. E. que uma coisa assim nos criaria um grande problema. Kinderman foi para casa. Um policial com um suspeito a reboque esbarrou nele. — Eu também. Mary levantou os olhos de um molho que estava mexendo e sorriu. Se ele pensar que estamos ligados. dando um beijo no rosto de Mary. por favor. a vida é como contas de vidro e pizza velha. — Estou deixando isso para Julie — disse Kinderman. não vamos mais brincar de Batman e Robin. Atkins foi até a mesa e sentou-se. cada um diferente do outro. enquanto Mary e a mãe trabalhavam no fogão. sem dizer mais nada. — Obrigado. Uma pessoa numa família muda de nome. — Oi. Kinderman permaneceu com o olhar perdido no espaço por algum tempo. Atkins ficou pensando no significado da pergunta dele. depois virou-se abruptamente e partiu. enquanto encostava as pontas dos dedos na aba do chapéu todo amarrotado. — Oi. enquanto virava outra página. Tirou o chapéu e o casaco no vestíbulo e foi para a cozinha. Mas não sei o que pode acontecer quando todas as três pessoas resolvem ao mesmo tempo trocar de nome. amor. papai. Julie. A pasta de Gêmeos estava em seu colo. os cabelos pretos compridos encostavam nas páginas de Glamour. O que está fazendo? Sinto o cheiro de carne de peito. ainda absorta em sua leitura. Seríamos capazes de coordenar tudo isso? Julie levantou os lindos olhos azuis para enfrentar os do pai. Abriu a gaveta. diante da filha. distraidamente. — Não estou entendendo. É maravilhoso que você tenha chegado a tempo para o jantar. e virou uma página. Atkins. Ouviu passos e levantou os olhos. — Não tem cheiro nenhum — resmungou Shirley. Atkins. Atkins viu-o parar no meio da outra sala e olhar para cima. tentou imaginar o que Kinderman quisera dizer ao se referir ao amor. Kinderman virou-se e afastou-se. Enquanto isso. para não falar de uma pequena confusão. Ela empurrou uma mecha para trás. lendo uma revista de moda. . Kinderman estava parado na porta. — Não implique com ela. — Se eu descobrir que falta um drops. pode cometer alguma loucura. a que horas a velha morreu? — Por volta das três e cinquenta e cinco. Kinderman lhes disse alguma coisa. Bill — disse Mary. — Que história é essa de Febré? — perguntou Kinderman — Não fique nervoso. É muito fácil. Poderia até levar a uma histeria coletiva. papai — disse Julie. A mãe de Mary virou as costas ao detetive e limpou o balcão da cozinha. Pense um pouco. — Olá. olhou para o prendedor. papai — disse Julie. sombriamente. o tenente desapareceu. É um peixe excepcional. Evite-o. — Precisa dar um jeito no nariz. finalmente. — Quem está nervoso? — Estou apenas pensando nisso. benzinho — disse Kinderman. — Quem está implicando? Quero que saiba.

Faremos tudo gradativamente. — Isso mesmo. Esperarei até que ele tenha feito alguma coisa certa e se sinta expansivo. Mudar é sempre difícil no começo. O que acha de Bunting? Mary acenou com a cabeça. dizendo shtuss para me atormentar e me fazer ouvir vozes. com a voz esganiçada. A única questão agora é saber como poderemos coordenar tudo. Mas era vai superar. O que seria? Kinderman pegou um recipiente de plástico e despejou um pouco mais de sabonete líquido na banheira. “Ryan consegue com a maior facilidade”. já acabamos com todas aquelas suásticas no templo. — Kinderman ouviu Mary sair correndo da cozinha e acrescentou: — Sua mãe está um pouco transtornada. Talvez sejam todos bonecos. tentando deixar a mente vazia. Não precisamos fazer a mudança de uma vez só. — Por que não? — Porque não é o nome de vocês! — Viu a mãe voltando. sombrio. — Não sei dizer quem é uma pessoa e quem não é nesta casa. Deus. Vamos virar purê. Estamos abertos a sugestões. Kinderman instalou-se na banheira. Como sempre. Era inevitável. afavelmente. aturdida. — Essa história é séria. pensativa. rindo silenciosamente. — Tem toda a razão — disse Kinderman. Mal conseguia evitar um cochilo. — Seria tão ruim quanto ser judeu. Primeiro. — Vocês estão se tornando católicos? — Não diga bobagem — falou Kinderman. mudamos o nome. Levantou-se e saiu da cozinha. Também estamos nos convertendo. com o qual todos concordem. Depois. — Podemos escolher outro nome. a fim de me internar depois num sanatório. mamãe? — Não precisa ser Darlington. Julie — disse Kinderman. depois nos convertemos e finalmente passamos a assinantes de The National Review. Julie cobriu com a mão uma exclamação de espanto. Mary virou-se para a geladeira.” Kinderman sabia que havia alguma coisa que ele estava escondendo. O jantar ficou pronto às sete e quinze. — Já parei. — Não é o que falei? — disse Shirley. Estamos entrando no liquidificador dos tempos. — Peço desculpas. diga a ele para parar com isso! — Pare com isso. “O homem é extremamente misterioso. com absoluta sinceridade. Bill. — Mary. . isso é absurdo demais! — exclamou Julie. — Pode acreditar.” Seus pensamentos deslocaram-se do conceito de um segredo para Amfortas. — Sua mãe e eu vamos mudar nosso nome para Darlington. furiosa. o que não chega a ser Febré. no instante em que a mãe de Mary voltava. refletiu. Uma concha de madeira bateu ruidosamente na pia e Kinderman viu Shirley deixando rapidamente a cozinha. enfaticamente. — Gosto desse nome. — Oh. O que você acha? — Acho que não deveriam mudar de nome — respondeu Julie. — Já acabaram com as bobagens? — indagou Shirley. Estamos pensando que talvez possamos nos tornar luteranos. Mas não importa. — Não acredito em nada disso — declarou Julie. — Darlington? — repetiu Julie. Julie. Afinal. “Devo perguntar qual é o segredo dele. descobriu-se incapaz de fazê-lo.

Houve reflexos nos papéis laminados de chocolate. A mesa de madeira escura estava cheia de livros. clássicos em preto e branco. Ao que Temple declarou: — Atire nele. Estava tocando Ar time goes by quando a personagem de Ingrid Bergman entrou. — Não pode fazer mal — comentou Bogart. Iniciou uma discussão sobre o problema do mal e fez um sumário de sua teoria para Bogart. — Sei disso — murmurou Kinderman. Perguntou a Bogart se seu irmão Max estava envolvido. — Tenho mais respeito por você agora. Ugarte — disse Bogart. Terminado o banho. Dyer estava ouvindo a confissão do neurologista. junto com Humphrey Bogart. com as pessoas internadas na enfermaria aberta. Estava sentado num cinema. Bogart tornou-se o padre Dyer. Bogart iniciou a discussão sobre Cristo. — Deixou-o fora de sua teoria. embora na tela visse Casablanca. Abruptamente. Kinderman estava no filme. — E eu disse que nunca o deixaria — murmurou ela. à espreita. ajeitou-os. Só que agora ela era jovem e extremamente bonita. Lazlo e Temple aproximaram-se do piano. partida ao meio. Fechou um olho e depois o outro. O problema era a fadiga. levou apenas uma fração de segundo. Bogart deu de ombros e disse: — Isto é o Rick’s. sentou-se. Abaixou-se. — Eu o incluí. Lazlo entregou a Amfortas uma rosa branca. enquanto seu marido era representado pelo dr. Concluiu que via melhor sem a lente da esquerda. Kinderman pôs um roupão e levou a pasta de Gêmeos para o seu gabinete. de Teilhard de Chadin. coçou o nariz. na confusão. Limpou-os com a manga do roupão. — Vá e não viva mais — declarou Dyer. Kinderman abriu um espaço para a pasta. — Já sei. Ainda não podia ver. Estava descalço e pisara num exemplar de capa afiada de O fenômeno humano. No sonho de Kinderman. Amfortas disse: — Deixe-o em paz. Kinderman sonhou. Mas não sentia qualquer discrepância. até encontrar os óculos de leitura. Kinderman estava de volta à platéia e sabia que sonhava. Subitamente. Tirou os óculos. — Os documentos de trânsito são falsificados — disse Bogart. Ilse. A tela . Lazlo tirou um bisturi da bolsa e atingiu Amfortas no coração. Instantaneamente. Kinderman tornou a pôr os óculos. pegou o livro e o pôs na mesa. ela era Martina Lazlo. assistindo a um filme. Nesse instante. era Amfortas. Kinderman estremeceu. no Rick’s. sentado a uma mesa. tentou focalizar. como criminosos faiscantes. As paredes estavam cobertas por cartazes de cinema. sta. A lente caiu. Procurou entre os livros. Temple. Todo mundo vem para cá. acabou tirando os óculos e repetindo a manobra. Assisti vinte vezes a este filme. O pianista. pois esquecera o resto de suas falas. Lazlo estavam sentados à mesa. Quando ele deu a absolvição. — Tem razão. e Amfortas e a srta. — Está enganado — disse Kinderman prontamente. cuja luz acendeu. saiu do gabinete e foi direto para a cama. Pensava estar assistindo a Horizonte perdido. Kinderman experimentou uma sensação de pânico. dos anos 30 e 40. e os mensageiros alemães certamente descobrirão isso. Enrolou a manga na lente e bateu com força na quina da mesa. Não adiantava. No sonho.

projetando-se para fora com uma força inconcebível. E opressivo. — Apresse o dia. Kinderman despertou com um sobressalto. a primeira luz acrescentou. com um som ensurdecedor.aumentara. — Sei disso. O silêncio foi agora mais prolongado. ele via duas luzes. — Não deve fazer isso. A luz da esquerda era imensa e fulgurante. mas não cegava nem ofuscava. Não pensou na parte do cinema. era serena. Houve silêncio por algum tempo. Kinderman experimentou uma sensação de transcendência. Não deve interferir. Outra vez não houve resposta da esfera brilhante. Puro amor. — Eu escolhi. pensando. A luz azulada ficou esperando. A outra luz não respondeu. Teria sido real? O sonho lhe dera toda a impressão de realidade. ocupando todo o seu campo de visão. A luz azulada começou então a faiscar intensamente. Voltarei para você. — Será uma parte de você. — Não compreende o que é. mais intenso do que antes. depois foi lentamente se firmando até alcançar o estado anterior. E no instante seguinte explodiu. até ficar quase do tamanho da esfera branca. — Eu amo você — disse de repente. Houve uma pausa e. Estava encharcada de suor. Quero dar meu amor livremente. Ficou sentado na cama e levou a mão à testa. A luz azulada pareceu explodir em muitas cores. tristemente: — Adeus. o fulgor tornou-se abafado e mínimo. — Que assim seja. Muito à direita havia uma pequena esfera branca. Em vez de Casablanca. Depois. lentamente. A luz branca finalmente falou: — Que o tempo comece. Muitos momentos se passaram antes que a luz branca voltasse a falar. contra o verde-claro do vazio interminável. depois. num trilhão de fragmentos de energias de luz incalculáveis. A esfera finalmente falou: — Haverá dor. Foi se tornando maior. A primeira luz voltou a falar: — Quero criar a mim mesma. Nem mesmo o sonho com Max tivera a mesma intensidade. Ouviu na mente a luz da esquerda começar a falar: — Não posso deixar de amar você. Ainda podia sentir a luz da explosão em suas retinas. que luzia com o brilho e a força de muitos sóis. por algum tempo. suavemente. até que a luz azulada disse. faiscando com uma radiancia azulada. começou a se contrair. faiscando. Ficou sentado. E nesse estágio pareceu perdurar por algum tempo. Voltou finalmente a se expandir. — É isso o que eu sou. O . A luz azulada se encolheu. mais linda do que nunca. — Mandarei alguém para você. com um brilho inexcedível. mais radiante.

Saiu da cama e desceu para a cozinha. completamente revigorado. caso contrário Shirley poderia descer. ele assumira a responsabilidade por vinte e seis assassinatos. aos domingos. admitiu ele. Qual seria a emoção que estava sentindo? Era algo como pungência e perda irreparável. embora a identidade de Gêmeos fosse conhecida.” Contudo. não foi possível encontrar Gêmeos. A beleza e perfeição de Satã eram descritas como extraordinárias. “'Somente os goyim misturam demônios com dybbuks (No folclore judaico. Os católicos diziam que a natureza dele era imutável. nem mesmo os Evangelhos diziam isso. Então como pudera condená-lo por toda a eternidade? Kinderman encostou a mão na chaleira. exultantes com o seu sucesso em exorcizar demônios. em todas as pessoas possuídas. ofegantes. “É verdade que Jesus fez um gracejo a esse respeito”. imediatamente depois de ter cometido o primeiro assassinato. que se retirou do cenário público em 1967.outro segmento a ofuscara por completo. escrito por teólogos católicos. Os apóstolos foram procurá-lo. Durante a sua vida. Cassius Clay pode fazer isso incessantemente.). mesmo com a ajuda do evangelista. um ser de radiância inconcebível. onde a polícia o encurralara. Acendeu o fogo da chaleira e ficou esperando junto ao fogão. O rio foi dragado por muitos dias.E. “Estrela da Manhã”. pensou Kinderman. Enquanto esperava. Teria de esperar mais alguns minutos. Gêmeos fora morto então por uma saraivada de balas. onde acendeu a luz. todos brutais e envolvendo mutilações. “Quatro e dez? É um absurdo". Ele era o “Portador da Luz”. "Frank Sinatra deve estar começando a dormir neste momento. Por que Cristo chamou Satã de “príncipe deste mundo”? Poucos minutos depois. das idades mais diversas. por que não um pobre alfaiate morto?” Satã não corria de um lado para o outro a invadir corpos vivos. pensou Kinderman. o filho de trinta anos de um famoso evangelista cujos sermões eram transmitidos pela televisão para todo o país. acendeu a luz e sentou-se. Afetara-o profundamente. Era uma ironia. Apesar disso. Vi Satã cair como raio do céu. preparou uma xícara de chá e levou-a para o seu gabinete. Jesus assentiu e manteve a expressão impassível ao lhes dizer: — É isso mesmo. Tinha de prestar atenção e tirar a chaleira antes que assoviasse. Mas por que raio?. tateou até a mesa. uma censura gentil. Fechou a porta sem fazer barulho. Até mesmo o velho Rockefeller distribuira alguns centavos de esmola de vez em quando. contraindo os olhos para ver o relógio de pêndulo na parede. quando subia uma viga da Ponte Golden Gate. Gêmeos a revelara pessoalmente. Quando finalmente o mataram. Eram pessoas mortas que estavam tentando voltar. ele se sentia desperto. Possuídas por quem? Não pelos anjos caídos. Ainda não estava muito quente. de 1964 a 1971. incluindo até crianças. Deus devia amá-lo imensamente. pensou no sonho das luzes. As vítimas eram dos dois sexos. “E daí?” Poderia ele realmente ter trazido a doença e a morte ao mundo? Seria o autor do mal e da crueldade? Não tinha sentido. Pensou nos Evangelhos. demônios ou almas de pessoas mortas que exercem possessão sobre os vivos N. pensou ele. Os crimes de Gêmeos se confinaram a San Francisco e haviam se estendido por sete anos. refletiu Kinderman. Pensou outra vez em Lúcifer. mas não se . o corpo de Gêmeos caiu no rio. É uma piada. Começou a ler a pasta. A cidade vivia em terror. às dez horas da noite. depois de diversas tentativas malogradas. Era James Michael Vennamun. Sentira a mesma coisa ao final de Desencontro. numa carta ao San Francisco Chronicle. Refletiu sobre o livro que lera a respeito de Satã.

e depois avançou para Thomas. — Você é como sua mãe! Nojento! Um sacana católico! Vennamun arrastou o menino até a porta do porão. Vennamun abriu a porta do porão. Estava bêbado. — Mas disse-lhe que não desse comida para ele hoje. Levantou os olhos. Ele tinha um irmão gêmeo. e Vennamun jogou tudo no chão com um gesto violento. que tremia de medo. Thomas estava sentado à mesa. não dispensava muita atenção aos filhos. Chegou ao perfil psiquiátrico. Karl Vennamun entrou cambaleando na cozinha. — Posso ver isso. — Você vai aprender a ter obediência e higiene. Kinderman virou a página. Era um dia de sol nas colinas da península Reyes. divorciado. Ele gritou: — Não! Não! Não me ponha no escuro! Por favor. “Santo Deus. O desgraçado sujou a calça. depois sentou-se e ficou vendo televisão e bebendo. — O que está fazendo? — perguntou asperamente. Os gritos de terror começaram. Tinha nas mãos um copo e uma garrafa de uísque quase vazia. Passava pelo pai com um prato cheio de panquecas. derrubando-o no chão. Olhou para James. Kinderman logo estava inteiramente absorto na história: “Com olhos vazios e submissos. Vennamum esbofeteou-o e empurrou-o escada abaixo. seu sacana nojento — resmungou Vennamun. ficou respirando fundo e pensando por algum tempo. com o dorso da mão.. vestindo apenas a calça do pijama. James fora praticamente o pai de Thomas. seu macaquinho asqueroso! O evangelista levantou o menino com as duas mãos e começou a arrastá-lo para a porta que dava para fora. Vennamun chutou-o na barriga. E. seu desgraçado! Thomas começou a tremer. Mesmo assim. Sempre dormia com a lua acesa. pensou ele. baseado em grande parte nas cartas desconexas de Gêmeos e em um diário que ele mantivera na juventude. Thomas gritou: — Jim! Jim! A porta do porão foi fechada e trancada. Sentiu os cabelos da nuca se arrepiarem. com os olhos injetados. .. E os assassinatos cessaram. Thomas. Uma saraivada de centenas de balas atingira seu corpo. Mais tarde. parou de ler e ficou olhando fixamente para um parágrafo. — Preparando mais panquecas para Tommy — respondeu James. Aquela parte tratava das mutilações.encontrou o corpo. E foi dando-lhe cascudos pelo caminho. Abruptamente. Mas James ouviu os gritos durante a noite inteira. pa. depois. não pode ser!” Mas ali estava. não restava qualquer dúvida sobre sua morte. continuou. O pai. quando Vennamun brutalmente acertou- o no rosto. enquanto James lhe preparava mais panquecas.pai! Por favor. — Ele não pode evitar! — protestou James. coberta por bosques. mesmo quando havia outras pessoas por perto. — Eu disse a você para não comer! Não me ouviu? Havia pratos de comida na mesa. “Será possível?’'. cuidara dele. Finalmente adormeceu. Vennamun amarrou o filho James a uma cadeira. — Vai ficar dentro do porão com os ratos. — Os ratos vão mantê-lo ocupado — balbuciou Vennamun. mentalmente retardado e que vivia com um terror trêmulo do escuro. seus olhos grandes e mansos brilhavam de pavor. com a voz engrolada pela embriaguez.

Boa noite. Tenho receio pelo coração dele. ninguém. boa noite. perto dele. — E deixe a luz acesa no quarto. — Os dois saíram. Uma enfermeira enfiou a cabeça pela porta e disse a James: — Lamento muito. sorrindo. — Ah. Thomas estava na cama. — Não me esquecerei — prometeu a enfermeira. doutor. E depois ouviu alguém chorando. desamarrou James. sim. Tirou o estetoscópio dos ouvidos e sorriu para James. — É o seu primeiro dia aqui? — É. Não há problema. e seu sorriso se transformou numa carranca. lia-lhe histórias infantis. Patologicamente. mas no corredor. — Tornarei a vê-la amanhã. pente. Boa noite. — Boa noite. E boa parte para a velha que fica dizendo ‘silêncio’. — Há anos que ele vem aqui todas as noites. que é extremamente fraco. Um médico examinava o coração de Thomas. Boa noite. Às vezes ele passa aqui a noite inteira. O rapaz tem pavor da escuridão. — É impossível não reparar. fielmente. boa noite. O médico fez um gesto para que James permanecesse na cadeira e depois foi até a porta.Havia silêncio ao romper do dia. senhor. depois saiu e abriu a porta do porão. O médico retribuiu o sorriso. mas o horário de visitas já acabou. mas já conhecia todas as palavras. Vennamun acordou. barulhos por toda parte. Não era Thomas. Fugiu de casa aos dezesseis anos e foi trabalhar como entregador em San Francisco. James numa cadeira ao lado. ar. Boa noite. Jamais desligue a luz. Vennamun ficou observando. Ainda lhe segurava a mão. Trata-se de um caso especial. mingau. casinha. Boa noite. — Espero que goste daqui. Era um sábado. descia correndo a escada. — Boa noite. Ficava com ele até que dormisse. — Pode sair agora — gritou ele para a escuridão. escova. — Tenho certeza de que gostarei — O rapaz que está com Tom Vennamun é o irmão dele. Ele sabia que o irmão enlouquecera irremediavelmente. Ia visitar Thomas todas as noites. srta. Tinha o livro de histórias infantis à sua frente. . Boa noite. Permitimos que fique até que o irmão adormeça. estrelas. pois as repetira pelo menos mil vezes.. A enfermeira Keach observou-o afastar-se pelo corredor.. Não bouve resposta. "Eram nove horas da noite. Estou certo de que já reparou. Isso aconteceu até uma noite de 1964. — Seu irmão está indo muito bem. camundongo. enquanto James. James passara o dia inteiro com Thomas. Keach. Sacudiu a cabeça e murmurou: — Mas que idiotice! No quarto. — Quero falar com você por um momento. mas James. Não aqui. Boa noite.” Thomas foi permanentemente internado no Hospital Estadual de Doenças Mentais de San Francisco. James o visitava sempre que podia. James segurava a mão de Thomas.

Verificou a hora e sentiu medo. Thomas acordara. Parou e voltou. E havia sempre o K no começo de um dos nomes da vítima. Entrou no quarto. através da conexão com os crimes de Gêmeos”. Deu uma olhada. Vennamun. Não estava. . o corpo entorpecido. apagou a luz e depois saiu. fechando a porta. Os gritos persistiram por vários minutos. — Eu o amo. dormindo. Depois. James fechou os olhos por um momento. O padre Dyer fora assassinado. vontade de vomitar.. assim. O assassino Gêmeos estava nascendo. veio o silencio abrupto. Depois que James deixou o hospital. Não sabia que conclusão tirar. cujo afastamento posterior da vida publica indica o motivo secundário de Gêmeos. Tirou os óculos e tornou a olhar. Thomas fechou os olhos e um instante depois estava adormecido. E. depois. A enfermeira voltou para o seu posto e suas fichas. James viu uma lágrima rolar pelo rosto dele. Karl. cansado.” Kinderman olhou para a janela. Avistou Thomas sozinho. Tom. Levantou-se de um salto quando o telefone começou a tocar. Estava amanhecendo. Kinderman ficou olhando fixamente para a última página do relatório. Apenas zumbidos. Olhava para o teto.. Ouviu a voz de Atkins. Um grito de terror ressoou pelo hospital no meio da noite. havia sempre o corte do dedo indicador. James-s-s-s. Sentia-se estranhamente comovido com o que acabara de ler. — murmurou ela. Poderia ter compaixão por tal monstro? Pensou de novo nas mutilações. olhou para verificar se Thomas já estava dormindo. Thomas Vennamun morrera. Terminou o relatório: “Assassinatos subsequentes de vítimas com inicial K mostraram ser mortes indiretas do pai. especificamente a destruição da carreira e da reputação do pai. baixinho. — Kinderman falando — disse ele. E depois não ouviu mais nada. a enfermeira Keach passou pelo quarto. — Um caso especial. E Thomas balbuciou: — Eu o-o-o-o amo. Piscou. Sentia um frio intenso. O lema de Vennamun sempre fora o dedo de Deus tocando o de Adão.

PARTE DOIS .

que está ocorrendo agora. no ápice criado pela convergência do Universo evoluindo sobre si mesmo. Há apenas um Mal: a Desunião " Pierre Tielhard de Chardin . não apenas de Alguma Coisa. pelos que têm olhos para ver.. mas da Coisa. "O maior acontecimento da história da Terra.. pode ser na verdade a descoberta gradativa.

Qualquer outro padre — qualquer outra pessoa — provavelmente teria me denunciado Mas eu o atraí antes de transferir o fardo. e repita o processo. e não nas de um de seus colegas. Mas sei que continuará até o fim. aumente os controles de volume ao máximo (não dos alto-falantes. em você. ‘Outro maluco com uma imagem de Jesus que chora lágrimas de verdade’. Aperte então o ‘play' e escute. não foi sob o sigilo do confessionário. . 16 DE MARÇO “Prezado padre Dyer: Muito em breve poderá estar se perguntando: 'Por que eu? Por que um estranho coloca esse fardo em minhas mãos. A ciência encara essas questões como uma criança a seu remédio. Quando isso estiver feito. Coloque-a no gravador. Portanto. Vai ouvir zumbido e estática a níveis desconfortáveis. pode ser a melhor coisa. avance o mais depressa possível até 383. padre? Não sei direito como fazer isso. Isso é o importante. Aguente. Você fará o que é necessário. E logo vai ouvir o som de alguém falando. CAPÍTULO 9 QUARTA-FEIRA. Mas. Esqueça o que ouviu na primeira vez. Procure agora no caixa de papelão que lhe enviei. enquanto não atender às instruções que estou lhe transmitindo agora. Melhor ainda. diria provavelmente. É terrivelmente constrangedor. Quero que você repita o processo. Isso mesmo. Não no seu sacerdócio. Não está contente por ter-me conhecido. Manteve sua palavra. que são cientistas e certamente mais capacitados para a tarefa? Acontece que eles não estão mais capacitados. isso não será fácil. O marcador deve estar em zero quando a ponta da fita atingir o rolo da esquerda. ‘Só porque sou um padre. providencie um gravador de rolo. Ouça esse trecho tantas vezes quanto necessário. Suspenda a sua curiosidade por um momento e não leia mais. Encontre a que está marcada '8 de janeiro de 1982’. Quero muito que confie em meu julgamento. Estou lhe transferindo esse fardo porque posso confiar em você. neste caso. Embora eu confie em você. mas a estática tende a prejudicar o entendimento. Por favor. que acredite em mim. Se estivesse planejando trair-me. já o teria feito.. Contém algumas gravações que eu fiz. Mas não o fez. Quando conversamos. E lamento agora que sua recompensa seja outro fardo. siga estas instruções e não leia mais nada enquanto nlo o tiver feito.. Termina em 388. por favor. ele deve pensar que aceitarei qualquer vaca milagrosa… e púrpura ainda por cima. aumente a velocidade até o máximo. no contador.' Mas não é absolutamente o que penso. infelizmente. Todos precisamos de vez em quando da ajuda da graça. vamos proceder da maneira que exponho a seguir. Quando souber o que está sendo dito. Tenho a impressão de que você mesmo se mostraria cético. É bastante alto. por favor. Anexarei a esta carta uma chave da minha casa. apenas do microfone e dos fones de ouvido). continuo a carta numa página separada. Primeiro. use o meu. Escute de novo. com controles que permitam o rápido replay. até estar certo de que sabe o que está sendo dito. padre. Vai recuar diante do que vou dizer. ponha os fones nos ouvidos. reduza a velocidade ao mínimo. O que é muito importante. que é o dobro.

como o professor letão acreditava. não converse com ele a respeito disto. Comecei a fazer essas gravações poucos meses depois da morte de Ann. Ele passou-a por um espectrógrafo para mim. e publicado em inglês por um editor britânico. sugerindo também que eu lesse um livro sobre o assunto. A voz estava lá. Voltei a fita e toquei. As palavras eram vazias e insignificantes. Como não podia deixar de ser. padre? É uma obra curiosa. O título era Breakthrough. Por favor. foi uma voz de homem dizendo nitidamente ‘Lacey’. Estou convencido de que vai obter o mesmo resultado. O espirito recentemente morto podia optar por se juntar a ela. ‘Nós dormimos. um manual de instruções que preparava os moribundos para o que iam encontrar do outro lado. mas atua ao mesmo tempo como uma espécie de microfone). Isso exclui qualquer espécie de recepção de rádio anômala — algo impossível para os gravadores.’ Fez-me lembrar do antigo Livro tibetano dos mortos. Há um paciente na ala psiquiátrica do hospital. a menos que seja tocada duas vezes mais depressa que a gravação original. padre — que pudesse ser invocada como uma explicação. Foi escrito por um letão. Lang queixava-se de uma dor de cabeça crônica. Enviei a gravação para um amigo na Universidade de Columbia. Meu amigo garante que o espectrógrafo não pode estar errado. Anton Lang tem muitos problemas. Observe também — e este é um comentário meu e não dele — que a resposta à minha pergunta é indiferente. ‘Eis aqui os costumes da fronteira’. estudei a sua ficha e descobri que há anos vinha fazendo gravações do que classificava simplesmente de ‘as vozes’. Dito isso. reduzi a velocidade ao mínimo e disse em voz alta: ‘Deus existe?’ Aumentei ao limite máximo a capacidade do microfone e pus para gravar. Pus uma fita virgem no gravador. o que me levou a entrar em contato com ele. pois a . outra análise espectrográfíca. O que ouviu na velocidade reduzida. a primeira experiência era uma confrontação imediata e decisiva com a transcendência. Telefone pata ele. a mesma informação na fita transforma-se nas palavras igualmente nítidas 'Espere que sim’. Meu amigo da Universidade de Columbia é o professor Cyril Harris. mas bem poucos o faziam. Segundo eles. diga-se de passagem. será que era tudo o que tinham a nos dizer? ‘Kosti está cansado hoje. tenho certeza. Parei a gravação. e ate o exorto a fazê-lo. nada além de respirar e esperar. Konstantin Raudieve. que tenderão apenas a reduzir a credibilidade do fenômeno e a minha. Encomendei um exemplar e li. o conteúdo não era dos mais estimulantes. a que chamavam de ‘a Luz Clara’. peça uma segunda opinião. Mandou-me depois uma carta e cópias dos registros espectrográficos. Melhor ainda.’ Kosti trabalha’. não fiz absolutamente. Você deve pressupor sensatamente que eu nada tenho a ganhar com um embuste. se não mesmo sem sentido. Infelizmente. Se aquelas vozes eram dos mortos. Tenho certeza que vai querer conferir tudo pessoalmente. Você vai encontrá-las na caixa. Além disso. A carta diz que a análise espectrográfica conclui que a voz não pode ser humana. passo a contar como fiz a gravação. E na velocidade maior. de preferência a outro especialista. Conhece. que para se obter o efeito registrado seria necessário construir uma laringe artificial e depois programá-la para dizer as palavras. um esquizofrênico chamado Anton Lang. Interroguei-o a esse respeito e ele me disse coisas intrigantes. ligado a um diodo (elimina todos os ruídos da sala ou do ambiente. Está me acompanhando até aqui? A maior parte do livro consistia era transcrições de gravações de vozes que Raudieve realizara. Pelos três minutos seguintes. ele não pôde entender como uma palavra igual a 'Lacey’ pôde se transformar em ‘Espere que sim’ a uma velocidade duas vezes maior. juntamente com a coincidência. Agora já escutou.

mas também na maior parte da literatura espírita. Porém. os mortos passavam por estágios de deterioração. onde nada ouvira antes. até que finalmente ouvi — ou tive a impressão de ouvir — uma voz de homem a gritar meu nome: ‘Amfortas’. Tenho um pequeno gravador portátil Sony. Era esta a parte que eu não podia compreender: ‘…continue a nos ouvir'. Ela dizia uma frase um tanto longa. Resolvi tentar a experiência. para dizer o mínimo. e não consegui entender a primeira parte. depois dessa confrontação inicial. e aprendera a penetrar no véu de estática e zunidos. E mais ou menos no meio ouvi alguma coisa anômala. Só isso. se não mesmo num nível abaixo desses ruídos. quase inaudível. Era de uma mulher. Mas havia um prefácio de outro autor. definhando para um eventual renascimento no mundo. Acabei esquecendo o assunto. Ocorreu-me que tal estado poderia produzir as banalidades e futilidades registradas não apenas no livro de Raudieve. Assim. um pouco curioso. Assim. Então. Não ouvi nada. Não de Ann. mas permite voltar a fita rapidamente. mesmo depois de muitas repetições. Mas uma mulher qualquer. que haviam efetuado as suas próprias gravações e não pareciam ansiosos em fazer prosélitos. Colin Smythe. outra voz me falava. descendo e depois subindo continuamente. estranho. Será que minha mente estava me enganando? Estaria eu impondo inteligibilidade a fragmentos de ruídos desconexos? Continuei a tocar a fita. Ao final de uma tarde — era verão e ainda havia bastante claridade —. Verifiquei o resto da fita e nada ouvi. É pequeno o bastante para ser colocado no bolso de um casaco.. não pude ouvir nada. Cerca de três repetições depois disso. E não era uma voz que eu pudesse reconhecer. Não haviam sido devidamente preparados em suas vidas terrenas. Eu não tinha a menor dúvida de que a estava ouvindo. um pequeno estalido e depois um som fraco. não fiquei muito entusiasmado com Breakthrough. E a cada repetição o som se tomava mais alto e nítido. pude outra vez ouvir a voz claramente. Voltei a esse trecho da gravação e repeti-o várias vezes. entre outras coisas.maioria ainda não estava pronta. por causa da entonação. Mas por que não a ouvira antes? Concluí que meu cérebro provavelmente se acomodara à fraqueza da voz e às suas estranhezas. Apertei o botão de gravação e deixei a fita virgem correr do principio ao fim. digamos assim. resolvi escutar novamente a fita. Mas achei aquilo um tanto. Acho que meu coração disparou um pouco. Um ou dois dias depois. a possibilidade de que tivessem sido gravadas na fita pelo inconsciente dos experimentadores. a mulher estava dizendo. Eu estava desesperado de saudade de Ann. Comecei a repassar o trecho várias vezes e ouvi de novo o som estranho e fraco. O mesmo se podia dizer de vários depoimentos. a entonação das palavras não era normal. Fiquei atônito. exceto barulhos de rua. sentei na minha pequena sala com o Sony e convidei quaisquer vozes que pudessem me ouvir a se comunicarem e se manifestarem na fita. Mas novas dúvidas surgiram. considerando até. Teria meu gravador simplesmente captado vozes da rua ou da .. Minhas esperanças se perderam como a carteira de um pobre caindo de um penhasco. conforme eu logo descobriria. engenheiros e até mesmo um arcebispo católico da Alemanha. Voltei ao ponto em que estava a voz. Parecia encaixado entre os silvos e a estática. A coisa toda tinha um ritmo muito estranho. É um material chocante e desanimador. escritos por físicos. O que é muito importante. Devo ser franco. Era bastante alto e nítido. Voltei a fita e toquei. Estavam mais interessados em especular sobre as causas das vozes. mas parecia uma indagação. que achei bastante objetivo e aceitável. alguma estática alta e sons do amplificador.

De vez em quando ouvia uma voz de mulher dizendo ‘Estou aqui’ ou ‘Eu sou Ann’. E não fiz mais nenhuma gravação naquela noite. que era professor do Instituto de Línguas de Georgetown. Só Deus sabe o que eu disse a ele. meu ser. Um deles parecia o frear súbito de pneus de automóvel. Toquei o trecho várias vezes. Deixei que a água ficasse fervendo. assentindo e dizendo: ‘Ouvi seu nome'. um amigo e antigo paciente. Emily Allerton. Passava horas fazendo gravações. uma voz dizendo ‘Controle da Terra’. a cada uma sentindo o mesmo calafrio. Escutar exigira de mim uma intensa concentração. pensei. Certamente um barulho da rua. experimentei com Amy Keating. toquei os trechos selecionados para uma das enfermeiras. E agora parecia que nunca deixava de obter algum resultado. Consultei Eddie Flanders. Minha esperanças e dúvidas estavam inseparáveis na manhã seguinte. em outubro. na voz estridente de uma mulher. Comprei um gravador de rolo. aqui e ali. Tentei reprimi-la. Mais tarde. quase contínuas. mas não consegui. As fitas estavam virtualmente repletas de vozes. Tinha um fragmento interessante. Toquei um trecho da primeira fita e ela encostou o ouvido no alto-falante. Aquela voz não seria uma projeção do meu desejo? Uma inteligibilidade imposta a ruídos desconexos. Fui para a cozinha. enquanto esperava que a água fervesse para o café. alheios à fita? Resolví esclarecer a questão definitivamente. Depois de várias repetições. e fiz uma nova gravação. aqui é Ann’. apenas os mesmos sons estranhos. enquanto outras só se tornavam inteligíveis na metade da velocidade. mas convenci-o a escutar a voz de Ann. Era Ann. No intervalo do almoço. Não era a voz dela. todas as noites. escutei de novo as duas fitas. mas é fraco demais’. Na manhã seguinte. devolveu-me o gravador. Ouvi uma voz dizendo: 'Vincent.. Senti um calafrio da base da espinha ao pescoço.casa ao lado? Havia ocasiões em que eu podia ouvir meus vizinhos falando. Depois de uma única vez. . de repente. Estava cansado. com outro cassete. E. minha memória. às vezes se sobrepondo. mas também meu corpo e meu sangue. Em seguida voltou a se concentrar no que estava fazendo. um pré-amplificador e fones de ouvido. Mas não era. Fui ficando obcecado ao longo das semanas subsequentes. Continuei a perguntar por Ann. Levei as fitas e o gravador para o hospital. Quando ele tirou os fones. meu inconsciente. segui um pouco adiante. Não era apenas a minha mente que dizia que aquela era a voz dela. Uma noite. mas nunca a ouvi. enquanto outras apresentavam graus variáveis de clareza. Pude ouvir claramente ‘Continue a nos ouvir’ e ‘Amfortas’. pronunciadas com a maior rapidez. Um deles poderia ter mencionado meu nome. uma intensa emoção. Insisti: 'Mas o que estão dizendo? Não consegue definir?' E Eddie respondeu: ‘Parece o meu nome’. Algumas eram débeis demais para merecer o esforço de tentar decifrá-las. que é um pouco mais distante da rua. E de repente meu cérebro sofreu uma estranha acomodação: em vez do ruído. Algumas estavam na velocidade normal. Concentrei-me no som de freio da segunda fita. Pedi em voz alta que qualquer pessoa que quisesse se comunicar comigo repetisse a palavra ‘Kirios’. ouvi as palavras ‘Anna Kirios’. Nada ouvi quando toquei a fita. E ele disse: ‘Alguém está falando. prendi a respiração. uma das enfermeiras da Neurologia. o sobrenome de solteira de minha mãe. pelo menos com as enfermeiras. eu estava escutando uma gravação que fizera na semana anterior. Ela me disse que não ouviu nada. repetindo-o muitas vezes. Muitas só se tornavam evidentes depois que eu fazia isso. Estava completamente aturdido. Decidi parar por aí. perguntei-lhe o que ouvira.

quando eu fazia alguma pergunta objetiva. Umas poucas declarações eram mentiras óbvias. Havia vozes que me pediam para rezar por elas. por exemplo. Ele parecia genuinamente perplexo e me disse que o som não deveria estar ali. Eu estava pensando na propagação do som por alguma coisa dentro do próprio equipamento. a qualquer momento. não apenas ruído?’ Ele respondeu. Acabei chegando às deduções seguintes. Formulei também duas perguntas objetivas. Pedi-lhe que ouvisse de novo. Parecia estar em contato com personalidades em algum lugar ou estágio de transição. com as experiências em casa. mas quando eu perguntava — e o fiz muitas vezes — o que podia fazer para ajudar. de natureza perturbadora. Não chegava a ser uma voz. Podiam me dizer. A duração era de sete segundos. Não sabiam o futuro. que não podia ser. e continuei a ouvir as vozes suaves e fugazes que respondiam às minhas perguntas ou aceitavam a minha deixa para tópicos de discussão. em qualquer enfermaria. Resolvemos encerrar a experiência. Muitas vezes tinham opiniões contraditórias. Convenci Eddie a me ajudar a fazer uma gravação. Ocasionalmente. Cheguei a um ponto em que reconhecia essas vozes e passei a ignorá-las. encerrei a minha pesquisa naquele dia. ou tinham a intenção de me cansar. perguntei. Depois que o som se repetiu por alguns minutos. nenhuma das quais correta. Prossegui. Não eram clarividentes. como a data de nascimento de minha mãe. convidando as vozes a se manifestarem na fita. O resultado foi o mesmo. a resposta era geralmente algo como ‘Felizes. Havia alguma coisa bastante estranha na gravação. pareceu adquirir a qualidade de uma voz. vesti uma noite um . Eddie disse que não. davam diversas respostas. 'Tenho certeza que é uma voz. assim como fazia com aquelas que ocasionalmente diziam obscenidades. Logo no início das experiências. já que seriam mais fáceis de detectar na gravação do que um simples 'sim ou não’. fiquei fora do campo de visão de Eddie enquanto fazia meu pequeno discurso. O instituto tinha um estúdio de gravação para a produção de fitas educacionais. no máximo. mas seu conhecimento se estendia além do alcance do meu. Ele perguntou: ‘O que estamos gravando?’ Respondi: ‘Moléculas de ar. Nunca mais ouvi uma voz como a de Ann. fazendo sinal a Eddie para começar a gravar. Ele concordou em que provavelmente era isso. instalado numa cabine à prova de som. Tinham também um microfone. Nada ouvimos no resto da fita. Peguei os fones e verifiquei se Eddie estava mesmo escutando o trecho certo. Fiquei aturdido. Havia um senso de humor evidente. Paramos depois de cerca de três minutos e escutamos a fita. Com isso. ‘Esse ruído aparece normalmente numa gravação?’. pedindo como resposta as palavras ‘afirmativo’ ou ‘negativo’. Saí da cabine e fechei a porta. Supus que pudesse ser um defeito da fita. Algumas vozes pediam ajuda. E perguntei: 'Mas é mesmo uma voz.' Eddie pareceu ficar satisfeito. Eu não podia deixar de pensar na Comunhão dos Santos. mesmo o daquelas com quem eu não tivesse contato ou familiaridade. Parece a sua'. Estamos bem’. por exemplo. no entanto. Mas voltei na semana seguinte. Gravamos na potência máxima e a uma velocidade de dezenove centímetros por segundo. outras declaravam que rezavam por mim. Era mais um som de gorgolejo e aproximadamente dez vezes mais alto que qualquer das vozes que eu julgara ter ouvido em minhas gravações em casa. davam-me a impressão de que não queriam que eu deixasse de me interessar por elas. Está relacionado com alguns estudos do cérebro que venho realizando. Com isso. o nome da enfermeira de serviço. Tinham amplificadores potentes e gravadores profissionais Ampex. Entrei na cabine. Mas não conseguimos ter qualquer ideia de seu significado. Não é a sua?’ Indague: ‘Ouve a voz de um homem?’ E ele declarou: ‘Isso mesmo.

Ouvi ‘De que adianta?’. Fiz uma gravação de um paciente catatônico. E também houve ocasiões em que ouvi vozes diferentes dizendo ‘Obrigado’. mesmo que a maioria . 'Para que perder tempo?' e ‘Vá ver televisão que é melhor’. pois sempre se espera captar e gravar vozes reais do rádio de fontes comuns.) Tais reações contribuíram para me dar a impressão de que estava lidando com personalidades altamente individuais e bastante comuns. Ele manifestara interesse pelos fenômenos psíquicos e eu me sentia à vontade para discuti-los. sugerindo outros métodos de gravação. As vozes me ajudaram em diversas ocasiões. Um grupo de neurologistas de Edimburgo. Ele não dissera uma só palavra desde então. Eu apertava um botão errado de vez em quando e podia contar com uma voz a dizer: 'Você não sabe o que faz’. Era o tipo de pessoa que parecia fidedigna. o que era inevitável. eu descobria então que estava cansado e ia me deitar. Não muito tempo depois. Descobri semanas depois que o interno tinha problemas de audição. um amnésico que ali estava há anos. Como as pessoas. esse tipo de coisa. como sempre. Deixei a fita correr até o fim. Em primeiro lugar. A polícia o encontrara a vaguear como sonâmbulo pela M Street por volta de 1970. Um deles foi o uso de um diodo e outro foi a utilização de uma faixa de “ruído branco”. mas não queria que os outros soubessem. Mas. a fita estaria literalmente apinhada de vozes. levei meu gravador Sony portátil para o hospital. Em meados de 1982. Ao longo de toda a noite. depois de perguntar-lhe quem era e se podia me ouvir. As vozes desses pacientes apareciam nas fitas. ligado ao gravador. optei pelo uso do diodo. Liguei o gravador em seu quarto.) Na carta. Formulei diversas perguntas e ele me respondeu imediatamente. ele parecia reticente em relação ao assunto. Eram duas ou três horas da madrugada e fui para a ala dos pacientes psiquiátricos mais perturbados. Perguntei certa vez se era importante que eu tentasse divulgar o fenômeno. A resposta foi incisiva: ‘Negativo’. indicando-me um livro que escrevera sobre o assunto. (O título é Carry on talking. Houve ocasiões em que as vozes criticaram a minha capacidade técnica. Em numerosas ocasiões. num receptor de rádio. Haviam sido feitas na presença de pessoas em coma ou com lesões que as impediam de falar. Eu estava cansado e cometera diversos erros durante a sessão. Voltei para casa e toquei-a. Havia pessoas alegando que tinham conversado com John F. Normalmente. resolvi escrever para Colin Smythe. Nunca tentei o segundo método. pois a captação de vozes adquirira cores exageradas e sensacionalistas. O microfone proporcionava melhores resultados numa sala à prova de som ou extremamente silenciosa. procurara-o para mostrar suas gravações. participando de uma conferência médica em Londres. ele me disse que não ouvia absolutamente nada. (Essa frase em particular pareceu bastante exasperada. Uma coisa curiosa. pois isso excluía qualquer possibilidade de equívocos com sons normais do ambiente. o homem que escrevera o prefácio para Breakthrough. Ouvi uma voz dizendo: ‘Manta de cavalo’.roupão velho e comecei a gravar. O resultado foi muito estranho. havia apenas dois fragmentos de fala que eu podia ouvir. Mas ele me contou algo fascinante. finalmente. Kennedy e Freud. Uma noite convidei um interno para participar de uma experiência. especialmente na imprensa londrina. Isso me surpreendeu. quando perguntei ‘Quem criou o universo material?’. uma voz respondeu claramente: ‘Eu’. Muitas vezes me diziam ‘Boa noite’ no final de uma fita. na mera hora de gravação. entre outras coisas. Mas eu escutava uma porção de coisas. O roupão tinha listras de cores berrantes e um rasgão no ombro direito. o espaço entre estações.

Pode me ouvir?’ Essa experiência pareceu abrir uma porta. Ocorreu um evento decisivo ao final do ano passado.fosse quase inaudível. ‘Você está querendo dizer muito depressa. em resposta à pergunta que eu formulara a esse respeito. além disso. Também comprei um filtro de faixa.. quantas . A Igreja Católica possui os meios — e. está muito devagar. o silêncio foi excepcional e muito estranho. Afinal. Mas isso mudou abruptamente. Algo parecido com ‘James Venamin’. Mas é possível demonstrar. com exceção dos dois fragmentos que mencionei. As vozes são reais. deve ter interesse nisso — de acumular uma massa de provas científicas da existência dessas vozes. eu estava acostumado às vozes rápidas demais. insisti. Dessa vez. Até esse momento. Os jovens quase sempre possuem uma audição muito melhor que a nossa. Peguei a fita com o som de ribombo muito alto e pedi-lhe que escutasse pelos fones de ouvido. se não aprender a escutar. que tinha um controle de tonalidade automático. perguntei-lhe o que ouvira. Isso serve de contestação a qualquer explicação materialista e pode ser reproduzido em laboratório. eficazmente. Troquei meu gravador por um Revox. ‘Não. Não gostei do resultado e. Há também um método para determinar a velocidade original da gravação. e tive uma ideia quando terminou o serviço. nunca mais repeti essa experiência. e indaguei: ‘É voz de homem ou de mulher?’ Ele respondeu: ‘De homem’. cientificamente.’ Ele tornou a pôr os fones de ouvido. Isso nunca poderá ser provado. Existe equipamento disponível para remover toda a estática e os zunidos. obtendo apenas as vozes mais tênues e efêmeras. Ou pelo menos acho que está muito lento. pois logo comecei a registrar vozes altas e nítidas nas fitas. Será necessário limpá-las antes. Devagar. E ouvi a voz alta e nítida de um homem dizendo as palavras: ‘Afirmativo. ‘Lacey / Espere que sim’ foi a primeira. ou pelo menos sem corpos como os conhecemos. e. com homens e máquinas. não é mesmo?’. Creio que são as vozes dos mortos. o ofício daquele rapaz era o som. isso excluirá inteiramente a possibilidade de explicar tudo como recepção anômala de rádio. pegue minhas gravações mais altas e se baseie nelas.. Tive certeza quase absoluta de que estava ouvindo a voz do paciente catatônico. E depois ouvi o que presumi ser o nome do paciente. Depois. Se tal acontecer. ‘Isso mesmo. pelo que posso lembrar. com os resultados que já relatei. eu ainda tinha dúvidas sobre o que estava ouvindo. talvez uma em cada três ou quatro sessões de gravação. Acabou tirando os fones dos ouvidos e acenando com a cabeça em minha direção. Foi a primeira coisa. Ele era bastante jovem. Ajeitei os fones e fiquei ouvindo.’ Entregou-me os fones e acrescentou: ‘Fique escutando que lhe mostrarei'. um homem. providencie outra análise espectrográfica. Ele disse imediatamente: 'Alguém está falando’. Foi num sábado que o técnico da loja veio entregar e instalar o equipamento. Depois disso. que excluía todas as frequências de som que ultrapassam a da voz humana. Deus sabe. Pertenciam à mesma pessoa. Enviei três gravações para o meu amigo da Universidade de Columbia. que não têm origem terrena. que emanam de intelectos sem corpos. Outra coisa esquisita — talvez “misteriosa” seja uma palavra mais apropriada — foram as vozes na fita. penetrando pelo véu de zunidos e estática. acelerando com as mãos. por alguma razão indefinida. Escute essas gravações. Pode falhar a princípio. e rebobinou a fita e passou a escutar. E depois faça as suas próprias gravações. Está lento demais’. Até mesmo aquele interno com problemas de audição poderia ouvir. Pensei tê-la ouvido dizer: 'Estou começando a lembrar’. E continuei: ‘Pode me dizer o que ele está falando?’ Tive outra surpresa quando o jovem respondeu: ‘Não. Como já ressaltei. enquanto ele acelerava a fita. Isso me pegou de surpresa.

Morto. alegre- se por isso. . tão concisamente quanto for possível’. formulei repetidamente uma pergunta: 'Descreva sua condição. Aqui se espera. Fez algumas pequenas correções. Consultou algumas anotações e decidiu que deveria acrescentar mais alguma coisa. caso isso venha a acontecer.” Amfortas releu a carta.vezes se quiser. Foram as seguintes: Chegamos aqui primeiro. Fora por isso que tivera de escrever a carta antes. que jamais tive a intenção de fazer mal a qualquer pessoa. Estaria em breve alterando sua mente. Ora.S. a cada seis horas. Nada faço. conferiu a hora e concluiu que era melhor tomar uma injeção de esteroide. Foram poucas as ocasiões em que obtive resposta. Os homens da Terra clamam contra a morte e o terror de uma extinção final. É como um navio. Subiu ao quarto e pegou a seringa. Começou a bater: “P. achei que poderia gostar de saber quais as respostas que obtive. Obrigado por não me dizer que a minha decisão é o pecado do desespero. Talvez não sejam suficientes para superar a dúvida final. Voltou à máquina de escrever. no fundo de seu coração. que estava em cima da mesa em que fazia as refeições. tomava automaticamente seis miligramas. Mas não é importante para quem? Não posso deixar de especular. Mas não o disse. Como as perguntas objetivas desse gênero são frequentemente ignoradas pelas vozes. talvez ouça algumas coisas bem estranhas a meu respeito. o retorno de Lázaro não foi suficiente para convencer alguns que lá estavam e testemunharam com os próprios olhos. A fé deve ser suficiente para nos livrar dessa angústia? Pode ser suficiente? Estas fitas são a minha prece para aqueles que choram. estado ou localização. Mas o que Jesus nos pede para fazer? Se nossa taça para os sedentos não está cheia até a borda. deveremos negá-la? Se Deus não pode intervir. Talvez você tenha pensado. Mas quero que saiba. Aprendera a não esperar que as dores de cabeça chegassem. Com respeito e afeição. Sei que não é. padre. Mas sei que tornarei a encontrá-lo algum dia. Quando ler esta carta. que isso estava errado. Víncent Amfortas. Houve aquela voz que disse não ser importante fazer isso. eu já estarei com a minha Ann. Pense o melhor de mim. Nos próximos dias. pelo menos uma resposta que pudesse ouvir. Apenas espero. choram noites a cada perda de uma pessoa amada. está bem? Há quanto tempo o conheço? Dois dias? Pois vou sentir saudade. Posso ter uma boa despedida. os homens certamente podem. Receio essa possibilidade. Agora. Por favor. Limbo. Este é o nosso mundo.: Nos muitos meses em que venho fazendo estas gravações. E não pode haver a menor dúvida de que a intenção d’Ele é que o façamos.

Parecia uma voz de mulher. S. E datilografou na frente: "Reverendo Joseph Dyer. . deveríamos fazer?’ Uma resposta que ouvi claramente foi ‘Boas ações'. Também perguntei: ‘O que nós. Universidade de Georgetown Para ser entregue no caso de minha morte”. Anjos médicos. os vivos. J.” Amfortas tirou o papel da máquina de escrever e pôs um envelope em seu lugar. É como um hospital.

CAPÍTULO 10

Kinderman aproximou-se da entrada do hospital, andando mais devagar a cada passo.
Chegando às portas, virou-se e contemplou por um instante o céu chuvoso, procurando um
amanhecer que de alguma forma perdera. Mas havia apenas as luzes vermelhas faiscantes dos
carros da polícia, girando implacavelmente, no silêncio, projetando-se pelas ruas escuras e
molhadas. Kinderman tinha a sensação de que estava andando num sonho. O mundo estava
ansioso. E não podia sentir o próprio corpo. Quando notou a chegada do pessoal da televisão,
virou-se rapidamente e entrou no hospital. Subiu no elevador para o Departamento de
Neurologia e saiu para um caos contido. Jornalistas. Câmeras. Guardas. Havia internos e
residentes curiosos, quase todos de outros setores do hospital. Havia pacientes nos corredores,
de roupão, assustados. Algumas enfermeiras procuravam tranquilizá-los, tentando fazê-los
voltar para seus quartos.
Kinderman olhou ao redor. Diante da mesa da enfermeira de serviço estava um guarda de
uniforme, junto à porta do quarto de Dyer. Atkins estava ali. Escutava os jornalistas, que o
crivavam de perguntas, e suas vozes estridentes se fundiam num único ruído. Atkins se limitava
a sacudir a cabeça, sem dizer nada. Kinderman aproximou-se. Atkins o viu e fitou-o nos olhos.
O sargento parecia profundamente abalado. Kinderman sussurrou-lhe no ouvido:
— Atkins, leve esses repórteres para o saguão lá embaixo.
Apertou o braço do sargento e por uma fração de segundo tornou a fitá-lo nos olhos,
partilhando a sua dor momentaneamente. Mas não se permitiu mais do que isso. Entrou no quarto
de Dyer e fechou a porta. O sargento chamou alguns guardas, ordenando bruscamente:
— Levem toda essa gente lá para baixo! — Houve um clamor de protesto dos repórteres, e
Atkins acrescentou: — Vocês estão incomodando os pacientes.
Ainda houve alguns protestos. Os guardas começaram a afastar os repórteres. Atkins foi até
o posto da enfermeira e encostou-se ali. Cruzou os braços. Seus olhos angustiados se fixavam na
porta do quarto de Dyer. Além daquela porta havia um horror inconcebível. Sua mente não
podia assimilá-lo inteiramente.
Stedman e Ryan saíram do quarto. Estavam pálidos e acabrunhados. O olhar de Ryan estava
no chão. Ele não levantou os olhos em momento algum, enquanto se afastava apressadamente.
Virou num corredor e desapareceu. Stedman fica observando-o. Então, desviou seu olhar pata
Atkins e avisou:
— Kinderman quer ficar sozinho.
A voz dele tinha um som abafado. Atkins assentiu.
— Você fuma? — perguntou Stedman.
— Não.
— Eu também não. Mas gostaria muito de ter um cigarro agora. — Stedman inclinou a
cabeça por um momento, pensando. Depois levantou a mão à altura dos olhos e examinou-a.
Estava tremendo. E murmurou baixinho: — Santo Deus!
A tremedeira foi se tornando mais intensa. Abruptamente, ele meteu a mão no bolso e se

afastou, apressado, seguindo a mesma direção de Ryan. Atkins ainda pôde ouvi-lo murmurar,
repetidamente:
— Santo Deus! Santo Deus!
Uma campainha soou em algum lugar. Um paciente estava chamando uma enfermeira.
— Sargento?
Atkins virou a cabeça. O guarda, na porta, fitava-o com uma estranha expressão.
— O que é?
— Que diabo está acontecendo por aqui, sargento?
— Não sei.
Atkins ouviu uma discussão à sua direita. Virou-se e avistou uma equipe de televisão
confrontando dois guardas, perto dos elevadores. Atkins reconheceu o locutor do noticiário
local das seis horas. Ele tinha brilhantina nos cabelos e sua atitude era beligerante e turbulenta.
Os guardas estavam gradativamente empurrando o pessoal da televisão de volta aos elevadores.
O locutor tropeçou e cambaleou para trás, quase perdendo o equilíbrio. Acabou praguejando e
desistindo, e retirou-se com os outros, batendo com um jornal enrolado na mão.
— Pode me dizer quem está no comando aqui? Tinha a impressão de que era eu.
Atkins olhou para a esquerda e deparou com um homem baixo e magro, num terno de flanela
azul. Os olhos, atrás dos óculos, eram pequenos e alertas.
— É você quem está no comando? — indagou o homem.
— Sou o sargento Atkins, senhor. Em que posso servi-lo?
— Sou o dr. Tench, chefe dos médicos deste hospital. Temos diversos pacientes aqui que se
encontram em estado crítico. E todo esse tumulto é altamente prejudicial.
— Compreendo, senhor.
— Não quero parecer insensível, mas seria melhor que o falecido fosse removido o mais
depressa possível. Só assim o tumulto vai cessar. Acha que vão demorar muito?
— Creio que não, senhor.
— Espero que compreenda a minha posição.
— Claro que compreendo.
— Obrigado.
Tench afastou-se, em passos rápidos. Atkins notou que o ambiente parecia mais quieto
agora. Tornou a virar a cabeça e verificou que o pessoal da televisão já estava quase se
retirando. O locutor ainda batia com o jornal enrolado na palma da mão, enquanto entrava no
elevador, de onde Stedman e Ryan saíam. Eles se aproximaram de Atkins de cabeça baixa. Sem
dizer uma só palavra. O locutor da televisão observava-os e gritou
— O que aconteceu por aqui?
A porta do elevador se fechou e ele sumiu. Atkins ouviu a porta do quarto de Dyer se
abrindo. Olhou e viu Kinderman saindo. Os olhos do tenente estavam vermelhos. Ele parou e
olhou para Stedman e Ryan por um momento.
— Muito bem, podem acabar — disse ele, com a voz trêmula, muito baixa.
— Lamento muito, tenente — disse Ryan, gentil, com o rosto e a voz impregnados de
compaixão.
Kinderman abaixou a cabeça, olhando para o chão. E murmurou:
— Obrigado, Ryan. Isso mesmo, obrigado.

Depois, sem levantar os olhos, afastou-se rapidamente. Encaminhava-se para os
elevadores. Atkins alcançou-o.
— Vou apenas dar uma volta, Atkins.
— Pois não, senhor.
Atkins continuou a andar ao lado dele. Um dos elevadores parou, as portas se abriram.
Estava descendo. Atkins e Kinderman entraram e se viraram.
— Acho que pegamos o elevador certo, Chick — disse uma voz.
Atkins ouviu o barulho de uma máquina funcionando. Virou a cabeça. O locutor da televisão
estava sorrindo, enquanto uma câmera funcionava nas mãos de outro homem. E o locutor
indagou:
— O padre foi decapitado ou...
O punho de Atkins acertou em cheio no queixo dele. A cabeça do locutor foi lançada contra
a parede e ricocheteou com a violência do golpe. Esguichou sangue de seus lábios e ele arriou
no chão, inconsciente. Atkins lançou um olhar furioso para o cinegrafista, que prontamente
abaixou a câmera. E depois, o sargento olhou para Kinderman. O tenente parecia alheio a tudo.
Estava com o olhar perdido no espaço e as mãos enfiadas nos bolsos do casaco. Atkins apertou
um botão e o elevador parou no segundo andar. Pegou o tenente pelo braço e tirou-o do
elevador.
— O que está fazendo, Atkins? — indagou Kinderman, atordoado. Parecia um velho
desamparado e confuso. — Quero dar uma volta.
— É o que vamos fazer, tenente. Por aqui.
Atkins levou-o para outra ala do hospital; pegaram ali um elevador e desceram. Ele queria
evitar os repórteres que estavam no saguão. Percorreram mais corredores e logo estavam fora
do hospital, do lado que dava para o campus da universidade. Um pórtico estreito, acima deles,
abrigava-os da chuva. Estava caindo mais forte agora, e ficaram observando o aguaceiro em
silêncio. À distância, estudantes de capas coloridas encaminhavam-se para o café da manhã.
Duas moças saíram correndo e rindo de um dormitório, segurando jornais por cima da cabeça.
— O homem era um poema — murmurou Kinderman.
Atkins não disse nada, ficou olhando para a chuva.
— Quero ficar sozinho, por favor, Atkins. Obrigado.
Atkins virou a cabeça para observar o tenente, Kinderman olhava fixamente para frente.
— Está bem, senhor.
Atkins virou-se e entrou no hospital. Voltou à ala da Neurologia e começou a interrogar as
possíveis testemunhas. Toda a equipe do turno da noite para a manhã recebera instruções de
permanecer no hospital, inclusive as enfermeiras, médicos e atendente do Departamento de
Psiquiatria. Alguns apertavam-se em torno da mesa de serviço. Enquanto Atkins conversava
com a enfermeira que estava de plantão na Neurologia por ocasião da morte de Dyer, um
médico aproximou-se e interrompeu-o:
— Pode me dar licença, por favor? Lamento muito.
Atkins fitou-o. O homem parecia abalado.
— Sou o dr. Amfortas. E estava tratando do padre Dyer. É mesmo verdade?
Atkins assentiu, solenemente. Amfortas ficou olhando fixamente para ele por algum tempo,
e sua pele foi se tornando cada vez mais pálida, e os olhos cada vez mais retraídos. E,

— A que horas ele entra de serviço? — Não entra. Keating? . Estamos aqui a negócios e não para filmar Detetives apaixonados. Um instante depois. — Quando foi isso? — perguntou Kinderman diretamente à enfermeira. Atkins anotou algumas palavras em seu caderninho. Havia uma prateleira onde se podia escrever e várias outras com pastas de arquivo. Seu olhar era agora firme. Kinderman seguiu-a até o cubículo. — Posso lhe falar a sós. — E onde o viu? — No quarto dele. infelizmente.. Devia ter andado na chuva. determinado. — Lamento. pensou Atkins. Kinderman estava parado diante do sargento.finalmente. — E o que ele disse? — Não me lembro. — Pode me dizer qual o seu horário aqui. por favor? — Fui até lá para informar que não conseguira encontrar o vinho. de vez em quando trazem uma garrafa de bebida. Kinderman apontou para um cubículo envidraçado atrás da mesa de serviço. ele murmurou: — Obrigado.. — Disse “vinho"? — Isso mesmo. — A enfermeira Keating foi a última a vê-lo com vida — informou Atkins. — O que estava fazendo ali. Ela tornou a assentir. penetrante. Depois voltei e informei que. pare de se divertir com enfermeiras bonitas. enfermeira Keating? — indagou Kinderman. — Por volta das quatro e meia. — Ele queria dizer a missa? — Exatamente — A enfermeira ficou um pouco ruborizada e depois deu de ombros. Sua atitude mudara inteiramente. — Viu o padre Dyer por volta das quatro e meia — disse ele. Estava com o chapéu e o casaco encharcados. Verificou que Atkins observava em silêncio. mas não há outro jeito. Atkins. Kinderman fez um gesto para que a enfermeira sentasse e depois fechou a porta. Afastou-se em seguida. A enfermeira estava fazendo o maior esforço para reprimir as lágrimas. Ele tocara a campainha um pouco antes. dizendo que precisava de pão e vinho. não encontrara nada. Ele não trabalha mais aqui. — Isso mesmo. — Uma ou duas pessoas da equipe. Estava se virando outra vez para a enfermeira quando viu Kinderman se aproximando. Mas dei-lhe um pouco de pão. Ela assentiu e assoou o nariz com um lenço. — Muito bem. — Procurei nos lugares habituais. — Compreendo. — Pode ser ali dentro. Atkins observou-o por um instante e depois se virou para a enfermeira. através do vidro. srta. e queria saber se podíamos arrumar.

419 e 411. e seu rosto contraiu-se numa expressão de angustia. O padre Dyer disse-lhe mais alguma coisa na ocasião? A enfermeira sacudiu a cabeça. — A não ser nas vezes em que tive de me afastar para dar medicamentos. — Entre quatro e meia e esse momento. — Kinderman manteve-se em silêncio e a enfermeira acrescentou: — Desculpe. Pegou um punhado deles e entregou-os à enfermeira. — Deixou a mesa três vezes? — Apenas duas. — Mas ele nunca antes pediu pão e vinho. — Tem razão. — E quais são as noites em que fica de serviço? — De terça a sábado. — Viu alguém saindo? — Também não — E durante esse tempo ficou na mesa. — Todas as noites? — Só nas noites em que estou de serviço. — Quando foi isso? — Cerca de dez minutos antes das seis horas. — Em que quartos? — Números 417. Dois medicamentos foram dados na mesma ocasião. viu alguém entrando no quarto do padre Dyer? — Não. — Disse alguma coisa quando lhe comunicou que não conseguira arrumar o vinho? — Disse — E o que foi? Ela precisou usar o lenço outra vez. — Exatamente. — Perguntou: “Você tomou tudo?’' — A voz dela tremia agora. Ela pegou os lenços de papel. Fez uma pausa. — Das dez horas da noite às seis da manhã. Kinderman viu uma caixa de lenços de papel numa prateleira. — E quando tornou a vê-lo? — Quando o encontrei. parecia estar recuperando o controle. O lenço dela era agora uma bola toda molhada. — Mas esteve aqui durante todo o tempo. — Ele estava sempre gracejando. em frente ao quarto. murmurando: — Obrigada. — Não foi nada. Estava escrevendo os relatórios. — Quanto tempo precisava para dar os medicamentos? — Calculo que dois minutos de cada vez. A enfermeira virou a cabeça e começou a chorar. — O padre Dyer já tinha dito a missa aqui antes? — Não sei. — A que horas. por favor? . — Ele lhe contou por que queria dizer a missa hoje? — Não.

não é mesmo? — É. Foi o dr. A heparina e o Dextran da srta. — No quarto da moça? — Isso nada tem de extraordinário. — E pode se lembrar de quem os receitou? — Claro. — E não trabalha. do 411. — E pôde ouvir alguma coisa da conversa deles? — Não. retribuindo-lhe o olhar. E a srta. Amfortas. Todos os que passaram pelo corredor. E acho que ele também. — Assim. Amfortas não trabalhava mais aqui. Tenho certeza absoluta. — Esses medicamentos são dados todos os dias nesses horários? — Não. — A que horas exatamente? — Entre quatro e cinco horas da madrugada. — Por que isso? Isto é. Kinderman pensou por um momento. Ryan tomaram codeína quando faltavam quinze minutos para as cinco. Freitz são novos. se alguém tivesse entrado no quarto do padre Dyer por volta das quinze para as cinco você não teria visto. Não constavam da ficha até hoje.. — Ele esteve no quarto do padre Dyer? — Esteve. Geralmente é o residente quem determina os medicamentos. — Mesmo à noite? A enfermeira Keating assentiu.. Amfortas tem um interesse especial pelo caso dela. O tenente estava surpreso. .. Freitz a uma hora assim? — Foi ontem. — Esses quartos ficam no mesmo corredor do quarto do padre Dyer? — Não. Kinderman tornou a concentrar sua atenção na enfermeira. — Quando foi a última vez que ele visitou a srta. E o mesmo aconteceria se alguém deixasse o quarto uma hora depois.. A porta estava fechada. tomou heparina e Dextran cerca de uma hora depois. — Pensei que tivesse dito que o dr. — Ah. Bolger e a sta. — Por que está tão certa assim? — Porque é um fato excepcional. Freitz. Nós o chamamos de “Fantasma”. Estava olhando para Atkins. — A moça tem insônia. por que você acha isso? — Há meses que ele costuma aparecer por aqui durante o meu turno. Mas ele esteve aqui ontem à noite. Ficam depois da curva do corredor. O sargento estava encostado na mesa. — Quem mais viu por aqui a essa hora? — Da equipe? — Qualquer pessoa. sim. Mas acho que o dr. — O sr. Ele a visita com frequência. — Tem certeza? Não quer verificar os registros? — Não há necessidade. através do vidro. conversa um pouco comigo ou simplesmente circula pelos corredores.

Ela parecia num estado de estupor. Clelia. — Obrigado. Clelia. sim. — Não posso acreditar! É mesmo verdade que de morreu? — É. depois saiu do cubículo e chamou Atkins: — Providencie o telefone do dr. Não fora afetada pelos acontecimentos da manhã. Amfortas e chame-o para ser interrogado. Não se esqueça dos malditos figos. — Hum. — Não há de quê. — E a que horas foi? — Pouco antes de eu encontrar o padre Dyer. com uma expressão irritada. A multidão habitual de espectadores silenciosos já se agrupara em torno do aparelho de televisão e todos os sonhadores estavam acomodados em suas cadeiras. e vieram buscá-la. — A sra. — Encontrou-a caída? — Isso mesmo. Um velho na casa dos setenta anos aproximou-se de Kinderman e disse: — Quero cereal e figos esta manhã. Chamei o pessoal da Psiquiatria. — Eu gostaria de ver uma de suas pacientes — disse Kinderman. ainda meio adormecido.. com os olhos pesados de sono. srta. Onde . Atravessou uma porta com seus passos vigorosos e olhou ao redor. Atkins. Kinderman estava parado na enfermaria aberta. — Só vi a sra. Temple lançou um olhar para a enfermeira. Até lá. perto da entrada da Psiquiatria. vou dar um pulo à Psiquiatria. — Catatônica? — É apenas um palpite. Kinderman deu-lhe outro lenço de papel. O rosto dela estava contraído e tenso. — E quem é ela? — Uma paciente da Psiquiatria. Temple apareceu de repente. Parecia desgrenhado. — Em que ponto exatamente do corredor? — Logo depois que o corredor dá a volta. continuando a falar para o ar vazio. O velho ficou para trás. Avistou Kinderman e foi encontrá-lo junto à mesa. Quero figos. Ela viu-o e desligou prontamente o telefone. Eu diria que ela parecia um pouco catatônica. A enfermeira estava no cubículo. Um atendente aproximava-se lentamente deles Kinderman olhou para a mesa de serviço. — Telefonaram e me acordaram. no lugar em que o tenente estivera: — Não quero os malditos figos. Keating. — Ela estava andando pelo corredor? — Não. O atendente estava conduzindo o velho para uma cadeira. Acho que sim. — Santo Deus! — exclamou ele. Kinderman começou a se encaminhar para a mesa. mas não tenho certeza. Encontrei-a caída no corredor. falando ao telefone. E ainda não posso acreditar. Clelia é senil? — Não sei dizer.. — Kinderman pensou por um momento e depois se levantou. Pouco depois. — A sra.

junto à janela. Apontou para uma mulher idosa. com um ar ocupado. — Sra. com os olhos vazios. — Não há necessidade. — Por que não? — respondeu Temple. Temple fechou a porta. apertando-o em torno dos ombros. Temple avaliou-o por um instante com uma expressão calculista e depois virou-se para a enfermeira. — Temple tirou um pequeno medalhão do . — Vamos até lá. murmurando: — Você não é meu filho. segurando-o pela aba. Não levantou os olhos. Clelia? — perguntou Temple. Ela olhava para as chinelas e segurava as pontas de um xale vermelho de lã. É de cera. um tanto desagradável. Clelia? A velha começou a cantarolar. Quer que eu tente? — Claro. — Eu lhe disse — interveio Temple. — De que maneira? — Hipnose. O que quer com a sra. Clelia? Ela parecia não estar ouvindo. sentada numa poltrona. de cabeça branca. arrumando papéis. É apenas shtuss. E para chegar ao sentido. Tudo isso é bobagem. — Minha boca se abre e as palavras saem antes que eu saiba o que estou dizendo. perguntando a Kinderman: — Você é meu filho? — Eu teria o maior orgulho em ser — disse Kinderman. — Sra. — Pode me deixar vê-la? — indagou Kinderman. Clelia sustentou o olhar dele por um momento. O tenente tirou o chapéu. — Como assim? — Falei por falar. — Aí está ela — disse Temple. — Em seu quarto. mas depois virou o rosto. Clelia? — Isso mesmo. Ela estava parada do outro lado da mesa. — Estou vendo que já se informou de uma porção de coisas. — Mas eu poderia tentar fazer com que ela conversasse com você. — Kinderman deu de ombros e levantou as palmas das mãos. A enfermeira não levantou os olhos. Não faria mal a ela. — Estaria falando com uma parede — Estou acostumado a isso.ela está? Temple olhou para ele. baixinho. A sra. — Não deixa o quarto no escuro primeiro? — perguntou Kinderman. — Pode se lembrar do que fez esta manhã. teríamos de recorrer ao I ching. Kinderman seguiu-o e logo estavam num quarto estreito. — Onde está a sra. — À sra. puxou a cadeira e sentou-se diante da velha. Clelia? — Gostaria de lhe fazer duas ou três perguntas. Clelia? A mulher levantou o rosto. sra. gentilmente. A melodia era dissonante.

Clelia. — Ela entrou em transe no mesmo instante. A velha prontamente fechou os olhos e pareceu arriar na poltrona. Repetiu a pergunta: — O que fez esta manhã? Kinderman mudou a posição do corpo. Lentamente. Permaneceu completamente imóvel. Virou a cabeça e olhou para Kinderman. — Alguém a levou a algum lugar? — Nãoooo. — O que devo perguntar a ela? — indagou o psiquiatra. mas a mulher não respondeu. — Já consertou meu rádio? — Consertarei amanhã. Seu tom era baixo. E depois olhou para o tenente. — Já a tinha hipnotizado antes? — Umas poucas vezes. . Não houve resposta. isso me surpreendeu. — Afinal. Era triangular e pendia de uma corrente pequena. — Por que ela não pôde responder? — Não sei. Seus olhos estavam vazios e inocentes. pode se lembrar do que fez esta manhã? Eles esperaram. — Sra. — O que achou da minha pergunta sobre o padre? — indagou Temple. — Deu uma volta esta manhã? — Nãoooo. Suas mãos descaíram suavemente para o colo. como um gemido. A sra. Kinderman e Temple saíram para o corredor. E depois murmurou as palavras “hora de sonhar”. Ele perguntou baixinho: — Ela está dormindo? Temple sacudiu a cabeça e perguntou à mulher: — Viu um padre hoje. para que fazer rodeios? E o que me diz da pergunta se alguém a levou para a Neurologia? Achei que foi muito boa. Abriu os olhos e fitou Temple. madame — respondeu Kinderman. Clelia. Clelia? A mulher rompeu o silêncio subitamente. com uma expressão satisfeita. — Mas que merda! — murmurou Temple. Encostou a mão em sua testa e disse: — Acorde. Temple virou-se para o detetive. Temple virou-se para a sra. — Sra. Temple tornou a virar-se para a mulher.. Parecia sobrenatural. Temple ficou aturdido. — É o que todos dizem. — Nãoooo. Clelia baixou os olhos para seus sapatos e recomeçou a cantarolar. Ele levantou o medalhão e deixou-o balançar lentamente diante dos olhos dela.bolso superior do jaleco branco. sra. Clelia. para ser sincero. — A mesma coisa? Kinderman assentiu. Ela fitou o psiquiatra no mesmo instante. a velha começou a se empertigar. E. O tenente disse: — Já é suficiente. prolongado..

— Por que deveria? Por falar nisso. — Falou com Amfortas? — indagou o tenente. no porão. — Onde fazem autópsias e coisas assim? Temple assentiu. E diga a Ryan para se apressar com as impressões. Atkins estava encostado na mesa de serviço quando avistou Kinderman se aproximando pelo corredor. — Ele foi mutilado? Kinderman fitou o atentamente. — Não deixe. Ele estava sentado num canto. — Stedman e Ryan já acabaram. Desça e converse com ele lá embaixo. antes de acrescentar: — O que acha disso? — Não acho nada. — O padre Riley está lá embaixo. com a cabeça entre as mãos. — E bem nítidas. — Não poderia mesmo achar — murmurou Kinderman. Quero comparações imediatas com as impressões que ele encontrou no confessionário. — Não pode errar. — Não consegui. Atkins acenou com a cabeça e os dois se encaminharam para os elevadores. tenente? — É o que vamos descobrir. por Deus. — Sou muito bom em hipnose. — Continue tentando. Já lhe disse isso. Kinderman virou-se e afastou-se. vou dar um pulo à Patologia. Enquanto isso. sondando o olhar firme de Temple. existe aqui uma seção de patologia? — Claro. — O assassino é audacioso. — Kinderman fez uma pausa. A expressão de Temple permaneceu impassível. E o assassino riscou um signo zodiacal na palma esquerda. Vai até lá? — Vou. Kinderman descobriu o caminho para a Patologia e finalmente entrou numa sala silenciosa onde alguns estudantes de medicina estavam dissecando cadáveres. — Havia impressões nos vidros — informou Atkins. Foi ao encontro dele. e ficou contente quando a porta do elevador se fechou. — O dedo indicador direito foi cortado. Como é possível uma coisa assim. O detetive desviou os olhos. Atkins. Desça pelo elevador da Neurologia e vire à esquerda. Levantou-se e saiu . Temple perguntou. — Fica li embaixo. atrás dele: — O que está querendo na Patologia? Kinderman deu de ombros e continuou a andar. Mas. Temple praguejou baixinho. — Mas eu não. De Gêmeos. não consigo aceitar o que fizeram com o padre. pegando um que estava descendo. Seja vago. Atkins. E está zombando de nós. Diz que quer ver o corpo. Um médico num cubículo envidraçado ergueu os olhos da mesa em que trabalhava e avistou o tenente. O tenente vislumbrou o padre Riley quando Atkins saiu no saguão.

Talvez tenha sido levada por um dos estudantes. Kinderman devolveu-lhe a tesoura. Kinderman segurava um instrumento brilhante e afiado. — O que foi que disse? — Nada. — Estou muito fraco.do cubículo. Não existe jargão na terra dos mortos. Tench — disse Atkins. de aço inoxidável. Quando voltou à Neurologia.. Kinderman levantou os olhos. — Claro que temos. — Ainda está com o preço. Não foi fácil. — Tem algum instrumento de dissecação que pareça uma tesoura? Estou curioso. com as sobrancelhas contraídas. A tesoura está dura assim porque é nova.. Tirou um da bainha e entregou-o a Kinderman. num esforço para separar as lâminas. — Só pode estar brincando. — O médico correu os olhos pelos ganchos e bainhas na parede. Esses instrumentos são muito caros. — Os instrumentos são substituídos com frequência? — perguntou Kinderman. O instrumento proporcionava-lhe um sentimento de temor. — Este é o dr. — Como costumam chamá-lo? — Tesoura. doutor. — Kinderman puxou as alças cuidadosamente. na direção de Kinderman. cautelosamente. — Posso ajudá-lo em alguma coisa? — É possível. — Tome cuidado com isso. não. Quem é você? . — Kinderman mostrou sua identificação. que estavam tendo uma discussão. Levou o tenente a uma parede onde estavam diversos instrumentos. — Não está. Além disso. — Disse “nova”? — Acabamos de recebê-la. — O médico se inclinou e tirou uma etiqueta adesiva de uma alça. Kinderman alcançou-os a tempo de ouvir Tench dizendo: — Isto é um hospital e não um jardim zoológico! Os pacientes estão em primeiro lugar! Está me entendendo? — Que tsimmis é esta? — perguntou Kinderman. Tench virou-se e esticou o queixo. — Sou o chefe dos médicos. Tench. — Tomarei. aproximando-se de Kinderman. Isso era tudo o que queria? — Já é o suficiente. Como é mesmo o seu nome? — Arnie Derwin. — Muito obrigado. — Impõe respeito — murmurou Kinderman. beligerante. — Não podia deixar de ser. As lâminas se curvavam num crescente. Kinderman virou-as e elas refletiram a luz do teto. Kinderman encontrou várias enfermeiras agrupadas em torno de Atkins e do chefe dos médicos do hospital. Amassou a etiqueta e colocou-a no bolso. — A antiga não está aqui. não há qualquer possibilidade de danificá-los. Não sei por que recebemos um novo. dr.

Está se lembrando de tudo agora. Tranque todas as saídas para a rua e ponha urn homem em cada uma. Pode fazer a gentileza de ficar de lado? Temos um trabalho a fazer. Forneceram as informações falsas à imprensa de propósito. — Santo Deus. Vamos precisar de muitos homens. doutor: nas cartas que Gêmeos escrevia para a imprensa. sempre dobrava o l final de cada palavra. dr. A verdade é que o dedo desaparecido era este! — Kinderman estendeu seu dedo indicador direito — Não era o dedo do meio. todos os fatos indicam o verdadeiro modus operandi! Tench estava atordoado. Tench? Pois esqueça. Mais ninguém. mesmo quando estava errado. — Quer fazer o favor de me escutar? Kinderman virou-se abruptamente para ele. — Um pobre tenente da polícia a caçar fantasmas. E precisamos vasculhar todo o hospital à sua procura. a fim de não terem muito trabalho todos os dias com os lunáticos que apareciam para confessar que eram Gêmeos. — Ei. mas que desfaçatez! O tenente já se virara para Atkins e estava dizendo: — O assassino é alguém deste hospital. — Não é possível! — Acho melhor acreditar. Ninguém entra nem sai sem as credenciais apropriadas. quando o encontrassem.. — Coloque dois homens em cada andar. Apague tudo isso de sua mente. Ligue para a delegacia. — Vocé é quem vai me escutar. mas o indicador! E não era da mão esquerda e sim da direita! E o signo de Gêmeos não estava nas costas e sim na palma esquerda! Somente o pessoal da Seção de Homicídios da polícia de Los Angeles sabia disso.. Estamos procurando uma tesoura cirúrgica. aproximando o rosto ainda mais de Tench. — Lembra-se das notícias sobre a maneira como ele costumava operar? — Aonde está querendo chegar? — Está lembrado? — Havia mutilações? — Isso mesmo. — Quem sair deve ser revistado. de Gêmeos. — Quero que saiba o que estamos enfrentando. Kinderman ignorou-o. E nas costas da vítima ele riscava a faca um signo zodiacal. suave e dominadora. espere um pouco! — explodiu Tench. — Kinderman fez uma pausa. E o nome de cada vitima começava com K. — Kinderman inclinou a cabeça na direção do médico. — Claro que já ouvi falar. — Mas neste caso. com uma expressão sombria. — Você não pode fazer isso! — berrou Tench. Com isso. Tench estava roxo de raiva. — Sua voz estava baixa. Isso lhe diz . Mas qual é o problema? Ele está morto. Já ouviu falar do assassino Gêmeos? — Como? O comportamento de Tench continuava beligerante — O assassino Gêmeos. — O dedo médio da mão esquerda da vítima era sempre cortado. doutor. E tem mais. não precisavam desperdiçar tempo com investigações e poderiam reconhecer o verdadeiro assassino.

Evitou o olhar do guarda. . — Seu nome do meio era Kevin. E se afastou. olhou para o posto da enfermeira. no cubículo envidraçado. — Muito bem. Uma das enfermeiras que ali estava. em cima da cama. de braços cruzados. O tenente ficou aturdido. Quando seus olhos se encontraram. — Continue tentando.alguma coisa. Encaminhou-se para a porta do quarto de Dyer. com uma expressão atordoada. de outro departamento. Kinderman teve a impressão de que ela estava extremamente ansiosa. Depois. Tornou a concentrar sua atenção em Atkins. sem qualquer inflexão na voz. Continham todo o suprimento de sangue do padre Dyer. E agora quer fazer a gentileza de nos deixar trabalhar e tentar protegê-lo? Muito pálido. Na delegacia. Ao lado. E nesse instante um peso imenso pareceu sufocá-lo. Teve a sensação de que ingressara em outra dimensão. murmurando: — Desculpe. parada. Metade do quarto estava na sombra. arrumados impecavelmente. num carrinho de remédios. Encostou-se na porta e olhou para Stedman O patologista estava numa cadeira. Respirou fundo e olhou para o corpo. Ryan relatou a Kinderman o resultado da comparação das impressões digitais. a chuva escorria por uma janela. Pegou-o pelo braço e afastou-o da mesa alguns passos. doutor? — Santo Deus! — Está entendendo agora? Ficou bem claro? — Mas o que me diz do nome do padre Dyer? — indagou Tench. faça o que lhe mandei. — Nem mesmo nas bocas dos vidros. — Está querendo me dizer que duas pessoas diferentes cometeram os assassinatos? As impressões digitais que havia nos painéis do confessionário não combinavam com as impressões dos vidros. pegou a maçaneta. abriu a porta e entrou. havia vinte e dois vidros de recolhimento de espécimes. em filas simétricas. com o sangue do padre Dyer: É UMA VIDA MARAVILHOSA Quase na hora do crepúsculo. baixinho. com uma expressão de cansaço. Já conseguiu falar com Amfortas? — Não. Agora. perplexo. Tench assentiu. onde o assassino escrevera. — Não há nenhuma mancha ou gota de sangue em lugar algum do quarto — disse Stedman. debaixo de um lençol branco. Kinderman acenou com a cabeça. Kinderman virou-o. e o cinzento lá fora impregnava o resto com uma luz débil e espectral. o mistério se aprofundou para além do alcance da razão. fitava-o atentamente. — Não começa com K. gentilmente observando-o encaminhar-se para o telefone. Atrás dele. Kinderman suspirou e olhou para Atkins. O tenente desviou os olhos para a parede que ficava atrás da cama. Atkins.

CAPÍTULO 11

QUINTA-FEIRA, 17 DE MARÇO

Os olhos transmitiam ao cérebro uma centésima parte dos dados recebidos. Às
possibilidades de que aquilo que era transmitido fosse uma decorrência do acaso eram de um
bilionésimo de um bilionésimo de um bilionésimo de um por cento. Um dado sensorial parecia
igual a qualquer outro. O que decidiria qual devia ser transmitido ao cérebro?
Um homem decidiu mover a mão. Suas reações motoras foram desencadeadas por
neurônios, que foram desencadeados por outros, que conduziam ao cérebro. Mas que neurônio
decidiu tomar essa decisão? Presumindo-se que o encadeamento, no disparo de neurônios, se
estenda pelos bilhões de neurônios do cérebro, quando se chega ao final o que será que resta
para desencadear um ato de livre arbítrio do homem? Um neurônio poderia decidir? O Primeiro
Neurônio? O Primeiro Determinante? Ou talvez o cérebro inteiro decidisse. Será que isso
proporcionaria ao todo o que nenhuma das partes isoladas possuía? Seria possível que zero
vezes bilhões resultasse em mais que um zero? E o que será que decidia que o cérebro como um
todo tomasse uma decisão?
Os pensamentos de Kinderman voltaram ao serviço. E ele ouviu o padre Riley ler
suavemente:
— "Que os anjos possam conduzi-lo ao paraíso. Que os coros dos anjos possam lá recebê-
lo. E com Lázaro, outrora um mendigo, que possa ter o repouso eterno.”
Kinderman ficou observando, com um aperto no coração, Riley lançar água benta sobre o
caixão. A missa na Capela Dahlgren terminara, e agora estavam de pé numa depressão coberta
de relva do campus, no início do dia. Uma nova sepultura fora aberta no cemitério jesuítico. Os
padres da paróquia da Santíssima Trindade estavam presentes, assim como os jesuítas do
campus, que eram poucos, pois atualmente quase todos os professores eram leigos. Ninguém da
família estava presente. Não houvera tempo. Os sepultamentos dos jesuítas eram rápidos.
Kinderman estudou os homens trêmulos em torno da sepultura, em suas batinas pretas e capotes.
Seus rostos eram estóicos e inescrutáveis. Estariam pensando em sua própria mortalidade?
— ‘‘Uma luz do alto há de nos visitar para brilhar sobre os que estão nas trevas e entrar na
terra de sombras da morte.”
Kinderman pensou em seu sonho com Max, enquanto Riley orava:
— “Eu sou a ressurreição e a vida.’
Kinderman olhou para os prédios antigos em torno deles, fazendo-os parecer pequenos
naquele vale sereno. Como o mundo, eles continuavam em sua implacável existência. Como era
possível que Dyer tivesse partido? Cada homem que já vivera sempre ansiara pela felicidade
perfeita, refletiu o detetive, angustiado. “Mas como podemos tê-la, quando sabemos que vamos
morrer?” Cada alegria era toldada pelo conhecimento de que acabaria. Será que isso significava
que a natureza implantara em nós um desejo por algo inatingível? “Não, não pode ser. Não tem
sentido.” Todos os outros impulsos implantados pela natureza tinham um objetivo

correspondente que não era um fantasma. Por que aquela exceção? Era a natureza produzindo a
fome, quando não havia alimento. “Nós seguimos em frente. Nós continuamos.” Assim, a morte
se tornava vida.
Os padres começaram a se afastar, em silêncio. Somente o padre Riley ficou. Permaneceu
imóvel, olhando para a sepultura. Depois, baixinho, começou a recitar os versos de John Donne:
— “Morte, não sejas orgulhosa, embora alguns te chamem de poderosa e temível, pois tal
não és.” — Sua voz estava impregnada de ternura, e seus olhos começaram a brilhar com
lágrimas. — “Pois não morrerão, pobre Morte, aqueles a quem deves derrubar; nem a mim
ainda podes matar. Do Sono e Repouso, que em tuas imagens existem, muito prazer se tira, muito
mais de ti há de fluir; e nossos melhores homens em breve partirão, na tua companhia,
descansando os ossos, libertando as almas! São escravos do destino, do acaso, reis e homens
desesperados; convivem com o veneno, a guerra e a doença; as drogas e encantamentos podem
nos fazer dormir tão bem, melhor que o teu próprio golpe. Por que então temer? Um curto sono
passa e despertamos na eternidade, a Morte não mais existe: Morte, tu hás de morrer!”
O padre esperou um instante, depois limpou as lágrimas com a manga. Kinderman
aproximou se e murmurou:
— Lamento profundamente, padre Riley.
O padre assentiu, olhando para a sepultura. Finalmente levantou os olhos, cheios de
angústia, sofrimento e perda, e fitou Kinderman.
— Descubra-o — disse ele, sombriamente. — Encontre o desgraçado que fez isso e corte
os colhões dele.
O padre Riley virou-se e afastou-se. Kinderman ficou observando-o.
Os homens também ansiavam por justiça.
Quando o jesuíta finalmente desapareceu de vista, o tenente vagueou até uma sepultura e leu
a inscrição na lápide:

DAM1EN KARRAS, S. J.
1928-1971

Kinderman ficou olhando fixamente. A inscrição estava lhe dizendo alguma coisa. Mas o
quê? Seria a data? Ele não conseguia determinar. Nada mais tinha sentido, remoeu Kinderman.
A lógica se perdera com a comparação das impressões digitais. O caos dominava aquela parte
do mundo. O que fazer? Ele não sabia. Levantou os olhos para o prédio da administração do
campus.
Kinderman dirigiu-se ao gabinete de Riley. Tirou o chapéu. A secretária de Riley inclinou a
cabeça e perguntou:
— Em que posso servi-lo?
— O padre Riley está? Posso falar com ele?
— Duvido muito que ele esteja recebendo alguém neste momento — Ela suspirou. — Sei
que ele não está atendendo nenhum telefonema. Mas pode me dizer seu nome, por favor?
Kinderman disse:
— Ah, sim...
Ela pegou o telefone e ligou para a outra sala. Falou com Riley, depois desligou e disse a

Kinderman:
— Ele vai recebê-lo. Pode entrar, por favor.
A secretária apontou paia a porta.
— Obrigado, moça.
Kinderman entrou numa sala ampla. Os móveis eram quase todos de madeira escura,
envernizados, e nas paredes havia litografias e retratos de jesuítas proeminentes do passado de
Georgetown. Santo Inácio de Loyola, o fundador da ordem, olhava afavelmente de um quadro a
óleo, com uma moldura imensa.
— O que está pensando, tenente? Quer um drinque?
— Não, obrigado, padre.
— Sente-se, por favor.
Riley apontou para uma cadeira diante da mesa.
— Obrigado, padre.
Kinderman acomodou-se. Experimentava uma sensação de segurança naquela sala.
Tradição. Ordem. Precisava de tais coisas. Riley tomou o scotch num copo pequeno, que
produziu um som abafado ao ser colocado no couro polido que cobria a mesa.
— Deus é grande e misterioso, tenente. O que está acontecendo?
— Dois padres, e um menino crucificado. Obviamente, há alguma conexão religiosa. Mas o
que é? Não sei o que estou procurando, padre. Estou tateando no escuro. Mas, além de serem
padres, o que Bermingham e Dyer podiam ter em comum? Que ligação podia haver entre eles?
Tem alguma ideia?
— Claro que tenho. Sei o que é. Você não sabe?
— Não, não sei. O que é?
— Você. E isso se aplica também ao garoto Kintry. Você conhecia a todos. Não tinha
pensado nisso?
— Tinha, sim — admitiu Kinderman. — Mas certamente não passa de uma coincidência. A
crucificação de Thomas Kintry... é uma coisa que não tem nenhuma relação comigo. — Abriu as
mãos, num gesto retórico.
— Tem razão. — Riley se virara de lado e estava olhando por uma janela. Era o intervalo
entre as aulas, e os estudantes circulavam de um lado pata outro. — Podia ser aquele exorcismo.
— Que exorcismo, padre? Não estou entendendo.
Riley virou a cabeça na direção de Kinderman.
— Ora, tenente, tenho certeza de que sabe o que aconteceu.
— Sei um pouco.
— Aposto que sabe muito.
— O padre Karras estava de alguma forma envolvido.
— Se quer chamar morrer de envolvimento. — Riley estava outra vez olhando pela janela.
— Damien foi um dos exorcistas. Joe Dyer conhecia a família da vítima. E Ken Bermingham
deu permissão a Damien para investigar, e depois ajudou a escolher o outro exorcista. Não sei o
que isso pode significar, mas não acha que certamente existe alguma relação?
— Claro que existe. É algo muito estranho. Mas isso nos deixa com Kintry.
Riley virou-se para ele.
— Será mesmo? A mãe dele ensina línguas no Instituto de Linguística. Damien levara para

Vou verificar. — Pegou o copo e girou-o entre os dedos. Kinderman desistiu. como se esperasse que a ação pudesse gerar pensamento. — Sabe onde eu posso encontrá-lo. Mas vou verificar no laboratório. — Pegou o telefone e discou um ramal. — Um médico servirá. Posso ficar com este? — Pode. Edward Coffey. — Esse caso de possessão. se quiser. — Talvez devesse estar procurando um demônio. Um deles era de uma empresa que fabricava equipamentos médicos e referia-se ao pedido de uma sonda de laser. Encaminhou-se apressadamente para o hospital. Mas também sei que ele ainda aparece de vez em quando por aqui. mas ninguém atendeu. está convencido de que foi autêntico? — Não posso perder tempo com demônios. na maioria dos dias. Kinderman perdeu o seu senso de segurança. Por acaso não o viu? — Não. padre. Desligou e acrescentou: — Sinto muito. Os pobres estão sempre conosco. E a pessoa que descobriu foi a mãe de Kintry. Jane Hargaden. completamente molhadas.. Subiu os degraus e tocou a campainha. não o vi. A enfermeira foi até uma prateleira com vários compartimentos pequenos e pegou um maço de recados. mas acabou respondendo: — Com uma sonda. Mas temos diversos recados para ele. perdido num labirinto. Tocou outra vez. Notou que todas as cortinas das janelas estavam fechadas. Nenhum dos guardas sabia onde ele estava. . — Pode examiná-los o senhor mesmo. Chegando ao hospital.eles uma fita gravada. Queria a prova de que a vítima estava falando em alguma espécie de língua que nunca aprendera. O tenente foi para a Neurologia e falou com a enfermeira de serviço. tenente? Kinderman hesitou um instante. — Ele não poderia ter viajado? — Não sei dizer. Ninguém atendeu. Aquela ligação levava às trevas.. O que já é suficiente para me dar o que pensar. certo dr. distraidamente. — E estava? — Não. Kinderman mostrou um dos recados para a enfermeira. — É igual aos outros. sim. A chuva cessara e as calçadas brilhavam. mas movendo-se depressa. Ele não faz mais a ronda. Queria saber se os sons gravados na fita eram de alguma língua ou apenas uma algaravia sem sentido. Kinderman não conseguiu encontrar Atkins. Desceu pela 36th Street. Um minuto transcorreu. Todos os outros eram telefonemas da mesma pessoa. O detetive deixou o gabinete e logo estava com a respiração ofegante. — Sei disso. pedindo que a analisassem. Virou à direita na esquina e seguiu para a casa estreita de Amfortas. por favor? — Não. — Obrigado. — Como eles fizeram. Riley continuava a girar o copo entre os dedos. Interrogou-a a respeito de Amfortas. Era inglês ao contrário. seguindo apressadamente para o portão principal do campus. Kinderman deu uma olhada nos recados. Examinou-os rapidamente e depois os estendeu para Kinderman.

Kinderman guardou o recado no bolso e devolveu os outros à enfermeira.
— Muito obrigado. Se por acaso encontrar o dr. Amfortas ou receber um telefonema dele,
poderia pedir que me procurasse? — Entregou um cartão de visitas à enfermeira. — Poderá me
encontrar neste número.
— Pois não, senhor.
— Obrigado de novo,
Kinderman virou-se e encaminhou-se para os elevadores. Apertou o botão onde se lia
“Desce”. Um elevador parou. Kinderman deixou que uma enfermeira passasse na sua frente e
entrou em seguida. Dentro do elevador, a enfermeira deu um passo para trás. Kinderman
lembrava-se dela. Era a mesma que o fitara de maneira tão estranha na manhã anterior.
— Tenente?
Ela estava de rosto franzido e sua atitude era de hesitação. Cruzou os braços sobre o peito,
segurando uma bolsa de couro branca. Kinderman tirou o chapéu.
— Posso ajudá-la em alguma coisa?
A enfermeira desviou os olhos. Parecia indecisa.
— Não sei. É uma coisa meio absurda. Não sei.
Chegaram ao saguão.
— Vamos para algum lugar onde possamos conversar — propôs Kinderman.
— Eu me sinto completamente tola. É apenas uma coisa... — A enfermeira deu de ombros.
— Ora, não sei.
A porta do elevador se abriu. Saíram, e o tenente conduziu a enfermeira para um canto do
saguão, onde se sentaram em poltronas azuis.
— É realmente uma coisa estúpida — murmurou a enfermeira.
— Nada é estúpido. Se alguém me dissesse agora "O mundo é uma laranja”, eu perguntaria
de que tipo e depois disso quem sabe o quê? É verdade. Quem pode dizer atualmente que sabe o
que é o quê? — Kinderman olhou para a plaqueta de identificação dela: CHRISTINE CHARLES. —
O que aconteceu, srta. Charles?
Ela deixou escapar um suspiro por entre os lábios.
— Está tudo bem — assegurou o tenente. — E agora me diga: o que houve?
Ela levantou a cabeça, enfrentando o olhar dele.
— Trabalho na Psiquiatria. Na seção dos agitados. E há um paciente estranho. — Ela deu
de ombros. — Eu não estava no hospital quando ele foi internado. Foi há muitos anos, uns dez
ou doze. Verifiquei na ficha dele.
A enfermeira tateou na bolsa e tirou um maço de cigarros. Pegou um cigarro e acendeu-o
com um fósforo. Teve de fazer várias tentativas para conseguir riscar o fósforo. Virou a cabeça
e soprou a fumaça numa coluna cinzenta.
— Desculpe.
— Continue, por favor.
— Esse homem... A polícia encontrou-o vagando pela M Street. Completamente atordoado.
Acho que não podia falar e não tinha nenhum documento de identidade. Seja como for, acabou
sendo encaminhado para cá.
Tirou uma baforada do cigarro, rápida e nervosa.
— Foi diagnosticado como catatônico, embora ninguém soubesse com certeza. Estou sendo

franca. E a verdade é que o homem nunca falou, ao longo de todos esses anos. Nós o
mantínhamos na enfermaria aberta. Até recentemente. Já vou chegar a isso num instante. O
homem não tinha nome e por isso lhe inventamos um. Todos o chamamos de Tommy Sunlight
(Tommy Luz do Sol). Na sala de recreação, ele passa o dia inteiro se deslocando de uma
cadeira para outra, acompanhando a luz do sol. Nunca senta na sombra, se puder evitar. —
Tornou a dar de ombros. — Havia alguma coisa de gentil nele. Mas, de repente, tudo mudou,
como eu disse. Por volta do primeiro dia do ano, ele começou... hã... a emergir de seu
retraimento. E, pouco a pouco, começou a emitir ruídos, como se quisesse falar. Creio que
estava tudo bem claro em sua cabeça, mas ele não usava o aparelho fonador há tanto tempo que
por alguns instantes só saíram grunhidos e gemidos.
Inclinou-se para um cinzeiro e apagou o cigarro, esmagando-o em movimentos rápidos e
nervosos.
— Estou fazendo uma história terrivelmente comprida a partir de nada. — Tornou a olhar
para o tenente. — Ele acabou tendo um acesso, ficou violento, e nós o colocamos no isolamento.
Em camisa de força. Numa cela acolchoada. Todo o rigor. Ele está lá desde fevereiro, tenente,
não haveria a menor possibilidade de estar envolvido. Mas diz que é o assassino Gêmeos.
— Como?
— Insiste em afirmar que é o assassino Gêmeos, tenente.
— Mas disse que ele está trancafiado?
— Isso mesmo. Por isso é que hesitei em lhe contar a história. Ele poderia facilmente ter
declarado que era Jack, o Estripador. E daí? Mas é que... — Fez uma pausa, e seus olhos se
tornaram perturbados, vagamente distantes. — Ouvi-o dizer uma coisa estranha na semana
passada, quando lhe dei Thorazine.
— E que ele disse, por favor?
— “O padre.”
O ingresso na seção dos agitados era controlado por uma enfermeira postada numa cabine
circular, de vidro. Ficava no centro de uma área quadrada, na confluência de três corredores. A
enfermeira apertou um botão e uma porta de metal se abriu. Temple e Kinderman entraram na
seção; a porta se fechou atrás deles.
— Não há a menor possibilidade de se sair daqui — comentou Temple, visivelmente
irritado e brusco. — A enfermeira vê a pessoa através da janela de sua porta e aperta o botão
para abri-la, ou você tem de apertar uma combinação de quatro dígitos, que é mudada todas as
semanas. Ainda quer falar com ele?
— Não pode fazer mal.
Temple assumiu uma expressão de incredulidade
— O homem está numa cela trancada. E numa camisa de força. Com as pernas presas.
O tenente deu de ombros.
— Vou apenas dar uma olhada.
— O problema é seu, tenente — disse o psiquiatra, asperamente.
Começou a andar rapidamente, e Kinderman seguiu-o por um corredor mal iluminado.
Temple resmungou:
— Estão sempre mudando estas malditas lâmpadas e mesmo assim continuam a queimar.
— Isso acontece no mundo inteiro.

Temple meteu a mão no bolso e tirou uma argola cheia de chaves.
— Ele está aqui. Cela 12.
Kinderman espiou por uma janelinha que só permitia a visão por um lado. A cela
acolchoada tinha uma cadeira de encosto reto, uma pia, um vaso sanitário e um bebedouro. Num
catre ao fundo da cela, um homem estava sentado numa camisa de força. Kinderman não podia
ver o rosto dele. A cabeça do homem estava abaixada, encostada no peito; os longos cabelos
pretos caíam em mechas emaranhadas e oleosas. Temple destrancou a porta e abriu-a. Apontou
para o interior.
— Fique à vontade. Quando tiver acabado, aperte a campainha junto à porta. Chamará a
enfermeira. Estarei em minha sala. Deixarei a porta destrancada.
Lançou um olhar contrariado ao tenente e depois se afastou pelo corredor. Kinderman
entrou na cela e fechou a porta, sem fazer barulho. Uma lâmpada pendia de um fio no centro do
teto. Os filamentos eram fracos e projetavam uma claridade esverdeada pela cela. Kinderman
olhou para a pia branca. Uma torneira estava pingando, lentamente, uma gota de cada vez. No
silêncio, o som era alto e nítido. Kinderman aproximou-se do catre e parou.
— Levou muito tempo para chegar aqui.
A voz era baixa, sussurrada, com um tom sardônico. Kinderman ficou aturdido A voz
parecia-lhe familiar. Onde já a ouvira antes?
— Sr. Sunlight?
O homem levantou a cabeça. E quando viu as feições rudes, Kinderman cambaleou para
trás, em choque.
— Santo Deus! — balbuciou ele, com o coração disparando.
A boca do paciente estava entreaberta num sorriso.
— Não acha que é uma vida maravilhosa?
Kinderman recuou às cegas para o corredor, cambaleou, virou-se, apertou a campainha para
chamar a enfermeira, depois saiu apressadamente da cela, com o rosto muito pálido. Quase
correu para o gabinete de Freeman Temple.
— O que aconteceu? — perguntou Temple, com o rosto franzido, ao ver Kinderman entrar
intempestivamente em sua sala. Sentado à sua mesa, largou a revista de psiquiatria que estava
lendo e avaliou o detetive suado e ofegante. — É melhor sentar. Qual é o problema?
Kinderman arriou numa cadeira. Não podia falar nem ordenar os pensamentos. O psiquiatra
levantou-se e inclinou-se para ele, examinando-lhe o rosto e os olhos.
— Você está bem?
Kinderman fechou os olhos e assentiu, balbuciando:
— Podia me arrumar um pouco de água, por favor?
Levou a mão ao peito, sentiu o coração. Ainda estava
batendo muito depressa. Temple despejou água gelada de uma garrafa num copo de plástico
que estava em cima de sua mesa. Pegou o copo e estendeu-o para Kinderman.
— Tome aqui.
— Obrigado.
Kinderman pegou o copo. Tomou imediatamente um gole de água e depois outro, esperando
que o coração se acalmasse.
— Agora está melhor — disse ele, finalmente, suspirando. — Muito melhor.

— Onde você estava? — Procurando uma aliança de casamento. o psiquiatra recuou abruptamente. tenente. — Está certo. Kinderman levantou os olhos. Atkins não sabia que conclusão tirar. — Havia sinais de ferimentos? Equimoses? Lacerações? — Isso deve estar na ficha — disse Temple. dr. Encaminhou-se para Atkins — Quero que entre em contato com a Universidade de Georgetown. Baixou os olhos para as mãos. sombriamente. Havia lá um padre. vamos com calma! Kinderman levantou-se. Kinderman virou os olhos para a parede. O que ele estava usando? — Foi há muito tempo. O psiquiatra acendeu uma cigarrilha e estudou atentamente o rosto de Kinderman. Temple. — Isso é ótimo. Nunca vira Kinderman daquele jeito. Atkins. Surpreso. — Você ou alguma enfermeira contou ao homem da cela 12 que o padre Dyer foi assassinado? — Eu não falei nada. — Mas não está! Não está! O tenente batia com a pasta na mesa a cada “não". chamado Damien Karras. que viravam as páginas da pasta rapidamente. Não precisa ficar nervoso. e disse: — Quero ver a ficha de Sunlight. Temple voltou e pôs a pasta nas mãos de Kinderman. Kinderman virou-se e saiu da sala. Quero que ele venha até aqui imediatamente. esbarrando em Atkins. Quero saber a resposta pela manhã. E por que haveríamos de lhe contar? — Pergunte às enfermeiras — disse Kinderman. — Vasculhe a memória. Muito bem. — Para quê? — Quero ver a ficha dele! — berrou Kinderman. As mãos estavam tremendo. Kinderman fitou-o com uma expressão impassível. Franziu o rosto e encaminhou-se para o posto da enfermeira. Fale também com o padre Riley. E também as fichas dentárias. — Pode se lembrar? — Não. — Pergunte a todas elas. enquanto Temple sentava e observava-o. Vou buscá-la. Não demorou muito para que a respiração de Kinderman voltasse ao normal. que entrava. O tenente começou a lê-la. companheiro. indagando bruscamente: — Você já estava aqui quando este homem foi trazido? — Estava. Veja se eles ainda têm as suas fichas médicas. Encostou-se na mesa e ficou esperando. E o tenente respondeu à pergunta não formulada: . não entendera o que o tenente dissera. Olhou para Temple. por favor. fique por perto. Temple saiu da sala apressadamente. que estava ansioso. — Ei. Isso é normal. — Tenente? — disse Atkins. Atkins fitou inquisitivamente os olhos atormentados de Kinderman.

. neste hospital. Rolou pela Escadaria Hitchcock até embaixo. Morreu há doze anos. Ele está aqui. E acabei de vê-lo. Compareci a seu funeral. — O padre Karras era meu amigo. metido numa camisa de força.

pensativo. na extremidade da mesa vazia. — Deve pensar em voltar a partilhar esse dom com o mundo. Quando lhe agradeciam. distribuindo pão. Uns poucos estavam cochichando. em fatias grossas. Mas os outros estavam extasiados. e ele as fitava. seus rostos pareciam iluminados. Sua voz era sonora. Depois. Karl Vennamun servia sopa aos mendigos. em cima da mesa. hipnóticas. e as pausas e a cadência. A sra. A fundadora da missão. sentados à comprida mesa comunitária. Tomou um gole. Tremley pôs sua caneca na mesa. Tremley sentou-se sozinha com Vennamun. dizendo suavemente: — Tenho pensado multo nisso. Tremley. em círculos. sra. A vasta sala estava sob o seu domínio. em silêncio. Tremley. Você deve recomeçar seu ministério público. Tremley nos olhos. Vennamun não disse nada. Soprou o café quente em sua caneca. — Karl. Tremley olhou ao redor. O velho Vennamun continuou imóvel por algum tempo. . As mãos de Vennamun estavam cruzadas. Um homem chorava. CAPÍTULO 12 Na Missão Meia Noite. — Possui um grande dom. enquanto café e bolo eram consumidos. observando o rosto dos mendigos. o velho Vennamun foi postar-se atrás de um pequeno pódio de madeira e começou a ler em voz alta alguns trechos das Escrituras. sob o efeito da comida e do calor da sala. toda aquela terrível tragédia. com os olhos brilhando de fervor. Eles já esqueceram tudo agora. em voz baixa e efusiva: — Abençoado seja. Depois do jantar. com mãos trêmulas. Finalmente levantou o rosto e fitou a sra. seguia atrás dele. Enquanto os mendigos comiam. A sra. Está acabado. ele respondia. no centro de Washington. a sra. O vapor subia. fez um sermão. você é um pregador maravilhoso — comentou a sra.

podia na verdade estar dizendo “Faça-se a realidade”. mas o vento soprava forte. cortante e desagradável. — O que vemos é apenas uma parte do espectro — continuou Kinderman —. uma pequena fração da luz que existe. verificou seu documento de identidade. não tinha certeza de quem era ou de onde estava. Duvidava de um fato tão simples como a própria respiração. Não havia fichas médicas ou dentárias disponíveis. mas assim mesmo escutou. O psiquiatra jesuíta não tivera irmãos. CAPÍTULO 13 SEXTA-FEIRA. Atkins não sabia o que dizer. rezando para que o corpo que estava no caixão fosse mesmo o de Karras. virando-se para Kinderman. Kinderman e Atkins foram para a Seção dos agitados. Stedman deu instruções aos coveiros. final. que estavam com expressões sombrias. O vento uivava e penetrava por baixo de seus casacos. e cuidadosamente eles levantaram a tampa do caixão. “É impossível. desenterrando o caixão de Damien Karras. — Você fala em luz — comentou o tenente.” Contudo. haviam sido descartadas depois da morte de Karras. pensou Kinderman. que existia em algum lugar do mundo. A enfermeira Spencer. muito brilhante. Virou os olhos semicerrados para o disco prateado do sol. Um silêncio geral se abatera sobre o . Não era o corpo do padre Karras. abotoando a gola do blusão de couro. um equivalente físico idêntico. Poderia ser essa a resposta ao mistério? Baixou os olhos para os coveiros. 18 DE MARÇO Dizia-se que cada homem possuía um sósia. tinha nos olhos uma ansiedade evidente e uma sombra de alguma coisa como medo. um deslocamento da mente do seu eixo.mente. uma pequena faixa entre os raios gama e as ondas de rádio. — Vamos abrir? — Vamos. — Eles acabaram — anunciou Stedman. Kinderman. — Portanto. a encarregada. transparecia por trás de uma nuvem. quando Deus disse "Faça-se a luz”. E quando o fitou. — Quero ver o homem da cela 12 — disse Kinderman. Stedman e Atkins olharam fixamente. A alternativa era um horror quase inconcebível. a horda. Sentia-se como num sonho. até mesmo o padre Riley achava que Sunlight era Karras. Nada se podia fazer agora além daquilo. Atkins não falara em luz. parado à beira da sepultura. Era meio-dia. pensou Kinderman. Kinderman encontrara a mesma coisa em toda a equipe. "Não pode ser’’. Stedman permaneceu concentrado na exumação. nenhuma pessoa da família que pudesse explicar a espantosa semelhança física entre o padre e o homem que estava na enfermaria dos agitados do hospital. pensou Kinderman. em companhia de Stedman e Atkins. — Descubram quem é — disse Kinderman.

Além disso. Kinderman olhou para o teto do corredor. Ele estava aturdido A boca de Sunlight se contraiu num sorriso e um brilho zombeteiro e maligno se insinuou nos olhos. depois entrou na cela e fechou a porta. A torneira da pia continuava a gotejar. Prática. outra lâmpada queimou. Kinderman encaminhou-se para a cadeira encostada na parede. prática! Essa é a chave. Um momento depois. — Pode entrar. vazia. Kinderman seguiu-a. Os olhos de Kinderman se arregalaram. a intervalos regulares. Pegou as chaves na mesa e começou a andar. relutantemente. cascateando. com o rosto desprovido de qualquer expressão. — Não acha que faço imitações muito boas? Mas também fui ensinado por um mestre. Uma sensação de pânico invadiu o tenente. e ele repetiu: — Quem é você? — Sou alguém. nítidas e separadas. inquietante. num navio fantasma. Mas não podia se mexer. Olhou para o catre. Kinderman ficou admirado com o desempenho. Ela sustentou seu olhar por um instante e depois se afastou. fazendo um esforço para manter o controle. Por um instante. Abruptamente. tenente. intensamente consciente do som de seus passos. Plim. E a risada de Sunlight foi como um xarope denso e amargo. Interiormente. Sua expressão era ingênua. Queria sair dali. Quase tinha dúvidas sobre quem as pronunciara Tommy Sunlight continuou a olhar fixamente. sem responder. — Por que me chama de “tenente”? . — Mas quem? Você é Damien Karras? — Não. relinchou como um cavalo. a enfermeira estava destrancando a porta da cela 12. — Devo trancar a porta depois que estiver lá dentro? — Não. — Claro que você é alguém — disse Kinderman. É o segredo da minha eficiência como carniceiro. Kinderman ainda não podia acreditar no que estava vendo. observou a cicatriz acima do olho direito do paciente e depois se fixou no olhar impassível. — Então quem é você? Qual é o seu nome? — Pode me chamar de Legião. E perguntou: — Quem é você? Na sala pequena. o som de suas palavras parecia estranhamente nítido. Enquanto observava. Vultos vestidos de branco moviam-se como fantasmas. Depois outro plim. e as solas de borracha rangiam alto sobre os ladrilhos do corredor silencioso. Um calafrio irracional percorreu o corpo de Kinderman. cada pingo como batidas do coração. pois somos muitos. Kinderman olhou para a enfermeira. Kinderman sentou-se e fitou-o. Sunlight inclinou a cabeça para trás e cantou como um galo. — Está certo — disse ela. Sunlight acompanhou-o com os olhos. Estava usando sapatos novos. Sunlight observava-o. Silêncio. depois.hospital. nada tinham de imitação. tive muito tempo para aperfeiçoá-las. O tenente observou-a por um instante. acolchoada. Os sons eram autênticos.

— Foi divertido. É um defeito meu. — Não. Gosto de guardar as coisas. Fitas amarelas nos cabelos. Gritando. — As palavras saíram como um rosnado. Ainda posso ouvi-la ocasionalmente. observando Kinderman. Ou pelo menos uma parte dela.. — Isso mesmo. E fiquei com a outra parte. era inevitável. Sunlight fitou-o. Sou um sentimental incorrigível. — Seus poderes? — Você me cansa. Todos . incapaz de desviar os olhos. Sunlight baixou os olhos e disse. Podia escutar a torneira pingando. — Gêmeos. eu a matei. finalmente.. e uma expressão de felicidade se estampou em seu rosto. O som era terrivelmente real. Uma divindade molda os nossos fins e tudo o mais. com um olhar fixo. Karen. Ouço o som de seu terror. sim. Ainda posso sentir seu cheiro. Mas também quem é perfeito. Ela estava usando um lindo vestido. — Não tente trapacear. Acho que os mortos deveriam se calar. — Sabe meu nome? — Sei. em tom impassível: — Fique calmo. disse: — Prove. Muito divertidos. franzindo o rosto. não é mesmo? Claro. — Então me diga. Sunlight inclinou a cabeça para trás e zurrou como um burro. — Também matei o garoto negro. Sunlight interrompeu-o abruptamente e olhou novamente pata Kinderman. não sei. tenente? Em minha defesa guardei o seio dela na geladeira por algum tempo. O tenente sentiu os cabelos de suas mãos se arrepiarem. a menos que tivessem alguma coisa para dizer. Uma blusa com rufos brancos e rosa. Kinderman ficou em silêncio por um momento. — É verdade. — Ficou em silêncio por algum tempo. tive bons tempos em minha vida. Ele parecia irritado. Eu lhe mostrarei meus poderes pouco a pouco. E acrescentou. — Precisa ser trabalhado. — Ah. Fechou os olhos. batendo como um relógio. — Quem é você? — Sabe quem eu sou. As sobrancelhas de Kinderman se altearam involuntariamente e o sangue começou a se esvair de seu rosto. Peguei-a em Sausalito e depois larguei-a no depósito de lixo da cidade. E. Percebeu a expressão de Kinderman. no rio — continuou Sunlight. Tornou a inclinar a cabeça para trás e mugiu como um bezerro. Kinderman engoliu em seco e ficou escutando o gotejar da torneira. sem piscar. como se estivesse aspirando uma flagrância deliciosa. — Qual é? — Não me pressione tenente. — Sabe. Afinal. a pequena e linda Karen. distraidamente: — Não acha que é bom mudar de assunto de vez em quando? — Suspirou e desviou o olhar para o chão. Cheiravam a perfume.

haveria algo sardônico neles? Algo provocante? Abruptamente. isso mesmo. Acho que você me lembra meu irmão. Mas é claro que elas tomam conhecimento e se orgulham do meu trabalho. era uma coisa que eu tinha que exigir. Não. — Quem são “eles”? — Não importa. Sunlight tornou a mugir como um bezerro.. É um extra que ofereço. Mas os padres foram diferentes. obrigado a acertar contas.. não. não é nada fácil. que uma cabeça decapitada pode continuar a ver por cerca de. É onde está a emoção. Kinderman finalmente perguntou: — Que amigo? — Um amigo daqui. Eles só queriam divulgar todas as coisas ruins a meu respeito. talvez por uns vinte segundos? Assim. — Não seja invejoso. bruscamente: . Isso é justo? Kinderman disse de repente. Há sofrimento por aqui. Sabia. Claro que eles tinham um K no inicio de seus nomes. em nome. — Se diz que não. Muito cruéis. Com exceção dos padres. — Sabe que está falando com um artista? Às vezes faço coisas especiais com minhas vítimas. Fui obrigado. Isso mesmo. Do outro lado. substituído por uma atitude de inquietação e medo. Os padres foram diferentes. — Mantenha meu irmão fora disso — resmungou Sunlight. Mato ao acaso. os padres foram diferentes. É onde está a diversão.. Não é fácil. Kinderman pensou um momento. por exemplo. não é mesmo? Apesar de tudo. Porém. — Não é. Coisas criativas. Não é o meu estilo.. Não era ao acaso.... sem cobrar qualquer adicional.. É proibido. tenente. Ficou em silêncio e continuou a olhar fixamente. Devemos continuar a matar papai. Esperando. Parecia satisfeito quando terminou. Devo admitir que isso sempre me faz rir. — Tem um irmão chamado Max? — Alguém tem. Mas por que eu deveria ficar com toda a diversão? Gosto de partilhar. O ar de escárnio distante desapareceu. Não era o meu estilo. Inclinou-se para a frente. Sua atitude tornou-se expansiva no instante seguinte. — Você está do outro lado? Uma estranha mudança processou-se em Sunlight. — Por que pensou que fosse Max? — Não sei. quando tenho uma cabeça de olhos arregalados sempre a levanto para que possa ver seu corpo. — Sabe meu nome? — Seu nome é Max. é claro que não recebi nenhum crédito por isso nos meios de comunicação. — Está melhor? Ele soltou um arroto — Qual é o nome do seu irmão? — perguntou Kinderman. Kinderman sondou aqueles olhos inexpressivos. Às vezes eles podem ser cruéis. Sem motivo.foram divertidos. E não posso lhe dizer. em nome de um amigo.

Estão dizendo nos jornais que esses assassinatos são de Gêmeos? Isso é muito importante. um pouco da velha sucinilcolina. Há pessoas doentes aqui. entra na veia que leva ao coração. Tiraram a camisa de força. para que eu pudesse trabalhar sem distrações irritantes. depois. O meu motivo. Todos os médicos e enfermeiras. o pequeno filho da puta negro. Sunlight olhou para o detetive e sorriu. para que eu pudesse convencê-lo. Há ocasiões em que eles me pedem para cantar. uma sonda de um metro. tenente. — Imaginando o quê? — Os preços do queijo e como papai está indo. — E continuo. Levantam-se as pernas e espreme-se o . então prove. — Damien! — Não grite. Um problema interessante. Deve dar um jeito para que eles façam isso. — Dançar é divertido — disse ele — Você dança? — Se você é Gêmeos. quem é esse Damien que você insiste que eu sou? — Não sabe? — Às vezes fico imaginando. — Como conseguiu sair daqui para cometer o crime? — Eles me deixaram sair. Kinderman permaneceu em silêncio. Estão todos comigo. seu gordo. Providencie para que isso seja conhecido ou vou puni-lo. — Como? — Eles me deixaram sair. — Gêmeos está morto — disse Kinderman. Por falar nisso. — E como vai me punir? A atitude de Sunlight tomou-se subitamente amistosa. — Gostou? Acho que sou muito bom. Não acha também? Tenho muitos talentos. Primeiro. desde a dobra do braço. Sunlight paralisou-o com uma expressão de ameaça. Inclinou a cabeça para trás e começou a cantar. já lhe dei todas as provas de que podia precisar! Os olhos de Sunlight brilhavam de raiva e veneno. O querido papai precisa saber. — Você sabe que eu o matei. Cantou até o fim. — Qual era o nome do menino? — Era Kintry. Respeite os regulamentos ou mandarei expulsá-lo. A canção era Drink to me only with thine eyes. — Mas matei. com o olhar fixo. é uma vida maravilhosa. na veia cava superior. — De novo? Por Deus. Kinderman tornou a sentir medo na alma. A vida é divertida. com a voz sibilando. por favor. Ao terminar. Às vezes eu lhes trago uma pizza ou um exemplar de domingo do Washington Post. Na verdade. Mas deu trabalho. Sunlight continuou. suavemente. — Estou vivo — disse ele. Não acha que é uma questão de gosto? O tubo se desloca através da veia. É uma pena o que aconteceu com o pobre padre Dyer. enfiada diretamente na veia cava inferior. — Não poderia ter matado os padres e o menino. Estou muito contente por termos esta conversa. Canto muito bem. em voz de falsete. num tom impecável. Para alguns. ou melhor. É o sentido de tudo. abriram a porta e me mandaram vaguear pelo mundo.

numa indagação. — Ja-James! Não! Não! Fa-fa… A voz parou. lua. Mas é claro que ninguém notou.. Tudo feito sem derramar uma única gota de sangue. ele parecia estar inconsciente. Ele passou a sussurrar alguma coisa. outra voz emergiu de sua boca. — O que é isso? — O relatório da patologia sobre o homem que estava no caixão. correra até o catre e acertara-lhe o rosto com uma bofetada selvagem. O efeito. Kinderman fitou-o em silêncio por um momento. tenente. Posso compreender. sem entender o que estava acontecendo. Embora os lábios de Sunlight mal se mexessem. . . Kinderman meteu os papéis no bolso e disse a Atkins: — Quero um guarda postado no corredor. A cabeça começava a pender. Esperou que a enfermeira se aproximasse. Kinderman se levantara. — Amy — sussurrou a voz de Sunlight. Parou em cima de Sunlight. Amy.. Apesar disso... Uma coisa extraordinária aconteceu. — Ele desmaiou. Minha querida. o efeito total é espantoso. explicando: — Stedman disse que você ia querer ver isto imediatamente. E. gaguejando: — Fa-fa-faça ele pa-parar! Não de-deixe. Entregou-os ao tenente. Antes disso. A cabeça de Sunlight pendeu inteiramente. Sunlight não terminou. — Estou vendo que há vaias da galeria. — De novo? Kinderman observou-a entrar na cela. Kinderman inclinou-se para escutar. Mas vou animar um pouco o espetáculo. Kinderman ficou outra vez aturdido.. Não é perfeito? Infelizmente. onde Atkins estava esperando. correndo. com o corpo tremendo. ele virou-se rapidamente e começou a se afastar pelo corredor. Sunlight soltou uma risada. Ele olhou desdenhosamente para Kinderman. — Claro que é. desferida com o dorso da mão. assustado. não é isso o que vale? Kinderman estava completamente aturdido. Tocou a campainha para chamar a enfermeira e depois saiu para o corredor. Suas sobrancelhas se uniram. Sentiu vergonha e pesar quando ouviu a enfermeira gritar: — Mas o nariz dele está quebrado! Kinderman encaminhou-se apressadamente para o posto da enfermeira. As palavras de Sunlight estavam se tornando engroladas. Quando a enfermeira chegou junto a Sunlight. Começou a escorrer sangue da boca e do nariz de Sunlight. Avise a ele para não sair daqui . — Boa noite. Não há problema. Boa noite. vaca.. com alguns papéis. dos braços e das pernas. Era uma voz de homem.. mais jovem e mais firme..sangue mecanicamente. Não houve resposta. diante da cela 12. — Sunlight — disse.. Boa noite. pulando por cima. suas pálpebras descaíam com uma súbita sonolência. resta um pouco de sangue no corpo. no final das contas. Chamo a isso de eficiência artística. da lua. que parecia estar gritando de alguma distância. Kinderman virou-se e foi até a porta. Tenho sido um tanto insípido.. — Não! — gritou a voz distante. Um bom espetáculo. no entanto.

É muito sensível. Mas gostaria de saber outra coisa: quando ele perde os sentidos. com uma expressão acusadora. Tente obter acesso ao computador nacional. com equipamento médico. sim.esta noite até eu lhe falar. Examinou-os rapidamente. Teve um sobressalto. — Por volta das quatro horas da madrugada de quarta-feira.. Podemos conversar na sala. senhor. mas depois voltou e releu um trecho. Kinderman entrou no cubículo e ficou esperando. acrescentando uma atadura — É muita gentileza sua — murmurou ele. Lembra-se de alguma outra ocasião? — Bom. Kinderman estendeu a mão e ela começou a envolvê-la com gaze. — Não conte a ninguém. — A enfermeira parecia contrafeita. ao sentir dor em sua mão. respiração. Mas acontece justamente o oposto com a atividade cerebral. — É isso o que acontece quando se agridem as pessoas — comentou a enfermeira. — No domingo? — Isso mesmo. A enfermeira estava de volta. — Procure se controlar. — Já aconteceu antes. Acho que a primeira vez foi no domingo. Afastou-se e dobrou a quina do corredor. deixe-me ver sua mão. Providencie logo. — Não tem importância. — Muito bem.. — Está inchada. Acelera-se a um ponto absurdo. O tenente estremeceu. Sunlight havia desmaiado. seu sono é normal? — Claro que não. e a enfermeira Spencer acrescentou: — Isso significa alguma coisa? . A enfermeira Spencer estava à sua frente. — Kinderman continuou a fitá-la em silêncio. por favor. Preciso dele aqui o mais depressa possível. — Fez uma pausa. — Você bateu nele? — Posso lhe falar em particular? — O que aconteceu com a sua mão? — Ela olhava para a mão de Kinderman. Atkins afastou-se apressadamente. sentiu dúvida e confusão ainda mais profundas. — O sistema nervoso vegetativo se reduz a quase nada: batimento cardíaco. Se quer saber exatamente quantas vezes. Ouviu o rangido de sapatos que se aproximavam e levantou os olhos. Atkins. temperatura. por favor? — Pode entrar e esperar um momento? Tenho de buscar uma coisa. posso consultar a ficha. Outra coisa: descubra onde está o pai de Gêmeos. Já abalado. É muito importante. — Quando falei que o sr. — É mesmo? — É. — Quantas vezes ele ficou inconsciente antes? — Na verdade. — Não há necessidade. Pelo menos por enquanto. — Está certo. consternada.. E devo dar graças por isso. Sentou-se à mesa e estudou novamente o relatório. — A enfermeira cortou a atadura com uma tesoura e prendeu a ponta solta com esparadrapo. Kinderman encostou-se na mesa e tirou os papéis do bolso.. O nome dele é Karl Vennamun. aconteceu apenas esta semana. você disse “de novo”. Pouco antes de encontrarmos. É como uma hibernação. E tornou a desmaiar no dia seguinte. A mão está bem.

Apontou para uma cadeira. — Poderia me informar se os resultados forem os de sempre? — Claro. é você. — A que horas? — Por volta das três horas. tenente? — Você tem o direito de permanecer calado — disse. numa voz impassível. Mexa os dedos. Saiu do cubículo. — murmurou Temple. Temple não teria contado? — Não sei. Está ótimo. por um momento. — Kinderman levantou-se. por favor. — Com muita frequência? — Não sei. — O dr.. — Não está muito apertado? — Não. foi um arranhão grande. — O que é? — Tudo isso é muito estranho. — Ele passa muito tempo tratando de Sunlight? — Está se referindo a Temple? — Isso mesmo. no lugar de uma colega que tirou férias.lhe Kinderman. Umedeceu com a língua a ponta de uma nova cigarrilha. — Só mais uma coisa: pode manter a nossa conversa em segredo? — Claro. quando foi a última vez que viu Temple fazendo isso? — Na madrugada de quarta-feira.. . antes de murmurar: — Obrigado por tudo. Em que posso ajudá-lo. E o nariz quebrado também. Tenho a impressão de que ele encara Sunlight como um desafio. — Estão fazendo um eletroencefalograma neste momento. — Sunlight está bem agora? Ela assentiu. — Está bem? — indagou a enfermeira. Só tenho certeza de que eu não contei. o que aconteceu com a sua mão? — Um pequeno arranhão. Kinderman entrou. até o gabinete de Temple. em silêncio. Estava sentado à mesa. Eu estava trabalhando no turno. Ouviu Temple dizer: — Entre. E obrigado também por conversar comigo. — Alguém contou a Sunlight o que aconteceu com o padre Dyer? — Não sei. Tenente. Não posso ter certeza. com o jaleco branco de médico todo sujo de cinza... A porta estava fechada. — Pode me informar. — Acho que sim. Obrigado. Percorreu apressadamente os corredores. Kinderman mexeu a mão inchada. Qual é o problema? Ei. — Ah. Kinderman fitou-a nos olhos. — Sente-se. — Pelo tamanho do curativo. Kinderman acomodou-se na cadeira. Levantou a mão enfaixada para bater. lembrou-se da lesão e bateu com a outra mão. — Temple usa hipnose com ele? — Usa. Não tenho certeza.

apenas uma vez. — Não é verdade.. — Claro que posso. depois. — Há quanto tempo? — Alguns anos. inquieto. antes do interrogatório. e acabou murmurando: — Ele disse que é o assassino Gêmeos. — Não. — Tem usado hipnose? — Tenho. que pelo uso de hipnose implantou no sr. para descobrir quem é. Sunlight como o padre Dyer foi assassinado? — Não. — Não descobriu? — Não. Mas isso é um absurdo. — Contou ao sr. e se não tiver condições de pagar. qualquer coisa que disser pode e será usada como prova contra você no tribunal. Kinderman ficou em silêncio. da seção dos agitados. — Com que frequência? — Talvez uma ou duas vezes por semana. — Compreende os seus direitos? O psiquiatra parecia assustado e disse baixinbo: — Compreendo. um advogado será designado para assisti-lo. Ele sacudiu a cabeça vigorosamente. Tem o direito de falar com um advogado e exigir a presença dele durante o interrogatório. — Cuida dele pessoalmente? — Cuido. doutor? — Tenho.. — Responda. — E com que finalidade? — Apenas para falar com ele. — E descobriu? — Não. — Disse-lhe meu nome e cargo? . Tem tratado dele. — Por quê? — Gêmeos morreu. — De que diabo está falando? — Eu lhe fiz uma pergunta — disse Kinderman. O psiquiatra remexeu-se na cadeira. Pode compreender cada um dos direitos que lhe expliquei? Temple estava espantado. Sunlight a convicção de que ele é Gêmeos? O rosto do psiquiatra começou a ficar vermelho. fitando o médico fixamente. — Não fez isso? — Claro que não. a princípio.— Se renunciar ao direito de permanecer calado. doutor. — O sr. Sunlight. Se assim desejar. bruscamente.

— O sr. doutor? Temple não respondeu. asperamente. — Por que não? Temple hesitou por um momento. — É verdade ou não? — insistiu Kinderman. — Não. Sunlight? — Não. — Para fazer com que ele se tomasse suspeito? — Não. como principal consultor psiquiátrico? Temple estava visivelmente abalado. — A atitude dele? — De superioridade. conhecidas apenas da polícia. sobre o assassinato de uma mulher chamada Karen Jacobs. — Que parte? — A parte referente à autorização de saída — murmurou Temple. Amfortas? — Isso mesmo. com a voz quase inaudível. em San Francisco. mas acabou murmurando: — A atitude dele. Temple. — Não forneceu? — Juro que não contei nada a ele. em voz débil e trêmula. eu lhe descrevi o método de . — Falsificou-a? — Sim. através da hipnose. alteando a voz. antes de responder: — Não. não é verdade que trabalhou com o grupo encarregado do caso Gêmeos. — E por isso falsificou uma autorização de saída. — Não é verdade que. Forneceu essas informações ao sr. — É verdade — respondeu finalmente o psiquiatra. morta por Gêmeos em 1968. Sunlight dispõe de informações específicas. na quarta-feira. — Tem certeza? — Tenho. corando ainda mais. implantou no homem da cela 12 a convicção de que ele é o assassino Gêmeos? — Já disse que não! — Não gostaria agora de mudar alguma parte do seu depoimento? — Gostaria. — Quando conversamos sobre o padre Dyer. — Dr. O tenente levou a mão em concha ao ouvido. — Então para que foi? — Não gosto dele. — Falsificou uma autorização para permitir a saída de Martina Lazlo do hospital? Temple ficou em silêncio por um instante. — A autorização de saída — repetiu Temple. — Para criar problemas para o dr. não foi por isso.

Kinderman vagueou pela seção dos agitados. Parecia cansado e deprimido. Por quê? Por que ocultou a sua participação no caso. — Está passando bem. a única restrição que lhe posso impor é que deve afastar-se do sr. — E por que não me falou sobre isso? — Estava. doutor? — Não a ocultei. da outra sala: — Estou aqui. — Desculpe. sombrio. Kinderman assentiu e sentou-se numa cadeira diante da mesa. — Alcançou alguma notoriedade durante o caso de Gêmeos e desde então tem procurado manter-se à sombra.. com um olhar implacável. — Sente-se e relaxe — disse ao tenente. Kinderman sondou-o fundo. Ninguém respondeu. dr. tenente? — O padre Karras.. padre? — Estou. As ruas estavam escorregadias com a chuva quando ele contornou a O Street e entrou na 36th. O rosto de Temple finalmente empalideceu e ele tremeu. batendo a porta com toda a força. padre? Sabe de tudo? Com exatidão. Kinderman estava levantando o braço para verificar a hora quando ouviu o padre Riley chamá-lo. E você? Kinderman baixou os olhos. com as mãos cruzadas atrás da cabeça. sim. e ele finalmente foi embora. Levantou. Ali chegando. A pequena sala de recepção estava vazia.operação autêntico de Gêmeos. esperando que o homem da cela 12 recuperasse a consciência. Pode entrar. — É um homem terrível e imoral. — Não vai me prender. Sunlight. gentilmente. não é mesmo? — Uma aversão profunda não é um motivo aceitável para se efetuar uma prisão — disse o tenente. Depois que terminou. a secretária não se encontrava em sua mesa. cada fato desde que ele morreu até o instante em que foi enterrado.se e saiu da sala de Temple. Kinderman terminou de falar asperamente. O jesuíta estava sentado à sua mesa. padre. Não é verdade que tem interesse em ressuscitar os assassinatos de Gêmeos? — Não. tocou a campainha e bateu na porta. os dois ficaram em silêncio por algum . Mas o senhor não fez qualquer comentário. Riley contou o que sabia. sem piscar. Foi para o gabinete do padre Riley. — Em que posso ajudá-lo. Subiu pela O Street e passou pelos portões da universidade. graças a Deus. Mas. com medo. firmemente. seguindo para o sul. E fique longe da minha vista. Tinha certeza de que desconfiaria de mim. Não se mexeu nem falou. O que aconteceu depois que ele foi levado na ambulância. Não deverá tratar dele ou sequer entrar em sua cela até segunda ordem. Durante a maior parte do resto da tarde. Mas esperou em vão. amigo. insistentemente. Eram aproximadamente cinco e meia quando deixou o hospital. no momento. assentindo. Temple. na direção da pequena casa de Amfortas. — Estava com quê? — Com medo. Só então se lembrou de tirar o chapéu.

. — Dois? — Isso mesmo. deixando escapar um suspiro... como se estivesse conferindo a memória. Lembra se ele se vestia como padre? Riley assentiu. Encolheu-se na cadeira. com as mãos cruzadas. oitenta e um.. na escuridão da noite de inverno... — Kinderman fez uma pausa. E disse. Já sofrera dois enfartes graves. O que é um hábito nos enterros de vocês. — Não sei — murmurou. Tinha família no Kentucky e sempre pedia para ser transferido para algum lugar por perto. O homem da cela 12 não recuperou os sentidos até mais ou menos as seis horas da manhã seguinte. removidos. numa concordância muda. E Kinderman informou. procurando algum fio que pudesse levá-lo à razão. Ele sempre se queixou de que a ordem não o tratava bem... — Um caso triste.... Kinderman acenou com a cabeça.tempo. — Karras foi enterrado na manha seguinte — disse ele. E depois ouviu-se o som metálico da tampa de uma garrafa de scotch. com um aceno da cabeça. sem desviar os olhos dos dele: — Temos todos os motivos para acreditar que ele morreu de pavor. Kinderman sentiu que sua pele começava a ficar arrepiada. padre Riley? Sabe. e depois levantou os olhos. irmão Fain. antes de ser costurado. Seu corpo fora recheado com interruptores de luz. o vento sacudia as janelas. Ele foi encarregado de vestir o cadáver e fechar o caixão. olhando pela janela para as luzes da cidade. Mas quem foi a última pessoa a vê-lo. — Simplesmente não sei de mais nada. Sempre disse que queria morrer em casa. — Riley deu de ombros. O padre Riley podia imaginar o que estava para vir. — Ele era muito velho. O tronco da moça fora aberto e seus órgãos. — Isso mesmo. — Caixão fechado.. E depois ninguém mais tornou a vê-lo. — Fez uma pausa. bebeu e fez uma careta. atordoado: — O homem que estava no caixão de Damien. desatarraxada pelo jesuíta. Lá fora. Os dois homens ficaram se olhando em silêncio. poucos minutos antes de a enfermeira Keating ser encontrada. num quarto vazio. na Neurologia. — Como assim? — Exatamente o que eu disse: ninguém mais tornou a vê-lo. dois antes daquele que o matou. ele. com uma expressão pensativa. no campus. Imaginamos que foi embora porque pressentiu que a morte estava chegando. Ele despejou dois dedos num copo. já estava com oitenta anos. recapitulando o que Riley acabara de lhe contar. sacudiu a cabeça. olhando para o líquido cor de âmbar. E finalmente murmurou: — Foi Fain. — A autópsia. por acaso? Pode lembrar-se? Quem foi a última pessoa a vê-lo no caixão? Riley girou o uísque no copo com um movimento de pulso. — Pouco antes do fim? — repetiu Kinderman. Pouco antes do fim.. — O homem que estava no caixão era idoso e tinha os sinais de três fortes ataques cardíacos. ou melhor.

o sósia estava vestido como ele. pois a droga corroia as conexões vitais. O sósia acompanhou-o. O sósia imitou essa ação. Nenhum neurologista jamais vira o “sósia”. As informações sobre o seu comportamento eram vagas e contraditórias. o vulto repetiu “Alô". desconcertante. quase assustador. Um interesse clínico dominou-o. com um gravador portátil numa das mãos. numa dança silenciosa. Levantou os pés e esticou-os. e a luz dos abajures parecia difusa. só que sua mão estava vazia. e retribuía o olhar com um espanto igual. Amfortas sentiu que seu coração começava a disparar. Não podia se lembrar de quanto tempo fazia que estava sentado ali. segurando o ar. a dor se atenuara até tornar-se um latejar pressago. Seriam horas ou apenas minutos? A realidade entrava e saía de foco. Ao tatear pelo chão. como se estivesse sentado. O sósia estava ali. sem nenhuma falha ou variação. Lembrava- se de ter dobrado a dosagem de esteroide. observando-o encolher-se à metade do seu tamanho. o vulto fez a mesma coisa. Não podia conceber . O sósia fez a mesma coisa. Amfortas fechou os olhos e começou a respirar fundo. Abriu os olhos e deparou com o homem. A canção espalhou-se por sua alma e preencheu-a. descobriu mais duas que haviam caído de seu colo. sem qualquer planejamento. Baixou os pés. O ‘'sósia’’ era uma alucinação frequentemente citada em distúrbios graves do lóbulo temporal. Vestia também jeans e um suéter azul. Amfortas recostou-se. CAPÍTULO 14 Ele estava sentado num espaço entre o medo e o anseio. Amfortas parou e pensou por um momento. Levantou o gravador na mão. É muito fácil me deixar Aqui sozinho com a memória Dos dias que passei ao sol”. imitando exatamente a postura de Amfortas. Quando o viu sorrir. preço que o cérebro cobrara por sua ruína. Amfortas não podia imaginar por que a ilusão não incluía o gravador. Mas o sósia acompanhava os movimentos simultaneamente. escutando os cassetes da música que haviam partilhado. Foi nesse instante que ouviu uma fita cassete cair no chão. Estava olhando para o seu sósia. Amfortas disse "Alô”. uma canção obsedante de um espetáculo a que haviam assistido: "Toque-me. Afinal. Amfortas estava ficando fascinado. Seu coração foi pouco a pouco batendo mais devagar. à sua procura. O mundo estava velado além de sua sala de estar. Seria dia ou noite lá fora? Não sabia. Queria que saísse mais alta e tateou à procura do controle de volume do gravador. num ritmo que tentava tornar imprevisto. O vulto estava meio agachado em pleno ar. Agora. fechou os olhos e entregou-se totalmente à música. quase sem fazer barulho. Amfortas passou a cruzar e descruzar os pés. Mas contemplar aqueles olhos e aquele rosto era inquietante. Olhou fixamente para o sofá. Será que o sósia ainda estaria ali quando tornasse a abrir os olhos? Abriu-os.

abriu a valise médica em cima da cama. Ann adorou essa coisinha feia. verde e branco. Como aquelas flores. Amfortas deslocou os olhos para a mesinha de cabeceira. Achou aquilo estranho. Estavam abatidos. Amfortas levantou os olhos para os do sósia. dando um jeito para não poder verificar se o sósia estava imitando-o. Já estavam virados para dentro. As vozes logo se desvaneceram e veio o silêncio. Disse que tinha um quadro da cena gravado para sempre em seu coração. seu próprio sorriso. num suspiro longo. divertidos. o sósia levou a mão à têmpora e soltou uma exclamação de dor. derrubando uma mesinha e um abajur. Teve a impressão de ver a luz do abajur refletida nos olhos. Mal conseguia ver. A seringa rolou pelas tábuas do soalho e foi parar junto à parede. estudantes gritando. Cambaleou às cegas na direção da escada. cantarolaram um trecho do adágio da Sinfonia em dó de Rakhamanínov. Gemendo. Ele estava sentado em pleno ar. Como então a vira no sósia? Concluiu que talvez o seu inconsciente já soubesse. . em Nova York. E foi nesse instante que. — Eu tinha me perdido de você — disseram eles. Soltou o ar dos pulmões. Fê-lo tão depressa que a droga atingiu o músculo como um martelo. ambos riram. subitamente. Tinha a impressão de que não percebera a mancha até aquele momento. deixando que a seringa descartável escapulisse de seus dedos e caísse no chão. com listras azuis e brancas. Sorriram afetuosamente e acrescentaram: — Ela disse que era romântico. contemplando o pato de cerâmica. A comida era horrível. pareciam arder. Verificou seu próprio tênis e constatou que tinha a mesma coisa. Olhou para os seus próprios pés e virou-os para dentro. Como era possível? O neurologista tornou a experimentar uma sensação inquietante. palpitante. — Sabe cantar? — disseram os dois. sustentando calmamente o seu olhar. mas o pato foi um sucesso. Amfortas começou a se sentir atordoado. meio trôpego. e o gravador e as fitas cassete caíram no chão. Amfortas inclinou-se para frente. Quando pararam. e recuperou a calma e a lucidez. Amfortas descobriu que estava olhando para o sósia. Amfortas olhou para os tênis do sósia. que parecia uma mancha de tinta. Juntos. O sósia observava-o atentamente. A dor era insuportável. Amfortas olhou para o sósia. em Bora Bora. subiu para o quarto. comprimindo doze miligramas de esteroide em sua coxa. Arriou na beira da cama e encheu a seringa com as mãos trêmulas. recordando. Amfortas foi incapaz de distinguir a ação do sósia da sua. Mas logo sentiu que a dor de cabeça se atenuava. enquanto a dor lancinante lhe comprimia o cérebro. Será que continuaria a imitá-lo se não estivesse observando? Deslocou o olhar subitamente para os pés do sósia. Ele tinha a impressão de que podia ouvir o próprio coração. Amfortas ouviu vozes na rua. Eram Nike. — Comprei isto para Ann quando ainda estávamos namorando — disseram ambos. Pegou-o e suspendeu-o com ternura. Amfortas estava tentando imaginar o que experimentaria em seguida quando notou que a ponta do cordão do tênis esquerdo do sósia tinha alguma coisa. — No Mamma Leone's. Levantou-se. Amfortas divisou um sorriso nos lábios do sósia. Aplicou a injeção através da calça. como os seus. em perfeito uníssono.qualquer explicação. Quando levantou os olhos. E disseram: — Você é uma companhia maravilhosa. pegou a seringa e a droga.

Mas creio que não posso fazer isso. — Tornou a dar de ombros. antes de acrescentar: — Na verdade. — Deu de ombros. de empurrá-lo para o caminho certo. Amfortas estava cada vez mais perplexo. Podia ver o sósia a seu lado. Acendeu um cigarro e soprou a fumaça. Amfortas levantou-se e encaminhou-se. de rosto contraído. — O sósia parecia de repente muito solícito. Posso ver que o gato ainda está comendo sua língua. depois. Amfortas franziu o rosto e o sósia imitou-o. mas não podia senti-lo. Regulamentos estúpidos. — Isso é ótimo! — E ficou olhando. E peço desculpas. embora sentisse que sofria de alguma forma de uma vaga redução das percepções. — Sou real. Mas não importa. podemos ter uma conversa. Uma cinza do cigarro caiu no suéter. com um ar de expectativa. O sósia estava sentado no sofá. com uma das pernas estendidas confortavelmente sobre as almofadas. espantado. A repetição de sua voz começara abruptamente a irritar o neurologista. Quer que eu volte a imitá-lo? Amfortas sacudiu a cabeça. Isso é tudo. Mas você nunca tomou conhecimento de mim. — Não foi fácil. Olhou para o sósia com aversão. aturdido. Percebeu então que a mesinha e o abajur que derrubara estavam de novo no lugar. E nunca aprendi a fazer uma entrada sutil. — Deus sabe que tentei deixar o vício — disse o sósia. Acho que demora um pouco para a pessoa se acostumar. pelo menos. firmemente: — Há uma questão que precisa ser esclarecida. — Percepção tardia. e por isso o sósia acrescentou: — Não se preocupe. Amfortas descobriu se sentado na poltrona. Mas o neurologista ainda era incapaz de dizer qualquer coisa. Amfortas abriu os olhos. E segurava o pato em seu colo. é claro que tive consciência de você. que mal pode haver? Entende o que estou querendo dizer. a voz não se registrou. O que foi uma pena. Alguma coisa exalava um cheiro horrível. murmurando: — Cada vez mais descuidado. de estar desligado do ambiente. Ele estava à sua frente. — Está vivo! — disse o sósia. uma imagem espelhada de seus movimentos. meio trôpego. Sua mente parecia lúcida e serena outra vez. posso compreender a sua reação. Não sabia como chegara ali. não é mesmo? — O sósia olhava fixamente para Amfortas. para a escada. — Está se sentindo melhor? Não. — Por acaso o transtornei? — indagou o sósia. — Importa-se que eu fume? Por um momento. franzindo o rosto. neste caso. Podia ouvir um latejar surdo na cabeça. Amfortas começou a rir. Durante rodos esses anos. O sósia acabou acrescentando. Continuarei a falar. Mas o sósia persistiu. Amfortas fechou os olhos para escapar da visão. num gesto de rendição. Mas bem que poderia ter tentado. sentado no ar. nem mesmo agora. até que fique acostumado à minha presença. E. . enquanto Amfortas continuava a rir. estou aqui. na sala de estar. No instante seguinte. como num gesto de simpatia. Preciso de uma folga. — Vá embora — disse ao sósia. imitando simultaneamente suas palavras. Experimentava uma estranha sensação de flutuação. Ele olhou e abanou-a. — Fui eu que endireitei — explicou o sósia. Mas estou muito cansado. eu não deveria estar relaxado assim. Ficou olhando. De qualquer forma. — Desculpe. ainda rindo. Mas. por assim dizer. Houve ocasiões em que senti vontade de sacudi-lo.

— Ah. — Por que não prova que não estou sofrendo uma alucinação? O sósia ficou aturdido. Conhece? Claro que conhece. Um ator americano. é claro. Isso mesmo. Bom para ele. — O sósia olhou insinuantemente para Amfortas. sorrindo. sou Chuck Connors!" Ao que Noel disse imediatamente. — Não posso ficar aqui para sempre. — Você está na minha mente. Poderia dizer “Prazer em conhecê-lo” ou alguma coisa parecida? Lembre-se de suas boas maneiras. O sósia soprou a fumaça. tranquilizadora: ‘Ora. Havia algo de realidade no sósia. — Ficaria convencido se eu tocasse em você? Se pudesse me sentir? — Talvez — respondeu Amfortas. Ele estendeu a mão para apertar a de Noel e disse: “Sr. É sensacional.. — As pessoas que sabem conversar são raras. Estamos progredindo. Amfortas sentiu uma mistura de dúvida e excitamento. — Conhecia aquela história sobre Noel Coward? — Eu a inventei. Com quem você pensa que está falando? — Comigo mesmo. — O abajur e a mesinha também são? — Tive um lapso de memória. — Impossível porque estou tendo uma alucinação. não ao conteúdo. — Foi-me contada pelo sósia de Noel Coward. Sobre apresentações e coisas assim. meu caro rapaz. e esqueci em seguida. mas que possa conferir. — Como? — Diga-me alguma coisa que eu não saiba. Não vai queimar. Amfortas tornou a olhar para o sósia. O sósia ficou em silêncio por um momento. — Algum fato que eu não saiba. — Cinco palavras. — Como Coward era espirituoso! É uma pena que tenha ultrapassado o limite. . Ele estava parado na fila de uma recepção real. Pois aproximou-se um homem chamado Chuck Connors. suspirando e sacudindo a cabeça. Está ou não percebendo aonde quero chegar? — Jogou a ponta de cigarro no chão. — Você é uma alucinação. — Vou vomitar se você disser isso outra vez. em voz suave. as almas da terra.. claro que é você mesmo!’’ Não é sensacional? O sósia recostou-se no sofá. Isso é ótimo. que aconteceu mesmo. ao descer a escada. Coward. — Mas não posso fazer isso. Não é um fato. — Não se preocupe. Meus parabéns. sou sua outra alma. Só que estou me referindo à forma. — Está parcialmente correto. É impossível. Endireitei a mesinha e o abajur. E isso me faz lembrar uma história. Estava à direita da rainha e tinha Nicol Williamson ao seu lado. O próprio Coward diz que é verdade. mas péssimo para nós. uma indicação de vida que não era sua. — Provar? — Isso mesmo. — disse ele.

Pronto. — Ela não está lá.. O sósia observava-o insidiosamente. É a saída dos covardes. Diga-se de passagem que é uma ideia muito estúpida. Uma coisa prematura. meu caro. Enfrente a verdade. — Isso é absolutamente irritante. do jeito que está a situação. E com todo esse sangue em sua alma. Mas acontece que não tenho corpo. Por falar em fatos que você não conhece. — Imagino que agora você vá querer atribuir a culpa a mim. — Como? — É um fato que você não conhece. Apertou-o com toda a força. Mas não exatamente da maneira como você imagina. O neurologista sentiu a língua grossa. É a sua culpa. Acaba de me ocorrer. — Explique. Amfortas sacudiu a cabeça. duvido muito que algum dia você possa alcançá-la. Ann mudou-se para o outro lado. Os padres. você pensa que está morrendo.” É uma palavra. Seu inconsciente é sua outra alma. Você está tendo uma alucinação. Claro que sei que não estava conscientemente a par do que fazia. — Desisto. Não posso fazer isso. Mesmo assim. — Você é mesmo insaciável — comentou o sósia. Lamento profundamente dizer- lhe isso. — Vejo que agora tenho toda a sua atenção. Amfortas baixou os olhos para o pato. se não mesmo insuportável — disse o sósia. — Onde está Ann? . Amfortas estava completamente imóvel. Isso mesmo. Esse é o motivo pelo qual está se deixando morrer. — Está outra vez próximo da verdade. — Não tive nada a ver com esses assassinatos. por favor. Mas é inútil. Não vou discutir sobre isso agora. — Acho que seria espirituoso o bastante para inventar essa história? — Meu inconsciente seria. Portanto. deixe-me fora disso. — Que assassinatos? — Você sabe. — O sósia deu de ombros. — O sósia recostou-se no sofá. — Não. Está me entendendo? Foram você e sua raiva que cometeram os assassinatos.. E imagino que agora vai me dizer que não cometeu aqueles assassinatos. não interferimos. “Preveniente. Sentou-se no sofá. Já tenho problemas suficientes. Você é teimoso demais. — Isso mesmo. — Não seja teimoso. Aquele menino. Está satisfeito? — Conheço as raízes latinas da palavra. — Preveniente. O sósia parecia agora furioso e desconfiado. enquanto sacudia a cabeça. Amfortas levantou os olhos. — Você sabia. sua raiva pelo fato de Deus ter-lhe tirado Ann. — Quero estar junto de Ann. — Estou vendo que não nega. porque quer se juntar a Ann. Além do mais. mas não estou aqui para alimentar suas ilusões com mentiras. Ouvi-a de Noel.

O neurologista prendeu a respiração. — Espantoso. O que é ótimo. E Ann já partiu. Perguntou. chorando. cambaleando. — Você não é real! Amfortas estava gritando. Lamento. vou violar outra regra. e a dor se aproximava do seu campo de percepção. estou sem cigarro. O sangue logo o cobriu. batendo com a cabeça na quina da mesinha. não posso lhe contar. Acenou com a cabeça. — Você não é real. e o pato verde e branco escapuliu de sua mão e se quebrou em incontáveis cacos. enquanto a sala começava a rodar. Há regras e regulamentos. A luz era cada vez mais difusa. Gostaria de conhecer tudo a meu respeito? Amfortas estava hipnotizado. Isso mesmo. o sangue que escorria de sua têmpora estava se espalhando sobre os cacos e manchando os seus dedos. Deus! Deus! Avançou às cegas para o sofá. como eu lhe disse antes. com uma dor mais forte e insistente. enquanto Amfortas sussurrava: — Ann. sufocando-o. Você não poderia saber disso. Queria um fato que não podia saber? Pois aí está. Digamos apenas que é um lugar de transição. O nome dela é Cecily Woods. Pense nisso. — Fez uma pausa. Pode haver um fundo de verdade aí. — Não sou? Ora. — Como todos nós. Chame a Neurologia e peça para falar com a enfermeira Woods. Não dá mais para aguentar. Você vai descobrir tudo sobre ela e Temple. desviando os olhos. com a voz rouca. um impacto tão forte que abriu um ferimento vermelho. Ela está de serviço neste momento. fazendo-o gritar. com a voz trêmula: — O que está querendo insinuar? O sósia deu de ombros. — Ligue para ela agora. Vamos. Um marco na história do conhecimento. dilacerando-o.. O corpo do sósia ondulava no sofá. — Ann está sendo tratada — disse o sósia. — Infelizmente. Sou de lá. ouviu minha voz antes. antes de indagar: — Sabe agora de onde eu venho? Amfortas virou a cabeça e olhou atordoado para o gravador. O coração do neurologista batia mais depressa. no canto. — Você não é real. Minha paciência chegou ao limite. Em poucos momentos. Pegue o telefone e verifique se estou certo ou não. que ainda apertavam com toda a força um pedaço da inscrição.. e a dor foi ficando mais e mais intensa. Caiu no chão. . num som de perda irreparável. Tornou a fitar o sósia. — Gostaria de ouvir uma boa definição de ciúme? É o sentimento que se tem quando alguém que se detesta totalmente está se divertindo maravilhosamente sem a gente. nas suas gravações. Há uma enfermeira que entrou hoje para sua equipe no hospital. Tropeçou e caiu para frente. Levantou-se com o pato na mão e o corpo tremendo. onde se lia ADORÁVEL. — Oh. ligue para o hospital. A visão do neurologista estava se tornando toldada. — Você não é real — balbuciou Amfortas. O sósia era uma voz em meio a movimentos indefinidos. Sua cabeça estava latejando cada vez mais. — Puxa.

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— Alguém fez você escrever isso? — Gosto do jantar — balbuciou o velho. E murmurou: — Gosto do jantar. — Vai ou não me responder? — perguntou-lhe Kinderman. A enfermeira Lorenzo assentiu e ajudou o velho senil a sair do quarto. que descobrira o corpo. POIS SOMOS MUITOS Kinderman saiu apressadamente do quarto e pegou Atkins no posto da enfermeira. depois abaixou a cabeça e disse à enfermeira: — Pode levá-lo. estalando os lábios entre as gengivas sem dentes. A enfermeira e o velho ficaram na porta. Passou a língua pelos lábios ressequidos. depois ajudou o velho a se levantar e conduziu-o para a porta do banheiro. Kinderman apontou para o espelho da porta do armarinho de remédios. Woods. tentando controlar o seu horror. Fora encontrado inconsciente no quarto 400. Ele estava sentado numa cadeira. virou a cabeça do velho. levantou lentamente os olhos. em cima da pia. A enfermeira encarregada da Neurologia. — Foi você quem escreveu isso? — Com uma das mãos. — Pode ajudar o velho a ir até o banheiro. avaliando a tensão de seu pescoço e de seu rosto. com sangue. onde a enfermeira que entrara de serviço às seis horas descobrira o corpo de Keating. apaticamente. — Obrigado. Ela se retirou apressadamente. CAPÍTULO 15 SÁBADO. Ela era uma enfermeira da seção aberta da Psiquiatria. estava parada ao lado da janela. — Isso é tudo o que ele sempre diz — informou a enfermeira Lorenzo a Kinderman. Era apenas o seu segundo dia de serviço ali. 19 DE MARÇO O velho chamava-se Perkins e era um paciente da seção aberta. O velho tinha sangue nas mãos. dizendo- . fechando a porta. Pode ir agora. obrigando-o a olhar para o espelho. srta. fora da vista dos guardas postados junto à escada e aos elevadores. Lorenzo. Kinderman ficou escutando os passos hesitantes. onde fora rabiscada uma mensagem. enquanto lia a mensagem: CHAME-ME LEGIÃO. Kinderman tornou a virar-se para a srta. Kinderman virou-se para a enfermeira da Neurologia. por favor? A enfermeira Lorenzo hesitou um instante. para o espelho. — Gosto do jantar — repetiu o velho. Kinderman fitou-o sem qualquer expressão por um instante. O tenente estava parado lá dentro. O quarto ficava logo depois da quina do corredor. O olhar do velho era vazio. Desceu o olhar para a identificação dela. Depois que a porta se fechou.

mas eu os ignoro. de olhos arregalados. A enfermeira sondou seus olhos com um olhar rápido e depois destrancou a porta. Apenas a enfermeira.. decidiremos depois. ele continuou a prestar atenção aos passos. Mas Kinderman não podia ouvi-lo. ele parecia estar dizendo alguma coisa. Estava piscando. peça à enfermeira que venha até aqui com as chaves. Kinderman entrou. Darei um jeito de recompensá-lo. Apenas uma vez. — Alguém entrou no quarto durante esse período? — Apenas a enfermeira. Kinderman pensou por um momento. sentado na beira do catre. Posso lhe garantir que ficará agradecido. metido na camisa de força. algumas vezes. — Recebeu meu recado. Não é muita . Ajude-me. Kinderman espiou pela janelinha de observação. Seus lábios começaram a se mexer. estou muito satisfeito porque resolveu chamar meu pai. Ele esperou. Ele deve começar por Temple e por todos os que trabalham na Neurologia e na Psiquiatria. Atkins seguiu em sua esteira. Eles estão sempre comentando que seu nome começa com K. sem piscar. Três ainda estavam apagadas. E de repente ficou firme. sem diminuir a velocidade: — Venha comigo. Sunlight estava perfeitamente imóvel. Pode chamar a United Press e providenciar uma fotografia de meu pai junto com Keating? Sabe que é por isso que eu mato. Providencie ajuda para tirar as impressões. Não me pergunte o motivo. No caminho.. acompanhando-o enquanto ele atravessava a cela e se sentava na cadeira. Kinderman fitou os olhos de Sunlight. Estavam arregalados e vazios. Por falar nisso. Entre em ação. e outra vez houve trevas na alma de Kinderman. O silêncio era denso e claustrofóbico. Kinderman olhou para a lâmpada que pendia do teto.lhe ao passar. A enfermeira se aproximava. Recrute tantos homens quantos puder. Ele olhou para as lâmpadas do teto. Quero que isso seja feito o mais depressa possível. para deixá-lo em desgraça. A enfermeira alcançou-o e ele apontou para a porta da cela 12. — Diga a Ryan que quero as impressões digitais de todos os funcionários do hospital. Desvaneceram-se no silêncio. e depois virou-se para Atkins. — Isso mesmo. com uma expressão zombeteira nos olhos. Mas queria outra coisa. Ouviu uma risada. Um favor. tenente? Deixei-o com Keating. Excelente coração. e depois quero comparações com as que foram encontradas nos locais dos crimes. o homem estava acordado. Depois que Atkins virou a esquina do corredor. Nemo. Lá dentro. sorrindo para Kinderman. E eu poderia falar com meus amigos aqui a seu respeito. — Nenhum médico? — Não. O corredor estava escuro. como se fossem o som minguante da realidade. faça-se a luz — disse a voz de Sunlight. diante da porta da cela 12. Dizer uma palavra favorável. E depressa. Sabe que eles não gostam de você. Atkins. Passos. parado ao lado da porta: — Há quanto tempo você está aqui? — Desde a meia-noite. A morte vai tirar férias. como uma imagem congelada. Quanto ao resto. Uma boa moça. Por um dia. Os olhos dele fixaram-se em Kinderman. até que finalmente estavam no setor de isolamento. Kinderman observou-o afastar-se. Era como uma figura num museu de cera. O nariz de Sunlight estava coberto com um curativo. O tenente virou-se e perguntou ao guarda.

Maldita comida de hospital. Acha que poderia ser verdade? Talvez eu seja mesmo o seu amigo padre Karras. Ressuscitei posteriormente em. — Está convencido? — Não — respondeu Kinderman. — Não posso me defender. Desviou os olhos. Estremeceu. Eles são caprichosos com seus acessos de raiva. — Fez uma pausa. calmamente. Tornou a olhar para Kinderman. Represento um problema dos mais interessantes para você. diga-se de passagem. Kinderman escutava a torneira gotejar. É desnecessário dizer. Parou abruptamente e fitou Kinderman. — Não importa. Sou louco. mas eu não estava. Kinderman observou-o atentamente. — Amigos. Ora. E ainda não sei. Vagueei pelas ruas. não é mesmo. — Que amigos? — É muito tedioso. tenente? Isto é. — Quer saber como saio daqui? — Isso mesmo. depois ficou em silêncio. Sunlight inclinou a cabeça para trás e riu. — Seu rosto transformou-se numa máscara ameaçadora. Mato as pessoas. Vamos continuar. parecendo estar pensando em alguma coisa.bondade da minha parte? E também muito corajoso. — Gosto muito mais de teatro. ouvindo o gotejar da torneira. — Foi um erro de sua parte me bater — disse Sunlight. De qualquer forma. Podem ter-me declarado morto. — E fazendo um convite óbvio para a dança.. Sou louco. — Não entendo o que está querendo dizer com isso. em voz profunda e sonora. sonho que sou alguém chamado Vennamun. — Pude sentir o cheiro. É sensacional. com a voz impregnada de ameaça. Não vamos falar deles agora. Sonho frequentemente que caio de um longo lanço de degraus. — A srta. Penso nelas a todo instante. — Como consegue sair daqui? — insistiu Kinderman. E diria que você tem toda a razão de se manter cético. então certamente danificou meu cérebro. Kinderman esperou. E Tito Andrônico é minha peça predileta. sem saber quem era. Keating havia comido atum — disse Sunlight. — Nem eu — murmurou Sunlight. — Como está seu amigo Amfortas? Soube que ele recebeu uma visita. Esses sonhos são maravilhosos. Tento prever tudo.. — Precisa ser trabalhado. tenente? Kinderman manteve-se em silêncio.Sunlight começou a cantar uma ária da La bohème. presumindo-se que agora esteja convencido de que realmente sou Gêmeos. Velhos amigos. Vamos conversar sobre outras coisas. — Está bancando o idiota — disse Sunlight. E finalmente perguntou: — Se você é Gêmeos. fixamente. — Sou um louco. Voltou a fitar Kinderman atentamente. — Em outras ocasiões — continuou Sunlight —. Mas não posso distinguir os sonhos da realidade. apaticamente. é claro. Isso aconteceu. — Sunlight começou a grasnar como um pato. — Há muitas possibilidades. com o rosto vazio. Isso é alguma coisa que realmente aconteceu? Se aconteceu. . foi um momento constrangedor. É repugnante. — Soltou uma risadinha. que sou total e irremediavelmente louco. como consegue sair daqui? — Gosta de ópera? . sustentando o olhar dele.

Diga-me o que aconteceu com os órgãos. estão sempre mudando para pior. Kinderman esperou. os tempos.” O coração do tenente parou por uma fração de segundo. — Tommy não compreende — murmurou ele. mas Tommy não aceita. tenente. Ele não poderia ter hipnotizado seus pacientes para cometerem determinados atos que. — Acho que estou quase conseguindo. mas não ouviu mais nada. unindo as sobrancelhas numa expressão de perplexidade. Tem sua lógica.. Comunique à imprensa que sou Gêmeos. Continue pensando assim. Ele tem medo.. Ótimo para você. inocentemente.. por falar nisso? Ainda inchada? — Quem matou a enfermeira Keating? — Criadores de encrencas..você é um detetive de homicídios. — E se Gêmeos tivesse um cúmplice? — Quem matou o padre Bermingham? — Quem é ele? — indagou Sunlight.. “Velhos amigos. — Se foi você. está zangado. — Papai precisa saber. em silêncio.. ele inclinou o corpo um pouco para a frente. É uma ideia. Ficou olhando ameaçadoramente para Kinderman. — Gosto do jantar — disse Sunlight. finalmente. comigo. — Quem matou a enfermeira Keating? — Apague a luz e depois apague a luz. Ainda não havia cogitado dessa possibilidade. — O padre Dyer era um tolo — disse Sunlight.. Kinderman levantou-se e chegou mais perto. Sabe o que penso? É o dr. Como está sua mão. Os olhos de Sunlight brilhavam zombeteiramente. — Quem matou a enfermeira Keating? — A lua invejosa. Temple. Kinderman saiu . Sunlight ficou inconsciente. Tommy. — Pequeno. — Você não sabe? — Não posso estar em toda parte ao mesmo tempo. Brincadeira. — Muito tolo. — Sunlight desviou o rosto de Kinderman. Sua cabeça pendeu. Último aviso. o que aconteceu com os órgãos vitais dela? — perguntou Kinderman. Estou cansado.. Parece que meu trabalho jamais acaba. numa voz sem qualquer inflexão. — Sunlight inclinou a cabeça para trás e mugiu como um bezerro. Portanto. Os segundos foram passando. posso perceber que está pensando nela. Está bem perto. — Mando-o continuar sem mim. — Deveria saber disso. — Estou cansado. Jack Horner. e seu olhar se perdeu no espaço. Aproximou o ouvido da boca de Sunlight para ouvir as palavras sussurradas. não concorda? Mas talvez eu seja um telepata ou tenha faculdades psíquicas que me proporcionem todo o conhecimento dos crimes de Gêmeos. não é mesmo? Isso mesmo... Pareceu estranhamente desamparado por um instante.. é evidente que há pessoas sendo mortas. Kinderman observou atentamente os olhos inexpressivos.. hã… são inaceitáveis socialmente hoje em dia? Ah. Pessoas desconhecidas e certamente selvagens. E depois ficou sonolento. de criança.

a menos que haja alguém para substituí-lo. falando ao telefone. Atkins fez sinal para o guarda que estava postado nos elevadores.da cela apressadamente. Terminou rapidamente a conversa quando viu o tenente. — É com C ou K? — perguntou a enfermeira ao atendente. Olhou para o cubículo envidraçado. No caminho. Um atendente do hospital acabara de empurrá-lo até a mesa. Kinderman agarrou-lhe o pulso. senhor. Atkins. tudo parecia estar em ordem. Quando ela chegou. — Sobrenome? — perguntou a enfermeira. A atenção de Kinderman fixou-se em Atkins. Kinderman deixou-o e entrou na enfermaria. — Fique aí. Kinderman correu os olhos pela sala e percebeu pela primeira vez que não havia enfermeiras ou atendentes por ali. tocou a campainha para chamar a enfermeira. não importa o que possa acontecer. poucos passos à direita da mesa da enfermeira. — Não deixe este posto por motivo nenhum. Ele estendeu alguns papéis. Atkins concluiu o telefonema em poucos segundos. O sargento estava de pé no cubículo envidraçado. Não havia . numa cadeira de rodas. senhor. — Depressa. Piscou e se aproximou. Kinderman e o guarda se encaminharam apressadamente para a seção aberta da Psiquiatria. observando cada rosto com cautela e uma sensação cada vez maior de medo. Uma criança estava sendo internada na Neurologia. enquanto o menino era levado para um quarto da Neurologia. — Coloque um homem na entrada da seção aberta da Psiquiatria — disse-lhe Kinderman. E o aparelho não estava ligado. — Não se preocupe. atrás da mesa. os olhos deles estavam fixados na tela da televisão. Vincent P. no entanto. Um momento depois estava parado na sala de recreação. Não importa coisa alguma! Atkins estendeu a mão para o telefone. mas parou abruptamente a poucos passos do grupo. Não saia sequer para ir ao banheiro. — Quero alguém ali vinte e quatro horas por dia. O detetive parou quando chegaram à entrada e instruiu o guarda: — Nenhum paciente deve sair daqui. Sentia um terrível presságio. — Vincent Paul — disse o menino. um menino de seis anos. Ele se aproximou. Quero alguém imediatamente. E. — Com K. ele voltou à Neurologia e procurou Atkins. Atkins — exortou Kinderman. Somente os funcionários. Atkins desligou. Olhou para a multidão em torno do aparelho de TV. Ela sorriu para o menino e disse: — Oi. — Aqui está um lindo rapaz para você — disse ele à enfermeira. Nenhum paciente sai. Entendido? — Está certo. Foi o atendente quem respondeu: — Korner. Adeus. — Telefone depois. — Venha comigo — disse Kinderman. O que havia de errado? E só então notou o silêncio. Olhou ao redor lentamente. Extasiados.

estrangulados. Ela deixou escapar sons roucos. A porta se abriu silenciosamente e uma mulher com uniforme de enfermeira entrou. Olhou atentamente para o menino e depois aproximou-se. Kinderman olhou para o urso. Atkins e um guarda uniformizado entraram correndo ao quarto. Tornou a observar o grupo silencioso em torno da televisão apagada. massageando o pescoço. Começaram a sussurrar ininteligivelmente. Vozes soaram em diferentes pontos da sala. a mulher ergueu as mãos bem devagar. aturdido. Inclinando o corpo por cima do menino. cadenciadas.. “Brincadeira de criança! Vincent Korner!” As palavras atingiram a mente de Kinderman como um golpe. — Que diabo aconteceu com você? Ficou louco? — Quero mamãe! — gemeu o menino. e afrouxou lentamente a pressão frenética. Atkins pegou a sacola de compras e deu uma olhada. Fechou a porta sem fazer barulho. Encaminhou-se rapidamente para a mesa. Um urso de pelúcia caiu das mãos dela no chão. Subitamente. Carregava uma sacola de compras. Ele virou-se rapidamente e saiu correndo do cubículo. — Tirou um lenço do bolso e comprimiu-o contra o rosto. silenciosamente. A enfermeira voltou-se. enquanto o menino se sentava na cama. gritando de terror. perdendo sangue por ferimentos na cabeça. sem som. gritando em voz rouca: — Não! Agarrou a mulher pelas costas. O menino começou a se remexer. num estrangulamento desesperado. — Você está me sufocando! — balbuciou a enfermeira. — Peço desculpas. Estava deitado de costas e entreabriu os olhos. As venezianas da janela estavam fechadas e a escuridão do quarto era rompida pelos desenhos animados que passavam na televisão. queridinho. mas estacou abruptamente com o que viu. sonolento. — Alô. Nenhuma peça de seu uniforme estava à vista. sacudindo os braços debilmente. Kinderman irrompeu no quarto. pôs a sacola no chão e tirou uma coisa de dentro dela.. trêmulas. querido. — A luz! Acendam a luz! Acendam a luz! — Mamãe! Mamãe! As luzes se acenderam. Seu coração começou a bater forte. onde um arranhão longo e profundo continuava a sangrar. lentamente. contornou-a e abriu a porta do cubículo. Todos os pacientes da sala avançavam em sua direção. sussurrando: — Olhe o que eu trouxe para você. Teve um sobressalto e um choque: uma enfermeira e um atendente estavam caídos no chão. O menino fora medicado e estava dormindo.ninguém lá dentro. — Eu a peguei! — gritou Kinderman. murmurando: . aproximando-se num cordão que se fechava. A enfermeira estava nua. fixados nele. — Sinto muito. Kinderman gritou por socorro. — Santo Deus! — exclamou ela. estranhamente amáveis: — Alô. guinchando para Kinderman: — Você quase me quebrou o pescoço! O tenente fazia esforço para recuperar o fôlego. — Prazer em vê-lo. A enfermeira abraçou-o. sem sentidos. num silêncio aterrador. Os olhos de todos brilhavam. O arrastar das chinelas constituía o único som.

depois bateu o fone e desceu correndo pela escada. O telefone tornou a tocar. "Alguém atenda! Atenda!”. — Uma enfermeira está vindo para cá com um embrulho. — Está certo. como quiser.. — É assim que trata a sua própria família? — Minha família? A mente de Kinderman. pensou ele num frenesi. enquanto despejava na cama o conteúdo da sacola.” — Julie! Meu Deus! E saiu correndo do quarto. — É mesmo? Mas por quê? Mary escutou mais um pouco e finalmente disse: — Está certo. mas a mãe acenou-lhe para que deixasse. — Não atenda. mas foi quem atendeu. Desligou e voltou a se concentrar no pão que estava preparando. Encaminhou-se para um carro da . enquanto Julie voltava à leitura. “um convite a dança. Ofegante. subitamente calmo desvencilhando-se da enfermeira. — Mande revistar o hospital! — determinou Kinderman a Atkins. querido. comprimia o fone contra o ouvido. Mary atendeu. Estou com saudade. Guardarei um prato quente. Julie era a que estava mais longe... — Oi. Mary Kinderman e a mãe estavam na cozinha.— Ela está atrás de alguém! Descubra-a! — Que brinquedos? — repetiu o menino. Estendeu o telefone para a mãe. Mamãe está aqui. Seu pai quer que o telefone fique desocupado. Mas é melhor se apressar. papai. Deixou o telefone tocar por mais um minuto. Abruptamente. começou a disparar.. O guarda que estava no quarto saiu e juntou-se aos outros. Julie se levantou de um pulo para atender o telefone outra vez. Nem sequer pensou em esperar um elevador. querido. — Que brinquedos? — indagou o menino. — . na Neurologia. preparando o almoço. viu a plaqueta da enfermeira: JULIE FANTOZZI. Julie. Kinderman estava parado à mesa da enfermeira. meu bem. — Nu? — disse sua mãe. lia um romance. — Devem estar cancelando — murmurou a mãe de Mary. — Brinquedos. Claro. O telefone tocou. — Não acredito em você — disse a enfermeira a Kinderman. — Alô?. Sua ansiedade ia aumentando a cada toque da campainha do telefone sem que ninguém atendesse. — Não é nada — respondeu Mary. A enfermeira levou a sacola de compras ao menino. sentada à mesa da cozinha. chegou ao saguão e saiu correndo para a rua.. Oi. Outros guardas apareceram na porta. Se ele ligar. mas Atkins mandou que recuassem e transmitiu-lhes as novas instruções.. Vem almoçar em casa? — Mary escutou por um momento. dará um sinal: dois toques da campainha. Mas vem ou não almoçar? — Ficou ouvindo.

quando a porta se abriu abruptamente. Kinderman também saiu do carro. seguindo-o para a cozinha. . — Ligue a sirene! E avance todos os sinais! Depressa! Depressa! Partiram com um ranger de pneus e a sirene gemendo estridentemente. Olhou para o revólver e depois para o rosto do marido. a caminho da casa de Kinderman. com uma expressão severa. — Estou doido. — Não quero armas nesta casa.. Bill — disse Mary. Estava na frente de sua casa. sacou o revólver e tirou do bolso as chaves da casa. Que diabo pensa que está fazendo? Kinderman baixou o revólver e adiantou-se rapidamente. — O que está acontecendo. — A carpa já morreu. O tenente beijou o rosto de Julie e guardou o revólver. com a mão trêmula. Acho que está começando. Quando o carro da polícia parou. — Há um brutamontes nazista lá nos fundos. E foi nesse instante que ouviu a voz idosa e cadenciada de uma mulher na cozinha. — Dê a volta! A porta dos fundos! O guarda saltou do carro e começou a correr. Isso é tudo. 20 718. dizendo: — Olá. Kinderman sacou imediatamente o revólver. — Vou dizer ao guarda. ele abriu os olhos. estava uma sacola de compras. Não demorou muito para que estivessem avançando a toda a velocidade pela Reservoir Road e entrando na Foxhall. por favor? Kinderman estacou abruptamente. Bill? Quer falar comigo. — Foxhall Road. junto à porta da cozinha. onde estava sentada uma mulher idosa.polícia. — Bill! — gritou Mary. É a única explicação. fitando-o impassivelmente. com um solavanco. abraçando Julie. Julie olhou para a arma e depois gritou para o interior da casa: — Mamãe! Papai chegou! Mary apareceu na porta no instante seguinte. A mãe de Mary apareceu. entrou e bateu a porta. entrou na cozinha e apontou para a mesa. Encaminhou-se para os fundos da casa. O que devo dizer a ele? — Quero uma explicação.. depressa! — balbuciou Kinderman. sacando do coldre um revólver de cano curto. num uniforme de enfermeira. — Estou muito cansada… — murmurou a velha. — murmurou ele. Mary pôs as mãos no braço de Kinderman e empurrou-o para baixo. — Vou simplesmente dizer a ele que o nome de nossa família é Febré — resmungou a mãe de Mary. durante todo o percurso. Um guarda de capacete estava sentado ao volante. O telefone tocou e Julie correu para atender. de olhos fechados. O tenente permaneceu rezando. está me entendendo? O guarda entrou abruptamente na cozinha. empunhando a arma. — Graças a Deus! — murmurou ele. enquanto corria para a porta. Estava tentando inserir a chave na fechadura. Encostada na parede. Kinderman entrou na casa e seguiu para os fundos. — Vai dizer o quê? — indagou Mary. Ele se adiantou para pegá-la.

. que estava parada ao lado. — Quantas pessoas para o almoço? — perguntou a mãe de Mary. Eram francos e mansos. O que há de errado com essa mulher? Quem é ela? Kinderman tinha virado a cabeça e murmurou. do fogão. — Tenente? Os olhos de Kinderman estavam fixos na mulher. por favor. com uma expressão inocente. O que ela disse? — "Acabado” — grunhiu a mãe de Mary. — Alô? — É para mim? — perguntou Julie. uiva alguma coisa estranha e depois desmaia. enquanto continuava a mexer uma panela de molho no fogão. gentilmente. . Inclina a cabeça para trás. senhor. — O que está acontecendo por aqui? O telefone tocou outra vez. gesticulando para a mulher. e depois desmaiou. Levantou os olhos para Mary. Volte ao hospital. ela falava como se fosse um lobisomem ou algo assim. A mulher fitava-o nos olhos. Kinderman sondou os olhos dela. — Preciso saber agora. Mais parece. — Está na hora de deitar? — perguntou ela. — Foi isso mesmo — lembrou Mary. — Qual dos dois? — "Ele está acabado” — confirmou Mary. exibindo no olhar confusão e irritação. — Estou falando ao telefone! A mãe de Mary resmungava. — Guarde o revólver. lentamente. Mas o que está acontecendo? — Tente lembrar. — Podem fazer o favor de falar baixo? — gritou Julie da sala de estar. — Guarde essa arma! — berrou Mary. ela é velha demais para ser enfermeira. Mary atendeu imediatamente. O guarda olhou para Kinderman. — E. Julie entrou na cozinha. Afinal. — "Ele está acabado” ou apenas "acabado”? — insistiu Kinderman. — Estou muito cansada. — Está tudo bem agora. Havia no rosto dela uma expressão de confusão e cansaço. — Ela gritou "Ele está acabado”. Bill? — indagou Mary. — Como? — Você falou que ela disse alguma coisa.. — Está certo. Está quase na hora de deitar — respondeu ele. Pode ir embora. — Está. Frank — disse Kinderman. O tenente sentou-se à mesa. Mary. — Você falou que ela disse alguma coisa. O que foi? — Não me lembro. Tirou o chapéu e colocou-o em cima de uma cadeira. por Deus. — Que confusão está acontecendo aqui. — Que espécie de enfermeira é essa que você me mandou? Abro a porta para a mulher e ela desmaia. pensativo: — Ele está acabado. Kinderman fez um gesto para que ela se calasse. sim. O guarda pôs o revólver no coldre e retirou-se.

São anfitriões perfeitos. Kinderman chamou outro carro da polícia e levou a velha de volta ao hospital. Satisfeito. Era o que você tinha mandado? Kinderman virou-se e prendeu a respiração. perguntou-se Kinderman. tenente? Ora. observando o tenente se aproximar. — E como aconteceu? — Não diria que foi por um triz para Julie? Kinderman esperou. — Eu tinha de vê-lo — disse Sunlight. grande e brilhante. com os olhos brilhando. E . — Ainda não adivinhou.. Era Atkins. — Trouxe-me sorte. E Atkins murmurou: — Ele acaba de dizer que você estava aqui. — Irei imediatamente. Foi transferida imediatamente para a ala dos agitados. A enfermeira Spencer saiu da cela e perguntou ao tenente: — Vai entrar? Kinderman assentiu. Acho que vou dar um prato de sopa à pobre coitada. Além do mais. tenente. meigos. O tenente disse ao telefone: — Kinderman falando. Sunlight observava-o. Mary estendeu o fone para Kinderman. Sunlight inclinou a cabeça para trás e riu. — Ele o está chamando. é claro que já sabe. Está berrando sem parar. Seus olhos pareciam perturbados e distantes. Nas mãos de Mary estava uma tesoura de dissecação cirúrgica. E lhe devo alguma coisa. tenente. quero que minha história fique registrada exatamente como aconteceu. seguiu para a área de isolamento. Suas próprias personalidades foram destruídas. é claro. idosos e vazios vassalos. O que havia de diferente nele?. Kinderman parou e fitou-o.. Kinderman foi informado de que a enfermeira e o atendente feridos não haviam sofrido lesões mais graves e deveriam voltar ao serviço na semana seguinte. onde Atkins o aguardava. onde ela foi reconhecida como paciente da seção aberta da Psiquiatria. Podia ouvir a torneira pingando na pia. em silêncio. com os olhos ainda mais brilhantes. Ele estava diante da porta aberta da cela 12. encaminhou-se para a cadeira de encosto reto e se sentou. Kinderman desligou e ouviu Mary perguntar. Fechou a porta sem fazer barulho. onde ficaria sob observação. — Precisamos disso? — indagou Mary. Bill? Estava na sacola de compras dela. Não estão aqui. ficou. de braços cruzados. Finalmente percebeu tudo. — Quando? — Há menos de um minuto. no corredor. fitou o tenente. — É para você. Encostado na parede. Atkins? Algum problema? O sargento sacudiu a cabeça. atrás dele: — O que é isto. — Quem? — Sunlight. Apenas o seu nome. depois se virou e entrou lentamente na cela. como meus substitutos fazem o trabalho. Kinderman observou-o por mais um momento. — Não. — O que aconteceu com você. meus queridos. Abruptamente. Depois.

. E ele estava mesmo morto. Você gostaria? É desconcertante. um momento de alívio. Não acredita em mim. E por que não? O cérebro dele parecia geleia. Minha coisa.. Mas. havia-me esquecido. — Sunlight deu de ombros. É o sorriso o que nos mantém às vezes. antes de finalmente dizer: — Não há qualquer reação da galeria. E de repente apareceu. infelizmente. quando a equipe da ambulância declarou que Karras estava morto. — Ora. Isso ajudou. Um amigo seu.. Que não estava muito bem na ocasião.. Este corpo em particular. Mas o cérebro possui poderes extraordinários. E no instante em que ele estava saindo. — Digamos que foi por raiva. Uma pequena piada. E depois. Isso mesmo. Meu trabalho.. É verdade que houve alguma confusão na escadaria... Isso mesmo. Um deles. e ele mostrou uma expressão de desamparo. Pergunte a seu amigo. Falta de oxigenação. finalmente. O dano das células cerebrais fora muito grande. No sentido espiritual. você sabe. Ele saíra do corpo. Desastre. o padre Karras. eu me sentia muito mal. tenente? Sunlight inclinou a cabeça para trás.. Determinadas partes que não ficaram satisfeitas. uma cena de comédia pastelão. Por um momento. Ele estremeceu. voltando a olhar para Kinderman.eu aproveito para entrar. sem dizer nada. para dizer o mínimo. às gargalhadas. Levou-me para o nosso amigo comum. Meu amigo foi muito simpático. Ele achava que meu trabalho deveria continuar. Pode imaginar como. um máximo de esforço. — Claro.. Não era justo. Muitas se perderam. hã. meu prestativo amigo ajudou-me a entrar no corpo. Este corpo. Com tendências para morrer. à deriva. Apenas por algum tempo. por você. pelo que sei. — Lá estava eu lamentavelmente morto. Restava tanto trabalho a fazer e eu não tinha corpo. Desfalecendo. A zombaria se desvaneceu. expulsou determinadas partes do corpo de uma criança. Sunlight parou de rir bruscamente e fitou-o com uma expressão vazia. Dei um jeito. Eu é que devo perguntar a ele.. Kinderman continuou a fitá-lo. — Tommy diz que não vai me perdoar a menos que você conheça a verdade. A questão de um determinado exorcismo. Mas neste corpo. tecnicamente falando. claro... pensou nessa brincadeira como um meio de voltar. Por algum tempo. Sunlight ficou em silêncio por algum tempo.. passei algum tempo por baixo. ficaram longe de felizes. Estar morto não é fácil. Mas não importava. tenente? — Não. que fluíam como os zurros de um asno. Algum tempo? Doze anos. Kinderman sentiu a nuca gelada. teve uma participação ativa e. — Assim. Suas feições se contraíram no mesmo instante. Isso mesmo. que pelo menos me tirou daquele caixão. O tenente estava eletrizado e perguntou: — Por quê? Sunlight deu de ombros. o bom dr. depois disso. para ser mais exato. em que seu amigo. é claro. Amfortas. usando este corpo devoto e heroico como um instrumento de. Vingança. e Sunlight parecia abalado. tenente. o padre Karras. Mas eu entrara. Um pouco traumatizado. Você sabe. Não me agradava. um amigo. os fragmentos de uma animação inesperada. Navios que passam na noite e todo o resto. o olhar de Sunlight estava distante e estranho. quando o velho irmão Fain me viu sair do caixão. Ora.

— Quando Sunlight se inclinou para frente. Sunlight descaiu pata trás. — Tommy quer que você saiba disso. Kinderman correu para o telefone. em tom de urgência. — E não deixe ninguém sair de casa. O que seria? Por que experimentava aquela sensação? Acreditava no que Sunlight estava dizendo? Não importava. Kinderman ficou aturdido. Não posso deixar meu irmão sozinho. Voltou para o corredor diante da cela 12. por favor. — Não saia de casa. no posto da enfermeira. Sunlight estremeceu e tornou a olhar para o tenente. Kinderman olhou para além dela. aproximou-se rapidamente da cama. Dava a impressão de estar contemplando um terror distante. Ele inclinou a cabeça para o lado — Ir para onde? — Estou muito cansado. — Quero homens guardando a minha casa imediatamente — disse ele a Atkins. — Que verdade? Sunlight virou o rosto e murmurou apaticamente: — Eles vão me punir por isso. baixou o ouvido até a boca de Sunlight. Eu não posso partir sem meu irmão! As sobrancelhas de Kinderman estavam unidas em perplexidade. Tommy diz que não irá embora. A porta estava aberta. Eu não sou Karras! Acredite em mim. querida — disse Kinderman. concluiu. mas não podia explicar. Podia ver Sunlight estendido de . Olhou para o tenente e informou: — Ele está morto. Sabia que devia dizê-lo. — Como? — Ele está morto. Jimmy. Seu coração parou. A enfermeira Spencer saiu da cela. gaguejando como na vez anterior: — Eu a-a-amo vo-você. Kinderman levantou-se no mesmo instante. — Que verdade? — insistiu Kinderman. Os olhos de Sunlight ficaram pesados e sonolentos. Continuará aqui. revirando os olhos para cima. Não há mais necessidade de eu ficar. Seu amigo Karras nada teve a ver com os assassinatos. e sua cabeça tombou sobre o peito. Mary atendeu. Quero ir. Kinderman ficou aturdido com o desespero que havia nos olhos dele. — Não sou Karras — sussurrou ele. Alarmado. Quando Mary começou a protestar. contra a parede. apertou-a e saiu para o corredor. Sentia a importância do momento. Kinderman correu para a campainha. com a voz rouca. Se não acreditar. não deixe ninguém entrar até que eu chegue aí. Quero ir embora. — Diga a Tommy que acredita nisso! Diga a ele! Kinderman prendeu a respiração. enquanto aquela outra voz saía de sua boca. Ligou para casa. firmemente: — Acredito em você. Olhou para Atkins e disse: — Está começando. E foi o que fez. Tranque todas as portas e janelas. Sua expressão era suplicante. ele repetiu as instruções e depois desligou. E depois seus olhos se fecharam. Ajude-me. por favor. Mas Sunlight não disse mais nada.

— Não realmente. — E disse alguma palavra? — Não tenho certeza. Era alguma coisa… não tenho certeza. psicótica. Ah. Tentou ordenar os pensamentos por algum tempo.costas. Havia no seu rosto uma expressão que parecia de paz. — Só isso? — Não sei o que está querendo saber.. ao final de uma jornada. — Ou alguma coisa parecida. — Ele é parte do anjo — disse Kinderman suavemente. Depois. E depois disse. Sua voz parecia estranhamente desconsolada. Achei que ainda estava inconsciente. até a cama. murmurando: — "Ele está acabado. com os olhos ainda fixos no rosto . — Senti muita pena dele. Ela fez uma pausa. A enfermeira veio postar-se ao lado de Kinderman. mas parecia “papai”. — Não telefone ainda. Eu tinha vindo tomar seu pulso. Os passos dela pararam. sim. por muito tempo aguardada. Uma voz esquisita que ele usava de vez em quando. — Não sei. Atkins — murmurou ele. A camisa de força fora removida. sem se virar: — Ele estava me chamando antes? Spencer respondeu. estou me lembrando de algo mais. — Houve aquela coisa da gagueira. Olhou para Sunlight. virou-se e olhou para o corpo. Era uma pessoa terrível. lentamente. Gritou outra coisa: "Ele está acabado”. Quase como uma criança. talvez. E depois pareceu recuperar os sentidos e. E ouvi a voz gaguejando. Kinderman ficou em silêncio por um longo tempo. — Ele parecia feliz ao final. atrás dele: — Estava.. Foi pouco antes de ele começar a chamar por você. — Espere um instante. Por um instante. Os olhos dele estavam fechados e suas feições pareciam ter-se desanuviado na morte. abriu os olhos e parecia feliz. Espere um pouco. — "Papai”? A enfermeira deu de ombros. — Não realmente? O que isso significa? Os olhos dela pareciam sombrios na semi escuridão do quarto. — A enfermeira deu de ombros. mas ele seguiu adiante. Gaguejando. Kinderman já vira aquela expressão antes. Kinderman piscou para ela. — E ele ainda estava inconsciente na ocasião? — Estava. Podia ouvir a enfermeira entrando atrás dele.” — Uma coisa estranha — murmurou a enfermeira Spencer. Kinderman entrou na cela... Mas havia alguma coisa nele que me fez sentir pena. — Ouviu-o dizer mais alguma coisa? Ela cruzou os braços. — "Ele está acabado”? — Foi pouco antes de começar a gritar seu nome. surpreso. Ele virou a cabeça para fitá-la.

pensou ele. O terror e a perda invadiram-no nesse instante. O que era? — O que o está incomodando. o alívio e a dor. Teve um enfarte. — Mas tenho uma informação para lhe dar. — Estou apenas cansado — sussurrou o tenente. Não há qualquer motivo. — Não sei. Não há motivo. Atkins? Diga-me. Kinderman ficou imóvel. E quando Atkins já começava a recear que nunca mais acabaria. Encontramos o pai de Gêmeos. Manteve a mão ali gentilmente. Spencer. e seu rosto se contraiu. Atkins levou-o para casa. — Desculpe. balançando a cabeça. Ficou ouvindo-a se retirar. Depois virou-se e saiu lentamente para o corredor. srta. — Está morto. — Não ouvi o que disse. Depois que ela saiu. Estou apenas cansado. Todas as lâmpadas brilhavam intensamente. — Acho que está acabado — murmurou ele suavemente. senhor — repetiu interminavelmente. — Está tudo bem. por vários minutos. — Encontraram? Atkins assentiu. sem piscar. o choro começou a desvanecer. por favor. Encostou-se na parede e começou a chorar incontrolavelmente.de Sunlight. turbilhonando num ponto mínimo da íris. Depois. — Onde ele está? Os olhos de Atkins pareciam mais verdes do que nunca. enquanto o choro se prolongava. inclinou-se e tocou o rosto de Sunlight. tenente? Kinderman compreendeu o que estava diferente. por fim. Atkins foi tomado de surpresa e por um momento não soube o que fazer. — E deu de ombros. — É isso mesmo. Os olhos do sargento tinham uma expressão angustiada. Kinderman escutou uma gota da torneira se desfazer contra a porcelana da pia. — Kinderman baixou o olhar para Atkins e acrescentou: — Está acabado. — Quando? — Esta manhã. Alguma coisa parecia diferente. tenente. deu um passo para frente e tomou o tenente em seus braços. — Acreditei nele. — Pode ir agora. por um momento. . — Que diabo está acontecendo. Levantou os olhos para o teto do corredor. — Fez uma pausa. Obrigado. Mas o sargento continuou a enlaçar Kinderman gentilmente.

20 DE MARÇO Qual seria o mundo real. Kinderman levantou os olhos para Riley. . Sóis silenciosos colidiam em ambos. — Deve ter sido um choque e tanto para você — murmurou Riley. o mundo que havia além ou aquele em que ele vivia? Houvera uma interpenetração. depois. pensava Kinderman. os dois homens ficaram ali. com o amanhecer. seus pensamentos e a terra serena. Riley virou-se para ele. voltou a olhar para o caixão. CAPÍTULO 16 DOMINGO. — Por que isso? — Você o perdeu duas vezes. — Não era ele. — O tenente sacudiu a cabeça. — Nunca foi ele. lentamente. — Posso lhe oferecer um trago? — Não pode fazer mal. O padre e o detetive estavam sozinhos à beira da sepultura. olhando para o caixão do homem que poderia ser Karras. Kinderman fitou-o em silêncio por um momento. As orações haviam terminado.

a porta da frente da casa fora arrombada. É antinatural. A 11 de junho. Tenha dó. antes de dizer: — Desisto. Por insistência de Coffey. resultante do golpe que sofrerá na cabeça quando caira. — Isso é alguma piada? Atkins parecia inescrutável. foram sendo gradativamente relaxadas. Depois. — Não posso suportar isso. Ele voltara de sua lua de mel no dia anterior. — Posso ser visto — disse Atkins. Sou seu prisioneiro. as precauções de segurança da polícia haviam sido mantidas no Hospital Geral de Georgetown. em frente ao Biograph Cinema. — Pode ser visto? Por quem? — Pelas pessoas. Ele providenciara a tomografia cerebral de Amfortas que revelara a lesão fatal. sem qualquer expressão. pois Amfortas morrera de um hematoma subdural. com capuz. Pelas três semanas subsequentes ao assassinato de Keating. o dr. No dia 3 de abril. — Acho que estou sonhando. Esperava o sargento Atkins. O que está fazendo? — Kinderman olhava atordoado para Atkins. parado à sua frente. A 23 de março ficara constatado que as impressões digitais encontradas nos locais dos três crimes pertenciam a três pacientes da enfermaria aberta da Psiquiatria. Com as mãos nos bolsos do casaco. Kinderman fora à casa de Amfortas em companhia do dr. por causa da lesão deliberadamente não tratada. No início da manhã de 25 de março. os assassinatos aparentemente relacionados com Gêmeos foram relegados ao arquivo de casos não resolvidos da Homicídios. o único outro suspeito de Kinderman. EPÍLOGO Kinderman estava parado junto ao meio-fio. Tire essa gravata. Não ocorrera nenhum outro assassinato no Distrito de Colúmbia que envolvesse o modus operandi de Gêmeos. olhando ansiosamente para um lado e outro da M Street. ele estava suando. Escreverei para eles assim que minhas mãos pararem de tremer. Um blusão preto de lã. de gravata e terno listrado. à espera dos resultados de uma observação rigorosa. que o tratamento é o melhor possível. Kinderman fez uma careta de incredulidade. — Estou casado agora. Atkins. Os três estavam no momento na ala dos agitados. 12 de junho. fora encontrado num armário do quarto de Amfortas. Mais tarde sua morte foi classificada como acidental. Kinderman continuou com uma expressão chocada. Kinderman continuou a fitá-lo em silêncio por um momento. Coffey informara a Kinderman que Amfortas teria morrido de qualquer maneira dentro de duas semanas. Era quase meio-dia do domingo. É estranho. Edward Coffey. Quando Kinderman perguntou por que Amfortas se deixara morrer. Atkins. Coffey só teve uma resposta: — Acho que tinha alguma coisa a ver com amor. e encontraram Amfortas morto na sala de estar. Avise à minha família que estou bem. fitando Kinderman sem piscar. amigo de Amfortas e neurologista do Hospital Distrital. sofrera um derrame cerebral violento e agora estava internado na seção aberta da Psiquiatria. . Freeman Temple.

e também chorou. Permaneceu no lugar. embora seu tom nada admitisse. Isso mesmo. — Vamos comer alguma coisa — sugeriu Kinderman ansiosamente. — Tem razão. na rua movimentada. Eram os únicos fregueses ali. em voz consternada: — Quem escolheu a gravata? Tinha um estampado floral havaiano. — Quero saber da lua de mel e de seu guarda-roupa. durante o sepultamento de Gunga Din. — Baixou o olhar. Atkins. Para onde vamos? Ao Tombs? Não. — É melhor ficar na marinha. uma mulher sentada nos fundos começou a rir. depois de atingido pelas balas dos tugues. Atkins. Estou sentindo necessidade de alguma preparação para o futuro. O uniforme e a touca brancos estavam salpicados de gordura. O olhar venenoso não teve qualquer efeito. Tenho uma ideia. O tenente contemplou-o afetuosamente. sentindo cheiro de hambúrguer e discutindo os filmes que haviam acabado de assistir. Ainda não acabei. — Eu poderia falar do seu chapéu. podemos ser vistos — murmurou Kinderman. já que nenhum dos dois estava de serviço naquele dia. quando soaram os acordes de Auld lang syne. Passava a maior parte do tempo rezando pelas pessoas que usam terno. soprando a corneta em advertência. Kinderman descobriu que o sargento estava chorando. — Falamos muito sobre o mal que há neste mundo e de onde vem — disse Kinderman. Conheço um lugar absolutamente perfeito. E logo estavam no White Tower. Entraram no cinema. Tudo o que ele fazia era produzir queijo e de vez em quando colher uvas. quando o aguadeiro subiu no alto do templo de ouro. sentados. espere um pouco. Era alto e corpulento. O filme era Gunga Din. sondando com os olhos. estou falando para uma parede? — Está se fazendo entender — disse Atkins.Meu palpite é que ainda vai demorar dois meses. contente com o mundo. Estou conseguindo me fazer entender ou. — Um verdadeiro schmaltz. Então por que sempre deparamos com Gunga Din. com uma aparência rude. — Eu mesmo a escolhi. Eu o adoro. sombriamente. Passou o braço pelo do sargento e foi levando-o na direção oposta. Quando se virou para Atkins. Estou deixando-o nauseado? Pois espere um pouco. Kinderman virou-se e lançou-lbe um olhar furioso. — Vamos logo. de rosto ossudo. — Mas como explicar todo o bem? Se nada fôssemos além de moléculas estaríamos sempre pensando em nós mesmos. Acabou deixando o mosteiro. Kinderman estava pensando em Dyer. — Kinderman inclinou-se para frente. pessoas que . — Que filme! — sussurrou ele. Mocassins. tenente. com borlas e pequenas moedas brilhantes em cima. eles saíram e pararam diante do cinema. — Pois não o faça. a fim de lhe dizer que deveriam mudar de lugar. de costas para eles. Os sapatos eram roxos. — Vamos perder o começo do filme. como sempre. antes de indagar. O homem do balcão estava parado diante da chapa. — Foi o que pensei. E sabe o que ele comprou? A primeira coisa? Um par de sapatos de duzentos dólares. — Tive um amigo da escola que se tornou monge trapista por onze anos. Depois que o outro filme acabou. Ao final de Gunga Din. em sessão dupla com O terceiro homem.

— Poderia me fazer um favor. O homem virou-se e pôs seis hambúrgueres pequenos num prato de papel. parando de mastigar e tomando um gole do refrigerante. Mas até ele faz alguma coisa naquela cena da roda-gigante. Estou com uma tremenda dor nas costas. — É tudo parte da minha teoria — acrescentou Kinderman. As conversas na sala eram cada vez mais excitadas. com uma expressão ansiosa nos olhos. professor? — Duas Pepsis — respondeu Kinderman prontamente. — Pagarei um extra. — O que vão beber? — Um pouco de cicuta. depois de tantos séculos de paz. que é justamente o oposto. pondo a mão no antebraço de Atkins. Não tente me sacanear. estou trabalhando num latrocínio na P Street. na parede do outro lado. Por falar nisso. dizendo que. Atkins. voltou a se concentrar em seus hambúrgueres. O homem do balcão bufou. Kinderman observou-o colocar um pouco de picles em cada pedaço de carne. — Se quer uma cozinha europeia. É possível que o mundo não possa progredir sem angst. — Podia pôr mais picles.. Devemos esclarecer tudo amanhã. Atkins levantou o indicador. o maior produto que eles nos deram foi o relógio de cuco? Isso é verdade. — Harry Lime estava certo. — Está em falta. Agora ele estava falando de O terceiro homem. enxugou os lábios e inclinou-se para Kinderman. e depois comentou: — Estou cansado de ficar sentado.. um homem do mal. — O que foi que disse. murmurando: — Todo espertinho da M Street aparece por aqui. Um grupo de estudantes de Georgetown entrou nesse momento e logo o lugar transbordava de conversa e riso. Virou-se para pegar as bebidas. satisfeito. sem angústia. Atkins acenou com a cabeça em concordância. Kinderman cerrou os olhos. e sua voz soou como a de um sargento-instrutor dando uma ordem-unida.. Depois. por favor — disse Kinderman. meu chapa. Foram comer de pé num balcão. O que vão querer beber? — Um café expresso — disse Atkins.renunciam à própria vida pelos outros? E há também Harry Lime. mastigando. vá ao Beau Rivage. Kinderman mordeu um hambúrguer e começou a mastigar. O homem virou-se para o sargento. O homem do balcão virou-se e lançou-lhe um olhar hostil e silencioso. — Lembra-se daquela cena em que ele fala sobre os suíços. Do turbilhão nasce um poema.. Levantou-se e Atkins seguiu-o. tenente? . Aconteceu na semana passada. diante de cada um. furioso. estes hambúrgueres. Kinderman pagou os hambúrgueres e os refrigerantes. Eles têm os molhos mais incríveis por lá. — Tenente. Seu rosto e seus olhos permaneceram impassíveis. por favor? — Picles demais pode estragar o gosto — resmungou o homem. Ele marca um ponto aí. Pegou um guardanapo de papel branco.

— Não pode me contar? — De jeito nenhum. Aliócha. — Sempre choro quando penso nisso. antes de poder entrar no reino dos céus. Observou o homem do balcão colocar mais alguns hambúrgueres na chapa. na expectativa de outro fluxo de fregueses. O mais importante é quando Aliócha diz: "Sejam bons”. mastigou por um momento. Está insistindo? — Estou. Atkins. inacreditável.. engoliu com a ajuda de um gole de Pepsi e depois se virou para o sargento. Haviam outrora tratado esse Ilucha da pior maneira possível. — Três irmãos — continuou Kinderman. Os estudantes estavam pegando seus sacos com hambúrgueres. — Não sei como dizer isso. Mais tarde. nada mais pode explicar as coisas. não restava a menor dúvida quanto a isso. É muito grande. Essa bondade é básica em todos eles. poderemos refletir e dizer: É verdade. que estavam sorrindo na expectativa... Atkins. agora. Dmítri é o corpo do homem. E os garotos. o homem sentou-se numa cadeira e começou a ler um jornal. Está devidamente selada e sacramentada? — Poderia fazer o favor de explicar sua teoria? — Impossível. É incrível demais. Absolutamente comovente. diga-se de passagem… faz um discurso aos jovens à beira da sepultura. — Dmítri. essa bondade que ainda não foi conspurcada. Baixou os olhos para Atkins. tire a gravata. Atkins sorriu. encostando as pontas dos dedos nos lábios. até a sepultura de um colega deles. a evolução não . — É isso o que Cristo deve ter querido dizer ao falar na necessidade de tornarmo-nos como as criancinhas. eu fui bravo. ele é monge. Mister Chips. devem se lembrar daquele dia. Apenas uma boa recordação.. por um momento. Você me colocaria imediatamente sob prisão domiciliar. Mas voltemos a Karamázov. Antes. Ivan e Aliócha. Kinderman voltou a concentrar sua atenção em Atkins. Ao final. Kinderman observou-os se retirando. Assim.. Estou convencido de que é a verdade. Não sei. em seus corações. — Já sei! “Talvez essa única memória possa nos salvar do mal. A menos que façamos isso.. Ivan representa sua mente e Aliócha é o coração. lembrar a bondade da infância. diz Aliócha. Mas é possível.. Como é mesmo a frase? Kinderman revirou os olhos para cima. quando crescerem e estiverem enfrentando o mal do mundo. ele era muito estranho. todos o amam. Absolutamente nada. pois queria manter o ânimo generoso do tenente. Estou falando da parte absurda. — Foi o que pensei. Atkins. Ilucha. — Mas já que você insiste. sejam bons’’. Aliócha leva alguns jovens para um cemitério. porém quando morreu. dizendo-lhes principalmente que. Atkins. Mas nada mais tem sentido. ora. que fora bravo e transbordante de amor. Depois.. bom e honesto naquele momento. — Kinderman deu outra mordida no hambúrguer. Você conhece bem Os Irmãos Karamázov? — Não — mentiu Atkins. gritam: “Viva Karamázov!” — Kinderman sentiu que estava sufocando. pode salvar sua fé na bondade do mundo. Atkins. Pode apresentar sua petição... porem. Desfez o nó da gravata e tirou-a. Estou comendo e por isso me sinto expansivo. — Estou aqui para servir.” E depois Aliócha diz uma coisa que é de importância vital: “Em primeiro lugar e acima de tudo. É lindo. — Eu não poderia contar nada a alguém totalmente estranho. só porque. — Ótimo — disse Kinderman. os outros compreenderam por que ele agira daquela maneira.

impregnadas de lama.funcionará. Somos Lúcifer. ambos se viraram na direção do barulho. . o começo dos tempos e do universo material. — Somos o Anjo Caído — acrescentou Kinderman.. Kinderman e Atkins ficaram se olhando. Atkins sacudiu a cabeça e ficou esperando a resposta. mais suavemente: — Creio que essa força era uma pessoa que há muito tempo se rompeu em fragmentos. quando o um se tornou muitos. levantou-se. por causa do anseio de moldar seu próprio ser. O homem lançou-lhe um olhar furioso por cima do jornal. ainda sem dizer qualquer palavra. O White Tower estava quieto agora. — Já lhe dei a maioria das pistas há muito tempo. — Quem é essa pessoa? — Não adivinha? — Os olhos de Kinderman estavam brilhantes e risonhos. Nunca chegaremos lá. — Chegar aonde? — perguntou Atkins. Um mendigo desgrenhado entrou. unificada. — Kinderman fez uma pausa e depois acrescentou.. Suas roupas eram esfarrapadas. O rosto do sargento era uma máscara de perplexidade. a Grande Explosão. Isso foi a Queda. — Os físicos agora estão convencidos de que todos os processos conhecidos na natureza foram outrora parte de uma força única. — Viva Karamázov! — murmurou Kinderman.. Avançou em silêncio até o balcão. — Somos o Portador da Luz. com uma expressão humilde e suplicante. legião.. parou e permaneceu olhando para o homem que estava ali atrás. O olhar de Kinderman era firme e sereno. Ouvia-se apenas o chiado dos hambúrgueres na chapa quente e o barulho do jornal sendo manuseado. Quando a sineta da porta soou. E é por isso que Deus não pode interferir: a evolução é essa pessoa crescendo de volta para si mesma. preparou alguns hambúrgueres. que prontamente se retirou. meteu-os num saco e entregou-o ao vagabundo.

Jack” (1959). mas conseguem escapar ilesos. as pessoas continuam a preocupar-se com os fenômenos sobrenaturais. O livro vendeu quase dez milhões de exemplares somente nos Estados Unidos. os livros de maior sucesso e que receberam referências elogiosas da crítica são: "Which way to Mecca. figurando entre seus roteiros mais conhecidos. uma deliciosa comédia estrelada por Danny Kaye. o que constitui verdadeiro recorde. A busca de Deus e a luta do bem contra o mal estão sempre presentes. e seus heróis. repletos de aventura e ação. Nos futuros livros não haverá mais lugar para o otimismo. com roteiro do próprio autor. Neles. mostram o roubo e o crime de forma bem-humorada. prevalecendo quase sempre um tom de incerteza e mistério. glamourosa aventura de ação e mistério. Blatty escrevera uma dezena de histórias de relativo sucesso e trabalhara durante muitos anos como roteirista de cinema. “O grande roubo do banco". O escritor percebe que. não há lugar para muita violência. em troca de um estilo mais denso. e "Um tiro no escuro". e nesse combate surgem acontecimentos misteriosos nunca explicados. e. ao relatar os conflitos em torno de uma adolescente possuída pelo demônio. os conflitos internos e a presença do sobrenatural criam uma clima de permanente suspense. deu origem a um filme de idêntico sucesso. ficção de horror e mistério que. onde as descrições do ambiente. twinkle Killer Kane” (1966). O AUTOR E SUA OBRA William Peter Blatty é mais conhecido como o autor de "O exorcista”. Mesmo a religião não consegue afastar esse permanente estado de medo e terror. publicado em cerca de cinquenta países. publicado em 1970. acabam envolvendo-se circunstancialmente em situações complicadas. Seus romances anteriores. geralmente personagens confusas e inocentes. e as histórias tornam-se cada vez mais lúgubres e inquietantes. Antes disso. Na maioria das vezes os finais são românticos e felizes. representa uma profunda mudança na carreira literária de Blatty e a descoberta de um novo filão. "O Exorcista". apesar dos tempos e dos avanços da tecnologia. "O homem do Diner’s Clube". Dessa fase. "John Goldfarb. Ele abandona definitivamente o humor e a irreverência. cuja adaptação para o cinema conquistou um prêmio Globo de Ouro. . tornou-se um dos maiores best selleres dos anos 70. veículo para o extraordinário sucesso do comediante Peter Sellers. please come home” (1963) e "Twinkle.

Acrescente-se a isso um completo domínio da técnica narrativa. durante o período crítico da Guerra da Coréia. com a mesma temática. Contudo foi com "O Exorcista" que conseguiu sucesso e fortuna. que serviram para reafirmar seu prestigio. na trilha de "O Exorcista". em 1959. “I’ l tell I remember you" (1971) e "O espírito do mal“ ("Legion”. trabalhou como publicitário de uma importante empresa na Califórnia e como relações públicas e redator do serviço de imprensa do governo. Blatty nasceu em Nova York. Todos esses elementos deram a Blatty um toque mágico. 1985). Assim. tomou coragem para assumir inteiramente a carreira literária. Finalmente. Somente pôde dar baixa do serviço militar em 1954. Nessa época. adquirida em longos anos de experiência. e ele transformou-se rapidamente num dos mais bem-sucedidos autores de histórias de suspense. mas o caminho para isso foi árduo e tortuoso. seguem-se. onde serviu durante quatro anos. . alistou-se no ano seguinte na força aérea dos Estados Unidos. seus trabalhos como roteirista ajudaram-no a adquirir fama como escritor criativo e competente. em 1950. Antes. Nos anos seguintes. a 7 de janeiro de 1928. como primeiro-tenente. Depois de se formar pela Universidade George Washington. já sonhava ser um escritor profissional. com a publicação de seu primeiro romance.

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