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UNIOESTE – UNIVERSIDADE ESTADUAL DO OESTE DO PARANÁ

GABRIEL ARIENTI BARBIERI

AVALIAÇÃO DE FILOSOFIA MEDIEVAL I (AGOSTINHO)

TOLEDO – PR
2017
GABRIEL ARIENTI BARBIERI

AVALIAÇÃO DE FILOSOFIA MEDIEVAL I (AGOSTINHO)

Prova do primeiro semestre da matéria

de Filosofia Medieval I, pela graduação

de Licenciatura em Filosofia, pela

UNIOESTE – Universidade Estadual do

Oeste do Paraná.

Professor: Jose Francisco de Assis Dias

TOLEDO – PR

2017
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SUMÁRIO

INTRODUÇÃO....................................................................................................................... 4

TEMPO, ETERNIDADE E CREATIO EX NIHILO ................................................................... 5

GRAÇA E LIBERDADE ....................................................................................................... 10

BEM E MAL ......................................................................................................................... 11

CONCLUSÃO ...................................................................................................................... 13

BIBLIOGRAFIA .................................................................................................................... 14

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INTRODUÇÃO

Quando nos colocamos a refletir sobre um dos personagens mais importantes da


Igreja Católica em geral, mas principalmente, um dos que fomentaram e unificaram em um
sistema filosófico bem estruturado a doutrina e ensinamento cristão, inevitavelmente, iremos
recair em grandes e antigas perguntas.

Agostinho de Hipona, o simplesmente, mundialmente conhecido como Santo


Agostinho, nascido em 13 de novembro de 354, foi uma figura que colocou-se, mediante uma
criação fortemente cristã (apoiado por sua mãe), em contra partida, vindo de bases
maniqueístas e pagãs, a apoiar e estrutura a filosofia religiosa e teológica de forma
esquemática, abordando temas fundamentais como Deus, sua existência, suas
características, o Tempo e a Eternidade, além é claro, de perguntas de base, como o Bem e
o Mal, a liberdade humana e como tais aspectos influenciam a vida do homem, em âmbitos
éticos, práticos e religiosos.

Quando nos colocamos a pensar sobre o Tempo, achamos que sabemos, pois é claro,
vivenciamos ele aqui e lá, possuímos um relógio, e por isso, o dominamos e somos seus
amos: belos animais que desconhecem, somos nós. O Tempo é uma das perguntas mais
transcendentais, e absolutamente obscuras, que conhecemos. Ninguém vê o tempo, não é
material, palpável, e mesmo assim, subjuga a todas as criaturas, sentenciando-as, por
exemplo, à tumba hora ou outra.

Que Deus tem em relação ao tempo? Em que tempo está Deus? Deus tem idade? Na
medida que respondemos aspectos do tempo, descobrimos e desvelamos a Eternidade, seio
e morada de Deus. Logo, desta forma, começamos e entender a criação, a queda do homem,
e sua ligação ao momento da criação em si.

Mas, as perguntas não se limitam obviamente a temporalidade, até porque,


exatamente agora, somos capazes de negar e aceitar Deus, à nossa vontade. Refutar e
aceitar são opções nossas, dadas por algo que chamamos de Livre Arbítrio. Esta vontade, de
optar pelas coisas, pode ser mais impactante em nossa vida do que imaginamos.

A livre vontade nos permite escolher entre Bem e Mal, virtude e pecado. Coisa que,
até mesmo, podem parecer contraditórias a Deus, pois, se ele é bondade pura, como
permitiria a maldade, e a capacidade do homem de atuar mediante ela? Estas são perguntas
que Agostinho visa fortemente responder e explicar em seus inúmeros textos.

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TEMPO, ETERNIDADE E CREATIO EX NIHILO

Quando falamos do Tempo e da Eternidade em Agostinho, iremos entrar em um dos


temas mais fundamentais para a compreensão de Deus (em seu aspecto filosófico, e
inegavelmente, teológico), o que este fazia e faz em relação a criação, etc. Isto tem grande
peso, pois todas as reflexões que tratam-se em tal autor tem íntima relação, e hora ou outra,
irão coincidir com este tópico. Por isso, tratar do Tempo, da Eternidade e da Criação (Creatio
ex nihilo) no mesmo tópico não é delito algum, porque elas são tratadas juntas na medida que
certos conceitos são esclarecidos.

Inicialmente, as reflexões acerca do Tempo e da Eternidade se dão prioritariamente


no livro XI, precisamente, no capítulo XIV, onde toma um caráter mais direto, e inicia-se uma
profunda análise filosófica. Antes, indaga-se acerca da criação e “o que Deus fazia antes da
criação”, e conclui-se o livro, no capítulo XXX, fixando a parte da “Criação”.

Quando nos indagamos “O que é o Tempo? ”, entramos em uma espécie de entrave,


pois, por mais que tenhamos experiências diretas (nossa própria vida e existência estão no
tempo), não sabemos definir e conceituar o mesmo; o tempo para nós é perceptível, mas
corriqueiramente, torna-se algo ao qual não temos facilidade em refletir e discorrer. Isto se dá,
em certa medida, ao longo de que o tempo nos é “algo ao qual vivemos”, e presenciamos por
meio de seu efeito, logo, da forma que aparece à nós – que se expressa. Essa expressão
percebemos no movimento (palavra-chave Aristotélica, exemplificada no cap. XXIII e XXIV do
livro XI), ou seja, o movimento das coisas e eventos. Um corpo se move no tempo, mas não
é o tempo. Um corpo se mover não é longo nem curto (no tempo), mas parte da relação entre
corpos e movimentos, ou seja, sem exatidão temporal. Já, o movimento de um “futuro” se
tornar presente, e deste presente se tornar passado, e logicamente, o tempo notado nestes
três aspectos, torna-se absolutamente inacessível fisicamente – não podemos travar o tempo,
nem voltar ou ir ao remotos futuros ou passados. O futuro não chegou, o passado já não existe
mais, e o presente está eternamente fadado a se tornar passado, e nas próprias palavras de
Agostinho:

“Portanto, se o presente, para ser tempo, deve tornar-se passado, como


podemos afirmar que existe, se sua razão de ser é aquela pela qual deixará
de existir? ” (AGOSTINHO, 2007)

Assim, entramos em uma análise curiosa, pois tudo que sabemos do tempo é que ele
passa; além do mais, “o que sabemos” nada mais é que mera análise reflexiva de sua

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expressão, que são captadas por nossos sentidos: Não sabemos o que é o tempo pois não
temos como medi-lo, em virtude que ele sempre “passa” e “discorre” em nossas mãos.

Mas, se analisarmos a forma que falamos do tempo, notamos algo além. Na medida
em que temos os conceitos de passado, presente e futuro, usamos eles em sentenças, hora
curiosas, pois damos atributos “aos tempos” (ao qual, por hora, se quer parecer existir, já que
tudo está fora do nosso alcance) que inserem medidas dos mesmos. Um tempo longo e breve,
seguindo o próprio conceito Agostiniano apresentado no capítulo XV, são medidas que
atribuímos ao tempo inexistente. Hora falamos dos 500 anos passados, como se possuísse
uma “extensão”, o mesmo ao futuro, mas como é possível tal coisa, se em si mesmo, o tempo
não existe, e para que o passado ou o futuro exercesse uma medida, deveria, esta mesma
medida, estar inserida no presente? Se estiver no futuro, não estará acontecendo (mas virá),
se estiver no passado, já foi (e não será), mas quando o futuro beira e transpassa o presente,
a quantidade de extensão do tempo é ínfima, pois dos 500 anos, apenas o segundo está no
presente. Ou seja, o presente é apenas um estalo, por isso, é quase inconcebível
determinarmos em medidas o tempo, pois dentro dos 500 anos, estou vivendo um instante, e
o restante, é futuro (não existe ainda – potência), e quando o instante passa, cessou-se. Como
é possível que um tempo tenha medida?

“Desse período de cem anos, seja qual for o ano que supomos presente,
todos os que o precederam serão passados, e todos os que estão por vir,
futuros. Portanto, os cem anos não podem estar simultaneamente
presentes. ” (AGOSTINHO, 2007)

Ainda assim, quando refletimos sobre o curso do presente, vamos perceber mais
coisas curiosas, pois passado e futuro, em fatos não nos pertencem, mas o presentem, em
certa medida, podemos concluir diante da interpretação pessoal do texto, que sim.

Quando analisamos, seguindo a lógica acima citada, um período de 10 anos, estamos


vivendo (presente) apenas um destes, e por isso, alguns serão futuros, e outros passados.
Não obstante, se reduzirmos a reflexão, mesmo no ano que estamos no presente, apenas
estamos em um mês deste, e logo, os meses passados e futuros estão inseridos, mas,
contundentemente, neste mês, dias já se foram, e dias irão vir. Finalmente, desfragmentamos
todo o “tempo presente”, onde iremos chegar a uma redução ínfima, do dia para dois setores
(noite e dia), 24h horas, uma hora com 60 minutos, cada minuto com 60 segundo, e ainda
assim, o presente será apenas uma fagulha neste segundo. Por fim, iríamos reduzir tanto, que
o pequeno espaço e lacuna de tempo presente que restaria seria insignificante, inexistente, e
inevitavelmente, o presente não existe: “ Se a tivesse, dividir-se-ia em passado e futuro, mas
o presente não em duração alguma. ” (AGOSTINHO, 2007)
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Desta forma, o querido tempo, que é divido em trino (passado, presente e futuro),
torna-se algo tão breve, que concluímos que nem existência possuí, medida ou duração;
apenas passa. Mas o intrigante é que, ainda assim, sei que está aqui e agora, neste momento,
mesmo que não possa dizer onde nem como, nem aponta-lo, caso contrário, se o fizesse, já
teria passado, e este texto seria (e será), sobre o passado. Tudo aquilo que pode ser medido
no tempo é passado ou futuro, e em si mesmo, perde o sentido, pois quando chega, não é
total (apenas a fração presente), e ainda assim, isto perde a lógica, pois não existe em
extensão.

Mas no mérito de existência, seria inconcebível pensar algo inexistente, portanto, até
mesmo, o passado e o futuro existem em algum aspecto, pois capazes somos de visualizara-
los. Logo, se existem, devem de alguma forma relacionar-se com o presente, pois futuro está
a vir, e passado já foi – assim, existem na memória evocando-as no presente, por meio da
linguagem e das imagens. Uma lembrança do passado se dá no presente, via imaginação e
palavras. Já o futuro se dá, similar, no momento em que premeditamos algo, basicamente,
pelos sinais que se encontram no presente (como contemplar o sol, vê-lo hoje, e premeditar
seu nascimento amanhã). Logo, seria mais lógico afirmar que existem três tempos presentes:
presente do passado (memória), do presente (percepção direta) e do futuro (esperança,
alinhada à predição).

Agora, entrando em outro grande aspecto acerca das reflexões do Tempo e da


Eternidade, necessitamos refletir sobre o movimento e o tempo, até porque, tal conceito irá
ter relevância na ligação que há entre tempo e alma.

No início da reflexão, como foi dito, o tempo se dá no movimento, e medir o movimento


não é medir o tempo por consequência. O movimento evidencia o tempo, mas não são a
mesma coisa, até porque, vimos o tempo como infinitamente fracionável, ligado ao trino
presente, por assim brevemente dizer.

Não podemos escapar que na medição do tempo, estamos usando referenciais. Uma
coisa é longa enquanto se relaciona com outra, por exemplo (capítulo XXVI), uma sílaba é
longa quando comparada com uma sílaba breve, um poema pelos versos, versos pelos pés,
pés pelas sílabas e sílabas longas pelas breves. Mas não obtemos um parâmetro do tempo
pelo tempo em si, e unicamente ele.

Uma voz ressoando, por exemplo, pode ser medida enquanto, em si mesma, possui
duração. Mas, caso essa voz inicie, e não cesse, será impossível de medi-la, pois só se mede
aquilo que tem início e fim. Claramente, esta medida só se dá na memória, pois quando se
compara coisas e sons linguísticos passados, depende-se de resgata-los na memória para

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poder mensura-los; só é possível medi-los quando se iniciaram e acabaram. Desta forma, no
espirito se mede o tempo, já que nele ficam gravados as coisas passadas (de início e fim),
portanto, a capacidade da medição – a impressão presente. Além disso, torna-se claro, pois
podemos pensar (pela memória) um som, sua duração (breve ou longa) sem emitir som algum
- verbal, apenas em silêncio, mas ainda assim, temos como compará-lo e sabermos
precisamente qual sua duração, pois, quem o faz é o espírito.

“É em ti, meu espírito, que meço o tempo. [...]. É em ti, digo, que meço o
tempo. A impressão que em ti gravam as coisas em sua passagem,
perduram ainda depois que os fatos passam. O que eu meço é esta
impressão presente, e não as vibrações que a produziram e se foram. É ela
que meço quando meço o tempo. Portanto, ou essa impressão é o tempo,
ou eu não meço o tempo. ” (AGOSTINHO, 2007)

Também, no espírito encontra-se a chave para entender a medida no futuro, já que em


si (espírito) encontra-se o passado como lembrança e o futuro como espera. Ambos, futuro e
passado, não são longos, mas apenas longa espera e lembrança. Assim como uma canção
(exemplo no capítulo XXVIII), que previamente conhecida, antes de cantar, a espera (futuro)
prevê e vislumbra toda a canção, e na medida que sai verbalmente tal melodia, passa ao
passado (mediante o presente), e retém-se na memória.

E neste patamar é que entra, cronologicamente, a conclusão do livro XI, com o capítulo
intitulado “Deus e o Tempo”, que irá auxiliar a compreensão dos capítulos (do mesmo livro) II
ao XIII, acerca da Creatio ex nihilo e da Eternidade (no capítulo XIV inicia a reflexão – aqui
exprimida – sobre o Tempo).

Sendo assim, quando se pergunta “Como Deus criou o mundo”, “Que fazia antes de
Criar? ” são perguntas que envolvem as reflexões acerca do Tempo.

“Que criatura pode existir que não exija tua existência? Contudo, falaste e o mundo foi feito.
Tua palavra o criou. ” (AGOSTINHO, 2007). A Criação se dá quando, pelo Verbo, Logos, tudo
se gesta (se cria). Isto deve ser claro pois parte da vontade de Deus a criação (capítulo X), e
desta vontade, não surge um “movimento” de criação, pois Deus em si, não move a si mesmo
(pois não está no tempo), e isto pressupõe coisas recíprocas relacionadas ao criador (similar
ao primeiro motor imóvel), já que a força inicial deve mover tudo, mas não mover-se para que
haja a Eternidade em fatos concretos.

A Eternidade relaciona-se com tempo na medida que não tem início nem fim, e o tempo
toma caráter de uma sucessão infinita de momentos, seccionados, instantes, logicamente,

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não simultâneos e entrepostos (alternando-se no futuro e passado). A Eternidade é um eterno
presente duradouro, sem começo ou fim.

Nisto, devemos entender que para que exista o Tempo, deve ter movimento, alma, e
principalmente, pressupõe-se criação (existência), só assim, se fundamenta. A criação de
Deus parte do ex nihilo (do nada), pois em si, este nada revela semelhanças com a
temporalidade, é eternidade divina, a qual só é possível uma criação do nada, já que, caso
contrário, se houvesse algo, uma causa anterior, não seria Deus, que pressupõe-se ser a
causa de tudo. A criação é ex nihilo necessita, assim ser, já que a criação que advém do
criado é temporal, e o criador não é. Por fim, do eterno e do criador, todo o restante torna-se
temporal (que advém dele), e este “criar” inclui o movimento (e logo, o tempo). A criação do
nada é diferente de geração ou fabricação, pois uma (geração) é algo derivado do criador,
fabricação é de algo externo ao criador, já o nada não tem ligação com estas implicações, e
pressupões o homem sendo dependente em totalidade (in toto) do criador, e por isso, das
Ideias do criador surgem as sementes do mundo (razões seminais), que custam tempo (como
toda semente) para chegar à sua natureza, logo, à criação em si.

“Que eles compreendam que não pode existir tempo na ausência da criação,
e deixem de semelhantes falácias.

Que também atentem para o que têm diante de si, para compreender que
tu, antes de todos os tempos, és o Criador eterno de todos os tempos, e que
nenhum tempo te é coeterno, nem criatura alguma, embora algumas
estejam acima dos tempos (Agostinho se refere aqui, aos anjos e demônios).
” (AGOSTINHO, 2007)

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GRAÇA E LIBERDADE

A liberdade, no caráter teológico, assume a forma claríssima de Livre Arbítrio, ou seja,


a capacidade de um indivíduo escolher e fecundar-se mediante aquilo que desejar, e optar
(em uma pergunta mais filosófica) entre virtudes e pecados. Cabe a reflexão acerca do
homem: Tal animal, em certos momentos, até grotescamente, evidentemente escolhendo os
pecados. Desta forma, é claro que deve ser perguntado “Essa liberdade, vontade, que o
homem possuí é um bem ou mal? ”. Se for um mal, como isto pode ter derivado, em si mesmo,
da Divindade, já que ela é o Sumo Bem (Capítulo a seguir explana melhor o aspecto de Bem
e Mal)? Somos, evidentemente, e Agostinho assume tal ponto, de realmente se perguntar se
não seria melhor os homens não disporem de vontade para escolher, assim, não cairiam em
perdição e em pecado.

Desta forma, é um aspecto dual, onde a razão conhece, e a vontade opta por qual
caminho deve-se seguir (seja ele contra a própria razão). Então, deve ser claro que, mediante
interpretação, Agostinho demonstra-se inclinar-se rumo à afirmação de que o Livre Arbítrio é
transcendental ao aspecto corporal do homem, e faz parte da faculdade espiritual, e por
consequente, existente, vivente e que entende. Mas, uma tendência existe no homem para o
mal (ligada a distância e ao pecado original que gesta a queda), e desta forma, o dom da
liberdade se mancha mediante essa tendência (influenciada por desejos e impulsos
equivocados).

Então, a faculdade espiritual permite ao homem, até mesmo em parte corpórea, optar
entre virtude e pecado, ao qual, em verdade, deveria em fatos optar pelo caminho virtuoso,
na medida que segue e entra em harmonia e consonância com Deus. Assim, a tal liberdade
não é má, pois em si foi feita para o bem, mas claro, na existência do bem (como veremos)
pressupõe-se sua distância máxima (mal). Logo, para que o homem obtenha auxilio para
efetuar o bem, deve-se aliar à Graça. Quando um aspecto trino divino (Logos) descende a
terra em forma corpórea, exerce sua faculdade e vontade rumo à bondade de Deus e em
virtude da própria virtude divina (Sumo Bem), recolhe-se e é acolhido, novamente, pela
Trindade, mediante extremo sacrifício proporciona algo fenomenal, que é em si mesmo, a
capacidade dos homens caídos se levantarem rumo a Deus, e por consequência,
pertencerem a ele, até mesmo na parte humana, hora equiparada pela divindade. A Graça é
aquilo que fortalece o homem, manchado pelos inúmeros pecados, e que permite
restabelecer-se. Desta forma, ela (Graça) é aquilo que, unida a liberdade, impulsiona o
homem novamente rumo à Deus.

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BEM E MAL

Quando compreendemos o aspecto temporal que norteia Deus (em relação à


eternidade e a criação), podemos iniciar, de forma mais ampla e clara, a explicação que
Agostinho expõe acerca das propriedades e características de um Deus, por assim dizer.

Quando pensamos em Deus, devemos entender que ele é a razão primeira de tudo e
todos, e por isso, nesta qualidade, Agostinho coloca-o como o “mais alto do mais alto”, e isto
quer dizer que em linhas de existência e bondade, Deus é o ápice (eterno, imutável, intocável,
imodificável, perene, etc.). Ele é o Ser em plenitude que existe, e máxima capacidade de Ser,
pois em si mesmo, dele vertem todas as coisas, mas todas as coisas criadas não são iguais
ao criador, caso contrário, Deus não seria Deu, por excelência. Assim, Deus é o ponto de
referência máxima de Ser e Bondade, pois isto é uma característica do Amor de Deus dentro
da própria criação. Logo, todas as coisas criadas são, abaixo dele, em graus e níveis
diferentes, seres bondosos em ordem.

Tais afirmações podem ser questionadas, na medida que, por exemplo, animais
peçonhentos e venenosos, aparentemente, não são “bons”, mas em verdade, como seres
criados, são, e contribuem para uma certa harmonia da criação, e claro, possuem sua
finalidade dentro da mesma. No entanto, quanto mais uma criatura encontra no “lugar em que
deve estar”, mais essa criatura exerce seu Ser e Bondade, não obstante, mais contribuí para
a ordem e harmonia da criação.

Mais além, a indagação: “Se Deus é a bondade pura, como existe e permite o mal? ”
é absolutamente importante. “Como Deus criaria algo que sabe que é mal? ” Sabemos que
no munda há aquilo que chamamos de maldade (que é o oposto da bondade – uma espécie
de dualidade), então, como é possível que algo que advenha da bondade máxima se torne o
oposto? Em que medida o homem é bom, se sabemos que pode praticar atos maus? O que
é o mal?

Inicialmente, o Mal como identidade pessoal (autônoma) não existe; o mal surge
proporcionalmente em que o indivíduo se afasta da bondade de Deus (Sumo Bem). Desta
forma, ontologicamente e metafisicamente falando, quanto mais distante uma criatura se
encontra de Deus, mais tende a cair no “mal”, por uma simples proporção que surgem pela
própria distância.

Biblicamente, o Mal enquanto fruto e resultado da queda do Éden, alinha-se com o


acima citado, já que a queda e o pecado primordial (orgulho, assim como Lúcifer)
proporcionam uma distância do homem em relação à Deus, e sua expulsão do paraíso, onde
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estava próximo da divindade. Desta forma, o pecado apenas traz a memória o distanciamento
que Agostinho fala, mas em si, o pecado não é o mal, movimenta-o; o pecado vem como
punição e condição, que Deus impôs e imperou sobre os homens, a fim de distancia-los.

Ainda assim, quando falamos dos homens, levamos em conta o Livre Arbítrio, e isto
tem grande peso ético e moral na vida e mundo humano, já que, por vontade própria, o
indivíduo pode escolher seguir o mal, dentro da bondade de deus (que lhe permite). Similar
ao sentido ontológico, essa vontade do homem pode leva-lo à proximidade ou distância de
Deus.

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CONCLUSÃO

Por fim, sufocante, percebemos a infinidade da filosofia de Deus, uma filosofia que
além de racional, exerce caráter filosófico e teológico, moral e ético: transcendental hora ao
entendimento racional do homem, e horas à própria lógica humana, onde mostra a plenitude
e infinidade de Deus.

Tendo em mente os aspectos do tempo, eternidade, criação, liberdade e graça, bem e


mal, Agostinho não busca responder tais pontos para que sejam meramente, e unicamente,
intelectuais e racionais, mas sim, que sejam palpáveis, aplicáveis à vida humana. Seríamos
tolos, e somos, quando pensamos que isso deve remanescer no seio da razão, quando na
verdade, deve gestar-se e fecundar-se na consciência e vida prática de cada indivíduo.

Creio que Agostinho concordaria se eu tomasse a liberdade, ousada, de dizer: Jesus


e Deus não desejam homens racionais, que tenha boas intenções (apenas), mas sim, que
frutifiquem e façam boas obras, até porque, o inferno, com certeza, está cheio de boas
intenções. As obras são o que santificam e solidificam todo o ensinamento, e divinizam,
integrando o homem à harmonia de Deus.

Por isso, além de Tempo, no reino do eterno, é que devemos dedicar nossa atenção.
Analisarmos nossas vidas, o bem e o mal que há nelas, e a capacidade, liberdade e vontade
que há em nós, para modificarmos ela da forma que desejarmos, e que no próprio homem,
mediante o divino, há a capacidade de redenção, no eterno aqui e agora, o presente.

O passado e o futuro não nos pertencem, mas o presente, por mais que breve, pode
ser eterno na medida que o homem conquista ele, mediante uso frequente da vontade e
atenção, para o bem e Deus.

Desta forma, através deste texto, busco deixar claro o posicionamento de Agostinho
perante os ensinamentos cristãos, e sua unificação filosófica e teológica dos mesmos.

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BIBLIOGRAFIA

- AGOSTINHO. Confissões. Digitação: Lucia Maria Csernik. 2007

- MECONI, David V. & STUMP, Eleonore. Agostinho. Tradução: Jaime Clasen. São Paulo:
Ideias e Letras, 2016.

- CARDOSO, Giovani F. Tempo e Eternidade em Santo Agostinho. Vol. 3, nº 1.


Passo Fundo, RS: Unesp, 2010.

- RÊGO, Marlesson C.B. Liberdade e graça em Santo Agostinho. Pernambuco: Universidade


Católica de Pernambuco, 2007.

- OLIVERIA, Marcos de. Liberdade e graça no pensamento de Agostinho. Revista Teológica


Discente da Metodista, 2014.

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