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n.°2 © 2005 re 3 N Roca Tae N Sty Dieccio: Lis anvel de Arai \ ye ‘ COU out A Reforma, O Primeiro Jornal Evangélico Portugués Nos iitimos tr8s decénios do século XIX a imprensa portuense viveu uma época de exiroordindrio dinamismo, registondo-se a edicdo de mois de trés centenas de titu- los vindos o piblico entre 1870 e 1900", especialmen- te semanérios € quinzenérios mas tombém jornais dié- rios, em némero de pelo menos uma dezena no ano de 1875. Entre eles queremos destacar um periédico pouco conhecido, pouco conseriado nos nossos biblio tecas péblicas, mas de extraordindrio significado pora a Vida religiose do regiéo do Porto. Nos comegos de Agosto de 1877 via 0 luz do dia no Porto © nove jornal A Reforma. Folho Evangelica, © pri- imeiro periédico protestonte da cidade e possivalmente do Pais”. Eram seus promotores um padre catslico con- vertido & corrente crisié evangélica, Guilherme Dias da Cunha, e umn missionério metodista inglés que hé poucos ‘anos se instalara na cidade, Robert Howkey Moreton. O. editorial do primeiro nimero dava 0 tom do estilo que Ihe seria caracterisico a€ triste 0 aspecto da nossa sociedade. O ultramon- fanismo comprimido sob © pé possante do anjo da ver- dade dos Evangelhos, hoje mais do que nunca se estor ce e vociera contra o mundo culto que avanca em seu caminho luminoso mas arduo e canstante do progresso, Roma reumathica, nervosa, de may humor, debilita- do, alimentando-se de bullos iritontes, est6 no periodo grave de uma grande enfermidede. (..) Dos abvsos de Roma, tem nascido © maior de todos 08 meles ~ @ perda do f6 raligiosa.»"” Nesios pouces linhas tracam-se alguns dos tépicos essenciais que ao longo da segunda metade do século XX alimentoram e engrossoram a corrente onticlerical, ofastando cada vez mois 0 hierarquia e 0 dogma catéli- co-romanos de grande parte do inteligéncia portuguesa, « fazendo confluir num discurso s€ nae totalmente coin- Cidente pelo menos claramente harménico, as correntes mais rodicais do liberalismo consiitucional, os defensores do espirito republican, adepios de posicées politicos mois extremistas @ uma pequena minorio de crescente visibilidade © peso social que o si prépria se designova como protestanie ou cristé evongélica, novidade absolu- fa no Porto do Regeneracéo®. 60 Anténio Manuel S. P. Silva Arcuivo Histérico do Ire Lusitna Catdica Aposttica Evengélica (Cemurhéo Angicene) comepsiva@hatmailcom © decadentismo fin-de-sidcle que marcou 0 geracéo de 70 assestava baterios, de modo porticular, no degra dogéo moral © dos costumes, que atribuie & influéncia nefasta do cotolicismo pés-trdentino, como Antero de Quental magistrolmente proclamou na sua conferéncia ‘no Casino Lisbonense em 1871, ideias que encontram eco, por exemplo, na expresso de Eca e Ramalho, pelo mesma altura, segundo os quais «os costumes estéo dis- solvides, os consciéncias em debandada, os coracteres corrompidos», fenémenos que néo podiam também det xar de articular com a descrédito da religiéo”. oa? PORTO, QUTWTA FRINA 46 DE AGOSTO UE 187 = AREFORMA === TOUT evaNGeLicA Fig. 1 —Primeiza pégina do jornal A Reforma (1877), © conflto aberto enire o liberalism € o catolicismo extremava-se co longo da centirie. A Igrejo reagira muito mal aos acontecimentos de 1848 © a generalida- de da hierarquia cotélica parecia emular, 6 escale local, © entrincheiramento ideolégico de Pio IK, que de Romo condenava sistematicamenia © com maior énfase sobre 605 paises latinos, qualquer assomo de livre arblio exe- gético ou menor disciplina edlesiéstica, Como recente- mente reconheceu um autor caidlico, «seria estreito 0 caminho dos que quisessem conciliar catolicismo e liber dade na segunda metade de Oitocentos»® ‘A proclamacao do dogmo da Imaculads Concaicéo de Moria pela bula Ineffabils (1854), a condenacéo do itncia e da modemidade pelas oitenta proposicdes do Syllabus errorum (1864) e a definigdo dogmética do infit bilidade papal, no quadro do primeiro conctio do Vaticano (1870), susctaram reacgbes de surpresa e indignacéo quer nos meiosintelectuais, quer entre muitos eclesidsticos mais esclarecides No caso portugues, serve de insuspeito exemplo dos primeiros a posigéo de Alexondre Herculano, em reaccio @ proibicGo das Conferéncias do Casino: «As novidedes religiosos vem perturbar as conscincios, e o marianismo & © infolibilsmo quosi levam © crisfionismo de vencida na igreja catdlicax”. A distingtio entre cristianismo e catolicis- ‘mo, bem sublinhade por Antero na sua conferéncia toma-se assim um dos pilares do debate ideolégico e reli gioso, fazendo mais uma ver convergir a sensibilidade liberal herdeira das tradicées mais revolucionérias © © crescente e influente grupo republicano, para os quais o reforma politica e social que ansiavam carecia de um espi- ‘ito relgioso livre, esclarecido ¢ lberio da opresséo roma- na, € 0s promotores das novas correntes do crisianismo evangélco, que ofereciam precisamente umo relacdo com Deus ssente na simplicidade evangélica e menos medio- da pelo padre € pelo ritual, o livre exome das Escrituras, « promago dos pobres e oprimidos através do educocéo € © avto-governo das estruturos religiosas, estabelecidas prioritariamente numa base nacional A oitude dos segundos 6 ilustrode pela deciséo radical de muitos socerdotes que ebandonaram o Igrejo Caiélica, tendo dedo origem ao movimento velho-caté- lico europeu. No nosso pats, 6 interessante © percurse do bispo viseense D. Aniénio Alves Martins, enquonto que muitos dos padres egressos viriam a aderir ds novas con- fiss6es evangélicos, coniribuindo para a fundagée do Ioreia Lusitana Cotélica Apostélica Evangélica (1880) ‘A emergéncia destas correntes cristas em Portugol presenta diferentes ritmos e configuragées ao longo do século XIK, designadamente em Lisboo, na Madeira e no Porto. Resumindo esta breve panorémice & regiéo por- fuense, importa destacar, em tragos necessoria mente muito lorgos, © contexto religioso que proporcionou ‘aporecimento do jornal A Reforma, © protestantismo em Gaia e no Porto. Com excepgio de clgumas experiéncias anteriores, mois isoladas ¢ individucis, deve-se o James Cassels (1844 1923) © primeiro irabalho com carécter sistemético © demonsirando estratégia e visto de crescimento no quodro de uma nova sensibildade e préticereligiose crsté. James, ou Diogo Cossels era entéo um jovem industrial estobeleci- oem Vile Nova de Gaia, nascido no Porto no seio de uma familia inglesa dedicode aos negécios e que frequentova a copela onglicana de St. James, no Porto. A portr de 1866, Diogo (como passou a ser tratado em Portugal realiza em sua casa reunides para as quais convidava amigos e viz nihos e onde se foziam leituras biblicas, oracées @ entoavam hinos eligiosos, crescendo sobremaneira a assisténcia Numa dessos ocasides esteve presente um ex-sacerdote catélico espanhol convertido oo anglicanismo, Angel Hereros de Mora", que celebrou o Eucoristia, acto que deu origem @ que Cassels fosse detido © acusado pelos outoridades, por crime de proseltsmo e desrespeito & rel- gio do Estado, no quadro das disposic6es da. Carta Constitucional e do Cédigo Penal. Julgado e condenado a deportacto, foi esta pena anulada em recurso para a RelacGo, tendo defendido Cassels um dos mais prestigiados causidicos do cidade, o republicano Alexandre Braga. Em 1868, Cassels inauguro no lugar do Torne pri- rmeiro templo edificado de raiz em Portugal destinado ao culto evangélico de portugueses, a que anexa uma escola elementar. Nos anos subsequentes amplia-se extraordina- fiamenie o irabolho € implantocéo social da Escola do Tome € @ influéncia do nova comunidade evangélica, que se oproxima des correntes metodistas “®, Como Diogo Cassels, que era leigo, precisosse do colaboracto de um ministo ordenado para prosseguir o seu trabelho evange- listico, solicitou © apoio de diversas igrejas ¢ sociedades eshangeiras do ramo metodiso, tondo sido em resposta a este pedido que em 1871 0 Sociedade Missionéria Wesleyana, de Londres, enviou para Portugal o Rev. Robert Moreton, de quem se troforé a seguir Durante a décade de 1870 o capela do Tome esta ligado 6 lgreja Metodisto, mas ‘em 1880 Cassels ¢ « sua comunidade filiam-se na recém= criads Igrejo Lusitana ". Figura cimeito do. movimento ‘evangélico do Norte do Pois, Diogo Cossels liderov nume- £0505 inciatvas educativas e assistenciais, diigindo ene 1894 © 1923 o jomol Egreja Lusitano o sendo autor de A Reforma em Fortugal, a primeira obra Fisloriogrético sobre ‘© movimento evangélico em Portugal’. Robert Hawkey Moreton (1844-1917) nasceu em Buenos Ares, de pois ingleses. Em Inglaterra estudou medi= «ino, que obandonou pora se dedicar a0 ministrio metodis- fa, Em 1871 6 enviado.como missionério pora Portugal, brindo diversos locais de pregagéo e passando 0 superin- tender a0 irabolho de Cossels em Goia. A circunsiéncia de folar castelhano, por ter nascido na Argentina, ter foci do 0 sua aprendizagem do portugués, como reconhecem festemunhos coevos, Em 187 Moreton incugura a prime- 10 capelo protestante do Porto, @ Igrejo Metodisto. do Mironte, no Proga do Coronal Pacheco. De ai em dianie, 6 Moreion organiza a Igreja Evongélica Metodista em Portugal, de que foi superintendenle alé & sua morte, em 1917. Hindlogo de reconhecido mésito, ¢ autor de nume- rosas composig6es, tendo introduzido em Portugal o méto- do do solfejo Winico. Assinou muitos textos douitinais & apologéticos, publicados quer no Reforma quer noutros periédicos, sendo também tradutor de diversas obros, como © Convento desmascorado ou Revelacées de Edith O'Gorman, exfieira do Convento de Santa Izabel, em Madison, Nova Jersey (Porto, 2° ed., 1887) © O Padre, 0 ‘Mulher @ 0 Confessionério, do Pe. Chiniquy (Porto, 1887). Séo estes dois homens, as grandes releréncios do protestantismo portuense no década de 1870, que aco- them Guilherme Dies. Certos projectos jornalisticos, de longa duracdo, impoem-se pelo contedido e impacto social deixam em segundo plano as figuras dos seus promotores ou redactares. A Reforma, pelo contrério, independentemente do alcance que terd atingido, foi, do nosso ponto de vista, o jornal e © projecto maior de um homem, « sua fribuna mais permanente, 0 espaco privi- legicdo de um espitito criador e combativo. Justfique-se ‘ssim 0 excurso biogréfico que se segue. © padre Guilherme Dias Guilherme Dias da Cunho (1844-1907) nasceu em Meséo Frio. Ordenado sacerdote catdlico pariv pora © Brasil em 1868, fixando-se em Pelotas (Rio Grande do Sul), onde foi péroco durante trés anos. Suspenso pelo bispo da diocese por difundirideias liberais e por ~ no testemunho do préprio Guilherme Dias — estar filiad na Magonaria', enceia uma polémica jomalisica com o prelado, do que resulia a obra Echos de Roma. Em finais de 1873 regresso « Portugal, afectado por um problema de sate, reunindo- se @ fomiia na suo terra natel, e lago coordenou uma comissto que fez inaugurer em Fevereiro de 1874, apés os dovidas reparagées, © primero teatro de Mes6o Frio, ondo do sequide a Sociedade Philodramdtica mesdofriense levou @ cena um drama de Camilo Castelo Bronco Algum tempo depois vem para 0 Porto, onde um amigo comum 0 apresenta a Diogo Cossels. Aproximo- -s€ endo da comunidade metodisia que Cassels e Robert Moreton cnimavam em Vila Nova de Gaia ¢ no Port. Dotam de meados de 1875 os primeiras referéncios de Moreion, em corespondéncios poro 0 Sociedade Metodista Wesleyana, de Londres, 00 contacto com este ssocerdote de 31 anos de idade, conhecido pregador © autor de distingéo»™, € logo em Dezembro desse mesmo «ano Dias faz profissdo de fé na igraja do Torne™ e come- ¢0.0 trabalhar com Cassels e Moreton!” Em meados de 62 1876 Moreton anuncia noutra carla & mesma sociedade « intencdo de publicar «um semanério sob 0 direcgdo do Se. Dias, 0 ex-sacerdote, para a defesa e propagactio do Verdade evangélico»! e em Marco de 1877 cabe 0 Guilherme Dias (como normalmente ossinava) a distin- ge de pregor 0 serméo inaugural na Capela do Mirante, texto que de imediato saiy do prelo e alcangou ossinalével popularidade®”. Fig, 2 - Desenho & pene do Padre Guilherme Dies, de um dos sous livres Nos anos seguintes, os dotes oratérios @ a pena cer- teira € fluente de Guilherme Dias granjeiam-lhe crescente prestigio e influ€ncia, quer nos meios protestanies, quer 10s citculos politicos liberais. © seu ministéio, em colabo- ragéo com Moreton ¢ Cassels, exerce-se na Capela do Tome, na do Mirante © em diversas missées @ locais de culto entrotanto estabolecidos, quer em Vila Nova de Gaia (Morco, Cendal), quer no Porto (Bom Sucesso, Rua das Malmerendas, Mossarelos) e em Matosinhos. As divergéncios doutrinas ¢ littrgicas enlrelanto sur- gidas enire Cassels ¢ Moreion deixom Guilherme Dias numa posic6o dificil, dvidido na amizade e respeito que o ligovo @ ambos. A fundagéo da lgreja Lusitona, em 1880, precipito @ seporacéo. Em Junho desse ano, Cassels © 0 sua congregacie deixam a Igreja Matodista pare flor se na Lusitona, enquonto Guilherme Dias se mantém fiel @ Moreton na disciplina eclesidstica, se bem que prosseguin- do a sua colaboragdo com Diogo Cassels no Tome. O extremor de posicées, que néo interessa 00 escopo deste texto, evoria por fim Guilherme Dios da Cunha, aos inicios de 1882, a aderir também a Igreja Lusitano. Em Abril de 1883, Guilherme Dias prego sermao inougural no Capela Lusitona do Redenior (Rua Visconde de Bobeda, « S. Lézaro)™, comunidde que estabelace- 11.@ partir do grupo metodisto das Malmerendas, onde enido residia, dando assim corpo ~ com o indispens6vel apoio financeiro de Cassels, que adquiriv 0 terreno finonciou @ consirugae ~ a0 velho ensejo de abrie um tro- balho evengélico no parte oriental da cidade. Como ministro dessa congregaséo, o PP. Guilherme Dias afin- giv gronde notoriedade, designadamente pela sua erudi- 80 @ exceléncia homilética. Varios registos indicam que pregava por vezes a assisténcias de centenas de pessoas, enchendo-se © templo de ouvintes enquanto na exterior grvp0 idéntico aguardava o réplica do sermoo ® Problemas de natureze pessoal, segundo algumas fontes relacionados com 0 cardcler da esposo, que terd endivi dado Guilherme Dias junio de diversos mombros do comunidade, fornaram complexa a sua posigdo como pastor da igreia do Redentor. Os regislos oficiais do lgreja Lusitona, designadamente os actos da Comissao Permonente e do Sinodo, s6o lacénicas sobre assunto, mencionando openos o acta de uma sesséo da Comisséo Permanente, em Setembro de 1892, xcertos cecusagbes contra 0 Rev. Guilherme Dias» @ uma carta de resignacao da parte deste, sendo de imediato decidida & suspansao da suo actividades **. Confirmadas estas acu- sacées por uma comiss0 expressamento enviada oo Porlo, © Sinodo Diocesono reunido om Dazembro sequintelimitou-se o aprovar a resignogdo de Guilherme Dias, sem ovtros comentérios™. Fig. 3 ~ Uma imagem antiga da igreja do Redentor (Porto, de que Guilhorme Dies fei péreco, entre 1883 © 1892. Feto: Acwve histico de Poréqui Lustona de 5. odo Evorgeliia (V. N. Goto} Interrompide desta forma triste 0 trabalho de Guilherme Dies do Cunha como presbitero do Igrejo Lusitona, vérios autores mencionam a sua partida defini- tive para o Brasil neste ano de 1892, questéo signficoti- ve porque no mesma dota assinalam (erroneomente, como se verd) 0 final do publicagéo do Reforma. Na ver- dade, por esso altura, ou até anies, terdo ido paro aque le pois os seus seis filhos (e porventura a esposa), uma vez que em nota prévia ao seu optsculo Artigas, Discursos © Conferéncios, datada de Joneiro de 1893, coferoce 0 obra aos filhos, que af residiam, indicando que publicava este insignificente © descolorido trabalho, para eu mesmo 0 ir levor ao Brazil», Na reclidade, néo 36 nesse ono de 1892 ndo se deslocou ao Brosil como teré permanecido em Portugal durante mais olguns anos. No verso de A Reforma em Portugal publicada ini- cialmente em fosciculos hé uma referéncia o Guilherme Dies, em Abril de 1898, de notéria actualidade. Cassels descreve em iracos gerais 0 percutso do amigo até & resig- nagéo das responsobilidedes pastorais na Igreja do Redenior (1892) ccrescenta: we desde entéo tem-se entregado a0 trabalho litterario, vsitando todos os annos ‘© Brazil, conde tom feito conferencios, ¢ prégado em diver- s0s Egreios Evangélicass"”. Curiosamente, no edicd0 pos- terior em livro (1906) este trecho ficou quase igual, com pormenor da mencéo as visitos 00 Brasil (télico) surgi ‘agora como esidindo no Brozih"™. Foderé assim datar-se enire 1898 e 1899, como bem observa F Peixoto”, a definitive partida de Guilherme Dias para 0 Brasil, onde merre em 13 de Janeiro de 1907 Para olém dos texlos que assinou nA Reforma, Guilherme Dies publicou vérics obras opologéticos e de cr- fica a doutrines romanas, que alcongorom ossinalével sucesso, levando décados depois um biégrafo « comentor sobre os seus trobalhos: elivro que escrevesse ou troduzisse cero edi¢éo fotolmente vendida, © em pouco tempo.» No Brosil, antes do seu regresso a Porlugal e oproximacéo ao protesiantismo publicou Echos de Roma (Rio de Janeiro, 1873). Posteiormente,soiriam dos prelos Serdo recitado por occasiéo do inaugurocéo da abertura da Capello Evangelica Methodisto Portuense... Porto, 187), Serméo {que no inaugurogéo do Capella Evangelica Lusitana, do Ruo do Visconde do Bobedo no Cidade do Porto, recitou. (Porto, 1883), Vozes da historia. Continuacéo dos Echos de Roma (Perio, 1885) Pergunias © Respostas ~ O que & 0 Missa (Porto, 1868)", O que & a Confisséo Auticular e 0 que so os Indulgéncios. Conferéncics... (Porto, 1889}, Atigos, Discursos e Conferéncias (Porlo, 1893). Salienta-se cinda a Resposta que 6 Instrucdo Pastoral do Ex.” Bispo do Porto, 0. Américo dé 0 Padre Guilherme Dios (Porto, 1878) que motivou respastas inflamadas de autores catsli- cos, como 6 do conhecido polemista P*, Sena Freitas ™. Tredvsiv oinda diversos obras cléssicas de polémica protes- fante, como Innovagées, do Romanismo, de C. Hostings Collette (Lisboa, 2° ed., 1886) © prefaciou e onotou A Confissc: ensoio dogmético-histérico, de L. de Scncts (Uisboo, 1880), © posicionamento politico de Guilherme Dias foi objecto de diversos comentérios, até por néo ser comum (0 ministros evangélicos assumirem opinides marcado- mente polices ou até poridérias. Numa carta para 63 Inglaterra, de Abril de 1880, Moreton narra um dos ser- vigos religiosos da Semana Santa realizados na igreia do Tore por Guilherme Dias, observando com admiracdo ue cleve enire os seus ouvinies o Presidente da Camara, © Regedor, o Administrador € 0 Juiz de Direito», para de imedioto justficar, entre crtico e condescendente: wembo- 10 seja justo acrescentar que eles pertencem ao portide do Governo que o St. Dias, como liberal, opéion'™'. Como nessa altura © Conselho era presidide por Anselmo José Broamcamp, Dias esiaria assim no érea politica do Partido Progressista, que aliés, pela mesma époco, o terd convidado 0 candidatorse 6 Cémaro de Deputados, quesido sobre a qual o socerdote consullou um respeita- do pastor metodista, o Rev. William Rule, que de pronto 0 desaconselhou desse infuito, um vez que o disciplina daquela igreja proibe « acumulacéo de cargos politicos com © ministério ordenado ®. Como 6 expressémos, porém, cremos que a sensibilidade politica de Guilherme Dias weré evoluido de um liberalismo de pendor progres- sista para uma crescente descrenca no rotatvismo liberal e ‘lguma oproximacdo, mesmo, do idedrio republicano»™, no sendo despiciendo notor que no mesmo ano de 1880, quando o republicane Rodrigues de Freitas levou 0 Parlamento uma queixa de minisros evangélicos a propésito das dificuldades fidas com os enferramentos de protestantes nos cemitérios piblicos, © padre Guilherme Dios fosse © primeiro dos subscrtores ™" Feita esta introdugdo de enquadramento, porventu- 10 algo extensa, regressemos pois co nosso jornal A Reforma, jornal evangélico ‘A publicagio apresentou-se com periodicidade quin- zenal e openas quairo paginas, que duplicaria a partir do segundo ano de edicio. Guilherme Dias assumiu principal protagonismo como redactor {hoje dirse- propriedade, director), enquanto que aR. Moreton, para clém de frequente colaboragéo com textos origincis e tra dugées, ficavam confiadas as iarefas de edminisiracéo. com mois Desta moneira, a redacgao © adminisiracéo variaram de ocordo cam os locais de residéncia ou acividade dos res- ponséveis, indicondo-se o Ruc de General Torres, n.° 407, em Vila Nova de Gaia {residéncia temporério de Guilherme Dios) e, no Porto, o Ruc da Boavisio, n.° 497, «© Ruo dos Eirinhas, n.° 111, 0 Lorgo do Coronel Pacheco (capela metodista do Mirante), etc. Curiosamente, foram também diversos os cosas impressoras do jomal, mencio- rnadas apenas nas edicdes dos primeiros anos, verficando. s2 que entre 1877 1879 A Reforma saiu sucessivamente des preios do velha Tipogratia de D. Antonio Moldes 6 Silva (Largo de S. Jodo Novo, 6), da Tipogratia de Viva Bondeir (Teipos, 85), da de Fraga Lamares & C.° Rua de S. Jodo Novo, 12) ¢ por fim, durante basiante tempo, do Tipografia Occidental (Rua da Fébrico, 66}, 0 que tal- ver possa interpretor-se pela busco dos precos mais bai- x08 para a impresséo do jor, Fig, 4 — A igtejo do Tome, om Vila Nova de Goia, onde Diogo CCortale ccalhev Guilarme Dios. Fote de fincis do saculo XD. Arve histsico da Por6quo lustona de 5. Jodo Exengeiso VN. Gaia), Aliés, durante © primeiro ono de publicagio, A Reforma s6 pide circulor «porticulormentes, uma ver que «lei impunho que figurosse 0 nome do redactor para cir culagio publica e disso estavam impedidos quer Robert Moreton, por ser estrangeiro, quer Guilherme Dios, priva- do dos s0us direitos civs por fer publicamente ebjurado 0 sacerdécio romano e aderido ao protestantismo!™, Foi por iss0 com alegria que em Abril de 1878 Morelon anunciou € Sociedade Mefodisio que Guilherme Dias recuperara os seus direitos, na sequéncia de um apelo ao govemodor Gxvil, € @ Reforma «inha sido legalizada pora ser vendida ros ras», Desde essa dato, com efeito, Guilherme Dios do Cunho aparece mencionado no jamal como «Editor Responséivelo Do ponto de vista econémico terd sido sempre frégil e certamente deficitéria a vida d’A Reforma. Vendida por pproco médico ~ era outro dos jomois de dez réis' ~ publicacéo ossentowa a sua distibuicdo nas assinaturas, ora além dos exemplares vendidos nas igreias e escolos evangélicos ou através de.contactos pessoais. Diversas indi- cagées revelom-nos as dificuldades financeiras do jomal Apesar do pedido de custio apresentado por R. Moreton & Sociedade Metodista Wesleyana em Junho de 1876‘, mais de um ano antes do inicio da publicag6o, néo ha not cia de que oquela sociedade tenha financiado © project. Néo obstonte o curiosidade suscitada pelo novo periédica durante os primeiros cnos @ 6 animador aumento de vendos registado nos comrespondéncias de Moreton pora Inglaterra, em meados de 1880 0 missionério tem de ‘odiantor dinheiro para pagar as despesas e em Agosto encaroy-se a possibilidade de interromper o publicacéo, © que nd {oi feito vem resposta © muitos pedidass ‘A publicidade, fonte de receito primordial da moia- ‘io dos jorncis de 6poca, era um recurso esporédico © de pouco provento, dada © natureza do quinzenério e dos eventuais anunciantes. Nos primeiros anos, a seccdo de Annuncios, na dltima pégina, publiciteve apenas os livros de Guilherme Dias, os horérios de servicos religiosos, conferéncias e outros actos reslizados nas igrejas, ¢ 0 catélogo das publicagées do Deposito de troctados tivros das Janelas Verdes, Lisboa. Em Maio de 1879, por fim, registam-se os primeiros andncios néo insttucionais, por assim dizer, publicitando-se a Agua Florida de Murray & Lonman, descrita como ragéncia inextinguivebs e «per- fume sem rivaby para o lenco, © toucador ¢ 0 banho, esséncia de qual era agente James Cassels & C.°, @ os oporeniemente populares Pilulas Cotharticas do Dr. Ayer, recomendadas para priséo de ventre, reumotismo ovtras maleites, de que ndo estranhariamos fosse repre- senfonie @ mesmo firma. Tedavia, esta publicidade comercial cessaria alguns anos depois, porventura por ter sido considerada pouco adequade ou proveitosa Néo dispomos de qualquer informacéo sobre os tra gens do jomal e sdo escossos os dados acerce da sua cir culogdo. Em finais de 1879 uma informacéo de &. Moreton dé conta do aumento de vendas de Reforma de que tinham sido vendidos 150 exemplares no Brasil; no ano sequinte, outra noia indica 0 envio do jornel para © Biblioteca Municipal de Elvas, a pedido do presidente do Camaro locol, e a remessa de outro exemplor & Sociedade Dramética Literdria de Angra do Herofsmo"™ (© ambito cronolégico deste publicacéo néo & segu- +0, por falta de coleccées completes, podendo distinguir- Enire 2 de Agosto de 1877 © 20 de Marco de 1884 publicou-se © quinzendrio, com aparenie reguloridade, ostentando 0 subtitulo Folha Evangélico, correspondendo (6 uma série que Edvard Moreira designou como «ecumé- rico», por nela colabororem emetodistas, presbilerianos e episcopalionos» ", mas que podemos interpretar com rnoturalidode, sem recorrer @ enacronismos, como prépria de um contexte evangélico muito minoritério e de com: preensivel iransversolidade, se bem que em breve se fizes- sem sentir as ofirmiagies e dissensoes de roiz confessional A port do nimero seguinte (15 de Abril de 1884), A Reforma aparece com 0 designativo do titulo como cho da Egreja Luzitona, traduzindo © percurto pessoal do P®. Guilherme Dies, que em inicios de 1882 deixara « Igrejo Metodisto para ederir & Igreje Lusitana. Pouco tempo depois Guilherme Dios figura no cobecalho como proprietério e redactor principal, cessanda a responsabi- lidade de Robert Moreton, cuja colaboracéo no joral 6 desde entdo esporddico. 10 DB NOVEMBRO DE 1383 ‘AO 4° CRNTENARIO DE LUTHERO i “ Fig, 5 ~ Um exemplar da Reforma (1883) evocando © centenério de Martinho Lutero Néo é de todo claro, nesta segundo série como érgdo doguela lareia, ot€ que ponio esso representotividade, mesmo oficiosa, decorria apenas da iniciativa de Dias, ou era efectivamenie aceite e ossumida pelas avtoridodes lusitonas, « quem @ dinémica intelectual, « pulséo para a polémica, independéncio de espirito © consequente impre: visibiidade do ex-sacerdote romano tonto elevavam em consideracéo, como pareciom distanciar por um incons: Gente instinto de defesa. Na verdade, o laconismo dos fonies ofciis da lgraja Lusitano, designadamente as Actos do Sinodo'™” e de Comisséc Permanente, néo sugerem prticular entusiosmo pelo facto de uma igrejo to recen: femenie constituida poder conlar com uma publicagéo ppora veicular © seu nome, mensagem ¢ intencdo. No rev: niéo do Comissio Permanente de 27.01.1885, um leigo, José Gregorio Baudouin, propos «que se offciasse cos rminisiros para que eles, na egreja, fallossem sobre a rnecessidade de se ongariar ossignaturas pora © periodico ‘A Reformos, proposta que foi unanimemente aprovada Na sesso do Sinodo Diocesano celebrado em lisboa o 16.05.1889, Guilherme Dias propés, por sua ver, «que 65 fosse publicado na Reforma o extracto de acta das sess6es do Synodo» ¢ «que no mesmo periodico fossem publicados ‘quaesquer noticias de interesse geral, referentes és congre- gabes da nosso egreian™, © que foi cumpride pelo jor- nal. Curiosamente, s6 em 10.10.1892, quando o ruptura de Guilherme Dias com a Igreja Lusitano, criou uma sitva- Go algo emboragasa, a Comissio Permanente teceu «vérias consideragées acerca da Reforma, sobre se deverio ou no continuar a ser orgéo da Egroja Lusitana depois dos aconiecimenios com o seu redacior ¢ proprietario, resolvendo-se proceder como fosse de justican Estes acontecimentos pessoois, que os registos pouco iluminam e também em pouco interessam oo nosso pre- sente propésito, marcam sem divida o encerramento da segunda série do Reforma (que desde o ano de 1886 parecia como semanéirio), enquanto Echo da Egrejo Luzitana. No verdade a historiografia protestante ossinale 1892 como 0 limo ano de publicagée da Reformo, coincidindo, nos mesmos AA.", com a suposte porte de Guilherme Dias do Cunha para © Brasil, bom como, aliés, com 0 inicio da publicacéo, em Lisboa, do quinze- nério © Evangelista, este mais pociticomente assumido como 6rgae oficial da Igreja Lusitana. Como iremos ver, no 36 A Reforma se publicou durante diversos anos apés 1892, como Guilherme Dias néo foi nesse ono, pelo menos definitivamente, para as Terras de Santa Cru. © problema & ainda mais intrincado por néo se conhecer qualaver exemplar d’A Reforma posterior a 28.12.1889". Em meados desse ano, prometendo res- ponder @ letra a uma obra de Silo Ramos, lente de Teologio na Universidade de Coimbra™, feita em reaccéo 20 seu optisculo © que é a Misso, Guilherme Dios anun- Cio ¢ reabertura da polémica para ede janeiro em deante, fem ave o Reforma vai ter uma feicdo mais popular, pore mois focilmente se vulgorisara™, sugerindo uma remode- lace do jomal. Por esses femipos, na verdode, a publica- G0 do jomnal ocuso uma certo irregularidade: editou-se semonalmente alé ao n? 35, de 2 de Setembro, interrom= pendo-se depois para scir 0 n° 36 com dato de 7 de Dezembro, No final de 89, em justificaéo desta dificulde- de @ para acerto de contos com os assinantes, Guilherme Dias reconhece que epor mais esforcos que empregasse- ‘mos, ndo nos foi possivel, desde moi para cé, regulorisor «© publicagic da Reforma», vollando o anunciarolteracées: «do proximo anno em deante, regularisede © publicagéo da Reforma que apporeceré completamente transformada na parte materiel e liferaria, esperamos que os nossos ssignantes € © publico confinuardo « favorecer-nos» ™. Apesar desta intengio téo marcoda de reestruturagio, ossociodo ds evidentes dficuldades (seguramente também de ordem financeite} por que passavom Dias ¢ a Reformo, 66 10s poderem fazer suspeitor da electiva continuidade da publicagdo, bastaria a acima citade referéncia da Comisstio de Permanente sobre o joral, em Outubro de 1892, como indicador de que o jornal chegou até este ano. Mas também Diogo Cassels transcreve no seu jor- nol Egrejo Lusitana, a propésito do escéndolo Sara de Matos ®', noticias da Reforma datados de 15 e 24 de Agosto de 1891 ‘Mas néo sé! Como F. Peixoto muito bem notou®”, A Reforma prosseguiv ainda por mais alguns anos, se bem ave desse periodo 36 reconhecamos hoje referéncios indirectas @ relotivamente vagas. Em 15.01.1894 O Evangelista acusa 0 recepcdo (a visto, como eniéo se dizio} «do periodico semonal A Reforma, que novarnente se publico no Porto e de que continéa sendo director e pro- prietario 0 nosso antigo collega e velho amigo, 0 ex." sr. Guilherme Dios. A Reforma, que foi «Orgéo da Verdade Evangelica em Portugals e que ha cerca d’um anno havia suspendido 0 suo publicacio, declara-se independents; e, fomando uma feigéo diferente da que teve, propée-se ‘edvogar © politica democratice, continuando @ pugnor fombem pelos principios evangélicos»™, Porece depreen- derse desta noto, que © jomal de Dies, que obviomente perdera os subtitulos onteriores, ganhara tolvez nesta ter- ceira série um carticter mais politico e informativo, em des- fovor da opologética ou polémico doutrinal sa Fig, 6 - 0 que é @ Misso (1888) vondou cerca de 10 000 exem- plares em poucos meses Nos anos subsequentes & iravés de transcrigées referéncios do jornal Egreja Lusitana, de que era redac- tor Diogo Cassels, velho amigo de Guilherme Dios, ‘que nos apercebemos da sobrevivancia da Refarma. Em Outubro de 1894, 0 Egreja Lusitana tronscreve um texto dda Reforma de 6.10.1894™, ¢ em Abril de 1895 outro texto, sem data de publicagdo inicial™'. Em Moio desse mesmo ano, @ propésito da noticia do matriménio do Rey. Joaquim dos Santos Figueiredo, Cossels menciona Guilherme Dias, «redactor da Reformas, ¢ novos textos so transcritos em Julho de 1896!" e Junho de 1897", sem mengtio da data da publicagto original, mas perten- cendo, com toda ¢ evidéncia, « edigées recentes do jor- nal de Dios. A notureza dos textos colectados na Reforma 6 de temético anti-clericol (0 caso das Trinas, um artigo sobre 03 conventos, etc.) ou de informagao e cultura geral («Anathomia», «Nos Alpes: recordacées de vio- gem»), Parece assim encerrar-se esta terceira série do jor nial em 1897 ov 1898, Por fim, em Junho de 1899, O Evangelista recolhe do Estondarte Christéo, importante periédico episcopal brasileiro, esta surpreendente noticia: «demos presente A Reforma, hebdomadario que se publica em Rio Novo, Estodo de Minas Geraes, sob o direcgo do sr Guilherme Dias», prosseguindo com uma apreseniacéo elogiosa de Dios, Poderé considerarse esta a 4.° & iilfima série ~ concorde no titulo € director mas bem dis- tinia no local de edicéo e por certo nos conteddos ~ do 19380 pequeno jornal protestonte? Fig. 7 ~ No grea do Micante (Porto), fundade por Robert Moreton, Gailerme Dias progou o serméo de incuguracée da cepela (1877), Agnes histrice da parti istona de. Jodo Evargetaa (VN. Goio} Um jornal anti-clerical ‘Ném de insirumento de douirinacao religiosa e evan- gelzocéo, A Reforma assumiu-se como um periédico de combote a0 ulramontonismo papal, ao clericalismo ¢, de forma particular, cos jesutas, © principal alo do joral TFotados usualmente como eabutres, eroupetos, eescor pides venenososs ¢ outros mimos, os padres da Companhia 560 acusados de subveriero sociedade pelo ensino, corrom per a familia pelo confessionério ¢ abalor os Estados palo uramontanismo. D&mos como exemplo a soguinte nota, iocoso, d°A Reforma em 18 de Setembro de 1879: éReceita poro fozer um jesuita, Pego-se em uma retorta grande do tamanho de um confessionério, apro xima-se-Ihe um rapaz que néo seja dos mais pecos, & depois de possar por certos preparacées, fransporte-se 0 um grande laboratério, como 6 Institute de Santo Inécio, por exemplo; ministrem-se-lhe os preparados precisos {que tonhom a propriedade de Ihe fazer perder o amor & familia © & patria: isto feito, mando-se para paises distan: tes, onde receba certs instrucées, que por serem secre- tos, néo as conhecemos, ¢ fico um jesutte perfeitamente ‘acabado e pronto pora trabalhar na desu lias e do sociedaden Contra os jesuitas acicata-se a imprensa, que vem ver de ocupar-se de assuntos que pouco ou nada interes som, devio de preferéncio assestar as suas baterios con- fro esse inimigo comum que ameaga invadir tudo € per- turbar a sociedade doméstica ¢ civil". Igualmente, cr ficam-se asperamente 0s governos por néo respeitarem ‘5 leis anti-congreganistas de Pombal e Aguiar: «Os governos chamados hipocritamente liberais(..) no s6 tém deixado desenvolverem-se @ enroizarem-se ‘3 elementos reaccionérios [refere-se aos jesuttas] que infestam © nosso pois como uma calomidade desvasta- dora, mas tem-lhe dispensado até uma proteccéo crimi- nosa, ofrontosa das leis e atentotéria dos principios ibe- rois por que se regem as sociedades modernass"” A critica & confissdo auricular, ao celibato eclesist 0, & douirina do purgatério, cos dogmas da Imaculado Conceigéo ou da infalitilidede popol suscitoram muitos ve2es reaccées indignades da imprensa cotdlica. Em 1878, como 0 Propaganda Cotholica ameacasse Dias com a excomunhéo, este responde: «O trabuco que Roma outr'ore opontava aos peitos da humanidade, cohio hoje em dia no ridiculo, € quando por accos0, no excesso do seu amor evangelico, © engaiihe, ndio dé fégo, A excom murhéo néo é nada mais hoje em dia, do que um troste inulil, de construgio esquipatica, incommodo, coberto de 6, na sala de espera do Vaticanon™ 10 das fami 6 AAs virludes curativas da Agua de Lourdes, propagan- deados na imprensa catélica, eram ridiculorizadas o cada passo. Em 1878, noticia o jomal de Dios e Moreton que «A Nogéo, este principal orgéo do ulramontonisme reste pair disse (..) que ¢ milagrosa agua de Lourdes fer follar alguns cnimoes que ullimomente a beberam™”, 0 noua noto, intitulade «Hera de Lourdes» reproduz de um periédico que er’uma das capellas proximas do rela bulo do Senhora, lé-se este aviso benevolente: Bebei da gua que corte da gruta, e comei a herva que perto d'el- la cresce»™, podendo adivinhar-se 0 comentério que se segue. Em 1880, transcrevendo noticia do Democrocia, © jomal cita a recomendagdo dos jesuitas franceses de regor os vinhas com égua de Lourdes para comboter a praga de filoxera”, adoptondo a Reforma @ mesma recomendacto, mas em sentido inverso, anos mois tarde, 0 propésito de ondncio d’A Polova segundo quol o conde de Samodées, figura groda dos meios caté- licos, tinha pera venda gorrafas de Agua de Lourdes: sPorece incrivel que um homem illusirado, como incontestavelmente 0 é snr. conde de Somodées, quei- 1 juntor 6 grom-cruz de ordem de Pio IX, com que acoba de ser agraciodo, a chapa de aguadeiro de Lourdes! Mande suo e”, que é actualmente o presidente da cam mmiss6o philoxerica, regar as vinhas com égua de Lourdes, e convenca os impios de que ella ao menos tem virtude de matar 0 bichol»'. A por desta continua ridicularizegéo de certos prati cas populares catélicas, fozendo uso do velho filosofio elementor ridendo castigat mores, que Eco de Queiroz tanto usou (e felizmente abusou) nos Farpas ou por exem- plo nos Maios"™, Guilherme Dias assume também um programe social. Desde logo, ¢ em primeira linha, pela valexizagéo do sino —instiuigdo que devio de todo ser retrada ds congre- cgacbes catdlicas ~ como factor de liberdade, democratiza- fo € promogio do individu: w instrucgoo desenvolve 0 rax60 € ¢ fore apta para distinguir 0 verdadero do falso: 0 Foreio cpodera-se da insinuccéo © educa 0 pensamento no ‘obscurantismo» . O lemento pela falta de intowencéo dos ‘outoridades contra 0 implantagéo de insttutos de fundacéo religioso odquire muitos vezes uma linguogem colorida imogética: dados 08 dias, por todo a porte, se levantam col legics jesuticos, aniros de hypocrsia e faratismo, onde so cempolgadas milhares de viciimas, a quem esmagam o cere bro € 0 quem desvairam e ollucinam a consciénciay™;lin- uogem que contrast, natyralmente, com o usado a pro- pésito de uma subscrigio para as escolas do Bonfim: «Neo encarecemos © pedido, quando por toda a parte se recla- rma 0 facho da instrucgio populer, como 0 unico copaz de espancer as trevas de todas os tyranniass™! 68 A protecgdo as criangos e mulheres no quadra da industializagéo que se fazia sentir no Porto, designada- mente na parte oriental da cidade onde Guilherme Dias postoreava a sua comunidade, faz-se sentir em 1887, num texto porticularmente programético: «A impronsa politica tem por ve2es denunciado ©