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::nas as verda- Para uma história comparada

efeitos. Seria 1
ntativas feitas das sociedades europeias
rem das terras
~ma altura em
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das contribui-
e compra dos

tcabo de citar
~ , os aspectos

s sistemas so-
o exame atu-
; divergentes! -
nas cuja opo-
tio XIII a so-
una gradação
Talvez a per-
ante - ainda
. pois através
esperança de
~za.

[Revue de synthese historique, t. XLVI, 1928, p. 15-50. Tradução ingl. «En-


treprise and Secular Change», Readings on Economic History, Frederic Lane e
Jelle C. Riemersma, 1953, Richard D. lrwing, Inc., Homewood, Illinois. Mélan-
ges historiques, t . 1, p. 16-40]
o desta nota, de
·ação e Método
1

Permitam-me que, logo às primeiras palavras, previna um equívoco e me


poupe ao ridículo. Não venho até vós como «descobridor» de uma panaceia nova.
O método comparativo pode muito; considero a sua generalização e o seu aper-
fei çoamento uma das necessidades mais prementes que hoj e se impõem aos es-
tudos históricos. Mas não pode tudo: em ciência, não há talismãs. E não se in-

11 9

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ii-i6W <r Q '2. ~Stvf ( q dores. Lt.SDCoL : Twr-{~} AG10<0 .
1

A ~ C\ - 1150'
\ enta. Já deu as suas provas em , ·árias ~- - ~ em. A sua aplicação à
história das instituições políticas, eco~óre - ~·~· foi muitas vezes reco-
mendada2. É visível, porém, que a maior p.:!r..i:' dos mriadores, no fundo, não
se converteram; dizem educadamente que sim e õ'rt rr:am o serviço sem nada mu-
darem nos seus hábitos. Porquê? Talvez porq..... os deixaram ·acreditar com de;
masiada facilidade que a «história comparada era um capítulo da filosofia da
hi stória ou da sociologia geral, discipli nas que. ·egundo esta disposição de espí-
rito, o trabalhador ora venera, ora acolhe com um orriso céptico mas habitual-
mente se escusa a praticar; o que ele quer de um método é que seja um instru-
mento técnico de uso corrente, maleáve l e susceptível de resultados positivos. O
método comparativo é isso mesmo , mas eu não tenho a certeza de que até agora
tal tenha sido suficientemente demonstrado. Pode, deve penetrar nas pesquisas
de pormenor. O seu futuro, o futuro, talvez, da ciência tem este preço. Gostaria
de pr~cisar aqui perante vós, com a vossa ajuda, a própria natureza e as possibi-
lida~s.- dê aplicação desta boa ferramenta, indicar, por meio de alguns exemplos,
os principais serviços que temos o direito de esperar dele, enfim, sugerir alguns
meios práticos de facilitar o seu emprego.
Ao falar aqui perante um público de medievalistas irei buscar os meus exem-
plos, de preferência, ao período a que, correcta ou incorrectamente, se costuma
chamar Idade Média. Mas é evidente que - mutatis mutandis - as observações
que vão seguir-se poderiam também aplicar-se às sociedades europeias da época
moderna. Por isso, não conto coibir-me de aludir a estas últimas.

II

A expressão «história comparada», que hoje é corrente, teve o destino de qua-


se todas as expressões habituais: os desvios de sentido. Deixemos de lado certos
empregos abusi vos. Rejeitados estes erros, subsiste ainda um equívoco: em ciên-
cias humanas, estamos sempre a reunir sob a expressão método comparado dois
processos intelectuais diferentes. Apenas os linguistas parecem preocupados em
os distinguir com cuidado 3 . Procuremos por nossa vez o rigor, do ponto de vista
próprio aos historiadores.
Antes do mais, no nosso do mínio, o que é comparar? Incontestavelmente, é
o seguinte: escolher. em um ou vários meios sociais diferentes, dois ou vários

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1 HISTORIA E HISTORIADORES

fer:ó:z: que parecem, à primeira vista, apresentar certas analogias entre si,
des-re\ er as curvas da sua evolução, encontrar as semelhanças e as diferenças
e. r.a medida do possível, explicar umas e outras. São portanto necessárias duas
co:iô ões para que haja, historicamente falando, comparação: uma certa seme-
lhança entre os factos observados - o que é evidente - ~ uma certa disseme-
lhança entre os meios onde tiveram lugar. Por exemplo, se estudar o regime se-
nhorial do Limousin, serei eternamente levado a pôr lado a lado informações
tiradas deste ou daquele senhorio; no sentido vulgar da palavra, comparo-os. Não
terei porém a impressão de fazer o que, em linguagem técnica, se chama história
comparada pois irei buscãr os diversos objectos do meu estudo a fracções de uma
mesma sociedade que apresenta, no seu conjunto, uma grande unidade. Na prá-
tica, criou-se o hábito de reservar quase exclusivamente a expressão história
comparada para o confronto de fenómenos que se desenrolaram dos dois lados
da fronteira de um Estado ou nação. Entre todos estes contrastes sociais. com
efeito, as oposições políticas ou nacionais são as que mais de imediato impres-
sionam o espírito. Mas, como veremos, trata-se aí de uma simplificação um pou-
co grosseira. Atenhamo-nos à noção , ao mesmo tempo mais maleável e mais
exacta, das diferenças de meio.
O processo de comparação assim entendido é comum a todos os aspectos do
método, mas, conforme o campo de estudo considerado, é susceptível de duas
aplicações totalmente diferentes pelos seus princípios e resultados.
Primeiro caso: escolhemos sociedades separadas no tempo e no espaço por
distâncias tais que as analogias observadas de um lado e do outro, entre este ou
aquele fenómeno, não possam, com toda a evidência, explicar·-se por influências
mútuas ou por alguma comunidade de origens. Por exemplo (desde a época lon-
gínqua em que o Pe. Lafitau, da Companhia de Jesus, convidava os seus leitores
a comparar os «costumes dos selvagens americanos» com os «dos primeiros tem-
pos»4 é o tipo mais difundido deste género de comparação), pomos em evidência
as civilizações mediterrânicas, helénica ou romana, as sociedades ditas «primi-
tivas» e os nossos contemporâneos. Nos primeiros tempos do Império Romano,
a dois passos de Roma. nas margens encantadoras do lago de Nemi, um rito, pela
sua cruel estranheza, destaca-se no meio dos costumes de um mundo relativa-
mente organizado: quem quer ser sacerdote do pequeno templo de Diana pode
sê-lo com uma condição, e só uma - matar o prestante que se encontrar no lugar.

121
MARC BLOC H

«Se pudermos demonstrar que um costume bárbaro, semelhante ao de Nemi,


existiu noutro lugar; se pudem1os discernir os motivos que o trouxer.aro para a
instituição, provar que os seus motivos exerceram largamente a sua acção, talvez
num âmbito universal. no seio de sociedades humanas, produzindo em circuns-
tâncias várias um grande número de instituições especificamente diferentes, m1s
genericamente semelhantes; se pude1mos, enfim, seguir as marcas da sua acção
até à antiguidade clássica... então poderemos com legitimidade induzir que esses
mesmos motivos, numa era distante, deram origem ao sacerdócio de Nemi 5 .>>Tal
foi o ponto de partida do imenso trabalho de investigação do Ramo de Ouro,
exemplo entre todos ilustre e instrutivo de uma pesquisa inteiramente baseada
em reunir testemunhos tirados dos quatro cantos do globo. O estudo comparativo
assim entendido prestou já serviços imensos e de toda a espécie. Primeiro, e mais
particulannente, no que toca à antiguidade mediterrânica: a educação humanista
tinha.~nos habituado a imaginar Roma e a Grécia muito semelhantes a nós; a com-
paração,-nas mãos dos etnógrafos, restitui-nos, por uma espécie de choque men-
tal, essa sensação de diferença, de exotismo que é a condição indispensável de
um entendimento são do passado. Outros beneficias são de ordem mais geral:
possibilidade de preencher, por meio de hipóteses baseadas na analogia, certas
lacunas de documentação; abertura de novas direcções para a investigação, su-
geridas pela comparação; sobretudo, explicação de muitas sobrevivências, até aí
incompreensíveis. Entendo por tal costumes que, tendo-se mantido e cristalizado
depois do desaparecimento do meio psicológico original em que tinham nascido,
pareceriam de uma irredutível bizarria se o exame de casos semelhantes, no seio
de outras civilizações, não permitisse reconstituir precisamente o meio desapa-
recido: por exemplo, o assassínio ritual de Nemi 6 . Para tudo dizer numa palavra,
este método comparativo de longo alcance é essencialmente um processo de in-
terpolação das curvas. O seu postulado, ao mesmo tempo que a conclusão a que
sempre volta, é uma unidade fundamental do espírito humano ou, se se preferir,
a monotonia, a espantosa pobreza dos recursos intelectuais de que a humanidade
dispôs ao longo da história, particulannente a humanidade primitiva no tempo
em que , para falar ainda como Sir James Frazer, «elaborava, na sua grosseria pri-
mordial, a sua filosofia da vida.»
Mas há uma outra aplicação do processo de comparação: estudar paralela-
mente sociedades a um tempo vizinhas e contemporâneas, incessantemente in-

122
iifSTÓRIA E HISTORIADORES

fluenciadas umas pelas outras, CU.J O dc:sc:n.-oh-imento está submetido, precisa-


mente por causa da sua proxim idade e do seu sincronismo, à acção das mesmas
grandes causas e que remontam. pefo menos em parte, a uma origem comum. É,
em história propriamente dita, o equivalepte da linguística histórica (por exem-
plo, da linguísti ca indo-europeia). ao passo que a história c9mparada ein sentido
lato corresponderia mais ou meno s à linguística geral. Ora,"quer se trate de his-
tóri a ou de linguagem , bem me parece que, dos dois tipos do método compara-
tivo, o mais limitado no seu horizonte é também o mais rico cientificamente.
Mais capaz de class ifi car com rigor e de criticar as comparações, pode aspirar a
chegar a conclusões de facto muito menos hipotéticas e muito mais precisas 7.
Pelo menos é isto que me esforçarei por salientar pois, como bem se entenderá,
é a esta forma metodológica que pertence a comparação, que vos proponho ins-
tituir, entre as diversas sociedades europeias - sobretudo da Europa ocidental
e central - , sociedades síncronas, próximas umas das outras no espaço e saídas,
quando não de uma, pelo menos de várias fontes comuns.

III

Ames da interpretação dos fenómenos vem a sua descoberta. É neste esforço


primordial que primeiro nos surge a utilidade do método comparado. Mas, dirão
talvez, será preciso ter tanto trabalho para «descobrir» os factos históricos? Só
são nossos conhecidos ou cognoscíveis através de documentos; para os ver em
plena luz, diante dos nossos olhos, não bastará ler textos ou monumentos? Claro,
mas é preciso saber ler. Um documento é uma testemunha; como a maior parte
das testemunhas, só fa la se interrogado 8. O dificil é elaborar o questionário. É aí
que a comparação proporciona a esse perpétuo juiz de instrução que é o histo-
riador um precioso auxílio.
Com efeito. vejamos o que muitas vezes se passa. Numa dada sociedade, ma-
nifestou-se um fenómeno com tanta amplitude e, sobretudo, teve tantas conse-
quências e tão visíveis - nomeadamente no domínio político, sendo os prolon-
gamentos desta natureza habitualmente mais fáceis de captar nas nossas fontes
- que, a menos que sofra de cegueira, o historiador não pode deixar de o captar
em cheio no olhar. Tornemos agora a sociedade vizinha. Talvez se tenham dado
aí factos análogos e com uma força e uma extensão quase paralelas; mas, seja

123
MARC BLOCH

por causa do estado da nossa documentação, seja devido a uma constituição so-
cial e política diferente, a sua acção é aí menos imediatamente perceptível. Não,
que tenha sido menos grave. Mas operou-se em profundidade: como essas obs-
curas afecções do organismo que; não se traduzind<:! instantaneamente por sinto-
mas bem definidos, se mantêm indetectadas durante anos e quando os s.eus,,efei-;
tos por fim aparecem continuam quase impossív,eis de reconhecer~ porque o
observador não pode ligar os efeitos visíveis a uma causa original demasiado an-
tiga. Hipótese teórica, tudo isso? Para demonstrar que não o é sou forçado a ir
buscar wn ex~mplo às minhas próprias investigações. Lamento ter que entrar em
cena; mas .os trabalhadores, habitualmente, não se cansam a contar os seus tac-
teios, a literatura não me fornece nenhum caso que possa substituir a minha ex-
9 1 '
periência pessoal .· . . '
. Se há, na hist~.r:ia agrária da Europa, uma transformação que surge com gran-
de relevo,.~ . essa de. que . foi palco..a maior parte da Inglaterra, mais ou menos des-
• -~--. · ~~ º~·iníc~p do ~éculo XVI a~é \aos primeiros ª°:ºs do .sécul~ XIX-. ess~.v.asto
- · .~ovimentq das en.c losures que, sob a sua dupla forma (delimitação do terreno
... • • .. .. ' ... 1 • : '• • • •

comunal, delimitação das lavras) pode definir-se, no essencial: desaparecimento


• • .. • 1 • 1

, das servidões colectivas, individualização da exploração agrícola. Consideremos


• 1 ,,.,e°' • • ,

aqui apenas _a ·delimit~ção. das lavras. Como ponto de partida,,temos um regime


~eillido ~· q~al a t~rr~
.. . .,. t.. ..
~
~rável. assim.que despojada das suas cofueitas.,' setomaya,
1 .., , ... r • • , • ... ,
1

pelo· pasto,;objecto ! de. •4.'exploração


• ~ 1 ... .

comum. e, ·ainda semeada
~ : .
ou. coberta
-~.,.. ••
de .searas
.
.,. . obedecia
. .. . ·.. .
.~.
já, no ritmo.
. : . . .. ~
do. seu
;
cultivo, a regulamentos destinados a proteger os in-
1
,._
'•.~
t~resses . ~a colectividade; como.ponto de chegada, um estado de rigorpsa apro-
, 1

·' . . pp.~ção,p~ss~al./ru90, nesta .grande metamorfose, .atrai e retém o nosso olhar;, ~s


pÔlémicàs,q~.e ~~;cito.u diirante todo o decurso da história;.o·acesso re~ativamente
Íâcdià .~~ior:pait~·-dos,documentos (actas do Parlamento7 fiscali~âções o·fi~iais)
que s~bre ela· nos informa~; as suas ligações com a história política pois, ·f~vo·-
' '
recida pelos progressos do Parlamento, onde mandavam os grandes proprietários,
contribuiu, por ricochete, para assentar mais solidamente o poder da gentry; as
suas possíveis relações com os dois factos mais imediatamente salientes da his-
tória económica inglesa, a saber, a expansão colonial e a revolução industrial, que
ela terá talvez facilitado (há quem duvide, mas para nós basta que o assunto se
. discuta); enfim, o privilégio que lhe coube de estender os seus efeitos, não apenas
aos fenómenos sociais, sempre tão delicados de detectar, mas também às carac-

124
HiSTOR l..J. E HIS TORIA D ORES

terísticas mais salientes da pa,- ~-r.::!- fazendo erguer-se por toda a parte, nos
campos ingleses, outrora a pe'rCer ·e' ista, as barreiras e as sebes. Portanto, não
há história de Inglaterra_ por m31 · elementar que seja, que não mencione as en-
closures.
Abramos ago ra uma hi -1óna de França, nem que seja uma história económi-
ca ... ~ão encomraremos aí a mínima alusão a movimentos desta ordem. E no en-
tanto, hml\"e-os. Hoje. sobretudo graças aos trabalho de M. Henri Sée, começa-
mos a distingui-los; contudo , estamos ainda longe de ter tomado uma consciência
suficientemente nítida das diferenças que neste ponto apresentam as evoluções,
ao mesmo tempo semelhantes e divergentes, das sociedades francesa e inglesa.
Mas deixemos por momentos esta última consideração; a percepção dos contras-
tes, segundo o bom método comparativo, vem apenas em segundo lugar; por ago-
ra, andamos somente a descobrir. Ora, é notável que, até aqui, o desaparecimento
das servidões colectivas, em França, só tenha sido observado nas épocas e nos
lugares onde, como em Inglaterra. o fenómeno encontrou a sua expressão nos
textos oficiais e, por conseguinte, fãceis de conhecer: os «editos de delimitação»
do século XVIII e os inquéritos que os prepararam ou se lhes seguiram. A mesma
transfonnação, porém, teye lugar numa outra região francesa onde, que eu saiba,
nunca fo i assinalada: a Pro\·ença - e isso numa época relativamente recuada:
os séculos XV, XVI e XVII. Aí foi. segundo todas as probabilidades, muito mais
profunda e muito mais eficaz do que na maior parte das zonas mais setentrionais
onde os mesmos factos foram várias vezes estudados; mas como teve a pouca
sorte de se desenrolar num tempo em que a vida económica, sobretudo a vida
rural , não preocupava os cronistas nem os administradores e em que, ainda por
cima. não acarretou nenhuma modificação visível da paisagem (o desapareci-
mento das servidões colectivas não implicou a construção de cercas), escapou aos
olhares.
Terão sido as repercussões na Provença as mesmas de Inglaterra? Para já, ig-
noro-o. Por outro lado, estou muito longe de pensar que todas as características
do movimento inglês se vão encontrar nos litorais mediterrânicos; pelo contrário,
estou impressionado com o aspecto muito particular conferido aos factos meri-
dio nais por uma constituição dos tenitórios agrícolas muito diferente da do Norte
(por conseguinte, não houve, como em Inglaterra, redistribuição das parcelas,
«reconstituição»). práticas económicas especiais (nomeadamente, a «transumân-

I _r)
MARC BLOCH

eia») e, como consequência destas práticas, condições sociais sem par nos cam-
pos ingleses (penso sobretudo no antagonismo entre os grandes criadores de
gado, os «nourriguiers», e as outras classes da população). Nem por isso deixa
de ser interessante verificar a presença, com características próprias, numa zona
mediterrânica, de um fenómeno que, até então, parecia ter podido difundir-se so-
bretudo em latitudes mais elevadas. Além disso, não é dificil de observar na Pro-
vença pois, olhando com atenção, textos assaz numerosos permitem seguir-lhe
o rasto: estatuto condal, deliberações das comunidades, processos cuja duração
e peripécias dizem eloquentemente da gravidade dos interesses em jogo. Mas es-
tes textos, há que pensar em procurá-los e em compará-los uns com os outros. .,
Se ·e u pude fazê-lo, por certo não foi por me serem f~miliares os documentos lo-
cais; longe disso, conheço-os e hei-de sempre conhecê-los menos bem do que os
eruditos· que fizeram da história provençal o campo preferido dos seus estudos.
Só· esses investigadores poderão verdadeiramente explorar a veia que eu deveria
limitar-mfa indicar. A única ·vantagem que. tenho. sobre eles é muito modesta e
totâlmenfe impessoal. Li·obras·relativas às enclo$ures inglesas ou às revoluções
rurais análogas que se deram n~utros países europeus e tentei inspirar-me nelas.
Numa palavra, usei uma varinha mágica, de todas a mais eficaz: o método com-
parativo. . . 1 1.

: • t ~' .: • J t :; . t ~:, ·.. . • ~. • • 1.. . : ; f. . •' 1 •

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. •.. . ·: l • ... ~J ,) ! ' ... • .1'.

: .· Passemos à interpretação. ,.;,'. 1 . ·.: •.•

•.; O .mais evidente de todos: OS· serviços a esperar de uma comparação atenta
instituída entre factos tirados·: de ·sociedades diferentes ·e vizinhas é permitir-nos
discernir as influências ·exercidas por estes grupos uns sobre os outros. Indaga. . 1

çôes prudentemente realizadas revelariam talvez correntes de transição de ele-


mentos entre as sociedades medievais até agora imperfeitamente reveladas. Eis
um exemplo, proposto apenas a título de hipótese de trabalho.
A monarquia carolíngia apresenta-se, relativamente à dos Merovíngios que
a precedeu imediatamente no tempo, com características absolutamente origi-
nais. Os Merovíngios nunca tinham passado, aos oJhos da Igreja, de simples lai-
cos. Pepino e os seus descendentes, pelo contrário, recebem desde a chegada ao
trono, por unção com óleos bentos, a marca sagrada. Crentes como todos os ho-

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__, . ... --~ -- -~ - - - . . - - ·-- ---


HISTÓRIA E HISTORIA DORES

mens do seu t.empo. os Merovíngios foram, a pouco e pouco, dominando, enri-


quécend!o e explorando a Igreja; nunca se tinham preocupado muito em pôr ao
serviço dos seus preceitos a força pública. Com os Carolíngios, as coisas são mui-
to diferentes. Sem se privarem, no tempo·do seu poder, de reger o clero e de em-
pregar os seus bens em beneficio da sua política, consideram-se visivelmente en-
- '
carregados de fazer reinar na terra a lei de Deus. A sua· legislação é essen-
cialmente religiosa e moralizadora; ao ler, há algum tempo, num jornal, um de-
creto emitido pelo emir uabita de Nedjed, senti-me impressionado pelas seme-
lhanças com a literatura pietista dos capitulares. As grandes cortes convocadas
em torno do rei ou do imperador mal se distinguem de concílios. Enfim, com os
Merovíngios, as relações de protecção, que ocupavam já tão grande lugar na so-
ciedade, pem1aneciam à margem das leis que, tradicionalmente, os ignoravam.
Os Carolíngios, pelo contrário, reconhecem estes vínculos, sancionam-nos, fi-
xam e limitam os casos em que o recomendado pode abandonar o seu senhor;
procuram empregar estas relações pessoais na consolidação da paz pública, ob-
jecto, entre todos caro e entre todos fugitivo, da sua tenaz ambição: «Que cada
chefe exerça uma acção coerciva sobre os seus inferiores a fim de que estes, cada
\'ez mefüor, obedeçam e consintam nos mandamentos e preceitos imperiais» 10,
esta frase de um capitular de 81 Oresume, numa súmula expressiva, a política so-
cial do Império. Talvez que, procurando bem, possamos encontrar, na Gália me-
rovíngia, os germes de uma ou outra destas características. Contudo, não é menos
verdade que, olhando só para a Gália, o Estado carolíngio nos parece quase uma
criação ex nihilo. Mas vamos para além dos Pirinéus. Vemos na Europa bárbara,
a partir do século VII, reis que recebem, como diz um deles, Erviges, a «sacros-
santa unção» 11 : eram os reis visigodos - uma monarquia toda religiosa, preo-
cupada em fazer triunfar, pela acção do Estado, as ordens da Igreja: a monarquia
visigótica: concílios que se confundiam com as assembleias políticas: os de Es-
panha; leis que já desde há muito tempo tinham dado lugar, para as regulamentar,
às relações do senhor e do recomendado 12 e tendiam a basear nestes vínculos de
homem para homem a organização militar13 : as leis dos soberanos visigodos. Na-
turalmente, a par destas analogias não é difícil descobrir as diferenças. A prin-
cipal é que os primeiros Carolíngios governavam a Igreja, em vez de serem,
como os príncipes godos do século VII, governados por ela. As semelhanças con-
tinuam a ser extremamente flagrantes. Deveremos ver nelas apenas o produto de

12 7
MARC BLOCH

causas idênticas que actuam dos dois lados no mesmo sentido e cuja natureza,
nesse caso, está por definir? Ou será que - sendo os factos visigodos, entenda-
-se, nitidamente anteriores aos factos francos - devemos pen_sar que uma certa
concepção da monarquia e do seu papel, certas ideias concernentes à constituição
da sociedade vassálica e à sua utilização pelo Estado, surgidas primeiramente em,
Espanha, e que aí tiveram tradução em textos legislativos, foram retomadas cons-
cientemente pelos conselheiros dos reis francos e pelos próprios monarcas? Para
tennos o direito de responder a esta pergunta convém, evidentemente, proceder
a uma investigação pom1enorizada, que não posso abordar aqui. O seu principal
objectivo deverá ser procurar por que canais a influência visigótica penetrou na
Gália. Certos facto s, universalmente conhecidos, parecem de natureza a tomar
assaz provável a hipótese de uma influência. Houve incontestavelmente, no reino
franco , durante o século que se seguiu à conquista árabe, uma diáspora espanhola.
Os fugitivos de partibus Hispani~, estabelecidos para Carlos Magno e Luís, o
Piedos.ô, n-a Septimânia, eram, em grande parte, gente humilde; mas contavam-se
também nas suas fileiras pessoas pertencentes às classes altas (majores et poten-
tiores) e padres, isto é, pessoas ao corrente dos hábitos políticos e religiosos do
país que acabavam de abandonar 14. Alguns espanhóis refugiados na Gália fize-
ram carreiras brilhantes na Igreja: Cláudio de Turim, Agobardo de Lyon, após-
tolo, para a terra franca, da unidade de legislação que tinha podido realizar na
sua pátria de origem , sobretudo Teodulfo de Orleães, o primeiro a chegar e talvez
o mais influente de todos .. Enfim, colecções conciliares espanholas exerceram so-
bre o direito canónico da época carolíngia uma acção cuja amplitude está ainda
por definir, mas que é inegável. Mais uma vez, não pretendo decidir nada. Re-
conhecerão, espero, que o problema merece ser colocado. E de modo algum é o
, . da sua espec1e
umco ' . 15.

«As semelhanças em hi stória», disse Renan a propósito de Jesus e dos Essé-


nios, «não implicam se mpre aproximações». Certo. Muitas semelhanças, ao exa-
miná-las de perto. parecer-nos-ão irredutíveis à imitação. Apraz-me afirmar que
essas são mais interessantes de observar, pois permitem-nos dar um passo em
frente na !>usca apaixonante das causas. É aqui que o método comparativo parece

128

J
HISTÓRIA I:· HISTORIADORES

capaz de prestar aos historiadores os mais assinaláveis serviços, apontando-lhes


o caminho que pode conduzir às causas verdadeiras e também, talvez sobretudo,
para começar por um benefício mais modesto, mas necessário, desviando-os de
cenas pistas que não passam de becos seni saída.
Todos sabem o que são, na França do século XIV e do ?écul'o XV, os cha-
mado - Estados gerais ou provinciais (emprego estes epítetos no seu sentido ha-
bitual aproximado, que é cómodo, sem ignorar, entenda-se, que a Estados gerais
e Estados provinciais se associava toda uma série de gradações, que Estados ver-
dadeiramente «gerais» quase nunca reuniram, enfim, que o cenário provincial,
durante muito tempo, nada teve de fixo.) Sobre os Estados provinciais, particu-
larmente os dos grandes principados feudais, foram escritas, ao longo dos últimos
anos, monografias assaz numerosas 16. Testemunham um esforço de erudição tan-
to mais meritório quanto a documentação. pelo menos para os primeiros tempos,
é, quase em toda a parte, tenivelmente pobre e ingrata; trouxeram, para muitos
pontos imponantes, precisões de grande interesse. Mas quase todos os autores
depararam, logo à partida, com uma dificuldade que não tinham meios de resol-
ver e cuj a natureza., sequer, conseguiram sempre apreender bem: o problema das
«origens». Emprego de propósito esta expressão de que se servem. habitualmen-
te, os historiadores; é corrente, mas é ambígua. Tende a confundir duas operações
intelectuais de essências diferentes e âmbito desigual; por um lado, procuram-se
as instituições mais antigas (cortes ducais ou condais, por exemplo) cujos Esta-
dos muitas vezes surgem apenas como o desenvolvimento - e esta pesquisa é
perfeitamente legítima e necessária; mas resta depois - é a segunda tarefa -
discernir as razões capazes de explicar a extensão e o significado novos assumi-
dos, a dado momento, por estes organismos tradicionais, a sua transformação em
Estados, isto é, em assembleias dotadas de um papel político e sobretudo finan-
ceiro, conscientes de, face ao soberano e ao seu conselho, deterem um poder, su-
bordinado, talvez, mas nitidamente distinto , enfim, representativo, conforme mo-
dalidades infinitamente variáveis, das diversas forças sociais do país. Mostrar o
gern1e não é discernir as causas da gem1inação. Ora podemos nós ter a esperança
de descobrir estas causas se, por exemplo, morarmos no Artois (no caso dos Es-
tados artesianos), na Bretanha (se se trarnr de Estados bretões) ou mesmo se nos
contentarmos em passar os olhos pelo reino de França? Por certo que não. Se as-
sim procedermos, só conseguiremos perder-nos no dédalo de uma multidão de

l 129
MARC BLOCH

pequenos factos locais, a que seremos levados a atribui r um valor que sem dúvida
nunca tiveram; e o essencial, inevitavelmente. passar-nos-á ao lado ..Com efeito,
um fenómeno geral só pode ter causas gerais: e se há fenómeno de amplitude
europeia é bem aquele a que, conservando o nome francês, chamei fonnação dos
Estados. Em vários momentos, mas afinal mu ito pouco afastados no tempo,: ve-
mos por toda a parte surgir em França os Érars. mas na Alemanha também, nos
«territórios», os Stande (as duas palavras têm sentidos curiosamente vizinhos),
em Espanha as Cortes, em Itália os Parlianz enti. Não o Parlamento inglês, nas-
cido num meio político infinitamente diferente, cujo desenvolvimento não obe-
deceu a movimentos de ideias e a necessidades muitas vezes análogos aos que
presidiram à formação do que os alemães chamaram o Srandestaat. Mas, por fa-
vor, não me entendam mal. Reconheço plenamente a imensa utilidade das mo-
nografias locais e não vou pedir aos seus autores que ultrapassem o quadro pró-
pri.9. dos seus estudos para se porem à procura, de vez em quando, da solução
para o-grande problema europeu que acabo de enunciar. Bem pelo contrário, su-
plicamos-lhes que tomem consciência de que não podem, sozinhos, cada qual de
seu lado, resolvê-lo. O principal serviço que podem prestar-nos é separar os di-
ferentes fenómenos políticos e sociais que precederam ou acompanharam, na sua
província, o aparecimento dos Estados ou dos Stãnde e parecem por isso ser de
natureza a classificar-se provisoriamente entre as causas possíveis dessa emer-
gência. Nesta pesquisa, o exame dos resultados obtidos já noutras regiões, um
pouco de história comparada, numa palavra, será com utilidade um guia da nossa
atenção. A comparação de conjunto não poderá deixar de vir a seguir; sem as
investigações locais preliminares, seria vã; mas só ela poderá, no seio das causas
imagináveis, reter as que tiveram uma acção geral, as únicas reais.
Não seria muito dificil, bem se vê, dar outros exemplos. Parece-me evidente,
entre outras coisas. que os historiadores alemães, quando estudam a forinação
dos «territórios» (os pequenos Estados que se constituíram nos séculos XII e XIII
no interior do Império e foram pouco a pouco apoiando, em proveito próprio, a
maior parte do poder público). pennitem-se com demasiada frequência conside-
rar este fenómeno especificamente gennânico~ mas como separá-lo da consoli-
dação, em França, dos principados feudai s? Outra ilustração ainda da prudência
que o método comparado deve inspirar aos historiadores demasiado propensos a
procu_:ar nas transfomrnções sociais causas exclusivamente locais: a evolução do

130
H!S TÔR!.-1 E HISTORIADORES

senhorio nos últimos séculos da Idade Média e início dos tempos modernos. Os
senhores. com os seus rendimentos ameaçados pela diminuição, em valor real,
das rendas monetárias, tomaram então e pela primeira vez uma consciência per-
fei tamente clara do empobrecimento que. gota a gota, há muito vinha pondo em
.
nsco a sua fiortuna 17; preocuparam-se, em to dos os pa1ses,
, t..' •
epi ouviar a este pe-
rigo. Para 1al deitaram mão, conforme os lugares. de meios muito diversos e mais
ou menos efic azes: aumento de certos produtos casuais, cujo montante o costume
não tinba fixado com rigor (as fines inglesas): substituição, sempre que juridica-
mente possí, ·el. da renda em dinheiro pelo aluguer em espécie, proporcional à
colheita (donde. em França, a grande extensão das meações); despojamento bru-
tal dos rendeiros, obtido, aliás, aqui e além. por processos de natureza muito di-
ferente (Inglaterra, Alemanha de Leste). O esforço, no seu princípio, foi geral; o
seu ponto de aplicação e mais ainda o seu sucesso variaram em extremo. Aqui,
portamo, a comparação convida-nos a verificar, de um meio nacional para outro,
di,·ergências fortemente marcadas - Yeremos em breve que é um dos seus prin-
cipais interesses: mas obriga-nos, ao mesmo tempo, a ver no impulso primeiro
que deu origem a uma tal variedade de resultados um fenómeno europeu, a julgar
apenas por causas eUiopeias. Esforçarmo-nos por explicar a formação da Gut-
herrschaft mecklemburguesa ou pomerana, o açambarcamento das terras pelo
squire inglês unicamente com a ajuda de factos constatados em Mecklemburgo,
na Pomerânia, em Inglaterra e que não encontramos noutros sítios seria perder
tempo num Jogo . . 1ectua1 assaz vazio
mte . 18.

VI

Mas cuidemos de não alimentar um mal-entendido de que o método compa-


rado não sofre. Muitas vezes pensa-se, ou afecta-se pensar que o método não tem
outro objectivo que a caça às semelhanças; gosta-se de o acusar de se contentar
com analogias forçadas, até mesmo, por vezes. de as inventar postulando arbi-
trariamente não sei que paralelismo necessário entre as diversas evoluções. Inútil
ir ver se estes reparos terão parecido por vezes justificados; é bem certo que o
método. assim praticado, não passaria de uma maldosa caricatura. Pelo contrário,
concebido com correcção traz um interesse especialmente marcado à percepção
das diferenças, sejam elas originais ou resultem de caminhos divergentes, toma-

f 31
MARC BLOCH

dos de um mesmo ponto de partida. À cabeça de uma obra destinada a «marcar


o que o desenvolvimento das línguas gennânicas tem de particular entre todas
as línguas indo-europeias», M. Meillet propôs um dia à linguística comparada,
como uma das suas tarefas essenciais, um esforço permanente para «pôr em evi-
dência a originalidade das diferentes línguas» . Também a história compa~ada
19

tem o dever de distinguir a «originalidade» das diferentes sociedades. Será. su-


pérfluo observar que não há trabalho mais delicado do que esse, nem que neces-
site mais imperiosamente de uma comparação metódica? Determinar, não apenas
por alto, que dois objectos não são semelhantes, e, além disso - labor infinita-
mente mais dificil, mas também muito mais interessante - quais as caracterís-
ticas exactas que os distinguem pressupõe, evidentemente, como primeiro gesto,
contemplá-los alternadamente.
Antes do mais, há que desembaraçar o terreno das falsas semelhanças, que
mu_itas vezes mais não são que homonimias. E há-as insidiosas.
::Oüantas vezes não foram tratados como equivalentes o villainage inglês dos
séculós XIII, XIV e XV e a servidão francesa! É certo que um olhar um pouco
apressado de uma para a outra instituição facilmente crê encontrar pontos de se-
melhança. Servo e vilão, ambos são considerados, tanto pelos juristas como pela
opinião comum, privados de «liberdade», qualificados, por isso, em certos textos
latinos, como servi (os autores ingleses, quando se exprimem em Francês, não
hesitam empregar serf como sinónimo de villain ), enfim, precisamente em vir-
tude desta ausência de «liberdade» e deste nome servil, as pessoas cultas gostam
de os assimilar aos escravos romanos. Analogia superficial: o conceito de não-
-liberdade tem variado muito no seu conteúdo, conforme os meios e os tempos.
De facto, a instituição do villainage é especificamente inglesa. Como Vinogra-
20
doff demonstrou, numa obra hoje clássica , vai buscar as suas características
originais ao desenvolvimento, muito espec ia l. do m eio político onde nasceu.
Na segul"l:da metade do século XII, por conseguinte muito mais cedo do que
os seus vizinhos de França, os reis ing leses fizeram reconhecer em todo o país
a autoridade dos seus tribunai s. Mas esta precocidade teve o seu preço. O estado
da sociedade tal como ela era então constituída impôs aos juízes reais o respeito
por urna fronteira que não iriam transpor antes do extremo fim da Idade Média:
tiveram como regra nunca intervir entre os senhores e os homens que deles ti-
nham_terras em villainage, isto é, oneradas por contribuições e sobretuto por cor-

132
HISTÔRl...t f HISTORIADORES

ye:a.s.. e- outras fixadas pelo costume do manoir (assim se chamava em In-


g h~:ar:!. !ier"..horio }. Os rendeiros eram de origem, d ~ condições muito diferentes:
un.5 - ..am propriamente ditos - -- passavam por livres pois só dependiam do
cau ·a da sua terra, de pe rtencerem à vil/a; os outros - servi, nativi
ligados ao sen hor por um vínculo pessoa l e _here~itário em que nesse
re:n;>0 sr" ia uma marca de servidão. Mas todos, fosse qual ·fosse o seu estatuto
rrad1 ÍOr:im mantidos à parte pelas jurisdições rea is; nas suas relações com
os .:enxres. (a hás. apenas nestas relaçõ es ), escaparam por completo à acção dos
tribun ·- do Estado, a Common LaH· do reino. O resultado foi que, ao longo do
sécu1o :\:Ili, por causa desta incapacidade comum, a mais aparente e mais pre-
judicral que se possa imaginar, amalgamaram-se, a despeito das diferenças an-
teriores.. numa classe única. Não foi sem dificuldade que os juristas conseguiram
definir este grupo noYo, con stituído por elementos tão diversos. Mas depressa se
puseram de acordo e com eles a linguagem corrente, q uanto a reservar o nome
de li\'res apenas para aqueles súbditos do rei que os seus tribunais proteg iam con-
21
tra tudo e ca nrra todos. Foi uma no\·a noção de liberdade . O villain de outrora,
isto é. o rendeiro puro, se assim posso dizer, deixou de estar alinhado entre os
liheri homines e foi confundido com o servus hereditário, o nativus, porque es-
tava. como ele. pri\·ado de recursos perante a justiça real. As duas palavras, ser-
vus e villain , foram tratadas como sinónimos. É coisa praticamente consumada
no ano 1300. Do mesmo passo, certos encargos de carácter essencialmente servil
- nomeadamente, direitos sobre o casamento - que, em princípio, deveriam
pesar apenas sobre a posteridade dos antigos servi, foram -se estendendo pouco
a pouco, pelo menos em muitos manoirs, a todos os villain, no sentido novo da
palavra. Esta espécie de contágio, tão frequente nas sociedades medievais, ope-
rou-se aqui com particular facilidade: a assimilação foi talvez abusiva; mas como
poderiam as suas vítimas protestar eficazmente uma vez que, por definição, só
se podia apresentar queixa perante a justiça senhorial. isto é, perante o próprio
beneficiário do abuso? E bem depressa se admitiu que o \ illainage, tal como a
1

antiga servidão, se transmitia pelo sangue. Este mov imento no sentido da here-
ditariedade era conforme às tendências gerais da época. Aqui foi ainda precipi-
tado por uma c ircunstância especial. De tempos a tempos, acontecia uma pessoa
de situação elevada adquirir urna terra em villainage. C laro que a terra, nestas
novas mãos, ficava submetida a todos os encargos e todas as incapacidades que

133
\!IARC BLOCH

anterionnente a oneravam e que o aquisitor não pudera ignorar, nomeadamente,


privada de qualquer protecção possessória relativamente aos senhores, pelos tri-
bunais régios. Mas o detentor - talvez um dos grandes deste mundo - esse,
ninguém ia pensar em o remeter bruscamente para a companhia dos não-livres!
Foi necessário reintroduzir uma distinção entre a condição da terra e a do hom ~m
e convencionar que apenas os descendentes - mas todos os descendentes - dos
terratenentes primitivos seriam villains. Estava criada uma casta nova, uma casta
humilde. Definia-se essencialmente por uma característica de direito público a
que os teóricos gostavam de se referir como: vilão, servo ou escravo (servus) re-
lativamente ao senhor; entenda-se: entre o senhor e ele, ninguém se interpõe, nem
mesmo o rei.
Em França, nada de semelhante. Os progressos da justiça real foram aí muito
mais tardios e operaram-se de maneira muito diferente. Não houve grandes or-
denações legis lativas, como as de Henrique II de Inglaterra. Não houve classifi-
ca~· rigorosa dos meios oferecidos aos litigantes pelos tribunais régios (os writs
ingleses). Foi por uma série de intrusões, muitas vezes mal premeditadas, que as
gentes do rei, aqui mais cedo, além muitos anos mais tarde, chamando a si ora
um caso, ora outro, foram assegurando passo a passo o seu domínio no país. Mas
as suas conquistas, por causa da própria lentidão e porque, pelo menos a princí-
pio, nenhum plano teórico as guiava, penetraram mais fundo. A jurisdição senho-
rial, amálgama de poderes de origens muito diversas, estendia-se, em França
como em Inglaterra, por grupos de dependentes muitíssimo diferentes: vassalos
militares, burgueses, rendeiros livres, servos. Mas a monarquia francesa tratou-a
como um todo. Os tribunais régios deixavam ou retiravam a este ou àquele senhor
o julgamento deste ou daquele tipo de processos; insistiam ou não no reconhe-
cimento do direito de apelação; mas isso sem fazer qualquer distinção de prin-
cípio entre os súbditos do senhorio. De modo que o juíz do rei foi a pouco e pouco
tomando assento entre o senhor e o seu rendeiro. Por conseguinte, não se apre-
sentou qualquer razão para assimilar o servo ao rendeiro que também em França
se chamava vilain. Estas duas categorias de homens subsistirão até ao fim, lado
a lado. O servo francês do início do século XII, o servus. 11ativus ou theow inglês
da mesma época, tinham pertencido a condições jurídicas muito vizinhas que é
inteiramente legítimo tratar como dois aspectos de uma mesma instituição. A In-
glaterra chega então à formação do villai11age. Cessam todos os paralelismos. O

134
HISTÓRIA E HISTORIADORES

sen·o :francês do século XIV, o villain ou servo inglês da mesma época? São duas
ela -ses rmidamente dissemelhantes. Valerá a pena compará-las? Certamente.
mas. desta vez, marcar os seus contrastes. através dos quais se exprime uma opo-
22
sição impressionante entre o desenvolvimento das duas nações .
LeYemos mais longe ainda os pormenores da comparação. Nem sempre foi
fácil, nos ma11oirs ingleses dos séculos XIII e XIV, diagnosticar com segurança,
entre os direitos reais, c ujas modalidades não tinham fim, os que se deviam agru-
par sob a designação de tenure em villainage e assim separar cuidadosamente
da massa, igualmente variegada, aqueles a que cabia o epíteto livre. Contudo,
houve que assentar em alguns critérios mais ou menos fixo s, pois foi necessário
poder dete1111inar quais eram a s terras e, por conseguinte, pelo menos à origem,
os rendeiros que a justiça do rei, apagando-se perante a justiça senhorial, renun-
ciava a proteger. Preocupados em distinguir as características, os juristas julga-
ram por vezes encontrá-las na natureza dos serviços que oneravam a terra. Cons-
23
truíram uma noção de «sen·iços vilãos» . Unanimemente considerou-se
sintomática a cor-.reia agrícola quando comportava a prestação de um grande nú-
mero de dias de crabalho e. -obretudo. uma certa indeterminação, quer no próprio
número de dias fornecidos. quer. pelo menos. no seu emprego, ambas as coisas
entregues ao critério arbitrário do senhor: e foi admitido na generalidade que a
obrigação de desempenhar as funções de chefe da aldeia (o reeve, bastante se-
melhante ao staroste com que nos familiarizaram os romances russos) devia
igualmente ser considerado uma limitação à liberdade daqueles que, em função
da sua terra, eram forçados a aceitar, quisessem ou não, este pesado encargo. Ao
estabelecer estas nonnas, teóricos e juízes ingleses não estavam a inventar nada.
Limitaram-se a ir beber a uma nascente de representações colectivas, mais ou
menos confusamente e laboradas desde há muito tempo pelas sociedades medie-
vais, as do continente mas também a da ilha. A ideia de que o trabalho agrícola
tem em si algo de incompatível com a liberdade corresponde a velhos pendores
da alma humana; exprimiam-se, na época bárbara, pelas palavras opera servi/ia ,
frequentemente usadas para designar este tipo de trabalhos. A ideia de que o ser-
vus difere do rendeiro livre pelo carácter indetenninado das corveias a que está
submetido, nascida do contraste original entre a escravatura e o colonato, tinha
muita força na Gália e na Itália carolíngias. Nunca desapareceu por completo.
Veja-se que, na França capetíngia, é frequente chamar-se «franchises» aos pri-

135
MARC BLOCH

vilégios que, sem suprimirem os encargos dos camponeses, os limitam e sobre-


tudo os fixam. Quanto à obrigação de aceitar do senhor, independentemente do
fardo geral das corveias, este ou aquele serviço especializado que lhe apraza de-
signar (obrigação restringida, em Inglaterra, à função de reeve), passava na Ale-
manha, em muitos lugares, por imposta às pessoas de condição não liv1;e; eri1
França, esta noção, menos generalizada, deixou apesar disso, nomeadamente no
24
século XII, alguns vestígios nos textos . Mas em França (para me limitar a este
país) estas ideias, no seu conjunto, nunca forneceram os elementos para uma
construção jurídica rigorosa. Urna delas, isolada - a que acentuava o carácter
degradante ligado às ocupações agrícolas - foi. é certo, empregada a partir do
século XIII para marcar, com uma linha mais definida do que no passado, uma
separação das classes. Mas não foi, como em Inglaterra. a fronteira entre os livres
e os não livres que ela serviu para fixar; utilizaram-na como uma das caracterís-
!!_cas que pem1itiam distinguir do nobre (que está proibido de «deITogarn, sendo
-dirabalho manual considerado uma forma de derrogação) a multidão dos não no-
bres que compreende sempre, e em número cada vez maior, pessoas a quem nin-
guém pensaria recusar a «liberdade». Então em França não houve também a ten-
tação de caracterizar o não livre pelas particularidades dos serviços a que estava
adstrito? É de crer que o sentimento popular não tenha sido completamente alheio
a representações deste tipo. Em Gonesse, perto de Paris, pelo início do século
XIII, vemos certos rendeiros tratados como servos pelos seus vizinhos por causa
de corveias especiais a que estavam submetidos, nomeadamente a obrigação de
escoltar os presos, que era tida por desonrosa. Mas facilmente fizeram reconhecer
pelo rei que, juridicamente falando, a sua liberdade não era contestável 25 . Nunca
um homem da lei, nunca um tribunal francês recorreram, para definir um servo,
a um critério tirado dos serviços. Eis-nos pois face a um dos aspectos mais su-
gestivos que as divergências verificadas entre duas sociedades aparentadas po-
dem apresentar: dos dois lados, tendências análogas; mas de um, permanecem
indistintas, amorfas e desprovidas de sanções oficiais, perdem-se nesta massa
confusa de ideias e de sentimentos que se chama opinião pública; do outro, ex-
pandem-se largamente e tomam fom1a em instituições jurídicas de contornos ri -
gorosamente definidos.
Convém que nos detenhamos ainda um instante na história das classes nas
sociedades medievais. Não há estudo mais apropriado para distinguir, entre estas

136
HIST<JRIA E HISTORIADORES

sociedades. discordâncias profundas, tão profundas, a bem dizer, que são para
nós q_uase inexplicáveis e que ternos que nos limitar a indicar, pelo menos por
agora.
Simerno-nos, para começar, na Europa ocidental e central por altura dos sé-
cu lv · X e XI. A ideia de que o nasci mento traz incalculáveis ~iferénças entre os
homens.. o mum a quase todas as épocas, não estava então ausente das consciên-
cias. Em 9 7. para justificar a exclusão pronunciada contra Carlos da Lorena,
candida:o ao trono de França e legítimo herdeiro dos Carolíngios, o arcebispo
Aubero11 - ou. se preferim10s, o historiador Richer, colocando o nome do pre-
lado a -u!rcre\'er um discurso talvez completamente inventado, mas por certo
confonne às ideias da época - invocou o casamento que o pretendente contraíra
abaixo da ua qualidade, na classe dos vassalos 26 . Qual o filho de cavaleiro que
aceitarja ter por igual o filho de um servo ou mesmo de um vilão? Não nos ilu-
damos: a hereditariedade, como criadora de direito, tinha neste tempo muito pou-
ca força. A sociedade não era constituída por um escalonamento de castas, com
distinção de sangue. mas por um feixe, assaz entretecido, de grupos com base
nas relações de dependência: estas relações de protecção e de obediência eram
concebida como as mais fortes que se podia imaginar. Neste mesmo caso de
Carlos da Lorena, atentemos bem no pendor que o argumento de Auberon assu-
me como que espontaneamente. Talvez o bispo comece por reprovar ao príncipe
carolíngio uma má aliança propriamente dita: «desposou na ordem dos vassalos
uma mulher que não era sua igual». Mas imediatamente, lembrando-se de que o
pai desta pessoa tinha servido os duques de França, acrescenta: «Como poderia
esse grande duque [Hugo Capeto] tolerar ter por rainha uma mulher vinda dos
seus próprios vassalos?» Eis a questão imediatamente transposta para o plano
pessoal. Apenas a condição servil era tida por estritamente hereditária, mas não
era, na prática, de todo incompatível com a cavalaria. Quanto ao direito dos ho-
mens livres, sendo bem verdade que oferecia. na prática infinitos matizes, estes
relacionavam-se com as diferenças de lugar, co m as variantes nas relações con-
tratuai s, com o nível social do indivíduo enquanto tal, não com o nascimento.
Chegam os séculos XII e XIII. Surge então nas ideias e no direito uma surda,
mas decisiva modificação. Dilui-se a força dos vínculos pessoais; a homenagem
tende a transformar-se, ainda que muito lentamente, numa solenidade assaz va-
zia; o servo, o «homem de hoste» francês passou a ser concebido muito mais

137
MARC BLOCH

como o «homem» do seu senhor do que como membro de uma classe desprezada.
Por toda a pa11e formam-se classes com base na hereditariedade, cada qual com
as suas regras jurídicas próprias. Mas que grandes são as diferenças na riqueza
desta evolução ~ Em Inglaterra, o villainage constitui-se solidamente, mas é
27

quase a única classe verdadeira. Entre os homens livres, não há diferençasjurí-'


dicas. Em França, na base da escada figura a servidão, cujos membros já não po-
dem aceder à cavalaria; no topo, a nobreza, que pouco a pouco se vai distinguindo
do resto da população por uma série de particularidades (que são por vezes sim-
ples sobrevivências de costumes antigos) relativas ao direito civil, direito crimi-
nal, direito fiscal. Na Alemanha, enfim, a partir do século XIII a ideia hierárquica
manifesta-se com incomparável fecundidade. Os servos cavaleiros, que a própria
consolidação do sentimento de classe tinha feito desaparecer em França, tornam-
-se aqui o próprio núcleo de uma ou mesmo, no Sul, de duas categorias sociais
b.em
-. .
definidas. De um lado, a nobreza, a massa servil do outro fraccionam-se
nl_!ma- série de secções sobrepostas; nem todos os nobres são ebenbürtig entre si,
nem todos têm o connubium. E os juristas, inspirados pela prática, constroem,
para regulamentar a classificação das partes superiores da sociedade, a célebre
teoria do Heerschild: imaginam uma espécie de escada em que cada grupo tem
o seu lugar fixado num dos degraus; quem pertencer a um destes grupos não
pode, sem descer, aceitar um feudo de um homem colocado abaixo.
Sociedades limítrofes e contemporâneas: de ambos os lados, uma evolução
com o mesmo sentido que põe o acento na hierarquização e na hereditariedade;
mas no percurso e nos resultados desta evolução, diferenças de grau tais que equi-
valem quase a diferentes naturezas e revelam, aliás, nos meios em causa, antíte-
ses características: é o que acaba de demonstrar o exemplo que, muito brevemen-
te, indiquei. Outras oposições, mais simples de entender, quando não de explicar,
resultaram de uma outra forma de divergência: numa dada sociedade, a perma-
nência, numa sociedade vizinha, o apagamento de instituições que, originalmen-
te, tinham sido comuns às duas. Na época carolíngia, no futuro território da Fran-
ça, tal como no que viria a ser a Alemanha, em cada senhorio, a maior parte da
porção reservada aos rendeiros estava dividida em manses (assim se lhes chama-
va quase sempre na zona românica) ou Hufen (era este o termo germânico cor-
rentemente traduzido em Latim por mansus). Era muito frequente ver-se diversas
famílias de agricultores instaladas no mesmo manse. Este, aos olhos do senhor,

138
HISTÔRIA E HIS TORIA DORES

já não e ra uma unidade; sobre o manse, no seu todo, não por fracções, na orla
das terras ou nas construções de que se compunha, pesavam contribuições e ser-
viços: em prin cípio , nunca estas pequenas células agrárias deviam ter-se frag-
men:zdo. Passemos à França das imediações de 1200 . Já quase não se fala de
manse em sítio nenhum no sentido de unidade cadastral (onde a palavra subsiste,
sob as formas romances meix ou mas, é com o significado muito difere nte de
casa de centro da exploração rural) 28 . Os redactores de documentos já não ava-
liam a \'a.Stidão dos senhorios contando o número de manses que contêm . Os cen-
sos. ou ~istas de contribuições receb idas pelo senhor, j á n ão se contentam, como
outrora., em enumerar os manses; procedem, é certo , com grande pom1enor, um
bocado de cerra de cada vez ou pelo m enos um indivíduo de cada vez. É que j á
não há terras de conteúdo fixo . Campo, vinha, redil podem existir inde-
penden1ernente uns dos outros , divididos por diferentes herdeiros e aquisitores.
a Alemanha., pelo contrário, a Hufe, que é proibido fragm entar, continua a cons-
tituir, na maior parte dos senhorios, a base para a cobrança de rendas ou serviços.
É certo que também acabará por desaparecer, mas lentamente, e muitas vezes
mais de nome do que de facto pois no fim do regime senhorial os senhores ale-
mães procurarão manter. por diversos me ios. o p rincíp io da indivisibilidade das
terras; esfo rço, ao que parece, praticamente desconhecido dos seus confrades
franceses. O contraste parece na realidade extremamente antigo, uma vez que o
esboroam ento do manse, na parte ocidental do antigo Império franco, está ates-
tado desde o reinado de Carlos, o Calvo 29. N em sequer tentarei, aqui, perscru-
tar-lhe a s razões mas é de admitir, penso eu , que toda a história rural francesa
ou alemã que passe ao largo da questão despreza um aspecto essencial da su a
missão. Olhando para um apenas dos dois países, a morte do rnanse aqui, a lém
a sobrevivência, corre-se o risco de o confundir com um desses fenómenos in-
teiram ente naturais que nem precisam de explicação. Só a comparação mostra
que h á problem a. Excelente contributo ! Pois nada há de mais perigoso, em cada
ordem de ciências, do que a tentação de ach ar tudo «natural».

V II

A linguística comparada bem pode hoje propor como uma das suas tarefas
essenciais a di stinção dos caracteres origina is das di ferentes línguas. Nem por

139
MARC BLOC H

isso é menos verdade que o seu esforço primordial começou por se voltar para
um lado muito diferente: para a determinação dos parentescos e das filiações en-
tre as línguas, para a busca das línguas mães. A delimitação do grupo indo-eu-
ropeu original, a reconstituição, hipotética, sem dúvida, mas assente em conjec-
turas bem estabe lecidas, do «indo-europeu» original, nos seus (traços
fundamentais, eis alguns dos mais gritantes triunfos de um método inteiramente
baseado na comparação. A história da organização social encontra-se, neste as-
pecto, numa situação infinitamente menos favorável. É que uma língua apresenta
uma amrndura muito mais una e mais fácil de definir do que qualquer outro sis-
tema de instituições, donde a simplicidade do problema das filiações linguísticas.
«Não se encontrou até agora», escreve M. Meillet, «um caso em que tenhamos
' ' sido levados a. pensar que o sistema morfológico de uma determinada língua re-
.,
1 sulta de uma mistura de morfologias de duas línguas distintas. Em todos os casos
•• ~t~ agora observados, há uma tradição contínua de uma língua», quer esta tradi-
~o- seja do «tipo corrente: transmissão da língua dos anciãos para os jovens»,
. ''
•' '11
quér resulte de «mna mudança de língua». Mas suponhamos que, em determina-
do momento, se descobrem exemplos deste fenómeno hoj e desconhecido: «mis-
' '"'l.
~1 turas verdadeiras» entre línguas. Nesse dia - continuo a citar M. Meilllet - «a
1 n.
linguística terá que elaborar métodÓs novos» 3º. Ora esta temível hipótese da
«mistura» que, a vir a verificar-se em matéria de línguas, traria grande perturba-
ção à ciência humana mais justificadamente segura de si, a todo o momento a
história das sociedades a vê impor-se pelos factos. Pouco importa que o Francês
tenha sofrido muito profundamente a influência, no seu vocabulário e talvez tam-
bém na sua fonética, das línguas germânicas; nem por isso deixa de resultar da
transformação, involuntária e muitas vezes inconsciente, nos falantes, do Latim
da Gália romana; os descendentes dos Germanos que adoptaram os dialectos ro-
mances passaram verdadeiramente de uma língua para outra. Mas à sociedade
,J J
francesa da Idad e Média, quem ousará considerá-la uma transformação pura e
•' \• '
simples da sociedade galo-romana? A história comparada é capaz de nos revelar
r,
1 '

,!• ..... • interacções anteriorm ente desconhecidas entre as sociedades humanas; quanto a
'
) . esperar dela que , posta em presença de sociedades até aqui consideradas despro-
vidas de laços de parentesco, nos leve a descobrir, nestes grupos, fracções que,
J·'. numa data recuada. se separaram de uma sociedade mãe, antes insuspeitada, seria
~ ~
ali!)1entar um a esperança destinada a sair quase sempre frustrada.
!~ 1
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l ;~·
! •
1 1
140
t'I ,.
1 ,.
l'
'
r HISTÓRIA E HISTORIADORES

Em c ertos casos excepcionais, porém, a comparação poderá discernir rela- ·


ções extremamente antigas entre sociedades historicamente muito diferentes, de
onde não podemos evidentemente concluir, sem uma absurda temeridade, por
uma fifü1ção comum, mas que levam pelo menos a admitir a existência, numa
~po a muito recuada, de uma certa comunidade civilizacion~I. A ideia de utilizar
o esnudo dos costumes agrários para reconstituir o mapa étriico da Europa ante-
riorrrneme aos testemunhos escritos, ocorreu há muito tempo a diversos investi-
gadores. Kinguém ignora o grande esforço de Meitzen. Estamos hoje de acordo
em reconhecer que se enganou. Sem querer analisar em pormenor as causas desse
fracasso, s erá legítimo indicar com brevidade os erros de método essenciais que
deYem er tidos por responsáveis: 1) Meitzen confundiu o estudo de diversas or-
dens de factos que, para usar bem o método, devia ter começado por desligar:
habiwt e fonn a dos campos; 2) postulou o carácter «primitivo» de muitos fenó-
menos, observados na época histórica. muitas vezes bem perto de nós, esquecen-
do que podiam muito bem resultar de transformações relativamente recentes; 3)
agarrou-se. com demasiada exc lusividade, ao exame dos factos de ordem mate-
rial. a expensas dos costumes sociais de que os factos não são. de certo modo,
mais que 1radução sensível: 4) rete\ e apenas, como elementos étnicos, os grupos
hisroricamente atestados - Celtas, Gem1anos, Eslavos, etc - , todos acabados
de chegar ao seu habitar, recusando assim, de propósito, a acção à massa anónima
das populações anteriom1ente instafadas no solo - o «substrato», para falar
como os linguistas -- as quais nada indica, porém, que tenham sido destruídas
pelas invasões nem que tenham tidc que abandonar totalmente os seus antigos
costumes. Há uma grande lição a tirar destes erros; não é altura de abandonar a
investigação, é a de prosseguir com um método mais seguro e um espírito crítico
mais avisado. Doravante impõem-se algumas constatações de facto. O terreno ru-
ral de exploração fragmentar, campos estreitos e alongados, sem divisórias, co-
briu extensões imensas da Europa: Inglaterra, norte e centro da França, a Ale-
manha quase toda, bem como uma grande parte da Polónia e da Rússia. Opõe-se
a formas agrárias muito diferentes: os campos quase quadrados do sul de França,
os cercados, nas regiões ocidentais da França e da Inglaterra. Em suma, o mapa
agrário da Europa está em corn.pleta discordância com o seu mapa político e lin-
guístico. Talvez lhes seja anterior. Pelo menos, é uma das conjecturas que pode-
mos fazer. De momento, estamos a reunir os factos, não a explicá-los. Para nos

141
MAR C BLO C H

atennos à extensão tão impressionante, através de sociedades que tudo parecia


separar, do primeiro tipo de terreno assinalado atrás (parcelas comprid~s e aber-
tas com possessões fragmentadas), é por demais evidente, a priori, que hipóteses
explicativas muito diversas deverão ser ensaiadas cada qual por sua vez: não ape-
nas comunidade primordial de civilização mas também os contributos, a ÜTadia-;
ção em torno de um centro primitivo, de certos processos técnicos. Apenas uma
coisa é certa. Jamais explicaremos o open .fie/d inglês, o Gewand01f alemão, os
«campos abertos» franc es es olhando só, de cada vez, para a Inglaterra, para a
Alemanha ou para a França.
Por isso o ensinamento talvez mais claro e o mais imperioso que nos dá a
história comparada é que já é tempo, na verdade. de pensam1os em partir os com-
partimentos topográficos obsoletos em que pretendemos encerrar as realidades
sociais: não estão à medida do conteúdo que nos esforçarmos por empurrar lá
para dentro. Um erudito estimável escreveu uma vez um livro inteiro sobre os
Tem~·ios no Eure-et-Loir31. Sorrimos francamente a tanta ingenuidade. Mas
teremõ.s a certeza, todos nós, historiadores que somos, de não estar constante-
mente a cair no mesmo desvio? É certo que não se costuma transpor os depar-
tamentos para a Idade Média. Mas as fronteiras dos Estados actuais, quantas ve-
zes já não pensámos encontrar nelas um quadro cómodo para este ou aquele
estudo das instituições jurídicas ou económicas do passado? Duplo erro. Anacro-
nismo, primeiro, dos mais evidentes: que fé cega numa espécie de vaga predes-
tinação histórica pôde levar-nos a atribuir a estes vestígios um significado qual-
quer, uma existência pré-natal, se assim ouso dizer, anterior ao momento exacto
em que o jogo complexo das guerras e dos tratados as fixou? Erro de fundo tam-
bém, e que subsiste no mesmo momento em que. por um método aparentemente
mais rigoroso, escolhemos divisões políticas, administrativas ou nacionais con-
temporâneas dos factos que constituem o objecto de pesquisa: onde é que já se
viu os fenómenos sociais, seja qual for a época, deterem unanimemente o seu de-
senvolvimento nos mesmos limites que seriam precisamente os das dominações
políticas ou das nacionalidades? Toda a gente sabe que a demarcação ou, se se
quiser, a zona marginal entre os falares da língua de ofl e os da língua de oc, não
mais que a demarcação, para o lado gennânico, da própria língua de oi1, não cor-
respondem a qualquer fronteira de um Estado ou grande senhorio. O mesmo se
passa com muitos outros factos da civilização. Estudar as cidades francesas da

142
HIS TÔRIA E HISTORIADORES

Idade Média, por altura do renascimento urbano, é confundir numa mesma visão
dois objectos heterogéneos em quase tudo, salvo o nome: as velhas cidades me-
diterrânicas, centros tradicionais da vida das planícies, oppida habitados perma-
nentemente pelos poderosos senhores e «cavaleiros)); as cidades do resto da Fran-
ça, povoadas sobretudo por mercadores e recriadas por eles. Em compensação,
este último tipo urbano, com que golpe de tesoura, em tudo; arbitrário, poderemos
separá-lo dos tipos análogos da Alemanha renana? O senhorio na França medie-
\·al: o historiador que começou a estudar o norte do Loire, quando folheia textos
do Languedoc , não se sente muitas vezes muito mais perdido do que quando os
seus olhos se voltam para documentos do Hainaut ou mesmo do Mosela?
Em cada aspecto da vida social europeia, nos seus diferentes momentos, te-
mos que, se q uisennos finalmente sair do artificial, encontrar o quadro geográfico
próprio, detenninado, não de fora, mas de dentro. Busca incómoda que exigirá
muita prudência e infinitos tacteios. Recusar ver isso seria confessar a nossa pre-
gmç.a

V III

>;a prática. como trabalhar?


É evidente que a comparação só terá valor se se apoiar em estudos de facto,
pormenorizados, críticos e solidamente documentados. Não é menos evidente
que a pouca firmeza das forças humanas impede pensar, para as investigações
em primeira mão, em quadros geográficos ou cronológicos demasiado vastos. F a-
talmente, o trabalho comparativo propriamente dito estará sempre reservado a
uma pequena parte dos historiadores. Talvez já seja tempo, porém, de pensar em
organizar e, nomeadamente, dar-lhe um lugar no ensino universitário32. Mas não
vamos por isso dissimulá-lo: como os estudos particulares estão ainda, em muitos
domínios, muito pouco avançados, ele próprio irá progredir apenas muito lenta-
mente. É sempre a velha questão: anos de análise para um dia de síntese 33 . Mas
cita-se esta máxima demasiadas vezes sem lhe acrescentar o necessário correc-
tivo: a «análise» só será utilizável para a «síntese» se desde o princípio a tiver
em mira e se preocupar em a servir.
Aos autores de monografias há que repetir que têm o dever de ler o que se
publicou antes deles sobre assuntos semelhantes aos seus, não apenas, como to-

143
MARC BLOCH

I
dos fazem, a propósito da sua própria região, não apenas, ainda como quase todos
fazem , a propósito das regiões imediatamente vizinhas, mas também, o que mui-
tas vezes é esquecido, no caso de sociedades mais distantes, separadas daquelas
que estudam pelas condições políticas ou pela nacionalidade. Ousarei acrescen-
tar: não apenas manuais generalistas mas tamb ém, se possível, monografias por-
menori zadas, de natureza semelhante às que pretendem elaborar: por ~ia de re-
,: gra, são singularmente mais vivas e mai s ricas do que os grandes manuais. Nestas
leituras encontrarão eles os elementos do seu questionário e talvez hipóteses
orientadoras, próprias para conduzir a pesquisa até ao momento em que os pro-
gressos do trabalho aconselharem, pelo caminho fora, a rectificação ou o aban-
dono. Aprenderão a não ligar uma importância excessiva às pseudo-causas lo-
cais; ao mesmo tempo, adquirem uma sensibilidade às diferenças específicas.
A liás , convidar os eruditos para esta pesquisa preliminar através dos livros
não é propor-lhes um caminho unitário. Não quero ocupar-me em pormenor dos
j -:.:.. incómodos materiais. No entanto, não deixemos de recordar que são de monta.
As informações bibliográficas são dificeis de reunir; as próprias obras, de acesso
ainda mais penoso. Uma boa organização do fornecimento internacional pelas bi-
bliotecas que fosse mais rápida e extensiva a certos grandes países que até agora
1
têm guardado ciosamente as suas riquezas faria mais pelo futuro da história com-
I
parada do que muitos conselhos sábios. Mas o principal obstáculo é de ordem
intelectual: vem dos hábitos de trabalho, que sem dúvida não é impossível refor-
mar.
O linguista que, entregue especialmente ao estudo de uma língua, sente a ne-
cessidade de recolher algumas informações sobre as características gerais de ou-
tra língua não encontra, em geral, grandes dificuldades. A gramática que consul-
tar apresenta-lhe ·os factos agrupados segundo uma classificação que não anda
i longe da que ele próprio emprega e expõe-nos com a ajuda de fórmulas quase

iguais àquelas de que tem a chave. Mas o historiador tem muito menos sorte!
Bem familiarizado, por exemplo, com a sociedade francesa e desejoso de con-
j frontar este ou aquele aspecto com o que uma sociedade vizinha, digamos, a so-
ciedade alemã, pode oferecer de análogo, folh eia algumas obras consagradas a
esta última - nem que seja os manuais mais elementares - e bruscamente crê
penetrar às apalpadelas num mundo novo.
Diferença de língua? Não precisamente, pois nada impede, em princípio, que,

...
144
HISTÓRIA E HISTORIADORES

de uma língua para a outra, dois vocabulários científicos correspondam quase por
completo. As ciências da natureza dão-nos muitos_exemplos dessas concordân-
cr;r. o que é grave é que, da obra alemã para a obra francesa as palavras quase
nm ca co incidam. Com traduzir para Francês o Horige alemão? Para Alemão o
1t>1wncier francês? Entrevemos diversas traduções possívei~, mas são perífrases
€os dependentes do senhorio para Horigen) ou aproximações (Zinleute vale ape-
nas para os tenanciers constantes do censo, caso particular de uma noção mais
~ 1
geral.)-.) e são também. muitas vezes - como acontece com a equivalência que
propus para Hôrigen - expressões pouco usuais que os livros não empregam.
Ainda se esta ausência de paralelismo se explicasse por uma fidelidade dema-
siado obstinada, guardada por ambos os lados para o emprego das línguas vul-
gares medieva is, cujas divergências são um facto histórico que temos que acei-
tar. .. Mas longe disso! A maior parte destes tennos dissonantes foram os
historiadores que os forjaram ou pelo menos foram eles que definiram e alarga-
ram o seu sentido. Elaborámos, com ou sem razão, mais ou menos inconscien-
temente. vocabulários técnicos. Cada escola nacional construiu o seu sem se
preocupar com. a ,;izinha. A história europeia tornou-se assim uma verdadeira tor-
re de Babel. Dai resultam, para os investigadores inexperientes - e qual o in-
\·e::;tigaàor. afinal. que, saindo do seu domínio nacional, não merece este epíteto?
- os mais temíveis peri gos. Ao contactar com um trabalhador que estudava, num
país de passado germânico, um terreno comunal explorado por várias aldeias reu-
nidas, ou seja, o que as obras alemãs, pelo menos de uma certa data, chamam
uma Mark35, tive grande dificuldade em persuadi-lo de que existiram práticas
análogas e por vezes existem ainda fora da Alemanha, em inúmeros países, no-
meadamente em França; com efeito, para esta espécie de terreno, os livros fran-
ceses não têm uma palavra específica.
Mas a discordância de vocabulários mais não faz que exprimir uma falta de
hannonia mais profunda. De ambos os lados, quer se trate de estudos franceses,
alemães, italianos, ingleses, quase nunca se colocam as mesmas questões. Citei
atrás um exemplo deste perpétuo mal-entendido, a propósito das transformações
agrárias. Não seria muito dificil mostrar outros igualmente eloquentes: a respeito
da minisréria!ité, até há pouco tempo absolutamente ignorada, em França e em
Inglaterra, nas descrições da sociedade medieval; a respeito dos direitos de jus-
tiça, presentes nos diversos países segundo classificações totalmente diferentes .

145
MARC BLO CH

Será um historiador levado a perguntar-se se tal instituição ou tal facto do seu


passado nacional se encontra noutro lugar, e com que modificações, com que
atrasos de desenvolvimento ou com que expansão? Quase sempre, é-lhe impos-
sível satisfazer esta legítima curiosidade, pois quando não descobre nada a este
respeito nas obras que consulta, poderá sempre desconfiar que o s ilênçio dos li-
vros se explica pelo próprio silêncio das coisas ou pelo esquecimento de que terá
sido vítima um grande problema.
Neste Congresso, creio, falar-se-á muito da reconciliação dos povos pela his-
tória. Não temai s: não vou tratar aqui de improviso este tema entre todos delica-
do. A história comparada tal como a concebo é uma disc iplina inteiramente cien-
tífica, voltada para o conhecimento, não para a prática. Mas que diríeis de uma
reconciliação das nossas terminologias, dos nossos questionários? Antes do mais,
dirigimo-nos aos autores de manuais gerais: o seu papel como informadores e
como guias é primordial. De momento, não lhes pedimos que abandonem o âm-
-
l bito nacional em que habitualmente se encerram; é evidentemente artificial, mas
·as necessidades práticas ainda o impõem. Só pouco a pouco a ciência chegará,
·,;
~ neste aspecto, a uma mais justa adaptação aos factos. Mas pedimos-lhes desde
t
t
já que não esqueçam que vão ser lidos fora das fronte~ras. Suplicamos-lhes, como
•~ já fizemos para os autores de monografias, que vão buscar inspiração, para o seu
)
1
plano, para a enunciação dos problemas que levantam, para os próprios termos
., que empregam, aos ensinamentos fornecidos pelos trabalhos executados noutros
; países. Assim, mediante uma boa vontade mútua, uma linguagem científica co-
.
:1
mum - no sentido elevado da palavra, ao mesmo tempo colecção de signos e
ordem de classificação - ir-se-á progressivamente constituindo. A história com-
i
'r:i:;. parada, uma vez que se ·tome mais fácil de conhecer e de usar, animará com o
?s"''
·~ seu espírito os estudos locais, sem os quais não pode fazer nada mas que sem
t ela a nada conduzem. Numa palavra, deixemos, por favor, de conversar eterna-
mente entre histórias nacionais sem nos compreendermos. Um diálogo de surdos
em que cada qual responde de través às perguntas do outro é um veU10 artificio
f de comédia, bom para arrancar gargalhadas a um público bem disposto; mas não
é um exercício intelectual muito recomendável.

146
HISTÓRIA E HISTORIADORES

Notas
Este artigo reproduz um a co municação foita no passado mês de Agosto em Oslo, perante o Con-
:-res o internacional das ciências históri cas (secção históri a da Idade Média). Fico satisfeito por
poõer resta belecer os dese nvolvimentos c..iue o tempo muito limitado de que 'dispus me obrigara
a cortar no último momento. :
~ . Sem ter. nem de lon ge, a pretensão de elaborar um a bibliografia completa qu e aqui não viria a
propósito, c itarei a aloc ução de M. Henri Pirenne ao V" Congresso internacional de ciênc ias
históricas (Compte rendu. p. 17-32), ta1110 mais significativa quan to nos dá o pensamento de um
historiador que ilustrou uma obra de história nacional. e na própria Re1•11e de s.rnthi·se. para a lém
dos artigos d e M. Davillé (t. XXVll, 1913 ), concebidos num estilo diferente do estudo que se
segue, o de M . Henri Sée (t. XXXVI, 1923: retomado no volume intitulado Scie11ce et philosophie
de l 'h istoire, l 0928), bem co mo as reflexões de M. Henri Berr ( t. XXXV. 1923. p . 1 l ). Co mo
tentativas positivas de história comparada. o notá\ el artigo de M. Ch.-V. Langlois. «The com-
parative hi story of Eng land and Francc during the Midd le Ages». E11glish His torical Re1·ie11·.
1900, e, numa outra direcção, algumas páginas luminosas de Villes du Moyen ..fge , de M. Pirenne.
3. Ver sobretudo A. Mc illet. La Méthode comparatii'e en linguistique historique, 1925, aonde fui
buscar a ideia geral do desenvolvimento sobre as duas formas do método.
4. Moers des sauvages Américains comparées a UJ: moers des premiers temps, Paris, 1724; sobre a
obra, cf. Gilbert Chinard. L 'Amérique er /e rére e.r:o1ique dans la littérature française aux XVI'
et XVI{ siécles, 1913. p. 315 s.s_
5. J. Frazer. The G o!den Bough. :;~ ed .• l L p. 10. O exemplo escolhido por M . Meillet no e studo
eirado é difer~r..•e: é 1iraco das m.ve -ngações sobre .comos com animais.
6. l\[as naturalmente a const::1ação da « obrevivência» não basta. Mesmo assim, há que referi -la,
pois o facto interessante e que deYe ser explicado é precisamente a pem1anência do rito ou da
instituição em aparente di scordância com a situação nova.
7. O estudo das civilizações primitivas orienta-se hoj e, visivelmente, para uma classificação mais
rigorosa das sociedades que compara; não há qualquer razão para que o segundo tipo de método
que tento aqui distinguir não se aplique a estas sociedades como a outras. Por outro lado. é evi-
dente que ce11as vantagens da histó ria comparada, de horizonte restrito, tais como adiante se ex-
põem - sugestões de investigação, alertas contra as pseudo-causas loqis - pertencem igual -
mente a uma outra form a. Os dois aspectos do método têm características comuns; ta l não impede
que não devam ser cuidadosamente distinguidos. O estudo da monarquia sacra europe ia fornece
um exemplo bem nítido não só da incomparável utiliáade como dos limites de etn ografia com-
parada: esta. a ún ica capa? de nos pôr na v ia da exp licação psicológica do fenómeno , revela-se.
pela experiência, ahsolutame nte inapta para lhe esgotar a realidade; pelo menos, fo i o que procurei
demonstrar cm les Rois 1ha11111at11rges, nomeadamente p . 53 e 59. •
(8.) A mesma ideia ~ retomada em Apologie pour l'histoire.. ., p. 109 e 248.
9. Antecipo no que se segue co mo farei ainda ma is longe, a p ropósito das teorias de Meitzen
- o resultado de um traba lho sobre os sistemas agrários de que m e ocupo há muito tempo e
cujas conc lusõe s foram apresen tadas numa outra secção do C ongresso.
l O. Cap .. n" 64. e. 17 (ed. Boretiu s): «Ut unu squisque suos iuniores ditringat ut me lius ac me lius
oboedia nt et co ncentiant manda tis et praeceptis imperialibus.»
11. Décimo segundo concilio de Toledo (68 1), «a carta do rei Erviges»: Mansi, t . XI. col. 1025.

147
'.\1ARC BLOCH

12. Textos reunidos por Sanchez-Albornoz, «Las behetrias», Anuario de historia dei derecho
espaiiol, t. 1, 1924 , nas notas das páginas 183, 184 e 185. O estudo de M. Sanchez-Albornoz
· dá a mais segura e mais completa exposição do patrocinium visigodo. Note-se.· muito particu-
larmente, a passagem do Codex Euricianus, CCCX. que se aplicava originalmente ao buc-
celarius (so ldado privado) e reaparece na Lex Recessvindiana, V, 3, 1, com substituição da
palana buccellario pela expressão mais comprida: ei quem in parrocionio habuerit.
13. Lei de En-iges (680-687) recolhida, Lex Visig. IX, 2, 9, ed. Zeumer, in-4º. p. 378 , cf. Sanahez-
Albornoz, loc. cit., p. 194.
14. Maiores et potentiores: Cap. nº 133 (t. I, p. 263, I, 26), Padres; Diplomata Karolin, t. 1, nº 217;
Hisr. de Languedoc, t. II, pr. Col. 22. Ver E. Cauvet, Étude historique sur l'établissement des
Espagnols dans la Sptimanie, 1898, e lmbart de La Tour, «Les colonies agricoles et l'occupation
d..:s rcrrcs déscnes à l'époque carolingienne», em Questions d'histoire sociale et religieuse,
1907.
15. Alimentada de e lementos importados, a monarquia carolíngia foi por sua vez imitada. A sua
influ~ncia sobre as monarquias anglo-saxónicas parece não ter sido suficie ntemente estudada.
O útil ensaio de miss Helen M. Cam, Local govemment in Francia anel England. A comparison
<f the local administration and jurisdiction of the carolingian Enzpire with that of the wes1
saxon kingdom. 191 2, está longe de esgotar o assunto.
16.-Çf H. Prentout, «Les États provinciaux en France» em Bulletin of the Intemational Committee
-ef hístorical sciences, Julho de 1928 (Scienti.fic reports presented to th e sixth international con-
gress of historical sciences).
17. Alain Cbartier, no seu Quadriloge invectif, composto em 1422, põe na boca do cavaleiro as
falas seguintes {ed. E. Droz cm Les Classiques ji-ançais du Moyen Age, p. 30): «É vantagem
que têm os populares que a sua bolsa seja como a cisterna que recebe e recolhe as águas e
pingas de todas as riquezas deste reino ... porque a fraqueza das moedas lhes diminuiu o pa-
gamento dos deveres e das rendas que nos devem e o ultrajante orgulho que puseram no viver
e nas obras acrescentou-lhes o que todos os dias colhem e juntam.» Creio não ter encontrado
texto mais antigo onde esta constatação seja enunciada com maior clareza. Mas valerá a pena
prosseguir a pesquisa. Com efeito - demasiadas vezes o esquecem - o que importa na moeda
não é tanto o momento em que o fenómeno começou a m2nifestar-se (para determinar este ponto
de partida seria necessário remontar singularmente mais atrás) como aquele em que começou a
ser sentido. Enquanto os senhores não compreenderam que as suas contribuições estavam a
diminuir, evidentemente não procuraram os meios de obviar a essa p erda. Ora temos hoje al-
gumas boas razões para saber que a_desvalorização de uma moeda, cujo valor nominal per-
manece estável, escapa facilmente, durante um tempo que pode ser assaz longo, à consciê ncia
.• dos indivíduos interessados. Uma vez mais, parece que o problema económico se resolve num
problema psicológico.
18. A necessidade de estudos comparativos, os únicos capazes de dissipar a miragem das falsas
causas locais. foi excelentemente destacada por M. A. Brun no se u livro. notável a despeito a
algumas insuficiências, Recherches historiques sur l 'introduction du fiw1çais dans les provinces
du .\.fidi. 1923 (cf. L. Febvre em Revue de synthese, t. XXXVllI. 1924. p. 37 ss). M. Brun. é
s<ibido, provou que o Francês só a partir dos meados do século X\. conl<!ÇOU a conquiswr o sul.
Ouçamo-lo explicar as razões pelas quais, resignando-se de antemão a fazer dos documentos
apenas um exame incompleto, se decidiu a estender a sua pesquisa a todo o Midi, em vez de.
como tantos eruditos o devem ter aconselhado, explorar apenas uma região, mas explorá-la a

148
HISTÓRIA E HISTORIADORES

fu ndo. «Talvez tivesse sido preferível restringir o problema a uma província e esgotar a massa
documen tal que ai se o fe recesse. Segundo o método estrito, sim, mas na realidade ficávamos
expostos a graves erros de interpretação. Por exemplo, te.ndo escolhido a Provença e verificado
que o Francês foi aí uma inovação do século XV I, admitir-se-ia sem mais que se tratava de um
fac to consec uti,·o à união ( 148 1-1486 ). o que não é inco rrecto, mas teríamos percebido que a
causa profunda desce acon tecimento foi, não a união em si, mas a circunstância especial de a
união se prod uzir no século XV, num a viragem da nossa história,( e de a Provença participar
assim numa evolução co mum e sincrón ica a todos os países me ridionais? Uma investigação
locali zada teria apelado a uma explicação localizada e as características gerais - as únicas que
importam - do fenó meno teriam escapado» (p. XII). Melhor não se poderia dizer. O resultado
das invcstigaçõe.s de M. Brun é. por si só, um a expressiva defesa a favor do método que aqui
defend o.
19. Caracteres gér.éraux des langues germaniques , 19 17, p. VII.
20. J'i!lainagc! m E11gla11d, 1892. Naturalmente, a li teratura é considerável. Na realidade, fa ltam os
trabalhos de conjun to, mesmo em Inglês (ver no entanto Pollock e Maitland, The History of
Engl:sh La1~. 2" ed., t. 1, p. 356 ss. V. E 412 ss.), quanto mais em Francês, o que valerá, espero,
de ce:.cdpa ao esquematismo necessário da minha exposição.
2 1. :-.;.,, a ... ou renovada. O escravo, no tempo em que havia escravatura propriamente dita, teve,
e\ 1dentemente, nas relações com o seu senhor, o utro juiz que não ele próprio. O homem livre
dependia dos tribunais da tribo, do povo ou do rei. Os progressos da jurisdição senhorial -
aliás menos completos em Inglaterra do q•1e no continente - , o desenvo lvimento de uma fomia
nova de vínculo pessoal e hereditário, qualificada de não livre, haviam esbatido a velha con-
cepção e retirado o seu valor jurídico, sem provavelmente a apagar de todo nas consciê ncias.
O renascimento da jusiiça do Estado fé-la reYiver. O direito medieval, ao adaptar as suas con-
:;truçõcs à evolução dos factos, encomra-se assim, por várias vezes, alimentado por um velho
teso uro de representações populares, mais ou menos obscurecidas ao longo dos te mpos. Vere-
mos adiante (a propósito dos «serviços vis») um exemplo muito flagra nte.
22. Há uma outra forma, mais subtil, de falsa semelhança; duas instituições, em duas sociedades
diferentes, parecem visar fins semelhantes; mas a análise mostra que esses fins são na realidade
muito opostos e que as instituições nasceram de necessidades abso lutamente antinómicas. É o
que se passa com a herança medieval e o moderna, por um lado, a herança romana, por outro;
o primeiro, «conquista» do «individualismo» sobre o «velho comunismo familiam - o segundo,
pelo contrário, destinado a favorecer o pater familias todo-poderoso, saído, por conseguinte,
não de um «desmembramento» mas de uma prodigiosa concentração da família». Fui buscar
este exe1 nplo a um relatório de Durkheim (A nnée sociologique, t. V, p. 375), um dos nacos de
método mais consumados saídos da sua mão.
23. Hav ia, aliás, certa ambiguidade nesta expressão: «servitium» era mais vezes tido na li nguagem
jurídi ca inglesa - ou, melhor dizendo, na linguagem jurídica medieval em geral - como
cquivakn te da contribuição do que de serviço propriamente dito. Fico aqui pelo se ntido restrito.
24 . C itei alguns documentos, Revue historique du droit, 1928, p. 49-50.
25. Sobre este assunto. cf. o meu artigo em Mélanges d'histoire du Moyen Age ojferts à M. Ferdi-
11a11d lo1, 1925. p. 55 ss, onde aliás desprezei, erradamente, a aproximação aos factos ingleses.
26. L. IV. c. 11.
27 . Cf. Marc Bloeh, «U n probteme d 'h istoire comparée; la ministéri alité en France et e n Alle-
magne». Revue historique du droit fiw1çais et étranger, 1928, nomeadame nte p. 86 ss e infra,

149
MARC BLOCH

f.li p. 503-528, nomcadamen1c 525-526.


28. Era, de resto, o s ignificado o riginal (as relações entre 111a11s11s e 111a11ere são evidentes): a terra
tinha recebido o nome por causa da casa. «mãe do campo». como dizem os textos escandinavos.
O sentido derivado assumia um valor técnico: desapareceu com a instituição que designava; o
sentido inicial manteve-se ou reviveu. Naturalmente, podemos descobrir, aqui e além. algumas
sobrevivências do mansc na antiga acepção cadastral da pala vra: testemunhos atrasado s cuja
presença atesta o estado das coisas passadas e a revo lução geral a que escaparam~ apenas alguns
senhorios iso lados.
29. Cap . nº 273, e. 30 (t. II, p. 323). Somos tentados a aproximar deste texto a informação já dada
por Gregóri o de Tours (Hist. Franc. X. 7) sobre a fragmentação das possessiones, bases do
imposto fundiário romano -franco; mas não é aqui o lugar de examinar as relações do mal/Se
franco com o caput romano, problema entre todos de li cado.
30. La m éthode comparath·e en linguistique historiq11e, p. 82-83 .
31 . Ch. Metais, Les Templiers en Eure-et-Loir, 1896 . Os exemplos deste anacronismo são menos
raros do que se crê. Cito. no mesmo departamento: Henry Lehr. La R~{orme et les Églises réfor-
mées da11s le départe111e111 actuel d 'Eure-et-Loir ( 1523-1 9 12). 1912 - N uma região vizinha.
. I• abade Deni s, Lectures s ur l 'histoire de f 'ag riculture dans !e département de Seine-er-lvfarne .
'•
1830 (a maior parte do vo lume incide no período anterior à Revolução).
_ 32. Creio dever acrescentar uma consideração especial para as universidades francesas e que, por
··-·.·
1:
; I

i'
-
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esta razão, não teria sido adequado desenvolver em Oslo. O nosso ensino superior está garrotado
pelos programas de licenciatura e ainda mais estritamente, nas principais faculdades, pelos pro-
~;. gramas pa ra professor agregado, que este recebe já feito das mãos do júri. Nem uns nem outros
,,, se limitam, é ce rto, à história de França; comportam quase sempre questões de história es-
trangeira; mas, por motivos de ordem prática que são perfeitamente legítimos, consideram nor-
malmente cada uma d essas questões num âmbito nacional. De modo que o professor pode bem
ser levado a dar au las ou a dirigir traba lhos sobre as instituições inglesas ou alemãs, por exem-
plo, sob pena de ignorar os interesses. infinitamente respeitáveis. dos alunos que lhe estão con-
fiados, só excepcionalmente poderá reservar no seu ensino lugar para certos problemas que exi-
ge m imperi osamente ser hoje tratados pelo método comparati,·o: por exemplo, o regime
senh o ria l e vassálico na Europa ocidental, o desenvolvimento das sociedades urbanas, a
revo lução agrícola. Estando o ensino e o trabalho pessoal, pela própria natureza das coisas,
intimame.n te ligados e sendo de todo o interesse que se apoiem mutuamente, vê-se quanto esta
situação é prejudicial aos nossos estudos.
33. Exactamente: «Para um dia de síntese são precisos anos de análise» (Fustel de Coulanges, la
Gaule ro111ai11e. ed. C. Jullian, p. XIII, prefácio de 1875). Cf. As reflexões de M. M. Berr,
Bulleti11 du Centre internatio11al de sy nthese, Junho de 1928, p. 28.
34. Natura lm ente, também poderíamos dizer qualquer coisa como «lnhaber der Leihegütern; mas
·~' q uem usa tais expressões? Horige, por outro lado, não dá inteiramente renancier, o sentido é
mais geral. Em Espan hol. como pude verificar a propósito de uma tradução, não há literalmente
palana que pe rmita traduzir «tenure».
35 . O que hoje já não oferece dúvidas é que a palavra nunca teve sentido rigorosamente especiali-
ndo e deve ser tomada simplesmente, como Allemende. por equivak:nte de comunal ; cf. G . von
lklo w, « A llcmcnde und Markgenossenschaft», Vierte!jahrsclrr. fiir Sozial-und Wirt-
sclw/isKesch., 1903 .

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