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Durval Muniz de Albuquerque Júnior

Desassossegos Contemporâneos
ou quanto tudo parece estar em crise

Durval Muniz de Albuquerque Júnior


Professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte

Talvez a palavra que mais ouvimos nos últimos anos seja a palavra crise.
Com ela se busca expressar uma série de mudanças que estariam ocorrendo em
vários aspectos da vida social contemporânea, que marcaria um momento de
dúvida, de incerteza quanto aos rumos para os quais apontariam o desenvolvimento
de vários processos co-extensivos que estariam levando a alterações profundas
tanto nas práticas sociais, como em sua elaboração conceitual. Momento, portanto,
de desordem e de escassez de projetos e de utopias, de confusão política e teórica,
de ameaças de ruína e de estancamento econômico, social e cultural.
Todo este cenário teria como ator principal um sujeito chamado por alguns de
globalização, por outros de neoliberalismo, por outros de pós-modernidade, por
outros de sociedade pós-industrial, por outros de transculturalização, por outros de
sociedade da informação. Este sujeito avassalador e irresistível, como tantos outros
que já povoaram as narrativas históricas, estaria destruindo nossos lugares, nossas
origens, nossas tradições, nossas culturas e, notadamente, nossas culturas
populares; estaria modificando nossos destinos, dilacerando nossas identidades.
Este monstro devorador estaria nos deixando sem espaços próprios para onde
pudéssemos voltar, sem origens e tradições onde buscar nossa identidade, sem
cultura própria em que possamos buscar sentidos originais, autênticos, verdadeiros,
essenciais, substanciais. Agora o mundo nos apareceria como puro artifício, como
superfície sem fundo, como fragmentação sem sentido, um mundo desprovido de
referentes fixos, de apoios existenciais, um mundo nascido do trabalho de
desconstrução cultural feito pelas gerações anteriores, um mundo sem segurança,
sem firmeza, sem certezas, um mundo da angustia moral e do desassossego, como
já era anunciado na obra de Fernando Pessoa.1

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Sem deixar de considerar que vivemos um momento singular, como todos na
história, sem deixar de considerar que há especificidades neste processo de
mundialização dos fluxos econômicos, dos fluxos de signos e das relações de poder
que ocorrem nas últimas décadas, pela intensidade com que ocorrem, pela
velocidade e extensão das transformações que provocam, pelo grau de
desterritorialização de capitais, populações, instituições, matérias e formas de
expressão e subjetividades que significa, não posso deixar de problematizar
algumas certezas, alguns enunciados e algumas imagens recorrentes nos discursos
que tratam desta temática. Queria suspeitar um pouco de um certo consenso entre
os discursos que falam sempre a partir da perspectiva das perdas que seriam
ocasionadas por este processo. Como estamos todos de acordo que estamos
perdendo algo, tendemos a construir estes objetos perdidos com a imagem oposta
ao que consideramos ser a realidade do presente.
Se, vivemos hoje em um mundo onde os fluxos econômicos estão
completamente mundializados, imaginamos tempos onde teriam existido economias
nacionais ou locais totalmente autônomas e fechadas em si mesmas. Se, estamos
diante de relações políticas marcadas cada vez mais pelas decisões supra-
nacionais, imaginamos um tempo onde as soberanias nacionais eram
inexpugnáveis, onde o espaço político local estaria completamente distanciado das
decisões internacionais. Se, estamos diante da mistura cada vez maior de formas e
matérias de expressão culturais, ficamos imaginando um tempo onde as culturas
locais eram autênticas, originais, sem misturas, em que cada povo tinha suas
próprias tradições culturais, seus próprios costumes, produziam sentidos e
significações sem qualquer conexão com os que eram elaborados por outros povos
e culturas. Se nossas identidades pessoais, nacionais, locais, culturais, políticas,
profissionais, de gênero estão em crise é porque em algum momento da história, da
história de nosso país, da nossa história, tivemos uma identidade sem crises, ou
seja, sem mudanças, sem momentos de fragmentação, de reelaboração, de
mudança de rumo, sem conflito. Em algum momento, que não conseguimos saber
quando foi ou como foi, tivemos uma identidade não-problemática, uma identidade
clara, uma identidade fechada, sem angústia e sem desassossego. Uma identidade
que era espelho de nossa verdade de fundo, uma identidade que era a revelação de
nossa substância, que estava de acordo com nossa natureza, com nossa origem,
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com nossa história, com nossa cultura. Nosso rosto estava tranqüilo e nosso olhar
estava sossegado porque estávamos de acordo conosco mesmos, com nossos Eus,
porque nossas palavras e ações revelavam quem éramos verdadeiramente. Não
havia máscaras, não havia disfarces, não havia simulacros, todos estávamos
dispostos a viver de acordo com nós mesmos, os homens não estavam perdidos
porque sabiam o caminho a percorrer, o rumo a seguir, viviam na certeza de si
mesmos e dos outros, o mundo não estava cheio de traições e diferenças, estavam
todos satisfeitos com a vida, com a sociedade e consigo mesmos.
Olhando para a história, mesmo sabendo que ela é feita de inúmeras versões
interessadas e interessantes, só podemos concluir que este mundo que acabamos
de descrever só é possível ser imaginado através de utopias retrospectivas,
românticas, que projetem para o passado nossos desejos e aspirações para o
futuro. Nunca houve economias, organizações políticas, culturais e identidades
fechadas em si mesmas, completamente alheias ao estrangeiro, ao forasteiro, ao
invasor, ao colonizador, ao salteador, ao nômade, ao conquistador, ao missionário,
ao catequizador, ao apóstolo, ao artista, ao migrante, ao depredador, ao guerreiro,
ao mercador, ao traficante, ao diferente, ao estranho, ao exótico, ao bizarro, ao
fascinante, ao belo, ao bom de escutar, ao bom de falar, ao prazer de dançar, à
dádiva, ao sonho, à imaginação, ao desejo. Nunca houve nada no humano que não
seja relacional, que não seja abertura para o outro, para a diferença, para a
incômoda presença do estranho, fora e dentro de si mesmo. Portanto, todas as
fabricações humanas são conflitivas, complexas, ambíguas, são agônicas, nascem
da luta pela apropriação, pela colonização, pela nomeação, pela classificação, pela
dotação de sentido, de significado, de utilidade. Tudo no humano é desassossego, é
a busca incessante de construir um si mesmo com matérias que já lhe são alheias e
estranhas desde o princípio, pois na origem não se encontra a identidade senão a
dispersão e a interrogação que não cessa de problematizar-nos: Quem somos? A
resposta a esta pergunta é sempre a tentativa de construirmos tapumes para o
nosso vazio ontológico, a simulação constante de situações, identidades e conceitos
que pareçam tornar tudo perene, estático, cristalizado, garantido para sempre
apesar de todo fluxo, mutação, temporalidade, fuga, precipitação no vazio, portanto,
crise. Esta é nossa máxima verdade, somos seres sempre em crise, vivemos em

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crise, umas mais profundas, cruéis, intensas, conforme o grau de consciência que
delas temos e conforme elas nos atingem.
Podemos dizer que tudo que o homem fez de perdurável ao longo da história
foi em busca de evadir-se de sua finitude, de sua condição de ser mortal. Seus
impérios, monumentos, obras de arte, aparatos tecnológicos, conhecimentos
científicos, seus documentos e conquistas, suas formas de pensamento e escritura,
suas filosofias e religiões, foram formas de tentar algo de perene, de eterno, de
imortal, de contínuo, de único, algo de idêntico a si mesmo, algo que fosse vencedor
do caráter ruinoso do tempo. Em cada época o homem se mostrou inconformado
com as mudanças que se produziam ao seu redor, as considerou uma perda de si
mesmo, um distanciamento de seu rosto original, tentou freia-las ou buscou na
aceleração delas a chegada mais rápida a uma situação de equilíbrio, de redenção,
de perfeição dele próprio e da sociedade, onde finalmente os homens superariam o
desassossego, teriam paz, encontrariam com sua identidade perdida desde a
origem, recuperariam seu lugar neste ou no outro mundo. Em luta contra as forças
da dissidência, do descentramento, da corrosão, contra os processos divergentes,
contra o rizomático, o micro-político, contra as formas de resistência locais, parciais,
minoritárias, os homens construíram suas grandes máquinas de centralização, de
totalização, como o Estado, as instituições sociais, as metanarrativas. Máquinas de
captura dos micro-poderes, de colonização dos sentidos, das coisas e dos homens.
Macroestruturas que foram capazes de criar, por um certo tempo, a ilusão de
estabilidade, de imutabilidade, de eternidade, para por fim desmoronarem sob o
trabalho incessante do tempo e paciente das forças minoritárias de corrosão, de
resistência, de sabotagem.
Co-extensivo a tudo isso, a mesma pergunta a nos assaltar: Quem somos?,
desdobrada em mil outras questões e maneiras de se procurar uma identidade
contínua, imutável; identidade construída para esquecermos de nossa condição de
seres solitários condenados a viverem em grupo, seres abandonados neste mundo
onde tudo temos que criar, que inventar, que simular, até a natureza, os deuses e
nós mesmos. Porque, em princípio, somos nada e ninguém é que tudo inventamos;
na procura de dar sentido às nossas vidas, seja como individualidades, seja como
coletividades, produzimos, trabalhamos, consumimos, lutamos, conquistamos,
colonizamos, organizamos, exercemos o poder, nos submetemos, pensamos,
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amamos, gozamos, sonhamos, imaginamos, escrevemos, pintamos, representamos.
Porque a nossa natureza é a de negar a natureza que há em nós, de transmutá-la
em cada gesto, expressão ou movimento, realizamos, elaboramos corpos e
identidades corporais, tomamos o corpo como matéria prima para fazer com ele
milhares de estrias, de tatuagens, de marcas, de símbolos, de rituais que
corporificam a ordem social.
Nós que vivemos na América, filhos de um dos momentos de aceleração do
processo de mundialização dos fluxos de capital e das formas e matérias de
expressão culturais, filhos de nações que, recentemente criadas, já saiam em busca
de seu desdobramento para novos territórios, já buscavam colonizar novas terras e
povos, já tentavam impor suas verdades e suas identidades a quem consideravam
inferiores, ainda continuamos hoje fazendo esta pergunta. Séculos de luta, de
discursos políticos, de produção historiográfica, de textos literários, de obras de arte,
não foram capazes de dizer de uma forma definitiva afinal quem somos, não foram
capazes de desenhar para nós um rosto que pareça definitivo e veraz. Em cada
momento histórico nosso rosto foi desdobrado, reescrito, revisado, refeito, nossa
verdade dita, redita, desdita, nossa essência repensada, redefinida. Nossa
identidade sempre foi anunciada como estando em crise, como sendo falsa e, a
cada promessa de descoberta da verdadeira, nos encontramos com a constatação
que ainda não é essa nossa definição definitiva.
No Brasil, como em alguns outros países da América Latina, inicialmente se
tentou fundar a identidade nacional, o que quer dizer a identidade de suas elites,
numa pretendida continuidade com uma sociedade européia e branca. Mas, o que é
ser europeu? O que é ser branco? Não se chegou jamais a um consenso sobre isso.
Como podemos ser europeus se vivemos na América e se os europeus que nos
colonizaram não nos reconhecem como iguais? Então é melhor pensar que somos
produtos da mistura de raças, da mestiçagem de sangue e culturas. Mas, como
fundar a identidade a partir da idéia de mistura, de mestiçagem, se esta é a própria
negação da identidade? Se somos mestiços, tanto podemos dizer que somos
brancos, negros e indígenas ao mesmo tempo, como podemos dizer que não
somos nem brancos, nem negros, nem indígenas.Que curiosa identidade é essa que
se forma pela somatória de uma negação, pela afirmação da impossibilidade? Se
nossa cultura é produto da mistura das matérias e formas de expressão de
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diferentes povos, quem e o que define o que destes povos é nosso e o que não é
nosso? Porém, não seria mais difícil ainda dizer o que vem a ser uma cultura negra
e uma cultura indígena? De que negros estamos falando, a que indígenas estamos
nos referindo ao nomear suas culturas? Os negros com seus caracteres e suas
nações não foram em grande medida invenção dos brancos? Quem nominou eles,
inclusive de índios, não foram os brancos? Porém, quem são os brancos? Seriam
tão brancos assim, têm características físicas e culturais tão idênticas como se faz
crer? Vemos, portanto, quanto difícil foi e continua sendo a pergunta por nossa
identidade, seja esta nacional, seja esta cultural. O que tomamos como referente
para elaborar esta identidade? Este é o problema central de todo discurso identitário.
Se o próprio referente a partir do qual construímos a identidade tem também uma
identidade a ser definida, como sairmos deste círculo vicioso. Como podemos
sustentar um marco sobre um feixe de palavras, de enunciados, de imagens, ainda
que estes possam ter a durabilidade de uma pedra?
O que parece diferenciar nossa época das demais é que a compressão do
espaço e do tempo, a velocidade com que as construções identitárias se tornam
obsoletas, com que os referentes identitários entram em caducidade, nos permite
perceber de forma cada vez mais aguda o caráter convencional e histórico destas
elaborações. À medida que o tempo perde viscosidade, que o espaço perde
extensão, em que as vivências se intensificam, que as informações circulam de
forma cada vez mais rápida, que as relações sociais se complexificam, que os
conflitos se diversificam, que as matérias e formas de expressão a nossa disposição
são mais variadas, que modelos de identidade são oferecidos em quantidades cada
vez maiores, mais difícil vai se tornando sustentar os discursos identitários e as
categorias que permitiram criar identidades vão se mostrando mais frágeis e
questionáveis.
Se durante um certo tempo, pelo menos em boa parte do século XIX, não se
duvidava da possibilidade e da necessidade de se definir uma identidade para a
nação, para a região, para o povo, para os normais e os anormais, para os
trabalhadores e os não-trabalhadores, para os sexos, para as culturas, hoje
categorias como nação, região, povo, cultura popular, classe operária, burguesia,
masculino e feminino, heterossexuais e homossexuais, não são tão facilmente
definíveis em um único sentido; abarcam realidades que se mostraram plurais e
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polimorfas, têm, por isso, cada vez menos poder de definição, de descrição, de
circunscrição, de inteligibilidade. Estamos perdendo nosso vocabulário identitário,
nos estamos quedando sem palavras que possam definir em poucos traços o que é
o objeto que elaboramos como problema. O mundo parece estar se tornando mais
indefinido e indefinível, mais complicado. Já não podemos ter muitas certezas nem
quanto ao passado, nem quanto ao futuro, pois vivemos num presente que clama
por explicações para a qual ainda não dispomos de categorias muito elaboradas.
Mas, será que elas são ainda necessárias? Nossa sensação é de crise, de
desabamento, de queda, de desterritorialização, de fluidez crescente em nossas
realidades e nos códigos com os quais tentamos apreender o que nos ocorre.
Estamos em crise, vivemos em crise, somos seres em crise porque sentimos
de forma mais aguda hoje o caráter de fabricação e de invenção de nossas
identidades. Porém isto não é motivo para desespero, para tanto desassossego,
porque este fato também apresenta o lado positivo de pensarmos que o mundo está
em nossas mãos, que se as identidades não são naturais, nem eternas, podemos
modifica-las, podemos fazer delas o que quisermos, podemos desconstruí-las e
reconstruí-las, podemos reinventar nossas vidas, nossa sociedade, nosso país, não
como individuo dotado de uma identidade excepcional, porém enquanto participes
de relações, como elementos dos jogos de poder e de linguagem, como corpos
atravessados pelos múltiplos fluxos que compõem o social, fluxos econômicos,
fluxos de poder, fluxos de signos, fluxos de afetos que podemos redirecionar e
resignificar. Teremos, somente, que aprendermos a viver em desassossego, que
preparar nossa sensibilidade, nossa subjetividade, para viver em um mundo sem
sossego e sem amparo, porém um mundo onde tudo continua sendo possível, até o
nada.

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Notas
1
PESSOA, Fernando, Livro do Desassossego, São Paulo, Companhia das Letras, 1999.