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O PERCURSO DE TOMÉ, CHAMADO «GÉMEO»

Abril 7, 2018

1. Novos percursos se abrem, e é aqui que se inicia o Evangelho do Domingo II da Páscoa (João
20,19-31), que o Papa João Paulo II, em 30 de Abril do ano 2000, consagrou como «Domingo
da Divina Misericórdia». Os discípulos estão num lugar, com as portas fechadas, por medo dos
judeus. O Ressuscitado, vida nova e modo novo de estar presente, que nada nem ninguém
pode reter, vem e fica no MEIO deles, o lugar da Presidência, e saúda-os: «A paz convosco!».
Mostra-lhes as mãos e o lado, sinais que identificam o Ressuscitado com o Crucificado, e
agrafa-os à sua missão: «Como o Pai me enviou (apéstalken: perf. de apostéllô), também Eu
vos mando ir (pémpô)». O envio d’Ele está no tempo perfeito (é para sempre): está sempre em
missão; o nosso está no presente, e passa. O presente da nossa missão aparece, portanto,
agrafado à missão de Jesus, e não faz sentido sem ela e sem Ele. Nós implicados e imbricados
n’Ele e na missão d’Ele, sabendo nós que Ele está connosco todos os dias (cf. Mateus 28,20). É-
nos dito que os discípulos ficaram cheios de alegria ao verem (idóntes: part. aor2 de horáô)
com um olhar histórico (tempo aoristo) o Senhor. Tal como o Outro Discípulo (cf. João 20,8),
também eles veem com um olhar histórico (tempo aoristo) a identidade do Senhor. O sopro de
Jesus sobre eles é o sopro criador (emphysáô), com o Espírito, para a missão frágil-forte do
Perdão. Este sopro só aparece aqui em todo o Novo Testamento! Mas não é difícil construir
uma bela ponte para Génesis 2,7, para o sopro ou alento (napah TM / emphysáô LXX) criador
de Deus no rosto do homem.

2. A identidade do Senhor Ressuscitado está para além do rosto. Por isso, vê-lo não implica
necessariamente reconhecê-lo, como sucede em não poucas páginas dos Evangelhos. A
identidade do Ressuscitado não é do domínio da fotografia. Vem de dentro. Reside na sua vida
a nós dada por amor até ao fim, aponta para a Cruz. Por isso, Jesus mostra as mãos e o lado,
sinais abertos para entrar no sacrário da sua intimidade, dádiva infinita que rebenta as paredes
dos nossos olhos embotados e do nosso coração empedernido. Entenda-se também que a
missão que nos é confiada é mostrar Jesus. Está bom de ver que não basta exibir as capas do
catecismo que mostram um Jesus de olhos azuis e cabelo louro encaracolado. Só o podemos
mostrar com a nossa vida dele recebida, e igualmente dada e comprometida.

3. O narrador informa-nos logo a seguir que, afinal, Tomé (Toma’), chamado Gémeo
(Dídymos), não estava com eles quando veio Jesus. Dídymos é, na verdade, a tradução literal,
em grego, do aramaico Toma’ [= «Gémeo»]. Mas os outros diziam-lhe repetidamente (élegon:
imperf. de légô), imperfeito de duração, com a mesma linguagem da Madalena, mas no plural:
«Vimos (heôrákamen: perf. de horáô) o Senhor!» (João 20,25). Portanto, também eles são
testemunhas, pois viram e continuam a ver o Senhor, de acordo com o tempo perfeito do
verbo grego. Mas Tomé quer tudo controlado e verificado, ponto por ponto, e refere: «Se eu
não vir (ídô: conj. aor2 de horáô) com um olhar histórico (tempo aoristo) nas suas mãos a
marca dos cravos, e não meter o meu dedo na marca dos cravos e não meter a minha mão no
seu lado, não acreditarei» (João 20,25).

4. Novo desarme: oito dias depois, estavam outra vez os discípulos com as portas fechadas
(mas o medo já não é mencionado), e Tomé estava com eles. Veio Jesus, ficou no MEIO,
saudou-os com a paz, e dirigiu-se logo a Tomé desta maneira: «Traz o teu dedo aqui e vê (íde:
imper. aor2 de horáô) com um olhar histórico (tempo aoristo) as minhas mãos, e traz a tua
mão e mete-a no meu lado, e não sejas incrédulo, mas crente!» (João 20,27). Aí está Tomé
adivinhado, desvendado e desarmado. Também ele podia ter pensado: «E como é que ele
sabia que eu queria fazer aquilo?». Tomé cai aqui, adivinhado e antecipado, precedido por
Aquele que nos precede sempre. Não quer tirar mais provas. Diz de imediato: «Meu Senhor e
meu Deus!» (João 20,28), uma das mais belas profissões de fé de toda a Escritura. E Jesus diz
para ele: «Porque me viste e continuas a ver (heôrakás me), tempo perfeito de horáô,
acreditaste e continuas a acreditar (pepísteukas), tempo perfeito de pisteúô; felizes (makárioi)
os que, não tendo visto (idóntes: part. aor2 de horáô) com um olhar histórico (tempo aoristo),
acreditaram (pisteúsantes: part. aor. de pisteúô)!» (João 20,29), tempo aoristo. Esta felicitação
é para nós.

5. Notável o percurso dos Discípulos. Fechados e com medo, viram Jesus entrar e ficar no
MEIO deles, sem que as portas e as paredes constituíssem obstáculo. Trocaram o medo pela
alegria, e também eles começaram a ver de forma continuada o Senhor e a dizê-lo
repetidamente. Notável e exemplar para nós o percurso de Tomé, chamado Gémeo: não
estava com a comunidade, tão-pouco aceitou o seu testemunho; queria provas. Mas quando
veio Jesus e o adivinhou, precedendo-o e presidindo-o, entregou-se completamente! Tomé,
chamado Gémeo! Irmão gémeo! Irmão gémeo de quem? Meu e teu, assim pretende o
narrador. De vez em quando, também nós não estamos com a comunidade. Como Tomé,
chamado Gémeo. Por vezes, também duvidamos e queremos provas. Como Tomé, chamado
Gémeo. Salta à vista que também devemos estar com a comunidade. Como Tomé, chamado
Gémeo. E professar convictamente a nossa fé no Ressuscitado que nos preside (no MEIO) e
nos precede sempre. Como Tomé, chamado Gémeo.
6. A lição do Livro dos Atos dos Apóstolos (4,32-35, mas ver também 2,42-47 e 5,12-16) deste
Domingo II da Páscoa é outra vez soberba. Trata-se de uma visita guiada ao Cenáculo, a
primeira Catedral da Igreja nascente, mas com ramificações em todas as casas, em todos os
corações, bem assente em quatro colunas: o ensino dos Apóstolos (1), a comunhão fraterna
(2), a fração do pão (3) e a oração (4). Com a boca cheia de louvor, os olhos de graça, as mãos
de paz e de pão, as entranhas de misericórdia, a comunidade bela crescia, crescia, crescia. Não
admira. Era tão jovem, leve e bela, que as pessoas lutavam por entrar nela!

7. Nascer de Deus, amar a Deus e o Filho Unigénito de Deus, amar no Filho os filhos de Deus, é
a lição da Primeira Carta de São João 5,1-6. O critério é: se nascemos de Deus, então somos
filhos de Deus, e, sendo filhos de Deus, somos irmãos. E, se nascemos de Deus, também o
amor que nos vincula aos irmãos é de Deus. Amar a Deus é, então, o critério último da fé e da
caridade. A vida de Deus em nós, amar como Deus nos ama, permanece, portanto o único
critério verdadeiro. Na Primeira Carta de São João 4,20-21, tínhamos anotado o critério de que
o nosso amor a Deus é verificável no nosso amor ao próximo. Mas São Paulo adverte-nos com
sabedoria que o amor ao próximo pode fingir-se, pois podemos dar todos os nossos bens aos
pobres, e não ter a caridade verdadeira (1 Coríntios 13,3). Neste sentido, diz acertadamente
São Máximo Confessor (580-662) que «a Páscoa gera a fé e a fé gera o amor». A misericórdia é
a chama divina com que devemos acender e purificar o nosso coração.

8. Cantemos por isso o Salmo 118, que é o último canto do chamado «Pequeno Hallel Pascal»
(113-118), mas que era seguramente cantado noutras festividades de Israel, nomeadamente
na Festa das Tendas, tendo em conta o seu teor processional, e até a sua distribuição por
coros. Este Salmo levanta-se do meio da alegria própria da Festa («Este é o dia que o Senhor
fez,/ nele nos alegremos e exultemos!»: v. 24) e eleva ao Deus sempre fiel uma grande Ação
de Graças por todas as maravilhas que Ele tem realizado em favor do seu povo. Sim, toda a
nossa energia e toda a melodia que nos habita é o próprio Senhor, conforme o belíssimo v. 14:
«Minha força e meu canto YAH!», que soa assim em hebraico: ‘azzî wezimrat YAH. Além do
nosso Salmo, a expressão densa e impressiva encontra-se ainda em Êxodo 15,2 e Isaías 12,2.
YAH está por YHWH. O refrão que vamos cantar aparece a abrir e a fechar este grande Salmo,
e constitui como que o envelope onde guardamos a bela melodia que cantamos. Soa assim:
«Louvai o Senhor porque Ele é bom,/ porque para sempre é o seu amor!» (vv. 1 e 29).

9. Em tudo e sempre nos precede o nosso bom Deus com a iniciativa do seu amor primeiro e
misericordioso.
«O lugar para onde Eu vou,

Vós sabeis o caminho para lá», diz Jesus.

«Nós não sabemos para onde vais,

Como podemos saber o caminho para lá?»,

Retorquiu Tomé.

Tomé é como nós:

Não sabe trabalhar sem metas e objetivos.

E é em função das metas e objetivos,

Que escolhe caminhos e metodologias.

Deus disse a Abraão: «Vai do teu país

Para o país que Eu te fizer ver».

E o narrador diz-nos que «Abraão foi».

Para onde? Para qual país?

Não interessa.

Interessa é saber que uma mão segura nos guia,

E que o caminho que trilhamos nos conduz sempre ao destino.

É assim que faz Jesus também.

Não nos indica no mapa o lugar do destino,

Mas mostra-nos o caminho para chegar lá.

Por isso nos diz: «Vinde atrás de Mim…».


É assim a procissão e a peregrinação.

Ele vai connosco e à nossa frente.

Ele é o caminho, a mão segura,

A água pura,

O pão de trigo.

Ensina-nos, Senhor,

A caminhar contigo.

António Couto

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