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INSTITUTO SUPERIOR DE CIÊNCIAS

RELIGIOSAS

LUCAS DA SILVA RODRIGUES

Aspectos da Revelação no Antigo e no


Novo Testamento

RIO DE JANEIRO
2017
Introdução​1

A Igreja, nos seus documentos, no importantíssimo ​Dei Verbum​, nos fala sobre a Revelação,
sobre Deus que se revela e nos fala como amigos. Essa afirmação já ressalta a diferença do
Deus cristão para as demais crenças. Podemos ir mais a fundo e dizer que essa característica
não pode ser deixada de lado quando se fala da Revelação.

O Deus invisível deseja tornar-se visível. Escolhe seu povo e por meio dele se revela, o seu
querer torna-se acessível, não somente seu querer, mas seus atos extraordinários que
acompanham o povo de Israel ao longo da história. ​“Ele feriu o Egito em seus primogênitos,
porque o seu amor é para sempre! E fez sair Israel do meio deles, porque o seu amor é para
sempre!”​ (Sl 135, 10-11). O povo canta e relembra os feitos extraordinários evidenciando essa
relação próxima de um Deus que fala e age.

Em Cristo isso se mostra de forma plena e definitiva. nEle Palavra e Agir estão unidos, por Ele
todas as coisas foram criadas e é nele que todos os anseios do ser humano são saciados, tudo
isso é revelado de forma paulatina no contato pessoal que o Verbo Encarnado teve com seus
discípulos respeitando suas limitações na estrutura emocional, psíquica e afetiva e ensinando
pedagogicamente na convivência as Coisas do Alto.

Cristo disse que estaria conosco até a consumação dos séculos. Se referia a Si, à sua pessoa,
em vez de se referir ao Pai ou ao Espírito Santo. A partir disso a relação intima não acaba, mas
atinge sua plena realização Com Deus-Pai gerando a Cristo e Cristo gerando o seu corpo, ou
seja, a Igreja enviando o Paráclito para mantê-la na Verdade.

Abraão

Foi chamado por Deus para ir a uma terra que lhe mostraria. Nesse primeiro momento, Deus
tira Abraão de seu lugar de origem para um lugar que ele não sabia ao certo onde seria
fazendo com que este exercitasse sua fé. Nada foi prometido em termos metafísicos,
teológicos ou abstratos mostrando assim, que a revelação se dá em termos adequados aos
seres humanos com Deus prometendo coisas realmente palpáveis e visíveis que era o que
realmente cabia no entendimento do homem daquele contexto.

“Iahweh disse a Abraão: ‘Sai da tua terra, da tua parentela e da casa de teu pai, para a terra
que te mostrarei. Eu farei de ti um grande povo, eu te abençoarei, engrandecerei teu nome; sê
uma benção!’”​ (Gn 12,1)

A Revelação

Uma grande, senão a principal característica da revelação, é a forma como ela se concretiza,
através de palavras e acontecimentos. No antigo testamento podemos ver claramente os
acontecimentos extraordinários em que Deus intervém na história de seu povo libertando-o da
escravidão do Egito, o mesmo que havia prometido a libertação cumpriu o que havia dito com
a travessia do Mar Vermelho, agiu também protegendo seu povo do sol que castigava com a
nuvem que também o guiava e com a coluna de fogo que o protegia do frio a noite.
Ressaltados esses pequenos episódios da história de Israel já salta aos olhos a chave para
entender a Revelação. Ela não se destina simplesmente a informar o necessário para libertação
e salvação, ela se baseia no relacionamento que Deus quer ter com seu povo.

Revelação é palavra e evento, palavra porque Deus quer revelar sua vontade e evento porque
Ele cumpre o que fala no meio de seu povo. Firma aliança com seu povo ao pronunciar o
Decálogo citando o grande feito da libertação. ​“Eu sou Iahweh teu Deus que te fez sair da terra
do Egito, da casa da escravidão.”​ (Êx 20, 1b).

A palavra de Deus possui duas características:

● Dabar​: Manifestação do querer de Deus e de seu plano de salvação e possui um


aspecto conceitual
● Ruah​: É o aspecto dinâmico da palavra proferida. O que foi revelado de forma
conceitual adquire o aspecto ativo e realizador.

A Revelação de Deus ao homem tem o intuito de mostrar a que ele foi feito. Toda a Revelação
tem a ver com as exigências da alma humana. A promessa da libertação da escravidão, a
promessa da terra própria e uma nação mostram o caráter antropológico que a Revelação
respeita.

Mediação

As manifestações Divinas possuem vários aspectos: sonhos, revelações e teofanias são alguns.
A Moises pela sarça ardente, ao seu povo pela nuvem e pela coluna de fogo, a Abraão pelas
três figuras misteriosas no carvalho de mambré que se manifestam como simples figuras
humanas, mas aos poucos vai se evidenciando seu caráter divino.

A mediação se dá com Deus se valendo de pessoas para comunicar o desígnio de sua vontade.
Nem sempre se sabe exatamente qual a natureza das manifestações de Deus aos profetas
sejam por experiências sensíveis ou visões, porém no Antigo Testamento ​foram conservadas
algumas técnicas usadas no ambiente oriental sendo filtrados seus aspectos politeístas ​e que
nos profetas essas técnicas cairão em desuso.

Aliança no Antigo Testamento​2

A Aliança teve início em Abraão quando Deus lhe promete uma posteridade numerosa, uma
terra e que de sua descendência sairão reis. O rito da Aliança apresentado no livro do Gênesis
mostram que Deus é o realizador de tudo, Ele revela a Si mesmo e Ele mesmo realiza o pacto
com o seu escolhido. O homem não chega até

Quando o sol ia se pôr, um torpor caiu sobre Abrão e eis que foi tomado de grande pavor.
Iahweh disse a Abrão: "Sabe, com certeza, que teus descendentes serão estrangeiros numa
terra que não será a deles. Lá eles serão escravos, serão oprimidos durante quatrocentos anos.
Mas eu julgarei a nação à qual serão sujeitos, e em seguida sairão com grandes bens. Quanto a
ti, em paz, irás para os teus pais, serás sepultado numa velhice feliz. É na quarta geração que
eles voltarão para cá, porque até lá a iniquidade dos amorreus não terá atingido o seu
cúmulo." Quando o sol se pôs e estenderam-se as trevas, eis que uma fogueira fumegante e
uma tocha de fogo passaram entre os animais divididos. Naquele dia Iahweh estabeleceu uma
aliança com Abrão nestes termos: "À tua posteridade darei esta terra, do Rio do Egito até o
Grande Rio, o rio Eufrates, os quenitas, os cenezeus, os cadmoneus, os heteus, os ferezeus, os
rafaim, os amorreus, os cananeus, os gergeseus e os jebuseus."​ (Gn 15, 12-21)
Essa narrativa descrita no livro do Genesis mostra o caráter unilateral do pacto e que Deus e
quem realiza o a revelação de Si e é Ele que é o único verdadeiramente fiel para cumprir com a
Aliança.

A Plenitude da Revelação

A Revelação atinge sua plenitude com a encarnação do Verbo. Deus se faz homem e habita no
meio de nós. Mesmo assim, Cristo se revela de forma paulatina aos seus discípulos,
fazendo-os, com o passar do tempo no relacionamento pessoal com Ele, terem a certeza de
que Jesus é o Messias, e isso jamais se daria com uma explicação teológica de imediato.

Essa convicção provem do método da certeza moral no qual se envolve todas as capacidades
humanas, não somente intelectuais, mas emocionais, afetivas etc. É como alguém que ouve
uma pessoa querida e de muita confiança narrar um fato, acredita em tudo o que é dito
mesmo sem tê-lo presenciado e o repassa com todos os detalhes como se o tivesse.

Tal foi a convicção dos apóstolos ao iniciarem sua missão de pregar os ensinamentos de jesus e
tal é a natureza da revelação quando há uma plena relação de confiança entre Deus e seus
escolhidos e se vive e narra com propriedade aquilo que fora revelado como se ouve um fato
de uma pessoa querida e de confiança. Nisso se baseia a diferença entre o cristianismo e as
demais religiões.

A Tradição​3

Como antes falado, a Revelação se dá por meio do relacionamento de Deus com seus
escolhidos e não por especulações. São os frutos do impacto causado na alma de pessoas reais
ao conversar, ouvir, andar, ajudar, tocar e se sentarem à mesa com o Deus Homem que se
baseia a Sagrada Tradição e a Sucessão Apostólica, sem elas toda a teologia e até a própria
Revelação são puras informações destinadas a mostrar ao homem como se salvar.

Também se pode observar que faz parte do amor divino preservar integro tudo o que revelou
e é por esse meio que tudo permanece sem erro:

“Deus dispôs amorosamente que permanecesse íntegro e fosse transmitido a todas as gerações
tudo quanto tinha revelado para a salvação de todos os povo” ​(DV 7, Cap. II)

É com o auxílio do paráclito derramado no pentecostes que isto se dá. Tudo foi revelado e o
espirito Santo os lembrou de tudo o que foi falado.

A Tradição está no seio da igreja e é o que lhe dá sustentação ao longo dos tempos e a
caracteriza como o autêntico Corpo de Cristo, a autêntica Noiva e se dá a convicção de que Ele
permanece no meio de nós até a consumação dos séculos de forma sacramental. Essa forma
de ver a igreja nos chama a enxergar a cristo na comunidade, nos legítimos pastores e
principalmente nos sacramentos. O Senhor permanece no meio de nós pela vida da igreja.

Conclusão

Foram expostos alguns pontos importantes da Revelação no Antigo e no Novo Testamento.


Alguns personagens bíblicos a mais poderiam ser mencionados, mas tendo em vista o tema,
poucos nomes foram envolvidos no trabalho acima, citando apenas o necessário para
exemplificar os aspectos importantes da Sagrada Revelação que longe de ser um assunto fácil
é de grande valia para entender a fé católica e de como a veracidade da nossa fé salta aos
olhos. Se Jesus Cristo não deixou uma genuína igreja visível que fosse preservada de erro com
o auxílio do Paraclito até a consumação dos séculos, então Cristo falhou. A certeza das
promessas de Cristo não constituem uma fé cega, mas uma fé baseada em um fato concreto
de vivencia e não de especulação.

● Bibliografia
1​
Teologia da Revelação, René Latourrelle (Edições Paulinas,1972)
2​
Dei Verbum, CONSTITUIÇÃO DOGMÁTICA SOBRE REVELAÇÃO DIVINA (Paulinas, 19ª edição –
2011)
3​
Bíblia de Jerusalém, Revista e ampliada (Paulus , 1ª edição 2002)