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O Samba

Samba teve sua origem no inicio do século XX, entre 1915 e 1920 na Bahia, Rio de
Janeiro e São Paulo. Seu nome é, provavelmente, originário do nome angolano semba,
um ritmo religioso, cujo nome significa umbigada, devido à forma como era dançado.
Muitos pesquisadores apontam para os ritmos do maxixe, do lundu e modinha como
fontes que, quando sintetizadas, deram origem a ao samba moderno.

Sua primeira composição, gravada em 1916, se chama Pelo Telefone

Primeira composição classificada como samba a alcançar o sucesso, "Pelo Telefone"


marca o início do reinado da canção carnavalesca. É a partir de sua popularização que
o carnaval ganha música própria e o samba começa a se fixar como gênero musical.
Desde o lançamento, quando apareceram vários pretendentes à sua autoria, e mesmo
depois, quando já havia sido reconhecida sua importância histórica, essa melodia seria
sempre objeto de controvérsia, tornando-se uma de nossas composições mais
polêmicas em todos os tempos.

Quase tudo que a este samba se refere é motivo de discussão: a autoria, a afirmação
de que foi o primeiro samba gravado, a razão da letra e até sua designação como
samba. Todas essas questões, algumas irrelevantes, acabaram por se integrar à sua
história, conferindo-lhe mesmo um certo charme. "Pelo Telefone" tem uma estrutura
ingênua e desordenada: a introdução instrumental é repetida entre algumas de suas
partes (um expediente muito usado na época) e cada uma delas tem melodias e
refrões diferentes, dando a impressão de que a composição foi sendo feita aos
pedaços, com a junção de melodias escolhidas ao acaso ou recolhidas de cantos
folclóricos.
Outra versão, relatada por Donga a Ary Vasconcelos e ao jornalista E. Sucupira Filho,
é a de que "Pelo Telefone" teria surgido de uma estrofe a ele transmitida por um tal
Didi da Gracinda, elemento ligado ao grupo de Hilário Jovino. Já Mauro de Almeida,
que parece nunca ter-se preocupado em afirmar sua participação na autoria, declarou,
em carta ao jornalista Arlequim, ser apenas o "arreglador" dos versos, o que
corresponderia à verdade. "Pelo Telefone" foi lançado em discos Odeon, em
dezembro de 1916, simultaneamente pelo cantor Bahiano (foto) e a Banda da Casa
Edison.

Primeiro samba?

Em 1917, o samba Pelo Telefone se transformou no marco inicial da história


fonográfica daquele gênero musical. Historiadores, porém já registraram, em suas
pesquisas, gravações anteriores que podem ser reconhecidas como samba e que
comprovadamente foram gravadas antes da composição assinada pela dupla
Donga/Mauro de Almeida. O sucesso comercial de Fred Figner e sua Casa Edison, no
Rio de Janeiro, provocou o aparecimento de concorrentes no Brasil inteiro e uma
variedade enorme de selos fonográficos surgiu. A maioria de vida curta, mas que
acabou por contribuir culturalmente com a música popular brasileira e influir na
instalação da indústria fonográfica no país.

A gravadora Odeon, por exemplo, que registrou o chamado samba pioneiro, antes
dele já havia gravado, na série lançada entre 1912 e 1914, Descascando o
pessoal eUrubu malandro, classificados como sambas no próprio catálogo da fábrica.
Na série de 1912 a 1915 consta A viola está magoada de Catulo da Paixão
Cearense e interpretada por Bahiano e Júlia Martins, além de Moleque vagabundo de
Lourival Carvalho, também identificados como samba. Pelo Telefone tem o número de
série 121313, mas anteriores a ele são ainda Chora, Chora, Choradô (121057),
cantado por Bahiano, Janga (121165), com o Grupo Paulista, e Samba
Roxo (121176), comEduardo das Neves. O selo Columbia editou série entre 1908 e
1912, aparecendo nela como “samba” a gravação Michaella, interpretada por
Bartlet; Quando a Mulher Não Quer, com Arthur Castro, e No Samba, gravado por
Pepa Delgado e Mário Pinheiro. A Favorite Record gravava na Europa para a Casa
Faulhaber do Rio de Janeiro, entre 1910 e 1913, e em seu catálogo se encontra a
gravação Samba - Em Casa de Baiana, com o Conjunto da Casa Faulhaber,
identificada na abertura como “samba de partido-alto”. O disco tem o título simples
de Samba, sem indicação de intérprete ou autoria. O selo Phoenix também pertencia à
família Figner. Gravou de 1914 a 1918 para a Casa Edison de São Paulo.

Os sambas que nele aparecem são anteriores a 1915, ano da gravação 70.711(Flor do
Abacate), como provam suas numerações: Samba do Urubu (70.589), com o Grupo do
Louro, Samba do Pessoal Descarado (70.623), com o Grupo dos Descarados, Vadeia
Caboclinha (70.691), com o Grupo Tomás de Souza, e Samba dos
Avacalhados (70.693), com o Grupo do Pacheco, coro e batuque. Da mesma maneira
como existem dúvidas quanto à verdadeira autoria de Pelo Telefone, não se pode
concluir com inteira certeza qual o primeiro samba realmente gravado.

Outros compositores

A história oral menciona vários autores para o samba Pelo Telefone, mas
quando Donga fez seu registro na Biblioteca Nacional omitiu todos declarando ser seu
único compositor. As primeiras partituras, ainda na ortografia da época, que grafava
Telephone, exibiam apenas o nome de Donga. A grita que se seguiu não teve muitos
resultados, mas pelo menos serviu para que Mauro de Almeida (foto) fosse
reconhecido como um dos parceiros. O Peru dos Pés Frios, como era conhecido o
jornalista carnavalesco, aparece aqui em raríssima foto, mesmo porque faleceu pouco
tempo depois da gravação do samba, ficando todas as luzes apenas sobre Donga,
que delas sempre soube tirar proveito pessoal.

O sucesso cercou Pelo Telefone de aspectos os mais variados, fugindo da simples


conseqüência musical, de cair na preferência popular, no assobio das calçadas e na
cantoria das festinhas de subúrbio. Logo um sem-número de pais-da-criança
apareceu, cada um puxando a brasa para sua sardinha, todo mundo ignorando a
iniciativa de Donga (foto ao lado) em registrar oficialmente sua autoria na Biblioteca
Nacional.

Como se sabe, o samba vinha sendo cantado na casa de Tia Ciata de maneira
informal, como partido alto com a participação da dona da casa, emérita partideira que
com certeza introduziu nele seus improvisos, o mesmo fazendo seu genro Mestre
Germano e o "ranchista" Hilário Jovino.

Da cantoria, lá pelo ano de 1916, participavam também Donga, o jornalista Mauro de


Almeida - a quem Almirante credita a autoria indiscutível do samba -, João da Mata, o
dono do refrão, e o conflituoso Sinhô, que como autor da frase "samba é como
passarinho, está no ar, é de quem pegar", evidentemente tentou também se apossar
da paternidade da novidade. Ironizando a atuação de Aurelino Leal, o novo chefe de
policia do Rio de Janeiro, o samba teve seus versos fixados por Mauro de Almeida,
que nem assim foi reconhecido como co-autor no registro da Biblioteca Nacional.

Cantado em público pela primeira vez (segundo Almirante) no Cinema Teatro Velo, à
rua Haddock Lobo, na Tijuca, despertou de imediato a cobiça alheia e - com razão ou
sem ela - contestações quanto à autoria de Donga (foto ao lado) pipocaram de todos
os lados. A principal veio de Tia Ciata, criando uma briga que jamais chegou à
reconciliação, com um anúncio publicado no Jornal do Brasil garantindo que no
Carnaval de 1917, na avenida Rio Branco, seria cantado o "verdadeiro tango Pelo
Telefone dos inspirados carnavalescos João da Mata, o imortal Mestre Germano, a
nossa velha amiguinha Ciata, o bom Hilário, com arranjo do pianista Sinhô, dedicado
ao falecido repórter Mauro", seguindo-se a letra com o nome de Roceiro, denunciando
Donga nas entrelinhas:

"Pelo telefone/A minha boa gente / Mandou avisar / Que meu bom arranjo / Era
oferecido / Para se cantar - Ai; ai, ai / Leve a mão na consciência, / Meu bem / Ai, ai, ai
/ Mas porque tanta presença / meu bem? - O que caradura / De dizer nas rodas / Que
esse arranjo é teu / E do bom Hilário / E da velha Ciata / Que o Sinhô escreveu -
Tomara que tu apanhes / Para não tornar a fazer isso, / Escrever o que é dos outros /
Sem olhar o compromisso".

Não faltaram também os aproveitadores, que na esteira do êxito da gravação de


Bahiano correram atrás dos lucros que se imaginava para os autores de Pelo
Telefone (Mauro de Almeida jamais recebeu um tostão de direitos...). Carlos Lima
editou Chefe da Folia no Telefone; J. Meira registrou Ai, Si A Rolinha Sinhô, Sinhô e
Maria Carlota da Costa Pereira se apresenta como autora de No Telefone, Rolinha,
Baratinha & Cia.

A letra da música

Pelo Telefone (samba, 1917) - Donga e Mauro de Almeida - Interpretação:Almirante:

Bb-------------------------- Gm--------------- Cm--- F7


O chefe da folia pelo telefone manda lhe avisar
-----------------Cm-------------- F7-------------- Bb
Que com alegria não se questione para se brincar
--------------------------------Gm ---------------Cm---F7
O chefe da polícia pelo telefone manda lhe avisar
----------------Cm------------- F7-------------- Bb
Que na Carioca tem uma roleta para se brincar
: - Ai, ai, ai,
------------------------------F7
- Deixa as mágoas para trás ó rapaz
- Ai, ai, ai,
-----------------------Bb-------- F7 Bb F7 Bb
- Fica triste se é capaz, e verás :
---------Gm ----------------Cm
: Tomara que tu apanhes
----------F7-------------- Bb
Pra nunca mais fazer isso
----Gm----------------- F7
Tirar o amor dos outros
--------------------Bb
E depois fazer feitiço :
----------------Eb
: Ai se a rolinha (Sinhô, sinhô)
---------------Bb
Se embaraçou (Sinhô, sinhô)
------------------F7
É que a avezinha (Sinhô, sinhô)
----------------Bb
Nunca sambou (Sinhô, sinhô)
--------------------Eb
Porque este samba (Sinhô, sinhô)
-------------Bb
De arrepiar (Sinhô, sinhô)
-------------------F7
Põe perna bamba (Sinhô, sinhô)
------------Bb F7 Bb F7 Bb
E faz chorar

A versão do povo

No dia 20 de outubro de 1916, Aureliano Leal, chefe de polícia do Rio de Janeiro,


então Distrito Federal, determinou por escrito aos seus subordinados que informassem
"antes pelo telefone" aos infratores, a apreensão do material usado no jogo de azar.
Imediatamente o humor carioca captou a comicidade do episódio, que ao lado de
outros foi cantado em versos improvisados nas festas de Tia Ciata e registrado
rapidamente por Donga em seu nome, na Biblioteca Nacional. É lógico que os versos
"oficiais" eram diferentes daqueles que ridicularizavam o chefe de polícia. Sua versão
popular, a que corria na boca das ruas dizia:

"O chefe da polícia / Pelo telefone / Mandou avisar / Que na Carioca / Tem uma roleta
/Para se jogar /Ai, ai, ai /O chefe gosta da roleta,/ Ô maninha / Ai, ai, ai / Ninguém mais
fica forreta / É maninha. / Chefe Aureliano, / Sinhô, Sinhô, / É bom menino, / Sinhô,
Sinhô, / Prá se jogar,/ Sinhô, Sinhô, / De todo o jeito, /Sinhô, Sinhô, / O bacará / Sinhô,
Sinhô, / O pinguelim, / Sinhô, Sinhô, / Tudo é assim".

A letra registrada por Donga, que passou a ser conhecida como original e aparece nas
gravações até hoje, é alongada, homenageando o "Peru", o jornalista Mauro de
Almeida, co-autor da obra, e o "Morcego", Norberto do Amaral Júnior, conhecido no
Clube dos Democráticos. Incorpora também elementos do folclore nordestino:

"O chefe da folia / Pelo telefone / Manda avisar / Que com alegria / Não se questione /
Para se brincar. Ai, ai, ai, / Deixa as mágoas para trás / Ó rapaz! /Ai, ai, ai, / Fica triste
se és capaz / E verás Tomara que tu apanhes / Pra nunca mais fazer isso / Tirar
amores dos outros /E depois fazer feitiço...Ai, a rolinha / Sinhô, Sinhô / Se embaraçou /
Sinhô, Sinhô/ É que a avezinha / Sinhô, Sinhô / Nunca sambou / Sinhô, Sinhô,/ Porque
esse samba, /Sinhô, Sinhô, / É de arrepiar, /Sinhô, Sinhô,/ Põe a perna bamba / Sinhô,
Sinhô, / Me faz gozar, / Sinhô, Sinhô.O "Peru" me disse/ Se o "Morcego" visse / Eu
fazer tolice,/ Que eu então saísse / Dessa esquisitice / De disse que não disse. Ai, ai,
ai, / Aí está o canto ideal / Triunfal / Viva o nosso carnaval. / Sem rival. Se quem tira o
amor dos outros / Por Deus fosse castigado / O mundo estava vazio / E o inferno só
habitado.Oueres ou não / Sinhô, Sinhô, / Vir pro cordão / Sinhô, Sinhô / Do coração, /
Sinhô, Sinhô. / Por este samba".

Fonte: A Canção no Tempo (Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello), História do


Samba - Ed. Globo

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