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LUZ, ciência e muita ação

As histórias da 67ª Reunião Anual da SBPC São Carlos

LUZ, ciência e muita ação As histórias da 67ª Reunião Anual da SBPC São Carlos U

U FSCar

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Reitor Targino de Araújo Filho Vice-Reitor Adilson J. A. de Oliveira Diretora Executiva da FAI Lourdes de Souza Moraes Organizadores Adilson J. A. de Oliveira e Lourdes de Souza Moraes Coordenação Editorial Fabricio Mazocco e Rogério Gianlorenzo Texto Reinaldo José Lopes Projeto Gráfico e Diagramação Marcelo Ducatti Fotos Enzo Kuratomi Mateus Mazini Isabela dos Santos Heber Dutra Letícia Luchesi Victor Rosa Arquivo CCS Foto de Capa Mateus Mazini

© Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida ou transmitida por qualquer forma e/ou quaisquer meios ( eletrônicos ou mecânicos, incluindo fotocópia e gravação) ou arquivada em qualquer sistema de banco de dados sem permissão escrita do titular do direito autoral.

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Ficha catalográfica elaborada pelo DePT da Biblioteca Comunitária da UFSCar

U58L

Universidade Federal de São Carlos. Luz, ciência e muita ação : as histórias da 67ª Reunião Anual da SBPC São Carlos / Universidade Federal de São Carlos. -- São Carlos : UFSCar, 2016.

ISBN – 978-85-5979-003-0

1. Congressos e convenções. 2. Reunião da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. 3. Universidade Federal de São Carlos. I. Título.

CDD – 060 (20ª) CDU – 061.3

Aos alunos, servidores docentes e técnico-administrativos da UFSCar e às pessoas que participaram da 67ª Reunião Anual da SBPC

Um desafio iluminado 7 O mesmo sempre diferente 9 Capítulo 1 Da Amazônia ao interior paulista 12 Capítulo 2 O palco toma forma 16 Capítulo 3 Contagem regressiva 24 Capítulo 4 A maior vitrine da ciência brasileira 28 Capítulo 5 Brilho no olhar 36 Capítulo 6 Os saberes dos primeiros brasileiros 46 Capítulo 7 Viva a diversidade 52 Capítulo 8 Os percalços da bancada às prateleiras 58 Capítulo 9 Vamos sentir saudades 62 Doido de juízo ou loucura coletiva? 67 Números e equipe da 67ª SBPC 69

Um desafio iluminado

Em agosto de 2013, o Professor Targino de Araújo Filho, Reitor da UFSCar, me chamou ao seu gabinete para me dizer que iríamos concorrer para receber a 67ª Reunião Anual (RA) da SBPC em 2015. Seria uma excelente comemoração para os 45 anos da Universidade. Quando em julho de 2014, na 66ª RA que ocorreu na UFAC, fomos anunciados, foi um momento de grande alegria. O Professor Targino então me designou para coordenar toda a empreitada, pois não poderia se dedicar integralmente a essa tarefa. Confesso que fiquei apreensivo naquela hora, pois embora já tivesse organizado alguns congres- sos nacionais e internacionais, nada se comparava ao tamanho e à importância da RA da SBPC. Foram inúmeros desafios enfrentados, dentro e fora da UFSCar, para realizarmos este evento que foi de enorme importância para a cidade de São Carlos e toda sua comunidade acadêmica. A complexidade de ter mais de 10 mil visitantes diariamente, vindos dos mais diversos locais do Brasil, incluindo cien- tistas brasileiros e estrangeiros de alto gabarito, foi grande, mas conseguimos com sucesso realizarmos uma excelente reunião. Considero que uma das tarefas acadêmicas mais emocionantes e importantes que realizei até este mo- mento de minha trajetória foi ser coordenador local da RA SBPC em São Carlos. As pessoas que me en- contravam durante (e depois) do evento sempre me diziam que a RA tinha sido maravilhosa e que tudo funcionou perfeitamente. Os elogios não eram somente para a programação científica, que foi de primei- ra qualidade, mas também as propostas feitas pela UFSCar que envolveram a SBPC Indígena e a SBPC Inovação. Em particular a SBPC-Jovem e a SBPC-Cultural foram marcos para a UFSCar e para toda a comunidade são-carlense, que nunca tinha tido contato com um evento como foi a RA em São Carlos. Organizar a RA SBPC em São Carlos foi um grande desafio que somente foi possível com o apoio da Fundação de Apoio Institucional ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico – FAI•UFSCar e com a dedicação de estudantes, técnico-administrativos e docentes da UFSCar, totalizando mais de 800 pessoas dedicadas ao evento trabalhando com muito empenho. Neste time de pessoas, que com certeza amam muito a nossa UFSCar, gostaria de destacar pessoas que foram fundamentais para todo o suces- so que obtivemos. O nosso Prefeito Universitário, o Engenheiro Rogério Fortunato Júnior, com toda a sua equipe, representa a dedicação e carinho com os quais os integrantes da comunidade da UFSCar

receberam cada um dos visitantes durante o evento, pois sempre foi solícito e atencioso em tudo que foi necessário. Também tenho que destacar a Secretária Executiva da FAI, Roziane Loureiro Barbosa, que foi apelidada por nós de “0800-Roziane”, pois tudo que precisávamos ela atendia prontamente com uma extraordinária eficiência. Contudo, a pessoa mais importante de toda a organização local da RA SBPC em São Carlos foi, sem dúvida nenhuma, a Professora Lourdes de Souza Moraes, a Diretora Executiva da FAI, que foi a minha “fiel escudeira” em todos os momentos. Sempre com um sorriso e com uma solução, ela nos ajudou a resolver tudo que foi necessário, acreditando que faríamos uma das melhores reuniões da SBPC de todos os tempos na UFSCar. Tivemos um evento com muita luz, ciência e ação em São Carlos. Eu tive o privilégio de ter comigo pessoas com mentes e corações iluminados, cientes da importância da Ciência para o nosso país, e com capacidade de entrar em ação sempre quando foi preciso para deixarmos uma marca importante dentro dos 45 anos de existência da nossa UFSCar.

Adilson Jesus Aparecido de Oliveira Coordenador do Comitê Executivo Local da SBPC • São Carlos

O mesmo sempre diferente

Como definir as Reuniões Anuais (RA) da SBPC, que já chegaram a 67 edições? Maior evento científico do Brasil? Verdade. Participação de pesquisadores, professores e estudantes de vários locais do País? Também verdade. Programação com os assuntos mais atuais das diversas áreas e subáreas da ciência? Sim.

Conferências, mesas-redondas, pôsteres

Programação cultural? Necessariamente. Atividades de divulgação para crianças e adolescentes? Não podem faltar Enfim, as RA da SBPC guardam sempre as mesmas características, no entanto cada uma delas é dife- rente das demais. São comparáveis umas com as outras, mas somente até certo ponto. Não houve uma Reunião que tenha sido a melhor de todas, nem qualquer outra que pudesse ser considerada a pior. O que dá para garantir é que cada Reunião tem o seu jeitão específico – seu “cheiro”, sua “temperatura”, sua “química”, sua “alma”. Com a RA da SBPC em São Carlos, a 67ª, portanto não haveria de ser diferente. A UFSCar, por óbvio, emprestaria um tanto de sua ousadia congênita para o evento. São Carlos, pelo fato de ser a cidade com maior número de doutores per capita do Brasil, seguramente forneceria um ambiente previamente aquecido para discussões. Se a Reunião anteriormente realizada no Estado de São Paulo havia sido a 60ª, em 2008, na Unicamp – ou seja, há um bom tempo – também haveria que se colocar na balança que a SBPC nunca adentrara tanto no interior paulista. Enfim, a UFSCar fez a sua Reunião Anual, ao mesmo tempo igual e diferente de todas as anteriores e posteriores – e temos este formidável livro para contar sobre ela. A propósito, a ideia deste livro, pelo seu formato editorial e pela sua linguagem, já é um ponto de dife- renciação da RA em São Carlos em relação as demais. O texto leve, ao mesmo tempo literário e jorna- lístico, de Reinaldo José Lopes, e a organização temática dos capítulos nos oferecem um conjunto tal de informações, dados e situações que nos possibilita entender a complexidade que é realizar uma RA da SBPC (independentemente do lugar e por quem será realizada) e, simultaneamente, identificarmos as características que ficarão marcadas como próprias da Reunião na UFSCar.

? Sem dúvida.

Reinaldo – um jovem jornalista científico em plena maturidade profissional – traçou um painel preciso das principais etapas que envolveram a organização e a realização da 67ª RA, especialmente a partir da perspectiva da UFSCar: do reitor Targino de Araújo Filho, do vice-reitor Adilson Jesus Aparecido de Oliveira, da diretora executiva da FAI, Lourdes de Souza Moraes, e suas equipes, tanto as mais próxi- mas como as mais distantes, que somaram cerca de 800 pessoas. Trata-se de um relato cativante e esclarecedor, mesmo – ou principalmente – para quem já é veterano em Reuniões Anuais da SBPC. Do momento inicial, em 2013, quando manifestávamos nosso interesse em realizar novamente nosso encontro anual em terras paulistas, até o encerramento das atividades na UFSCar, em julho de 2015, este livro nos conta como foi a 67ª, dos bastidores aos palcos: seu cheiro, sua temperatura, sua química, sua alma

Helena Bonciani Nader Presidente da SBPC

Capítulo 1

Da Amazônia ao interior paulista

Nossa história começa num dos gabinetes do MCTI (Ministério da Ciên- cia, Tecnologia e Inovação), em Brasília, no ano de 2013. Helena Nader, presidente da SBPC, estava visitando o ministério e se encontrara com o engenheiro químico Oswaldo Baptista Duarte Filho, o Barba, ex-reitor da UFSCar, ex-prefeito de São Carlos e, na época, secretário de Ciência e Tec- nologia para a Inclusão Social do MCTI. Enquanto os dois conversavam, Helena mencionara a intenção de realizar a última reunião anual da SBPC daquele seu mandato no Estado de São Paulo.

“A SBPC tinha passado por uma série de universidades nas regiões Norte e Nordeste e a ideia era voltar

a fazer um evento no Estado de São Paulo”, conta o físico Adilson Jesus Aparecido de Oliveira, atual

vice-reitor da UFSCar. “De cara o professor Oswaldo sugeriu a UFSCar, ligou para o professor Targino

[de Araújo Filho, reitor da universidade] e ele topou.” Era um dos maiores desafios já enfrentados pela universidade do interior paulista, que nunca tinha abrigado uma reunião da SBPC ao longo de mais de 40 anos de existência. O vice-reitor conta que, no páreo para abrigar o evento em 2015, também estavam Porto Alegre, Brasília e Porto Seguro. “Porto Alegre, inclusive, aproveitou para exibir o vídeo que promoveu a cidade como sede da Copa do Mun-

do”, diz Oliveira. A analogia com o maior campeonato de seleções de futebol do planeta, aliás, continu- aria a acompanhar a equipe da UFSCar pelos meses seguintes, pela necessidade de planejar e executar um sistema de infraestrutura e logística extremamente detalhado, de forma a receber bem uma grande quantidade de visitantes. Nesse primeiro momento, representantes da universidade foram até a UFPE, no Recife, para obter as primeiras impressões sobre como realizar um evento daquele porte, mas o teste decisivo viria em 2014, quando o evento aconteceria na Universidade Federal do Acre. A ideia era preparar uma delegação da UFSCar que partisse rumo ao Estado amazônico com o objetivo de montar um estande por lá e enten- der os detalhes por trás da realização de um encontro nacional da SBPC. “A gente tinha outro problema, que era a grande probabilidade de que houvesse uma greve de servido- res em 2015, como de fato aconteceu”, conta o vice-reitor. A solução natural para minimizar esse risco foi envolver a FAI (Fundação de Apoio Institucional ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico) da UFSCar em todos os aspectos da organização da reunião, inclusive na jornada rumo à capital acreana.

A participação fundamental da FAI nesse processo foi coordenada por Lourdes de Souza Moraes, di-

retora executiva da fundação. Por problemas de saúde familiares, Lourdes não pôde ir para o Acre,

e coube ao assessor de comunicação Fabricio Mazocco a tarefa de preparar o estande da UFSCar e

enfrentar cinco horas de viagem de avião, com escalas em Mato Grosso e Rondônia, junto com outros colegas da FAI e da UFSCar propriamente dita: Diego Doimo, Mariana Pezzo, Tárcio Fabrício, Tuca Clapis Facundo, Beatriz Maia e Georgia Buainain.

Após esgotar seu estoque de chicletes nos longos voos (sua estratégia tradicional para tentar minimizar

as dores de ouvido nas várias decolagens e pousos), Mazocco e seus companheiros chegaram a uma Rio

Branco que tinha sido totalmente contagiada pelo clima da SBPC. “A primeira coisa que a gente percebeu é como a comunidade se envolveu com o evento. A segunda é que era uma loucura – a gente tentava se reunir com o pessoal da coordenação de lá e simplesmente não conseguia falar com as pessoas, porque eles estavam sendo muito requisitados, o tempo todo. Era professor correndo de um lado para o outro atrás de um parafuso que tinha faltado – todo mundo es- tava envolvido naquilo até o pescoço”, conta o jornalista. Enquanto tentavam entender melhor os desafios ligados à reunião anual, a equipe da universidade pau- lista aproveitava para fazer uma ofensiva de simpatia com seu estande. “Nosso mote era ‘Venha conhe-

“ORGANIZAR TUDO PARA ONTEM, OK?”

cer a nossa casa’ durante a próxima reunião da SBPC. Tínhamos informações sobre todos os centros da UFSCar no estande. Era julho, mas fazia um calor de rachar. Quando o pessoal do Acre parava para conversar conosco e mostrava animação com a ideia de vir para São Carlos no ano seguinte, eu fazia questão de ressaltar: ‘Gente, levem uma blusinha de frio, senão vocês vão estranhar’”, recorda Mazocco. “Foi muito gratificante ver o respeito com que o pessoal da UFAC via a UFSCar. É uma universidade que tinha acabado de criar seu primeiro doutorado, e as pessoas que vinham ao nosso estande diziam ‘puxa, que bacana, meu sonho é estudar na UFSCar algum dia’. E a reitoria de lá nos deu um tremendo apoio”, lembra Oliveira. No ano seguinte, um ônibus com estudantes acreanos faria por terra todo o caminho até São Carlos. Apesar do sucesso do evento no Acre, alguns percalços da organização por lá ajudaram a equipe da UFSCar a se preparar para os problemas mais críticos que poderiam ocorrer. “Eles tinham reformado um teatro para a cerimônia de abertura, e mesmo assim ficou muita gente para fora, era impressio- nante”, diz Mazocco. Embora várias redes de hotéis tivessem se programado para inaugurar novas uni- dades em Rio Branco para absorver o público da SBPC, o mau tempo e as dificuldades de transporte atrapalharam, e os hotéis não ficaram prontos a tempo. “Por causa disso, teve gente que precisou até ficar em motéis”, lembra o jornalista. “O pessoal da SBPC foi muito claro com a gente: por favor, não queremos mais motéis”, ri ele. Na cerimônia de encerramento do evento no Acre, a vinda da reunião para São Carlos foi anuncia- da oficialmente, com a presença de Mariana Pezzo, assessora de comunicação da reitoria da UFSCar, como representante da universidade. “A experiência no Acre foi muito boa para a nossa preparação. Um detalhe curioso é que os membros da diretoria da SBPC ficaram um pouco surpresos com a ju- ventude da nossa delegação que foi até lá [com vários membros na casa dos 30 e 40 anos]. ‘Cadê os professores?’, perguntavam. Mas eles logo perceberam que esses jovens eram muito competentes”, diz Lourdes, da FAI. “Quando a gente voltou e se reuniu, a primeira coisa que a gente disse foi: não temos tempo de sobra. Mesmo com um ano e meio de preparação, o pessoal do Acre ficou bem apertado. Tínhamos de orga- nizar as coisas para ontem. Para nós, a reunião da SBPC era mais ou menos como a Copa do Mundo:

tudo precisava estar pronto para quando todos chegassem”, brinca Mazocco.

Distribuição de tarefas na reunião SBPC Acre

Capítulo 2

O palco toma forma

Organogramas podem parecer burocracia sem sentido para quem nunca precisou coordenar uma equipe numerosa durante um evento de grande porte, mas alterações sutis nesse tipo de esquema ajudaram a comissão exe- cutiva da UFSCar a transformar a 67ª reunião da SBPC num sucesso. “É claro que a SBPC tem uma experiência enorme em fazer esses eventos, o que foi fundamental para nós, que nunca tínhamos feito nada do tipo”, diz Lourdes Moraes, da FAI. “O que nós fizemos foi adaptar o manual padrão do evento à nossa realidade.”

Entre esses detalhes importantes estava a questão da infraestrutura do evento. “No manual da SBPC, ‘in- fraestrutura’ parecia algo imenso, infinito, e a gente achou que era preciso fatiar aquilo, se não ninguém daria conta”, explica ela. Veio então a ideia de dividir o quesito em Infraestrutura I (basicamente o lado mais “físico” do evento, incluindo espaços de exposição, transporte, sinalização, limpeza, segurança, in- formática) e Infraestrutura II (mais logística, envolvendo acolhimento ao público, alojamento, alimenta- ção e saúde, por exemplo). Outra decisão importante foi a de reformular a estratégia de comunicação do evento. “No manual, isso estava mais voltado para o design, para a identidade visual da reunião, e a gente achou que poderia ir além na divulgação do encontro para o público e para a mídia”, conta o jornalista Fabricio Mazocco, hoje na CCS (Coordenadoria de Comunicação Social) da UFSCar. Um dos primeiros desafios dessa comissão de comunicação, aliás, foi criar o cartaz-símbolo da 67ª reu- nião, levando em conta que não havia nenhum elemento muito icônico capaz de “resumir” São Carlos e sua relação com a ciência brasileira. “No caso do Acre, havia os elementos da biodiversidade da Amazô- nia, a questão indígena. Em Recife também há elementos arquitetônicos e históricos muito claros. Mas com São Carlos a gente ia fazer o quê? Colocar uma foto da entrada da UFSCar, da USP, da Embrapa?”, questiona ele. A bandeira da cidade ostenta uma arau- cária, espécie que já foi abundante por lá – o que tam- bém não ajudava muito, na verdade. “Iam achar que a reunião aconteceria no Paraná”, brinca Mazocco. O que tirou a equipe desse impasse foi a intenção de abordar a vocação tecnológica e inovadora de São Car- los como um dos eixos da reunião, bem como o fato de que 2015 era o Ano Internacional da Luz, promovido pelas Nações Unidas. Usando a técnica de light pain- ting, na qual fontes de luz, clicadas por câmeras que registram exposições longas, podem formar imagens sofisticadas, a sigla SBPC foi transcrita em letras lu- minosas, dando à reunião um ar particularmente high tech, seguida do lema “Luz, Ciência e Ação”. O letreiro em luzes coloridas foi um dos atrativos do lançamento oficial da reunião em dezembro de 2014.

Seleção natural

Um curioso processo de seleção natural (por sorte, sem nenhum tipo de derramamento de sangue) ajudou a compor a equipe de 800 pessoas, das quais 400 eram monitores, que trabalhou em São Carlos durante a

Cartaz criado pelos designers da Coordenadoria de Comunicação Social Mateus Mazini e Marcelo Ducatti

Carlos durante a Cartaz criado pelos designers da Coordenadoria de Comunicação Social Mateus Mazini e Marcelo
“O TRA- BALHO PESO-PE- SADO”
“O TRA-
BALHO
PESO-PE-
SADO”

Área norte pronta para receber as instalações da SBPC São Carlos

SBPC. “Houve professores que estavam na comissão inicialmente e, quando viram o tamanho da tarefa, disseram que não seria possível ajudar”, explica Lourdes. Também era necessário um cuidado extra ao examinar o comprometimento dos monitores, todos alunos da universidade. “Você sabe como é aluno:

às vezes o pessoal começa muito empolgado e, quando vê que a tarefa vai ser trabalhosa, acaba dando no pé”, lembra o vice-reitor Adilson de Oliveira. A seleção de monitores foi capitaneada pela secretária executiva da FAI e do evento, Roziane Barbosa Loureiro. “A coisa começou com uma equipe muito grande e foi enxugando, até porque a gente abriu o jogo:

aqui a gente planeja, executa e avalia, do começo ao fim. Só deu certo porque havia metas muito bem estabelecidas, cada um sabia exatamente o que precisava ser feito”, destaca a diretora executiva da FAI. Uma dessas primeiras metas envolvia o emprego intensivo de motosserras: era preciso derrubar cerca de 2.000 eucaliptos na área norte do campus da UFSCar em São Carlos e, de quebra, fazer a terraple- nagem para acomodar as grandes tendas da reunião anual, um trabalho “peso-pesado” que jamais teria tido êxito sem a coordenação do prefeito universitário Rogério Fortunato Júnior. Não só isso. Junto com sua equipe da Prefeitura do Campus e dos engenheiros da FAI, foram os responsáveis por todo o sucesso da infraestrutura física do evento. Era preciso ainda pensar na melhor distribuição possível da sinalização do campus, para evitar que os recém-chegados se sentissem perdidos. “A gente fez dois trajetos diferentes, numa espécie de trabalho de campo mesmo: um reproduzindo o caminho que você faria de carro para a área da reunião e outro a pé, numa espécie de trilha ‘por dentro’, que a pessoa poderia fazer caso quisesse conhecer o lago e as outras áreas bonitas da UFSCar”, lembra Mazocco. A pé ou motorizado, o visitante teria à sua dispo- sição uma equipe de acolhimento na qual se destacavam funcionários aposentados da universidade, convidados especialmente para recepcionar os participantes da reunião. E era indispensável que todo

Padrão de sinalização distribuído em todo o Campus

A infraestrutura começando a ser montada o campus tivesse acesso a internet sem fio, algo
A infraestrutura começando a ser montada o campus tivesse acesso a internet sem fio, algo

A infraestrutura começando a ser montada

o campus tivesse acesso a internet sem fio, algo que até então não existia na universidade (no fim das

contas, foi possível disponibilizar 10 mil acessos wireless simultâneos, criando uma estrutura que ainda está em funcionamento e é considerada um dos principais legados deixados pela SBPC na UFSCar).

Não havia como fazer um evento daquele tamanho sem parcerias de todo tipo e, principalmente, sem

recursos financeiros. “Gastamos mais ou menos R$ 4 milhões com a reunião, e se eu tentasse tirar esse dinheiro do orçamento da UFSCar eu acabaria prejudicando a universidade”, diz o vice-reitor. Como o então ministro da Educação, Renato Janine Ribeiro, já havia sido membro da diretoria da SBPC, espe- rava-se que ele desse uma atenção especial à liberação de recursos para o evento – no fim das contas,

o dinheiro veio em cima da hora, mas veio. “Ficamos de cabelo em pé, porque tínhamos um limite de

tempo de 30 dias antes do evento para poder contratar a fundação, mas acabou dando certo.” Para a SBPC Cultural, alguns recursos vieram da lei Rouanet; a prefeitura de São Carlos prometeu apoio, e as

indústrias da região também ofereceram alguma ajuda. “Na Tapetes São Carlos, disseram que não era possível contribuir com dinheiro, mas perguntaram se nos interessava receber não sei quantos metros de tapetes e forrações. Eu disse que podia ser útil, lógico. Já a Electrolux nos emprestou um freezer e a Croma Soluções os carrinhos de golfe”, lembra Oliveira. Nesse processo de criação de parcerias, um desafio crucial foi vencer o desconhecimento da comu- nidade local em relação à SBPC, e mesmo o ceticismo dos que poderiam contribuir para um evento exitoso. “Eu estava falando com o meu irmão sobre a SBPC e ele me perguntou se tinha alguma coisa a ver com veneno”, lembra Mazocco, rindo (a referência que ele tinha na cabeça, claro, era o célebre inse-

Em visitas à Acisc (Associação Comercial e Industrial de São Carlos) e a outros locais, a

comissão executiva buscava ressaltar as oportunidades de negócios trazidas pela reunião – foi graças a

ticida SBP

).

Preparação da Praça da Ciência para receber o maior evento científico do Brasil

“DEPOIS DOS CABELOS EM PÉ AS OBRAS INICIAM”

22 LUZ, CIÊNCIA E MUITA AÇÃO As histórias da 67ª Reunião Anual da SBPC São
22 LUZ, CIÊNCIA E MUITA AÇÃO As histórias da 67ª Reunião Anual da SBPC São
22 LUZ, CIÊNCIA E MUITA AÇÃO As histórias da 67ª Reunião Anual da SBPC São
22 LUZ, CIÊNCIA E MUITA AÇÃO As histórias da 67ª Reunião Anual da SBPC São
reuniões na Acisc, por exemplo, que os taxistas são-carlenses foram informados sobre o público que

reuniões na Acisc, por exemplo, que os taxistas são-carlenses foram informados sobre o público que a cidade receberia e estamparam o cartaz da 67ª reunião em seus carros, o que ajudou tanto a divulgar o evento quanto a orientar os visitantes em busca de transporte. Por outro lado, foi mais difícil conseguir que empresas da área de alimentação apostassem no encontro. “A gente queria garantir para os visitantes uma refeição completa e relativamente barata, um prato feito, digamos, que pelo menos matasse a fome com tranquilidade”, lembra Lourdes. “Quando a gente dizia que estava esperando umas 10 mil pessoas por dia, ninguém acreditava. ‘Mas você garante esse público? E quantos vocês acham que vão comer todo dia?’, perguntavam. Vai daqui, vai de lá, convi- da um, convida outro, e nada”, diz ela. Um golpe de sorte acabou resolvendo esse impasse. Certo dia, enquanto a diretora da FAI estava parada na rua, com a bateria do carro pifada, esperando socorro, passou por ali uma amiga cujo filho, recém-formado, tinha acabado de inaugurar um restaurante cha- mado Cheiro de Fome. Os novatos acabaram topando o desafio. “Foi por meio deles que conseguimos os lanches para os monitores, para as crianças das escolas que visitavam a SBPC Jovem e também as refeições que serviram de âncora para a nossa praça de alimentação”, conta Lourdes. Se houve alguma dificuldade na tentativa de empolgar os empresários da região, a tarefa com as escolas da rede municipal e estadual de ensino foi bem menos penosa. Os prefeitos de São Carlos e Araraquara, por exemplo, comprometeram-se a divulgar a reunião e suas atrações para o público jovem, e o mesmo fez o então secretário estadual de Educação de São Paulo, Herman Voorwald, ex-reitor da Unesp. “Ele nos colocou em contato com a diretora de ensino da região de São Carlos, Débora Gonzalez Costa Blanco, e com outras diretorias de ensino das regiões vizinhas, e todos foram muito solícitos”, diz o vice-reitor da UFSCar. Além dos lanches, a organização disponibilizou ônibus que levavam as crianças até o campus e propôs um desafio aos alunos: um concurso de fotografias que explorassem a temática do Ano Internacional da Luz (as fotos seriam exibidas durante a SBPC Jovem).

Sequência da montagem da entrada do estande do MCTI

Capítulo 3

Contagem

regressiva

Como seria de esperar, os últimos meses e semanas antes da cerimônia de abertura foram caracterizados por um ritmo intenso de trabalho. Com o objetivo de oferecer uma maior variedade de opções aos visitantes que iriam comer na praça de alimentação, por exemplo, a organização decidiu convi- dar um conjunto de food trucks, novidade gastronômica que, até então, não havia chegado a São Carlos. Isso, porém, levou à necessidade de reformatar ligeiramente o espaço da praça de alimentação, de modo a oferecer pon- tos de energia elétrica, água, esgoto e internet aos restaurantes sobre rodas. Essa trabalheira quase foi em vão, conta o vice-reitor da UFSCar: “Até pra- ticamente a véspera do início da reunião, a gente não tinha um alvará para a atuação dos food trucks porque não havia legislação municipal específica sobre eles”. Na última hora, a prefeitura conseguiu resolver o problema.

Reunião da SBPC São Carlos vira notícia e agita a comunicação da cidade e da universidade

Para o caso de emergências de saúde, também foi preciso or- ganizar uma estrutura considerável, que ficou a cargo de Samir Celso Cesaretti, da FAI. “Essa era outra coisa que ninguém em São Carlos tinha noção exata de como fazer”, conta Lourdes Moraes. Após um levantamento minucioso da legislação sobre o tema, foi montada uma equipe de bombeiros civis, médicos, enfermeiros e até dentistas para atender o público da reunião, com ambulância e camas de hospital à disposição no próprio campus, bem como planos para levar rapidamente possíveis pacientes para os hospitais de São Carlos e Araraquara, se e quando fosse necessário. Ainda bem que não foi. Nesse meio tempo, a comissão de comunicação planejava como dar mais visibilidade à reunião. “O fato é que, até o começo de junho, embora o pessoal da cidade soubesse que a SBPC ia acontecer aqui, era como se a ficha ainda não tivesse caído”, conta o jornalista Fabricio Mazocco. Essa lacuna foi sanada na primeira semana do mês que antecedia a reunião, com a visi- ta de Helena Nader e do vice-reitor aos principais órgãos de imprensa da região. A EPTV (afiliada da Rede Globo em São Carlos) exibiu um vídeo sobre a reunião anual produzido pela própria equipe da UFSCar e a rádio Intersom FM promoveu uma série de entrevistas, além de outras mídias e orgãos de im- prensa que ajudaram a divulgar o evento. Jornalistas de todo o Brasil começaram a se cadastrar para a cobertura do evento, e os diferentes órgãos de comunicação da UFSCar se articularam para montar uma espécie de redação multimídia própria, capaz de divulgar o que acontecia na reu- nião por meio de releases, programas de rádio e TV e interven- ções constantes no Twitter e no Facebook. No total, a universi- dade mobilizou cerca de 50 pessoas para a tarefa, que incluiu até a produção de imagens aéreas com o auxílio de drones. Um resultado espontâneo dessa articulação foi que o prédio da Rádio UFSCar, colocado à disposição dos membros da impren- sa que cobririam a SBPC, acabou sendo rebatizado informal- mente como Centro de Mídia. A coisa ficaria por isso mesmo se não fosse pela visita da comitiva do então ministro de Ciên- cia, Tecnologia e Inovação, Aldo Rebelo, que preparava a vinda

pela visita da comitiva do então ministro de Ciên- cia, Tecnologia e Inovação, Aldo Rebelo, que
pela visita da comitiva do então ministro de Ciên- cia, Tecnologia e Inovação, Aldo Rebelo, que

“O PLANO B”

E UMA PLATEIA

CHEIA!

dele e de todo o seu gabinete para a cerimônia de abertura. Em dado momento, um dos assessores de Aldo disse: “Fabricio, estamos quase terminando aqui e depois vamos para o Centro de Mídia”. Nisso, o reitor Targino, que estava por perto, questionou espantado: “Centro de Mídia? Que diabos é isso?” – e caiu na gargalhada, já que nem havia sido informado a respeito. Na reta final da organização, outro problema que precisou ser resolvido foi o do local para a cerimônia de abertura da reunião. Em tese, estava tudo certo para que a UFSCar ganhasse um novíssimo centro de convenções, com capacidade para 3.600 pessoas. “O pessoal andava brincando que esse era o famoso lance da SBPC”, conta o vice-reitor Adilson de Oliveira, lembrando que outros locais que sediaram o evento no passado recente, como as universidades federais de Goiás e do Maranhão, aproveitaram a reunião anual para requisitar recursos usados para construir prédios com a mesma finalidade. “O projeto do nosso centro de convenções, inclusive, tinha como base o de Goi- ânia. Só que havia um detalhe: em São Carlos venta muito mais do que em Goi- ânia, o que levou o engenheiro responsável a ficar preocupado com os riscos à estrutura do teto e a recalcular toda essa parte da obra”, recorda Oliveira. Além disso, as chuvas atrapalharam o progresso dos trabalhos, sem falar na liberação relativamente lenta de verbas. Resultado: não foi possível entregar o centro de convenções a tempo – o vice-reitor espera que isso aconteça até o final de 2016, concluindo a atual gestão da reitoria. O plano B para a abertura foi o Bazuah Centro de Eventos, que acabou recebendo quase 2.000 pessoas na noite de domingo. “Recordo que a organização pediu uma cerimônia rápida e que eu falasse só três minutos, mas eu respondi: ‘Olha, vocês me desculpem, mas com o tanto que eu trabalhei para realizar essa reunião, acho que mereço falar mais do que três minutos’”, conta o vice-reitor. Em um momento raro na história de São Carlos, dois ministros de Estado, se- cretários estaduais, presidentes de orgãos de fomento à pesquisa e de associações científicas, entre outros, compuseram a mesa de abertura. Os discursos de praxe das autoridades estiveram longe de ser as únicas atrações do evento. Numa bem-vinda mistura de ciência e arte, a professora Yara Gal- vão Gobato, do Departamento de Física da UFSCar, apresentou ao piano uma obra do compositor brasileiro Edmundo Villani-Côrtes intitulada “Luz” – em homenagem, é claro, ao Ano Internacional da Luz, e também como referência ao próprio trabalho acadêmico de Yara, que versa sobre as propriedades ópticas de diferentes materiais. Enquanto o piano soava, um texto de divulgação científica com forte carga poética, escrito por Adilson de Oliveira, era lido para a plateia.

Abertura oficial do evento

O mercado

sem peixe

Nem o cuidado quase obsessivo com os detalhes foi suficiente para evitar alguns imprevistos quando a

reunião finalmente começou.

O mais inusitado deles talvez

possa ser descrito como a invasão de “ambulantes” na segunda-feira. “Às 8h da manhã, a nossa Praça da Ciência, tão linda, tão bem pensada, estava repleta de barraquinhas sem que ninguém tivesse

pedido autorização”, conta Lourdes, para quem esse foi

o momento mais estressante

do evento. “Algumas coisas eram de artesanato, a gente até podia pensar em aceitar, mas o mais comum eram

esses produtos ‘importados’

– bom, para ser sincera, era

muamba mesmo”, diz ela. Os ambulantes suspeitos alega- ram que a SBPC autorizava a presença deles em todas as

reuniões anuais, mas a dire- tora da FAI não deu o braço

a torcer e conseguiu que

eles se retirassem dali até o fim do dia, com a ajuda dos vigilantes do campus. “Eu não podia deixar que aquilo virasse um mercado de pei- xe”, esbraveja Lourdes. Outra ameaça à tranquilidade (e ao bolso) dos participantes foi um grupo de vendedores de terno preto, saídos sabe-se lá de onde, que seguiam o tra- dicional esquema de “brinde de revistas” comum em aero- portos e rodoviárias – aquele no qual o vendedor sai dizendo “Senhor, já pegou seu brinde?” e depois tenta empurrar uma assinatura de revista para os incautos. Esse incômodo, por sorte, também durou pouco. Pelo resto da semana, crianças, jovens e adultos puderam acompanhar uma das progra- mações científicas e culturais mais ricas do país, como vere- mos nas próximas páginas.

Capítulo 4

A maior vitrine da ciência brasileira

Os pesquisadores reunidos no maior evento científico da América Latina iniciaram os trabalhos na segunda-feira de manhã, dia 13 de julho de 2015, recebendo uma espécie de choque de realidade, capaz tanto de ressaltar as possibilidades de sua área no país quanto de deixar claro o tamanho hercú- leo dos desafios diante deles – ou quão embaixo é o buraco, para usar uma linguagem um pouco menos rarefeita.

De fato, a apresentação feita às 10h daquele dia pelo então ministro da Ciência, Tecnologia e Inovação, Aldo Rebelo, poderia muito bem ser enquadrada naquele velho dilema: você quer primeiro a boa ou a má notícia? Começando com a parte boa dos dados apresentados pelo ministro: a edição de 2015 da pesquisa sobre percepção pública da ciência no Brasil, coordenada pelo CGEE (Centro de Gestão e Estudos Estratégicos), confirmou o aparente interesse elevado dos brasileiros pelo tema, que já vinha aparecendo nas versões anteriores do levantamento. Mais de 60% das quase 2.000 pessoas entrevistadas em todas as regiões do país se disseram interessadas em ciência, um número que, ao menos no papel, supera o dos que se declaram interessados em política, esporte ou arte. Cerca de 80% dos que parti- ciparam da pesquisa declararam que a área científica deveria receber mais verbas; quase três quartos dos entrevistados disseram que a ciência é uma atividade que só traz benefícios ou, pelo menos, mais benefícios do que malefícios, num nível de otimismo que supera o existente nos Estados Unidos ou em países europeus. Há, porém, o lado desanimador da equação: embora os brasileiros digam adorar a ciência, a esmaga- dora maioria deles não sabe quase nada sobre o trabalho científico realizado em seu país. Só 13% deles conseguem citar o nome de uma instituição científica nacional, e meros 6% se lembram do nome de um cientista do Brasil (em geral, gente do começo do século XX, como o indefectível Santos Dumont).

“O fato é que infelizmente não temos celebridades da ciência – nem pessoa física, nem pessoa jurídica”, lamentou Rebelo ao comentar os resultados do levantamento.

A apresentação contou com a presença de Helena Nader, presidente da SBPC, e Jacob Palis, que à época

presidia a Academia Brasileira de Ciências. Helena classificou os dados como “emocionantes”. “Mos- tram que eu preciso trabalhar mais”, brincou ela.

Trabalho, de fato, não faltou ao longo da reunião, e o próprio Rebelo chegou a São Carlos aparentemen-

te disposto a mostrar serviço – o ministro trouxe todo o seu ministério à cidade e passou alguns dias

participando da SBPC. Apesar de ter chegado ao MCTI marcado por algumas opiniões polêmicas e por uma aparente falta de familiaridade com a área – antes de ser ministro, Rebelo declarou várias vezes que desconfiava do papel da ação humana nas mudanças climáticas globais, por exemplo –, o político causou uma impressão positiva na UFSCar, diz o vice-reitor Adilson de Oliveira. “Descobri que o Aldo era um cara que te ouvia – e não apenas te ouvia como fazia a pergunta certa na sequência”, conta ele. Justamente por congregar a maior e mais tradicional sociedade científica do país, o encontro anual da SBPC se caracteriza pela enorme diversidade de temas e pela interdisciplinaridade. Quem passou pelo evento pôde ter acesso a debates e conferências sobre o estado da arte de áreas tão variadas quanto a biologia sintética (que busca construir genomas “sob medida” para as mais variadas funções), a des- criminalização do aborto ou as diversas facetas (físicas, médicas ou culturais) do fenômeno da luz, um “gancho” adotado pela reunião como parte das comemorações do Ano Internacional da Luz, estabele- cido pela Unesco. Além da interação entre as diferentes áreas do conhecimento, a programação também dedicava espe- cial atenção às implicações econômicas, sociais e políticas da pesquisa científica. Um aspecto óbvio

30 LUZ, CIÊNCIA E MUITA AÇÃO As histórias da 67ª Reunião Anual da SBPC São
30 LUZ, CIÊNCIA E MUITA AÇÃO As histórias da 67ª Reunião Anual da SBPC São

As tendas

gigantes

Quase dois meses antes do início do evento, várias equipes, vindas de várias partes do país, chegaram à UFSCar para “cons- truir” nada mais, nada menos, que seis mil metros quadrados de tendas. É a ExpoT&C, uma das principais atrações das reuniões da SBPC. Imagina uma área imensa, in- teira forrada de carpete, com ar condicionado e iluminação per- sonalizada. Em cada espaço, ou estande, uma surpresa. Ao todo foram 37 expositores, dentre eles a própria UFSCar; os minis- térios da Ciência, Tecnologia e Inovação e da Defesa Nacional; editoras acadêmicas, dentre as quais a EdUFSCar; agências de fomento, como a Capes

e a Fapesp; universidades; o

Serviço Alemão de Intercâmbio Acadêmico; empresas de base tecnológica, Senai, Sebrae, e tantas outras instituições. No estande do MCTI, por exem- plo, as mãos acionavam uma luz que atravessava todo o ambien-

te. Nas laterais, a história da luz era contada por holografia. A Finep, como sempre, inovou

e trouxe uma sala de cinema,

com direito a sessões durante o evento, pipoca e muita ciência na tela. Também foi montado, pela UFSCar, o museu interati- vo a céu aberto “Caminhos do Conhecimento”, um museu que conta a história das diversas áreas do conhecimento. Já no estande da Fapesp, o visitante conferiu os principais resultados científicos obtidos pelos 17 Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão e suas ações para transferir, compartilhar e difundir o conhecimento gerado em benefício da sociedade. No estande da Marinha, o visitante participava de uma batalha naval. E dá-lhe bombas para todos os lados, o que atraiu adultos, mas principalmente os pequenos navegadores, que mergulharam no infinito mar de ciência.

O MUNDO ENCANTADO DA CIÊNCIA

dessa visão é como fazer com que as descobertas da ciência cheguem ao público e contribuam para que os cidadãos tomem decisões bem informadas. A reunião foi palco, por exemplo, do lançamento de dois grandes guias sobre museus de ciência – um de toda a América Latina e Caribe, em sua primeira edição, e a terceira edição da versão brasileira do guia. O trabalho, realizado pela RedPOP (Rede de Popularização da Ciência e da Tecnologia na América Latina e no Caribe), em parceria com o Museu da Vida da Fiocruz e com o Escritório Regional da Ciência da Unesco, mostra que a falta de acesso e as desigualdades regionais ainda dificultam o acesso de muita gente a esses museus: no Brasil, de 268 instituições do tipo, 155 ficam no Sudeste. As imensas possibilidades da biodiversidade brasileira foram outro foco das apresentações durante a reunião. Carlos Alfredo Joly, professor da Unicamp e coordenador do programa Biota, um ambicioso projeto de levantamento da biodiversidade paulista financiado pela Fapesp, apresentou ao público do evento o Ipbes (Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos), ou “IPCC da Biodiversidade”, como tem sido chamado. A ideia é que a plataforma internacional consiga sintetizar informações relevantes sobre a biodiversidade planetária numa escala semelhante ao que o IPCC tem feito com as mudanças climáticas. A expectativa é que o primeiro relatório global do Ipbes seja divulgado em 2019. Enquanto essa data não chega, pesquisadores coordenados pelo Instituto de Física da USP de São Car- los (IFSC-USP), e incluindo também cientistas de outros campi da USP, da Unesp e da Unicamp, uni- ram-se para dar um impulso maior à produção de novos medicamentos baseados na biodiversidade vegetal do Brasil. O projeto, apresentado por Glaucius Oliva, do IFSC-USP, tem tido avanços conside- ráveis, e um de seus objetivos é trazer ao mercado o chamado “Prozac fitoterápico”, com base numa planta da mata atlântica cujo extrato tem propriedades ansiolíticas. As reuniões da SBPC também costumam funcionar como uma espécie de encontro marcado com a história da ciência no Brasil, quando grandes nomes que ajudaram a construir a pesquisa no país se encontram com a futura geração de cientistas. Em São Carlos, um desses momentos marcantes, afirma Oliveira, foi a palestra sobre bioética do médico William Saad Hossne, professor emérito da Unesp de Botucatu e ex-reitor da UFSCar entre 1979 e 1983. Hossne, que faleceria em 13 de maio de 2016, aos 89 anos, foi uma figura central para o estabelecimento dos comitês de ética em pesquisa com seres hu- manos Brasil afora e ainda era presidente do Conselho de Curadores da UFSCar. “Era impressionante ver aquele professor com quase 90 anos de vida, sem Powerpoint, sem um papelzinho na mão, dar uma aula fantástica sobre bioética”, conta o vice-reitor.

de vida, sem Powerpoint , sem um papelzinho na mão, dar uma aula fantástica sobre bioética”,
de vida, sem Powerpoint , sem um papelzinho na mão, dar uma aula fantástica sobre bioética”,
de vida, sem Powerpoint , sem um papelzinho na mão, dar uma aula fantástica sobre bioética”,
60 conferências, 74 mesas-redondas e 52 mini-cursos A sombra do futuro As apresentações durante a

60 conferências, 74 mesas-redondas e 52 mini-cursos

A sombra do futuro

As apresentações durante a reunião deixaram claro como o conhecimento cien- tífico será crucial para enfrentar as transformações de grande escala causadas na biosfera pela ação humana nas últimas décadas. Ainda sob o impacto da seca de verão que ameaçara o abastecimento de água das regiões mais populosas do Sudeste brasileiro em 2014 e 2015, o público do evento ouviu com apreensão a conferência do meteorologista Paulo Nobre, do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais). Entre os dados apresentados por Nobre, muitos dos quais ainda inéditos à época, o mais impressionante talvez tenha sido o de que, nas últimas décadas, a “conta corrente hídrica” da maioria das regiões do Brasil tem ficado no “cheque especial” – em resumo, temos usado mais água do que as chuvas foram capazes de repor. Não é coincidência o fato de que, no sistema Cantareira, o mais ame- açado pela recente crise hídrica paulista, houve também uma redução da média de chuva nos meses de verão, de 1.000 mm para 800 mm na última década. Outro conferencista, José Galiza Tundisi, do IEE (Instituto Internacional de Ecologia), defendeu que o desastre de 2014-2015 deveria ajudar os brasileiros a repensar a maneira como enxergam os recursos naturais. “Antes aprendíamos que as cores da nossa bandeira significavam abundância do ouro, das riquezas, dos recursos naturais. Tínhamos a cultura da abundância. Agora, temos de mu- dar para a cultura da escassez”, afirmou Tundisi, destacando ainda que só 30% do esgoto brasileiro é tratado. Não vai ser possível sair dessa enrascada, que é ao mesmo tempo global e local, sem mais e melhor ciência – a qual, de preferência, seja ouvida por quem tem o poder nas mãos.

Capítulo 5

Brilho no olhar

“Gente, vocês têm de entender que o robozinho está indo para Marte”, ex- plicava o monitor do estande da AEB (Agência Espacial Brasileira) a uma plateia incrivelmente atenta. “Vai demorar alguns minutos para que a gente consiga mandar instruções para ele, uma de cada vez. Então, a gente tem de planejar muito bem os movimentos do robô. Se a gente quer que ele saia daqui e vá até lá, de quantos comandos ele vai precisar?”

Quase dava para escutar os impulsos elétricos disparando de um neurônio para o outro da meninada, tentando resolver o enigma proposto pelo monitor (e, mais tarde, programando elas mesmas os mo- vimentos simples do pequeno rover, uma versão rudimentar dos jipes robóticos que têm explorado

o Planeta Vermelho nas últimas décadas). O estande da AEB é apenas um exemplo do universo de

possibilidades que podia ser explorado pelos estudantes e pelas famílias que puderam visitar a SBPC Jovem e os espaços adjacentes durante a reunião anual da sociedade em São Carlos. Num país em que raras escolas, sejam elas públicas ou particulares, possuem bons laboratórios ou mesmo bibliotecas, era palpável a empolgação das crianças diante da possibilidade de ver e ouvir de perto as peças do quebra- cabeças fascinante que é a ciência moderna (e muitas vezes até tocar nelas, dependendo do estande).

Tradição em divulgar ciência

Reunir atrações para a SBPC Jovem não foi uma tarefa especialmente complicada numa região como

a de São Carlos, onde já existem há bastante tempo instituições e grupos que se dedicam a trazer o

conhecimento científico para mais perto do público jovem. Algumas iniciativas com tradição na área são as do CDCC (Centro de Divulgação Científica e Cultural), da USP de São Carlos, e o Núcleo Ou- roboros de Divulgação Científica, ligado ao Departamento de Química da UFSCar. O Ouroboros usa a linguagem do teatro para abordar diferentes facetas da ciência, e a diretora do núcleo, Karina Omuro Lupetti, química de formação, coordenou a SBPC Jovem em São Carlos. “Além dos grupos ligados à área aqui na cidade, há caravanas de outros que sempre acompanham as reuniões da SBPC, como os que estão ligados à Associação Brasileira dos Museus de Ciência e vêm do Rio de Janeiro, de Belo Horizonte ou do Amazonas, por exemplo”, conta Karina, que também nunca tinha ajudado a organizar um evento com a magnitude da reunião da SBPC. A estimativa é de que, no ápice e último dia do evento, o chamado Dia da Família na Ciência, que ocorreu no sábado, dia 18 de julho de 2015, cerca de 20 mil pessoas tenham passado pelas mostras. Lidar com tanta gente não é brincadeira, e a coisa só deu certo graças ao comprometimento das cente- nas de monitores, todos selecionados entre os alunos da UFSCar. “O pessoal que chegou na minha mão era extremamente comprometido. Era gente que precisava disponibilizar oito horas e no fim disponibi-

lizava 20, foi incrível”, diz Karina. O trabalho do batalhão de colaboradores ajudou, entre outras coisas,

a evitar filas muito longas nas atrações mais procuradas e a direcionar os visitantes aos estandes que

desejavam visitar. “Nesse ponto, a divulgação da mídia acabou atraindo muita gente para alguns luga- res – todo mundo queria ver o dinossauro de realidade virtual, por exemplo”, recorda a coordenadora. No conjunto de atrações, apesar do peso dado à temática do Ano Internacional da Luz, a diversidade imperava. Havia experiências clássicas de física, estandes sobre educação ambiental e energias renová- veis, viagens ao universo da astronomia, da nanotecnologia e da paleontologia. Houve até a presença de uma jiboia amazonense vivinha da silva, que as crianças e os pais podiam acariciar sem maiores sobressaltos. “Ainda bem que a cobrinha era tranquila, porque foi uma semana intensa”, brinca Karina.

CIÊNCIA &

DIVERSÃO

DIVERSÃO &CIÊNCIA 39
DIVERSÃO &CIÊNCIA 39
DIVERSÃO &CIÊNCIA 39

DIVERSÃO

&CIÊNCIA

DIVERSÃO &CIÊNCIA 39
DIVERSÃO &CIÊNCIA 39

Entre as inúmeras atrações da SBPC-Jovem havia uma que despertava a atenção das crianças. A possi- bilidade de realizar uma viagem pelo tempo e pelo espaço na busca de um átomo de carbono. Memó- rias de um carbono era uma instalação interativa na qual os visitantes por meio de uma experiência

sensorial pilotavam uma espaçonave que partia da praça central de São Carlos para alcançar o espaço e também podia voltar no tempo dos dinossauros na busca de um átomo de carbono. A surpresa era que no final a imagem das próprias pessoas se transformavam em átomos de carbono. Na interface com a SBPC Cultural, o Ouroboros, em parceria com o grupo Olhares, emocionou os visitantes com o espetáculo Lucis est vita, cuja intenção era mostrar aspectos da luz retratados por pessoas que não enxergam – todo o elenco é formado por pessoas com deficiência visual, num espectro que vai de atores cegos desde o nascimento, passando por participantes que perderam a capacidade de enxergar ao longo da vida, até pessoas com baixa visão. “Temos gente fantástica nesse grupo, como um músico autodidata que toca seja o lá que você colocar nas mãos dele, como taças de vidro – é uma habilidade inata que ele tem”, conta Karina.

O trabalho do Ouroboros usou referências históricas – como a vida do cangaceiro Lampião, que per-

deu a visão em combate – e locais, como a Rádio UFSCar (já que as ondas de rádio, como as da luz

visível, são parte de um único espectro eletromagnético), para mostrar as múltiplas possibilidades do tema. Já a mais famosa equação de Einstein, a indefectível E = mc2, junto com algumas das descober- tas de Isaac Newton e Galileu Galilei, foram metamorfoseadas em performances circenses pelo grupo Estação do Circo.

A tradicional ExpoT&C, além de ser uma das maiores - foram duas tendas que totalizavam uma área

de 6 mil metros quadrados – e mais importantes mostras de Ciência, Tecnologia e Inovação do país, encantava os visitantes ao apresentar o fantástico mundo da ciência. Na edição de São Carlos, sob o tema “Luz, Ciência e Ação”, a ExpoT&C arrancou suspiros das crianças com idade de zero a 100 anos! Expositores, como institutos de pesquisa, universidades, agências de fomento, entidades governamen-

tais e outras organizações divulgaram novas tecnologias, produtos e serviços e os Ministérios da Ciên- cia, Tecnologia e Inovação, da Defesa Nacional e da Educação trouxeram o que havia de mais moderno e atual nas políticas públicas do setor. Outra atração que buscou o diálogo com o Ano Internacional da Luz foi produzida pelos próprios alunos que estavam visitando a SBPC Jovem: uma exposição de fotografias sobre o tema da luz, que surpreendeu a todos pela qualidade das propostas, diz Karina. “A gente acabou nem precisando fazer uma seleção de algumas das fotos. Exibimos todas nas telas, porque tinha muita coisa boa. Como eu conheço pessoalmente alguns dos professores da rede pública que participaram, cheguei até a per- guntar se os alunos tinham mesmo feito tudo aquilo”, recorda ela. Colocada numa área estratégica das tendas, permitindo que as pessoas descansassem depois de tanto bater perna pelos estandes, a beleza das fotos acabou atraindo um público cativo, que passava alguns minutos apreciando o slideshow com

as imagens.

Outra novidade criativa da SBPC São Carlos foi o painel #SBPCelfie montado na entrada da Tenda Jovem

SBPC SÃO

CARLOS

#EUFUI

UM MUNDO

A SER DESCOBERTO 43
A SER DESCOBERTO 43
A SER DESCOBERTO 43

A SER DESCOBERTO

A SER DESCOBERTO 43
A SER DESCOBERTO 43
Livros: recompensa pela colaboração Contrapartida A coordenação do evento desejava oferecer às escolas que alo-

Livros: recompensa pela colaboração

Contrapartida

A coordenação do evento desejava oferecer às escolas que alo-

jaram alunos visitantes de todo o país uma contrapartida pela colaboração. “Fomos falar com as direções das escolas e algu-

mas chegaram a nos pedir até doação de papel higiênico”, conta

o vice-reitor da UFSCar. “Mas, como eu sou um sujeito que

gosta de livros, e como a Lourdes [Moraes, da FAI, uma das coordenadoras da reunião] é bibliotecária, a gente achou que

seria interessante doar uma coleção de livros para a biblioteca das escolas. No começo eu até pensei: bacana, vamos doar os livros da editora da universidade, a EdUFSCar. Mas é claro que

o nosso catálogo é muito técnico, quase ninguém ia se interes-

sar”, lembra Adilson de Oliveira. A solução foi deixar a escolha dos títulos a cargo dos próprios alunos. “A gente achou que ia ter Machado de Assis na lista, mas o que eles pediram foi O Senhor dos Anéis, Harry Potter, a série Divergente – na verdade

são livros bonitos, muitas vezes caros, aos quais eles dificilmen-

te teriam acesso de outra forma. A dirigente regional de ensino

achou bom até reforçar: olha, é para deixar os alunos mexerem nesses livros, não vão deixar tudo isso encaixotado, hein?”, re-

corda Oliveira. “O que fica muito para mim, o que me marca, é a imagem do

brilho no olho das crianças. De repente você via os monitores

– um pessoal que é doutorando, por exemplo – sentados no

chão com as crianças, batendo papo, trocando figurinha sobre

o que é ciência”, diz Karina. “Experimentos que para a gente

são triviais, demonstrações que a gente já fez tantas vezes, de repente viram uma coisa mágica para elas. Conforme o tem-

po vai passando, elas crescem e chegam à universidade, isso

muitas vezes se perde, a percepção vira aquela coisa cascuda

– enquanto na infância elas olham para um lápis dentro de um

copo d’água e ficam maravilhadas: ‘Ué, como o lápis quebrou desse jeito? Peraí, não quebrou’ e começam a levantar hipóte- ses, que é justamente uma das coisas que a gente tenta estimu- lar.” No mínimo, foi uma semana que contribuiu decisivamente para o surgimento de uma geração de adultos menos cascudos daqui a alguns anos.

Capítulo 6

Os saberes dos primeiros brasileiros

A primeira SBPC Indígena aconteceu em 2014, na UFAC, o que certamente não surpreenderá quem está acostumado a associar os habitantes originais do atual território brasileiro à sua presença mais marcante na região ama- zônica de hoje.

A reunião voltada para o público indígena, porém, ganhou contornos muito mais fortes em São Carlos,

a milhares de quilômetros da Amazônia – o que, na verdade, faz muito sentido, considerando a relação estreita entre a UFSCar e a grande diversidade de universitários indígenas do país. “Hoje nós temos mais de 400 alunos indígenas, de quase 30 etnias”, lembra o vice-reitor Adilson de Oliveira. A presença extremamente significativa de universitários vindos desses grupos étnicos em São Carlos possui ligação estreita com o papel que a UFSCar tem desempenhado no debate sobre o papel dos indígenas no ensino superior brasileiro e pela forte política de ações afirmativas da universidade, afirma a antropóloga Clarice Cohn, professora do Departamento de Ciências Sociais da UFSCar e co- ordenadora do Observatório da Educação Escolar Indígena da universidade.

da Educação Escolar Indígena da universidade. “A UFSCar de fato se destaca nessas políticas, embora
da Educação Escolar Indígena da universidade. “A UFSCar de fato se destaca nessas políticas, embora

“A UFSCar de fato se destaca nessas políticas, embora não seja a única universidade a receber indíge- nas em seu corpo discente, por ser uma das primeiras a propor uma política nesse sentido, apoiando

o ingresso e a permanência de indígenas antes da Lei de Cotas”, afirma Clarice. Outro ponto crucial é

que a UFSCar se dispõe a receber estudantes de qualquer etnia ameríndia, de qualquer região do Brasil, enquanto outras instituições costumavam limitar o acesso desses possíveis universitários aos perten- centes a certos grupos étnicos, ou oriundos de determinadas regiões.

A universidade também organiza um vestibular indígena específico; destina sempre uma vaga suple-

mentar anual por curso para esses alunos, em todos os campi; tem equipes de apoio pedagógico e comunitário voltados para eles; mantém uma variedade considerável de grupos de pesquisa com par-

ticipação direta indígena; e favorece a criação de entidades representativas próprias desses estudantes,

o que levou ao surgimento do Centro de Culturas Indígenas na UFSCar.

“Eles são muito organizados”, resume Oliveira. “O desempenho desses alunos muitas vezes é fantástico. Tivemos um rapaz que chegou aqui mal falando português – dois anos depois, tinha se tornado bolsista da Fapesp. Ou seja, não há o que discutir, o cara é bom mesmo.” Com tal capacidade de organização, não admira que os universitários ameríndios da UFSCar já tivessem participado da gestão de eventos

CONHECIMENTO DOS POVOS TRADICIONAIS DO BRASIL TAMBÉM É CIÊNCIA

de grande porte anos antes da 67ª reunião da SBPC. Além de eventos ligados ao

de grande porte anos antes da 67ª reunião da SBPC. Além de eventos ligados ao Dia do Índio, eles já realizaram o 1º Workshop de Saúde Indígena e o 1º Encontro Nacional de Estudantes Indígenas – agora em sua terceira edição, esse último evento agora é

itinerante. “Temos de apontar o contínuo apoio da reitoria e de suas pró-reitorias em todos esses even- tos, em especial na organização da SBPC Indígena”, afirma Clarice, que coordenou o evento em São Carlos. Apesar da grande diversidade de etnias representadas no corpo discente da UFSCar, a pesqui- sadora aponta que grupos como os Terena de Mato Grosso do Sul, os Umutina e os Xavante de Mato Grosso e os Xukuru de Ororubá, de Pernambuco, estão entre as nações indígenas com presença mais significativa na universidade, além de povos do sistema multiétnico do Alto Rio Negro, na Amazônia. “Durante a reunião do Acre, nós tínhamos ficado com a sensação de que a SBPC Indígena estava meio de lado. Havia uma tenda por lá com esse nome, mas não havia uma integração mais forte e clara com

o

resto da reunião da SBPC”, conta o vice-reitor da UFSCar. “Queríamos fazer algo diferente aqui, mas

o

importante foi sabermos combinar com os alunos indígenas e pedir a ajuda deles”, explica Oliveira.

“Quando conversamos, eu disse o seguinte: vocês sempre lutam para garantir o território que é direito de vocês. Bem, está na hora de lutar por outro território, que é o da ciência e do diálogo do conheci- mento indígena com a ciência.” Na comissão do evento estavam, além de professores e funcionários, diversos estudantes indígenas que participaram ativamente da organização. No início, a iniciativa era resultado de entendimentos pontuais entre a UFSCar e a SBPC. “Durante

a reunião, nos encontros realizados entre os estudantes, foi elaborada uma carta para ser lida na as-

sembleia final, que resumia o sucesso da reunião e propunha que o evento indígena fosse realizado anualmente pela SBPC”, recorda Clarice. A leitura, feita por Edinaldo Rodrigues, egresso da graduação em psicologia da UFSCar e membro da etnia Xukuru do Ororubá, levou à aprovação da proposta. A próxima reunião, em Porto Seguro, vai contar com estudantes da universidade paulista no comitê or- ganizador. “É uma proposta de continuidade que deverá valer para todas as reuniões”, afirma Clarice.

É claro que receber a enorme diversidade de grupos étnicos nativos de um país continental como o Bra-

sil trouxe desafios logísticos específicos. O primeiro deles envolveu a seleção de monitores indígenas,

que não só participaram da montagem de equipamentos como também auxiliaram na hospedagem dos participantes que vinham de fora de São Carlos, os quais receberam tanto alojamento quanto alimenta-

ção, o que exigiu da organização um planejamento especial para atender as especifidades solicitadas, o que incluiu a reforma do espaço onde os estudantes indígenas ficaram hospedados. “Tivemos também

o cuidado de levar em conta questões como o atendimento específico à saúde, de acordo com o direito in-

dígena à atenção diferenciada nesse tema – por sorte não houve nenhuma ocorrência”, afirma a professora. Embora todos os participantes indígenas falassem português, o que dispensou a necessidade da pre-

sença de intérpretes ou de sistemas de tradução simultânea, foi ainda necessário pensar no transporte de visitantes que vinham de regiões remotas, cujo único meio de transporte era fluvial, e também na disponibilização de materiais específicos para determinadas oficinas, como as de pintura corporal in- dígena (no programa, constavam dois workshops desse tipo, ministrados por Ubiraci Silva Matos, de etnia Pataxó, e Muniz, dos Xavante). “Esses desafios foram sendo respondidos ao longo da organização, mas seria melhor que já fossem previstos desde o início de seu planejamento”, pondera Clarice. Para a antropóloga da UFSCar, o primeiro ponto a diferenciar a SBPC Indígena de São Carlos de outros eventos semelhantes foi a participação de estudantes das diversas etnias em todo o processo de organi- zação. Outro ponto-chave, segundo ela, foi o esforço constante para que houvesse um diálogo entre os saberes tradicionais indígenas e a ciência ocidental – todas as mesas foram compostas deliberadamente por uma mistura de indígenas e não indígenas, seguindo temas que tivessem relação com o restantes da reunião da SBPC. “As oficinas também foram ocasião de diálogos interculturais, com ampla parti- cipação de não indígenas, tanto entre os outros participantes da reunião quanto entre a população de São Carlos”, conta. Com esse ponto de partida, os temas escolhidos para a reunião incluíram um amplo espectro de visões, das questões que interessam diretamente à população indígena, como a educação voltadas especifica- mente para ela, o embate político e de direitos humanos no atual cenário brasileiro e as ações afirma- tivas, até as conexões diretas com o pensamento científico e cultural do Ocidente: como a astronomia indígena vê a luz, por exemplo? O que há de específico na musicalidade das diferentes etnias? Assim como ocorre de modo geral com a ciência ocidental, tais diálogos contribuíram para uma visão mais ampla e multifacetada da realidade.

Arte indígena na SBPC São Carlos

Capítulo 7

Viva a diversidade

A música dos anos 1960 combinava perfeitamente com o gramado, a tarde ensolarada e o clima da festa para criar um cenário ao mesmo tempo nostál- gico e divertido: pais e filhos, estudantes, meninas e meninos de todas as ida- des brincavam e dançavam ao som de She Loves You, Help!, Here Comes the Sun e outras canções atemporais durante o show Beatles Para Crianças, do Grupo Passarinho. Era o gran finale da SBPC Cultural e do Dia da Família na Ciência. “Pode apostar que aquele foi o primeiro show de rock de muita gente ali, e o melhor é que ninguém precisou apelar para a Galinha Pinta- dinha ou para a Peppa Pig para prender a atenção da criançada, a música sozinha já deu conta do recado”, brinca Diego Mussarra Doimo, gerente da Rádio UFSCar.

Doimo foi um dos representantes da universidade na épica viagem ao Acre que ajudou a moldar os ru- mos da reunião da SBPC em São Carlos, mas ele e seus colegas já estavam trabalhando para planejar as atrações da SBPC Cultural bem antes da ida para a Amazônia. “Era preciso rascunhar um projeto com

bastante antecedência para tentar buscar apoio financeiro por meio da lei Rouanet, de âmbito federal,

e também do governo do Estado de São Paulo”, explica ele. “Além disso, a SBPC Cultural é de total res-

ponsabilidade da sede organizadora da reunião, a própria SBPC pouco interfere na programação, então tínhamos de dar atenção especial a essa tarefa.” Um dos primeiros passos foi organizar uma espécie de chamada pública para propostas das mais dife- rentes linguagens artísticas – cada artista ou grupo podia mandar seus projetos por e-mail. “Chegaram cerca de 200 propostas, que iam desde o circo até a música e o cinema. No fim, ficamos com cerca de 25 atrações, que podiam ser encaixadas em duas faixas de horário, a do almoço e a do fim de tarde”, conta Doimo. Algumas das atrações propunham um diálogo mais direto entre as ciências naturais e a

arte, mas isso não foi usado como filtro na seleção, já que a ideia era enxergar as atividades artísticas, de forma ampla, como parte das ciências humanas.

O ponto mais importante para a organização do evento, porém, foi criar um bom panorama da diver-

sidade cultural típica do Estado de São Paulo, afirma o gerente da rádio. “No Acre, a temática toda era muito acreana, com esse perfil regional. A nossa ideia não era ficar preso apenas à questão caipira do interior de São Paulo, embora esse lado também tenha sido contemplado. Queríamos também mostrar

a mistura e a união de povos, com a presença tanto de artistas da região de São Carlos quanto de outros lugares”, explica. Para atingir esse objetivo, a SBPC Cultural contou com a parceria do SESC e com o apoio do Banco do Brasil. Segundo Lourdes Moraes, da FAI, considerando os recursos relativamente modestos, foi preciso negociar com os artistas incluídos na programação pagamentos relativamente modestos. “Por sorte, todos acabaram topando”, conta.

Além dos eventos no campus da UFSCar, também houve apresentações no SESC São Carlos (destacan- do-se o espetáculo teatral multimídia Nise da Silveira – Guerreira da Paz, sobre a psiquiatra brasileira que humanizou o tratamento de pacientes com problemas mentais por meio da arte nos 1940) e no Teatro Municipal, com apoio da EPTV, outra parceria importante para dar projeção ao encontro.

A presença das equipes de TV, aliás, acabou alterando um pouco a dinâmica das apresentações, diz

Doimo. “A gente estimava atender uma plateia de 10 mil pessoas, que era mais ou menos o público que estava presente na reunião todos os dias, mas o pessoal sempre estava espalhado pelas tendas, pela pra-

ça de alimentação, em vários lugares, e não ali do lado do palco, em geral”, conta ele. Quando um grupo

de flamenco estava prestes a se apresentar no palco, os integrantes estranharam a situação e sugeriram que era melhor fazer o show no nível do chão, em meio ao público. A equipe da EPTV, no entanto, estava pronta para transmitir cenas da dança ao vivo para centenas de milhares de pessoas na região de São Carlos. “Tive de ir lá e conversar com o pessoal do flamenco: pessoal, pode parecer que tem pouca gente aqui agora, mas está cheio de gente assistindo em casa, então vamos lá, para o palco”, relata ele.

ARTE, CIÊNCIA E MUITA AÇÃO

Família reunida Durate a semana, as atrações culturais aconteciam nos intervalos das demais atividades científicas.

Família

reunida

Durate a semana, as atrações culturais aconteciam nos intervalos das demais atividades científicas. Já no sábado, o Dia

da Família na Ciência, rolou cul- tura, música, dança e arte por mais de 10 horas sem parar.

O Dia da Família aconteceu pela

primeira vez na reunião do Acre, com o objetivo de estimular o aluno, que visitou os estandes com as escolas, voltasse nesse dia com toda a família. Em São Carlos não foi diferente. Aliás, no sábado, cerca de 20 mil pessoas estiveram no evento, o dobro estimado por dia, durante a semana.

Além de curtir as atrações cultu- rais, as famílias também conhe- ceram os ônibus e caminhões da ciência, levaram choque no experimento de eletricidade da SBPC Jovem, pinturam o corpo com a arte indígena, assistiram

as explanações do estandes da

ExpoT&C e se deliciaram com as opções dos food trucks.

arte indígena, assistiram as explanações do estandes da ExpoT&C e se deliciaram com as opções dos

A cultura caipira local foi representada por artis-

tas como Rodrigo Zanc, com o show Viola, raízes e frutos, e com a orquestra de viola Amigos Violeiros. Outros ritmos, como o hip hop (com Sara Donato), o reggae (com o grupo Ganja Groove) e, claro, o rock (com o show do The Dead Rocks), também marca- ram presença, assim como o maracatu. Mas uma apresentação em especial foi a que mais mexeu com a memória afetiva de professores, funcionários e pós-graduandos da UFSCar: o do Premê (conhecido anteriormente como Premeditando o Breque), que está na estrada desde os anos 1970 e visita São Car- los há décadas. “Eles inclusive costumam dizer que São Carlos é a Liverpool do Brasil”, conta o gerente

da Rádio UFSCar. “Têm um público muito dedicado

por aqui, um pessoal que canta todas as músicas de- les, e de fato foi um grande show.” Intervenções artísticas mais sutis também chama- ram a atenção do público ao longo do evento. Uma das mais simpáticas, trazida pelo SESC, era a do Banho de Leitura com Mudas Práticas Educativas – nada mais que uma banheira na qual a pessoa podia

se “lavar” com livros, lendo tranquilamente lá den-

tro. Carriolas com música e sessões do CineUFSCar completavam as atrações – e, antes que os Beatles encerrassem a diversão, a festa oficial da SBPC no Beatniks Road Bar também parece ter sido um bo- cado animada. “Dizem que foi bombástica, gente na

fila para entrar até as 3h da manhã. Eu, infelizmen-

te, nem fui”, diz Doimo. Quem disse que ciência não

combina com balada?

Programação diversificada atendeu crianças e adultos

Programação diversificada atendeu crianças e adultos 56 LUZ, CIÊNCIA E MUITA AÇÃO As histórias da 67ª
Programação diversificada atendeu crianças e adultos 56 LUZ, CIÊNCIA E MUITA AÇÃO As histórias da 67ª
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Capítulo 8

Os percalços da bancada às prateleiras

Quem visitasse o estande da UFSCar na ExpoT&C da 67ª reunião anual da SBPC talvez ficasse surpreso com a aparente simplicidade de uma das ativi- dades disponíveis no local: uma busca em bases de dados. Não se tratava, po- rém, de uma mera “googlada”, como se diz: a equipe da Agência de Inovação da UFSCar estava ensinando os interessados a fazer as chamadas buscas de anterioridade – basicamente uma maneira de determinar se uma ideia cien- tífica aparentemente nova, com potencial para ser protegida por uma patente e se transformar em um produto, já passou por esse processo anteriormente.

“A nossa ideia era desmistificar o tema, mostrar que a busca de anterioridades não é um bicho de sete cabeças, que a agência faz isso e pode orientar os pesquisadores sobre como proceder”, ex- plica Ana Lúcia Vitale Torkomian, diretora da Agência de Inova- ção da universidade. Ela coordenou a SBPC Inovação, outra das novidades (sem trocadilho) do evento em São Carlos, com uma programação que combinou tanto atividades eminentemente prá- ticas, como a descrita acima, quanto debates de peso sobre a ne- cessidade de intensificar a interação entre cientistas e empresas no país, bem como as perspectivas de combinação da formação de pesquisador com a de empreendedor. Ana Lúcia conta que a SBPC, em suas reuniões anuais, tem a pre- ocupação de promover atividades que tenham uma ligação pró- xima com as características da região que receberá cada evento. “Numa cidade como São Carlos, o que a gente poderia fazer de diferente? A inovação era um tema lógico”, argumenta. De fato, o município se destaca pela presença das duas mais antigas incu- badoras de empresas da América Latina e pela existência de dois parques tecnológicos, cada um com perfil distinto. “Reservamos ônibus e vans para que as pessoas visitassem os parques tecnológi- cos e conhecessem seu funcionamento.” Outro objetivo importante da programação foi mostrar ao públi- co que não existe uma oposição entre ciência básica e inovação tecnológica com impacto econômico. “A fronteira entre as duas coisas está cada vez mais tênue. A inovação só se torna viável com uma ciência básica forte”, diz Ana Lúcia. Além de seu impacto na criação de novas patentes, a busca de anterioridades também pode ter um papel tão importante quanto os levantamentos bibliográfi- cos tradicionais no início de uma pesquisa, explica ela, pois tam- bém ajuda um cientista a ter uma noção mais clara do estado da arte do conhecimento em determinada área. A organização da SBPC Inovação conseguiu ainda um feito iné- dito: reunir os chefes das quatro maiores agências de fomento à pesquisa no Brasil – o CNPq, a Capes, a Finep e a Fapesp – numa única mesa-redonda. “Foi um negócio inacreditável”, brinca a coordenadora. Esses e outros debates ajudaram os presentes a se situar de forma mais segura na complexidade de temas que envol-

A primeira edição da SBPC Inovação reuniu as principais autoridades científicas do país

de temas que envol- A primeira edição da SBPC Inovação reuniu as principais autoridades científicas do

vem a interação entre a pesquisa acadêmica e o setor produtivo no Brasil, uma área que ainda é repleta de dificuldades e incertezas. Uma dessas principais “zonas cinzentas” tem a ver com a legisla-

ção sobre acesso à biodiversidade brasileira para fins de pesquisa e inovação, tema que, embora regulamentado recentemente, ainda deixou muitas dúvidas – e que foi contemplado na programação, com a presença de representantes do Ministério do Meio Ambien- te. Também houve debates importantes e dúvidas sobre a mecâni-

ca da cooperação entre universidades públicas e a criação de em-

presas por professores, por exemplo. “Uma tendência que discutimos é a dos chamados spin-offs acadê- micos. Nesses casos, em vez de você licenciar uma patente da uni-

versidade para uma empresa que já existe, a ideia é incentivar alu- nos, em especial pós-graduandos, a se tornarem empreendedores

e colocarem aquele produto no mercado”, diz ela. Para Ana Lúcia,

a questão é estratégica para o futuro da economia do país. “A gen-

te não pode formar alunos das universidades para simplesmente

ocuparem vagas de emprego. Eles precisam é criar empregos, e empregos com qualidade, em empresas inovadoras que tenham alta capacidade de competição no mercado”, defende ela. Embora tenha sido a primeira, a SBPC Inovação de São Carlos certamente não será a última. “Estava dando uma olhada no pro- grama da 68ª reunião da SBPC, que acontecerá em Porto Seguro, porque fui convidada para participar, e a programação falava em dar continuidade ao movimento sobre inovação que tinha come-

çado na reunião de São Carlos”, conta Ana Lúcia. “Isso mostra que

a

gente abriu um caminho que vai ser pavimentado e fortalecido.

O

fato de a SBPC, que é uma sociedade científica muito forte e

tradicional, abrir esse espaço nobre para a inovação é um enorme avanço.”

Ciência, tecnologia e inovação

e tradicional, abrir esse espaço nobre para a inovação é um enorme avanço.” Ciência, tecnologia e
e tradicional, abrir esse espaço nobre para a inovação é um enorme avanço.” Ciência, tecnologia e

Capítulo 9

Vamos

sentir

saudades

À primeira vista, alguém poderia imaginar que a equipe da UFSCar padece de masoquismo. Afinal, depois de meses de tensão e de preparativos inten- sos, e depois de uma semana pesada envolvendo 12, 16 ou até 20 horas por dia de trabalho, a palavra que quase todos usam para descrever a sensação de ajudar a construir uma reunião da SBPC é “saudade”.

“É uma pena, porque depois a gente volta à rotina e perde um pouco aquela vontade de fazer e acontecer, independentemente de horário, de ter comido ou dormido”, resume Lourdes Moraes, da FAI. “Mais de uma pessoa veio dizer para a gente ‘Nossa, como foi legal. Tem gente que fica querendo trazer rodeio para São Carlos, mas vocês trouxeram uma coisa muito melhor. Ano que vem tem de novo?’”, lembra, rindo, vice-reitor Adilson de Oliveira. Para Oliveira, embora o evento tenha trazido legados concretos importantes para a UFSCar – do sistema de internet sem fio em todo o campus ao centro de convenções (que acabou não ficando pronto a tem- po) –, a grande herança do encontro é “imaterial”. “De novo, a gente faz a brincadeira sobre os legados da Copa. Uma coisa bacana foi ver que, embora São Carlos pareça meio fora do eixo, por estar numa ci- dade pequena e não numa capital, como as outras universidades federais, nós temos uma universida- de reconhecida por sua excelência e que se mostrou competente para realizar um evento como a reunião da SBPC. A gente alcançou um novo patamar em or- ganização e profissionalismo.” E a própria comuni- dade no entorno da UFSCar parece ter se aproxima- do do campus de uma maneira inédita. “A Lourdes conta que, quando era secretária munici- pal de educação, um aluno de escola pública pergun- tou: ‘Mas quanto custa para estudar aí?’ É um lugar muito bonito, deve custar muito caro para estudar lá, esse era o raciocínio da criança”, explica o vice-reitor. “Com a SBPC, esses alunos de periferia puderam en- tender melhor a universidade e o que é a ciência. Se uma só daquelas crianças tiver a chance de se tornar cientista, já terá valido a pena.” Durante os últimos dias da reunião, um banner gi- gantesco criado pela equipe de comunicação ajudou a encapsular o sentimento de quase todos e virou

um banner gi- gantesco criado pela equipe de comunicação ajudou a encapsular o sentimento de quase
um banner gi- gantesco criado pela equipe de comunicação ajudou a encapsular o sentimento de quase
um banner gi- gantesco criado pela equipe de comunicação ajudou a encapsular o sentimento de quase
uma espécie de ícone da 67ª reunião. “A gente já estava contaminado com aquele sentimento

uma espécie de ícone da 67ª reunião. “A gente já estava contaminado com aquele sentimento de feli- cidade, porque já estava claro que a reunião da SBPC aqui era um grande sucesso”, conta o jornalista Fabricio Mazocco. “As pessoas tinham começado a falar: pô, já estou com saudade da SBPC, imagina como vai ser a semana que vem sem essa loucura?”, diz ele. Com um acervo de mais de 5.000 fotos das pessoas que estavam participando do evento, e graças à criatividade do designer Marcelo Ducatti, a equipe fez uma montagem com os rostos dos participantes, combinou a impressão do material com a gráfica e, de um dia para o outro, transformou em realidade o banner com a frase “Vamos sentir sau-

dades” em letras garrafais, o qual foi colocado na Praça da Ciência. “Ninguém resistia à

dades” em letras garrafais, o qual foi colocado na Praça da Ciência. “Ninguém resistia à tentação de procurar sua própria foto ali”, diz Mazocco. “O banner representa exatamente o que a gente conseguiu com a reunião: aquela equipe ágil, criativa, da qual o evento precisava. Foi uma surpresa linda”, afirma Lourdes, que só ficou sabendo da iniciativa quando o material já estava impresso. “Tenho ele até hoje aqui comigo. Estou tentando achar um lugar bom para colocá-lo, claro que não tive coragem de jogar aquilo fora.”

Doido de juízo ou loucura coletiva?

Disquisição na insônia Que é loucura; ser cavaleiro andante

Ou segui-lo como escudeiro? De nós dois, quem o louco verdadeiro?

O

que, acordado, sonha doidamente?

O

que, mesmo vendado,

Vê o real e segue o sonho De um doido pelas bruxas embruxado? Eis-me, talvez, o único maluco, E me sabendo tal, sem grão de siso, Sou – que doideira – um louco de juízo.

Dom Quixote, Carlos Drummond de Andrade

Muitos de vocês devem estar perguntando o porquê do poema de Carlos Drummond de Andrade que fala sobre a loucura de Dom Quixote de La Mancha de Miguel de Cervantes. Eu respondo: tem muito

sentido. Em muitos momentos da nossa vida precisamos ser um Dom Quixote, ter a coragem de fazer uma loucura, sonhar acordado e perseguir o sonho. Assim foi a SBPC São Carlos.

O professor Adilson de Oliveira teve essa loucura, loucura boa, e eu acreditei no sonho e fui sua fiel

escudeira, talvez o Sancho Pança. Preciso dizer ainda que foi uma das mais belas loucuras que cometi

ao longo da minha vida profissional e olha que fiz muitas. Mas também muitos outros acreditaram e o

sonho se realizou em um misto de realidade e loucura. Fomos em frente, tendo como comandante um cavaleiro andante – doido de juízo! Obrigada professor Adilson pela liderança serena, porém segura, e pela confiança que depositou em todos nós, sua equipe de mais ou menos 800 pessoas, que decoraram a lição para a realização da SBPC.

Decoraram no mais sublime sentido que tem o verbo decorar – o saber que se guarda no coração. Obrigada professora Helena Nader e professor Targino de Araújo Filho pelo grande prazer e apren- dizado que a SBPC nos proporcionou. Sempre quis participar de uma Reunião Anual da SBPC, mas nunca imaginei tão intensamente. Bem que alguém me disse: cuidado com os sonhos, eles se realizam Obrigada a todos que também acreditaram nessa loucura boa e fizeram acontecer o sonho da SBPC São Carlos.

Lourdes de Souza Moraes Coordenadora do Comitê Executivo Local da SBPC • São Carlos

Texto lido na cerimônia de encerramento da 67ª Reunão Anual da SBPC em São Carlos, no dia 17 de julho de 2015.

A SBPC São Carlos em números

10

mil pessoas por dia visitaram o evento

20

mil visitantes somente no sábado – Dia da Família na Ciência

800 pessoas envolvidas na organização em 13 Comissões

6.378 pessoas inscritas para apresentar trabalhos

53 inscritos do exterior

186 atividades

60

conferências

74

mesas-redondas

52

minicursos

2902 pôsteres

500

matérias publicadas em jornais, portais, rádios e TV’s

800

postagens nas redes sociais, alcance de 250 mil pessoas

70 pessoas entrevistadas

140 jornalistas externos credenciados

30 mil metros quadrados de edificações e instalações disponibilizadas

500 trabalhadores entre artistas, músicos e staff

80

horas de programação cultural

15

mil atendimentos ao público em atividades culturais

79

escolas participaram da Mostra Photographia na Escola com 600 fotografias

30

profissionais de saúde mobilizados

2 ambulâncias, 2 postos de saúde móveis e 1 ambulatório

A equipe da SBPC São Carlos

Abel Gustavo Garay González Adilson Jesus Aparecido de Oliveira Adriana Arruda Adriana Lino Casale Adriana Fernandes Machado de Oliveira Adriana Sanches Castilho Adriano Barbosa Silva Adriano Bottaro Adriele da Silva Braga Afonso Assalin Zorgetto Agnes Arato Alana Pereira Albecy Peter Cavalari Dos Santos Aleandro Rogério Evaristo Alessandro Anselmo Pereira Alessandra de Moraes Souza Alessandra Oliveira Alex Avancini Alexandre Bueno Alexandre Souza Ernest Alexei David Antonio Alice Helena Campos Pierson Aline Alves Ataides Aline Doria de Santi Aline Fioranelli de Sá Aline Gambaro Balieiro Allis Thuany Botelho de Freitas Amanda Araujo Cavalcante Amanda de Mello Tavares

Amanda dos Reis Hermann Ana Angélica Lima Dias Ana Beatriz Santos da Silva Ana Beatriz Toledo Cunha Ana Candida Martins Rodrigues Ana Carolina Caetano Nunes Ana Carolina Coelho Ana Carolina Contini Pietscher Ana Carolina Nilo Ana Carolina Rocha Ana Carolina Silva de Almeida Ana Cláudia Lessinger Ana Claudia Paviani Casalli Ana dos Santos da Silva Ana Laura Ferreira Ana Letícia Lopes Tito Ana Lúcia Vitale Torkomian Ana Luiza Ribeiro de Moraes Anaile Mariane Chiarelli Duarte Anali Furlan Benetti Ananda Fernanda de Jesus André Da Silva Ferreira André Luiz da Silva Andrea de Souza Navarro Carvalho Andressa Cindel Nogueira Nowasyk Andressa de Oliveira Martins Andressa Paula Santos Andressa Silva Costa Angélica Lima Dias

Angelina Sofia Orlandi Anne Caroline Lodi Antonio Carlos Henrique Marques Antonio Carlos Manucci Pereira Júnior Antonio Carlos Maranghetti Filho Antonio Francisco do Prado Antonio Frederico Comin Antonio Joaquim Dos Santos Antonio Lucas Dias Antonio Marcos Fernandes Ariane Di Tullio Ariane Garcia Ferreira Ariane Porto Ruiz Ariane Rico Gomes Arquiminio Bomfim da Silva Neto Artur Garcia Gonçalves Bárbara Bussi Barbara Hass Miguel Bárbara Junqueira da Silva Beatriz Arioli de Sá Teles Beatriz Caires Felice Beatriz Chinen Beatriz Demartini Beatriz Maia Guimarães da Silva Beatriz Trevisan Waideman Belinda Talarico Franceschini Belinha Abondância Rodi Bernardino Da Silva Bianca Carvalho Boanerges Luiz Pinheiro Breno Almeida Bruna Biachi Bruna Carolina Dorm Bruna do Nascimento Bruna Marques Tobal Bruna Renata de Melo Dino Brunela Vieira Fcamidu

Bruno Martins Ferreira Bruno Stein Barbosa Menechino Camila Cassia Vilani Passos Camila Cristina Ribeiro Camila Fernanda Botega Camila Francisco Gonçalves Camila Grazieli Ferrari Camila Luchesi Silveira Angelo Camila Machado Camila Martins de Oliveira Candara Keocheguerian Carina Diniz de Castro Carla Granato Carla Regina Silva Carla Roberta Sola Carlos Araújo Macedo Carlos Henrique Santos Carlos Vitor Da Silva Caroline de Morais Ferracioli Caroline do Rio Caroline Pardi Vicente Caroline Silva felix Celia Maria Rosa Celina Gabriela de Souza César Bosquetti Cibely Cristina Hermes Fratucci Cintia Akie Nakano Cíntia Aparecida Tavares Necchi Clarice Cohn Claudia Maria de Serrão Pereira Cláudia Rejane Zangotti Da Costa Cláudio Norquezo Cristiane Cinat Cristiano Amaral Cristina Camargo de Oliveira Cristine Diniz Santiago Daniel Gobato Röhn

Daniel Monteiro Daniela Dalpubel Daniela de Oliveira Klebis Daniela Modna Daniela Rossetto de Menezes Daniele Carareto da Silva Daniele Toyama Danielle Silva Tavares Danilo Silva Correia Dante Alberti Barreira David dos Santos Calheiros Dayane Teixeira Almeida Débora Burini Debora Cristina dos Santos Denise Aparecida da Silva Denise Balestrero Menezes Denise Britto Deusilene Calomezoré Teodoro Diane Damaris Dorst Diego Musarra Doimo Diego Profiti Moretti Diego Sanchez Bragagnolo Dorai Periotto Zandonai Douglas Araujo Pedrolongo Douglas Barreto Duino Tsawata Dulce Sugawara Ed Angel França Almeida Eder Aparecido Brambilla Éder José Franco Edgar De Oliveira Vicente Edson Luis Lazarini Edson Volante Eduardo de Freitas Barboza Eduardo Henrique Jordao Teixeira Eduardo Martins Eduardo Sotto Mayor

Eike Matheus Campanini Elaine Pinatti Elaise Cagnin Elder Silva Albuquerque Eliane Colepicolo Elisa Gramacho de Oliveira Ellen Camila Cardias dos Santos Ellen Costa Elvineide Máximo Alves da Silva Elvis de Morais Inacio Emerson Baré Emilene Da Silva Ribeiro Emilene Frazão Capoia Enzo Kuratomi Erica Zanardo Oliveira Erick Mateus Barros Erika Sayuri Kanashiro Erinilson Severino de Souza Manchinery Eunice Maria Fernandes Personini Eva Maria de Souza Iniesta Evelyn Talita Silveira Levy Ewerton Custódio da Conceição Fábio Fernandes Neves Fabio Leandro da Silva Fabíola de Oliveira Fabrício José Mazocco Felipe Andrade Rodrigues Felipe Pianta Reis de Camargo Felipe Soares Nascimento Felizardo Delgado Fernanda Beatriz Silva Fernanda Callegari Fernanda Costa Pinheiro Fernanda de Carvalho Fernanda de Oliveira Furino Fernanda Maria de Miranda Fernanda Parolo de Mattos Nogueira

Fernanda Rocha Chiuzuli Fernanda Rodrigues de Albuquerque Fernanda Soares Cardoso Fernando Augusto De Oliveira Fernando Barbosa Alexandre Fernando Bernardo de Sousa Fernando de Almeida Pinto Flávia Bernardo Flávia Bueno Mendes Flávia Gabriele Sacchi Flávia Vieira de Lima Flávio Henrique Trostdorf Flávio Yukio Watanabe Franciane Marcela Bertacini Francis Brasil Gardino Iglesias Francis de Morais Franco Nunes Francis Massashi Kakuda Frederico Rossetto Bianchini Gabriel Buzatto de Souza Gabriel Roberto Campesan Gabriel Toshiaki Tayama Gabriela Bordinassi Teixeira Gabriela Cometa Aissa Gabriela Conti Gabriela Da Cruz Evangelista Gabriela Van Der Zwaan Broekman Castro Gabriele Periotto Lopes Gabriele Rodrigues Pereira Gabriella Oliveira Hernandez Geisy Candido da Silva Geórgia Maria Dotto Buainain Giovani F. Gozzi Grace Regina Ferreira Cirineu Graciliana Garcia Leite Graziela De Oliveira Souza Graziéle Fernanda Deriggi Pisani Guilherme Augusto Andrade Freire

Guilherme Cirino Picchi Salgado Guilherme Fiorentini Guilherme López Barros Guilherme Matheus de Almeida Ramos Gustavo Branco de Almeida Gustavo Henrique Murari Gustavo Targino Valente Hamilton Vinícius Duque De Sousa Heber Dutra Macedo Jr. Heitor Ribeiro De Carvalho Helena Bonciani Nader Heliny de Carvalho Maximo Hellen Cristina Xavier da Silva Henrique Ferreira De Almeida Henrique Gentil Henrique Nishihara Herbherth Kauê Novaes Hugo Safatle Iasha Nur Oliveira Salerno Igor da Fonseca Igor de Souza Santiago Igor Gabriel Leal Igor Silva Ilza Zenker Leme Joly Isabel Cristina Nunes de Sousa Isabela de Carvalho Martins Isabeli Cristina Cezarino Ivan Paulo Braga Ivani Marcolina Gouvea Izabela dos Santos Jakelline Prado Jamile de Jesus Gomes Janssen Ayna Silva Ribeiro Jaqueline Liberato Jasiel Josias Lima Macagnan Jeane Renata Rossi do Nascimento Jéssica Akemi Hitaka Soares

Jéssica Hilario Bonomo Jéssica Norberto Rocha João César Bosquetti João Eduardo Justi João Geraldo da Silva Júnior João Vitor Medula Jocimara Braz de Araújo Johnny Soares de Carvalho Joice Lee Otsuka Jomar Cardinali Palo Jorge Cardoso Jorge Luis Santilli Jorge Luis Simonsen Garcia Parrelli Jorge Pereira da Silva Josana Carla Gomes da Silva José Antonio Lisboa dos Santos José Aparecido Augusto José Carlos César Junior José Cláudio Ferreira José De Carvalho Assumpção Neto José Eduardo Simões Martinez José Érico de Oliveira José Lotúmolo Junior José Ribamar Ferreira José Roberto Ferreira Josenildo Moreira Josiane Beltrame Milanesi Josiane da Cruz Almeida Josiane Pereira Torres Joviro Adalberto Junior Joyce Etsuko Arakaki Joyce Ribeiro Pessoa Júlia de Oliveira Kapp Carvalho Julia Johannsem Branco Fidalgo Julia Richley Lima Santos Júlia Wilmers Juliana Jeronimo Moreno

Juliana Maria Del Nero Pugliesi Juliana Virginio da Silva Juliana Visioli Canto Juliane Manzine Julio Cesar Gomes de Sousa Filho Kalinka Bacaccici Karen Carolina da Silva Karina Omuro Lupetti Karizi Cristina da Silva Kauê Caires Capellaro Kelly Cristina dos Santos Lima Kevin de Mello Santamaría Lais da Silva Laís Matos Larissa Anunciato de Oliveira Larissa Pernacova Lázaro Dalla Costa Léa Gomes de Oliveira Leandro César Micheloti Leandro Ferrari Leila Bonfanti Leila Maria Beltramini Leila Regina de Freitas Leonardo Bruno da Silva Leonardo José Dalla Costa Leonardo Regis Orlandini Leonice Aparecida Zago Pierin Leonilia Cabó Chaves Queiroz Leticia Ambrosio Letícia Carolina Spinelli Calabreze Letícia de Paula Sacco Leticia Dutra Redivo Leticia Fernanda Pedro Leticia Poltroniere Lia Tavares Teixeira Liane Biehl Printes Lidia Moura

Lidiana Morais Brasil Lidiane Volpi Ligia Maria Silva e Souza Livia Martucci Lívia Munhoz Rodrigues Lívia Pavini Zeviani Lourdes Bertolote Tagliadelo Lourdes de Souza Moraes Luan Ariel de Oliveira Luana Lima de Jesus Lucas Alves Borges Lucas da Silva Basso Lucas Hidalgo Pitaluga Lucas Marcelino Eder dos Santos Lucas Pelegrini Nogueira de Carvalho Lucas Sales Fidelis Lucelina Rosseti Rosa Luciana Kuraba Buoso Luciana Maria dos Santos Luciane Cristina do Amaral Luciano Ariabo Quezo Luciele Carla Zorzin Luis Fernando de Abreu Pestana Luís Filipe Vasconcelos Peres Luís Paulo de Carvalho Piassi Luisa Foppa Bergo Luisa Leoncio Monti Luiz Roberto Pereira Dionísio Luiza de Souza Monterossi Luiza Maíra Ribeiro da Silva Luiza Veltrone Lynne Lourenço Manoel Claudionor Quezo Marcela Parolo de Mattos Nogueira Marcela Passucci Fernandes Marcelo Ducatti Marcelo José Araújo

Marcelo Shinyu Mekaro Márcia Niituma Ogata Marcondy Maurício Marcos Afonso da Rocha Maria Aparecida Mello Maria Aparecida Teófilo Campos Maria Brazão Lopes Baré Maria Caroline Lima de Souza Maria Das Graças Pereira Parravano Maria de Fátima Oliveira Lima Maria Emília Marchesin Maria Estela Antonioli Pisani Canevarolo Maria Gabriela Correa da Silva Maria Gabriela Pereira Miranda Maria Lígia Triques Maria Lúcia Clapis Facundo Maria Regina Valle dos Santos Andrade Mariana Assunção Guerreiro Mariana Cristina Dessi Mariana Lazari Kawashima Mariana Luciano de Almeida Mariana Moitinho Fonzar Mariana Rodrigues Pezzo Mariana Trovão de Queiroz Mariane Camargo Soares Mariane Franchetti Marília Gabriela Branquinho Baldoino Marina Aoki Basaglia Marina Azzi Nogueira Marina Penteado De Freitas Maristela Schiabel Adler Marizete Aparecida Rodrigues da Silva Marlon Albuquerque Basilio Marta Cristina Marjotta Marta Maria Troiano Cury Mateus Cogo Araújo Mateus Henrique Nunes Barros

Matheus da Silva Souza Matheus Mazini Ramos Mattheus Silva Maximiliano Correa de Menezes Mayara Aparecida Soares Amaral Diogo Mayara Suni Oliveira Meliza Cristina da Silva Milena Maria Pinto Milton Borges Campos Filho Mirella Cassia da Silva Miriam Rodrigues Anunciato Mirna Januária Leal Godinho Monalisa Nanaina da Silva Monica Alessandra Barbalho Murilo Vinicius Alves Nara Venancio Rossi Natália Cristina Estevão Natalia de Aguiar Santos Natália de Freitas Lins Natália dos Santos Andrade Natália Leite Cavalaro Natália Lopes Zamarioli Oneide Quispe Ornaldo Baltazar Sena Pablo José Martinelli Guerreiro Paola Thais Spolaôr Falcão Patricia Villar Martins Paula Penedo Paulo Cesar Donizate Paris Paulo Henrique Marques De Andrade Paulo Pratta Paulo Hofmann Paulo Sérgio de Oliveira Paulo Sergio Guzzi Pedro Cesar Zavitoski Pedro Henrique da Silva Vieira Pedro Jesus Rodrigues De Moraes

Pedro Manoel Galetti Júnior Pedro Paulo Kropf Abib Ladeira Phelipe Eduardo Silva Priscila Luiza Cardoso Rafael Domingues Bernardo Rafael Fernando da Silva Rafael Gomes da Silva Rafael Hideki Hanazumi Mazzoca Rafael Luis Bressani Lino Rafael Miguel Marques Rafael Pim Baptista Rafael Simões Rafaela Felix Munhoz de Oliveira Rafaela Ferraz Majaron Raphael Manzini Raphaela Cristina da Silva Raquel Baes Raquel Cardoso Machado Raquel Paulini Miranda Raul Ribeiro Rebeca Cordellini Emidio Regimar Carla Machado Regina Pekelmann Markus Reginaldo Kirisawa Baldan Renan Aparecido da Silva Reis Renan Augusto Ferreira Bolognin Renan Vasconcelos Ribeiro Renan Vilela Bertolin Renata dos Reis Renato Augusto G. Rodrigues Ricardo de Almeida Junior Ricardo Luiz Canato Ricardo Rizzo Correia Roberto Santos Inoue Rodolfo Loureiro Escudeiro Rodolfo Santos Ventura Rodrigo Antonio La Scalea

Rogério Fortunato Júnior Rogério Gianlorenzo Rosana Gama Soares de Mello Rosangela dos Santos Roseane Pereira Silva Roseli Mello Roseli Rodrigues de Mello Rosimeire Ávila Guimarães de Paula Roziane Loureiro Barbosa Samanta do Prado Samelyn da Costa Martins Silva Samir Celso Cesaretti Samira Chedid Samuel Lucas Fragelli Ramos dos Santos Sarah Reis Selma Aparecida de Abreu Inácio Sérgio Loureiro Sérgio Luiz Brasileiro Lopes Sheila Castro Silas Rodrigues Ramos Simone Bezerra Sônia Maria Arantes De Almeida Sonia Maria Chacaliaza Cruz Stefani Marinelli Stefanie de Brito Braz Stefany Gabrielly Pereira de Souza Stella Maris Firmino Stephanie Oliveira Rodrigues Mazzini Suzana Ferreira Liskaukas Taís Francine de Rezende Talita Daniele Braz Fernandes de Oliveira Tânia Margarida Lima Costa Tarcila Santos de Souza Mascarenhas Tárcio Minto Fabrício Targino de Araújo Filho Tássia Gaspar Mendes Tathiane Ferroni Passos

Tatiane Aizza Tatiane Liberato Tayná Barros Mazer Lucatti Teresa Luzia Bessi Lopes Thaigo Bertolotti Thaís Aparecida Avelino Canova Thais Ariane Amorim Correia Thaís Christina Moreira Elias Thais da Silva Fabricio dos Santos Thais Fomm Thais Gianotti Caromano Thais Helena Peixoto dos Santos Thaís Palomino Thálita Juliana Boni de Mendonça Thamy Palo Bortolani Tiago Vintém Valderez De Fátima Onofre Neves Valeria Marchi Cavalheiro Valtencir Zucolotto Valter Luiz Líbero Vanessa Ayumi Kuana Vanessa de Oliveira Furino Vanessa Di Genova Victor Casé Victor Henrique Carvalho Victor Leandro Fernandes Lima Victor Marques Grilli Victor Prado Victória Barbosa Dell Agostinho Victoria Ignatz Gomes Vilma Martins De Ataide Vinicius Fresca da Costa Vinicius Maragno Vinicius Wellington dos Santos de Souza Vítor Rinaldi Vitória da Silva Augusti Vitória Parente

Vitória Pistori Guimarães Vivian Costa Araújo Viviane dos Santos Silva Viviane Monteiro Viviani Marchi Wagner Quezo Walison Aparecido de Oliveira Walter Colli Walter Jacobelis Neto Walter Jose Botta Filho Wania Maria Recchia Wellington José da Silva Wesley Denilson Algarve Weverton Souza Teixeira William Marcondes Facchinatto Willian Lico Wilson Polli Junior Yasmin Mansur Salman Yuri Augusto Russignoli Yuri Nakau Fuzissaki

Gráfica Compacta - São Carlos - SP 1ª Edição - Tiragem 500 exemplares

Junho/2016

A Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) é conside- rada um dos maiores eventos científicos da América Latina. Conta com a participação de representantes de sociedades científicas, autoridades e gestores do sistema nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação. A Reunião é um importante espaço para a difusão dos avanços nas diversas áreas do conhecimento e um fórum de debates de políticas públi- cas. A 67ª Reunião da SBPC foi realizada na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) entre os dias 12 e 18 de julho de 2015. Esta publicação conta um pouco das histórias que fizeram desta edição um evento tão especial para a UFSCar. São histórias de pessoas que disseram sim a um desafio até então nunca vivido e que transformou a vida de cada um. Foram sete dias intensos que para serem concretizados precisaram do apoio e do coração de cerca de 800 pessoas. São histórias que começaram um ano antes e que, por meio desta publicação, irão durar uma vida inteira. Mais uma vez afirmamos: “Vamos sentir saudades".

U FSCar

Universidade Federal de São Carlos