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Hackers, monopólios e
instituições panópticas:
elementos para uma teoria da cidadania digital*

Sergio Amadeu da Silveira


Mestre e doutor em Ciência Política (USP)
Professor titular do Programa de Pós-graduação da
Faculdade Cásper Líbero.
E-mail: sergioamadeu@uol.com.br

Resumo: A expansão da comunicação mediada por redes trans-


nacionais de computadores levanta problemas de grande com- Velhos direitos, novas violações
plexidade para a consolidação da cidadania. Capacidade de as tec-
nologias da informação e comunicação reconfigurar as práticas
sociais e engendrar processos de mudança no cenário mundial, A comunicação mediada por computador e
incorporando novos direitos. Confronto entre as perspectivas a digitalização intensa de grande parte dos con-
de uma cultura hacker, de um lado, e o vigilantismo panóptico e
rentável de Estados e monopólios de algoritmos, de outro.
teúdos de expressão – textos, sons ou imagens
Palavras-chave: comunicação e tecnologia, Internet, cidadania – ampliaram as possibilidades das grandes or-
digital, cibercultura, comunicação mediada por computador. ganizações – Estados, companhias transnacio-
Piratas informáticos, monopolios e instituciones panópticas: nais e redes criminosas – de observar e rastrear
elementos para una teoría de la ciudadanía digital o comportamento e o cotidiano dos cidadãos.
Resumen: La expansión de la comunicación mediada por re- A comprovação empírica dessa afirmação
des trasnacionales de computadores levanta problemas de gran
complejidad para la consolidación de la ciudadanía. Capacidad pode ser encontrada exatamente nos Estados
de que las tecnologías de la información y comunicación recon- Unidos, um dos países com grande tradição
figuren las prácticas sociales y engendren procesos de cambio en
el escenario mundial, incorporando nuevos derechos. Confronto
na defesa da privacidade e, ao mesmo tempo, a
entre las perspectivas de una cultura de piratería informática, de nação com o maior número de computadores
un lado, y el vigilantismo panóptico y rentable de Estados y mo- e internautas. Em dezembro de 2005, o jornal
nopolios de algoritmos, de otro.
Palabras clave: comunicación y tecnología, Internet, ciudadanía The New York Times divulgou que o presidente
digital, cibercultura, comunicación mediada por computador. George W. Bush teria autorizado o NSA (Na-
tional Security Agency) a realizar milhares de
Hackers, monopolies and panoptic institutions: elements for
a theory of digital citizenship escutas telefônicas e escaneamento de e-mails
Abstract: The expansion of communication mediated by trans- sem a prévia autorização judicial1. O governo
national computer networks raises problems of great complexity
to consolidate citizenship. The capacity of information and com-
munication technologies reconfiguring the social practices and
begetting changing processes in the worldwide scenario, incor- * Trabalho apresentado ao NP Tecnologias da Informação e da Co-
porating new rights. Confrontation between the perspectives of a municação no XXIX Congresso Brasileiro de Ciências da Comuni-
hacker culture on the one hand, and the panoptic and profitable cação (Intercom). Brasília, 4 a 9 de setembro de 2006.
surveillance of States and algorithm monopolies on the other. 1
Notícia obtida 17/5/2005, no site: http://www.bbc.co.uk/
Key words: communication and technology, Internet, digital citi- portuguese/reporterbbc/story/2006/01/printable/060131_
zenship, cyberculture, computer-mediated communication. denizeprivacidadeeuacg.shtml.

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alega que a Lei USA Patriot, aprovada no fim usada para tentar impedir o uso não autoriza-
de 2001, permite a espionagem de pessoas, do, denominado “pirata”, de softwares, games,
sem consulta ao Judiciário, uma vez que isso vídeos, filmes e músicas, está permitindo que,
seria indispensável para um combate ágil e em nome da defesa do copyright, seja destruí-
eficaz ao terrorismo. do o direito à intimidade e à privacidade.
Em maio de 2006, o site de buscas Goo- Além disso, o caráter transnacional da rede
gle recusou-se a entregar ao Departamento de de comunicação, mediada por computador,
Justiça dos Estados Unidos uma lista conten- levanta o problema da definição das regras
do palavras e sites pesquisados por todos os básicas de operação dessa mesma rede, defini-
usuários durante uma determinada semana. das por protocolos de comunicação, padrões e
O governo já vinha utilizando as bibliotecas pela estrutura dos nomes de domínios. Emer-
para captar informações sobre o que as pesso- ge a questão da governança da Internet, que
as consultam2. A Lei USA Patriot permite tais envolve a disputa entre cinco grandes interes-
ações de rastreamento. É notável que, antes ses, não necessariamente contrapostos: dos
mesmo dos ataques de 11 de setembro, o FBI comitês técnicos que definiram até agora os
(polícia federal norte-americana) já escane- protocolos da Internet; dos Estados nacionais;
ava e-mails que transitavam pelos backbones das corporações de Tecnologia de Informa-
(redes de alta velocidade) e seus roteadores ção; da sociedade civil mundial e das várias
instalados nos Estados Unidos. Essa prática comunidades hacker; e o interesse do Estado
de vigilância ocorria a partir de um sistema norte-americano. Várias decisões aparente-
chamado Carnivore, que permitia ler todos mente técnicas que afetarão a privacidade
os e-mails e copiar aqueles que continham e o anonimato dos internautas estão sendo
determinadas frases e palavras-chave. É im- debatidas e poderão ser adotadas, sem que os
portante ressaltar que, mesmo denunciado cidadãos do planeta, que utilizam a Internet,
no parlamento por organizações da sociedade tenham a mínima possibilidade de debatê-las
civil, tais como a EFF (Eletronic Frontier Foun- ou mesmo de recusá-las. Se for definido que
dation) e EPIC (Eletronic Privacy Information o protocolo de comunicação básico entre as
Center), o Carnivore violou e-mails de cida- milhares de redes deverá ter como o padrão o
dãos americanos e também de estrangeiros. fim do anonimato na comunicação, isso afe-
Todas as mensagens “suspeitas” que tiveram o tará completamente a forma como conhece-
território norte-americano como rota de pas- mos a Internet hoje.
sagem foram violadas3. Esses exemplos reforçam a necessidade
Talvez muito mais do que os Estados, algu- de observarmos mais atentamente a relação
mas poucas corporações estão buscando legi- entre comunicação, tecnologia e mudança
timar a alteração no imaginário social sobre o social. Também indicam que a comunica-
espaço da privacidade em um mundo insegu- ção mediada por computador, por seu cará-
ro. Empresas que controlam algoritmos em- ter transnacional, afeta a cidadania e exige a
barcados nos códigos de programação com- reconfiguração dos direitos para uma vida
putacional, amplamente empregados como coletiva no ciberespaço. Sem dúvida, a rede
intermediários da comunicação contemporâ- mundial de computadores tem servido às for-
nea, tais como sistemas operacionais, realizam ças democratizantes para compartilhar não
intrusões em computadores pessoais, sem que somente mensagens e bens simbólicos, mas
nenhuma reação de revolta seja noticiada. A também conhecimentos tecnológicos que es-
tecnologia DRM (Digital Rights Management) tão gerando as possibilidades distributivas de
riqueza e poder extremamente promissoras.
É exatamente nesse contexto que um con-
2
Idem.
3
Documentos sobre o Carnivore podem ser obtidos em http://
junto de mega-corporações atua para manter
www.epic.org/privacy/carnivore/foia_documents.html e ampliar, em uma sociedade informacional,

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os poderes que detinham no capitalismo in- tem a democratização da criação de conte-


dustrial. Para tanto, precisam conter a hiper- údos. Considerando ainda que a Internet é
comunicação pública e torná-la comunicação uma rede transnacional, baseada no fluxo de
privadamente controlada, substituindo a idéia dados que transitam sobre um mesmo con-
de uma cultura livre pela cultura da submis- junto de protocolos e regras de codificação e
são ou do licenciamento. decodificação de códigos, fica evidente que
os Estados nacionais não teriam o controle
total do fluxo de conteúdos, como ocorre no
Considerações sobre a noção de caso da TV e do rádio. O fluxo da Internet
cidadania pode originar-se fora do território nacional.
A lei nacional tem enorme dificuldade de ser
John Perry Barlow, um dos fundadores executada, se um provedor de conteúdo que
da Eletronic Frontier Foundation, escreveu A hospeda um site de pedofilia encontrar-se
declaration of the Independence of Cyberspa- hospedado em um país distante.
ce, em fevereiro de 1996, como reação ao Ato
de Decência nas Comunicações, uma lei que
visava ao controle de conteúdos na Inter-
net, proposta pela administração do presi- A comunicação
dente norte-americano Bill Clinton. Barlow mediada por
foi enfático: “Governments of the Industrial computador afeta a
World, you weary giants of flesh and steel, I cidadania e exige a
come from Cyberspace, the new home of Mind.
reconfiguração dos
On behalf of the future, I ask you of the past
to leave us alone”4. Dez anos depois, é pre- direitos para uma vida
ciso constatar que o apelo não foi atendido, coletiva no ciberespaço
nem pelos Estados nacionais, nem pelas me-
gacorporações. Isso, porque o ciberespaço
não existe descolado do mundo material. A Existem, todavia, possibilidades de controle
Internet depende da infra-estrutura lógica e de conteúdos e de aplicações que são realizadas
física, sob o comando de pessoas e empresas por meio da própria tecnologia. É preciso rela-
que habitam os territórios controlados pelos tivizar a idéia de que os Estados não possuem
velhos gigantes estatais, os Leviatãs. formas de bloquear e até mesmo controlar
Sem dúvida alguma, a Internet representa determinados fluxos da Internet. O governo
uma mudança de paradigma das comunica- autoritário da China filtra conteúdos e impede
ções e é vista por uma série de teóricos como o acesso a determinados sites, porque controla
a maior expressão da chamada revolução das os dois backbones por onde transitam todos os
tecnologias da informação (Castells, 2003). A dados que entram e saem do país. Desconhe-
supremacia da comunicação baseada na di- cer essas possibilidades de controle significa
fusão a partir de um ponto está sendo substi- abandonar a jornada da humanidade na luta
tuída pela comunicação em rede. A Internet pela legitimação do direito à livre comunica-
assegura a possibilidade de qualquer cidadão ção como um dos direitos fundamentais do
disputar a atenção da rede para seus sites, homem e do cidadão. É olhar somente para as
blogs ou mensagens. A net é um meio técnico promessas democratizantes da comunicação
com características intrínsecas que permi- mediada por computador e esquecer sua face
panóptica. É desconsiderar a gravidade do fato
4
Tradução do autor: Governos do mundo industrial, enfadonhos de o Google organizar buscas censuradas para
gigantes de carne e aço, venho do ciberespaço, a nova morada da
mente. Em nome do futuro, eu peço que você, do passado, deixe- poder ter acesso ao mercado chinês, prática já
nos em paz. realizada pelo Yahoo e MSN.

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Através dos códigos, ção e da tecnologia para a mudança ou manu-


Estados autoritários e tenção das relações sociais.
Segundo vários autores, podemos definir
neo-autoritários, bem
“cidadania” como o direito a ter direitos. T. H.
como gigantescas Marshall, observando a evolução do conceito
empresas do capitalismo na Inglaterra, defendeu existirem direitos de
informacional tentam primeira e segunda geração. Para ele, primei-
controlar os cidadãos ro teriam surgido os direitos civis e depois os
políticos (séculos XVIII e XIX). Uma segun-
da geração de direitos surgiu no século XX,
Donna Haraway (2000:65), em sua brilhan- conformando os chamados direitos sociais.
te reflexão feminista, qualificou o momento Apesar de acusada de etnocêntrica e linear, a
em que vivemos como a “transição das velhas proposição de Marshall passou a ser referên-
e confortáveis dominações hierárquicas para cia para a observação da mutabilidade históri-
as novas e assustadoras redes (...) de ‘informá- ca da cidadania. Nesse sentido, alguns teóricos
tica de dominação’”. As redes possuem uma observaram o surgimento, na segunda meta-
linguagem comum entre as máquinas, e estas de do século XX, dos direitos de terceira gera-
são intermediários indispensáveis para as lin- ção, ou seja, direitos de grupos, de minorias
guagens naturais humanas, em um ambiente e etnias, direitos difusos que ganham força
de comunicação via máquinas de processar em todo o mundo. Questões, como o direito
dados. O jurista Lawrence Lessig (2005) já ha- ao meio ambiente, o feminismo e a defesa do
via alertado, no final dos anos 1990, que, no consumidor, são incorporadas em várias le-
ciberespaço, o código tem o mesmo papel de gislações e discursos políticos (Liszt, 2000).
uma legislação. Através dos códigos, interme- A comunicação transnacional mediada
diários tecnológicos da comunicação, Estados por computador coloca a necessidade de rei-
autoritários e neo-autoritários (refiro-me aos vindicar novos direitos? Como reivindicá-los
Estados Unidos), bem como gigantescas em- em um ambiente transnacional? Não seria
presas do capitalismo informacional, tentam um exagero exigir deliberação democrática
controlar os cidadãos. e debate público sobre a funcionalidade de
Weissberg (2004:123) denunciou a con- sistemas, códigos e protocolos, considerados
tradição existente entre o desejo de uma técnicos, pelas indústrias de tecnologias da in-
comunicação cada vez mais transparente e formação e pelo senso comum?
desintermediada, a partir do dinamismo e Convém verificar um caso concreto que
do potencial interativo da Internet, e a reali- interferirá no cotidiano de todas as pessoas
dade de sua operação. Por isso, afirmou que do planeta que utilizam e cada vez mais de-
“o objetivo da supressão dos intermediários pendem da rede mundial de computadores. O
se transforma, conforme seu próprio movi- protocolo de comunicação da Internet, o IP
mento, em criação de uma nova camada de (Internet Protocol), permite o endereçamen-
mecanismos mediadores que automatizam a to de dados entre todas as redes que a com-
mediação”. Mas como fica a noção de cidadão, põem. A versão desse protocolo que garantiu
em um mundo cada vez mais transnacionali- a expansão veloz da rede por todo o planeta
zado e com a comunicação mediada por pa- é denominada IPv4 e está sendo substituída
drões e códigos (softwares), apresentados por por uma nova versão, o IPv6. Entre os vários
instâncias definidas como técnicas e distantes motivos para se criar uma nova versão encon-
dos mecanismos de controle democrático? tram-se razões de segurança. O IPv6 permite
Aqui é necessário enfrentar pelo menos que os cabeçalhos dos pacotes de dados sejam
duas questões: primeiro, a da evolução da ci- assinados digitalmente por chaves cripto-
dadania, e, segundo, a do papel da comunica- gráficas, que servem para identificar o autor

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das mensagens. Pois bem, se for definido que dict Anderson mostrou, retrospectivamente,
o padrão de comunicação entre redes será a a importância do capitalismo literário para a
identificação criptográfica de todos os pacotes, criação de uma comunidade imaginada que
então, a Internet terá suprimido o anonimato evoluiria para tornar-se uma nação”, o “ca-
na comunicação. Suponhamos que boa parte pitalismo eletrônico-informático” seja visto
ou a maioria dos cidadãos dos vários países como “o ambiente necessário para o desen-
do mundo seja contra o fim do anonimato na volvimento de uma transnação”.
Internet. Como influenciarão essa decisão? A A emergência de uma “comunidade
quem recorrer? Qual o fórum de decisão? Ou transnacionalmente imaginada”, nos dizeres
continuaremos a acreditar que essas decisões de Ribeiro, exige o aparecimento de lealda-
são meramente técnicas? des superiores às dos Estados Nacionais, for-
Guarinello (2003:46) coloca-nos um pon- jadas a partir do ciberespaço. Nesse contexto,
to extremamente relevante: Poster (2003:329) vê a possibilidade de sur-
gimento de uma espécie de cidadão planetá-
Há, certamente, na história, comunidades rio: “O net-cidadão pode ser a figura forma-
sem cidadania, mas só há cidadania efetiva tiva num novo tipo de relação política, que
no seio de uma comunidade concreta, que
partilha a lealdade à nação com a lealdade à
pode ser definida de diferentes maneiras,
mas que é sempre um espaço privilegiado Internet e aos espaços políticos planetários
para a ação coletiva e para a construção de que ela inaugura”.
projetos para o futuro.

O problema é que a Internet, por ser trans- Comunicação, tecnologia e mito da


nacional, não se enquadra facilmente no terre- neutralidade
no onde a cidadania tem conseguido avanços,
ou seja, nos espaços nacionais. Entretanto, Nesse cenário de globalização e transna-
Liszt (2000:32) aponta que “recentes concep- cionalidade, o problema da cidadania coloca-
ções mais democráticas pretendem dissociar nos diante da necessidade de enfrentarmos a
completamente a cidadania da nacionalida- discussão sobre o papel das comunicações e
de”. Segundo ele, “por esta concepção, seria das tecnologias da informação nos processos
possível pertencer a uma comunidade política de mudança e permanência das relações so-
e ter participação independente da questão ciais. Wolton (2003:32) escreve:
de nacionalidade”. Poster (2003:328) avança e
questiona: Se uma tecnologia da comunicação desem-
penha o papel essencial, é porque simboliza
ou catalisa uma ruptura radical da ordem
Podem os novos meios de comunicação cultural ocorrendo simultaneamente na
promover a construção de novas formas sociedade. Não foi a imprensa que, por si,
políticas não amarradas a poderes territo- transformou a Europa, mas sim a ligação
riais e históricos? Quais são as característi- entre esta e o profundo movimento que
cas dos novos meios de comunicação que subverteu o poder da Igreja Católica.
promovem novas relações políticas e novos
sujeitos políticos?
Para Wolton, as tecnologias de informa-
Talvez uma boa linha de investigação tenha ção e os meios de comunicação não criam
sido lançada por Anderson, quando afirmou revoluções; ao contrário, são utilizados como
que a nação é uma comunidade imaginada. instrumentos pelos processos revolucioná-
Os meios de comunicação foram fundamen- rios ou mudancistas. A revolução industrial
tais para a constituição da idéia moderna de não criou o capitalismo, mas, sem dúvida
nação. A partir dessa perspectiva, Ribeiro alguma, o domínio da tecnologia da máqui-
(2000:469) defende que, assim como “Bene- na assegurou a primazia sobre o processo de

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apropriação da riqueza produzida, e esse do- sões de quem as criou. Muitas delas podem
mínio econômico gerou mais poder sobre a ser reconfiguradas, outras têm o uso ambí-
sociedade. Os capitalistas não poderiam im- guo, como a Internet, mas nunca são criadas
por suas relações de produção, se não incor- sem objetivos, de modo neutro. É exatamente
porassem a forma mais produtiva e avançada esta a questão que aqui discuto. Decisões so-
de geração de bens materiais. bre a arquitetura das redes e seus protocolos
Wolton vê, nas promessas em torno das estão sendo tomadas por engenheiros, mas
tecnologias da informação, as mesmas ilusões têm grande impacto social e podem limitar
que geraram prognósticos otimistas para os ou ampliar a liberdade da comunicação entre
impactos da TV, do rádio, do satélite ou do as pessoas. São decisões de grande impacto
cabo sobre o convívio humano. O teórico público e, portanto, adquirem relevância po-
francês não percebeu que a TV e todas as for- lítica, mesmo que tenham sido tomadas por
mas do paradigma de difusão não têm relação comitês técnicos.
com as tecnologias da informação. Estas são Considerar que determinadas tecnolo-
mais do que formas de comunicação intensa gias guardam potenciais revolucionários
e múltipla: são também tecnologias da inteli- não significa, também, assumir a proposta
gência (Lévy, 1999) que ampliam as possibili- de McLuhan. Mattelart criticou a suprema-
dades de transformar informações em conhe- cia que McLuhan dava ao meio. Sem dúvida,
cimento. São tecnologias que reivindicam um o meio condiciona, mas dificilmente pode-
comportamento interativo e se baseiam na rá determinar os conteúdos. São visíveis os
proliferação da cópia. Permitem fundir sons exageros de McLuhan quando advogou que
a imagens e estas a textos, sendo multidirecio- “o grande abalo que rompeu o corpo da co-
nais e capazes de armazenar bilhões de dígitos municação e a desmembrou teve lugar na
na mesma máquina receptora e transmissora Idade Média. Se a Igreja perdeu posição nes-
de mensagens. sa época, se ela aí perdeu sua unidade mís-
Ao afirmar que “a técnica não é suficien- tica, foi por causa da tecnologia” (Mattelart,
te para mudar a comunicação na sociedade”, 2004:103). Por outro lado, é necessário reco-
Wolton pode estar desconsiderando dois im- nhecer que a invenção de Gutenberg viabili-
portantes elementos: um histórico e outro zava a proposta de doutrinadores da Reforma
teórico. Primeiro, a tecnologia da informa- que queriam romper com os intermediários
ção nasceu no âmbito do cálculo e do pro- entre o homem e Deus, entre a portador da
cessamento de dados. Somente depois é que fé e os escritos sagrados. A impressão de ti-
o computador tornou-se uma ferramenta de pos móveis “baniu o estilo de vida comum
comunicação. De um projeto militar no ce- em favor de uma comunidade massiva onde
nário da Guerra Fria, o paradigma da com- cada indivíduo pode se tornar um leitor e
putação em rede surgiu e foi reconfigurado onde a leitura se torna uma experiência pri-
inúmeras vezes por cientistas, hackers e pensa- vada” (Mattelart, 2004:103).
dores da contracultura californiana (Castells, Em outro texto mais recente, Wolton pa-
2003). Assim surgiu a Internet real, tal como rece reconhecer a magnitude e a complexi-
a conhecemos hoje. É inegável que sua expan- dade da comunicação em rede e aponta um
são está mudando a face das comunicações no problema que indica a necessidade da deli-
planeta. E a comunicação em rede é comple- beração pública sobre os caminhos da co-
tamente distinta do broadcasting. municação mediada por computador, prin-
Segundo, talvez a insistência de Wolton cipalmente a Internet: “É no que o tema da
(2003) em afirmar que a tecnologia não muda sociedade da informação é perverso: ele ho-
a sociedade guarde a concepção de que as tec- mogeneíza tudo e faz desaparecer o homem
nologias são socialmente neutras. Técnicas, por detrás dos fluxos de informação. Numa
quando inventadas, sempre guardam deci- economia do signo, tudo é possível. Cabe en-

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tão ao homem inventar seus próprios limi- uma única empresa norte-americana, a Mi-
tes” (Wolton, 2004:155). crosoft. O sistema operacional é o principal
programa de uma máquina de processar in-
formações. Ele define como a máquina deve
Concentração de poder e cultura hacker agir, como deve alocar a memória, que tipos
de programas podem ou não podem ser ins-
Carlos Afonso, um dos pioneiros da Inter- talados nela, entre outras funções. “Por do-
net no Brasil, ao comentar o debate sobre a minar a linguagem básica dos computadores,
governança da Internet, na Cúpula Mundial esta empresa também passou a dominar o
da Sociedade da Informação, ocorrida em mercado de navegadores web (browser), uma
duas fases, Genebra, em 2003, e Túnis, em vez que passou a vender o browser junto com
2005, afirmou: seu sistema operacional, desbancando todos
os outros existentes” (Silveira, 2002:157).
Os equívocos de alguns participantes do
debate global vão desde acreditar que o
tráfego de conteúdo passa pelo sistema de
servidores-raiz até pensar que as funções A Internet venceu tenta-
de governança da Internet como um todo
deveriam estar sob a alçada da UIT (União tivas de apropriação
Internacional das Telecomunicações). A privada de seus
ICANN também costuma ser apresenta- elementos principais
da como uma organização global, o que
é verdade apenas numa pequena parte e, exatamente pela forte
em termos legais, não o é de forma algu- influência dos hackers
ma. A ICANN está sujeita às leis federais
dos Estados Unidos e às leis do estado da
em seus processos vitais
Califórnia, e o seu poder de governança da
Internet está limitado por vários contratos
e por um Memorando de Entendimento
Poster (2003:322) alerta-nos que a saída
(ou MoU, na sigla em inglês) envolvendo
o governo dos EUA, a ICANN e a principal para a democratização da sociedade informa-
operadora do sistema global de nomes de cional está “na construção de novas estruturas
domínio, uma empresa privada chamada políticas fora do Estado-nação em colabora-
Verisign (Afonso, 2005:11). ção com as máquinas”. Seria necessária a for-
mação de um movimento de opinião pública
O que mais chama a atenção na crítica de planetário, transnacional, no ciberespaço, a
Afonso não é a ignorância de alguns partici- partir da comunicação mediada por compu-
pantes, mas o grande poder do governo nor- tadores, pois sem tal articulação não há como
te-americano sobre um dos órgãos técnicos criar processos decisórios mundiais. Poster
que definem regras da comunicação em rede. acredita que “a nova ‘comunidade’ não será
Por outro lado, esse poder não está apenas no uma réplica de uma ágora, mas será mediada
contexto da governança da Internet, pois uma por máquinas de informação. Portanto, o exi-
sociedade em rede ou informacional exige um gido é uma doutrina dos direitos da interface
conjunto de intermediários e de decisões téc- homem/máquina” (2003:322).
nicas de enorme impacto sócio-planetário. Para construirmos a idéia de novos di-
A concentração de poder comunicacional reitos de caráter planetário, será fundamen-
na sociedade da informação poderá ser muito tal observarmos a cultura hacker, que este-
maior do que a ocorrida com a mídia de mas- ve presente desde o nascimento e em toda a
sas na sociedade industrial. No ano de 2002, expansão da comunicação baseada nas redes
mais de 90% dos computadores pessoais do informacionais. A Internet evoluiu aberta,
mundo utilizavam o sistema operacional de vencendo tentativas de apropriação privada

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de seus elementos principais, exatamente pela passividade frente à procura pela paixão
forte influência dos hackers em seus processos individual. Cuidar significa aqui a preocu-
vitais. A cultura hacker também está escre- pação com o próximo como um fim em si
mesmo e um desejo de libertar a sociedade
vendo uma das mais contundentes críticas à virtual da mentalidade da sobrevivência
opacidade dos códigos e ao bloqueio do fluxo que tão facilmente resulta de sua lógica.
de conhecimento tecnológico na sociedade
da informação. Dela nasceram movimentos Os hackers do movimento de software
como o do software livre e fenômenos como a livre estão enfrentando as companhias que
maior enciclopédia do mundo, a wikipedia. buscam monopolizar no planeta o controle
Ao estudar a cultura hacker, o filósofo fin- dos intermediários da comunicação (sof-
landês Pekka Himanen (2001:126) escreveu: twares, códigos e protocolos da comunica-
ção em rede). Essas companhias alegam que
seus direitos de propriedade estão acima de
A ética de trabalho dos hackers consiste em
todos os demais direitos, inclusive da liber-
combinar paixão com liberdade, e foi essa
a parte da ética dos hackers cuja influên- dade de conhecer, do uso justo de uma obra
cia foi sentida com maior intensidade. (...) protegida pelo copyright, do direito à priva-
um terceiro e crucial aspecto da ética dos cidade, à segurança e ao anonimato. Enfim,
hackers é a atitude dos hackers em relação estamos em um novo terreno. Dele emana a
às redes, ou seja, é a sua ética da rede, que reivindicação de novos direitos, direitos de
é definida pelos valores da atividade e do
comunicação, de liberdade de expressão e
cuidar. Atividade, nesse contexto, envolve a
completa liberdade de expressão em ação, da possibilidade democrática de tomar de-
privacidade para proteger a criação de um cisões em uma sociedade em rede, virtual
estilo de vida individual, e desprezo pela ou ciberespacial. O debate mal começou.

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Referências

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Sergio Amadeu da Silveira - Hackers, monopólios e instituições panópticas...