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PEQUENOS GRUPOS

EO DISCIPULADO:
LIÇÕES DO REAVIVAMENTO WESLEYANO DO SÉCULO 18

Por Woodrow W. Whidden, Ph.D

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FERRAMENTAS PARA A MOBILIZAÇÃO

Q
uando falamos da “Conexão Wesleyana”, estamos nos referindo ao reavivamento, evangelismo, aos
pequenos grupos, à nutrição pastoral e às atividades sociais de reforma/alívio do mais notável movi-
mento “para-igreja” anglicano do século 18, estamos nos referindo ao Reavivamento Wesleyano, ou
ao Metodismo que foi liderado por John e Charles Wesley e seus leigos e clérigos associados.
Certamente, o líder mais conhecido deste movimento britânico/colonial de Reavivamento Evan-
gélico foi John Wesley (1703-1791). Os irmãos Wesley e seus associados tinham uma perspectiva
arminiana (ênfase em um livre arbítrio agraciado) e seu movimento ficou conhecido como wesleyanismo ou meto-
dismo. Enquanto, na maioria das vezes, reconhecidos por seu evangelismo destemido e itinerante, a criação dos
pequenos grupos e a fundação das Sociedades Unidas, ou a conexão Wesleyana, o metodismo também teve uma

forte contribuição para os desenvolvimentos teológicos glês. Embora influenciado pelas doutrinais anglicanas
protestantes mais amplos, incluindo os ensinamentos clássicas (especialmente os Trinta e Nove Artigos, Thir-
posteriores do adventismo do sétimo dia. Embora John ty-Nine Articles, o Livro de Oração Comum, The Book
Wesley nunca tenha escrito uma teologia sistemática of Common Prayer, e pelas Edwardsean Homilies, com
(como os Institutos de Calvino), houve um núcleo sus- as suas afirmações suaves sobre o papel da Tradição
tentado para sua teologia em torno do qual girava uma Cristã (a famosa via média entre Roma e o Puritanismo
série de temas-chaves que ele elaborou em sermões Protestante), Wesley sempre procurou fundamentos bí-
orais e publicados, comentários sobre as Escrituras, blicos para suas convicções teológicas.
revistas publicadas, panfletos ocasionais, periódicos, Do ponto de vista da IASD, Ellen White fez um co-
artigos e inúmeras cartas. mentário positivo sobre Wesley, mas resumido, em
Como já foi sugerido, Wesley era amplamente armi- relação ao número de suas obras publicadas (Atos
niano (seguindo as perspectivas da “graça gratuita” de dos Apóstolos 598; Parábolas de Jesus 78, 79; Educa-
Jacob Arminius – teólogo holandês do final do século 16 ção 254; Obreiros Evangélicos 534, 535 e Patriarcas e
e início do 17) em sua perspectiva teológica, e, assim, Profetas 404). No entanto, o único relato sustentado de
ele acentuou grandemente a graciosa iniciativa de Deus sua vida, ministério e convicções teológicas é encon-
na salvação (graça proveniente), que provoca uma res- trado em O Grande Conflito (1911), pp 252-64. Depois
posta livremente escolhida por parte do pecador con- de analisar brevemente a ascensão do metodismo de
denado. Fortemente oposto aos temas da irresistível Oxford (na Grã-Bretanha e Geórgia Colonial), as lutas
graça, tão típico dos calvinistas/Reforma Protestante de Wesley com o legalismo, a sua frenética procura por
(cujo monergismo [Deus determina todas as coisas], “santidade de coração”, sua conversão evangélica, e
para Wesley, parecia ser um convite para uma religião os primórdios da Renovação Evangélica Inglesa, Ellen
passiva, que não faz nada), Wesley proativamente pro- White observa com aprovação um número de suas ên-
clamou uma graça justificada e santificada em busca de fases teológicas fundamentais.
seu tema central teológico - pecadores são perdoados, O fator de vantagem para ela foi a compreensão
a fim de participar. conquistada duramente de Wesley (teologicamente, eti-
Sua forte ênfase na importância da santificação e camente e devocional/experimentalmente) do bom re-
perfeição levou-o a opor-se a qualquer tendência anti- lacionamento entre justificação e santificação: “Conti-
nomiana, especialmente àqueles que ele percebeu que nuou em sua vida austera e abnegada, agora não como
estavam saindo da asa calvinista do evangelicalismo in- base, mas como resultado da fé; não como raiz, mas

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como fruto da santidade. A graça fé humana, que é inerente à oferta reformadora, anabatistas e anglica-
de Deus em Cristo é o fundamen- da graça de Deus (tanto justificação nas), a forma como Wesley enten-
to da esperança do cristão, e essa quanto santificação). Enquanto El- deu as questões de salvação pesso-
graça se manifestará em obediên- len White passou a rejeitar os ensi- al (e os aspectos relacionados aos
cia... A vida de Wesley foi dedicada namentos de Wesley de que a graça escolhidos, o livre arbítrio, a graça,
à pregação das grandes verdades santificante levaria a um momento o sentimento religioso, a lei, o pe-
que recebera — justificação pela fé de perfeição instantânea (em que o cado, a perfeição e o julgamento
no sangue expiatório de Cristo e no pecado original, com suas tendên- de acordo com as obras) parece ter
poder renovador do Espírito Santo a cias herdadas e cultivadas para o influenciado mais profundamente
operar no coração, produzindo fru- mal seria purgado e afastado antes Ellen White. Apesar de não querer
tos em uma vida de conformidade da glorificação), ela estava essen- mudar totalmente as outras ques-
com o exemplo de Cristo”. (GC 256). cialmente de acordo com o impulso tões de formação, tais como o mé-
Esta exposição de lei e graça foi en- básico de seus ensinamentos sobre todo teológico (autoridade da Bíblia
tendida por ela como o centro teo- a graça transformadora. e sua relação com a razão, a expe-
lógico e prático dos ensinamentos Na verdade, pode-se argumen- riência e a tradição), a Trindade, a
de Wesley, em torno do qual tudo o tar persuasivamente que a doutri- organização da igreja e a própria
mais orbitou. na adventista do “juízo investigati- experiência de conversão e santifi-
Outros planetas teológicos fun- vo” (afirmado fortemente por Ellen cação de Ellen White com o meto-
damentais no sistema solar de White) só poderia surgir em um dismo, parece que a principal influ-
Wesley, os quais Ellen White apro- ambiente orientado pela tradição ência de Wesley sobre Ellen White
vou foram: (a) a eleição universal e o wesleyana/arminiana. Se a salvação e os desenvolvimentos teológicos
livre arbítrio (GC 261), em clara opo- é irresistível, assim como o fruto da adventistas subsequentes vieram
sição à limitada expiação e irresistí- eleição pré-determinada de Deus, o principalmente de suas exposições
vel doutrina da eleição do calvinis- julgamento torna-se essencialmen- sobre a salvação pessoal.
mo, (b) graça preveniente (GC 262), te supérfluo porque não há nenhu- No entanto, além destas pre-
(c) afirmação plena da autoridade ma resposta escolhida livremente ocupações teológicas, é também
da “lei moral, contida nos Dez Man- pela fé à oferta de salvação de Deus. notável que os pais de Wesley, John
damentos” (GC 262) e (d) “harmonia Se Deus, no entanto, procura a res- e Susanna (nee Annesley) Wesley,
perfeita da lei e do Evangelho” (GC posta escolhida livremente pela fé eram jovens adultos convertidos
262): “Assim, enquanto pregava o dos crentes à Sua oferta de graça, e ao anglicanismo (e o que se segue
evangelho da graça de Deus, Wes- nossa resposta pode incluir neces- é um resumo de Kenneth J. Collins,
ley, a exemplo de seu Mestre, pro- sariamente também uma recepção John Wesley: A Theological Journey
curava engrandecer a lei e torná-la ou rejeição da graça salvadora (am- [Abingdon Press, Nashville: 2003],
gloriosa” (GC 264). bas graça justificadora, a “raiz” da pp 11-28). Nessas mudanças de
Embora Ellen White expressou fé e da graça santificadora, o “fruto” lealdade, eles estavam indo de en-
claramente opiniões negativas so- da obediência), então há uma forte contro a um fundo teológico consi-
bre o metodismo americano (que implicação de que os pecadores de-
era desassociado dela e de sua fa- vem responder a Deus e que pode
mília por causa de seus pontos de haver um julgamento por obras. E
vista mileritas) e do Movimento de estas obras irão testemunhar ao
Santidade por causa de sua rejei- saldo de justiça e misericórdia de
ção de inúmeras doutrinas manti- Deus em Seus justos juízos dos se-
das pelos emergentes adventistas res humanos pecadores que rece-
do sétimo dia, ela estava sempre bem ou rejeitam Sua oferta de sal-
do lado do núcleo da teologia de vação. Embora Wesley não entendia
Wesley, especialmente das grandes tal julgamento como “pré-advento”,
linhas de seus ensinamentos sobre ele claramente ensinou sobre um
a salvação. juízo de investigação para os pro-
Assim, parece seguro concluir fessos crentes em Cristo no fim dos
que o aspecto mais importante e tempos.
influente do pensamento de Wes- Embora seja verdade que a teo-
ley em Ellen White era o núcleo de logia de Ellen White não esteja ex-
sua teologia de salvação que sur- clusivamente em débito com qual-
giu em um ambiente de graça livre quer uma das principais tradições
e do chamado para a resposta da teológicas protestantes (luterana,

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derável no puritanismo (Calvinismo ponto de equilíbrio principal desta
Britânico Reformado), personifica- apresentação é destacar como a te-
do nos dois avôs puritanos eminen- ologia dos Wesley motivou os seus
tes de John e Charles Wesley. pontos de vista e práticas (especial-
É também importante ressaltar mente de John) sobre discipulado (e
que os pais de Wesley não foram só o que se segue é, essencialmente,
profundamente influenciados pela um resumo de Calvin do Don Thor-
teologia arminiana, mas também sen vs Wesley: Bringing Belief in
foram significativamente influen- Line With Practice (Abingdon Press,
ciados pelas preocupações devo- Nashville, de 2013, pp. 112-116).
cionais e morais dos crescentes
movimentos da sociedade religiosa A visão do Wesleyanismo
no anglicanismo que foram adota- sobre Discipulado
dos no início de sua idade adulta e Nunca houve uma tentação para
sustentados por toda uma vida de qualquer quietismo isolado na divin-
ministério. Assim, uma conversão dade prática dos irmãos Wesley e de
às preocupações arminianas de seu seu movimento. Em outras palavras,
anglicanismo adotado (após a rejei- uma vida em união com Cristo pela
ção de sua reforma de educação) foi fé em Seu trabalho expiatório seria
acompanhada por uma participação evidenciada por uma vida de exer-
ativa em muitos dos movimentos de cícios devocionais, participação em
reforma social, devocional e literário cultos públicos nas paróquias an-
da época. Assim, as visões adultas glicanas locais, observâncias sacra-
emergentes de Samuel e Susanna mentais (pelo menos batismo e San-
Wesley sobre teologia, espirituali- ta Ceia) e uma forte busca por uma
dade, ética pessoal e social/reforma mudança completa de caráter. As-
estavam destinadas a influenciar sim, o Reavivamento Wesleyano, em
fortemente as direções de seus dois sua intenção original, imaginou-se
filhos eminentes - John e Charles ser um ministério de apoio à Igreja
Wesley, os principais fundadores do da Inglaterra, à sua pregação e sa-
metodismo wesleyano no século 18 cramentos, à adesão aos seus pa-
e no crescimento de sua versão do drões doutrinários e estilos de culto
metodismo nos séculos 18 e 19 do e uma afirmação de seus vários mi-
metodismo norte-americano. nistérios de ajuda, elevação e educa-
Agora, com este breve histórico ção. Portanto, para os Wesley, para
biográfico e teológico em mãos, o ser um membro de suas Sociedades

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Unidas, você também deve ser um membro leal e
devoto – tudo como parte normal do discipulado
cristão. E tal discipulado começou com um ardente
desejo de viver para a glória de Deus e ser transfor-
mado à semelhança de Cristo. Sem esforços sérios
de santificação, não há um discipulado eficaz.
Mas John Wesley também viu a necessidade de
um ministério especial “para-igreja”, que incluiu
(a) evangelismo público que fosse além dos limites
da igreja regular e (b) a fundação das Sociedades
Unidas Wesleyanas que contavam com reuniões de
adoracão no meio da semana. Assim, o discipula-
do não só envolveu a salvação pessoal, a transfor-
mação de caráter, o atendimento da igreja local e
a celebração dos sacramentos, mas também as
bênçãos das reuniões especiais das Sociedades
Wesleyanas locais que foram destinadas a aumen-
tar a participação das pessoas na igreja pelo envol-
vimento nas chamadas “classes” e “grupos” locais;
estes proporcionaram uma admoestação mútua
mais intensa, além da nutrição da fé e outros gru-
pos que tinham sido organizados para estratégias
especiais de evangelismo (como visitas à prisão) e
ajuda para os pobres e necessitados. Wesley tinha
um profundo interesse em assuntos como assistên-
cia médica e fornecimento de ajuda financeira para
os pobres, a fim de se tornarem empreendedores
para fundarem pequenas empresas. Também havia
ministérios especiais para a visitação de idosos, in-
válidos e doentes.
As atividades das Sociedades Unidas Wesleya-
nas consistiam principalmente na participação nas
Sociedades locais de Wesley, que contavam com
reuniões no meio da semana para adoração, ora-
ção e comunhão. Provavelmente eram análogas
ao “culto de oração” da Igreja Adventista. Contudo,
as Sociedades locais também se reuniam em gru-
pos menores, as chamadas “classes” e “grupos”.
Esses grupos tinham o propósito de facilitar uma
disciplina pessoal e coletiva mais intensa, e foram
projetados para inspirar arrependimento mais pro-
fundo pelo pecado e uma devoção mais profunda
para o testemunho cristão e outras formas de ser-
viço edificante. Assim, embora os membros fossem
grandemente encorajados à adoração pública na
igreja local, o coração do movimento wesleyano era
a nutricão mais intensa nos pequenos grupos. Se
alguém não estava ativo na adoração pública e nos
pequenos grupos, não era um bom wesleyano. Para
formar um wesleyano durante a Renovação Evan-
gélica na Britânia e na América do século 18, o me-
todismo oferecia aos membros comuns não apenas
nutrição espiritual intensa, através dos pequenos
grupos, mas também uma demanda constante por
serviço útil.

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Mas toda esta estrutura era li- lismo público (incluindo pregação à prisão. Muitos destes ministérios
derada não somente pelos irmãos na rua e em campo aberto) e nutri- variados foram administrados pelos
Wesley, mas também por um grupo ção da fé e disciplina das Sociedades Wesley e seus assistentes itinerantes,
crescente de viajantes chamados locais em seus respectivos circuitos mas também por um grupo crescente
“assistentes leigos”, que funciona- regionais. E, provavelmente, o mais de gestores financeiros e de serviços
vam como evangelistas e pastores famoso exemplo de coordenador de chamados de “mordomos”.
regionais. Eles foram designados circuito foi o fundador do metodismo Então, para se tornar um wes-
por John Wesley para consultas anu- americano, o formidável Frances As- leyano (membros leigos e servido-
ais, e seu trabalho principal consis- bury. Assim, podemos concluir com res de tempo integral) no século 18,
tia em: (a) evangelismo público em segurança que as demandas para o eram necessários uma sóbria refle-
suas cidades e regiões, e (b) cuidado discipulado foram bastante intensas, xão, um profundo compromisso com
pastoral nas Sociedades Wesleyanas tanto para os ministros e os partici- uma devoção religiosa séria, comu-
locais em seus respectivos circuitos. pantes leigos nas Sociedades Unidas nhão cristã, evangelismo, reforma
Os níveis de prestação de contas fo- como para a comunhão fornecida social e um caráter caridoso. Isso
ram superintendidos pelo próprio pelas suas sociedades locais. não era opção para a pessoa religio-
Wesley, especialmente através do Mas tal discipulado não incluía sa que estava procurando um “ca-
que ficou conhecido como conferên- apenas leigos e obreiros ministe- minho” mais passivo, relativamente
cia pessoal e reuniões trimestrais e riais em evangelismo e pastoreio, privado, para o Reino do Céu!!! So-
anuais dos Wesley com os seus as- mas também uma crescente rede de mente aqueles que estavam total-
sistentes leigos. E foi provavelmen- “casas de pregação” e ministérios de mente comprometidos com uma
te entre estes “assistentes leigos” socorro – tais como divulgação e nu- versão profundamente exigente da
locais que as maiores demandas de trição da fé para os pobres e indigen- abordagem “Graça Livre ou Respon-
discipulado intenso foram investi- tes, instituições médicas, visitas aos sável” de Wesley iriam florescer em
das. Ser “chamado” para tal minis- doentes, empréstimos empresariais meio aos rigores de uma versão tão
tério significava viagem constante para inspirar a fundação de peque- ativista do discipulado cristão.
(principalmente a cavalo), evange- nas indústrias e ministérios de visitas

Bibliografia:
Don Thorsen. Calvin vs Wesley: Bringing Belief in Line with Practice Nashville: Abingdon Press, 2013.
Richard P. Heitzenrater. Wesley and the People Called Methodists. Nashville: Abingdon Press, 1995.
Frank Baker e Richard P. Heitzenrater. The Bicentennial Edition of the Works of John Wesley. Nashville: Abingdon Press, 1984 ff.
Randy L. Maddox. Responsible Grace: John Wesley’s Practical Theology. Nashville: Kingswood Books, 1994.
Kenneth Collins. The Scripture Way of Salvation: The Heart of John Wesley’s Theology. Nashville: Abingdon Press, 1997.
Kenneth Collins. A Real Christian: The Life of John Wesley. Nashville: Abingdon Press, 1999.
Kenneth Collins. John Wesly: A Theological Journey. Nashville: Abingdon Press, 2003.
Woodrow W. Whidden. Ellen White on Salvation. Hagerstown, MD: Review and Herald Pub. Assn., 1995.
Woodrow W. Whidden. “Ellen White and John Wesley”, Spectrum 25 (N. 5): 48-54.

WOODEN WHIDDEN

Wooden Whidden é Professor Emérito de Religião na Universidade Andrews.

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