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de 1997 até 2000 os meninos no campinho me

chamavam de jesus - eles achavam que eu era


um menino de cabelo comprido. depois vieram
os peitos e aí de repente matar a bola ali
era um grande tabu. mas toda mulher sabe
que a gente mata a bola é na parte superior
do tórax. os vertebrados têm tórax. as
vertebradas também. nas vertebradas humanas
muitas vezes chamamos essa parte de colo.
dar colo à bola para matá-la. a teoria de
uma maternidade perversa / as mulheres não
podem jogar futebol.
às vezes diz-se do o futebol feminino que
é quase outro esporte. mas é esse outro
futebol, quase sempre, o melhor futebol.
isso ninguém diz.
melê – três na linha, um no gol. a bola tem
que ficar no ar. regras complexas
envolvendo bolas na trave e por cima do
travessão. geravam discórdia. dentro da
área gol só de cabeça.
linha – três na linha, um no gol. toque só
de primeira. terceiro toque tinha que ser
pro gol. se o goleiro encaixasse a bola,
saía do gol.
driblinho, altinha, embaixadinha, bobinho,
timinho – o futebol também é feito de
diminutivos
e a questão era sempre: se a bola saía (às
vezes a questão aí era colocada em outros
termos: se parede valia), se ia ser saída
bangu (sempre era), o time com a menina ia
ser o com camisa – aí não tinha se.
o futebol feminino foi proibido como
esporte no brasil entre 1940 – 1979. mas
ninguém parou de jogar no campinho, na
areia, no asfalto.
mrs. graham era goleira do mrs. graham’s
XI, time organizado na escócia em 1881. no
primeiro jogo oficial entre mulheres de que
se tem notícia, o jogo foi interrompido aos
55 minutos por uma invasão massiva do campo
pelos homens que assistiam, o que virou
rapidamente um motim. mrs. graham era na
verdade helen matthews, sufragista com
certa notoriedade; ainda assim para jogar
futebol quase todas as mulheres utilizavam
pseudônimos para se protegerem das
consequências, que variavam entre verbais
e físicas.
proibidas de jogar na esócia, mrs. graham
vai para a inglaterra e se junta com nettie
honeyball – obviamente um pseudônimo - e
começam o the lady footballers.
a presidenta da equipe era lady florence
dixie, que também era correspondente de
guerra e escritora. escreveu um romance
utópico feminista: gloriana, or the
revolution of 1900. o romance não é bom. e
prevê que em 1999 o meio de transporte ainda
seria o balão. a bola do futuro.
emma clarke, que jogou em ambos os times,
foi a primeira pessoa negra a pertencer a
uma equipe de futebol na inglaterra.
goleira e lateral direita. em 1921 a
inglaterra tbm proibiu o futebol feminino
de ser realizado em gramados oficiais. o
jeito era jogar no parque, mas às vezes
terminavam presas.
nos municípios autônomos zapatistas, em
chiapas, as mulheres jogam futebol. mas lá
ninguém tem nome próprio quando está no
campo. e o time que perde continua em campo
"até que aprendam". // como de costumbre en
esos partidos, nadie pregunta nombres. uno
o una o unoa no se llama juan, o juana o
krishna, no. es la posición que tienes la
que te nombra. “¡oyes portería! ¡pásala
volante! ¡duro defensa! ¡dale atacante!
¡acá delantero!”, se escucha en la
algarabía del potrero, con las vacas
indignadas porque el ir y venir de los
equipos les arruina la comida.
en una orilla, una niña inquieta hace por
calzarse unas botas de hule que, se nota,
le quedan grandes
“y vos, ¿cómo te llamas?”, le pregunta el
hombre a la niña.
“yo defensa zapatista”, dice la niña y pone
su mejor cara de “si no quieres morir,
retírate”.
mas a rosalinda me lembra que: no solo las
mujeres zapatistas juegan fútbol, en
zomajapa, sierra de zongolica, también.

& no xingu

& as krahôs

& as sateré-mawés

& as guaranis

& por aí
em entrevista publicada no jornal o dia, de
1940, o dr. leite de castro, “notável
autoridade em assuntos científico-
esportivos”, colocou-se contra a prática de
futebol feminino. eis os seus pontozzzzzz:
- “sob o ponto de vista estético é um
contrasenso o futebol feminino, assim como
encarado pelo lado biológico, é um esporte
violento capaz de alterar o equilíbrio
endócrino da mulher."
- “praticado por mulheres só pode ser
aplaudido como exibição grotesca ou teatral
ao sabor da curiosidade popular, ávida de
novidades ou originalidades.”
- “a mulher orientada para os esforços
violentos ou prolongados, fica
completamente desviada de seu verdadeiro
papel. ela evolue para um equilíbrio
plástico e orgânico, diante do esporte
violento, em detrimento da sua função
materna. o que ela ganhar como atleta,
perde como mulher.”
- “para conquista da beleza e da saúde,
bastará que a mulher fuja dos esportes
violentos e se entregue aos exercícios
corporais sadios, correndo para os campos
e piscinas, afim de obter harmonia de
formas, delicadeza de gestos, correção de
atitude e rigidez orgânica completa para a
sua felicidade e grandeza de nossa pátria!”

em 1941 cléo de galsan na gazeta respondia


à pátria: “o futebol, senhores
incompetentes, é o menos perigoso para os
orgams femininos que os movimentos
executados em certas danças rhythmicas.”
cléo de galsan, quem é você?
o primeiro chute
que todo mundo dá
é na barriga da mãe
mas quem batia bola comigo desde que eu
aprendi a andar foi o meu pai.

simone brantes num poema longo lembra da


bola quando fala da morte do pai, como se
a morte do pai vivesse de novo essa memória,
uma conexão inevitável entre o pai e o
futebol. ela diz que ela voou em sonho para
a margem do rio onde jogava bola. eu e todos
os garotos da rua/Eu entrava com a bola e
eles/com a fome/Quando a bola caía no
rio/um deles/equilibrava a queda e a
descida/pela ribanceira/e voltava com
ela/debaixo do braço//Então/da primeira vez
que meu pai/quase morreu/eu estava lá

é que a bola é um espírito que se move à


revelia dos cálculos. jogar bem não tem
nada a ver com capacidades premonitórias.
jogar bem é saber acomodar nos pés essa
força do além. os gols mais bonitos a gente
faz enganando até a gente mesma, quando um
cruzamento vira um gol de cobertura. quando
o pé e a bola, juntas, contraintuitivamente
driblam e desafiam as leis da física: o
melhor caminho entre dois pontos não é a
reta. o lance é que o pé tem que seguir o
espírito.
tem um gol da marta que é dos mais bonitos
do mundo. na copa do mundo de 2007, contra
os eua, um jogo que terminou 4 x 0, marta
pela lateral esquerda domina a bola de
costas para a zagueira, com a bola ainda no
ar. usando a outra a perna, passa a bola
para um lado enquanto ela vai pelo outro
até se reencontrarem – um drible da vaca
profana - para mais um drible e aí o gol.
três ângulos de câmera são necessários para
entender o que aconteceu.
[com a cristiane eu sentaria para tomar
cerveja]
não foi tanto por essas acrobacias dos pés
que na década de 20 e 30 no brasil o lugar
destinado ao futebol feminino foi o circo.
não que o circo seja um local indigno, mas
a restrição do futebol praticado por
mulheres a ele circunscrevia a prática ao
absurdo, cômico e sobrenatural. o futebol
é tudo isso. mas não pode ser só isso.
as jogadoras pertenciam à companhia e
disputavam partidas curtas, com duas
equipes de 5, a cada dia vestindo camisas
de times diferentes, simulando campeonatos
nacionais e internacionais.

na década de 70, um dos argumentos para a


regularização do futebol feminino no brasil
era:

“seria ainda um fato de moralização nas


praças de esportes, uma vez que a simples
presença feminina é aquela beleza de
espetáculo que tanto agrada aos olhos
masculinos como aos das próprias
assistentes femininas, mesmo que seja para
posteriores comentários dos possíveis
defeitos que as mulheres sempre vêem nas
outras.”
na década de 80, ainda havia quem
insistisse na proibição:
“em outras épocas o futebol feminino era
vez por outra realizado com fins
filantrópicos, visto que os torcedores viam
nas garotas jogando uma atração, mas a
verdade é que agora a prática está tomando
outros rumos e o CRD decidiu alertar para
o perigo, antes que alguém tenha a lamentar
alguma coisa.”

O PERIGO <CLARO< SEMPRE FOI OUTRO

(1940)

(1959)
se sobrevivemos é porque sempre teve alguma
outra menina que jogava e sabia o que era
amarrar a chuteira com o pé apoiado no
mictório do vestiário masculino.

ritinha e tusta estavam felizes pois haviam


se encontrado. eram a dupla de área do time
masculino club atlético frigorífico.
suprimi a legenda da foto para
concentrarmo-nos na alegria. na entrevista
elas dizem, entre tantas outras coisas:
“futebol é um relax gostoso”.
à illa, que também corria para a quadra
assim que batia o sinal do recreio.
à denise, que colava no campinho sempre que
o vô dela deixava.
em 2010 um time de futsal em campinas
destituiu o técnico e seguiu o campeonato
na auto-gestão. ritinha, biscoito,
paulinha, mari, mineira. ninguém tirou
foto. tomamos 24 garrafas de cerveja;
fomos campeãs.