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Einaudi_Hipótese.

doc

GRANGER, G. G. Hipótese. In Enciclopédia Einaudi, Vol. 21. Lisboa:


Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1992, p. 39-54.
www.virtual.nuca.ie.ufrj.br/infoeducar/bib/granger2.doc

HIPÓTESE

Seria possível descrever a traços largos a história da «idéia de ciência» descrevendo as


alterações de estatuto da noção de hipótese. Por certo, em virtude da extensão sem
precedentes dos domínios atualmente explorados, com sucesso, pela ciência, do refinamento
sempre mais audacioso das abstrações a que recorre, o pensamento contemporâneo parece ser
particularmente sensível ao problema da natureza e do valor das hipóteses cientificas.
A palavra hypotheses em grego liga-se ao verbo tifheni ‘ponho’ e à partícula hypo ‘por
baixo’. A palavra de origem latina ‘suposição’ é, portanto, o seu decalque literal; o seu sentido
envolve simultaneamente a idéia de ‘conjetura’ e a de ‘princípio’, de ponto de partida de um
raciocínio. Na ciência tal como se nos apresenta hoje em dia, é difícil e certamente artificial
pretender distinguir em todos os casos, à viva força, hipóteses isoláveis e sistemas teóricos
complexos. Portanto, iremos tratar de hipóteses num sentido lato, abrangendo o que por vezes
se chama «princípios» e mesmo as grandes teorias que constituem o seu desenvolvimento.
É certo que os Antigos não ignoraram a presença de hipóteses na ciência. Mas o papel
que lhes reconheciam é característico justamente das profundas diferenças entre a sua
concepção entre a sua concepção da ciência e a nossa. Para Platão, o método «por hipóteses»
consiste em propor uma definição do objeto estudado para em seguida extrair as suas
conseqüências, ou seja, procurar as condições que tornam efetiva esta definição. Se
chamarmos «círculo» a figura plana cujos pontos são eqüidistantes dum centro, ela possuirá
determinadas propriedades; o objeto que se pretender identificar a um «círculo» deve,
portanto, possuir essas propriedades. Método que, segundo Platão, é o das matemáticas, mas
de que a dialética, única verdadeira das essências, apenas pode fazer um uso provisório, como
mostra o exemplo do Méron, em que a tentativa para definir por esse modo a virtude conduz a
uma aporia. É que o ideal platônico da ciência é justamente o de um conhecimento absoluto,
não-hipotético.
Nos Analíticos Posteriores, de Aristóteles, a hipótese aparece entre os princípios da
ciência. É então definida como uma proposição admitida sem demonstração e que estabelece
que uma coisa é ou não é. Distingue-se da simples definição por comportar uma afirmação de

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existência. É essencialmente indemonstrável, e se, na discussão, proposições demonstráveis


forem tomadas como hipóteses, é na medida em que aparecem provisoriamente como
aceitáveis, mas indemonstráveis para o interlocutor. A hipótese é assim um elemento legitimo
e inelutável da ciência aristotélica, mas não comporta nenhum aspecto propriamente
conjetural e pertence ao fundo último, radicalmente primeiro, do conhecimento.
Uma aquisição definitiva da epistemologia antiga foi, sem dúvida, a constatação de
que a ciência se deve apoiar em proposições que escapam a qualquer demonstração direta e
de que é necessário um limite na procura dos princípios. Mas a tomada de consciência de uma
situação nova nas ciências da Natureza, desde o início do século XVII, provocou uma
reflexão crítica sobre o caráter absoluto destas hipóteses. Aquilo que hoje em dia, no discurso
científico, qualificamos de hipótese, apenas pode ser considerado como uma paragem
provisória do pensamento, seja por conjeturar um fato descrito então de modo a ser suscetível
de ser estabelecido ou refutado no quadro dos termos que o definem, seja por propor um
conceito que justifique provisoriamente a sua coerência e eficácia no raciocínio explicativo
dos fenômenos observados ou provocados. Antes de examinarmos mais precisamente a
natureza e o papel destas hipóteses e o caráter que conferem à ciência, iremos tratar do caso
limite que as Matemáticas representam. É indubitável que se encontram na história desta
ciência algumas hipóteses-conjeturas: elas consistem na enunciação de uma propriedade dos
objetos matemáticos sugerida pelo exame de casos particulares mas cuja validade universal
não se sabe demonstrar. A mais célebre é, sem dúvida, o «Grande Teorema de Fermat»: a
equação xn + yn = zn não tem solução em números inteiros para n > 2. Num caso como este
poder-se-ia, aliás, perguntar se se trata duma conjectura propriamente dita cuja verificação nos
escapa ainda ou de uma proposição arbitrária (enquanto proposição universal) que o corpo das
Matemáticas permitiria sem contradição admitir ou rejeitar. Ambas as circunstâncias se
produziram no curso da história. Foi assim que as «conjecturas de André Weil» na teoria das
variedades algébricas sobre os corpos finitos foram recentemente demonstradas (P. Deligne) e
na teoria dos grafos foi demonstrada a conjectura das «quatro cores» (K. Appel e W. Haken).
Em contrapartida, a «hipótese do contínuo» formulada por Cantor revelou-se independente da
Teoria dos Conjuntos onde tinha sido enunciada (Cohen) e, por conseqüência, arbitrariamente
recusável ou admissível a título de novo axioma. Neste último caso, a hipótese reveste o
sentido muito particular de axioma eventual, próprio das Matemáticas. Posicionam-se a
existência ideal e as propriedades constitutivas dum objeto de pensamento donde
seguidamente se irão deduzir novas propriedades. A cláusula de existência, bem sublinhada
por Aristóteles, deverá então ser interpretada ou como simples não contradição dos termos
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que se encontram associados na hipótese ou, num sentido mais forte, como possibilidade de
construção efetiva do objeto. Esta natureza eminentemente liberal da hipótese-axioma
revelou-se tardiamente na história das Matemáticas quando, após mais de vinte séculos de
esforços para demonstrar «V Postulado» de Euclides, sistemas tão coerentes e fecundos, como
a geometria clássica, foram edificados sobre hipóteses diferentes.O reconhecimento de tal fato
epistemológico, tão escandaloso no seu gênero como a descoberta da irracionalidade de
diagonal do quadrado a longo prazo a concepção das Matemáticas. Mas repercute-se
igualmente sobre a própria idéia que temos dum conhecimento da Natureza, sugerindo que se
deve reexaminar o estatuto das suas hipóteses.

I. Diferentes tipos de hipóteses

Efetivamente, até que ponto deve uma hipótese das ciências da Natureza ser
interpretada como referindo-se à realidade? Parece claramente impossível que se possa usar
nestas ciências uma liberdade de construção do objeto idêntica à das Matemáticas. Contudo,
se é certo que as hipóteses, bem como qualquer proposição da ciência, visam uma
«representação manipulável» do real, os seus modos de representação e graus de
acoplamento a esta realidade são diversos. O que três exemplos significativamente diferentes
vão mostrar.
I) A hipótese de Maxwell sobre o campo electromagnético. Na seqüência dos trabalhos
experimentais de Faraday, e em oposição às concepções dos cientistas alemães que explicam
os fenômenos eletromagnéticos a partir de uma acção à distância, sobre o modelo da teoria
newtoniana da gravitação, Maxwell propõe uma concepção diferente destas ações mecânicas.
Explicar-se-iam então por um estado do meio intermediário, definido em todos os seus pontos
através de dois seres matemáticos de natureza vectorial, graças aos quais se podem calcular as
forças que aí se exercem sobre uma dada carga elétrica. Formula assim «hipótese de que a
ação mecânica observada entre corpos eletrizados se exerce através do meio e graças a ele,
como nos exemplos familiares da ação de um corpo sobre um outro mediante a tensão de um
cabo e a pressão de uma barra» [1873, trad. it. p.236].
Evidentemente que uma tal hipótese é determinada em termos matemáticos,
constituindo as propriedades formais dos dois vectores do campo as célebres equações de
Marwell, graças às quais é possível deduzir e calcular os efeitos eletromagnéticos. Mas, sob a
forma que o autor lhe confere, trata-se explicitamente de uma hipótese analógica, que fornece
uma imagem sensível da natureza profunda das coisas. Esta imagem sensível serve de ponto
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de partida para a imaginação criadora, ao sugerir-lhe a aplicação, até certo ponto, de métodos
já comprovados em outros domínios; não formulam diretamente qualquer conjetura
relativamente aos fatos, a acontecimentos observáveis. Constituem antes um quadro geral de
representação, sem que, notemo-lo bem, o cientista lhe atribua um valor absoluto. Com efeito,
Maxwell exprime-se com notável moderação a respeito da outra concepção dos fenômenos:
«Eu assumi mais o papel de um advogado do que de um juiz» [ibid, p. 134]. De resto, ele
sublinhou em várias oportunidades no seu Tratado o caráter dominador da estrutura
matemática de uma teoria física em relação aos avatares do fenômeno e, afortiori, às suas
representações.
2) A hipótese da evolução por seleção natural. Elaborada por Darwin entre 1837 e
1859 sob uma forma que pode ser resumida por duas proposições: as espécies não foram
criadas de uma só vez e separadamente; o principal (mas não único) agente da transformação
foi a «seleção natural», ou seja, o predomínio progressivo dos tipos que apresentam
características mais favoráveis para a sobrevivência e o sucesso.
Trata-se neste caso de uma hipótese-conjetura que enuncia fatos e acontecimentos,
observáveis directamente ou através dos seus vestígios. Aliás, ela é sugerida por uma coleta
de fatos que parecem estabelecer a sua validade. Darwin, originariamente adepto do fixismo,
reconhece, no decurso da sua viagem à volta do mundo, o caráter original adquirido pelas
espécies que vivem em ilhas há muito tempo privadas de qualquer contato exterior e
interpreta a diversidade dos seus traços como adaptações seletivas ao meio. O caso da seleção
artificial praticada voluntariamente e com êxito sobre os animais domésticos serve ainda de
caução a esta explicação.
Se tentarmos imaginar o mecanismo preciso da evolução, não podemos deixar de nos
lançar em hipóteses de um tipo análogo ao do exemplo precedente, pois pretende anunciar um
fato e não apenas um método de representação dos fatos.
3) Indicaremos um último exemplo de hipótese, escolhido em virtude do seu caráter
muito mais «local» e circunstancial. Pasteur, ao constatar que, dos dois isômeros ópticos da
asparagina, somente um tem o gosto açucarado, avança a hipótese que a dissemetria da
molécula na disposição dos átomos em torno do carbono, que permite distinguir os dois
isômeros, tornaria a molécula de aparagina capaz ou não de adaptar, por assim dizer
geometricamente, a um receptor biológico. Em termos mais gerais, Ehrlich (1845-1915) e,
mais recentemente, vários bioquímicos contemporâneos formulam a hipótese de que a
atividade farmacológica de uma molécula depende de determinados traços morfológicos e

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eletroquímicos da sua estrutura. Donde deriva a idéia de fabricar por substituição outras
moléculas conservando esses traços, eventualmente mais eficazes que a molécula de partida.
Trata-se aqui duma hipótese representativa, dependendo de todo um sistema teórico
anterior sobre a natureza dos edifícios moleculares. O seu alcance próprio é, contudo,
relativamente restrito, «local», no conjunto da ciência química, e as suas ligações à
experimentação são perfeitamente imediatas. Uma hipótese como esta serve, sobretudo, pelo
menos à partida, de esquema muito provisório para um conjunto de fenômenos assaz
particulares e de guia heurístico ajustável a uma ação tateante.
A partir destes três exemplos, parece claro que imaginação científica cria hipóteses de
tipos e de funções muito diferentes. No entanto, esta heterogeneidade - que seria ainda melhor
revelada por uma história pormenorizada das ciências - não deve ocultar uma oposição muito
nítida entre dois aspectos fundamentalmente distintos, mesmo que apareçam freqüentemente
como conjugados e particularmente confundidos na prática científica. Por um lado, o aspecto
conjectura de fato, eu conferi à hipótese a aparência de uma antecipação imediata da
experiência; por outro lado, o aspecto modelo abstrato, através do qual a hipótese se apresenta
como edifício conceitual, modo de representação que se não encontra directamente submetido
à experiência.
Ora, à medida que as ciências da Natureza se desenvolvem, o aspecto conjetura fatual
torna-se cada vez menos presente, porque cada vez menos significativo no discurso científico.
Será necessário concluir que a hipótese tem finalmente a contar a uma ligação com a
realidade? A questão da Natureza e limites do arbitrário da hipótese é certamente um dos
problemas mais importantes sobre que se debruçou a filosofia contemporânea da ciência.
2) Hipótese e experiência

A interrogação sobre a relação entre a hipótese e a realidade é, de resto, um dos modos


de abordar o problema do sentido da experiência e do sentido do pensamento. Um bom
exemplo concreto desta questionação é nos fornecido pelo desenvolvimento da « revolução
coperniciana» que marca, para o historiador da ciência, no decurso da segunda metade do
século XVI, o início duma renovação da astronomia e da concepção do Cosmo, mas que se
apresenta primeiramente aos olhos do epistemólogo como uma verdadeira crise da hipótese.
No mundo antigo, as hipóteses destinadas a explicar os movimentos dos astros foram
interpretadas segundo duas tendências alteradas. Uma delas, que triunfa com Aristóteles,
encara-as como hipóteses físicas, ou seja, como diretamente representativas de movimentos
reais. Aliás, o filósofo julga dever acrescentar às esferas em rotação de Eudóxio e de Calipo,
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que ele concebe como seres físicos contíguos, outros seres cujas rotações contrárias
compensam e anulam os movimentos de arrastamento indesejáveis gerados por esses
contactos. Na outra concepção, que atinge o seu apogeu com Ptolomeu, toda a maquinaria dos
movimentos circulares é puramente matemática. A composição destas rotações tornou-se,
aliás, muito complexa desde que Heráclides e Hiparco tiveram a idéia de descentrar as
trajetórias circulares em relação à terra e de as combinar entre si por meio dos epiciclos.
Compreendeu-se então a equivalência cinemática de várias representações distintas de um
mesmo movimento observado. Para Ptolomeu, a complicação e a irregularidade do fenômeno,
daquilo que é visto da Terra e que é real, explica-se por meio do sistema matemático
puramente representativo, em que se recorre aos princípios metafísicos de uniformidade e de
circularidade dos movimentos. Se, para «salvar os fenômenos», é necessário admitirem-se
rotações não uniformes em determinadas trajetórias, introduzir-se-ão no traçado do
movimento figuras novas, sem qualquer realidade física, em que, indiretamente, se encontra
restabelecida a uniformidade da rotação (teoria do equante). Tal imagem representativa - tal
hipótese - é tanto melhor quanto melhor satisfazer as exigências a priori da metafísica dos
movimentos naturais, que é em termos gerais ainda a de Aristóteles; ao mesmo tempo, ela
permite calcular com maior exatidão a marcha dos movimentos observados.
Copérnico, ao retornar a hipótese de Aristarco, muito embora se continue a apoiar no
esquema geométrico muito mais apurado de Ptolomeu, vai redescrever o sistema do mundo,
tomando o Sol e não a Terra como ponto de referência imóvel. A hipótese de mobilidade da
Terra opõe-se manifestamente à experiência imediata. Tratar-se-à assim de uma hipótese
puramente matemática - como sugerirão aqueles que, mais tarde, tentarão salvar Galileu da
condenação papal - ou de uma hipótese de facto? Copérnico, que conserva os princípios
aristotélicos de circularidade e de uniformidade do movimento, bem como da geometria
ptolomaica dos epiciclos, excêntricos e equantes, é, contudo, decididamente realista. Mas
faltam-lhe provas empíricas convincentes que possam contrabalançar com sucesso a aparente
evidência da imobilidade da Terra. Encontra-se, portanto, como mais tarde Kepler, na difícil
situação de manter como hipótese de fato uma proposição que apenas pode justificar através
de considerações de ordem conceptual. E será necessário esperar que Kepler, cortando enfim
com os princípios de Aristóteles, tenha a idéia das trajetórias elípticas para que a hipótese
heliocêntrica produza verdadeiramente uma simplificação decisiva da imagem representativa
do universo e permita efetuar a economia do arsenal ptolomaico. A convicção de Kepler não
podia fundar-se solidamente em dados empíricos; estes evidenciar-se-ão e serão
convenientemente interpretados só no interior do sistema newtoniano da dinâmica
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(diminuição dos pesos no equador devido à força centrífuga [1679] e desvio do pêndulo de
Foucault pela aceleração de Coriolis [1851]) e graças ao aperfeiçoamento da instrumentação
(paralaxe das estrelas fixas [1837]). No entanto, a revolução «coperniciana» é tanto mais o
triunfo da hipótese realista quanto as hipóteses conceituais se encontram por assim dizer
recalcadas, em Kepler, no domínio duma imaginação pitagórica quase mística (por exemplo, a
idéia de que as distâncias dos planetas seriam proporcionais aos raios das esferas inscritas e
circunscritas aos cinco poliedros regulares sucessivamente encaixados ... Por outro lado, a
relação entre a velocidade angular de um planeta no afélio e no periélio é interpretada por
Kepler como um intervalo musical, de modo que o sistema do mundo pode ser descrito como
«harmonia das esferas»).
Foi sem dúvida Galileu quem resolveu a crise da hipótese ao associar conscientemente
a conjectura de fato, por princípio empiricamente verificável - tal como o movimento da
Terra-, e as hipóteses conceptuais que são os esquemas matemáticos a que ele pretende
reduzir a explicação dos fenômenos. Compreende-se assim eu tenha podido, sem ser
platônico, proclamar no Saggiotore, que as leis da Natureza estão escritas em linguagem
matemática. A experiência sensível dá-nos de fato uma primeira representação da realidade,
mas mediatizada pelas reações do nosso corpo, como o ensina, um pouco mais tarde e
independentemente dele, o seu contemporâneo Descartes. Ela constitui seguramente o critério
último de verificação das hipóteses de fato que se formulam na sua linguagem; mas não
devemos deter-nos no seu conflito aparente com o edifício conceptual das hipóteses que
permitem dar dela uma representação mediata racional. É neste sentido que Galileu marca
verdadeiramente o início da idéia moderna de uma ciência da Natureza.
A posição de Newton, embora possa parecer ambígua, constitui o seu remate. No
célebre penúltimo parágrafo do Schlium gnerale que conclui os Principia [1687], Isaac
Newton escreve: «Não consegui até este momento, partindo dos fenômenos, descobrir a causa
destas propriedades da gravidade e não imagino hipóteses, pois tudo o que não é deduzido dos
fenômenos deve ser chamado hipótese e as hipóteses, quer metafísicas, quer físicas,
introduzindo qualidades ocultas ou mecânicas, não têm lugar na filosofia experimental [1713,
trad. it. pp.795-96]. No entanto, na sua Optica [1794], admirável monumento de física
matemática e experimental, propõe uma explicação dos fenômenos por meio de hipóteses
sobre a natureza da luz. O conjunto da sua obra permite, com efeito, dar um sentido mais
matizado e fecundo ao anátema lançado pelos Principia: I) todo o conhecimento da Natureza
deve partir absolutamente da experiência; só esta permite «estabelecer as propriedades das
coisas e procurar depois hipóteses para as explicar» [carta a Oldenburg, 1672]; 2) a ciência
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apresenta-se em definitivo como um esquema dedutivo a partir de axiomas e de definições


donde é possível extrair as leis dos fenômenos. É esse o caso da astronomia dos Principia e da
exposição da Optica.
Assim, as hipóteses surgem não como qualidades ocultas da matéria, mas como «leis
gerais na Natureza, pelas quais as próprias coisas se formaram, sendo a sua verdade mostrada
pelos fenômenos, embora as suas cousas não estejam ainda descobertas» [1794, query 31].
Newton, contudo, não deixa de filosofar sobre estas causas e de as remeter ao poder divino,
embora o faça em textos que destaca do corpo da exposição científica, em apêndice aos seus
grandes tratados. De fato, longe de rejeitar a hipótese enquanto esta constitui o quadro de um
sistema de representação racional dos fenômenos (tal como a atração universal, que, neste
sentido, é bem uma hipótese), Newton quer preservá-la simultaneamente de qualquer
confusão com a imaginação sensível e do dogmatismo das ontologias.

3. Hipóteses e convenções
Embora desde então formas de hipóteses tenham efetivamente exercido esse papel a
diferentes níveis do edifício científico, grande é para o filósofo a tentação de considerar
aquelas que parecem totalmente irredutíveis a conjecturas factuais como puras e simples
convenções. Trata-se, evidentemente, de hipóteses fundamentais, denominadas com
freqüência «princípios», como em física a hipótese da conservação da energia. Enunciada
inicialmente da consideração dos movimentos (energia cinética, energia potencial) essa
hipótese é mantida nos casos em que a experiência e a teoria parecem pô-la em xeque graças a
uma extensão da definição do termo (energia térmica, energia química, energia do campo
electromagnético e, por fim, assimilação da massa a uma energia). Será que essas hipóteses
valem, portanto, da massa a uma energia). Será que essas hipóteses valem, portanto, apenas
porque regem a gramática da linguagem científica, por serem apenas «definições
disfarçadas»?
A tese radical defendida por Edouard Le Roy considera que a ciência não é mais do
que a expressão numa determinada linguagem, dum conjunto de regras de ação e que essas
regras de ação são, em larga medida, convencionais. São, é certo, convenções que «têm
êxito», e compreende-se bem que toda a questão reside na natureza, extensão e razão deste
êxito. Poincaré [1904], cuja filosofia é com freqüência qualificada de «convencionalismo»,
criticou com grande lucidez esta forma extrema de nominalismo e de anti-intelectualismo
significa apenas, segundo afirma [La valeur de la science,1905], que a linguagem em que
referenciamos e descrevemos os fatos permanece uma criação provisória do pensamento.
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Quanto à linguagem se revela inadequada para formular de modo suficientemente preciso e


coerente novos resultados de experiências, ela é modificada. Mas deve concluir-se daí que
toda e qualquer hipótese não é mais do que uma definição nominal? Seria esquecer que, por
um lado, se um princípio não é propriamente uma conjectura que possa ser refutada pela
experiência, é contudo a experiência que, em última instância, sugere uma análise mais fina
dos termos em que aquele é enunciado. E esquecer igualmente, por outro lado, que essas
hipóteses são estabelecidas para permitirem a dedução de novas conseqüências e de modo
algum para reduzir as proposições da ciência a tautologias.
É assim que, no próprio momento em que Einstein elaborava a sua teoria da
relatividade restrita, Poincaré, examinando a incompatibilidade da electrodinâmica
maxwellina e da mecânica clássica, encara a eventualidade duma reconstrução desta, e da
enunciação duma nova hipótese fundamental, segundo a qual, crescendo a inércia com a
velocidade, a velocidade da luz tornar-se-ia um limite intransponível. A linguagem da antiga
dinâmica não seria então mais do que uma expressão aproximada, mais simples, dos
fenômenos, perfeitamente válida, no entanto, para as velocidades até então encontradas; de
modo que «não há razão para se lamentar ter acreditado nos princípios» clássicos. É
importante observar-se aqui que os termos deste exemplo - ‘inércia’, ‘velocidade da luz’ - não
designam de nenhum modo fatos imediatos de experiência. O princípio ou hipótese
fundamental da relatividade restrita, sugerido por Pincaré com tanta perspicácia, não é,
portanto propriamente uma conjectura incidindo sobre fatos. Não se reduz, contudo, a uma
simples redefinição arbitrária dos termos. Postula uma forma geral de funcionamento da
Natureza que Einstein, justamente, vai explicitar: neste caso particular, ele estabelece que a
descrição dos fenômenos até então estudados pela mecânica deve inscrever-se no mesmo
quadro que o dos fenômenos eletromagnéticos e deve permanecer a mesma para observadores
animados de movimentos relativos retilíneos e uniformes.
Na medida em que assenta em tais postulados, toda a ciência é radicalmente
hipotética, mas o caráter arbitrário das hipóteses consiste apenas no fato de delinearem os
quadros dum conhecimento cujo conteúdo apenas pode ser extraído, ao fim ao cabo, de uma
experiência bruta, sob pena de degenerar em fantasmagoria. Nesta perspectiva, a obra do
geómetra é simultaneamente exemplar e enganadora. Julgou-se durante muito tempo que ele
se limitava a produzir, sob uma forma explícita e pormenorizada, leis duma realidade original,
única, e constitutiva de qualquer representação dos fenômenos. A construção das geometrias
não euclidianas, ao mostrar a pluralidade dos sistemas de representação divergentes da
espacialidade, ensinou-se que as «hipóteses que fundam a geometria» não são enquanto tais
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verificações de fatos, mas regras de representação de objetos abstratos. Poincaré pretendeu


ver nisso variantes duma mesma estrutura que pré-existiria no nosso espírito, a estrutura geral
de grupo, entre as quais a forma euclidiana seria escolhida como a mais cômoda para
organizar as nossas percepções e a representação dos nossos movimentos. Seja ou não
verdadeira esta tese sobre a organização primitiva do nosso comportamento, parece que, de
fato, ao nível do conhecimento científico reina essa pluralidade de sistemas de referência. A
história das ciências mostra-nos constantemente tal multiplicidade, quer em períodos
sucessivos, quer mesmo simultaneamente. As hipóteses conceptuais da ciência são regras que
fornecem a armação do sistema da nossa representação dos fenômenos; despendem do modo
como recortamos esses fenômenos e definimos os nossos conceitos, num dado estado dos
nossos meios de observação e manipulação experimental. Não constituem da experiência,
deduzir através das cadeias de raciocínios e das sucessões de procedimentos. A orientação
positiva do progresso da ciência significa que a revisão das hipóteses se verifica sempre, em
última análise, no sentido duma sistematização mais completa e duma eficácia crescente da
dedução. Comparando por exemplo as hipóteses atomistas dos Antigos, de Descartes, de
Rutherford, de Bohr, o que ressalta é o desenvolvimento duma imaginação criadora cada vez
mais rica e sutil, bem como o poder de reconhecer e produzir efeitos novos. Mas a hipótese
também se estabelece sobre um terreno cada vez mais afastado da experiência imediata e
torna-se cada vez menos interpretável numa linguagem destinada a descrever o mundo
sensível. Kuhn [1962] insistiu recentemente numa concepção da história da ciência que
manifestaria uma sucessão descontínua de sistemas de constrições encerrando a ciência, numa
época e sociedade determinada, num quadro rígido. A forma dos problemas levantados, das
soluções esperadas, das operações efetuadas, seria ditada pela necessidade de se conformar
com esses «paradigmas» oficinas. No interior deste quadro, a formulação das hipóteses seria
assim orientada por um mesmo estado para uma fecunda renovação. Não é possível negar-se
este aspecto estabilizador do desenvolvimento da ciência: o progresso é condicionado em
primeiro lugar pela manutenção provisória das grandes formas de equilíbrio, determinadas
justamente por hipóteses conceituais suficientemente largas e ricas de conseqüências. Pode
falar-se genericamente de uma ptolomaica, de uma física newtoniana, de uma economia
paresctiana. Mas não é possível concordar-se com Kuhn, quando afirma que esses paradigmas
constituem sistemas incomunicáveis e que o conteúdo da ciência newtoniana, por exemplo,
seria intraduzível nos conceitos einsteinianos. Um sistema de hipótese nasce, pelo contrário,
dum sistema anterior e só o destrói porque, de certo modo, revela o seu sentido e o situa numa
perspectiva que o permite dominar.
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4. A verificação das hipóteses

Compreende-se claramente que não é possível qualificar a hipótese científica em geral


como verdadeira ou falsa. Uma conjectura referente a um fato diretamente acessível à nossa
percepção depende sem dúvida, de modo convincente, dum tal juízo: por detrás desta
folhagem, no ramo que oscila, está um pássaro; basta lá ir ver. Mas, se afirmar que a terra se
move, o sentido empírico da minha conjectura é já mais complexo de estabelecer. Contradiz a
observação imediata: não se manifesta nenhuma das sensações que acompanham usualmente
uma rotação. Mas no quadro duma representação mais larga posso conceber e organizar
experiências com resultados imediatamente sensíveis que irão ou não concordar com os
fenômenos característicos desse movimento, por exemplo, a rotação lenta do pêndulo de
Foucault.
Quanto a uma hipótese como a de Avogrado – um mesmo volume dum gás qualquer
contém o mesmo número de moléculas nas mesmas condições de temperatura e de pressão -,a
sua validade parece à primeira vista depender duma operação empírica elementar: uma
contagem de objetivos ou, pelo menos, a manifestação evidente da igualdade dos dois
números. Sabe-se como, na realidade, um tal procedimento é neste caso desprovido de
sentido e que a validade da hipótese não depende de uma observação, mesmo indireta, do
fato que parece afirmar; depende da experiência apenas mediante conseqüências muito
elaboradas no interior dum sistema conceptual complexo. Poderia defender-se que na ciência
se apresentam todos os graus intermediários entre estes três exemplos e que mesmo a hipótese
factual aparentemente mais acessível à experiência imediata faz já apelo a convenções
conceituais desde que se queira determinar com previsão o conteúdo pertinentes desta
experiência. O que, em rigor, é indesmentível. No entanto, estas diferenças de grau originam
diferenças epistemológicas funcionais e não se pode deixar de verificar que existem, nas
ciências, hipóteses locais e pontuais que exercem o papel de um reenvio direto a fatos e se
encontram submetidas à eventualidade de uma rejeição pura e simples, e hipótese-quadro,
para as quais se deve reservar por excelência o nome de conceptuais, suscetíveis de
elaborações, de reinterpretações, de integração em sistemas que as renovam.
A verificação das hipóteses de tipo factual, embora reconduzindo-se de direito a
constatações, levanta contudo o problema clássico da indução. Com efeito, um enunciado
científico refere-se sempre a um fato genérico, despojado das singularidades que, numa
experiência real, fazem dele um acontecimento individual. Verificar estritamente uma

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conjectura exigiria assim que se recenseassem todos os casos individuais de realização desse
fato. O movimento indutivo decide que a observação dum número finito de casos é suficiente
para fundar a hipótese. Uma atitude mais radical e mais formal consiste em não reconhecer
como plenamente válida senão a argumentação inversa: para a refutação duma hipótese basta
estabelecer um único contra-exemplo; mas a sua verificação através de casos favoráveis
nunca é senão plausível. Popper [1959] extraiu desta observação um critério de
admissibilidade: para eu um enunciado seja admissível como cientifico, é necessário que se
possa conceber uma experiência suscetível de fornecer um seu contra-exemplo, ele deve ser
acessível à refutação. O que se aplica seguramente e sem restrições às hipóteses factuais; no
que se refere às hipóteses conceituais, voltaremos à questão para introduzir algumas restrições
a esta tese.
Se a hipótese factual genérica não pode ser, em rigor, estabelecida pela experiência,
esta não deixa de poder fundar a sua plausibilidade. As teorias da indução, partidas de
considerações lógicas com Stuart Mill, desenvolveram-se posteriormente sob a forma de
construções lógico-matemáticas utilizando o cálculo das probabilidades e a teoria dos jogos.
Baseiam-se na idéia duma estratégia das opções entre várias hipóteses, fundada na atribuição
de «valores» e de «custos» aos sucessos e aos erros, e sobre a definição de regras de decisão
que maximizam um critério ligado aos resultados aleatórios da conjectura. O recurso a testes
estatísticos é, evidentemente, essencial para a estimulação do valor dos parâmetros e das
constantes em todos os domínios. Mas a sua extensão parece ser tanta mais lata - se não tanto
mais segura - quanto se trate de partes da ciência ainda mal desenvolvidas, em particular nas
ciências do homem. Um processo de validação deste tipo assume mais o aspecto de
procedimento heurístico, pois as hipóteses, mesmo factuais, da ciência são sempre
virtualmente o ponto de partida duma elaboração que as relaciona com estruturas fortemente
conceitualizadas, cujo tipo de validade, embora menos imediato, é o único capaz de satisfazer
completamente um ideal racional. A hipótese - factual, no entanto - do duplo movimento na
hipótese conceitual de uma teoria da gravitação.
O que nos remete para o problema da validação deste último tipo de hipóteses. A
maior parte das vezes apresenta-se sob a forma complexa de «teorias» e não podem ser
formuladas como enunciados isolados. E, caso o fossem, tratar-se-ia duma simplificação só
aparente, pois o aparelho conceptual sem o qual esta formulação não teria sentido
permaneceria subentendido. É o que acontece, por exemplo, com o seguinte enunciado: «a
entropia dum sistema isolado não pode decrescer.» O que se pede a tais hipóteses não é tanto
serem directamente confirmadas por resultados experimentais, mas permitirem deduções
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longínquas, explicando de modo coerente fenômenos novos. Einstein, a partir das hipóteses
da relatividade geral, verifica a anomalia (na hipótese newtoniana) do movimento do periélio
de Mercúrio. Não é, pois possível dizer que essas hipóteses são verificadas pela experiência
enquanto proposições isoladas. Duhem [1906] já o tinha assinalado quando notava que é o
«sistema em que se integram» que é submetido em bloco ao controle experimental. Quine
[1960] irá mais longe, ao sustentar que os próprios sistemas teóricos se encontram largamente
subdeterminados em relação a qualquer observação possível, e que vários conjuntos de
hipóteses logicamente incompatíveis poderiam, contudo ser empiricamente equivalentes. Mas
nos exemplos em que se poderia pensar - como as duas teorias da emissão e da ondulação
para o fenômeno luminoso e a sua «síntese» em mecânica quântica - só seria possível falar de
incompatibilidade lógica se se afirmasse que um objeto é simultaneamente uma onda e um
corpúsculo; ora trata-se de dois meios de representação constituindo universos conceituais
diferentes, e não de propriedades perceptíveis de objetos; não são, por exemplo, mais
incompatíveis logicamente do que a teoria métrica apoloniana das cônicas e a teoria projetiva.
Por outro lado, não é totalmente exato que os dois sistemas sejam empiricamente
equivalentes: os seus poderes explicativos são complementares e só em parte se recobrem. A
história das ciências mostra-nos que, quando se retém uma das hipóteses concorrentes, ela se
revela sempre mais poderosa, quer pela amplitude dos resultados que permite abarcar, quer
pela interpretação que sugere dos aspectos positivos e negativos das hipóteses que elimina.
Mas, em contrapartida, é sempre verdade, como Popper assinalou com vigor, que o
sucesso de uma hipótese só tem valor se for formulável em termos tais que a experiência a
possa refutar. Sem o que a informação que fornece seria nula, vista que compatível com
qualquer dada pela Natureza às questões que seria possível por-lhe. No entanto, a experiência
não pode levar-nos a rejeitar uma hipótese conceptual tão claramente como uma conjectura de
fato. Neste último caso, é possível dizer-se que a experiência responde sim ou não ou, pelo
menos, caso se trate dum dado estatístico, que nos fornece o meio de escolher calculando os
riscos de erro. Tal não e verifica no caso da hipótese conceitual, que pode sempre ser
«imunizada», segundo a expressão de Popper [1959]. É uma questão de imaginação e de
engenho. A história dos sistemas geocêntricos é disso um excelente exemplo: são salvos
através da invenção dos excêntricos e dos epiciclos para corrigirem os desvios entre os
movimentos observados e os movimentos representados. Do mesmo modo, em concorrência
com a relatividade restrita, há físicos que imaginam hipóteses sobre o comportamento do éter
que permitem explicar a constância da velocidade da luz e imunizam aparentemente a
hipótese clássica do éter contra o resultado negativo da experiência de Michelson e de Morley.
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É certo que se trata de exemplos negativos, pois que, em ambos os casos, uma nova hipótese
virá a ser decididamente adaptada. Mas pode-se citar casos positivos, dos quais o mais
conhecido será talvez a descoberta de Neptuno. As hipóteses newtonianas da mecânica celeste
não conseguem aparentemente calcular a órbita observada de Urano; poderia concluir-se que
por isso se encontravam refutadas. Mas Le Verrier tenta mantê-las, graças a uma conjectura de
fato: a presença dum objeto perturbador desconhecido, cuja órbita pode justamente ser
calculada pelas hipóteses newtonianas. Hipótese de fato introduzida como complemento do
domínio experimental em que surgiu a hipótese conceitual e que releva naturalmente de uma
verificação empírica e decisiva: Le Verrier designa o local do céu e o momento em que o
telescópio de Gall devia descobrir o planeta Neptuno.

5. A hipótese nos confins da ciência


Na maior parte dos domínios em que recolhemos os nossos exemplos, o caráter
duvidoso da hipótese encontra-se relegado para segundo plano; ele é suplantado pela sua
virtude de construção e predição. Contudo, a hipótese, no seu fundo, permanece sempre um
produto duma imaginação audaciosa, que aceita empenhar-se sem a segurança de um apoio. A
situação, a este respeito, das ciências do homem poderia recordar-nos esse fato, bem como a
situação, particularmente instrutiva, da cosmologia moderna, essa disciplina nos confins da
astrofísica e da física matemática.
Nas ciências do homem, tal como atualmente se tenta constituí-las, a hipótese
conserva ainda com freqüência características arcaicas semelhantes às que possuía nas
ciências da Natureza antes da revolução epistemológica do século XVII.
1) São, por exemplo, simples constatações do senso comum, certamente válidas no seu
nível, mas impossíveis de utilizar desde que se procure conferir uma forma e um conteúdo
suficientemente precisos às noções para que os seus termos remetem. Tais aforismos podem
de fato servir de guias para uma prática concreta e individualizada, mas então essa prática é
uma arte, em que os preceitos não exercem mais do que a função de um enquadramento assaz
impreciso. No conhecimento científico - que, uma vez constituído, pode obviamente
multiplicar os nossos poderes de acção nas situações concretas particulares -, o sistema das
noções só tem eficácia se estas tendem a desenhar-se em conceitos com contornos distintos e
encadeados uns aos outros. Ora, correspondendo a formulação de hipóteses à descrição que
anteriormente avançamos, choca neste domínio dos fatos humanos com a dificultada de
constituir conceitos suscetíveis, ao mesmo tempo, de entrarem numa combinatória abstrata e

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de se articularem imediata ou mediatamente, por meio de procedimentos normalizados, com a


experiência.
2) As hipóteses, nas ciências do homem, são também, com grande freqüência, teses
filosóficas disfarçadas em maior ou menor grau, de constatações factuais. Isto significa que
elas são interpretações do vivido, que lhe conferem um sentido, e cujas conseqüências são
apresentadas como um conhecimento objetivo dos fatos, quando constituem antes uma ética
ou uma estratégia para modificar ou dominar a nossa condição humana. O entrave que assim
se cria à marcha da ciência provém o fato de tais hipóteses se encontrarem pela sua natureza
subtraídas a qualquer verificação. Não só são formuladas em termos que se relacionam com
idéias e não com objetos de experiência como também nessa qualidade se acham a priori
«imunizadas» contra qualquer insucesso: o malogro das conseqüências que delas se extraem
poderá sempre ser atribuído mais a circunstâncias desfavoráveis do que a de um defeito dos
princípios. A incomparável atracção de um «conhecimento» global do homem instituído a
partir deste modelo é hoje um dos principais obstáculos ao pensamento científico - e
justamente na medida em que o prestígio que o desenvolvimento das ciências da Natureza
confere ao pensamento científico leva a que se pretenda de qualquer modo fazer passar por
ciência do homem filosofia da condição humana.
3) Por fim, quando se tenta escapar às duas tentações que acabamos de denunciar e se
procura verdadeiramente formular hipóteses de tipo científico, a sua abstração e a sua aridez
contrastam a um tal ponto com a complexidade da experiência que elas não podem senão ser
decepcionantes. O exemplo mais acabado e conseqüente de um tal empreendimento poderia
ser o da economia política, tal como foi concebida no fim do século XIX pelos marginalistas e
desenvolvida pelos neoclássicos. O estatuto da hipótese é aí comparável ao dos princípios da
mecânica e da física, que se prestam à aplicação das matemáticas. Mas enquanto o edifício
abstrato das ciências da Natureza mantém relações constantes e operatórias com a
experiência, os sistemas elaborados neste estilo pelo economista permanecem-lhe, sem
esperança, estrangeiros. Poderia concluir-se pela impossibilidade de constituir ciências do
homem; mas as transformações das próprias ciências da Natureza no decurso de sua pré-
história autorizam antes a pensar que não foi ainda descoberto, nas ciências do homem, o
modo adequado de formação das hipóteses.
O outro exemplo de um estilo não convencional e contestado de hipóteses científicas
seria fornecido pela cosmologia e pela cosmogonia contemporâneas. As especulações sobre a
natureza global, a evolução e a própria origem do universo tornaram-se, com efeito, matéria
de ciência, devido a dois acontecimentos epistemológicos decisivos: o desenvolvimento duma
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teoria do campo de gravitação na relatividade geral (Einstein) e a interpretação de Hubble e


Humason do fenômeno do red shift (deslocação no sentido do vermelho da luz proveniente
das galáxias longínquas) como uma «expansão do universo» [1929]. A partir de então
sucedem-se «modelos» de universo, desde si mesmo e de curvatura constante, até aos
modelos cosmogônicos de Lemaitre [1931], de Gamow[1949], de Hoyle [1948]m que
descrevem a formação do universo a partir de uma origem dos tempos. Para mostrar a
extraordinária audácia deste estilo de hipóteses, limitar-nos-emos a indicar a articulação de
algumas delas.
1) Partindo da teoria da relatividade geral, que constitui ela própria um cerrado tecido
de hipóteses conceptuais, de deduções, de cálculos e de confirmações empíricas, resulta que:
a) Qualquer lei física deve poder exprimir-se sob a mesma forma em qualquer sistema de
coordenadas. Dado que os objetos matemáticos chamados tensores são tais que, se as
coordenadas que os descrevem num sistema se anulam nesse sistema, elas anulam-se em
todos, uma lei física, pode exprimir-se cômoda e naturalmente escrevendo-se que um certo
tensor é nulo. b) A estrutura geométrica do espaço-tempo, que define as constrições a que se
encontram submetidas as alterações de coordenadas realizáveis, depende unicamente da
distribuição da energia sob todas as suas formas no universo. Estas constrições, modificando a
representação das trajetórias inerciais das massas livres, equivalem à postulação dum campo
variável de gravitação universal.
2) A «equação do campo», que liga a estrutura geométrica do espaço-tempo à
distribuição de energia, é estabelecida ao dizer-se que um tensor que caracteriza essa
distribuição é idêntico a um tensor que caracteriza a geometria do universo. A escolha da
forma deste último tensor é determinada por uma analogia com a equaçào newtoniana do
campo de gravitação e mediante considerações matemáticas puramente formais com , afirma
Einsteins [1916], «um mínimo de arbitrário».
3) Para que se passe à construção de hipóteses precisas sobre a estrutura espaço-
temporal do universo, é necessário introduzir na equação simplificada importantes, algumas
das quais são sugeridas pela observação astronômica (distribuição aparentemente homogênea
das galáxias) e outras são hipóteses «físicas» coerentes com a forma matemática do sistema
(identificação do conteúdo material do universo a um «fluido perfeito» de matéria e de
radiação). As equações assim obtidas (Robertson, Friedman) permitem então dar conta do red
shift e possibilitam ainda a escolha, consoante o valor dos parâmetros, entre duas hipóteses
diversas sobre a forma, o devir e a idade do universo.

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4) A partir do que conhecemos sobre a física nuclear e sobre as condições


termodinâmicas deduzidas dos modelos, imaginam-se cenários mais ou menos precisos de
interações, criações de átomos, emissões de radiações. Os fenômenos observáveis susceptíveis
de serem interpretados como pontos de ligação empíricos dessas formas cosmogonias são
constituídos, sobretudo pelas radiorigens longínquas e pela radiação de fundo descoberta em
1965 e identificada ao resíduo da radiação emitida pelo núcleo original do universo no início
da sua história.
Sem dúvida que a hipótese científica continua, neste caso, sujeita ao controlo do
pensamento dedutivo. Ela encontra-se preparada para se submeter às imposições
extremamente exigentes da observação e da experiência, que se acham, aliás, bem longe de
poderem fornecer uma base de confirmação ou de informação imediata. Mas a liberdade
excepcional aqui deixada à imaginação e à audácia intelectual deve fazer-nos compreender a
que ponto a formação e o desenvolvimento das hipóteses, mesmo nos domínios mais
tranqüilos e mais terra-a-terra da ciência, permanece no seu princípio uma obra criadora e
sempre aventurosa da razão. [G.G.G.]

Duhem, P
1906 La therie phisyque, son objet et as structure,Chevalier et Riviere, Paris (trad. it. I)
Mulino, Bologna 1978.

Einstein, A.
1916 Die Grundlage der allgmeire Relativitatstheorie, in «Annalen der Physik», (4), 49,
pp.769-822 (trad. it. in M. Pantaleo (org), Cinquant’anni di relatività, Editrice
Universitaria, Firenze 1955)
Kuhn, Th. S.
1962 Thu Structure of Scientific Revolutinos, University of Chicago Press, Chicago (trad. it.
Einaudi, Torino 19763)

Maxwell,J.C.
1873 Treatise on Eletricity and Maguetism, Clarendon Press, Oxford (trad. it. Utet, Torino
1973).

Newton, I.

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Einaudi_Hipótese.doc

1704 Optickes: or, a Treatise of the Reflexions, Refractions and Colours of Light, Smith and
Walford, London.
1705 Philosophiae Naturalis Principia Mathematica, Crownfield,Cambridge 17132 (trad. it.
Utet, Torino 1965).

Poincaré, H.
1904 La valeur de la science, Flammarion, Paris.

Popper, K.R.
1959 The Logic of Scientific Discovery, Hutchinson, London (trad. it. Einaudi, Torino
19763).

Quine, W. van Ornam


1960 Word and Object, Mit Press, Cambridge Mass (trad. it. II Saggiatore, Milano 1970)

As hipóteses consistem tanto em conjecturas sobre fatos como, em nome da sua


coerência e eficácia explicativa (cf. explicação), na proposição de um conceito; neste último
caso, a hipótese apresenta-se como um modelo abstrato (cf. abstrato/concreto). Tal conjectura
pode ser provada, mas, nas matemáticas, pode dar-se que se converta num novo axioma (cf.
axioma/postulado).
As modalidades de representação do real diferem segundo os tipos de hipóteses. Estas
podem ser analógicas (cf. analogia e metáfora), fornecendo uma imagem sensível (cf.
sentidos), na origem da imaginação, da criatividade; podem também anunciar fatos, ou
podem ser formuladas a partir de uma teoria (cf. teoria/prática) estabelecida (cf. antecipação,
acaso/probabilidade).
Entre os problemas postos pelas hipóteses, devemos considerar a sua relação com a
empiria/experiência de que se afastam em diferentes graus, e além disso a medida da sua
convencionalidade (cf. convenção, paradigma) e a sua verificação/refutação (cf. também
indução/dedução, lei). No sistema da ciência, a hipótese é o domínio em que a invenção
intervém ao mais alto grau e em que se verifica o mínimo de redução, como se verifica em
numerosos exemplos das cosmologias contemporâneas (cf. universo).

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