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Álcool e Tabaco na Adolescência: Modelo de Prevenção Primária

Artigo

Álcool e Tabaco na Adolescência:


Modelo de Prevenção Primária

Gertrudes Teixeira Lopes1, Margarida


Maria Rocha Bernardes2, Laura Var-
gas Acauan3, Ingryd Cunha Ventura
Felipe4

1. Considerações Iniciais
O presente artigo surgiu, inicialmente, de dis-
Resumo
cussões realizadas pelo Grupo de Estudos e Pesquisas Trata-se de estudo bibliográfico acerca do
uso de álcool e tabaco na adolescência, na
sobre álcool e outras drogas (GEPAD) da Faculdade perspectiva da prevenção. Considerando
de Enfermagem da Universidade do Estado do Rio a magnitude do problema, questionamos:
de Janeiro (FENF/UERJ), que mantém convênio como as ações de prevenção primária po-
deriam influenciar o uso de álcool e tabaco
com a Comissão Interamericana para o Controle na adolescência? Para tanto, derivamos
do Uso/Abuso de Drogas – CICAD, vinculada à os objetivos: fazer uma reflexão sobre o
uso de álcool e tabaco na adolescência e
Organização dos Estados Americanos – OEA.
ampliar a discussão sobre o modelo de
Como desdobramento desta proposta e com prevenção primária relacionado ao álcool
e tabaco. Passos metodológicos: definição
o intuito de elaborar estudos e pesquisas sobre a da temática a ser estudada; identificação
temática, a nossa discussão se apóia em argumen- e classificação das fontes; busca manual
tos científicos voltados para uma abordagem pre- e eletrônica, análise das fontes e redação
final. Para construção do corpus de análise,
ventiva sobre o uso de álcool e tabaco por adoles- utilizamos fontes secundárias escritas. A
centes. Para dimensionar o problema das drogas nossa reflexão a respeito do assunto se
neste universo, criou-se um projeto de extensão pauta na complexidade que o problema
enseja, considerando que a droga, em
intitulado “Álcool e fumo na escola: promoção da qualquer dimensão, é uma questão mul-
saúde e prevenção de riscos”, que pretende aten- tifacetada e multicausal, o que torna a
der a comunidade escolar de uma instituição de abordagem ampla e difícil. Partindo dessa
concepção, entendemos que as ações de
ensino fundamental público do Município do Rio prevenção primária se constituem em uma
de Janeiro, abordando temáticas que enfatizem a das ferramentas importantes no encami-
questão do uso de álcool e fumo, visando à pre- nhamento de soluções plausíveis para o
grupo de adolescentes. Acreditamos que
venção. o profissional enfermeiro possa ter papel
fundamental na prevenção de riscos e pro-
A adolescência, tema de numerosas discus-
moção da saúde do escolar, atuando junto
sões, como: sexualidade, delinqüência e gravidez, a este ambiente relevante para a formação
vem se somar ao uso de drogas, em sua ampla dos indivíduos.
Palavras-Chave: Enfermagem; Preven-
gama de fatores, como um período de transição ção; Álcool e Tabaco; Adolescência.
entre a infância e a idade adulta. É um período de
experimentações de muitos dos comportamentos 1
Professora Titular do Departamento de Fundamentos de Enfermagem da
UERJ. Doutora e Livre Docente na área da Enfermagem. Pro-cientista da
adultos, incluindo a experimentação com drogas UERJ. Pesquisadora do CNPq. Especialista e Pós-Doutorada em Álcool e
Drogas pela USP/RP. Membro do Núcleo de Pesquisa em História da En-
(Simões, 2006, p.281). fermagem Brasileira (NUPHEBRAS) da EEAN/UFRJ. Membro do Grupo de
Estudos e Pesquisas em Álcool e outras Drogas – (GEPAD) da FENF/UERJ.
Entendemos que essa fase do ciclo vital dos E-mail: gertrudeslopes@uol.com.br.
2
Mestre em Enfermagem pela UERJ; Professora da Universidade Estácio
seres humanos não se resume simplesmente à de Sá; Enfermeira Supervisora da Fundação Hospitalar de Resende.
Membro do Grupo de Estudos e Pesquisas em Álcool e outras Drogas
transição acima citada, mas sim a uma etapa ca- – (GEPAD) da FENF/UERJ. E-mail: margarbe@globo.com.
3
Graduanda da Escola de Enfermagem Anna Nery/ UFRJ, 8º Período.
racterizada por influências de contingência socio- Membro do Grupo de Estudos e Pesquisas em Álcool e outras Drogas
– (GEPAD) da FENF/UERJ. E-mail: lacauan@uol.com.br.
econômicas. Assim, encararmos dessa maneira a 4
Graduanda da Escola de Enfermagem Anna Nery/ UFRJ, 8º Período.
Membro do Grupo de Estudos e Pesquisas em Álcool e outras Drogas
adolescência, nos conduz à necessidade de estu- – (GEPAD) da FENF/UERJ. E-mail: ingrydventura@yahoo.com.br.

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darmos com profundidade aspectos referentes a Assim, para abordar a temática do álcool e ta-
esses cidadãos, que possuem características socio- baco na adolescência, derivamos como objetivos:
emocionais muito próprias. - Fazer uma reflexão sobre o uso de álcool e taba-
São preocupantes os índices de utilização de co na adolescência;
álcool e tabaco entre os adolescentes, suscitando - Ampliar a discussão sobre o modelo de preven-
uma reflexão maior em relação aos cuidados com ção primária relacionado ao álcool e tabaco.
a prevenção ao abuso de drogas e estes devem real-
Pretende-se com este trabalho contribuir
mente começar na infância (Vier; Rego; Campos,
para a reflexão por parte de enfermeiros e educa-
2003, p.39).
dores sobre prevenção primária de álcool e tabaco,
As indústrias do cigarro e do álcool utilizam e, ainda, para os próprios adolescentes, numa ten-
todo o encanto, com apelos chamativos e con- tativa de mudar visão, atitudes, crenças e valores
vincentes e propagandas bem elaboradas, lugares sobre os prejuízos da utilização dessas drogas.
bonitos, pessoas cheias de saúde, felizes, com su- A presente investigação consiste numa re-
cesso e com amigos, para conquistar mais consu- visão bibliográfica. Gil (1996, p. 48) informa que
midores. Alguns jovens, durante a fase da puber- a revisão bibliográfica procura explicar um dado
dade, em que há um aumento das possibilidades problema, a partir de referências teóricas publi-
de escolhas e descobertas, muitas vezes, se deixam cadas, podendo ser realizada como parte de outro
influenciar e atendem aos apelos feitos pela mídia tipo de pesquisa ou de forma independente.
e acabam cedendo aos “encantos” das drogas líci-
Para a elaboração deste artigo, seguimos o
tas (álcool e cigarro), e também acabam tendo a
caminho metodológico sugerido por Andrade
oportunidade de conhecer e serem apresentados (2003, p. 40-45), que aborda as seguintes fases
de forma velada às drogas ilícitas. para este tipo de pesquisa: definição da temática a
Justificamos a escolha do tema desta pesquisa ser estudada; identificação e classificação das fon-
pelos estudos científicos divulgados nas referências tes; busca manual e eletrônica, análise dos dados
disponíveis, que atestam existir um crescimento e redação final. Utilizamos fontes secundárias es-
cada vez maior do número de jovens usuários de critas para a construção do corpus de análise.
álcool e tabaco. Temos a convicção de que é ne-
cessário que sejam realizados cada vez mais estudos
2. A Adolescência e o Álcool
com o intuito de orientar melhor este público-alvo
quanto aos malefícios que estas substâncias podem A busca de identidade pode levar o jovem
causar, tanto para si, quanto para a sociedade. à incerteza sobre si mesmo, abrindo espaço para
ocorrência de situações de transgressão, busca de
Diante do exposto, levantou-se o seguin-
prazer imediato e necessidade de liberdade, que,
te questionamento: como a prevenção primária
muitas vezes, podem favorecer o uso indevido de
poderia influenciar o uso de álcool e tabaco na
drogas (Demicheli e Formigoni, apud Noto e Sil-
adolescência?
va, 2001, p.94).
Alguns dos grandes desafios das últimas dé-
Por ser o álcool uma droga de fácil acesso,
cadas têm sido os estudos e o desenvolvimento de ter ampla oferta e quase nenhuma restrição para
abordagens preventivas eficazes, contextualizadas seu uso serve como porta de entrada para outras
e adequadas às diversidades socioculturais. drogas, o que colabora para que este produto al-
A prevenção diz respeito a intervenções vol- cance também consumidores adolescentes.
tadas para diminuir a probabilidade de ocorrência Para muitos jovens, o contato com os psico-
de problemas de saúde associados ao consumo in- trópicos pode ficar restrito a episódios esporádicos
devido de drogas (Noto e Moreira, 2006, p.313). de consumo sem suscitar necessariamente com-
A OMS (1992 apud Noto e Silva, 2002, p. prometimento da saúde. No entanto, para outros
95) considera prevenção primária como conjun- pode ser diferente.
to de ações que procura evitar ocorrência de uso Além da possibilidade de acidentes e/ou vio-
abusivo, ou até mesmo experimental de drogas. lência decorrente da intoxicação aguda, o consu-

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Álcool e Tabaco na Adolescência: Modelo de Prevenção Primária

mo persistente do álcool pode, ao longo do tempo, formação – televisão e internet – competem com
desenvolver problemas graves de saúde mental, a família, e os pais não conseguem dedicar tanto
física e social (Masur e Carlini, apud, Noto e Sil- tempo aos filhos (Scivoletto, 2007, p.28).
va,1989, p.93). Acreditamos de forma veemente que o en-
Geralmente, o primeiro contato com o álcool fermeiro, como agente educador, possa ter papel
acontece dentro de casa e não é incomum ter o in- fundamental na prevenção de riscos de uso/abuso
centivo do pai, principalmente, no caso dos meni- do álcool por este segmento da população, criando
nos. Portanto, não se pode culpar apenas os bares e executando ações de prevenção direcionadas a
que descumprem a lei e vendem bebidas alcoólicas este público alvo.
para menores de idade (Scivoletto, 2007, p.27).
No caso das bebidas alcoólicas, as complica-
ções mais freqüentes na adolescência são decor-
3. O Uso do Tabaco na Adolescência
rentes de episódios de embriaguez, como aciden- Existem vários estudos no Brasil e no mundo
tes de trânsito e brigas. As conseqüências, a longo sobre o uso de tabaco por adolescentes em idade
prazo, vão se instalando de forma gradativa com escolar e deve ser ponto prioritário em qualquer
o passar dos anos. O problema se torna mais evi- estratégia de prevenção.
dente na vida adulta. Apesar de pouco divulgada, Podemos compreender o tabagismo na ado-
a dependência do álcool é muito freqüente, va- lescência, considerando o espírito de experimenta-
riando de 5% a 10% na população adulta (Noto e
ção do novo, de contestação, de identificação com
Silva, 2002, p.92).
seu grupo e fácil acesso à droga, o que pode ser de-
Sabe-se, portanto, que o uso e abuso do ál- sencadeador da dependência à nicotina num curto
cool acaba contribuindo para o crescimento dos espaço de tempo. Prevenir que crianças e adoles-
índices da violência, que também é um sub -pro- centes adquiram o vício de fumar é um fator deter-
duto deste ato. minante para a saúde pública gerando um impacto
O brasileiro, hoje, começa a beber, em mé- mais efetivo (Malcon e Menezes, 2002, p.81-82).
dia, aos 12,5 anos, segundo a última pesquisa do Poucas drogas são mais poderosas do que ci-
Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas garros, em termos de capacidade de gerar depen-
Psicotrópicas, realizada em 27 capitais do país dência; pouquíssimos fumantes conseguem fumar
(Scivoletto, 2007, p.28). somente nos fins de semana, ou apenas quando
A resistência que o adolescente sente ao ad- estão de férias. Na maioria dos casos, ser fumante
mitir o uso do álcool (droga lícita), associada à requer dedicação diária e várias vezes por dia, para
crença onipotente de que “não preciso de ajuda”, evitar nervosismo, desconforto, irritação e ansie-
“paro quando quiser”, dificultam a procura de au- dade (Marlatt, 2002, p.79).
xílio na fase inicial do problema. O sentimento de A precocidade na iniciação do uso/abuso de
desconfiança e temor é muito freqüente entre os substâncias psicoativas tem sido apontada pela
jovens usuários e, portanto, devem ser ainda mais OMS como um agravante do fenômeno das drogas.
acentuados os cuidados com o estabelecimento de Crianças e adolescentes em situações de vulnerabi-
vínculos de confiança, empatia, aceitação e sigilo lidade social tornam-se alvos prioritários das ações
(Noto e Silva, 2002,p.97).
de saúde, em busca da prevenção do uso/abuso.
Muitos adolescentes podem começar a usar
Estudos confirmam que crianças e adoles-
o álcool movidos pela curiosidade e para ter um
centes estão mais vulneráveis à iniciação ao uso
comportamento igual aos amigos da “turma” a
de drogas, e estimulados por fatores como idade,
qual pertencem. Algumas vezes, aumentando gra-
sexo, nível socioeconômico, pais fumantes, irmãos
dativamente seu uso, podem evoluir para o abuso
e amigos maiores que fazem uso de substâncias psi-
e, sem perceber, para a dependência. Tendo o ví-
coativas, rendimento escolar, trabalho remunera-
cio instalado, sem reconhecimento e sem condi-
do e mudanças repentinas de local de moradia. Há
ções de lutar para livrar-se dele, danos orgânicos e
que se enfocar mais os fatores de proteção como
sociais são apresentados trazendo vários prejuízos.
ambiente familiar, social e escolar, bem como es-
A tarefa de orientar adolescentes nos dias de tabilidade afetiva, financeira e de relacionamento
hoje não é nada fácil, já que diversas fontes de in- com amigos (Chavéz e Andrade, 2005).

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Portanto, sabendo que existe um crescimen- 58% no sexo masculino e de 31 a 55% no sexo fe-
to cada vez maior do número de jovens usuários minino. Enquanto a prevalência de escolares fu-
de tabaco, temos a convicção de que o uso dessa mantes atuais variou de 11 a 27%, no sexo mascu-
droga possa vir a ser porta de entrada para outras lino, e de 9 a 24%, no feminino (Brasil, 2002).
mais potentes. Assim, podemos e devemos en- Estudos realizados pelo Centro Brasileiro
quanto grupo pesquisador (GEPAD) realizar cada de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (CE-
vez mais estudos com o intuito de orientarmos BRID), em 1997, enfatizam que um fator agra-
melhor estes indivíduos. vante em relação ao uso de drogas é a tendência
No Brasil, o preço do cigarro é baixo, há falta mundial de iniciação cada vez mais precoce e
de restrição na compra e o controle de propagan- com utilização de drogas cada vez mais pesadas.
da é pequeno. Esses fatores tornam nossa popula- No Brasil, o consumo de drogas entre adolescen-
ção jovem um alvo promissor para as indústrias tes se inicia entre 9 e 14 anos. Entre adolescentes
de tabaco. Segundo o Ministério da Saúde, 90% com 10 e 12 anos, 51,2% já consumiram bebidas
dos fumantes adultos do Brasil tornam-se depen- alcoólicas; 11% usaram tabaco; 7,8% solventes;
dentes da nicotina até 19 anos de idade. Assim, 2% ansiolíticos e 1,8% anfetaminas. A situação
se as indústrias produtoras de tabaco conseguem se agrava entre crianças e adolescentes de rua
convencer um jovem a começar a fumar, as chan- (CEBRID, 2002).
ces desse jovem se tornar um consumidor assíduo O Ministério da Saúde vem investindo em
de seus produtos na vida adulta são altas (Marlatt, prevenção e, desde 2002, fornece tratamento gra-
2002, p.79). tuito nos serviços públicos de saúde aos fumantes
O tabagismo é, certamente, um problema que que desejam parar de fumar. O governo também
deve ser tratado com grande relevância pela saúde instituiu a Lei Federal 2018, de outubro de 1996,
pública. O tabaco é a principal causa de mortes que visa restringir ou inibir o consumo de tabaco,
evitáveis em todo o mundo (OPAS, 2002). bem como veiculação de campanhas publicitárias
deste produto e de seus derivados nos meios de
Segundo a OMS (INCA/MS, 2002), uma comunicação (Brasil, 2002).
pessoa morre, a cada dez minutos, no mundo, de
agravos resultantes do uso de tabaco. Estima-se que Apesar de todas as evidências científicas
um terço da população mundial adulta, ou seja, 1 que comprovam que o tabaco causa dependência
bilhão e 200 milhões de pessoas, sejam fumantes. (física, psicológica e comportamental) e que os
usuários se expõem a cerca de 4.700 substâncias
Pesquisas comprovam que de toda população do
tóxicas, com risco de desenvolvimento de várias
sexo masculino, cerca de 47%, e, do sexo feminino,
doenças, as indústrias de tabaco continuam fazen-
cerca de 12%, no mundo, façam uso do tabaco.
do campanhas publicitárias para atrair todas as fai-
É importante ressaltar que esse número alar- xas etárias de usuários, principalmente os jovens.
mante de mortes associadas ao tabagismo é maior
No que diz respeito ao uso de tabaco, é raro
que a soma do número de mortes provocadas pela
encontrar usuários ocasionais como no consumo
AIDS, heroína, cocaína, álcool e acidentes de
de outras drogas. Em sua maioria, as pessoas fu-
trânsitos (Rocha, 2006, p.157).
mam menos, inicialmente, e, pouco a pouco, vão
No Brasil, estima-se que 200.000 mortes por ganhando tolerância ao tabaco e, gradativamen-
ano são decorrentes do tabagismo (OPAS, 2002). te, aumentam sua demanda.
A estimativa anual é de 80 mil mortes precoces
Embora medidas de prevenção primária se-
decorrem do tabaco, isto é, cerca de 9 brasileiros
jam importantes, tratar o dependente de nicotina
morrem por hora por causa do tabaco. De acordo
significa muito mais, já que tem grande impacto
com pesquisa realizada entre 2002 e 2003, entre
pessoal, familiar e social. Em muitos tabagistas, é
pessoas de 15 anos ou mais, residentes em 15 ca- possível verificar sintomas de ansiedade e depres-
pitais brasileiras e no Distrito Federal, a prevalên- são, quadro que se agrava quando ocorre a síndro-
cia de tabagismo variou de 12,9 a 25,2%. Já em me de abstinência.
relação à prevalência de experimentação e uso
de cigarro entre jovens, de acordo com outro es- Nos anos de 2005 e 2006, no campo da saú-
tudo realizado em 12 capitais brasileiras, durante de, o controle do tabagismo foi assumido como
o mesmo período, a porcentagem variou de 36 a importante ferramenta da promoção da saúde e

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Álcool e Tabaco na Adolescência: Modelo de Prevenção Primária

esteve presente em algumas portarias criadas no Por estas características particulares dos ado-
ministério, como a Portaria n° 2.084/GM, de ou- lescentes, pela precocidade com que iniciam o
tubro de 2005, que inclui medicamentos utilizados uso, intervir, utilizando modelos preventivos ade-
na abordagem cognitivo-comportamental do fu- quados, levando em consideração características
mante, no elenco de medicamentos para atenção e necessidades do adolescente, pode ser uma boa
básica, sendo passo fundamental na consolidação escolha (Noto e Silva, 2002, p.93).
da atenção ao fumante no Sistema Único de Saúde Segundo Niel e Julião (2006, p. 328), a pre-
(SUS). Também é importante citar a Portaria N° venção primária se destina a indivíduos que ainda
687, que aprovou a Política de Promoção da saú- não tomaram contato com a substância ou que o
de visando à prevenção e ao controle de tabagis- fazem de maneira controlada, em níveis não pre-
mo num capítulo separado onde foram delineadas judiciais. Sua maior vantagem é a abrangência
todas as diretrizes que norteiam a implantação do global, através de palestras, reuniões, informativos
programa nacional e todos seus trabalhos em con- escritos e visuais. Tem como objetivos: informar
junto (Brasil, 2001). sobre limites prudentes de consumo; alertar sobre
Muitos países já reconheceram a necessidade potenciais danos nos diferentes ambientes da vida
de reduzir o consumo de tabaco e implementar po- cotidiana dos indivíduos; conscientizar sobre si-
líticas para alcançar as metas, como o Brasil. Esta tuações em que o uso envolve maior risco, como
realidade fez com que a OMS, juntamente com doenças físicas e mentais, gestação, uso de medi-
outras entidades, considerassem que o consumo de camentos, entre outros; prevenir que a substância
tabaco agrava a pobreza, a fome e a desnutrição, possa ser utilizada como atenuador do estresse.
ampliando a desigualdade mundial. O crescimento Entre os conceitos freqüentemente utiliza-
desordenado do consumo tem graves conseqüên- dos para subsidiar programas preventivos, estão
cias sociais e econômicas, e motivou diversos os fatores associados à proteção e os fatores asso-
países a aderirem a Convenção-Quadro para o ciados aos riscos que envolvem uma larga gama
controle do Tabagismo – primeiro tratado inter- de aspectos individuais e sociais. Esses fatores são
nacional de saúde pública da OMS – que promo- assim considerados por aparecerem freqüente-
ve medidas para deter a expansão do consumo de mente associados ao uso (ou não uso) indevido de
tabaco e seus agravos (Brasil, 2005). drogas. Entre os fatores de caráter individual, por
exemplo, estão alguns aspectos de carga genética,
4. Prevenção Primária em Relação ao auto-estima, autonomia, tolerância à frustração,
religiosidade e aspectos cognitivos, como a habi-
Álcool e Tabaco na Adolescência
lidade intelectual e a de resolver problemas. Os
Segundo a OMS (Prefeitura da cidade do Rio fatores sociais incluem questões relacionadas à
de Janeiro, 2007,p.18), uma pessoa bem informada inserção cultural, condição socioeconômica, vín-
tem menor possibilidade de usar drogas. A infor- culo escolar, vínculos familiares, escolaridade dos
mação não deve ser baseada no medo e nem deve pais, entre outros (Noto,Moreira, 2006, p. 313).
ser passada de forma alarmista. Informar é impor-
Ao elaborar estratégias de prevenção ao uso
tante, mas por si só não é suficiente para mudar
indevido de substâncias psicoativas, um grande
ou formar comportamentos positivos e preventi-
problema que encontramos é o contraste com a
vos. Por isso, é fundamental que seja dada atenção
aceitação social ao uso de álcool e tabaco no con-
para os aspectos afetivos, necessidades pessoais e
texto social. A dificuldade reside em criar uma dis-
sociais do indivíduo.
tinção maior entre o consumo de pequenas quan-
Algumas características da adolescência dei- tidades de substâncias psicoativas e o uso nocivo
xam o jovem especialmente surdo às campanhas (Niel e Julião, 2006, p. 328).
de prevenção, o que pode ocorrer por ter uma pos-
Portanto, a nossa reflexão a respeito do assun-
tura onipotente ou um pacto pessoal de imunida-
to se pauta na complexidade e na circunstanciali-
de contra os males do mundo. Para eles, os perigos
dade que o problema enseja, considerando que a
parecem não ter existência real, mas ser pura in-
droga, em qualquer dimensão, é uma questão mul-
venção de pais e educadores para tornar sua vida
tifacetada e multicausal, o que torna a abordagem
menos divertida (Aratangy,1998, p.10).
ampla e difícil. Assim, partindo desta concepção,

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entendemos que as ações de prevenção se cons- É vital que estes estejam unidos aos edu-
tituem em uma das ferramentas importantes no cadores, se façam presentes em várias etapas do
encaminhamento de soluções plausíveis para o trabalho educativo, exercendo ativamente e com
grupo de adolescentes. responsabilidade a profissão, sem deixar de lado o
aspecto social, no qual se encontra inserido, res-
peitando as particularidades de cada indivíduo no
5. Considerações Finais processo.
As indústrias de álcool e de tabaco ainda são Quando falamos em educação preventiva
muito poderosas no mundo todo e movimentam para adolescentes, é consenso que a escola é um
boa parte da economia de vários países, exercen- lugar que oferece todas as condições para tal in-
do seu poder no nível político, social e econômi- tervenção. Porém, a forma a ser utilizada ainda
co, promovendo, assim, a continuidade da depen- merece estudo e discussões para que possamos
dência do álcool e do tabaco. tornar a prevenção primária uma ação realmente
Por serem tabaco e álcool substâncias de fá- eficaz junto ao nosso público-alvo – os adoles-
cil acesso, servem como porta de entrada para ou- centes.
tras drogas, o que colabora para que estes produtos Desejamos sensibilizar os leitores deste es-
alcancem um grande número de consumidores, tudo para esta temática, que cada vez encontra-
contribuindo para o crescimento da violência, se mais presente no cotidiano dos adolescentes,
acidentes de trânsitos, mudanças comportamen- dos educadores e das famílias. Nossa intenção,
tais e muitas perdas. enquanto parte deste grupo de pesquisa, é criar e
Torna-se necessário que profissionais de fortalecer alianças com aqueles que efetivamente
saúde e educação, todas as esferas de governo e gostariam de minimizar o alcance e as conseqüên-
a sociedade estejam conscientes da problemáti- cias do uso de álcool e tabaco pelos adolescentes.
ca e possam intervir, dentro das suas esferas de
competência, para prevenir o uso indevido dessas
substâncias e, conseqüentemente, prejuízos futu-
6. Referências Bibliográficas
ros para a coletividade. ANDRADE, M.M. Introdução à Metodologia do Trabalho
Científico. 6ª.Ed. São Paulo: Atlas, 2003, p. 174.
Consideramos que seja necessário para os
ARATANGY, L.R. O desafio da prevenção. IN: AQUINO,
profissionais que trabalham junto aos adolescen- G.J. (org.). Drogas na Escola, Alternativas Teóricas e Práticas.
tes conhecer as características próprias deste gru- São Paulo, Summus, 1998, p.9-16.
po e seus possíveis desvios. BRASIL, Ministério da Saúde. Instituto Nacional
de Câncer. Coordenação de Prevenção e Vigilância
Apenas com a conscientização edificada em – CONPREV Programa Nacional de Controle do Tabagismo e
ações educativas de cidadania frente ao álcool e outros Fatores de Risco. Brasil: Rio de Janeiro, 2001.
ao tabaco é que acreditamos em sucesso nas ações BRASIL, Ministério da Saúde. Instituto Nacional de
de prevenção. Câncer - INCA. Convenção-Quadro para o controle de
tabaco. Rio de Janeiro: INCA, 2005.
Quando o enfermeiro consegue desempe-
nhar papel de educador, através de educação para CARLINI, E. e COTRIM, B. A escola e as drogas: realidade
brasileira e contexto internacional. Tese de Doutorado não
saúde, trazendo informações embasadas cientifi- publicada. Curso de Pós-Graduação em Psicologia Social.
camente e adaptadas de acordo com a realidade São Paulo: PUC, 1992.
da população-alvo, necessárias para o esclare- Centro Brasileiro de Informação sobre drogas Psicotrópicas
cimento das dúvidas dessa população, além de (CEBRID). UNIFESP – Universidade de São Paulo, 2002.
apontar os riscos em que estão envolvidos no uso Disponível em: <http://www.unifesp.br/dpsicobio/cebrid/>.
das drogas, estará prestando serviços importantes CHAVÉZ, L.M.C. e ANDRADE, D. A escola
para a prevenção primária na adolescência. fundamental na prevenção do consumo de álcool e tabaco:
retrato de uma realidade. Revista Latino-Americana de
Acreditamos que este profissional possa ter Enfermagem, vol.13, n°.spe,  Ribeirão Preto: Out,  2005.
papel fundamental na prevenção de riscos e na Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_
arttext&pid=S0104-11692005000700004>. Acesso em: 15
promoção da saúde do escolar, atuando junto a Jan. 2007.
este ambiente tão relevante para a formação dos
GIL, A.,C. Como Elaborar Projetos de Pesquisa. 3..ed. São
indivíduos. Paulo: ATLAS, 1996, p.159.

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Álcool e Tabaco na Adolescência: Modelo de Prevenção Primária

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