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24/06/2018 Steven Pinker: “Os populistas estão do lado sombrio da história” | EL PAÍS Semanal | EL PAÍS Brasil

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Steven Pinker: “Os populistas estão do lado sombrio da história” (Por Jan Martínez Ahrens, 16 JUN 2018)
Há muito tempo Steven Pinker (Montreal, 1954) matou Deus. Foi no Canadá, ao entrar na
adolescência e descobrir que não precisava dele para nada. “Quando comecei a pensar no
mundo, não encontrei um lugar e me dei conta de que não funcionava para mim sequer
como hipótese”, explica. Teve início então um idílio com a ciência que 50 anos depois não
parou de crescer. Considerado um dos psicólogos cognitivos mais brilhantes do planeta,
seus trabalhos acadêmicos, focados no binômio linguagem-mente, e suas obras de
divulgação, como Tábula rasa (2002) e Os anjos bons da nossa natureza (2011), quebraram
tantos moldes que muitos o veem como um visionário da filosofia do futuro.

Não é uma descrição que agrade Pinker, mas é impossível fugir dela ao repassar sua obra.
Cada um de seus livros gerou ondas sísmicas de longo alcance. Debates globais nos quais
este catedrático de Harvard, firme defensor das bases genéticas da conduta, nunca fugiu do
corpo a corpo, o que lhe valeu a fama de dialético invencível. Desse lugar, volta agora à
carga com uma obra maior. Um trabalho que ganhou o aplauso internacional e que Bill
Gates definiu como seu “livro favorito de todos os tempos”.

Enlightenment now (ainda sem tradução no Brasil) é acima de tudo um ajuste de contas com
os inimigos do progresso. Aqueles que pensam que o mundo não para de retroceder e que só
eles podem salvá-lo. São adversários bem conhecidos e temíveis. Donald Trump, o Brexit, o
populismo e os nacionalismos tribais fazem parte dessa corte sombria, adversária dos
valores do Iluminismo.

“Os ideais da razão, da ciência e do humanismo precisam ser


“Os populistas se
sentem inquietos defendidos agora mais do que nunca, porque suas conquistas
diante dessa podem vir abaixo. O progresso não é uma questão subjetiva. E
corrente gradual e isso é simples de entender. A maioria das pessoas prefere
inexorável que viver a morrer. A abundância à pobreza. A saúde à doença. A
leva ao segurança ao perigo. O conhecimento à ignorância. A
cosmopolitismo e liberdade à tirania... Tudo isso pode ser medido e seu aumento
à liberalização dos ao longo do tempo é o que chamamos de progresso. Isso é o
costumes” que precisa ser defendido”, explica Pinker.

ADAM GLANZMAN

Ele está sentado em seu escritório na Universidade de Harvard. À sua volta se respira
silêncio. O nono andar do William James Hall, projetado em 1963 pelo arquiteto Minoru
Yamasaki, é um lago de luz líquida de onde se contempla Cambridge (Massachusetts) e sua
chuva de maio. Dentro, no departamento de Psicologia Cognitiva, alguns poucos alunos
rodeiam o escritório do professor. Há livros especializados, moldes de cérebros e um ou
outro computador. Duas poltronas roxas convidam a sentar. Pinker faz isso sem parar de
olhar para seu interlocutor. Com sua aparência de roqueiro sobrevivente dos anos setenta,
parece tranquilo, em casa. Durante mais de uma hora, responderá perguntas com facilidade.

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Steven Pinker: “Os populistas estão do lado sombrio da história”

ADAM GLANZMAN

Ele está sentado em seu escritório na Universidade de Harvard. À sua volta se respira
silêncio. O nono andar do William James Hall, projetado em 1963 pelo arquiteto Minoru
Yamasaki, é um lago de luz líquida de onde se contempla Cambridge (Massachusetts) e sua
chuva de maio. Dentro, no departamento de Psicologia Cognitiva, alguns poucos alunos
rodeiam o escritório do professor. Há livros especializados, moldes de cérebros e um ou
outro computador. Duas poltronas roxas convidam a sentar. Pinker faz isso sem parar de
olhar para seu interlocutor. Com sua aparência de roqueiro sobrevivente dos anos setenta,
parece tranquilo, em casa. Durante mais de uma hora, responderá perguntas com facilidade.
Curtido em mil debates, sabe que sua própria calma reflete melhor do que qualquer coisa a
força de suas convicções.

O Iluminismo, em sua definição, está associado ao capitalismo. Um conceito que está


em crise, não?Iluminismo e capitalismo andam juntos, mas há uma confusão muito grande.
Muitos intelectuais entendem o mercado como o livre mercado, identificam-no com o
anarcocapitalismo e o liberalismo extremo. E não são a mesma coisa. O próprio Adam
Smith foi claro a respeito.

Mas com a Grande Recessão, parte importante da população, sobretudo a mais jovem,
chegou à conclusão de que o capitalismo e as instituições que deveriam apoiá-la a
deixaram na mão. Esses jovens pararam de confiar, sentem-se os perdedores da
globalização. O que o sr. diria a eles? Em primeiro lugar, que olhem os dados. Nem a
globalização nem os mercados os empobreceram. A realidade é bem diferente. A pobreza
extrema caiu 75% em 30 anos. Em segundo, não há incompatibilidade entre mercados e
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regulamentações. Pelo contrário, a experiência da Grande Recessão nos mostrou que se


deve evitar o caos dos mercados desregulados. Em terceiro, é preciso lembrar o poder dos
mercados para melhorar a vida. A maior queda da pobreza da história da humanidade
ocorreu provavelmente na China e foi conseguida não com a redistribuição em massa da
riqueza dos países ocidentais, mas com o desenvolvimento de instituições de mercado.

Isso trouxe melhoria econômica, mas não mais liberdade. A


“Os jornais
poderiam ter liberdade econômica costuma ser acompanhada de outras
publicado ontem formas de liberdade. A Coreia do Sul, além de gozar de uma
que 137.000 economia de mercado, é um lugar muito mais livre e
escaparam da prazenteiro que seu vizinho do norte. Quando os países
pobreza. Isso abandonam o mercado, como a Venezuela, se afundam na
acontece todo dia miséria. Aconteceu com a União Soviética, a China de Mao, a
há 25 anos, mas Alemanha Oriental, esta antes da queda do Muro...
nunca merece uma
manchete”

Pinker, em seu despacho do departamento de Psicologia Cognitiva de Harvard.

Pinker, em seu despacho do departamento de Psicologia Cognitiva de Harvard.

Certo, o mundo é um lugar melhor e os mercados ajudam nesse sentido. Mas então por
que assistimos a um aumento do populismo? Ninguém sabe com certeza. Seguramente a
Grande Recessão contribuiu para isso. Na Europa houve um outro fator também. Ao mesmo
tempo em que havia uma forte corrente migratória dos países muçulmanos, aumentava o
terrorismo jihadista e se exagerava seu risco. O resultado foi que o medo e o preconceito
abateram muitos cidadãos e isso gerou uma reação. Não é algo novo. Os populistas estão do
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lado sombrio da história. Sentem-se inquietos e marginalizados diante dessa corrente


gradual e inexorável que conduz ao cosmopolitismo, à liberalização dos costumes, aos
direitos das mulheres, dos gays, das minorias... Isso assusta esses homens brancos mais
velhos que formam o núcleo dessa reação, que apoiam Trump, Brexit, partidos xenófobos
europeus.

Qual é a ideologia de fundo desse movimento? Têm em comum uma mentalidade tribal, a
mesma que conduz ao nacionalismo e ao autoritarismo. Sentem a hostilidade em relação às
instituições, procuram um líder natural que expresse a pureza e a verdade da tribo. Custa
aceitar a ideia democrática e ilustrada de que o governante é um guardião temporário do
poder submetido a deveres e limitações.

Ou seja, rechaçam o controle das instituições democráticas. Sem dúvida. A ênfase do


Iluminismo nas instituições parte da ideia de que, deixados à sua própria natureza, os
humanos acabarão fazendo mal, agredindo-se, lutando pelo poder... Diante disso, não
procede tentar mudar a natureza humana, como sempre tentaram os totalitarismos, mas
utilizar a própria natureza humana para detê-la. Como disse James Madison [presidente dos
EUA de 1809 a 1817], a ambição contrabalança a ambição. Daí o sistema de contrapoderes.
Sem dúvida que os líderes pretendem maximizar seu poder, mas se os tribunais e os
legisladores, ainda que não sejam anjos, enfrentam e neutralizam essas forças, nos
prevenimos contra a ditadura.

O sr. os vê ganhando força? Não sei se o populismo vencerá as forças do Iluminismo, mas
há motivos para pensar que não. Apesar de Trump se empenhar nisso, os avanços são muito
difíceis de reverter. O populismo tem uma forte base rural e se estende por camadas menos
cultas da sociedade. Mas o mundo é cada vez mais urbano e educado. A geração de Trump,
de fato, desaparecerá e os millennials, pouco amigos do populismo, tomarão o poder.

E enquanto isso não acontece, o mundo não está em perigo com Trump? Sim. Sua
personalidade é impulsiva, vingativa e punitiva. E tem o poder de declarar uma guerra
nuclear. São motivos suficientes. Mas além disso se opõe às instituições que permitiram o
progresso. Rejeita o comércio global, a cooperação internacional, a ONU... Se nestas
últimas décadas não sofremos uma guerra mundial é porque temos uma série de
compromissos mútuos que partem da premissa de que somos uma comunidade de nações e
tomamos decisões em função disso. Trump ameaça tudo isso. Abandonou a aspiração de
Obama de um mundo sem armas atômicas, rejeitou o pacto com o Irã e modernizou o
arsenal nuclear... Seus instintos autoritários estão submetendo o mundo a um teste histórico
da democracia norte-americana.

E qual é seu prognóstico? Acredito que as instituições vencerão. Há muitas forças opostas
ao que diz Trump e que o impedem de materializá-lo. Inclusive surgiram líderes
carismáticos que se alinham com os valores do Iluminismo, como Justin Trudeau e
Emmanuel Macron...

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Não parecem fortes o suficiente. Para vencer o populismo é preciso também reconhecer o
valor do progresso. Há um hábito muito disseminado entre intelectuais e jornalistas que
consiste em destacar apenas o negativo, em descrever o mundo como se estivesse sempre à
beira da catástrofe. É a mentalidade do default. Trump explorou essa forma de pensar e não
encontrou resistência suficiente na esquerda, porque uma parte estava de acordo. Mas a
verdade é que muitas instituições, ainda que imperfeitas, resolvem problemas. Podem evitar
guerras e reduzir a pobreza extrema. E isso deve fazer parte do entendimento básico de cada
um.

O sr. é um otimista. Gosto mais de me definir como um possibilista sério.

Diante desse possibilismo, depois de duas guerras mundiais, da bomba atômica, da


proliferação de armas e do terrorismo, muita gente não acredita que o mundo seja um
lugar melhor. Estão totalmente enganados? Não é necessário um certo pessimismo para
não cair na complacência? É preciso ser realista. As coisas sempre podem ser piores e é
verdade que a complacência impede de ver os perigos. Um risco é o fatalismo, a ideia de
por que se incomodar em melhorar o mundo se o mundo não faz nada além de piorar; são
aqueles que pensam: se não houver mudança climática, serão os robôs que acabarão
conosco. O outro é o radicalismo. Muita gente jovem vê acertadamente erros no sistema. E
isso é bom, mas se acabarmos pensando que as instituições são tão disfuncionais que não
vale a pena melhorá-las, então entramos no terreno das soluções radicais: tudo pode ser
destruído porque nada tem valor. Melhor construir sobre as cinzas. Esse é um erro terrível,
porque as coisas se tornam muito piores.

O nacionalismo é um dos fatores de destruição? Cresci em Quebec e as tensões existentes


na Espanha não me são desconhecidas. O nacionalismo corre sempre o risco de tornar-se
maligno, mas pode ser benéfico, se funcionar como um contrato social e se basear na
residência, não nas crenças religiosas, ou de clãs e tribos. A mente humana, de fato, entende
a ideia de tribo de forma flexível: pode se referir à raça, mas também a uma equipe
esportiva, a Windows contra Mac, a Nikon versus Canon. E além disso pode ser exibida de
vários níveis: uma pessoa pode estar orgulhosa de ser de Harvard, de Boston, de
Massachusetts e do mundo. Se nossa noção de nação coexiste com nosso senso de ser
europeus e, mais importante, de ser humanos e cidadãos do mundo, pode ser benigno. O
nacionalismo é pernicioso quando parte de uma imposição tribal e se entende como uma
soma de resultado zero: nossa nação só pode prosperar se as outras forem mal.

As redes sociais ajudam o populismo? O populismo as usou. Mas veja bem, não quero
colocar a culpa de tudo nas redes sociais. Isso hoje virou moda: há um problema e atribuem
a culpa a elas. As redes podem ser usadas positivamente, como fez Obama.

Lendo seu livro é quase impossível não ser otimista quanto ao futuro do mundo. Mas
quando fechamos o livro e olhamos as notícias, o pessimismo volta. O problema está na
mídia? O jornalismo tem um problema inerente: se concentra em acontecimentos
particulares mais do que nas tendências. E é mais fácil para ele abordar um fato catastrófico
do que um positivo. Isso acaba gerando uma visão distorcida do mundo. O economista Max

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Roser explicou isso. Os jornais nunca poderiam ter divulgado ontem a notícia de que
137.000 pessoas escaparam da pobreza. É algo que tem ocorrido diariamente há 25 anos,
mas que nunca mereceu uma manchete. O resultado é que 1 bilhão de pessoas escaparam da
pobreza extrema e ninguém sabe.

Voltando ao início. O Iluminismo se apoia no progresso. Mas não é irracional ser tão
otimista? Afinal, a crença de que as coisas sempre serão melhores não é mais racional
do que a crença de que tudo sempre será pior. Ser incondicionalmente otimista é
irracional. Há uma falsa crença, vinda do século XIX, de que evolução equivale a
progresso. Mas a evolução, em um sentido técnico e biológico, trabalha contra a felicidade
humana. A biosfera está cheia de patógenos que estão em constante evolução para nos
adoecer. Os organismos dos quais dependemos para nos alimentar não querem ser nosso
alimento. A vida é uma luta. E o curso natural dos acontecimentos é terrível. Mas a
ingenuidade humana fecha os olhos para esses problemas. Há uma falácia muito comum que
conceitua o progresso como uma força mística do universo que destina aos humanos sempre
melhorar. Sempre melhorar. E isso simplesmente não é assim. Temos uma esperança
razoável de progresso se as instituições humanas extraem o melhor de nós, se nos permitem
adquirir novos conhecimentos e resolver problemas. Mas isso nem sempre acontece. Há
muitas forças que naturalmente pioram as coisas.

Pinker, com um sorriso, dá a entrevista por encerrada. Educadamente, se levanta e se


encaminha à sessão de fotos. De lado e de frente, se deixa levar pelo departamento de
Psicologia Cognitiva e até posa junto a uma sinuosa massa amarronzada guardada em
formol. Ao terminar, a observa e comenta: “Este cérebro é real”. Os alunos olham de
esguelha para seu mestre e continuam trabalhando em silêncio. Lá fora, chove sobre
Cambridge.

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