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O caráter imprescindivelmente parcial do objeto da lingüística

Bruna Carvalho Santana


CREUPI

Introdução

No decorrer da história, a língua como principal objeto de estudo da lingüística

tem sido estudada a partir de diferentes pontos de vista.


Partindo da célebre afirmação saussuriana de que “é o ponto de vista que cria o
objeto” pretendo neste trabalho apresentar a definição dada pelos lingüistas, do
objeto de estudo da lingüística, em particular a definição de dois importantes
lingüistas: Ferdinand de Saussure e Avran Noam Chomsky.
O primeiro será analisado devido a sua importância para a ciência em questão.
Saussure é considerado “o pai” da Lingüística Moderna e como fundador desta ciência,
e é tido como referência na teorização da lingüística, antropologia e psicanálise.
Chomsky merece ser analisado por ter revolucionado a ciência da linguagem
com sua definição de língua, que culminou na sua teoria – o gerativismo. Este
lingüista influencia atualmente diversas teorias da lingüística. Vale ressaltar que como
referência a Chomsky, utilizarei “as idéias de Chomsky” de John Lyons, obra muito
respeitada nesta área.
Abordarei os pontos distintos entre as definições dos lingüistas, procurando
salientar em que elas diferem e até se opõem ao definir a natureza da língua /
linguagem e em que elas se sobrepõem.
A hipótese fundamental deste trabalho é que a parcialidade da definição de
“língua” tenha correlato na própria existência do objeto em questão: ou seja, a
questão é se a língua tem alguma possibilidade de se atualizar como um todo, ou se
qualquer atualização será sempre parcial, incompleta, faltosa.
Neste sentido é objetivo também deste trabalho discutir a noção de
incompletude na língua.
Também procuraremos observar a relação do teórico (sujeito) com o objeto da
ciência, do lingüista com a língua, respectivamente.

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1 – OS PRINCIPAIS NOMES E A DEFINIÇÃO DO OBJETO DESTA CIÊNCIA

A definição da lingüística como o estudo cientifico da língua parece ser aceita


pacificamente e não despertar maiores controvérsias. Pode-se questionar se sua
caracterização como ciência é adequada ou não, mas não há dúvidas de que o objeto
de estudo desta ciência seja a língua (ou a linguagem). Mas o que é a língua? Seria
possível definir tal objeto de estudo de forma imparcial e incontroversa, ou estaria a
definição permeada pelas suposições que acompanham o pesquisador e
conseqüentemente sua teoria?
Este trabalho tem por objetivo responder a estas questões, tomando como base
as teorias de Saussure e de Noam Chomsky.
O primeiro será analisado, por ser considerado o fundador da Lingüística
Moderna e o segundo, por influenciar atualmente a ciência fundada por Saussure.
Antes de entrarmos na história da lingüística, observando qual a concepção de
cada teórico sobre o objeto desta ciência, vale ressaltar a importância da pergunta
fundamental deste trabalho “O que é língua?”.
De acordo com Lyons, essa questão pode ser comparada, com questões como
“O que é vida?”:

“A pergunta ‘O que é linguagem?’ é comparável a alguns


diriam tão profunda quanto a ‘O que é a vida?’ cujas
pressuposições circunscrevem e unificam as ciências
biológicas. Evidentemente, ‘O que é a vida?’ não é o tipo de
pergunta que um biólogo tenha constantemente diante de sai
em seu trabalho cotidiano. Tem uma natureza muito mais
filosófica. E, assim como outros cientistas, o biólogo está
normalmente por demais imerso nos detalhes de algum
problema específico para poder pesar as implicações de
questões tão gerais. Contudo, o suposto significado da
pergunta – “O que é a vida?” – a pressuposição de que todos
os seres vivos compartilham de algumas propriedades que os
distinguem das coisas não vivas – estabelece os limites das
investigações do biólogo e justifica a autonomia parcial de
sua disciplina. Embora se possa dizer que a pergunta “O que
é vida?”, neste sentido, fornece à biologia a sua própria razão

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de ser, não se trata tanto da pergunta em si quanto da
interpretação particular que o biólogo a ela atribui e do
desvendar de suas implicações mais detalhadas dentro e uma
estrutura teórica atualmente aceita que alimentam a
pesquisa e as especulações diárias destes cientistas. O
mesmo ocorre com o lingüista em relação à pergunta “O que
é a língua(gem)?”. (1987:15)

De acordo com Lyons, a dificuldade em responder precisamente a esta questão


é tanta, que há em diversas línguas européias traduções específicas para língua e
linguagem, e enfatiza que não se pode possuir ou usar alguma língua natural
específica:

“O lingüista a principio lida com as línguas naturais, a


pergunta ‘O que é língua, linguagem?’ é um caso especifico
de algo mais geral. O que o lingüista quer saber é se as
línguas naturais, todas, possuem algo em comum que não
pertença a outros sistemas de comunicação, humano ou não,
de tal forma que seja correto aplicar a cada uma delas a
palavra ‘língua’”. (1987:17)

Para ilustrar as diferentes definições da língua ou linguagem, nada melhor do


que um breve passeio pela historia da ciência da linguagem, para observarmos a
preocupação com a definição deste objeto, assim como a concepção do mesmo
influencia a teoria de cada estudioso deste campo da ciência.
Iniciaremos o passeio com informações baseadas no livro de Robins: Pequena
História da Lingüística (1997).
De acordo com Robins, cada teórico enfatiza um aspecto de sua concepção do objeto
da lingüística. Saussure deteve-se a idéia de sistema que também mencionava a
língua como instituição social.
Bloomfield concebia a língua como algo puramente físico, adotando o
behaviorismo e o operacionalismo. Este lingüista rejeitava totalmente qualquer traço
mentalista na explicação do comportamento lingüístico.

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Já Edward Sapir e Benjamim Lee Whorf concebem o objeto da lingüística como
o meio de expressão de uma sociedade. Neste caso somente a função social da língua
é ressaltada. Deixando para trás os traços psicológicos e mentalistas.
Finalmente temos Noam Chomsky, que acredita que a linguagem é uma
realidade depositada no cérebro dos indivíduos, e que as regras que comandam a
linguagem são inatas. O lingüista detém-se ao mentalismo, não mencionando sequer
a função comunicativa do objeto em questão.
Pudemos observar, o quanto a ‘língua’ é definida parcialmente pelos lingüistas
em questão, o que confere à ciência Lingüística, um caráter também parcial.
Nos próximos capítulos deteremos-nos a análise da concepção da teoria de dois
lingüistas em particular: Ferdinand de Saussure e Avran Noam Chomsky.
A escolha por analisá-los, se deu pela fundação da lingüística moderna ser
atribuída ao primeiro lingüista acima citado, e sendo assim, tomado como base para
seus sucessores.
E Chomsky por ter inovado uma área da lingüística com sua gramática gerativa,
que é atualmente modelo para muitas teorias lingüísticas.

2 - UMA REFLEXÃO ACERCA DA INTRÍNSECA PARCIALIDADE DA LÍNGUA EM


SAUSSURE E CHOMSKY
“A verdade não se diz toda, e isto porque
faltam palavras” (Lacan apud
Milner;1987:19)

Como todo objeto da ciência, a língua é definida parcialmente por seus


estudiosos. A reflexão que se segue visa identificar esse aspecto parcial, incompleto,
faltoso na definição e conseqüentemente nas teorias propostas pelos lingüistas
Ferdinand de Saussure e Avran Noam Chomsky.
Há a necessidade de mencionarmos que, como já dizia Milner, sobre a língua
tudo não se pode dizer, assim como ocorre com todos os outros objetos científicos.

2.1 – A Parcialidade da Definição Saussuriana

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Ferdinand Saussure, na última frase do CLG ‘Cours de Linguistique Générale’
declara que: “A Lingüística tem por único e verdadeiro objeto a língua considerada em
si mesma e por si mesma” (1969:271).
Para o genebrino a abordagem do objeto em questão deve ser estritamente
interno. Mas o que é interno ou externo para Saussure?
Pelo que parece, o genebrino, em sua definição de língua afasta tudo o que for
estranho a seu sistema. Excluindo assim os fatos geográficos, de história política, de
etnologia, enfim todos os fatos externos à língua.
Saussure ilustra essa distinção entre interno e externo, fazendo uma analogia
entre a língua e um jogo de xadrez no Capítulo V do CLG:

“Uma comparação com o jogo de xadrez fará compreendê-lo


melhor. Nesse jogo, é relativamente fácil distinguir o externo
do interno; o fato de ele ter passado da Pérsia para a Europa
é de ordem externa; interno é, ao contrario, é tudo quanto
concerne ao sistema e as regras. Se eu substituir as peças de
madeira por peças de marfim, a troca será indiferente para o
sistema; mas se eu reduzir ou aumentar o número de peças,
essa mudança atingirá profundamente a ‘gramática’ do jogo”
(1969:31-32)

Desta forma, os elementos externos seriam a origem do jogo, no caso a língua,


e os internos, aqueles elementos relacionados com as regras, com o ordenamento do
sistema (língua).
E o que deveria ser estudado pela Lingüística seriam os fatos que interferem
nas relações entre os elementos da língua, e não a materialidade simples de som ou
letras.
Mesmo após declarar que somente o que era interno deveria ser estudado,
temos dentro da ‘língua’ definida por Saussure, dois níveis distintos um nível interno,
o sistema de signos, e um nível externo, ao definir língua como instituição social.
Encontramos em Gadet; a relação entre esses dois níveis e a importância dessa
divisão para o nascimento da Lingüística Moderna:

“Com o sociólogo, Saussure se situa sobre um terreno


que ele partilha com a grande parte dos lingüistas da sua

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época, enquanto com o semiológico avança uma proposição
original, verdadeiro ato de nascimento da lingüística
moderna. O semiológico permite a emergência do estudo
abstrato da língua...” (Gadet apud Leandro Ferreira;
1999:131)

Saussure ao definir a língua como sistema, produz uma inovação em relação


aos lingüistas da época.
Gadet atribui essa inovação à relação do sujeito com a língua.
Leandro Ferreira, no artigo denominado: “A Metáfora Geométrica: o dentro e o
fora da língua” nos lembra que:

“Ao encarar a língua como sistema, Saussure produz um


efeito de desconstrução do sujeito psicológico, livre e
consciente que reinava na reflexão das ciências humanas
nascentes, ao fim do século XIX (...)”.(1999:133)

Em relação ao dentro e o fora da língua, poderíamos apresentar a teoria


saussuriana da seguinte maneira:

Fatores
externos à língua: fenômenos culturais, sociais e políticos.
Na teoria de Saussure, a parcialidade está expressa na questão na opção feita
por ele, por trabalhar apenas com o que é semiológico e não com o lado sociológico
da língua. As escolhas feitas por Saussure demonstram essa incompletude do objeto.
Primeiro, ao separar a língua da fala, depois ao definir os níveis da língua:
semiológico e sociológico, e por fim, ao optar pelo estudo da sincronia em relação à
diacronia.
Poderíamos esquematizar essa parcialidade da seguinte maneira:

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“A Lingüística tem por único e verdadeiro objeto a língua


considerada em si mesma e por si mesma”. (1969:271)

Desta forma, Saussure ao fazer tais opções, descarta o nível sociológico da


língua, trabalhando apenas com o nível semiológico, o que confere a definição do
objeto da lingüística, assim como a teoria acerca deste, uma incompletude.
Passemos agora para a análise da definição e da teoria lingüística de Chomsky,
importante lingüista do século XX.

2.2 – A Parcialidade da Definição Chomskyana

Como vimos no capítulo anterior, Chomsky parece ter se preocupado primeiro


com o conceito de gramática, que com o conceito de língua propriamente dita.
Logo, o nível interno da “língua” constituiria pela ótica chomskyana o que é
gramatical, enquanto o nível externo agruparia todas as formações mal – formadas
dentro da língua (o gramatical).
A gramaticalidade e a agramaticalidade são conceitos relativos a estruturação
da língua. Chomsky trabalhou somente com o gramatical da língua.
A parcialidade da teoria chomskyana pode ser expressa também na divisão
entre dois níveis que constituíram a língua, um considerado primário (sintático) e o
segundo nível (fonológico).
No nível sintático estariam as combinações de palavras (unidades significativas)
e no nível fonológico os sons que por si só não possuem nenhuma significação.
Vale ressaltar que essa divisão entre os níveis sintático e fonológico, embora
seja parecida com a divisão feita por Saussure, não deve ser assim considerada.
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Para Chomsky, segundo Leandro Ferreira:

“Gramática seria o estado estável da faculdade de linguagem


representada na mente / cérebro; e língua, o conjunto finito
de sentenças que essa Gramática pode gerar”. (1999:131)

A teoria chomskyana não se prendeu a questões semânticas, pois para ele a


sintaxe e a fonologia de uma língua poderiam ser descritas sem considerações
relativas ao seu significado.
Poderíamos esquematizar a definição chomskyana de língua e sua teoria (A
Gramática Gerativa) da seguinte maneira:

O autor de “Syntactic Structures” concebe a língua como algo universalmente


biológico, que distingue os homens dos demais animais.
Chomsky não menciona a função comunicativa da língua, nem sobre a natureza
simbólica dos elementos que constituem as sentenças da mesma.
A parcialidade está então apresentada, tanto na definição da língua como (e
não poderia ser de outra forma) na teoria proposta pelo autor em questão.

3 – A SITUAÇÃO ATUAL (E PARCIAL) DA LINGÜÍSTICA

A ciência da linguagem é composta por várias teorias, que se assemelham, se


contrastam e até mesmo se opõem.

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Pudemos observar isto, no primeiro capítulo deste trabalho, onde mostramos
brevemente a concepção sobre a língua, por diversos teóricos, dos clássicos aos
modernos.
Mas como estará a situação atual da lingüística? Estará ela ainda atrelada as
concepções dos seus teóricos mais conhecidos? Estará oscilando entre as outras áreas
do conhecimento, como a psicologia, a biologia e a sociologia, por exemplo, ou terá
alcançado finalmente sua independência perante as outras ciências?
O lingüista Eduardo Guimarães no capítulo denominado “Uma cena
contemporânea” do artigo: “Os Estudos sobre Linguagens – Uma História das Idéias”,
declara que:

“A Lingüística vive hoje um embate entre: a) um cognitivismo


naturalista que o pensamento chomskyano reintroduziu e que
localiza a lingüística no interior da biologia (enquanto ciência
psicológica), ou seja, das ciências naturais;
b) posições derivadas do estruturalismo, como os estudos
enunciativos, para os quais o funcionamento da língua se dá
porque a língua está marcada por formas próprias para o seu
funcionamento, no acontecimento enunciativo, posições
então que mantém a questão da autonomia do lingüístico
proposta por Saussure;
c) posições que procuram estabelecer diálogos entre as
diversas disciplinas das ciências humanas que levam a pensar
o lingüístico como definido por uma correlação com o que
está fora do lingüístico: o antropológico, o social, o
psicológico, etc;
d) posições como a da análise do discurso que põem em cena
a questão de que não se pode reduzir o lingüístico nem ao
social (antropológico) nem ao psicológico, pois a linguagem
é, ao lado de integralmente lingüística – num certo sentido
saussuriano – também integralmente histórica”.
(Guimarães;2001)

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Tal citação nos permite concluir por ora, que temos entre as mais diversas
teorias da lingüística uma característica (talvez a única) comum a todas elas: a
parcialidade.
Desta questão, trataremos especificamente no próximo item deste capítulo.

4 – A INTRÍNSECA PARCIALIDADE DO OBJETO EM QUESTÃO

Henry justifica a incompletude da língua, como sendo produto da interpretação


particular do sujeito que se propõe a defini-la. O que nos permitiria pensar em uma
definição total deste objeto, se fossem enfocados todos os aspectos da língua
simultaneamente, desde que um sujeito se propusesse a fazer isto: A língua seria
então um objeto com função psicológica e social, e ao mesmo tempo uma realidade
depositada no cérebro dos seres humanos (biologicamente universal).
Deste modo, poderíamos pensar também numa teoria acerca deste objeto que
fosse também completa (reunindo as idéias da Saussure e de Chomsky, por
exemplo).
No entanto, temos em Milner a verificação de uma questão que é intrínseca ao
sujeito em relação ao objeto. Além das ordens históricas, filosóficas e ideológicas a
que a língua tem sido submetida, a psicanálise poderia explicar o porquê desta
permanente falha na definição deste objeto.
Para Milner, toda língua possui uma parte que se constitui de inconsciente, que
não pode ser representada, é o não – todo da língua, a alíngua, apresentada por
Lacan:

“A alíngua é, pois, uma língua entre outras, enquanto que, ao


se colocar, ela impede por incomensurabilidade a construção
de uma classe de línguas que a inclui (...)” (Milner;1987:15)

Este termo lacaniano seria a explicação para a falta, na definição da língua,


alíngua é aquilo que a língua não pode dizer.
Temos em Milner (1987:15) a afirmação de que: “Alíngua é, em toda língua, o
registro que a consagra ao equívoco”, ou seja, é pela alíngua que se faz a
incompletude da língua.

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Essa parte inconsciente seria inerente à língua que é o objeto da ciência
lingüística, não permitindo a totalidade nem da definição da própria língua, nem das
teorias acerca deste objeto.
Milner diz ainda que: “a língua suporta o real da alíngua” (1987:19) e que o
equívoco da lingüística esta no fato de se não considerar o objeto desta ciência como
algo pertencente à ordem do real:

“Passamos nosso tempo a desconhecer que a língua seja da


ordem do real: por exemplo, traduz-se a língua em termos de
realidade, situando-a na rede do útil a titulo de instrumento
(de comunicação), ou na rede das ´práticas’ – sociais ou
outras”. (1987:19-20)

Porém, nos avisa que é este real que sustenta a maioria dos discursos sobre o
objeto em questão:

“São teses que tocam no estatuto deste real que estão em


jogo nos diversos discursos sustentados sobre a língua; a
partição majoritária pode ser resumida assim: o real é
concebido como representante ou não”. (Milner;1987:20)

Temos então, a explicação pela qual se confere a falta à definição da língua, é a


impossibilidade de dizer tudo sobre ela por causa do não – todo (inconsciente) que
constitui este objeto.
Como conseqüência teremos uma ciência também incompleta. A Lingüística tida
como ciência autônoma nos revela a incompletude das teorias que a constitui.
Se o objeto pelo qual esta ciência se constitui é parcial, todas as teorias
referentes a ele serão, também parciais, incompletas e mesmo se houvesse uma
tentativa de se reunir tudo o que se diz sobre a língua, ainda assim não poderia se
dizer tudo.
Milner nos mostra categoricamente isso, ao afirmar que “sobre a língua tudo
não se pode dizer”. (1987:44)

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Tudo não se pode dizer, não indica que tudo não há. O que acontece na
verdade, é que existe uma parte do todo (língua) que não pode ser representada (a
alíngua).
Contudo é preciso lembrar que se “a língua suporta o não – todo da alíngua”,
como afirma Milner, por outro lado: “para que este se faça objeto da ciência, é
preciso que ele seja apreendido como uma completude: a língua é a rede pelo qual a
alíngua falta, mas em si mesma a rede não deve comportar nenhuma falta”.
(1987:26)
Segundo o autor de “L’Amour de la Langue”, para que a Lingüística consiga
fazer com que isso aconteça, esta ciência:

“Deve propriamente ignorar a falta e sustentar:


1) que da alíngua, ela não tem nada a saber e
2) que a rede de impossível que a marca é consistente e
completa” (Milner;1987:26)

A Lingüística, para evoluir precisa acreditar que do inconsciente que a constitui


nada se pode, nem se precisa dizer.
E a respeito da universalidade da ciência temos ainda a necessidade de que a
Lingüística se coloque como universal:

“A borda do real que a lingüística empenha-se em


representar como a partição do correto e do incorreto não é
de outra substância que a própria língua: ela suporta na sua
forma de borda o ilimitado que desfaz toda universalidade. É,
no entanto aí, que, num esforço surpreendente, a lingüística
deve assumir a questão do limite para recolocar na conta do
universal isto mesmo que atesta o impossível a dizer”
(1987:52)

Podemos concluir a partir das idéias de Milner, que a ciência lingüística será
sempre incompleta devido à falta, inerente ao seu objeto de estudo: a língua.
Esta falta ocorre pela impossibilidade de se representar o que Milner chama de
Real.

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Desta maneira não somente a lingüística, mas todas as outras ciências são
também incompletas e parciais assim como os seus respectivos objetos de estudo,
pois não existe ciência sem língua.
E é falando a respeito dessa língua que constitui toda ciência que finalizamos
este trabalho, concordando com Guimarães Rosa que já avisara em Tutaméia
(Terceiras Estórias, 1969): “pela língua começa a confusão...”.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Conclui-se, contudo, após a breve investigação cientifica que o objeto com que
a Lingüística lida, é ainda um enigma para os próprios lingüistas.
A ciência lingüística trabalha com um objeto muito especial, e é a partir dele
que todas as outras ciências se constituem, desta forma, a incompletude da língua
implica na incompletude das demais ciências.
As definições saussurianas, bloomfieldianas e chomskyanas assim como todas
as outras acerca da língua serão sempre incompletas, não pela incapacidade daquele
que define e estuda o objeto, mas pela impossibilidade deste se fazer representar
completamente.
Há, dentro da língua, algo que jamais poderá ser representado por nenhum
sujeito, independente da sua posição em relação ao referido objeto.
Porém, essa intrínseca parcialidade não afetará a evolução e o progresso desta
ciência, já que o que move qualquer busca inclusive na ciência, é a falta. A
completude é um ponto de parada que se assemelha a morte.

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