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A Imigração e os clássicos da Sociologia

[VERSÃO PARA APRESENTAÇÃO NO CONGRESSO. FAVOR NÃO CITAR


SEM AUTORIZAÇÃO DO AUTOR]

Márcio de Oliveira1

O tema da imigração não é central na obra dos “fundadores da


sociologia”, Karl Marx, Max Weber e Emile Durkheim respectivamente. Surge
porém com mais força na obra de Goerges Simmel, para consolidar-se em
autores da chamada Escola de Chicago.
Em relação à sociologia marxista, é fácil encontrar referências ao tema,
tanto histórica quanto sociologicamente. Em primeiro lugar, lembremos que
Friedrich Engels (1960)2 inaugura, antes mesmo de Marx, o que seria chamado
posteriormente de “sociologia urbana marxista”. Nessa, o fenômeno das
migrações foi inicialmente analisado. A tese é simples: a concentração de
capital se fez acompanhar da concentração humana. O próprio Marx fez
referências às grandes migrações que marcaram o desenvolvimento do
capitalismo, seja em relação à concentração industrial em algumas cidades,
seja em relação ao desenvolvimento dos meios de transportes – que permitiu o
rápido deslocamento de grandes contingentes humanos - seja ainda em
relação à desestruturação da economia camponesa, o que também provocou a
migração de grandes levas de camponeses sem terra ou trabalho em direção
às nascentes cidades industriais3.
Ainda dentro da corrente marxista, o líder bolchevique Vladimir Lênin
(1971: 488-491) afirmava: “O capitalismo criou uma espécie de transmigração
dos povos [...] dos países atrasados aos países industrializados”. Nesse
mesmo sentido, Rosa Luxemburg (1984) afirmou ainda que a desestruturação
da economia natural (o que implicou no deslocamento de grandes contingentes
humanos) não é uma consequência, mas o próprio fundamento da acumulação
de capital. Assim fazendo, essa tradição inscreveu os movimentos migratórios
como condição sine qua non do desenvolvimento do capitalismo, sem fazer

1
Professor de Sociologia na Universidade Federal do Paraná, Brasil. marciodeoliveira@ufpr.br
2
Engels, F. La situation de la laborieuse em Anglaterre. Disponível em
www.classiques.uqac.ca/classiques/Engels_friedrich/situation/situation_classe_ouvriere.pdf
3
Le Capital. vol. I, seção VII)
2

distinção entre migrações internas e migrações internacionais. Finalmente, a


tradição marxista não qualificou etnicamente os migrantes (ou os imigrantes).
Ao contrário, considerou tanto os primeiros quanto os segundos “trabalhadores
migrantes”, pouco importando sua nacionalidade de origem.
Ainda que o espaço urbano tenha sido um lócus de pesquisa sobre o tema da
imigração, a sociologia urbana marxista, desde Engels, não se preocupou em
qualificar a especificidade dos imigrantes em relação aos trabalhadores
nacionais. Isso pode ser verificado no clássico livro de Henri Lefbvre – La
pensée marxiste et la ville – onde a figura do estrangeiro imigrante sequer é
mencionada. Do mesmo modo, a tradição marxista dos século XIX e início do
XX, que ligava o fenômeno das migrações ao desenvolvimento do mercado
mundial, não seria fundamentalmente alterada, como se pode observar no livro
de I. Wallerstein e Etienne Balibar (1988). Os estudos sobre os “traballhadores
hóspedes” (Gastarbeiter) se inscrevem nessa linhagem de pensamento. Uma
vez mais, os imigrantes são considerados “um exército de reserva” ou ainda
como uma “fração da classe” trabalhadora. 4
Enfim, cabe mencionar aqui, dentro da tradição sociológica norte-
americana, o único autor a propor uma análise marxiana dos migrantes, em
paralelo aos Negros, é o antigo aluno de Chicago, Oliver Cromwell COX,
(1948).Publicado em 1948, em pleno desenvolvimento dos movimentos anti-
esquerda nos EUA, esse livro foi praticamente ignorada pela imprensa
especializada até 1959, quando foi reeditado. Contudo, mesmo aqui o tema
central gira em torno da questão racial e não necessariamente da questão
migratória, o que revela ainda um distanciamento dos clássicos estudos
desenvolvidos em Chicago nas primeiras décadas do século XX, como
veremos mais tarde.

MAX WEBER E EMILE DURKHEIM


Em relação a Max Weber e Emile Durkheim, não há tão pouco trabalhos
específicos dedicados ao tema das migrações. Em “A Etica Protestante e o
Espírito do Capitalismo”, Weber se refere ao papel da Igreja em relação ao
caráter dos imigrantes ingleses nos EUA. “Em Economia e Sociedade”,

4
Voir REA, A. & TRIPIER, M. (2003). Sociologie de l´immigration. Paris : La Découverte, coll
Repères, p. 33-39.
3

encontramos referências às comunidades étnicas e à lógica de atração e de


repulsão entre indivíduos. Existe aqui, portanto, uma referência à afinidade
étnica que pode ser útil à análise do fenômeno de assimilação ou integração
dos estrangeiros ou imigrantes em novos espaços sociais. Por sua vez,
Durkheim se refere às migrações internacionais de maneira bastante
secundária. A título de exemplo, em “A Divisão do Trabalho Social”, ele afirma
que as cidades “se constituíram graças aos imigrantes” (vol 1., p. 28). Afirma
em seguida que o crescimento populacional das cidades não é espontâneo. De
fato, o “crescimento das cidades é resultado da imigração” (vol 2, p.61).
São bastante conhecidos os estudos sobre integração dos imigrantes que se
valeram da tese durkheimiana sobre a integração social. Trata-se aqui de para
analisar os diversos processos de socialização a que os imigrantes são
submetidos. Isto deve ser compreendido, é claro, resgatando-se o contexto do
final do século XIX quando a França foi varrida por diversos movimentos
xenófobos e racistas, cujo exemplo clássico é o movimento em torno do capitão
do Exército francês, Alfred Dreyfus, de origem judia (considerado um
estrangeiro), injustamente acusado de traição, e por alguns anos deportado
para a prisão na Ilha do Diabo, Guiana Francesa.
Lembremos ainda que nesta época, alguns projetos de lei hostis aos
imigrantes foram apresentados e aprovados pela Assembléia francesa. Regra
geral, o objetivo destes projetos era se prevenir em relação à imigração, o que
implicava, contudo, em definir quais os imigrantes seriam assimilados e quais
não seriam. Como se sabe, nesse momento, a resposta durkheimiana era
sempre a mesma : a integração depende dos processos de socialização que
são conduzidos pela família, dos grupos secundários (principalmente pelos
grupos profissionais), pela escola, mas, todos eles regulados pela ação
protetora das liberdades individuais a cargo do Estado.

GEORG SIMMEL
É possível falar de imigração em Georg Simmel a partir de seus estudos
sobre os judeus (que ele considerava assimilados) na Europa. Por outro lado,
quando Simmel fala do espaço, pode-se ver também uma discussão sobre a
mudança de lugares e, portanto, sobre as migrações. Nesse momento, Simmel
se exprime diretamente sobre as formas de socialização que se estabelecem
4

dentro de um grupo migrante em contraste com o grupo fixo. Ainda, ele procura
compreender os efeitos que a migração produz no grupo sedentário.
Por fim, Simmel se refere especificamente aos migrantes nos seus trabalhos
sobre os estrangeiros. Nesse pequeno texto de 7 páginas, o estrangeiro é uma
figura social distante que se torna próxima. “O estrangeiro é um elemento do
grupo, mas situado na mesma condição dos pobres e dos diversos inimigos do
interior. Um elemento cuja articulação imanente ao grupo implica a um só
tempo uma exterioridade e um face a face” 5. Mas, curiosamente, ele é bem
mais livre que o indivíduo sedentário, porque mantém uma visão “aérea” sobre
a sociedade. A figura do estrangeiro, em Simmel, é, portanto bastante
inspiradora e socialmente rica. Ela mantém o grupo original em permanente
processo de alteridade, indicando pelo mesmo movimento quão fugaz é a
noção de identidade social em processos sociais dinâmicos.
Mas a certidão de nascimento da sociologia da imigração clássica ocorre
realmente com a chamada “Escola de Chicago”

ESCOLA OU TRADIÇÃO DE CHICAGO


Trata-se dos trabalhos produzidos por um conjunto de professores do
Departamento de Sociologia da Universidade de Chicago. Esses sociólogos
foram influenciados diretamente pelos trabalhos de Simmel, e muitos de seus
artigos foram traduzidos e publicados na revista American Journal of Sociology
(fundada em 1898).
A influência de Simmel foi particularmente importante em Robert Park (1864-
1944), antigo jornalista que se tornou sociólogo e que foi aluno de Simmel na
Universidade de Berlim, curiosamente o único curso de sociologia que Park
seguiu em toda sua vida. Contudo, nessa mesma universidade, Park obteve
seu titulo de doutor em Filosofia, em 1904, quando decidiu retornar aos
Estados Unidos da América. Convidado então, a pedido de William Thomas
(sobre o qual retornamos abaixo) pelo diretor do Departamento de Sociologia
da Universidade de Chicago, Albion Small, em 1913, permaneceu nessa
universidade até 1936.

5
Simmel, G., op. cit., p. 663.
5

Inicialmente, o interesse dos pesquisadores de Chicago se localizou no tema


das interações sociais, dos problemas sociais e das migrações dos Negros
norte-americanos do sul em direção às grandes cidades do norte do país.
Curiosamente, numa primeira denominação, a sociologia desenvolvida em
Chicago ficou conhecida como “D Sociology”, em virtude dos temas de
predileção começarem todos pela letra “d”: Disease, disorganization,
deliquence and drugs.
Mas em 1915, Park publica “A Cidade: sugestões para a investigação do
Comportamento Humano no ambiente urbano”, apresentando, pela primeira
vez, o termo de “ecologia humana” 6, fruto da hipótese de trabalho segundo a
qual o espaço urbano modulava beneficamente o comportamento coletivo, mas
que a concorrência criava conflitos.
Em 1917, Park publicou o livro “Race prejudice and Japanese-American
Relations”, onde a figura do estrangeiro imigrante aparece ligada ao tema do
preconceito, inaugurando um campo de estudos fundamental até hoje em todos
os países que conheceram forte afluência de imigrantes Em 1922, após ter
publicado o clássico da sociologia norte-americana, em parceria com Ernest
Burgess, “Introduction to the Science of Sociology”, Park publica o igualmente
clássico “The Immigrant Press and Its Control” (New York, Harper), sobre o
impacto da imprensa imigrante nos países de destino e sobre a reprodução
social e cultural – e assim sobre a não assimilação, como era dito na época –
de padrões de comportamento ditos alienígenas. Finalmente, em 1928, Park
publica « Human migration and the marginal man », aparentemente sob a
influência do trabalho de Simmel sobre o estrangeiro. Mas ao contrário desse
último, o objetivo foi compreender a figura do imigrante como “um homem
marginal”, excluído da vida social e dos processos de integração a “civilização”
que se construía nos EUA. Ainda nesse ano de 1928, um dos alunos de Park,
Louis Wirth, publica, de maneira quase premonitória, o livro “The Guetto”, sobre
o bairro judeu de Chicago7.

6
O termo de « Ecologia humana » foi definido nesses termos: trata-se de estudar as relações
entre as diversas populações que se vêem obrigadas a partilhar o mesmo espaço a disputar os
mesmos recursos naturais. Eis porque o termo de “ecologia” lhe pareceu conveniente para
tratar também das populações humanas.
7
Existe uma tradução francesa, publicada em 1980, mas não portuguesa desse livro.
6

Mas ainda que os estudos de Park abordem o fenômeno da imigração sob


perspectivas originais, o primeiro estudo que tomou por objeto de estudo o
imigrante de maneira central, foi o, hoje clássico, “The Polish Peasant in
Europe and America”, publicado entre 1918 e 1920, por William I Thomas e
Florian Znaniecki.
Trata-se aqui de uma série de 5 volumes, de caráter documental, a maior
parte de cartas escritas e reproduzidas no bojo da obra. No total, entre 1918 e
1940, foram publicados apenas três mil exemplares, sendo em que nenhum
deles se possa encontrar o contexto dentro do qual o livro foi produzido. Sabe-
se hoje, contudo, que Thomas, ao lado de Small, organiza para o departamento
de Sociologia um projeto destinado a compreender empiricamente a vida social
de Chicago, um dos mais importantes destinos, nos EUA, de imigrantes
europeus. Sua ideia original era publicar documentos sobre os imigrantes e
comentá-los. De fato, foi apenas mais tarde que ele redefiniu seu projeto,
afirmando que que « tinha ideia de estudar o comportamento dos imigrantes
dos dois lados do Atlântico pois o assunto era de grande importância”.
Após viagem a Europa e encontro e convite para que o filósofo polonês,
Florian Znanieki se integre ao departamento de Sociologia, coube ao último o
encontro fortuito com a farta documentação escrita. Temos aqui o
aparecimento das famosas cartas escritas por um jovem imigrante aos seus
pais. Após isso, os autores, através de anúncio na imprensa, encontram o
imigrante polonês Wladeck Wiszniewski que, por se encontrar desempregado,
respndera ao anúncio e viera tentar vender suas cartas. Znaniecki propõe
assim ao jovem desempregado um simples contrato em que este escreveria
suas próprias memórias e seria pago folha a folha. Wladeck não sabia, mas
estabelecera ali um acordo que o transformaria num clássico da sociologia e
seu depoimento escrito formaria o terceiro volume do “Camponês polonês”.
Além do depoimento e das inúmeras cartas reproduzidas, o livro se torna
clássica por incorporar na mesma análise temas absolutamente originais para a
época, tais como preconceito racial, imigração, assimilação, valor moral das
nacionalidades, crime, alcoolismo, entre outros, decidindo igualmente se ater
apenas aos poloneses em função do grande trabalho requerido.
O plano da obra é simples. Trata-se de descrever a trajetória de um grupo
social através do depoimento do imigrante Wladeck. Os primeiros volumes são
7

dedicados à descrição da família camponesa, do sistema social, a vida


econômica na Polônia. Em seguida, descreve-se o fim do isolamento das
comunidades rurais, a desorganização dos grupos primários (família,
comunidades de trabalho) após décadas de ocupação, e finalmente a
desestruturação da economia camponesa tradicional. Conflitos de diversas
ordens sobrevêm, inclusive entre gerações, o que conduz a certos indivíduos a
migrar. Na terceira parte, tem-se a fase de instalação no novo país, marcada
pela reconstituição inicial da comunidade, a criação das sociedades polono-
americanas, etc. Então, sob a força das normas sociais da nova sociedade, as
novas comunidades se desorganizam, levando a alguns de seus membros à
delinqüência.
A quarta parte é a longa autobiografia paga do jovem polonês. A análise
centra-se sobre a formação da personalidade no novo meio social. Segundo os
autores, as atitudes (e comportamentos) são fruto das representações – o
depoimento - que os atores fazem a partir das “situações de vida” (termo que
permanecerá associado a Thomas).

*** *** *** ***


Para concluir, vale um comentário sobre a obra a partir das contribuições
que ela teria aparentemente legado à sociologia. Segundo Chapoulie (2001:
146), a obra foi inicialmente considerada um clássico porque é o:
première étude de sociologie empirique fondatrice d'une « école de Chicago » qui met
l'accent sur le travail de terrain et la dimension subjective des comportements, le
paysan polonais offre une analyse des transformations des comportements des
paysans polonais à la suite de leurs contacts avec le monde moderne (urbain) et,
notamment pour certains, à la suite de leur migration aux États-Unis. Les
autobiographies et les correspondances familiales sont les sources documentaires
nouvelles « inventées » par Thomas pour analyser la dimension subjective des
comportements. Bien que Thomas, l’auteur principal, ait quitté l’Université de Chicago
en 1918, l’ouvrage exerça une influence majeure sur les monographies de sociologie
urbaine réalisées à l’Université de Chicago dans les années suivantes dont les auteurs
constituent ce qui est souvent désigné par le terme « école de Chicago ». Il ouvrit ainsi
la voie aux recherches ultérieures reposant sur une démarche ethnographique (travail
de terrain).

O autor afirma contudo que essa leitura, ainda que correta, é anacrônica. De
fato, não há na obra um modelo de pesquisa empírica que foi seguido. A
utilização atual das cartas como documento de análise nada deve à obra de
Thomas e Znaniecki. Da mesma maneira, a construção do termo de “Escola”
8

para Chicago teria sido uma construção tardia, dos anos 1960, quando muitas
das obras daqueles anos 1910 e 1920, foram republicadas e reapresentadas.
Não obstante, outros autores – como GRAFMEYER, Yves & JOSEPH, Isaac
(orgs.). (1979) – insistem na datação do nascimento da sociologia urbana em
Chicago. Mas, é igualmente possível, analisando os trabalhos de Park, insistir
na importância do tema da difícil assimilação dos imigrantes e dos problemas
sociais que lhe foram decorrentes.
Concluindo, esta parte, vale uma palavra sobre a recepção da “sociologia de
Chicago” na França e no Brasil. Na França, a presença inicial dos autores de
Chicago deve-se à visita que o durkemiano Maurce Halbwacs fez àquela
instituição. Segundo Topalov (2004), Halbwacs foi convidado a ensinar na
Universidade de Chicago no outono de 1930. Em 1932, nos Annales d´hsitoire
écnomique et sociale, ele faz menção a « uma escola de sociologia original »
(p. 17). Mas quais teriam sido as conseqüências dessa visita? Topalov afirma
que Halbwacs nunca se aproximou teoricamente do que se fazia em Chicago e
se mostrou pouco interessado a “mergulhar na vida dos grupos sociais”. No
caso do Brasil, ex-alunos de Chicago vieram ou se interessaram pela realidade
brasileira já nos anos 1930. Esse é o caso, por exemplo, de Donald Pierson.
Não se deve esquecer também de Herkowitz. Contudo, o tema da imigração
não lhes interessou tanto quanto o tema das relações raciais entre negros e
brancos, como bem demonstram as publicações feitas nesse campo. Bem
mais recentemente, o antropólogo Otavio Velho (1979) traduziu e publicou os
clássicos de Park e Wirrth sobre a cidade, e, em 2005, Licia Valladares,
publicou uma comparação do impacto dessa “tradição” nos dois países.

CONCLUSÃO
Em 1931, Park afirmou que Thomas e Znaniecki haviam estudado as
mudanças culturais na vida dos imigrantes. Não seria incorreto dizer que boa
parte dos estudos sobre imigração ainda insistem sobre essa questão,
evoluindo do antigo conceito de assimilação, passando pelo de aculturação e
explorando bastante hoje os processos de integração dos imigrantes. A
historiadora norte-americana Nancy Green, em seu artigo “Tempo e estudo da
Assimilação”, afirma que o sentido do termo de assimilação variou bastante em
função da época e das correntes teóricas aos quais foi associado, tanto na
9

Europa quanto nos EUA. A idéia segundo a qual os EUA seria um país de
melting pot8 foi criticada tanto por sociólogos e antropólogos quanto por
historiadores daquele país9. Mas em termos teóricos, a questão central desde
os clássicos permanece a mesma: porque as pessoas e grupos migram? Ao
lado desta, as ciências sociais acrescentaram: o que acontece quando pessoas
ou grupos sociais diferentes se encontram? Tem-se aí uma questão central
das ciências sociais desde sempre: como explicar as interações sociais?
O sociólogo argelino Abdelmalek Sayd (1998), próximo a Bourdieu,
afirmou que, desde o tempo dos clássicos, a sociologia da imigração foi feita
apenas do ponto de vista dos países de destino e pouca atenção foi dada às
sociedades nos países de origem. Embora a crítica possa ser temperada –
basta retornar a Thomas e Znaniecki – procede o fato que se tem trabalhado o
fenômeno das migrações internacionais sempre na mesma direção: a da
partida.
Isso pode significar que o tema da imigração ainda seja periférico na
sociologia. De fato, poucos são os manuais que apresentam esse sub-campo
da sociologia. Assim, talvez seja a hora de lembrar como Simmel que o
imigrante é a “ponte e a porta” graça a qual podemos observar novas
realidades sociais tais como os fluxos, as novas formas de sociabilidade ou
ainda as relações transnacionais.

REFERÊNCIAS

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ENGELS, Fredrich (1960) [1845]. La situation de la laborieuse em Anglaterre.
Paris : Ed Sociales.

8
Este termo foi criado pelo escritor anglo-judeu Israel Zangwillno final do século XIX.
9
Ver a respeito GORDON, Milton M. (1964), GLAZER, Nathan & MONYHAN, Daniel P. (1970)
e HOLLIGER, David A. (1995).
10

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