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SÍTENSE - VIGIAR E PUNIR NASCIMENTO DA PRISÃO – CAPÍTULOS I E III -

MICHEL FOUCAULT.

Foucault apresenta nos seus primeiros capítulos objetivar uma história correlativa da alma
moderna e de um novo poder de julgar, uma genealogia do atual complexo científico-judiciário,
onde o poder de punir se apoia, recebe suas justificativas e suas regras, estende seus efeitos e
mascara sua exorbitante singularidade. Nesse ponto o autor, presenta numa tonalidade de
vivacidade as regras judiciárias de aplicação de penas que ocorria no final do séc. XVIII e início
do séc. XIX, assim o autor faz uma análise a cerco do surgimento das prisões com objetivo de
caracterizar a chamada “sociedade disciplinar”.

CAPÍTULO I - O CORPO DOS CONDENADOS

A obra se inicia com um relato do autor expondo dois documentos que explicitam dois
estilos penais diferentes. No primeiro relato apresenta o esquartejamento de Damiens que havia
sido condenado por cometer parricídio. Com grande riqueza de detalhes, Foucault utiliza um
processo descritivo de como o calvário do condenado foi exposto para o público, “Essa última
operação foi muito longa, porque os cavalos utilizados não estavam afeitos à tração; de modo
que, em vez de quatro, foi preciso colocar seis; e como isso não bastasse, foi necessário, para
desmembrar as coxas do infeliz, cortar-lhe os nervos e retalhar-lhe as juntas...”.

No segundo relato descreve alguns artigos códigos execução penal, com toda a sua
utilização fragmentária do tempo e sua sutiliza punitiva. São 11 artigos penais que apresentam
o cronograma e o deverem deveres que os detentos devem seguir categoricamente. Notamos
que nesses artigos os detentos não passam por punições físicas, mas sim por prestações de
serviço ao Estado, em exemplo o artigo 20, Art. 20. — Trabalho. Às cinco e quarenta e cinco no
verão, às seis e quarenta e cinco no inverno, os detentos descem para o pátio onde devem lavar
as mãos e o rosto, e receber uma primeira distribuição de pão. Logo em seguida, formam-se por
oficinas e vão ao trabalho, que deve começar às seis horas no verão e às sete horas no inverno.

Curiosamente os reatados apresentados e seus conteúdos de acontecimentos somente


tem 30 anos de intervalos, apresentando assim uma reformulação das leis punitivas
apresentadas. Nesse ponto notamos que o desaparecimento do suplício tem a ver com a
“tomada de consciência”, ou seja, uma introdução da humanização das leis penais que
vigoravam na Europa. O sistema judiciário reavaliou nesse intervalo de tempo as leis punitivas,
onde apresentaria a população maneiras mais humanas e igualitárias de punição criminal,
abolindo assim as antigas penas de suplícios que ocorriam séculos antes.

Entretanto as mudanças foram mais severas pela necessidade de que o assassino e o


juiz trocavam de papeis no momento do suplício, gerando assim revoltas perante a sociedade.
Era notório que essas punições violentas geravam violência social, fomentando na sociedade
ódio coletivo sobre tais leis penais. Foram necessárias criação de penas punitivas e dispositivos
de punição através dos quais o corpo do supliciado pudesse ser escondido, escamoteado. Os
franceses usavam como uma alivio do suplício a guilhotina, que representava um avanço nesse
sentido, pois tirava quase a totalidade a responsabilidade daquele que pune o ato de se
transforma em um assassino. No século XIX a pena de suplício já havia se transformado quase
em total tonalidade para a prisional, onde o corpo não é o fator da punição, mas sim a alma.
Nesse pensamento o júri procura nem total ressonância despertar no condenado uma avaliação
pessoal e profunda de seus atos e crimes.

A prisão se origina de uma tecnologia política do corpo. Nos últimos anos, houve revoltas
em prisões em muitos lugares do mundo. Os objetivos que tinham, suas palavras de ordem, seu
desenrolar tinham certamente qualquer coisa de paradoxal. Eram revoltas contra toda uma
miséria física que dura há mais de um século: contra o frio, contra a sufocação e o excesso de
população, contra as paredes velhas, contra a fome, contra os golpes. A prisão se tornava sua
materialidade na medida em que ele é instrumento e vetor de poder; era toda essa tecnologia do
poder sobre o corpo, que a tecnologia da “alma” — a dos educadores, dos psicólogos e dos
psiquiatras — não consegue mascarar nem compensar, pela boa razão de que não passa de um
de seus instrumentos.

CAPÍTULO III - OS CORPOS DÓCEIS

Nesse capitulo, surge uma nova forma de pensamento que Foucault descreve como
microfísica do poder, servindo como à produção de individualidades, ou seja, de indivíduos que
possam cumprir funções úteis, ajudando-se a um determinado tipo de sociedade emergente.
Microfísica do poder supõe que se renuncie à oposição violência-ideologia, à metáfora da
propriedade, ao modelo do contrato ou ao da conquista; no que se refere ao saber, que se
renuncie à oposição do que é “interessado” e do que é “desinteressado”, ao modelo do
conhecimento e ao primado do sujeito.

Nessa premissa, em exemplo, o saldado ideal no início do século XVII era uma figura que
antes de tudo era reconhecido de longe, pois levava consigo os sinais naturais de seu vigor e
coragem, as marcas de seu orgulho, e seu corpo era um brasão de sua força e de sua valentia.
No século XVIII a ideologia em torno do soldado mais fabril, ou seja, era fabricado pelo estado.
Era uma massa informe, de corpo inapto, fez-se a máquina de que precisa, corrigindo aos poucos
sua postura, dando-lhe treinamento tanto físico quanto mental para se torna a máquina perfeita
para o cumprimento de seu serviço.

Houve uma descoberta do corpo como objeto e alvo de poder. Encontraríamos facilmente
sinais dessa grande atenção dedicada então ao corpo — ao corpo que se manipula, se modela,
se treina, que obedece, responde, se torna hábil ou cujas forças se multiplicam. É que a partir
de então o corpo torna-se o local de investimento de várias técnicas e mecanismos que
pretendem docilizá-lo; tornando, assim, as pessoas tão mais úteis quanto mais obedientes e vice-
versa. Para o autor, o homem objetificado (aquele do humanismo) pode ser inventado graças à
descoberta da maleabilidade do corpo. Essa relação de poder também segue em outras
instituições, como hospitais, escolas, fabricas, empresas e outros.

Foucault propõe um exame no mecanismo que liga um certo tipo de formação de saber a
uma certa forma de exercício do poder, onde o poder é o que se vê, se mostra, se manifesta e,
de maneira paradoxal, encontra o princípio de sua força no movimento com o qual a exibe.
Aqueles sobre o qual ele é exercido podem ficar esquecidos; só recebem luz daquela parte do
poder que lhes é concedida, ou do reflexo que mostram um instante. O exame está no centro
dos processos que constituem o indivíduo como efeito e objeto de poder, como efeito e objeto
de saber. É ele que, combinando vigilância hierárquica e sanção normalizadora, realiza as
grandes funções disciplinares de repartição e classificação, de extração máxima das forças e do
tempo, de acumulação genética contínua, de composição ótima das aptidões. Portanto, de
fabricação da individualidade celular, orgânica, genética e combinatória.

SÍNTESE A MICROFÍSICA DO PODER – CAPÍTLO V - O NASCIMENTO DA MEDICINA


SOCIAL

Foucault faz uma análise onde denomina com o nascimento da medicina social, onde
frequentemente, ideia de que a medicina antiga − grega e egípcia − ou as formas de medicina
das sociedades primitivas são medicinas sociais, coletivas, não centradas sobre o indivíduo.
Controle da sociedade sobre os indivíduos não se opera simplesmente pela consciência ou pela
ideologia, mas começa no corpo, com o corpo. Foi no biológico, no somático, no corporal que,
antes de tudo, investiu a sociedade capitalista. O corpo é uma realidade bio−política. A medicina
é uma estratégia bio−politica.

Ele propõe que a verdade que o corpo foi investido política e socialmente como força de
trabalho. Mas, o que parece característico da evolução da medicina social, isto é, da própria
medicina, no Ocidente, é que não foi a princípio como força de produção que o corpo foi atingido
pelo poder médico. Não foi o corpo que trabalha, o corpo do proletário que primeiramente foi
assumido pela medicina. Foi somente em último lugar, na 2ª metade do século XIX, que se
colocou o problema do corpo, da saúde e do nível da força produtiva dos indivíduos.

Marx, que a economia era inglesa, a política, francesa e a filosofia, alemã. Pois, foi na
Alemanha que se formou, no século XVIII, bem antes da França e da Inglaterra, o que se pode
chamar de ciência do Estado. A noção de Staatswissenschaft uma noção alemã e sob o nome
de ciência do Estado pode−se agrupar duas coisas, que aparecem, nesta época, na Alemanha:
por um lado, um conhecimento que tem por objeto o Estado, não somente os recursos naturais
de uma sociedade, nem o estado de sua população, mas também o funcionamento geral de seu
aparelho político. Outra razão desse desenvolvimento da ciência do Estado é o
não−desenvolvimento econômico ou a estagnação do desenvolvimento econômico da
Alemanha, no século XVII, depois da guerra dos 30 anos e dos grandes tratados entre a França
e a Áustria.

O desenvolvimento da medicina social é representada pelo exemplo da França, onde, em


fins do século XVIII, aparece uma medicina social que não parece ter por suporte a estrutura do
Estado, como na Alemanha, mas um fenômeno inteiramente diferente: a urbanização. E com o
desenvolvimento das estruturas urbanas que se desenvolve, na França, a medicina social. Ela
foi desenvolvida por duas razões, Na medida em que a cidade se torna um importante lugar de
mercado que unifica as relações comerciais, não simplesmente a nível de uma região, mas a
nível da nação e mesmo internacional, a multiplicidade de jurisdição e de poder torna−se
intolerável. A segunda razão é política. O desenvolvimento das cidades, o aparecimento de uma
população operária pobre que vai tornar−se, no século XIX, o proletariado, aumentará as tensões
políticas no interior da cidade.

O desenvolvimento das cidades, o aparecimento de uma população operária pobre que


vai tornar−se, no século XIX, o proletariado, aumentará as tensões políticas no interior da cidade.
As relações entre diferentes pequenos grupos − corporações, ofícios, etc., que se opunham uns
aos outros, mas se equilibravam e se neutralizavam, começam a se simplificar em uma espécie
de afrontamento entre rico e pobre, plebe e burguês, que se manifesta através de agitações e
sublevações urbanas cada vez mais numerosas e frequentes.

A medicina urbana com seus métodos de vigilância, de hospitalização, etc., não é mais
do que um aperfeiçoamento, na segunda metade do século XVIII, do esquema político−médico
da quarentena que tinha sido realizado no final da Idade Média, nos séculos XVI e XVII. Ela
consiste em analisar os lugares de acúmulo e amontoamento de tudo que, no espaço urbano,
pode provocar doença, lugares de formação e difusão de fenômenos epidêmicos ou endêmicos.
A medicina urbana não é verdadeiramente uma medicina dos homens, corpos e organismos,
mas uma medicina das coisas: ar, água, decomposições, fermentos; uma medicina das
condições de vida e do meio de existência. Esta medicina das coisas já delineia, sem empregar
ainda a palavra, a noção de meio que os naturalistas do final do século XVIII, como Cuvier,
desenvolverão.