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A mesada de

Toffoli -
Crusoé
By Eduardo BarrettoFilipe Coutinho • crusoe.com.br

Edição 13 - Reportagem

O próximo presidente do Supremo Tribunal Federal recebe


100 mil reais todo mês em uma conta mantida no Banco
Mercantil. O dinheiro é repassado pela mulher dele. Roberta
Rangel é dona de um escritório de advocacia que alcançou o
sucesso em Brasília depois que Dias Toffoli ascendeu na
carreira. As transações foram consideradas suspeitas por
técnicos do próprio banco
27.07.18
José Antonio Dias Toffoli tinha um currículo tímido quando,
de advogado do PT, começou a ascender na estrutura do
governo Lula até ser nomeado ministro do Supremo
Tribunal Federal pelo então presidente petista. De bon
vivant, passou a ter um cotidiano discreto. Casou-se com
Roberta Maria Rangel, sua ex-sócia na advocacia eleitoral. A
vida sossegada de homem casado se transformou em
prosperidade. Com um salário de 33 mil reais no Supremo, o
ministro que no próximo mês de setembro assume a cadeira
de presidente da corte recebe da mulher uma mesada na
casa dos 100 mil reais por mês. De um lado, Roberta Rangel
atua em causas multimilionárias e, de outro, banca o marido
com um valor mensal que equivale a mais que o triplo do
salário que ele recebe no serviço público. O ministro tem a
conta bancária de um advogado de sucesso. A história
que Crusoé conta nesta reportagem mostra indícios de
irregularidades nas transações do casal e a omissão de um
banco onde tudo acontece sem que as autoridades
financeiras tomem conhecimento. A conta em que os
depósitos são feitos mês a mês é administrada por um
funcionário do gabinete do ministro – um bancário que,
lotado na assessoria de Toffoli, recebe salário dos cofres
públicos para cuidar de suas finanças pessoais.

A sociedade de Toffoli e Roberta Rangel em um modesto


escritório de Brasília que estava bem longe da ribalta antes
de ele subir na carreira virou casamento em 2013. Os dois se
uniram em regime de comunhão parcial de bens. O
matrimônio, formalizado por um cartório de Taguatinga,
cidade-satélite do Distrito Federal, logo se transformaria em
uma sólida relação financeira cujas movimentações passam
por uma conta no pouco conhecido Banco Mercantil do
Brasil. Sediado em Belo Horizonte, o Mercantil do Brasil
mantém uma discretíssima agência em Brasília, escondida
no segundo andar de um prédio comercial da região central
da cidade, para atender clientes como Toffoli. Pelo menos
desde 2015, a conta aberta cinco anos antes na agência 0092
do banco mineiro recebe, mensalmente, 100 mil reais. Na
ponta do lápis, os créditos somam mais de 4,5 milhões de
reais desde então. Os detalhes das transações tornam a
história ainda mais interessante.

A conta é conjunta. Está em nome de Toffoli e Roberta. Mas


as transferências realizadas todo mês vêm sempre de uma
conta da mulher do ministro no banco Itaú. Ou seja: Roberta
transfere os valores de uma conta pessoal sua para uma
conta conjunta que divide com o marido. Em tese, poderia
ser apenas questão de organização financeira do casal. Mas
há elementos que mostram que a conta no Mercantil serve,
na verdade, ao ministro Toffoli. O primeiro sinal é que a
conta tem um procurador autorizado a movimentá-la, e esse
procurador é ninguém menos que um assessor do gabinete
de Toffoli no Supremo. O segundo sinal, ainda mais
eloquente, é que o dinheiro que entra na conta sai para
bancar despesas que são, claramente, do próprio ministro.
Como, por exemplo, a transferência também mensal de 50
mil reais para Mônica Ortega, ex-mulher de Toffoli.
Explicando em miúdos: dos 100 mil que entram na conta,
vindos da atual esposa do ministro, dona de uma banca de
advocacia que foi alcançando o sucesso à medida que o
próprio Toffoli ascendia na carreira, metade sai para pagar
uma espécie de pensão do ministro à sua ex-mulher. E o
restante do valor é usado para bancar despesas também
atribuídas a ele. Ou seja: todos os caminhos levam a crer que
os 100 mil transferidos todo mês por Roberta Rangel servem
para que Toffoli cubra despesas próprias.

Mônica Ortega, a ex-mulher do ministro que acaba


recebendo a metade da mesada, foi funcionária da Casa Civil
do Palácio do Planalto no governo Lula, quando Toffoli
também trabalhava por lá. Eles se casaram em 1997, mas
romperam em uma situação incomum. Em 2003, Toffoli
costumava dizer que já estava separado. Mas a formalização
da separação só se deu três anos depois, quando a Justiça
homologou um acordo entre os dois. Estava efetivada a
separação consensual, portanto. Mas as coisas não deram
certo e, um ano depois, o casal voltou à Justiça para desfazer
o acordo por meio de uma ação de divórcio. O que era
consensual virou, por razões que são mantidas em segredo
no processo, motivo de litígio. Oito anos depois de sair a
sentença no processo de divórcio e dois anos após Toffoli
casar com sua nova esposa, a advogada Roberta Rangel, a ex
começou a receber os repasses mensais. A pensão,
curiosamente, é maior do que o próprio salário do ministro.
Mas essa ainda não é a parte mais estranha da história.

Crusoé descobriu que, ao menos em 2015, a área técnica do


Banco Mercantil do Brasil viu indícios de lavagem de
dinheiro nas transações envolvendo a conta do ministro. A
conclusão dos técnicos do banco, por si só, não é um
atestado de ilegalidade. A regra manda que, nessas
situações, as transações tidas como suspeitas sejam
reportadas ao Conselho de Controle de Atividades
Financeiras, o Coaf, o órgão de inteligência do Ministério da
Fazenda que registra as operações num banco de dados e, a
depender do caso, encaminha os indícios para as
autoridades competentes, como a polícia ou o Ministério
Público. Todos os dias, os bancos em geral reportam
milhares de transações ao Coaf, desde grandes
transferências a saques vultosos em dinheiro vivo. Em casos
como o de Toffoli, as normas do Banco Central mandam que
sejam consideradas atípicas movimentações habituais de
valores sem justificativa clara e, ao mesmo tempo,
incompatíveis com a renda do cliente. Para não falar,
obviamente, do fato de o ministro se enquadrar no perfil de
“pessoa exposta politicamente”, o que ao menos no papel
obriga os bancos a acenderem o sinal amarelo sempre que
houver qualquer indicação de movimentação fora dos
padrões. Acontece que, apesar da sugestão da área técnica
de encaminhar os dados ao Coaf em 2015, houve uma ordem
explícita da diretoria do Mercantil para que a comunicação
não seguisse adiante. O caso, que deveria ser despachado
para a sede do Coaf, em Brasília, foi simplesmente
engavetado. Os diretores do banco disseram que a renda do
casal estava desatualizada e que, por isso, o alerta não
deveria ser disparado. Tudo ficou como estava. E as
transações seguiram ocorrendo.
No pente-fino que fizeram sobre as operações financeiras de
Toffoli, os técnicos do Banco Mercantil levantaram todos os
sinais atípicos em torno da conta do ministro. Inclusive o
fato de ela ser movimentada por um procurador, o tal
funcionário do gabinete. Ricardo Newman de Oliveira,
servidor de carreira do Banco do Brasil, trabalha com Toffoli
há pelo menos dez anos. Antes, ele era gerente de agências
em Brasília. Quando Toffoli foi nomeado advogado-geral da
União, Newman recebeu o convite para ser seu “assessor
externo”. Deu liga. Já no Supremo, primeiro o ministro o
nomeou como assistente de gabinete. Depois, o promoveu
para assessor direto, um dos cargos mais cobiçados na
burocracia da corte. Newman aparece nos registros da área
técnica do Banco Mercantil justamente por acumular o papel
de assessor no STF com o de administrador da conta de
Toffoli. Na prática, é ele quem cuida pessoalmente das
despesas custeadas com a mesada repassada por Roberta
Rangel. O bancário que Toffoli mantém no gabinete aparece
ainda nos registros por outra razão: ele próprio figurou, por
vezes, como destinatário de parte do dinheiro que entra na
conta do ministro. Ao todo, Newman recebeu mais de 150
mil reais em transferências feitas com autorização de Toffoli.

O Banco Mercantil foi criado em Curvelo, cidade do interior


mineiro, a 160 km de Belo Horizonte. Desde a década de
1950, é controlado pela família Araújo, tradicional no
estado. O foco principal de suas operações está em Minas e
no interior de São Paulo. Atualmente, o Mercantil diz ter
cerca de um milhão de correntistas. A relação do ministro
Toffoli com o banco é um capítulo à parte. Além de figurar
como relator de processos de interesse do Mercantil no
Supremo, o ministro aparece como beneficiário de generosas
operações autorizadas pela cúpula do banco. Desde 2009,
quando Toffoli passou a integrar a corte, chegaram por lá
cerca de 270 processos que tinham o Mercantil como uma
das partes – seja no polo passivo ou ativo. Toffoli foi relator
de 13 dessas ações e não se declarou impedido. Em outra
frente, na relação banco-cliente, os caminhos de Toffoli e do
Mercantil também se cruzaram. Documentos internos do
banco obtidos por Crusoé mostram que, em 2011, Toffoli
pediu um empréstimo de 900 mil reais ao Mercantil. As
parcelas ficaram em 13.806 reais, a serem pagas ao longo de
15 anos. A prestação representava quase 75% dos 18 mil
reais líquidos que Toffoli recebia oficialmente àquela altura.
Mesmo assim, o banco considerou que a prestação era
compatível com os seus rendimentos e liberou o
financiamento. E a taxa de juros foi generosa: 1,35% ao mês.
Naquela época, o setor de financiamentos do Mercantil
operava com uma média de 2,6% de juros ao mês para o
crédito pessoal. Ou seja, Toffoli teve uma taxa de
praticamente a metade da que era oferecida aos demais
clientes.

Graças ao Mercantil, o ministro também apareceu em uma


investigação do Ministério Público Federal do Rio de
Janeiro. Os procuradores descobriram que o banco foi usado
para repassar 350 mil reais para Toffoli dar aulas na
Universidade Gama Filho. Em uma decisão temerária e
repleta de suspeitas, o enrolado Postalis, o fundo de pensão
dos funcionários dos Correios, havia escolhido a instituição
para investir parte de seu dinheiro. Enquanto não recebia os
aportes, era com dinheiro do Banco Mercantil que a Gama
Filho pagava alguns de seus prestadores de serviço. Um
deles era Toffoli, que dava aulas na universidade. O dinheiro
era repassado pelo Mercantil e, em seguida, transferido para
o ministro. Quando a Gama Filho recebia os recursos do
Postalis, ressarcia o banco. Ocorria uma espécie de
triangulação. Um dos citados na investigação do Ministério
Público é Ronald Guimarães. Empresário, ele tinha um
processo que chegou ao Superior Tribunal de Justiça, em
Brasília, em 2014, envolvendo uma imobiliária registrada
em seu nome. Era uma causa de incríveis 250 milhões de
reais e o empresário já tinha uma estrela em sua defesa. Era
Cezar Peluso, ex-presidente do Supremo Tribunal Federal.
Mesmo assim, Ronaldo Guimarães não titubeou e contratou
uma advogada de Brasília: Roberta Maria Rangel. O caso
segue em aberto, agora no Supremo e com outros
advogados, no gabinete da ministra Cármen Lúcia.

Roberta Rangel, a mulher do ministro que é responsável por


repassar a mesada de 100 mil reais para a conta no
Mercantil, é um daqueles exemplos raros de sucesso
repentino nas bancas de Brasília. Discreta, ela despacha em
um escritório localizado em um prédio moderno conhecido
por abrigar os famosos lobistas que circulam pela capital. A
sala é tão discreta como ela. À diferença das grandes bancas
que gostam de exibir suas marcas, o nome do escritório de
Roberta aparece apenas no tapete. Sua carteira de processos
salta aos olhos. São centenas deles, que tramitam ou
tramitaram principalmente no Superior Tribunal de Justiça
e no Tribunal Superior Eleitoral. Algumas das causas são
milionárias. Entre seus clientes há uma infinidade de
políticos desconhecidos (muitos prefeitos de cidades
pequenas e médias, por exemplo), um “banqueiro” de jogo
de bicho e empresas. No STJ, por sinal, ela atuou
recentemente em um caso interessante. Era um processo
vindo do estado de Mato Grosso e envolvia disputa de terras.
O que estava em jogo não eram as propriedades em si, mas o
que havia nelas: plantações de soja. Ao chegar em Brasília,
uma das partes contratou o escritório do advogado Sérgio
Bermudes, que tem como sócia Guiomar Mendes, mulher do
ministro Gilmar Mendes. A outra parte não ficou atrás e
contratou a mulher de Toffoli. Quem ganhou a ação? Os dois
escritórios. O embate foi encerrado porque, no fim do ano
passado, as partes fizeram um acordo. Os honorários não
são discriminados. Mas o documento, obtido por Crusoé,
deixa claro que Roberta Rangel se deu bem com o acerto.
A prosperidade de Roberta no STJ não se reproduz com a
mesma ênfase no Supremo, onde ela evita atuar. Mas um
caso, em especial, ajuda a entender como funciona a
engrenagem dos tribunais superiores em Brasília nessas
situações em que é preciso lidar com os impedimentos. Era
dezembro de 2014. Roberta deixou de atuar em um processo
sob a relatoria do marido, mas repassou a tarefa para o
colega Daniane Mangia Furtado. Daniane trabalhou com o
próprio Toffoli nos tempos em que o ministro ainda estava
na advocacia. Toffoli acabou não decidindo. Declarou-se
impedido. Mas a relação com Daniane segue firme e forte.
Hoje ele é sócio de Roberta Rangel. O sócio da mulher do
Toffoli, portanto, é um ex-parceiro do próprio ministro. Por
sinal, logo no início do governo Lula, Toffoli foi indagado
sobre a razão pela qual ele, mesmo estando no governo,
seguia como advogado em um processo do PT contra a
Petrobras. Respondeu que não havia problemas formais em
seguir no caso. Quem tocava o processo diretamente era
Daniane. Sobre ele, Toffoli admitiu na ocasião: “É a pessoa
que cuida do escritório para mim”.
Não faz muito tempo, uma causa de Roberta deu dor de
cabeça ao ministro. Uma reportagem da Folha de
S.Paulo mostrou que o escritório dela recebeu 300 mil reais
entre 2008 e 2011 do consórcio Queiroz Galvão-Iesa, que
tinha contratos com a Petrobras e foi citado no esquema de
propinas que assaltou a estatal. Eles negaram qualquer
irregularidade. Além da advocacia, Roberta Rangel acumula
outros dois empregos. É procuradora da Câmara Legislativa
do Distrito Federal, um cargo público que lhe rende salário
com a flexibilidade de poder advogar, e é dona do Instituto
Brasiliense de Estudos Tributários. Esse instituto foi criado
em março deste ano e tem como sede o próprio escritório de
advocacia que Roberta mantém em Brasília. Procurado
por Crusoé, Toffoli não quis falar. “O ministro não irá se
manifestar”, respondeu sua chefe de gabinete. Roberta
Rangel também não quis se pronunciar.