Você está na página 1de 167

Gideon Jura: LIMITES

Parte 1

O Planinauta Gideon Jura tem um problema – há apenas um dele. Zendikar é um mundo


devastado por monstros sobrenaturais conhecidos como Eldrazi. Gideon testemunhou sua
devastação quando ele visitou pela primeira vez o plano e prometeu voltar com ajuda.
Nenhum Planinauta atendeu ao seu chamado, e ele se recusou a deixar Zendikar definhar.
Em Ravnica, Gideon encontrou interesses comuns na disciplinada Legião Boros, mas a
política do plano favorece aqueles associados a uma guilda e Gideon acha que ele deve
intervir em nome daqueles que não estão sob a proteção de uma. Zendikar ao dia.
Ravnica à noite. Gideon não pode virar as costas para aqueles que precisam dele, e
problemas podem estar chegando ao ponto de ebulição em ambos os planos.

ZENDIKAR

Os músculos de Gideon doíam e sua respiração estava ofegante. Poeira queimava em


seus pulmões, revestia suas narinas e causava lágrimas constantes em seus olhos. Grãos
de areia tinham se infiltrado por trás de suas pálpebras, e ele piscou desesperadamente
para retirá-las.
Ele poderia até mesmo sentir o gosto do pó em sua língua. Ele reuniu a pouca umidade
que remanescia na boca e cuspiu na grama alta que se projetava através da poeira que
pairava ao redor dele.
Ele tinha que acabar com isso rapidamente.
A monstruosidade Eldrazi pairava sobre Gideon, quase o dobro de sua altura, seu torso
mantido sobre uma massa espessa de tentáculos de carne que deslizavam pesadamente
sobre a grama alta. Como tantos outros com que Gideon tinha lutado nas últimas
semanas, o rosto deste estava quase inteiramente envolto em uma suave textura óssea.
Embora não tivesse olhos, sua cabeça virava para acompanhar os movimentos de Gideon.
Era um gesto inquietante, desprovido de malícia ou ódio ou raiva.
Os Eldrazi eram diferentes de outros adversários com que Gideon tinham lutado, ao
mesmo tempo graciosos e nojentos, intencionais e indiferentes. Não havia linguagem
corporal para ler, nada que os entregasse, e tudo o que Gideon podia fazer era ficar fora
do alcance deste.
Tentáculos chicotearam. E também chicotearam as quatro lâminas em fitas de metal de
seu sural. Gideon puxou o braço para trás e as lâminas estalaram no ar, decepando um
tentáculo. O líquido consequente não era sangue, mas sim um muco viscoso e pegajoso
que aderiram às lâminas flexíveis de Gideon, interrompendo o fluxo de seu segundo
ataque.
Desajeitado.
Outro tentáculo bateu em suas costelas antes que ele pudesse angular para fora de seu
caminho. Ele viu-o vindo, mas só houve tempo suficiente para Gideon cerrar os dentes e
antecipar o golpe enquanto ondas de luz de proteção reflexivamente queimavam através
de seu corpo para absorver o golpe, deixando-o ileso. Por enquanto, pelo menos.
Espalhados pela grama alta ao redor dele estavam pedaços irregulares de um edro caído
– uma das inúmeras pedras monolíticas de oito faces que Gideon tinha visto no plano.
Havia algo neles que reagia nos Eldrazi. Ninguém conseguira explicar isso para ele, mas
muitos dos Zendikari levavam pequenos edros como amuletos, ou substituíam pontas de
lança e pontas de flechas por eles. Os kor até mesmo pintavam seus corpos com
desenhos que combinavam com os entalhes dos edros. Para Gideon, naquele momento, o
que importava era que os pedaços de edro eram pesados e afiados.
Ele tinha que ganhar algum tempo para si. Um momento, pelo menos.
Mais tentáculos. Gideon pulou para a direita, contorcendo o corpo a escorregar entre os
membros que o agarravam. Ele rolou no chão, e a monstruosidade Eldrazi recolheu seus
tentáculos volta para mais um ataque.
Lá estava.
Um momento.
E nesse momento, Gideon já estava de pé. Ele investiu diretamente contra o ser
enervante, e o monstro desceu sobre ele, mais rápido do que um ser daquele tamanho
deveria se mover.
“Chega!” Gideon rugiu.
Ele usou as lâminas de seu sural para laçar um pedaço pontiagudo de edro doo tamanho
de um capacete que se estreitava em uma extremidade como uma lâmina bruta. Quando o
Eldrazi voou baixo, Gideon girou. Edro acertou no rosto de placa óssea. Nenhum grito de
agonia seguiu. Nenhuma gota de sangue jorrou. Apenas um piscar de olhos, a força
combinada do balanço de Gideon e o próprio impulso do movimento do Eldrazi e a pedra
antiga afundou. Um momento depois, o Eldrazi desabou, imóvel.
Gideon desembaraçou seu sural e caiu no chão. Sangue continuava a bombear
furiosamente em suas veias e ele estava ciente do quanto as batidas em seus têmporas se
destacavam contra o silêncio repentino ao seu redor. Seu rosto coberto de poeira estava
manchado com linhas de suor, mas o sol em seu rosto era algo bom e ele estava sorrindo.
À sua direita, alguma coisa se aproximava. Várias coisas, movendo-se rapidamente
através da grama alta em sua direção. De sua posição, ele viu uma dúzia de figuras
agilmente fazendo o seu caminho através do campo de edros caídos. Eles eram em sua
maioria kor, mas Gideon viu elfos, humanos e até mesmo um par de goblins entre eles. À
frente do grupo estava um kor particularmente grande. Como outros, seu peito nu pálido e
couro cabeludo calvo estavam cobertos de tatuagens brancas angulares e ele segurava
um par de lâminas em gancho conectadas por uma corrente. Ele se mantinha abaixado
enquanto corria e as várias linhas de escalada e arpéus que ele carregava em seu cinto
saltavam a cada passo.
“Munda!” Gideon gritou. A ouvir o som, o grupo que se aproximava foi para chão. Todos,
exceto o kor líder, que ficou imóvel em alerta. O kor inclinou a cabeça tentando descobrir a
fonte de seu nome entre a grama alta.
“Cuidado agora, povo”, Munda falou sobre um ombro, seu tom cheio de diversão que soou
para Gideon contrário à dureza característica do kor. “Um Gideon perambula por estas
terras, e parece estar guardando sua caça.”
Eles deviam ter tido uma caça bem sucedida. O pensamento fez o sorriso de Gideon
aumentar. “É bom ver você, meu amigo”, disse ele. Munda, chamado de Aranha por
aqueles que haviam o visto em ação tecendo suas cordas para prender e inibir os Eldrazi,
era ao mesmo tempo esperto e corajoso em uma luta e Gideon tinha gostado dele
imediatamente.
Munda acenou com a lâmina para o cadáver Eldrazi. “E você também. Seu timing não
poderia ser melhor”, disse Munda no que havia se tornado algo como uma piada interna
entre eles, já que sempre havia algum perigo a enfrentar. “Parece que você não
desperdiçou tempo, também. Obrigado por isso. Nós recém destruímos um também, mas
haviam quatro deles. Você viu os outros?”
Gideon casualmente apontou por cima do ombro com o polegar, indicando a direção para
além da carcaça Eldrazi.
Munda olhou Gideon desconfiado. “Preparem-se”, disse ele aos outros antes de subir na
carcaça Eldrazi para ter um melhor ponto de observação. Espreitando sobre a planície,
encontrou seu alvo, dois montes sem vida de magenta e azul contra o capim dourado.
“Deem uma olhada, todos. É assim que se faz.” Ele saltou da carcaça, e seus soldados se
reuniram em torno dele para admirar a obra de Gideon.
Munda colocou a mão no ombro de Gideon e Gideon viu que o tempo para leviandades
tinha acabado. “Nós recebemos notícia esta manhã que Bala Ged, o continente inteiro, foi
invadido e destruído. Não sobrou nada.”
Gideon olhou através de Munda, assistindo a grama balançar com o vento sutil. “Como
Sejiri”, disse ele finalmente.
“Exatamente como Sejiri”, confirmou Munda. “Os sobreviventes vão desembarcar na costa.
Comandante Vorik enviou Tazri e seu bando para escoltá-los até Portão Marinho, mas...”
“Você não acha que vai ser o suficiente.”
“Há mais dificuldades chegando, Gideon.”
Era uma verdade. Não uma profecia de algum agoureiro, mas uma inevitabilidade que
seus ombros caídos e olhos vermelhos tinham estado gritando para ele por dias.
“Eu estarei lá”, disse Gideon. Munda estendeu um cantil de água, um pequeno conforto
que Gideon tomou como um ato de compreensão. O povo de Zendikar era realista,
produto de um plano onde a sobrevivência dependia de habilidade e vontade e
inteligência. Disso surgiu um povo que conhecia o valor das pequenas coisas. Um gole de
água fria rolando em uma garganta ressecada era uma alegria a ser reconhecida.
Ao redor deles, os guerreiros de Munda estavam montando acampamento. Um dos goblins
se ajoelhou sobre um escudo em concha voltado para cima, trabalhando para montar uma
fogueira modesta no seu interior, enquanto outros ficavam de guarda ou descansavam tão
bem quanto podiam no frescor da grama.
“Quanto tempo se passou desde a última vez que você dormiu?” Perguntou Munda.
Gideon não sabia com certeza. O prazer de fechar os olhos e derivar sem consciência lhe
fugira por algum tempo e o conforto de uma cama parecia de repente uma memória
distante. “Dias”, foi tudo o que ele conseguiu dizer com algum grau de certeza.
“Descanse um pouco”, disse Munda. “Parece que você está precisando.”
“Obrigado, mas ainda não.” Problema estava vindo. Já estava aqui, e não apenas em
Zendikar.
Parte 2

RAVNICA

A leve garoa que vinha caindo em Ravnica há mais de um mês fez pouco para salvar a
Rua do Estanho do incêndio. Nem a Rua da Fundição, quando ela ardeu na noite anterior.
“Uma guerra de gangues goblin é uma coisa bagunçada, Jura.” Dars Gostok, um capitão
da Legião Boros, tinha dito enquanto ele e Gideon assistiam um armazém vazio ceder aos
estragos das chamas furiosas. Eles tinham arriscado adentrar o inferno em busca de
sobreviventes, mas encontraram somente os corpos carbonizados de seis goblins. “Esta é
a primeira represália de muitas”, continuou o capitão enquanto ele limpava a camada de
cinzas de seu rosto, “e as sarjetas vão levar mais do que apenas água da chuva nos
próximos dias, marque minhas palavras.”
Isso fora há dois dias e, como Dars havia previsto, a contagem de goblins mortos subiu.
A coisa toda começou com um assassinato – Dargig, um traficante de armas no mercado
negro que se especializava em explosivos. Ele tinha uma reputação por si só, mas
também acontecia de ele ser o mais jovem dos notórios Irmãos Extermínio.
Da maneira que Dars explicou para Gideon, Dargig tinha sido encontrado em um beco
perto da Rua de Estanho, em uma poça de sangue, esfaqueado na garganta. A notícia se
espalhou de que o goblin rei do crime, Krenko, o matou pessoalmente quando uma
entrega de armas deu errado.
Na noite seguinte, uma série de explosões sacudiu o distrito e vários dos armazéns de
Krenko pegaram fogo. Era a maneira dos Extermínio de declarar guerra. E Krenko a
aceitou com muito entusiasmo.
Gideon tinha pessoalmente pedido à Câmara do Pacto das Guildas para intervir, o que
essencialmente se resumia a adicionar seu nome e guilda ao final de uma lista de espera
muito longa.
O Pacto das Guildas Vivo. Jace Beleren. Planinauta.
A pessoa que resolveu o quebra-cabeça do Labirinto Implícito e se tornou a personificação
de um tratado mágico que mantinha as guildas de Ravnica sem devorar umas às outras.
Esses goblins não pertenciam a nenhuma das guildas de Ravnica. Enquanto se tratasse
apenas de goblins matando goblins, a maioria das guildas estava satisfeita em apenas
observar o conflito de trás da segurança de seus portões.
Enquanto a luta continuava, a população sem guildas – os Sem Portão – estava em
perigo.
Inaceitável.
Era logo após a meia-noite quando as portas de ferro pesado da guarnição se abriram, um
tumulto que fez uma dúzia de Legionários Boros levantarem-se de seus lugares na longa
mesa de madeira que se estendia na câmara. Alguns estavam tentando alcançar suas
armas e Gideon estava parado na arco alto de entrada com o cabelo molhado pendurado
sobre seus ombros.
“À vontade”, gritou um dos soldados, “é Jura.”
“E eu venho trazendo presentes”, disse Gideon, e ele empurrou algo no salão que tinha
sido obscurecida por sua própria silhueta. Um goblin, preso nos pulsos, estava sorrindo
com afiados dentes amarelados que apanhavam a luz fraca do lampião. Krenko. O goblin
estudou os soldados, o ambiente e os soldados mais uma vez, cada um deles com a boca
aberta, incrédulos.
“É uma bonita guarnição, soldados”, disse Krenko, ainda sorrindo. “Não é a Morada do Sol,
com certeza, mas vai servir.”
Gideon mancou para dentro da câmara, o pé direito deixando manchas de sangue a cada
passo.
“Eu vou supor que há uma confusão em algum lugar lá fora na sua conta, Jura”, disse Dars
que veio com passos largos em de uma câmara adjacente.
“Eu espero que você não goste da comida d’O Milenar.” O Milenar era um restaurante de
alta classe que havia sido construído sobre uma plataforma de observação exclusiva com
o mesmo nome. Desde a ascensão de Krenko ao poder nos círculos de crime organizado
de Ravnica, ele era conhecido por passar suas noites lá. Então lá que Gideon foi.
“Nunca consegui uma mesa”, Dars respondeu. “Eu não imagino que você tenha o
encontrado lá sentado sozinho comendo a sobremesa, no entanto.”
“Não exatamente.”
“Você não deveria ter ido sozinho. Mas eu tenho que admitir que estou impressionado, e
isso não acontece muito frequentemente.”
“Não fique muito impressionado.” Gideon desprendeu suas grevas e rolou a perna da calça
até acima do joelho. Gideon tinha amarrado um dos guardanapos de pano d’O Milenar em
torno de sua perna, mas agora ele estava encharcado e estava fazendo pouco para
manter a ferida fechada. “Essa maldito sorridente enfiou uma faca na minha perna.”
“Duas vezes”, Krenko disse, pontuando seu triunfo com um riso chiado.
A raiva de Gideon queimou. “Você fica aqui rindo enquanto seus companheiros goblins
morrem nas ruas.”
Dars colocou a mão em seu ombro. “Você deve ver um cirurgião.”
“Provavelmente”, respondeu Gideon, mas sua palavra foi engolida pelo som de vidro
quebrando quando uma pequena claraboia no teto alto explodiu em pedaços. Gideon e
Dars viraram a tempo de ver um pequeno objeto caindo em direção ao chão. Enquanto ele
caía girando, Gideon notou um pequeno ponto vermelho-laranja brilhante que pendia de
uma das pontas.
Um pavio.
“Bomba!” Gideon gritou, empurrando Dars de lado. Ele agarrou o explosivo antes que
pudesse cair no chão, puxando-o em direção a si até que estivesse pressionando-o contra
seu abdômen. Espirais de luz mágica dourada irromperam por toda a superfície de sua
pele em antecipação à explosão. Ele ficou agachado ali com os olhos cerrados por um
longo momento.
Nada.
Lentamente, Gideon abriu os olhos e olhou para baixo para encontrar as mãos segurando
uma lata de vidro fechada com uma tampa de latão.
“Interditem a área!” O comando de Dars quebrou o silêncio. “Eu quero respostas!”
Gideon se endireitou, virando o recipiente em suas mãos para examiná-lo.
“A explosão falhou?” Perguntou Dars.
“Não é uma bomba. Olhe.” Gideon removeu a tampa e extraiu uma fita enrolada de papel
do tubo de vidro. Desenrolou-o. Uma mensagem, escrita com uma mão experiente,
esticava-se através da estreita faixa em uma única linha. Era para ser clara, sua
mensagem inconfundível.
Gideon leu. “Krenko assassinou nosso irmão. Se a justiça deve ser feita, nós a
reclamamos. Entreguem-no a nós, ou vamos reduzir o território Boros a escombros. Todos
vocês e tudo o que vocês amam serão alvos justos se vocês ignorarem esta mensagem.
Krenko vale tudo isso para vocês? Vocês têm até esta hora de amanhã para decidir.
Gentilmente, Rikkig e Gardagig, os Irmãos Extermínio.”
Não havia tempo para isso. Não agora. Gideon tinha que voltar para Zendikar. Ele jogou a
lata vazia contra o chão de pedra.
“Hora de decidir”, Krenko provocou.
“Tirem-no daqui”, Dars ordenou. “Quero ele atrás das grades.”
“Você vê, Jura”, disse Krenko, conforme soldados o arrastavam para longe, “os Boros não
vão me entregar aos Irmãos Extermínio. E agora?”
Parte 3

ZENDIKAR

Assim como Munda disse que fariam, sobreviventes de Bala Ged desembarcavam na
costa. Não mais do que trezentos deles, pela contagem superficial de Gideon. Mas eles
não eram o bando de refugiados fracos e quebrados que Gideon tinha imaginado. Eles
eram lutadores, endurecidos pelo que tinham visto e pelas pessoas que tinham perdido,
mas também determinados a continuar. E, como disse Munda, eles precisavam de ajuda.
Mas então Gideon provavelmente precisaria também.
Escudo levantado e sural desenrolado, Gideon plantou-se no caminho estreito que
serpenteava entre os penhascos de cal vindo da costa.
O chão tremia, e as vibrações acordavam as feridas que zumbiam em sua perna.
Mantenha o foco. Haveria tempo para Ravnica depois que isso estivesse concluído.
Atrás dele, os sobreviventes seguiam a vanguarda de Tazri pelo caminho acima em
direção ao cerrado aberto. Um movimento acima chamou a atenção de Gideon e ele tirou
os olhos do chão do cânion por tempo suficiente para ver Munda e alguns de seus
escolhidos plantando pontas de ferro pesadas nos penhascos em ambos os lados, cerca
de seis metros abaixo do topo.
Eles teriam que se apressar.
Um dos kor nos penhascos parou de martelar de repente e soltou um assobio estridente,
apontando freneticamente na direção da costa. Os Eldrazi estavam aqui. Ele tinha uma
tarefa – ganhar tempo suficiente para o pessoal de Munda fazer seu trabalho. Retardar o
Eldrazi, destruí-los – não importava, desde que os sobreviventes pudessem continuar a
ser chamados de sobreviventes.
Tazri dissera que havia especialistas em Eldrazi entre eles indo para o Farol em Portão
Marinho. Se isso fosse verdade, eles tinham que chegar até lá.
O primeiro dos monstros entrou no campo de visão onde o caminho se estreitava abaixo.
Gideon balançou as lâminas do sural para que elas ficassem no chão atrás dele,
posicionadas e prontas para atacar quando fosse a hora. Ali estava ele, entre o que
restava de Bala Ged e um tapete de Eldrazi que corria através do cânion sobre inúmeros
membros que arranhavam e tentáculos que deslizavam.
E então eles estavam sobre ele.
Gideon deixou o sural voar, as fitas de aço estendidas ao seu comprimento máximo,
atravessando o ar como que cantarolando como uma única lâmina afiada que cortou e
derrubou muitos da prole. Ele deixou o impulso de seu giro trazer o seu escudo acima,
socando de maneira que a borda laminada do escudo perfurou profundamente na carne de
outra prole Eldrazi.
Gideon dançou para longe de um tentáculo pesado no caminho para esmagar seu crânio e
respondeu enviando suas lâminas de sural para enrolar-se em torno dele. Ele deu uma
puxada rápida com o pulso. As lâminas morderam a carne macia e Gideon se moveu com
o peso da prole, procurando por um ângulo para um ataque com seu escudo. Mas todo o
tentáculo caiu como se ejetado. A liberação repentina tirou o equilíbrio de Gideon e a dor
acima do joelho aumentou. Ele perdeu o equilíbrio e as lâminas do sural voaram
descontroladamente. Uma deslizou sobre a carne de seu rosto, deixando uma linha
vermelho escuro a partir do canto de sua boca até sua orelha.
Descuidado, Gideon se amaldiçoou pelo erro. Mas ele estava cansado. Conforme o
sangue corria quente ao longo de sua mandíbula, ele se amaldiçoou por usar isso como
desculpa. Ele deveria ter previsto isso. Assim como ele deveria ter previsto a faca de
Krenko.
Ele tinha que voltar para Ravnica. Isso estava demorando demais. Onde estava Munda?
Ele realmente tinha que sair de sua cabeça.
A prole Eldrazi pressionava sobre ele, suas pálidas placas faciais preenchiam sua visão.
Ele olhou de uma para outra, cada uma delas uma imitação sem características de crânios
humanos. O enorme vazio das faces atingiu Gideon como algo contrário ao rigor com que
os Eldrazi faziam a sua destruição. Era um horror puro a se contemplar, sem qualquer
aparência de humanidade. Eles não eram brutos como ogros Gruul, ou sádicos como
bruxas sanguinárias Rakdos. Eles não eram imprudentemente perigosos como os goblins
de Krenko. O pensamento estimulou Gideon, entorpeceu a dor de seus ferimentos e
soprou vida de volta em seus membros cansados. Ele não tinha que se conter.
Não vou me conter.
As lâminas do sural chicotearam vez e outra, o muco espesso dos Eldrazi em torno das
botas de Gideon onde dezenas da prole jaziam. Seus músculos queimavam. Suas
têmporas retumbavam. E os Eldrazi caíam tão rápido quanto eles se aproximavam. Gideon
arreganhou os dentes, uma expressão que era algo entre careta e sorriso.
Três assovios súbitos cortaram o barulho do combate. Estava na hora, e Gideon
respondeu com seus próprios três assovios idênticos.
Acima da carnificina, Gideon viu uma mulher dar um passo para fora da borda da parede
do cânion que se levantava à esquerda. Ela flutuou ali por um momento e, em seguida,
levantou-se graciosamente apara cima do cânion, onde estendeu os braços para os lados.
“Sinto informar que é aqui que eu os deixo, vermes”, disse Gideon, girando fora do alcance
de uma prole.
Houve um clarão ofuscante quando raios de luz se arquearam da ponta dos dedos da
maga, encontrando as pontas de ferro que se projetavam das paredes do cânion. A
energia crepitante seguiu os comprimentos de metal até a frágil pedra calcária, que
explodiu em uma sucessão de estalos ensurdecedores. Um som como o de um enorme
osso quebrando preencheu o cânion e rachaduras cresceram dos vários pinos de metal
até que os topos de ambos os penhascos cederam e folhas de pedra branca caíram em
direção aos Eldrazi abaixo.
Gideon saltou se impulsionando na parede do desfiladeiro para ficar livre dos Eldrazi. Um
segundo depois ele estava correndo caminho acima para fora de debaixo das pedras que
caíam. Quando a pedra colidiu, o chão pulou. Gideon não conseguiu se manter de pé e ele
foi jogado com força ao chão. Uma grande nuvem de pedra pulverizada levantou-se e,
conforme ela passava por ele, ele teve que enterrar seu rosto em seu braço para não
engasgar com o pó.
Gideon ouviu algo deslizando. Ele sondou através da neblina de poeira com os olhos
apertados, esforçando-se para discernir formas ou movimento.
Não havia tempo para isso. Ele tinha que voltar para Ravnica.
Mais sons crepitantes, acompanhados do som dos tentáculos deslizantes dos Eldrazi. Mas
outros sons também – sons bem reconhecíveis. Gritos de guerra. O toque de lâminas.
Munda.
Gideon levantou-se e, embora o pó de calcário ainda pairasse no ar, formas e cores
estavam reemergindo. Ele correu para frente, sural pronto. Mas quando ele encontrou
Munda, o kor estava amarrado a uma corda de escalada e estava desalojando uma de
suas lâminas em gancho de uma prole sem vida. Toda a cena se estendia contra um
cenário de pedaços de pedra quebrados que enchiam o chão do cânion, obscurecendo
completamente o caminho estreito por baixo, assim como incontáveis Eldrazi.
Acompanhando Munda estava uma dúzia de outros kor que estavam terminando de
eliminar o punhado restante de prole que havia escapado da emboscada de pedra.
“Seu timing não poderia ter sido melhor, meu amigo”, disse Gideon através de um sorriso
cansado.
Agora ele podia voltar para Ravnica. Ainda havia tempo para parar os Irmãos Extermínio,
mas não muito.
No entanto, quando Gideon viu uma severidade no rosto de Munda que era excepcional
até mesmo para seu amigo, seu próprio sorriso desapareceu. “O que aconteceu, Munda?”
“Uma grande série de Eldrazi desce sobre Portão Marinho.”

RAVNICA

A chuva tinha saturado o curativo na sua bochecha e ele pendurava-se quase caindo,
expondo o corte profundo abaixo. Ele teria que cuidar disso mais tarde. Havia prisioneiros
aqui em algum lugar. Primeiras coisas primeiro.
Gideon se chocou contra a porta velha. As dobradiças cederam instantaneamente e ele
seguiu a madeira estilhaçada que voou para dentro da câmara escura. A dor na perna
cresceu com o impacto e, para não gritar, Gideon respirou fundo. Um perfume que era ao
mesmo tempo doce e cáustico encheu suas narinas. Era o mesmo odor que ele sentiu
sobre Gardagig quando o goblin tinha entregado a localização do esconderijo dos
Extermínio.
Explosivos.
Fique atento.
“Você não trouxe Krenko com você”, veio uma voz baixa e rouca de trás de uma pesada
bancada de trabalho bagunçada. “Posso supor isso com segurança?”
“Você não tem segurança para fazer qualquer coisa, Rikkig, a menos que você venha
comigo agora.”
Um grunhido que Gideon presumiu ser uma risada encheu a câmara. Ele ouviu passos
pesados. O lampião que pendia do teto baixo revelou uma silhueta desajeitada e volumosa
que Gideon não entendeu a princípio. Mas, em seguida, uma forma perceptível emergiu.
Era uma figura vestida com um uniforme grosso, fortemente acolchoado. Em sua cabeça
estava um capacete não muito diferente do de um cavaleiro, mas com óculos de proteção
fixados no visor.
“Muito arrogantes, vocês Boros. Vocês pegam Krenko e tentam nos negar a satisfação.”
Ele estava segurando algo. Vidro, pela forma como a luz refletia. Uma bomba. E ele estava
vestindo uma armadura protetora. “Krenko será nosso, só que agora o distrito todo vai
queimar para...”
Não mais. Isso tinha que acabar.
Plantando a perna ferida, Gideon chutou a bancada com toda a força que conseguiu,
enviando-a deslizando para Rikkig com tal força que a respiração do goblin escapou de
seus pulmões de uma só vez em um gemido pontuado. Ele dobrou-se sobre a bancada e a
bomba voou de sua mão.
Gideon moveu-se para interceptar, mas seus membros estavam pesados e mais lentos do
que o habitual. Em câmera lenta, a bomba passou muito longe do seu alcance e Gideon só
foi capaz de rodar para se posicionar de modo que seu corpo estivesse entre Rikkig e o
ponto onde o recipiente de vidro delicado despedaçou no chão.
Quando a explosão veio, luz dourada inflamou-se por toda a frente de seu corpo,
protegendo-o dos estilhaços. O som ficou momentaneamente absoluto, abafando tudo o
mais, até que apenas um alto zumbido permaneceu em seus ouvidos.
Chamas brotaram por todo o aposento.
Era difícil se concentrar, mas ele ouviu Rikkig tossir e lutar para soltar-se de entre a
bancada e a parede. Gideon virou, empurrou a bancada para trás, e Rikkig desabou no
chão. Gideon parou de pé sobre dele.
“Os Boros não pegaram Krenko. Eu peguei. Assim como eu peguei o seu irmão. E agora
estou aqui para pegar você.”
Houve um gemido abafado que Gideon primeiramente pensou que pertencia a Rikkig, que
estava erguendo as mãos defensivamente. Mas outro gemido confirmou o contrário.
“Socorro!” Os prisioneiros. Gideon olhou ao redor da sala até que seus olhos pousaram em
uma estante de madeira escura que estava preenchida com o que Gideon presumiu serem
ferramentas e ingredientes para a fabricação de bombas. O fogo estava acariciando sua
base, ameaçando queimar a estante e incendiar o seu conteúdo volátil. E, claro, o pedido
de socorro tinha vindo de trás dela.
Imprudente, ele repreendeu a si mesmo. E estúpido.
Gideon deixou Rikkig amontoado no chão e correu para a estante de livros. Ele colocou
seu ombro contra ela e empurrou. Suor juntava-se no final do seu nariz e queixo e cada
músculo implorava por descanso, mas a estante pesada se recusou a ceder sequer um
centímetro. Gideon fechou os olhos para a fumaça que encheu a sala e lutava para engolir
o fôlego necessário para continuar.
Sua força tinha começado a falhar quando, de repente, a estante de livros cedeu e caiu
para frente. Seus olhos se abriram e Gideon viu Dars e outro Legionário Boros
emprestando sua força a seus esforços. Juntos, eles empurraram até que a estante
deslizou para o lado para revelar uma passagem estreita.
Gideon caiu contra a estante em um acesso de tosse. “Prisioneiros”, ele conseguiu
articular, e os soldados Boros passaram correndo por ele na passagem.
Dars permaneceu com Gideon.
“Rikkig?” Perguntou Gideon.
O capitão balançou a cabeça.
Gideon olhou ao redor da sala. Rikkig tinha ido embora. Ele desviou o olhar para Dars.
“Você me seguiu.”
“É evidente que eu tinha razão. Você não tinha que fazer isso sozinho, Gideon. Lutamos
como uma legião porque algumas coisas são maiores do que nós.”
“Eu tinha ele, Dars.”
“Nós vamos encontrá-lo. Como uma legião, nós vamos encontrá-lo. E você, descanse.”
Ainda não.

Gideon Jura: LIMITES


Parte 4 (Final)

ZENDIKAR

Quando o ataque a Portão Marinho veio, ele veio desabando sobre a cidade com uma
velocidade e ferocidade que simplesmente acabaram com sua milícia. Os Eldrazi invadiam
por ambos os lados da parede do mar. Alguns até subiam do mar escalando a face da
própria parede. Havia simplesmente muitos deles. Comandante Vorik tinha dado o sinal
para evacuar, mas não estavam evacuando rápido o suficiente. E, novamente, também
não estava Gideon. Quatro dias sem dormir. Ou eram cinco? Ele conseguiu fechar os
olhos por alguns minutos enquanto cavalgava até aqui do acampamento do Comandante.
Então, por que ele estava tão cansado?
Não agora.
Gideon forçou contra uma viga de madeira grossa que o prendia ao chão de um prédio
que estava desmoronando em torno dele, mas foi inútil. A viga tinha caído através de seu
corpo quando um Eldrazi voador conseguiu acertar um golpe poderoso que o jogou para
dentro do prédio.
Não há tempo para isso.
Seu braço esquerdo estava livre, bem como a cabeça, mas era só isso. Com seus dentes,
ele desatou as tiras de couro de seu escudo. Uma vez que ele o livrou de sua mão, ele o
enfiou da melhor maneira possível entre seu peitoral e a viga. A viga só tinha que ceder
um pouco, e ele empurrou com toda a força que ele poderia reunir. Um grunhido virou um
rugido e a viga moveu-se. Gideon jogou o peso e a trave rolou de cima dele.
Cansado, ele ficou em pé. Uma das feridas acima seu joelho tinha reaberto – talvez as
duas – e sangue escorria pelo seu pé. Ele estendeu a mão para seu escudo e enquanto
trabalhava para prendê-lo de volta em sua mão esquerda ele examinou as ruínas ao redor
dele. Havia pedaços de móveis quebrados espalhados junto com placas de cerâmica
quebradas. Esta tinha sido a casa de alguém. E este ia ser o destino de Portão Marinho.
Haviam lhe dito que Portão Marinho era o maior assentamento em toda Zendikar. Era uma
estreita faixa de civilização agarrada ao topo da antiga represa branca que dava a Portão
Marinho seu nome, e os Eldrazi tinham reduzido o assentamento, e todo o seu povo, à
poeira.
Gideon encheu os pulmões e foi para a porta em ruínas que levava de volta à carnificina
além. Ele estava no limite quando uma figura virou a esquina, passando correndo por ele
para dentro do prédio. Ele teve que girar para um lado para evitar uma colisão.
“Rápido agora, eu preciso de sua ajuda”, disse a figura de uma maneira que era mais
comando do que pedido. Uma tritã. Ela estava sangrando de um corte acima do olho e ela
estava segurando alguém, uma mulher humana, que balançava molemente em seus
braços. Ambas estavam vestidas com armadura – a tritã com a armadura de escamas e
placas de concha que era típica de sua espécie e a inconsciente em placas de aço de
polido. A tritã tinha uma lança pendurada em suas costas. Estas duas não eram
desconhecidas dos horrores dos Eldrazi.
Gideon ajudou a tritã a por a mulher inconsciente contra os restos despedaçados de um
muro e os dois trabalharam juntos para desprender as placas amassadas de que deveriam
protegê-la. Abaixo da armadura, a pele da mulher era uma casca ressecada e corroída
que espelhava a ruína cinza de textura ósseo-esponjosa dos Eldrazi. Ele tinha visto isso
antes. Era como os Eldrazi sugavam a energia do mundo. Não era uma ferida. Ela morreu
no momento em que o Eldrazi chegou a ela.
A tritã também sabia o que isso significava, pois ela parou e afundou no chão ao lado do
corpo imóvel, encarando sem expressão a devastação.
Gideon se ajoelhou. “Qual era o nome dela?”
“Kendrin”, disse ela, colocando a mão na testa da mulher morta.
“Você vai ter que chorar por Kendrin mais tarde. Você tem que sair daqui agora.”
“Você não entende.” Ela olhou para cima, mudando seu olhar de Kendrin para Gideon.
“Não há tempo. Nós quase não conseguimos sair de Bala Ged vivas. Vimos a sua
destruição.”
“Vocês estavam entre os sobreviventes que desembarcaram ontem.”
“Sim. Kendrin estava à beira de uma descoberta. O ‘enigma das linhas de força’, ela
chamava. Os edros. Os Eldrazi. A conexão – ela estava tão perto. Ela disse que tudo
apontava para o Olho e que ela tinha que vir aqui para ver os registros do Farol sobre o
Olho.”
“Você só tem que chegar ao Farol? Você pode obter suas respostas lá?”
A tritã balançou a cabeça. “Nós já estivemos lá. Não sobrou nada dentro. Fomos atacadas
tentando sair. Além disso, Kendrin era a perita, não eu. Eu era sua escolta em suas
expedições... e eu falhei.” Ela bateu o punho contra a parede de pedra e, um momento
depois, a parede inteira pareceu explodir para fora sobre o espaço vazio. A tritã teria caído
junto ao longo da parede do mar se Gideon não tivesse agarrado a mão dela. Tentáculos
enormes apareceram, jogando para longe a alvenaria restante até que sua fonte entrou em
vista – um monstro Eldrazi, sem rosto e terrível, no final de sua ascensão pela extensão
vertical. Os tentáculos continuaram seu curso devastador, debulhando paredes até que só
o pó permaneceu.
Gideon e a tritã escalaram sobre uma pilha de escombros que tinha sido uma vez um
segundo e terceiro andar. De sua posição, Gideon podia ver a devastação que se estendia
desde uma extremidade da parede do mar até a outra. Muitos dos edifícios estavam em
ruínas e muitos mais tinham sido puxados completamente da parte superior da parede de
forma que a água em ambos os lados da represa estava coberta de destroços.
Os Zendikari eram muito resistentes e, mesmo agora, ele viu que muitos continuavam a
lutar em grupos defensivos. Eles haviam destruído Eldrazi durante todo o dia, mas não era
o suficiente. A verdade era que Portão Marinho estava perdido. Esta abordagem não era
suficiente.
Mas talvez fosse como ela disse, no entanto – Kendrin encontrou uma resposta. O enigma
das linhas de força. A noção ardeu dentro de Gideon e de repente explodiu em chamas.
Lutar para evitar algo não era o mesmo que lutar por algo. O enigma de Kendrin era uma
possível resposta. Isso era o suficiente para agora.
Eles só precisavam de outro perito.
“Qual o seu nome?” Gideon perguntou quando eles saltaram para ambos os lados de um
tentáculo que despencou entre eles.
“Sério? Agora?”
“Eu vou encontrar alguém que pode ajudar. Mas eu vou ter que encontrar você depois.”
Ela jogou a lança no Eldrazi conforme ele lentamente puxou-se ao longo da borda do muro
para dentro da habitação quebrada. A lança encontrou o seu alvo com um som triturador,
afundando na placa facial inexpressiva. Os olhos da tritã brilharam fugazmente com
energia vermelha e a ferida que ela abriu começou a assobiar e soltar vapor. “Eu sou Jori
En”, disse ela com os dentes cerrados enquanto tentáculos se debatiam furiosamente.
“Jori En, chegue ao acampamento do Comandante Vorik. Você tem que fazer isso. Eu vou
encontrá-la.”
E no momento seguinte as lâminas do sural de Gideon voaram, agarrando a lança de Jori
En que havia permanecido enterrada no lugar. Ele atirou-se ao ar e no ápice do salto ele
apertou o botão em seu antebraço para acionar o mecanismo de retração de seu sural.
Mas, em vez de rebobinar suas lâminas, a força empurrou-o em direção à lança de Jori e
ele bateu no rosto do Eldrazi com tal força que a aberração foi jogada da borda e de volta
para o mar abaixo.
Em um emaranhado de tentáculos, Gideon caiu com ele.
Mantenha o foco.
Ele tinha que se livrar do Eldrazi ou ele iria arrastá-lo para baixo da superfície. Suas mãos
se atrapalharam com as lâminas do sural, tentando soltá-las de lança, mas o Eldrazi foi
caindo pelo ar rápido e Gideon perdeu o controle. Ele estava em queda livre, mas ainda
ancorado ao Eldrazi, e tudo o que ele podia fazer era preparar-se para o impacto.
O Eldrazi bateu na água primeiro e todo o corpo de Gideon entrou em erupção sob faixas
de luz dourada quando ele também caiu através da superfície do mar. O Eldrazi se fez em
pedaços instantaneamente e Gideon foi lançado debaixo da água agitada. Ele lutou para
se orientar no meio da mistura de água do mar e pedaços de Eldrazi.
Por fim, ele veio à tona, engolindo o ar. Com o último pouco de sua força, ele chutou o seu
caminho até o monte de detritos que se alinhavam na base da parede. Ele encontrou o
remanescente de uma mesa de madeira e se agarrou a ela. De cima, os sons do
massacre podiam ser ouvidos sobre as ondas e ele ergueu a cabeça até onde Eldrazi
invadiam Portão Marinho como formigas raivosas. Gideon sabia que não tinha tempo a
perder.
Ele tinha um perito para encontrar.
Ele fechou os olhos e sentiu o mundo em torno dele derreter. A frieza do mar desapareceu
e ele sentiu pedra sob seus pés. O som do bater das ondas deu lugar ao barulho da
cidade. Sons que ele conhecia. Sons de Ravnica.

RAVNICA

Machucado e sangrando, Gideon estava ao pé do lance de degraus de pedra que levavam


à Câmara do Pacto das Guildas. Zendikar ainda estava em perigo. Força de armas por si
só não seria suficiente para alcançar a vitória. Tinha que haver alguma outra resposta. Era,
como disse Jori, o enigma das linhas de força? Quem, então, era mais adequado para a
tarefa do que aquele que resolveu o labirinto de Ravnica?
O Pacto das Guildas Vivo.
O Planinauta, Jace Beleren.
Gideon subiu o primeiro degrau, tentou outro, mas a gravidade o alcançou e ele caiu.

Jace Beleren: REENCONTRO


Parte 1

O mago da mente Jace Beleren é muitas coisas para muitas pessoas. A maior entre suas
responsabilidades atuais é a de Pacto das Guildas Vivo, o árbitro magicamente apoderado
de conflitos entre guildas na cidade-plano de Ravnica. Mas ele fez muitas outras
promessas e tomou parte em muitos outros problemas – e cada um desses enigmas
inacabados incomoda sua mente.
Alguns, talvez, mais do que outros.
________________________________________
Jace sorriu com força enquanto a delegação Golgari cambaleou para fora da sala. Ele
murmurou um feitiço rápido para limpar o cheiro de podridão e fungos dos estimados
embaixadores e seus assistentes zumbis.
Assim que a porta se fechou atrás deles, o sorriso de Jace caiu e ele sentou-se na grande
mesa de madeira que ele tinha finalmente instalado. A mesa rangeu e ele franziu a testa.
Ele ainda precisava de uma cadeira grande e agradável para cair em cima. Couro. Algo
caro.
“Diga-me que essa foi a última do dia”, disse ele.
“Eu nunca cometeria perjúrio, mesmo sob ordem sua”, disse a oficial de justiça, Lavinia –
bem maliciosamente, ele pensou.
Ele gemeu. Não era que o trabalho fosse duro. Muito pelo contrário. Era um monte de
trabalho e dificilmente qualquer desafio.
“Mas”, ela continuou, “acontece que, neste caso, posso dizer honestamente que este foi o
último dos compromissos de hoje. Claro que os peticionários de amanhã já estão se
formando fila.”
Não havia mais luz solar entrando pelas janelas altas da Câmara do Pacto das Guildas.
Quando fora a última vez que ele tinha comido?
“Eles vão ter que esperar”, disse ele. “Talvez eu possa resolver todos os seus problemas,
mas eu não posso fazer tudo em um dia.”
Ele se virou para ela. Ela parecia cerimoniosa como sempre. Ele fez uma careta.
“Você não está nem sequer cansada, não é? As pessoas provavelmente falam sobre a
oficial de justiça ilusória de Jace Beleren... Que ser humano poderia suportar doze horas
vestindo armadura cerimonial completa e não mostram nenhum sinal de cansaço?”
Ela se virou e o olhou de cima para baixo.
“Você teria mais resistência se você se exercitasse de vez em quando, sabe”, disse ela.
Ela estava sorrindo, mas isso não significa que ela não estivesse falando sério.
“Anotado.”
Ele se virou para sair.
“Pacto das Guildas”, disse Lavinia. Ele virou. “Descanse um pouco.”
“Café”, disse Jace. “O Pacto das Guildas governa que café é uma substituição aceitável
para o descanso, conforme especificado na subseção... tanto faz.”
Lavinia tinha muita disciplina para revirar os olhos para ele, mas ela balançou a cabeça
enquanto ele caminhava para fora do salão.
Depois de vários corredores curvos, Jace mergulhou através de um corredor secreto para
seus aposentos pessoais. Ninguém sabia sobre o corredor secreto, exceto ele e Lavinia, e
até mesmo Lavinia não sabia como abri-lo. Havia histórias em muitos planos sobre tiranos
que, para preservar os segredos de suas tumbas e castelos, matavam os arquitetos ou
cortavam as suas línguas. Jace tinha extirpado o conhecimento das mentes de seus
construtores – muito mais gentil, ele dizia a si mesmo, embora nem sempre se sentisse
assim.
Seu apartamento era uma confusão de diagramas, projetos em andamento e refeições
meio comidas. Uma representação ilusória de um edro de Zendikar pairava no ar, suas
runas provocantemente indecifradas. Globos e mapas de vários planos estavam marcados
com alfinetes que indicavam locais de importância. O chifre de um ogro Onakke repousava
sobre uma cópia de algum pedaço maçante de legislação Azorius.
Jace não tinha servos – era risco demais e o deixava desconfortável, além do mais – mas,
ocasionalmente, convocava uma ilusão braçal para limpar o lugar, geralmente quando ele
estava esperando companhia. E ele recebia visitas, apesar do sigilo do apartamento. A
porta era na verdade um teleportal feito pelos Izzet e ele mudava a localização de sua
outra extremidade regularmente. Ele poderia ir e vir como quisesse, poderia até ter
convidados, e o mistério do Pacto das Guildas apenas aprofundava.
Ele piscou, com os olhos turvos. O que ele estava fazendo mesmo?
Certo. Café.
Houve uma batida na porta.
Bem, não exatamente. Mas houve uma batida na porta em algum lugar no Sétimo Distrito,
carregada até seus ouvidos pelo portal que ligava sua porta àquela. E isso era tão
estranho quanto.
Ele puxou o capuz para cima em torno de seu rosto, reunindo mana, e cuidadosamente se
aproximou da porta, mantendo um feitiço pronto para dissipar o portal, se necessário.
Nesse meio tempo, ele lançou um feitiço que iria deixá-lo ver o que estava do outro lado.
Toda essa preparação paranoica era provavelmente desnecessária. Provavelmente era
apenas algum cidadão confuso batendo na porta errada no Sétimo. Na pior das hipóteses,
podia ser...
Liliana?
Ele ficou boquiaberto.
Jace não tinha visto Liliana Vess desde o dia em que ele percebeu que ela estava o
enganando e tinha desistido de seu encontro – depois de suportar perigo mortal, as mortes
de amigos e literalmente tortura, tudo isso no mínimo parcialmente por conta dela. Ela era
uma maga da morte amoral que servia somente a si mesmo e que tinha o procurado sob
as ordens do Planinauta dragão, Nicol Bolas. Ela também foi a primeira verdadeira amante
que ele já tinha tido e ele tinha tentado, desde então, não ansiar por ela. Ele já tinha
aprendido.
A necromante estava diante de uma porta sem identificação a quilômetros de distância,
completamente ignorante até onde ele poderia dizer. Ela mantinha-se orgulhosa, mas
olhava de um lado para o outro, ocasionalmente, como se estivesse nervosa. Ou
cautelosa.
Ou traindo-o. Mais uma vez.
Uma ilusão? Através do portal, era difícil dizer. Se assim fosse, era totalmente
convincente, até o ponto de batidas irritadas de seu pé esquerdo.
Ele não devia atendê-la. Se era realmente ela ou não, era quase certamente uma
armadilha – e mesmo se ela não tivesse planos para traí-lo novamente, a vida com Liliana
tinha uma certa maneira de dar errado em um piscar de olhos. Ele já tinha aprendido.
Ele suspirou, tornou-se invisível, e convocou um clone ilusório. A duplicata abriu a porta
com um puxão telecinético dele.
“Liliana?” disse ele, pela boca do clone, pintando um olhar de surpresa em sua face. “O
que você...”
Ela casualmente atravessou o Jace ilusório.
“Posso entrar?” ela disse sobre seu ombro.
Jace franziu a testa, fechou a porta com força e dissipou sua invisibilidade, seu dublê
ilusório aparentemente confuso e também o teleportal, só para ter certeza. Ele se
apressou atrás dela.
“E se eu dissesse que não?”
“Você não disse”, disse ela.
Ele caminhou ao redor dela e entrou em seu caminho. Ela olhou além dele, examinando o
apartamento.
“Belo lugar. Vergonha o que você fez com ele.”
Ela parecia exatamente a mesma. Mas, também, ela pareceria, não pareceria? Nada
menos que quatro contratos demoníacos lhe davam esse direito, contratos gravados em
runas sobre sua pele perfeita. Ele sempre odiara essas marcas, tentava não – não tocá-
las.
Finalmente, ela olhou-o nos olhos.
“Olá, Jace.”

Jace Beleren: REENCONTRO


Parte 2

Jace não estava acostumado a perceber os olhos das pessoas. Ele não precisava deles
para ler intenções, e embora ele tivesse aprendido a olhar para os olhos das pessoas
quando ele falava com eles, ele nunca aprendeu a prestar atenção a eles. Mas dos olhos
de Liliana ele se lembrava, antigos e violeta-cinzento e cheios de promessa de perigo. Ele
tentou manter contato visual agora, mas descobriu que não podia suportar as memórias
que ela despertava. Seus olhos finalmente se estabeleceram em seu nariz, o único lugar
que ele conseguiu achar que não o fazia sentir-se de alguma forma desconfortável.
“Nada que você possa dizer vai me fazer confiar em você”, disse ele. “Não depois de você
ter me traído.”
Ela revirou os olhos. O cheiro dela chegou a ele, flores e canela mascarando a mais leve
sugestão de algo apodrecido e estranho.
“Foi você quem me deixou esperando”, disse ela.
“Sim, depois que você me traiu!”
“Isso é história antiga”, disse ela, pegando o chifre Onakke e brincando com ele. “Eu não
estou trabalhando para Bolas mais, e eu nunca lhe desejei mal algum.”
“E eu posso verificar isso?” ele perguntou, tirando o chifre dela e pondo-o no lugar. “Ou
você ainda tem suas pequenas medidas de proteção?”
Ele tinha pensado que tivesse lido a mente dela quando se conheceram, mas ela tinha
enganado suas habilidades telepáticas de alguma forma. Ele tinha suas suspeitas, e o fato
de ela ter estado secretamente trabalhando para um arquimago dragão milenar na época
era a principal delas.
Ela não disse nada, mas estendeu a mão, lentamente, em direção ao seu rosto. Parte dele
queria se afastar de seu toque. Parte dele queria fazer exatamente o contrário. Ele se
decidiu por ficar parado. Mas ela não o tocou, só tomou a borda de seu capuz entre dois
dedos e empurrou-o para trás. Ela o apreciou por um momento.
“Você parece mais velho”, disse ela.
“Eu não tenho certeza de como responder a isso.”
“Na sua idade, querido, é um elogio ambíguo.” Ela inclinou a cabeça. “Você começou a
pentear o cabelo?”
Ele alisou o cabelo inconscientemente, só por um momento, depois tirou a mão. Ele tinha,
de fato, começado a penteá-lo. Não que seu cabelo fosse do interesse dela. Ele fez uma
careta.
“Eu estou supondo”, disse ele, “que você não se deu ao considerável trabalho de me
encontrar apenas para criticar a minha aparência. Então vamos ao que interessa. Como
você me encontrou e quem mais sabe?”
Ela suspirou teatralmente.
“Eu contratei um bom espião, a um preço muito alto”, disse ela. “E ninguém sabe, porque
seu corpo está cambaleando pelo Sétimo tentando me encontrar.”
“Droga!” ele disse. “Você está falando de um cidadão de Ravnica.”
“Não se preocupe. Tive o tato de ter certeza que ele merecia, apenas para você”, disse
ela. “Ele tem um arquivo em Nova Prahv tão longo quanto seu braço: Homicídio, incêndio
criminal, roubo, extorsão – e muita coisa terrível das quais os Azorius nem sequer sabem.
Eu fiz aos seus amigos no Senado um favor.”
“Um mandado deve levar a um julgamento”, ele retrucou. “Não a uma execução sumária!
Eu tenho que pensar sobre esse tipo de coisa agora. Eu sou a lei – eu sou literalmente a
Lei. Eu – droga, por que você está sorrindo?”
“Lazlo Lipko.”
Ele respirou com os dentes cerrados.
“Ooh, sim, ele é um verdadeiro cretino.”
“Era”, disse ela, sorrindo.
Ele suspirou.
“Tudo bem. Não é como se eu nunca tivesse trabalhado fora da lei, mesmo como o Pacto
das Guildas.”
Eles ainda estavam de pé, um pouco perto demais um do outro, em seu quarto
desarrumado.
“Bem?” ela disse. “A inquisição acabou?”
“Ainda não”, ele disse. “O que você fez para Garruk Falabravo?”
“Oh”, ela disse. “Aquilo.”
“Aquilo.”
“Posso pelo menos sentar?”
Ele deu de ombros e fez um gesto para uma das cadeiras de espaldar alto que rodeavam
a mesa, mas ela caminhou ao redor da mesa e caiu sobre seu sofá. Ele não gostava de
elevar-se sobre ela, mas ele não queria sentar-se ao lado dela, então ele arrastou uma
cadeira da mesa e se sentou. Ela olhou para ele com expectativa.
“Garruk”, ele lembrou.
“Garruk.” Ela franziu a testa. “Não há muito a dizer.”
“Então diga.”
“Ele me atacou”, disse ela. “Eu ganhei. Eu acho que ele está um pouco bravo.”
“Não.”
Ela piscou aqueles antigos olhos violeta.
“Não?”
“Conte-me sobre o Véu Metálico”, disse Jace.
“Oh”, ela disse, olhando para longe. “Aquilo.”
Ele esperou.
“Vai ser mais fácil se você me disser o que você já sabe”, disse ela.
“Vai ser mais informativo se eu não disser.”
Na verdade, ele já sabia bastante coisa sobre o Véu Metálico, suas propriedades, o
desentendimento de Liliana com Garruk. Mas ele estava curioso para saber quanto ela
estaria disposta a contar para ele. E, se ele estava sendo perfeitamente honesto, ele
gostava de assistir ela se contorcer.
“Tudo bem”, disse ela. “É um artefato muito poderoso e muito antigo.”
“E mal, também”, ele exclamou.
“Sim, obrigada”, disse ela, revirando os olhos. “Um dos meus credores demoníacos me
enviou atrás dele, como parte da minha servidão. Eu decidi usá-lo para ganhar minha
liberdade. Da maneira mais difícil.”
“Você honestamente acha que pode enfrentar quatro demônios...”
“Dois”, disse ela.
“O quê?”
“Já acabei com dois”, disse ela, levantando dois dedos e sorrindo. “Faltam dois.”
“Oh”, ele disse. “Isso... Muda as coisas.”
“Muda, não é?”
Ele tinha esperado, há muito tempo, poder ajudá-la a encontrar uma maneira de se livrar
de seus contratos – parar saber quem ela realmente era sob o desespero e as mentiras.
Agora ela já tinha percorrido meio caminho sem a sua ajuda... e estava atolada em algo
que poderia ser pior.
“O que você fez para Garruk?”
“O Véu é amaldiçoado”, disse ela. “Ele foi criado para transformar alguém em uma nave
para a ressurreição de uma raça há muito extinta. Mas isso é poder demais para uma só
alma suportar. Ele mata seus usuários se eles não são fortes o suficiente, eu acho.”
“Você acha?”
“O que posso dizer? Tenho estado tão ocupada com toda essa matança de demônios que
eu não tive exatamente tempo de visitar a biblioteca.”
“Tudo bem”, disse ele. “Você não parece morta.”
“Não”, ela disse. Seus olhos brilharam. “Eu sou muito forte.”
“Você sabe o que acontece com aqueles que ele não mata, certo?”
O rosto dela caiu, talvez a única emoção honesta que ela tinha demonstrado desde que
ela entrou.
“Sim”, disse ela. “Demônios.”
O poder do Véu era esmagador, transformando até mesmo seus usuários mais fortes em
monstros.
“E é isso que Garruk está se tornando. Ou já se tornou, talvez. Mas você não.”
“Eu não”, disse ela. “Eu não sei se foram os meus contratos ou minha necromancia. Ou
talvez eu tenha conseguido passar a maldição para ele, logo depois que eu peguei a coisa.
Qualquer que seja a razão, é ele quem está se transformando em um monstro. E eu não.
Não mais do que eu já era, pelo menos.”
“Tudo bem”, disse ele. “Você ainda está viva, você ainda é humana, e você já acabou com
dois demônios. Então, qual é o problema?”
Ela arqueou uma sobrancelha.
“Quem disse que há um problema?”
“Lili, o que você está fazendo aqui?”
Ela fez beicinho.
“Não posso simplesmente aparecer para ver um velho amigo?”
“Pare com isso”, ele retrucou. “Nós já fomos um monte de coisas, mas nunca fomos
amigos.”
Silêncio. Seus olhos endureceram.
“Eu...”
“Não”, ela disse.
Ele calou a boca.
“Você está certo”, disse ela. “E se vale alguma coisa, eu sinto muito. Eu sinto muito pelo
que você passou. Eu realmente sinto muito pelo que está acontecendo com Garruk, se
isso vai fazer você se sentir melhor.”
Ela jogou a cabeça para trás sobre a almofada e suspirou.
“Eu não sei, Jace. Eu acho que eu estava esperando que nós pudéssemos... começar de
novo.”
Ela levantou a cabeça. Seus olhos encontraram os dele.
“Começar de novo é o primeiro truque que aprendi”, disse ele, forçando um sorriso. Ele
levantou uma mão brilhando como ela sempre brilhava quando ele trabalhava com sua
magia da mente. Quando ele apagava as memórias. “Basta pedir...”
“Não”, ela disse. “Não assim.”
Ela franziu a testa e recolheu as mãos em um encolher de ombros impotente. Ele tinha
dificuldades em acreditar que ela estava genuinamente confusa, mas ela estava fazendo
uma performance bem convincente.
“Apenas... essa conversa, pelo menos?” ela disse. “Começar de novo?”
“Bem, é tarde demais para começar com você não invadindo a minha casa.”
“Justo”, disse ela. “Então, de onde é que vamos começar?”
“Que tal com você pedindo desculpas por invadir a minha casa?”
Seu comportamento mudou – séria e reservada, as mãos postas recatadamente sobre o
colo, a expressão cuidadosamente arrependida. Mas seus olhos estavam brincalhões.
“Eu sinto muito por ir entrando assim”, disse ela, com propriedade exagerada. “Eu estava
na cidade e eu simplesmente não podia resistir a dar uma passada. Lamento
profundamente o dissabor de nosso último encontro e eu espero que nós possamos ter um
novo começo.”
Era um jogo. Tudo era um jogo com ela, e ele estava cansado de jogar. Ele já tinha
aprendido. Mas se ele não descobrisse o que ela estava fazendo, ela iria apenas colocá-lo
em apuros de alguma outra forma. E ela não era a única que podia jogar.
“Que surpresa agradável!” ele disse. “É um prazer vê-la novamente de maneira nem um
pouco suspeita ou indesejada. Que espécie de novo começo que você tem em mente?”
Ela sorriu maliciosamente.
“Me leva pra jantar?”
Ele bufou.
Ela sorriu serenamente.
“Você está falando sério”, disse ele.
Ela sorriu.
“Eu estou sempre séria.”
Mais jogos. Mais ilusões.
Ele já tinha aprendido.

Parte 3

O casal passeou de braços dados pelo elegante Segundo Distrito de Ravnica. Era uma
noite quente, e as ruas estavam ocupadas.
“Então como é que é?” perguntou Liliana. “Ser o Pacto das Guildas?”
“Cansativo”, disse Jace. “Todo mundo quer um pedaço de você. Você é puxado em dez
direções diferentes, o tempo todo.”
“Soa terrível”, disse Liliana. “Quatro era ruim o suficiente. Nossa, ser puxado em qualquer
direção é ruim o suficiente.”
“As guildas não são meus mestres”, disse Jace. “São mais como... clientes. Tenho mais
liberdade agora do que eu tinha quando eu era parte do Consórcio de Tezzeret, isso é
certo.”
“Mas você não é o rei”, disse Liliana. “Você não faz a lei. Você é sujeito à ela.”
Ele deu de ombros.
“Eu não gostaria de ser um rei”, disse ele. “Mas sim. Pode ser... sufocante.”
“Senhor!” disse uma pequena mulher redonda segurando uma cesta de rosas. “Senhor!
Compra uma flor para sua namorada?”
“Ela não é minha...”
“Não precisa dizer mais nada, senhor!”, disse a mulher com uma piscadela. “Mas uma flor
é sempre um bom presente para uma dama.”
“Ela não é uma...”
Liliana lhe deu uma cotovelada nas costelas.
“Claro”, disse Jace. Ele entregou à mulher um zino, disse-lhe para ficar com o troco e
presenteou Liliana com a rosa em um floreio.
“Senhor!” disse a mulher, que já trabalhava no casal atrás deles. “Senhor! Uma flor para o
seu namorado?”
Liliana pegou a flor delicada e olhou para ela. Em momentos, ela murchou e secou,
transformando-se em uma casca enegrecida. Ela enfiou-a no seu cabelo negro e sorriu
para ele.
“Você alguma vez se cansa de ser difícil?” ele perguntou.
Ela deu um sorriso estonteante.
“Nunca.”
Eles chegaram.
Milena’s era um dos melhores restaurantes do Segundo, mesas apenas com reserva. Jace
trocou algumas palavras em voz baixa com o maître d’ – um homem eficiente que se
parecia com um rato chamado Valko – e o Pacto das Guildas Vivo e sua convidada foram
escoltados para uma mesa para dois no pátio, completa com velas.
“É bom saber que você não se vê acima de abusar do seu poder”, disse Liliana.
Ele puxou uma cadeira para ela e ela sentou.
“Eu passo 10 horas por dia ouvindo as disputas de zoneamento e reivindicações de
danos”, disse Jace, sentando-se. “Uma mesa em um restaurante agradável em curto prazo
é o mínimo que esta cidade pode fazer em troca.”
“E você tem esse tipo de dinheiro?” perguntou Liliana, cobiçando o menu.
“Eles geralmente fazem por cortesia”, disse ele. Ele tentou parecer embaraçado,
principalmente porque ele realmente estava embaraçado. Mas ser o Pacto das Guildas
não era fácil, e não era seguro, e ele não tinha vergonha de tirar proveito das poucas
vantagens do cargo. Não eram muitas, de qualquer maneira.
“Claro”, disse ela. “É o mínimo que podem fazer.”
Eles fizeram o pedido e Liliana não se conteve – nem tinha ele esperado que ela se
contivesse. Uma garrafa de um caro Kasarda tinto, colheita do Decamilenário, para
quebrar o gelo, e Jace teceu um feitiço rápido de silêncio para dar-lhes um pouco de
privacidade.
“Este é um grande passo desde as malocas em que costumávamos nos esconder”, disse
Liliana. “Como se chamava aquele horrível pequeno lugar? O Fim Amargo?”
Ele levantou uma taça.
“Um brinde para deixar o passado... no passado.”
Ela tomou um gole e então baixou o copo rapidamente.
“Eu ouvi sobre o que você fez”, disse ela. “Tentando parar Garruk.”
“Oh”, ele disse. “Aquilo.”
“Foi arriscado”, disse ela. “Eu não achava que você faria isso por mim.”
“Eu não fiz isso para você”, disse Jace. “Garruk está se tornando uma ameaça para todos
os Planinautas.”
“Escute a si mesmo”, disse ela, balançando a cabeça. “Jace Beleren, defensor do
Multiverso. Você não consegue admitir que está preocupado comigo sem fingir estar
preocupado com literalmente todos mundo.”
“Eu deveria estar preocupado com você?”
A raiva nublou o rosto dela. Ela levou as mãos às dobras da saia em seu quadril e Jace
passou meio segundo em pânico preparando uma contramágica antes de ver o que ela
estava fazendo.
A coisa que ela retirou só podia ser o Véu Metálico. Uma cacofonia de sussurros
ininteligíveis encheu sua cabeça, apenas por um momento, até que ele os afastou – o que
quer que aquilo fosse, era problema dela e não dele. Seus elos eram de um ouro polido e
primorosamente trabalhado, tão fino que parecia ter a textura de seda. Parecia pesado, e
ele assumiu um brilho antinatural na penumbra do restaurante. Era bonito, e sedutor, e
perigoso.
Jace estendeu a mão, quase reflexivamente. Ela puxou o Véu para trás, para fora do seu
alcance, em um movimento brusco e indigno.
“Com medo de que eu vou tirá-lo de você?” perguntou ele com espanto.
Ela encontrou seu olhar e, por um momento fugaz, ele viu dor e medo e súplica naqueles
olhos antigos.
“Com medo do que ele pode fazer com você”, ela disse calmamente. “E, de qualquer
maneira, você não pode levá-lo, mesmo que eu queria que você leve. Você não entendeu
ainda? O que isso é?”
Não pode levá-lo? Estava ligado a ela de alguma forma? Ou será que ele apenas tinha
seus ganchos tão fundos assim nela? Jace acreditaria em qualquer um dos casos.
“Estou começando a entender”, disse ele.
A forma como a luz das velas refletia na coisa era de uma maneira sinistra.
“Se você não vai me deixar dar uma olhada, então guarde-o”, disse ele. “Isso me dá
arrepios.”
Ela o escondeu de novo.
“Em mim também”, ela sussurrou.
As velas piscaram.
“Parece que talvez as coisas não estejam exatamente sob controle.”
Ele entendeu, agora, por que ela tinha vindo. Para jogar com suas emoções e sua
curiosidade ao mesmo tempo. Ela mesma em necessidade e um enigma a ser resolvido –
duas coisas que ela sabia que seria difícil para ele resistir. E talvez, apenas talvez, ela
estivesse certa.
Mas ele ia fazê-la pedir.
Os olhos dela eram piscinas de escuridão.
“Jace, eu...”
Houve uma comoção na frente do restaurante, onde o pátio se abria para a rua. Jace
virou-se bruscamente, pronto para lançar qualquer um de meia dúzia de feitiços de
proteção.
Um homem alto de ombros largos estava na rua discutindo com Valko. Ele usava
armadura, muito usada mas bem conservada, e ele estava coberto de sangue e sujeira e
algum muco não identificável. Ele apontou para Jace. Ele estava fora do intervalo de
telepatia fácil de Jace, mas uma combinação de leitura labial e pensamentos de superfície
disseram a Jace o que o homem estava dizendo: Eu preciso falar com o Pacto das
Guildas.
Ele mostrou uma insígnia Boros, empurrou o perturbado maître d’ e caminhou até a mesa
deles. Ele era um tanto quanto mais alto que Jace, com a pele bronzeada, mas os olhos
surpreendentemente brilhantes.
“Jace Beleren”, disse ele. “Eu preciso de sua ajuda.”

Parte 4 (Final)

O homem correspondia à descrição de um Planinauta do qual Jace tinha ouvido falar,


alguém que estava transplanando de e para Ravnica com regularidade incomum.
Valko correu atrás do homem.
“Pacto das Guildas”, disse Valko. “Eu sinto muito. Ele diz que é assunto das guildas...”
“Não, eu não disse”, disse o homem. “Eu só lhe mostrei meu distintivo.”
“Eu estou fora de serviço”, disse Jace. Planinauta ou não, os problemas deste homem não
eram para Jace resolver. “Venha até o Salão do Pacto das Guildas de manhã, faça uma
súmula, e em alguns dias...”
“É sobre um lugar chamado Zendikar”, disse o homem.
Liliana parecia que tinha engolido um prego.
“Senhor”, disse Valko. “Seja qual for o seu negócio, o seu traje é totalmente inaceitável.
Devo insistir...”
“Ele pode ficar”, disse Jace. “Se você está preocupado com as aparências, eu posso
lançar um feitiço de invisibilidade sobre toda esta mesa.”
“Isso”, disse Valko, “fará com que seja extremamente difícil trazer-lhe o seu jantar.”
“E um feitiço também não vai cobrir o cheiro”, disse Liliana.
“Eu vou compensar você”, disse Jace, e enxotou Valko para longe.
“E quanto a mim?” disse Liliana.
“Meu nome é Gideon”, disse o homem. Ele olhou para Liliana.
“Ela sabe”, disse Jace. “Sente-se.”
“Eu prefiro ficar de pé”, disse Gideon.
Jace se levantou. Foi um erro. Ele ainda tinha de esticar o pescoço para olhar Gideon no
olho e agora a diferença de tamanho entre eles era muito óbvia. Ele odiava se sentir
pequeno. Odiava.
“Agora que você já arruinou completamente a minha noite”, disse Jace, “que tal você
chegar ao ponto?”
Os olhos de Gideon se estreitaram.
“Você realmente foi para Zendikar?”
“Sim”, disse Jace. “Não foi uma boa viagem.”
“Portão Marinho caiu.”
“O quê?” Jace disse. “Quando? Como?”
“Horas atrás”, disse Gideon. “Talvez menos. Saí antes que tivesse acabado, mas o lugar
estava condenado. E quanto a como... o que você sabe dos Eldrazi?”
“Eles tinham acabado de se libertar quando eu estive lá pela última vez. Eu vi um, pouco
antes de deixar o plano”, disse Jace. ‘Vi um’ era uma maneira de dizer. ‘Inadvertidamente
os libertei de milênios de prisão para aterrorizar Zendikar’ era outra. Jace se perguntou se
Gideon sabia. “Eu conheço alguns estudiosos em Portão Marinho. Alguma notícia deles?”
“Seus arquivos foram perdidos”, disse Gideon. “É por isso que eu vim te encontrar. Eles
estavam perto de algum tipo de avanço com os edros, algo que poderia lutar contra os
Eldrazi. E você tem uma reputação de resolver enigmas.”
Um mergulho rápido na mente do homem confirmou que ele estava dizendo a verdade.
“A rede de edros?” Jace disse. “Que tipo de avanço?”
“Eu não sei”, disse Gideon. “Chamavam de o ‘enigma das linhas de força’ e eles acreditam
que está conectado aos Eldrazi. Você virá comigo para resolvê-lo?”
“Linhas de força!” Jace disse. Seu primeiro instinto foi o de pegar suas anotações, mas é
claro que elas estavam em seu apartamento. “Eu nunca tinha associado os edros a linhas
de força. Isso traz... implicações.”
Ele esfregou a testa. Os Eldrazi eram sua responsabilidade, de certa forma. Ele passou
algum tempo desde então os pesquisando, pesquisando os edros. Mas ele tinha tantas
outras responsabilidades!
“Se você conhece Zendikar e você viu os Eldrazi, então você sabe como isso é sério”,
disse Gideon. “Eu sei que você vai fazer a coisa certa.”
Liliana esvaziou sua taça, empurrou a cadeira para trás e passou por Jace.
“Lili, espere”
Ela continuou andando.
“Dê-me um minuto”, disse a Gideon.
Ele correu atrás dela, alcançando seu ritmo. Ele já tinha aprendido a não tentar agarrar o
braço dela – essa era uma boa maneira de acabar no médico.
“Liliana!”
Ela parou e olhou para ele, com os olhos brilhantes de raiva.
“Eu te procuro depois de todo esse tempo”, disse ela. “Eu me abro para você. E agora,
depois de tudo o que passamos juntos, você está pronto para ir embora com um pedaço
mal cozido de carne de Casa Solar só porque ele pediu?”
“O que está acontecendo em Zendikar...” ele disse. “É minha culpa. Mais ou menos. Não
foi intencional e eu suspeito que fui manipulado, mas a verdade é que essas coisas Eldrazi
estão soltas porque eu me enfiei em algo sem compreendê-lo.”
“Então agora você vai até lá se enfiar novamente”, disse ela. “O que você está
esperando?”
“Você pode vir conosco”, disse ele.
“Como é?”
“Venha com a gente”, disse Jace. “Ponha suas habilidades em bom uso lutando contra
alguns monstros de verdade. Talvez você possa fazer um aliado desse cara Gideon.”
“Não”, disse Liliana. “Alguns de nós não vão atrás de problema quando já temos mais do
que suficiente.”
“Eu não vou embora até de manhã”, disse Jace. “Pense sobre isso. Venha para o Salão se
você mudar de ideia.”
“Não.”
“Você pode esperar por mim em Ravnica, então”, disse Jace. “Qualquer que seja a
investigação que ele precisa de mim para fazer, não vai demorar muito. Eu vou voltar.
Podemos continuar nossa conversa. E se você algum dia chegar a me contar por que está
aqui, nós podemos falar sobre o que acontece depois.”
“Você perdeu a cabeça”, disse ela. “Eu tenho demônios para matar.”
“Tudo bem”, disse Jace. “Boa sorte com isso. E Liliana?”
Ela esperou.
“Ele pediu.”
Ela arrancou a rosa morta de seu cabelo e a atirou aos seus pés, em seguida, virou-se e
foi embora.
Jace se abaixou para pegar a flor murcha enquanto os passos pesados de Gideon
aproximavam-se por trás dele.
“Acabou?” disse Gideon.
Jace se virou, pronto para surtar com ele, mas o rosto de Gideon era tão sério e tão
abatido que Jace não conseguiu reunir a raiva. Liliana era má notícia de qualquer maneira.
Ele já tinha aprendido.
“Acabei”, disse Jace. “Vamos. Eu conheço um bom curandeiro que pode te dar um jeito.”
“Não há tempo”, disse Gideon. “Temos de ir.”
“Eu não vou deixar o plano até de manhã”, disse Jace. “Eu preciso fazer preparativos e eu
preciso pegar minhas anotações. E você! Você não pode ajudar Zendikar se você cair
morto de cansaço. Você precisa descansar um pouco.”
Gideon olhou para ele por um longo momento.
“Tudo bem”, disse Gideon finalmente. “Leve-me até este curandeiro.”
“Conte-me sobre os Eldrazi”, disse Jace.
Ele deu um passo, mas Gideon o deteve com uma mão sobre seu ombro. Jace levantou a
mão e empurrou deliberadamente a mão de Gideon.
Gideon olhou para a rosa murcha com que Jace ainda estava brincando por entre os
dedos. “Eu tenho toda a sua atenção?”
“Claro”, disse Jace. “Diga-me tudo o que sabe.”
Ele deixou cair a rosa morta na calçada e caminhou ao lado de Gideon.
Ele já tinha aprendido.

Liliana Vess – FALTA DE GENTILEZA DOS CORVOS


Parte 1
Liliana Vess é talvez a mais poderosa necromante no Multiverso, mas a sua vida tem sido
assombrada por entidades poderosas que tentam controlá-la. O dragão Planinauta Nicol
Bolas, os quatro demônios com quem negociou para ganhar o seu poder e o misterioso
Véu Metálico exerceram todos sua poderosa influência sobre ela, levando-a por caminhos
de traição e assassinato. E a intromissão de uma figura ainda mais enigmática – o Homem
Corvo – causou a morte de seu irmão e a ignição de sua centelha Planinauta. Todos os
seus esforços agora se concentram em buscar sua liberdade, com matar seus mestres
demônios e quebrar o domínio do Véu Metálico no topo de sua lista.
Mas, enquanto ela se concentra nestes mestres, as outras forças que forçam seu destino
não vão simplesmente deixá-la em paz.
_
Liliana Vess adentrou nas ruas agitadas do elegante Segundo Distrito de Ravnica. Ela
atravessou a multidão que se separava como a água ao seu redor. Ela ajustou uma longa
luva e o coaxar de um corvo próximo soou leve em sua consciência sobre o barulho das
multidões – a multidão de pessoas na cidade e a multidão de espíritos pressionando em
seus pensamentos.
Será que Jace os tinha ouvido? Ela perguntou-se. Era difícil imaginar que ele não tinha –
os espíritos Onakke eram um murmúrio constante em sua mente e as habilidades
telepáticas de Jace tinham certamente captado o ruído. Mas ele tinha dado nenhuma
indicação de que ele havia percebido a presença, ou mesmo de que ele tinha sequer
alguma ideia do que o Véu Metálico estava fazendo com ela.
E eu tenho sequer alguma ideia do que essa coisa está fazendo comigo?
Como que em resposta, as vozes em sua mente aumentaram em volume. “...Nave da
destruição... raiz...”
“Ah, calem a boca”, ela rosnou, agitando a cabeça rápido mas ferozmente, fazendo soltar
uma única mecha de cabelo de sua tiara, que ficou pendurado sobre um dos olhos. Os
olhos de uma jovem vedalkeana se arregalaram com sua explosão de raiva e ela se
abaixou rapidamente para fora do caminho de Liliana. Ela colocou o cabelo de volta no
lugar e as vozes diminuíram.
Elas tinham sido mais forte em Shandalar, é claro. Era o plano de origem dos Onakke.
Aqui em Ravnica, ou em Innistrad, ou qualquer um da outra meia dúzia de planos que ela
tinha visitado recentemente, eles geralmente se mantinham no nível de ruído de fundo. No
contexto da sua conversa com Jace, porém, esse ruído de fundo tinha parecido mais como
um batimento constante de panelas de cozinha, e ela não conseguia acreditar que ele não
tinha notado o clamor.
Talvez ele notasse, pensou, se não tivesse sido interrompido.
E se ele notasse? O que aconteceria então? Talvez ele tivesse ajudado.
Liliana tinha vindo atrás de Jace em busca de uma brecha, uma maneira de sair da
confusão na qual ela desembarcou. O poder do Véu Metálico era imensurável. Ele tinha
permitido a ela matar Kothophed e Griselbrand, dois dos demônios a quem ela devia sua
alma – parte do pacto que tinha feito para recuperar um pouco da magia divina que tinha
perdido com a Emenda.
Mas, no processo de tentar libertar-se de um acordo por poder, ela tinha entrado
inadvertidamente em outro. A magia do Véu Metálico vinha com um custo, uma terrível
tarifa que afetava ambos seu corpo e sua mente. Em desespero, ela o tinha levado de
volta para Shandalar e tentado deixá-lo lá, mas ela descobriu que não podia. Ele estava
ligado a ela, e ela a ele.
Tem que haver uma saída.
Jace devia ajudá-la a encontrá-la – alguma maneira para ela continuar usando o Véu
Metálico sem ser escravizada por ele e os espíritos que ele carregava. Jace não era nada
se não inteligente e, se o Véu tinha algum tipo de poder sobre sua mente, ela sentia-se
confiante de que ele poderia ajudá-la a quebrá-lo.
Em vez disso, Jace tinha pedido a ela por sua ajuda depois que aquele soldado, Gideon,
apareceu. Ela zombou em voz alta o pensamento, atraindo olhares espantados das
pessoas ao seu redor. Um comerciante bem-vestido encontrou seu olhar, então
empalideceu e perdeu-se no meio da multidão. Um goblin viu-se diretamente em seu
caminho e correu rapidamente para longe, sem se atrever a olhar para ela.
E um corvo, empoleirado em uma parede próxima, fixava um olho preto brilhante sobre
ela. Ela fez uma careta para ela e seguiu em frente.
Gideon tinha vindo ao restaurante, interrompido a conversa e praticamente implorado a
Jace para ir com ele para Zendikar, algum plano sem importância que ele disse que estava
sendo devorado por monstros gigantes. Liliana tinha quase rido na cara dele, como se ela
ou Jace pudessem se incomodar com tal lugar. Como o Pacto das Guildas, Jace tinha
Ravnica para se preocupar, afinal de contas; e, além disso, ele ia ajudar ela.
Mas ele não ajudou. Em vez disso, ele havia concordado em ajudar Gideon. “Eu sei que
você vai fazer a coisa certa”, Gideon tinha dito – e Jace caiu nessa. E então ele tinha sido
ridículo o suficiente para pedir a Liliana para vir com ele. Ela zombou novamente com o
pensamento.
Em seguida, um peso assentou em seu peito e ela franziu a testa. Ela e Jace tinham
compartilhado alguns bons momentos, tiveram um pouco de diversão juntos, e vê-lo
novamente tinha evocado alguns sentimentos surpreendentes. Eles tinham compartilhado
uma casa, e uma cama, em um dos bairros mais pobres de Ravnica. Ela o havia ajudado
em um momento difícil, o querido menino... antes de ela enfiar uma faca metafórica em
suas costas e retornar para Nicol Bolas, que ela pensava que ia ajudá-la a livrar-se do
pacto demoníaco que ele tinha ajudado a fazer.
E se desta vez pudesse ser diferente? E se eu fosse com ele e o ajudasse?
Talvez eles tivessem mais alguns bons momentos. Talvez ela pudesse desfrutar de sua
companhia, mesmo que isso significasse ter que aguentar a arrogância hipócrita de
Gideon – ele é quase tão insuportável quanto um anjo, ela pensou. Eu sei que você vai
fazer a coisa certa, de fato. Mas talvez enfrentar alguns monstros gigantes e levantar seus
corpos enormes para lutar por ela seria... divertido?
“Ugh”, disse ela. Lutar contra os monstros de Gideon significaria usar o Véu Metálico de
novo, e ela estava de volta onde ela tinha começado.
Um bater de asas negras sobre seu rosto a trouxe de volta rapidamente. Outro corvo...
Homem Corvo.
O coaxar de um corvo. Um corvo na parede. Agora, um corvo assustado em seu rosto. Ela
tinha estado ausente e ela silenciosamente se amaldiçoou quando olhou ao redor,
finalmente percebendo onde seus pés a tinham levado enquanto ela estava perdida em
seus pensamentos.
Ela estava na periferia de um pequeno pátio deserto. Uma fonte velha, seca e incrustada
com limo, servia de poleiro para uma dúzia de corvos, cada um deles inclinando a cabeça
para virar um olho em direção a ela. Mais das aves pulavam sobre os paralelepípedos
rachados ou batiam asas de telhado em telhado sobre os edifícios que cercavam o pátio.
Um dos pássaro, sentando alto em seu poleiro no topo da fonte, proferiu uma curta série
de sons e então estalou seu bico para ela.
“Certo, Homem Corvo”, disse Liliana. “Chega de seus jogos.”
Todos de uma vez, os corvos empoleirados na fonte saltaram para o ar em uma onda de
asas negras batendo. Eles formaram uma nuvem de penas e gritos estridentes logo acima
dos paralelepípedos e então o Homem Corvo deu um passo adiante do meio da massa – e
os pássaros tinham sumido.

Parte 2 (Final)

Liliana bateu palmas devagar e ironicamente. “Oh, muito bom. Me mostre um truque novo.”
Ele não parecia diferente do que quando ela o conheceu, lá em casa entre as árvores da
Floresta Caligo. O século que se passou tinha deixado tantas marcas nele quanto tinha
nos traços dela própria. Vestido em preto e dourado, de cabelos brancos e olhos
dourados, ele parecia tanto uma visão de seu passado como um homem vivo, mas ele
estendeu uma mão muito sólida e a colocou em seu ombro.
“Você precisa de ajuda”, disse ele.
Liliana retirou a mão de seu ombro e deu um passo para longe dele. Os encontros com o
Homem Corvo nunca tinham terminado bem para ela – ou para aqueles que ela amava.
“E eu suponho que você está aqui para oferecer esse ajuda?” ela disse.
Ele zombou. “Você aceitaria se eu oferecesse?”
“Claro que não.”
“Eu não acho que você saiba como aceitar ajuda”, disse ele, aproximando-se novamente.
“Eu não preciso de ajuda”, disse ela. Ela plantou uma mão no peito dele e o empurrou dois
passos para trás. “Tudo está sob controle.”
“Ah, eu vejo.” Ele parecia estar se divertindo e um súbito desejo de explodir aquele sorriso
ridículo de seu rosto tomou conta dela. “Então, qual é o seu próximo passo?”
“Expurgar você da terra e transformar você e todos os seus amiguinhos pássaros em
meus escravos zumbis.”
O Homem Corvo gargalhou.
“Diga-me por que eu não deveria fazê-lo”, disse ela.
“Você faz parecer tão fácil.” Ele deu de ombros. “Talvez você deva.”
“E seria fácil”, disse ela, mas não havia nenhum prazer nisso. Seria fácil por causa do Véu
Metálico. Ela já podia sentir seu poder surgindo nela, como se estivesse ansioso para ser
colocado em uso. E, com isso, as vozes Onakke ficaram mais altas em sua mente. Ela se
virou dele, sacudindo a cabeça para afastá-las.
Ela sentiu a respiração dele em seu ouvido. “Virando as costas para um inimigo, Liliana
Vess?” Algo cutucou suas costas através de seu vestido – ele segurava um punhal.
“Eu não tenho medo de você”, ela disse, e um anel de escuridão explodiu ao redor dela,
jogando o Homem Corvo para trás.
“Claro que tem”, disse ele.
Ela se virou para encará-lo novamente. “Quem é você?” Ela exigiu. “Você é um Planinauta
– te encontrei em Dominaria, em Shandalar, e agora aqui. Você é um metamorfo,
obviamente. E você falou comigo através da boca de um cadáver em Shandalar. Quem... o
que é você?”
Seus lábios se curvaram em um sorriso mais cruel do que divertido, mas ele não disse
nada.
“Você falou do Véu Metálico como se a coisa toda fosse sua ideia – você cultivou a raiz do
mal, o Véu da enganação, a nave da destruição.” Conforme ela disse as palavras, os
espíritos Onakke as ecoaram em sua mente, com os assobios sussurrantes que
ressoavam como o interior de um mausoléu. “Mas foi Kothophed quem me enviou para
buscar o Véu Metálico para ele.”
“No entanto, você não o levou para ele.”
“Eu não faço tarefas para ninguém. Será que você de alguma forma deu ao demônio a
ideia de me mandar atrás do Véu? Você certamente plantou a semente da destruição dele
se deu.”
“Você é a nave para uma destruição muito maior do que isso.”
Suas palavras enviaram um arrepio frio correndo pelas costas de Liliana, mas ela se
aproximou dele com um sorriso malicioso. “Ah, sim”, disse ela. “Eu trago a destruição onde
quer que eu vá. O que me traz de volta à minha pergunta anterior – por que mesmo eu não
devia destruir você? Agora?”
“E sobre a sua própria destruição?”
Ela fez uma careta. “Do que você está falando?” Em seus momentos mais sombrios, ela
tinha começado a temer que o Véu Metálico de fato carregava as sementes de sua própria
destruição; que, depois de lutar por tanto tempo para evitar a morte, ela a tinha trazido
para si mesma. Mas ela não ia admitir este medo para o Homem Corvo – ou, na verdade,
mostrar-lhe qualquer medo.
“Olhe ao seu redor, Lili”, disse o Homem Corvo.
“Não me chame assim.”
Ele a ignorou. “A morte está olhando para você de todos os lados.”
Ela realmente olhou em volta, sem querer. Corvos estavam por toda parte, dezenas de
olhos negros vidrados e fixos nela.
“Mais dois demônios ainda a prendem a suas obrigações pelas palavras em sua pele, e os
dois são mais poderosas do que os primeiros. O Véu que você veste tão descaradamente
em seu quadril leva mais e mais de sua força cada vez que você o usa. Mas, sem ele,
seus demônios vão arrancar o seu coração de seu peito.”
“Eu não tenho um coração há um bom tempo.” Uma memória indesejada de Jace passou
pela sua mente.
“E isso não é tudo. O mago das bestas que você amaldiçoou ainda está te caçando,
matando mais e mais Planinautas enquanto ele procura por sinais de sua passagem.
Mesmo seu amado Jace está convidando você para a sua morte.”
Ela abriu a boca para responder – então a fechou, franzindo a testa. “Ah, então vamos
adicionar mago da mente à sua lista de realizações?” ela disse. “Saia da minha cabeça,
Homem Corvo. Não há espaço para mais um.”
Ele a ignorou. “De todos os lados”, repetiu ele.
“Sim, bem, eu estou bastante acostumada com a presença da morte.”
“Você está acostumada a matar”, ele retrucou. “Você está acostumada a cadáveres que
estão sujeitos à sua vontade. Você está acostumada a usar a morte como uma arma. Mas
a morte está vindo para você, Lili. Morte que você não pode controlar. Ela está crescendo
dentro de você, e não há nada que você possa fazer.”
“Sempre há...” Ela ergueu suas mãos, e um clarão ofuscante de luz roxa surgiu de dentro
dela – de suas mãos, de seus olhos, das espirais brilhantes gravadas em sua pele e das
pequenas contas em forma de crânio que adornavam o Véu Metálico – para engolir o
Homem Corvo em uma conflagração de magia.
“...algo que se possa fazer”, ela terminou.
Corvos mortos e penas esfarrapadas encheram os paralelepípedos onde o Homem Corvo
estava. Um turbilhão de asas bateu no ar logo atrás dela e ela virou-se para vê-lo emergir
de outra nuvem de pássaros, a adaga à mostra. Ela agarrou seu pulso e puxou a energia
vital que pulsava em suas veias. A lâmina caiu no chão quando ele se dissolveu
novamente em uma dúzia de corvos, suas asas golpeando seu rosto e braços. Sua mão
agarrava um único pássaro morto.
“Tudo bem“, disse ela. “Eu posso fazer o meu próprio bando.”
O pássaro na mão dela se contorceu e se livrou do aperto, agora um pequeno zumbi
sujeito à vontade dela. Ao redor do pátio, mais corvos zumbis levantaram-se da pedra,
pulando e esvoaçando em direção a ela. Quando outro grupo de aves vivas começou a se
formar, seus próprios pequenos corvos atiraram-se contra ele, rasgando carne viva com
garras afiadas e bicos pesados. Ela pensou por um momento que tinha visto viu o Homem
Corvo começar a emergir da agitação, mas ele ergueu as mãos e sumiu. Um mero
punhado de corvos escapou na briga, tremulando no alto dos prédios e se espalhando aos
quatro ventos.
Liliana sentiu um fio correr pelo ombro. Olhando para baixo em sua pele, ela viu o sangue
brotando em todos os lugares onde as linhas arroxeadas de seu contrato demoníaco
estavam desaparecendo de vista. Apenas pequenas alfinetadas de carmesim – mas,
também, ela mal tinha aproveitado o poder do Véu Metálico.
Ela sentou-se na beira da fonte para recuperar o fôlego e reunir seus pensamentos. Era
verdade – ela estava presa em uma armadilha. Se ela continuasse usando o Véu Metálico
assim, ele podia drenar a vida dela antes que ela matasse seus dois demônios restantes.
Se ela tentasse enfrentar seus demônios sem o poder do Véu Metálico, eles iriam
despedaçá-la. Ajudar Jace a lutar contra os monstros gigantes de Zendikar apresentava a
mesma escolha: a morte se ela usasse o Véu, a morte se não o fizesse.
“Eu não preciso de ajuda”, disse ela em voz alta. Jace pode ir resolver o enigma de
Gideon. Eu vou resolver o meu próprio.
Ela levantou-se, fechou os olhos e respirou fundo. Seu estômago se revolveu um pouco
quando ela abriu uma porta entre os mundos.
Assim que ela atravessou, ela ouviu o grito zombeteiro de um corvo em suas costas.

Chandra Nalaar - OFERTAS PARA O FOGO


Parte 1

“Chandra, por favor, cante conosco”, disse o abade Serenok, sua pesada manga
balançando enquanto ele gesticulava para ela.
Chandra e os monges de fogo do mosteiro equilibravam-se em blocos de rocha sólida no
campo de lava, a quilômetros do monastério de Fortaleza Keral em Regatha. O ar
cozinhava e a paisagem ondulava com o calor. Um enorme vulcão aparecia na distância,
expelindo fumaça. Chandra não tinha certeza se ela deveria estar aqui. Este era o lugar
onde ela podia ser ela mesma como uma piromante, mas também envolvia exercícios e
cânticos.
Chandra colocou a mão atrás de sua cabeça. “Eu não sou uma grande cantora”, disse ela.
“Então este será o desafio perfeito para você”, disse Serenok, e seu ligeiro sorriso enrugou
a pele ao redor dos olhos. Como o abade, o diretor de Fortaleza Keral, Serenok
aconselhava os acólitos nas formas da magia de fogo. Como a Mãe Luti, a matriarca do
mosteiro, Serenok tinha encorajado os talentos de Chandra na magia de fogo, incitando-a
a ir mais longe em seus estudos e em sua compreensão de si mesma.
“Você tem talentos que me lembram de quem inspirou a fundação desta Fortaleza”, dizia
Serenok.
“Eu não sou ela, Serenok”, dizia Chandra.
“Você pode aspirar a ser”, ele respondeu. “Um dia.”
Ele se referia a Jaya. Jaya Ballard – uma piromante famosa. Mas, para Chandra, ela era
uma espécie de mito, uma presença que pairava no ar da Fortaleza. Os provérbios
piromânticos de Jaya estavam na boca de cada monge e esculpidos nas paredes, e seu
par de óculos de proteção contra o calor repousava sobre um pedestal no interior do
mosteiro. Alguns dos feitiços de Jaya tinham se tornado exercícios ritualizados que os
acólitos de fogo praticavam – como hoje, aqui, no meio de um campo de lava. Chandra
sabia que as aulas haviam sido útil. Mas ela podia ter ficado sem as comparações.
“Todos nós podemos aspirar a ser mais como Jaya”, disse Serenok para os outros.
“Vamos começar o exercício.”
Ele liderou o canto. A voz do abade era clara, mas seus pulmões pareciam feitos de papel
fino. Chandra notava sua idade no esforço de seus movimentos – ele teve que lutar contra
a corcunda de costas para levantar a cabeça e cantar.
Os outros piromantes iniciantes uniram suas vozes e logo o ar se encheu de som.
Consoantes soavam entre dentes e pontuavam contra vogais baixas e arrastadas. Eles
moviam-se em concerto também, seus pés deslizando sobre a superfície dos blocos de
rocha e os braços fluindo como o ar distorcido pelo calor. Enquanto dançavam, línguas de
fogo levantavam-se da lava, crescendo em um círculo de fogo em torno deles.
A dança piromântica era bonita e Chandra dançava também. Ela abraçou-se, inclinou a
cabeça para trás e girou, esticando os braços para fora e lançando fogo de seus dedos.
Enquanto se movia, ela olhou para cima para ver a fumaça subir do campo de lava para o
céu Regathano juntamente com o cântico dos monges. Chandra se perguntou se era
assim que Jaya teria se sentido. Será que ela trouxe este cântico em particular para
Regatha? Mãe Luti sabia dos Planinautas e tinha dito a Chandra que Jaya era um deles.
Que palavras de planos distantes ela teria cantado para convocar o fogo? Chandra
respirou e deixou escapar um som que combinava com a forma que a dança a fazia sentir-
se – uma canção alta, que aumentou e aumentou enquanto ela girava.
“Chandra”, disse Serenok. “O feitiço vai falhar se você não participar.”
Chandra parou e olhou em volta. Os outros monges tinham parado de dançar e estavam
olhando para ela. O canto havia diminuído e o círculo de fogo diminuído com ele.
“Eu pensei que eu estava”, disse Chandra. Seu cabelo despertou com chamas, mas ela
rapidamente as apagou com a mão.
“Você tem que aprender a canalizar essa paixão em suas lições”, disse Serenok.
“Somente juntos o feitiço funcionara e gerará o fogo mais forte. Você deve dedicar-se.”
“Estou tentando”, disse Chandra.
“Tente mais”, disse Serenok, com a voz entrecortada. “Estes são os meus últimos dias.
Mostre a um velho monge o que ele quer ver.”
“Não diga isso.”
Serenok bateu palmas. “Vamos começar de novo. Chandra, lembre-se do que você
aprendeu. As lições não são destinadas a restringir você. Elas são destinadas a ajudá-la a
crescer.”
O abade colocou as mãos em seus lados e inclinou a cabeça para trás. Chandra viu uma
linha de suor rolar pelo seu rosto – ele estava lançando um feitiço?
Um som veio de baixo do campo vulcânico, algo quebrando, desfazendo-se. A paisagem
sacudiu e Chandra e os monges tropeçaram em suas lajes de pedra.
“O que foi isso?”, perguntou um dos acólitos, olhando para todos os lados.
“Um terremoto?”, perguntou outro monge.
Um monte de rocha derretida se levantou da planície de lava, cortando-lhes a direção do
mosteiro. Algo vivo foi saindo da lava – algo vivo e grande.
“Rápido”, disse Serenok, “vamos cantar de novo.”
“Este é o melhor momento para estar praticando o nosso canto?”, perguntou Chandra.
“Levantem as defesas, como eu os ensinei. Rápido!” Serenok cantou, e os monges se
juntaram a ele, retomando sua dança. O anel de fogo cercou-os novamente e começou a
subir.
Algo gigantesco emergiu do leito de lava. Uma cabeça escamosa e dentada, rodeada com
tentáculos rochosos, subiu alta, seguido por um longo pilar de pescoço coberto de
espinhos em suas bordas. A coisa era do tamanho de um vorme, mas era claramente
adaptada para nadar através da rocha vulcânica.
“Avernal!”, gritou um dos monges.

Chandra Nalaar - OFERTAS PARA O FOGO


Parte 2

“Mantenham o cântico!”, gritou Serenok.


O avernal rugiu para o céu, vomitando fogo e gás sulfuroso. Ele girou seu corpo para os
monges, seus tentáculos ondulando. Sua boca era grande o suficiente para engolir
qualquer um deles em uma única mordida, mas Chandra achou que parecia que ele
provavelmente gostaria de mastigar.
Os monges cantavam e dançavam e a parede de fogo aumentou em torno deles,
bloqueando o avernal.
Enquanto as chamas subiam, Chandra olhou em volta para os monges de fogo e tentou
imitar o som e os movimentos. Anda, Nalaar, ela pensou. Este mesmo cântico está
esculpido nas paredes por toda a Fortaleza. Você consegue fazer isso. Ela olhou para
Serenok e tentou imitar seus movimentos.
A parede de chama cresceu, mas era devagar e não estava alcançando alto o suficiente.
Chandra sabia que era culpa dela – ela estava apressando as palavras, misturando os
sons, tropeçando na dança. O avernal seria capaz de dobrar a sua cabeça sobre a parede
e atacar qualquer um dos monges...
Ela viu a cabeça do animal curvar por cima do muro crescente de chamas. Seus
tentáculos da boca flexionaram e ele rugiu.
Chandra desistiu de cantar. Ela virou-se para enfrentar o avernal e seu cabelo e mãos
explodiram em chamas. Ela jogou dois mísseis de fogo em sua barriga, mas suas
escamas resistentes ao calor quase nem foram chamuscadas.
O avernal atacou, sua cabeça cortando para baixo através da parede de chamas, visando
diretamente um acólito. O acólito se esquivou, pulando para outro bloco de rocha quando o
avernal colidiu com aquele que o havia apoiado. As chamas da barreira de fogo
chamuscaram as escamas do avernal, mas, novamente, o calor escasso nem sequer o
retardou.
Chandra cerrou os dentes e se equilibrou sobre seus calcanhares. Quando o avernal
mergulhou sua cabeça para baixo, ela saltou para o lado, agarrou os espinhos de seu
corpo e subiu em suas costas.
O avernal imediatamente resistiu e coiceou e seus tentáculos chicotearam para tentar
agarrar Chandra. Ela agarrou dois dos tentáculos, plantou os pés em seus cumes e
montou com firmeza nas costas do animal.
“Eu peguei ele!”, Chandra gritou.
O avernal se remexeu e girou seu corpo e, de repente, suas costas era a sua frente. Agora
Chandra estava pendurada pelos tentáculos, suas pernas balançando.
“Mirem na cabeça!”, disse um acólito, conjurando uma magia de fogo.
“Não mirem na cabeça!”, gritou Chandra, que estava pendurada na cabeça do animal.
Chandra se segurou com força, balançando. Ela inclinou seu corpo para obter vantagem
com os pés e chutou, jogando-se para cima e sobre a parte superior da cabeça do avernal.
O avernal estalou e resistiu, mas Chandra aqueceu suas mãos em brasa e seus dedos
perfuraram em sua pele áspera.
Chandra se perguntou sobre no que ela se metera – um sentimento bem familiar. Os
tentáculos do monstro eram mais grossos aqui na cabeça, e eles se chicoteavam contra
ela, alguns deles acertando partes de armadura, mas outros cortando pele. Ela fez uma
careta para suas mãos ardentes, meio enterradas na carapaça do monstro, pois sabia que
não poderia sustentar tal calor por muito tempo. Ela precisava de mais calor, mais do que
ela poderia criar sozinha.
“Eu tenho uma má ideia”, ela gritou para os outros. “Eu mudei de ideia. Quando eu disser
que sim, mirem em mim!”
Chandra cronometrou seu movimento com a próxima torção do corpo do avernal. Ela
soltou seu aperto e meio que correu e meio que deslizou para baixo pela barriga do
animal, lutando contra seus tentáculos com um arco de fogo. Quando ela chegou ao ponto
próximo de onde ele emergia do campo de lava, ela agarrou com ambas as mãos e se
virou para olhá-lo nos olhos. Com um grunhido de esforço, ela socou a mão branca e
quente em sua carapaça.
O avernal lançou sua cabeça para baixo contra ela como um reflexo e Chandra saltou.
Quando sua mandíbula cheia de dentes desceu, Chandra saiu do caminho e o avernal
mordeu fundo nas placas ásperas de sua própria barriga. Por um tempo, suas mandíbulas
estavam presas.
Chandra pousou em um dos blocos de rocha. Ela virou-se para os monges, acenando para
eles. “Agora!”, ela gritou. “Fogo! Em mim!”
Os outros monges ficaram rígidos olhando para Serenok. Isto não era parte de qualquer
um de seus ensinamentos.
O abade olhou para Chandra nos olhos por um segundo, decidindo.
O avernal gritou e empurrou, seus dentes presos em sua própria armadura dura como
pedra.
“Agora!”, implorou Chandra. “Façam!”
Serenok olhou para os acólitos, e acenou com a cabeça.
Os monges de fogo gritaram, jogaram as mãos para fora e lançaram uma dúzia de magias
de fogo diferentes em Chandra.
Chandra teve apenas um momento enquanto os cometas e esferas de fogo voavam em
direção a ela. Ela cronometrou seu movimento, então girou sobre seus pés, guiando as
magias de fogo com as mãos conforme ela girava. Em um movimento, ela teceu os fios de
fogo juntos em uma lança afiada como uma agulha absurdamente quente. Ela a curvou ao
redor de seu corpo, sentindo seu calor esquentando sua pele quando ela passou, e a
guiou direitamente para a cabeça do avernal.
A lança de fogo perfurou o couro blindado da testa do monstro e adentrou profundamente,
atingindo o tecido macio.
Com um estremecer de seu corpo e um grito, o avernal se soltou, finalmente desalojando
sua bocarra de suas placas.
Ele levantou a cabeça, abriu seus tentáculos com um rugido e, em seguida, mergulhou de
volta para sob a planície de lava.
Ondas rolaram através do campo de lava, e diminuíram. Ninguém disse nada por um
momento, até que eles tivessem certeza de que ele não ia voltar imediatamente para
devorá-los.
Chandra apoiou as mãos sobre os joelhos enquanto recuperava o fôlego. “Desculpe, eu
arruinei o cântico”, disse ela. Sua juba de fogo diminuiu lentamente, transformando-se em
seu cabelo normal. Uma mecha de cabelo pulava para fora loucamente.
“Já chega”, disse Serenok com um sorriso manchado pela fuligem. Ele tossiu em seu
punho, mas isso não sufocou seu sorriso. “Você fez o que eu vi apenas uma outra pessoa
fazer em toda mina vida. Você está pronta. Você é ela.”

Parte 3

“Chandra, levante-se.”
Chandra estava de volta em sua cama no mosteiro. Ela tinha a sensação de que ele podia
ser, de fato, aquela época que as pessoas chamam de manhã.
Para tornar as coisas significativamente piores, ela podia dizer que era a voz de Mãe Luti à
sua porta.
“Chandra”, Luti repetiu. “Levante. É meio-dia.”
“Como você pode dizer?” Chandra murmurou, sem se mexer. “Do lado de dentro das
minhas pálpebras, parece exatamente como hora de dormir.”
“É Serenok.”
Chandra sentou-se finalmente. “Ouça”, disse ela, suspirando para tirar o sono de seu
cérebro. “Se ele quer falar sobre exercícios de cânticos, diga a ele que amanhã pode ser
melhor...”
“Chandra. Serenok está morto.”
_
O memorial do abade foi curto, realizado na clareira rochosa do lado de fora dos degraus
da Fortaleza Keral. Eles eram os mesmo degraus largos de pedra que Chandra tinha
subido quando ela se tornou uma Planinauta pela primeira vez. Muitos dos monges de
fogo ali reunidos estavam entre aqueles que a acolheram aqui como uma jovem piromante
perplexa.
“Éramos todos acólitos de Serenok”, Mãe Luti foi dizendo. “Todos nós que o conhecíamos
aprendemos lições de sua vida de fogo e paixão, e de sua dedicação como abade deste
Fortaleza.”
Chandra estava chorando – meio que de perplexidade e meio que de luto antecipatório.
Ela podia dizer que ela não estava sentindo o peso da dor ainda. Ela podia sentir ele
chegando, como uma presença se movendo em direção a ela no escuro.
“O corpo de Serenok cedeu enquanto ele dormia na noite passada”, continuou Luti. “E em
sua passagem – porque ele era um professor até o fim – ele nos concedeu uma lição final.
Ele mostrou-nos que, no tempo que temos, devemos escolher um caminho e nos dedicar a
ele. Temos de encontrar o fogo dentro nós e deixá-lo crescer e oferecer nossas vidas a
ele. E devemos ver esse fogo atiçado nos corações dos outros.” Ela juntou as mãos.
“Adeus, Serenok.”
Os monges baixaram a cabeça. Seus mantos com capuz caídos sobre seus rostos.
Quando a cerimônia terminou, Chandra não retornou para o mosteiro com os outros. Ela
afastou-se da Fortaleza, em direção às montanhas. Ela ouviu Luti chamando atrás dela,
mas ela não voltou atrás.
_
Um dia Regathano implacável tornou-se uma noite Regathana assadora, com
tempestades de fumaça rodando nos céus como o emaranhado de emoções dentro de
Chandra. Era escuro o suficiente agora ao ponto de ela não poder ver o contorno do
grande vulcão contra o céu. Mas ela podia ver as linhas finas de lava escorrendo pelo
lado. A esta distância, eles não pareciam estar fluindo – ela poderia imaginar os fios
brilhantes escorrendo vulcão abaixo ou, se ela mudasse de perspectiva, ela podia vê-los
subindo pelo caminho acima e entrando de volta em seu coração. Chandra estabeleceu-se
debaixo de uma saliência rochosa, abaixo de um ninho de mariposas-brasa. Ela observou
um fluxo das mariposas que subiam em uma espiral na noite com suas pequenas asas de
fogo.
Ela sempre se irritou com as expectativas de Serenok sobre ela. Mas teria matado ela
aprender os cânticos e praticar os exercícios juntamente com os outros? Teria sido tão
ruim assim tentar cumprir as expectativas dele, do que ele via nela? Ela chorou e pensou
não nas lições de Serenok, mas em sua bondade, seu encorajamento. Ela sentiu um lugar
vazio dentro dela, um poço profundo de dor. Ela tinha esperado uma onda de emoção no
momento da morte do professor, algo mais tangível que ela pudesse aceitar, algo que ela
pudesse desafiar. Não havia desafio nesse vazio. Não era algo que ela pudesse lutar. Ela
só podia viver no espaço vazio dentro dela.
Depois de um tempo, ela queria sua cama mais do que solidão. Ela fez seu caminho de
volta para o mosteiro através de passagens na montanha, atirando feitiços de fogo na
escuridão à sua frente. Mariposas-brasa rodavam em seu rastro.
_
Era de manhã quando seus passos finalmente a trouxeram de volta para o mosteiro.
Mãe Luti sentava-se nos degraus de pedra da Fortaleza Keral, uma peça de roupa
dobrada em seu colo. Era o manto de Serenok, o manto do abade, enfeitado com
filamentos ígneos.
“Por que você vem me cumprimentar com isso?”, perguntou Chandra. Seus músculos
estavam cansados e seu coração era um furacão, uma tempestade girando em torno de
um espaço vazio. Ela nunca tinha visto o manto quando não estava caído sobre os ombros
de Serenok. Seus olhos brilharam. “Você está intencionalmente tentando me magoar?”
“Chandra, ouça...”, Luti começou.
“Não, eu entendo”, disse Chandra, se aproximando do rosto de Luti. “Serenok está morto,
mas as lições têm que continuar! Todos nós precisamos nos reunir no grande salão antes
de seu manto sequer esfriar, certo? Porque nós precisamos preencher esse buraco. É isso
que você está aqui para me dizer, não é? Que já se passaram horas e nós precisamos
escolher um novo abade?”
“Não, Chandra”, disse Luti, olhando para o manto de Serenok. “Estou aqui para dizer-lhe
que já escolhemos um.”
_
“Eu não posso”, disse Chandra, pelo que parecia ser a centésima vez. “Eu não sou um
monge. Eu certamente não sou um abade.”
Ela estava sentada à longa mesa de granito no coração do mosteiro, cercada por monges
mais velhos com vestes nas cores do fogo. O manto de Serenok jazia dobrado sobre a
mesa à sua frente.
“Como Serenok sempre disse, você é uma das mais talentosas piromantes que já tivemos
na Fortaleza Keral”, disse Luti com as mãos entrelaçadas e seu rosto gentil. “Ele via você
como engenhosa, criativa, franca. Suas palavras e sua magia sempre vêm do coração,
bem como...”
Chandra fez uma careta.
“...bem como Jaya. Todos nós poderíamos aprender com seu exemplo.”
Isso era algo gentil de se dizer, mas eles não estavam realmente a ouvindo. Ela podia
sentir uma névoa levantando-se sobre a sua visão. “Eu nunca poderia tomar o lugar de
Serenok! Eu não sou uma professora. Eu mal sou uma estudante. Eu sinto muito, mas
tenho de recusar.”
Alguns dos monges olharam uns para os outros.
“Chandra, é uma grande honra ser convidado para ser abade”, disse outro monge, sua
longa barba quase tocando a mesa de pedra. “Se o manto é oferecido, é de sua
responsabilidade. Você deve aceitar.”
“Ei”, disse Chandra, batendo os punhos sobre a mesa de repente, em ambos os lados do
manto dobrado de Serenok. Seu cabelo momentaneamente crepitou com chamas. “Deixe-
me aconselhá-lo agora. Falar sobre o que eu devo fazer não é uma boa maneira de me
convencer.”
A boca de Mãe Luti era uma linha fina. “Serenok sabia que ele estava no fim de sua vida,
Chandra. Ele estava testando você. Ele via algo em você.”
“Serenok acreditava que eu era alguém que eu não sou”, disse Chandra. “Por favor,
acredite em mim. Você não me quer me dirigindo este lugar. Eu não sei os cânticos. Eu
sempre estrago os movimentos da dança. Eu não sou a melhor em nada do que fazemos
aqui.”
“Então, como Serenok gostava de dizer, este será o desafio perfeito para você”, disse Luti.
As palavras acertaram Chandra no peito. Ela sentou-se, e seus ombros caíram. Ela
apertou os punhos sobre seus olhos – se era para abafar lágrimas ou para apagar o que
ela via ao seu redor, ela não sabia.
Ela abriu os olhos e olhou em volta para os rostos dos monges de fogo ao seu redor. Este
lugar, estas pessoas que lhe haviam ensinado muito, queriam que ela os ensinasse. Se
ela ficasse, ela poderia mostrar-lhes o quanto isso significava para ela, quando eles a
acolheram naquele dia tantos anos atrás – quando ela veio a eles como uma órfã com
medo de outro mundo.
“Vocês acham que eu realmente conseguiria?”, perguntou Chandra.
Os monges todos assentiram.
Mãe Luti levantou-se, abrindo as suas mãos. ”Chandra Nalaar, você vai tomar o manto de
Serenok e ser a nossa Jaya? Você vai guiar-nos nos princípios da piromancia Keraliana?
Você vai nos ensinar os caminhos do fogo?”
Chandra levantou-se, cercada por seus semelhantes. Algo sobre esta sala a fazia sentir-se
segura, como as os lençóis desarrumados de sua cama. Talvez ela pudesse comprometer-
se a este caminho. Jaya só passou por Regatha brevemente – talvez ela pudesse ser a
Jaya que não apenas passava, mas que ficava. Talvez se tornar um abade que jorrava
fogo poderia ser divertido – e uma maneira de começar a preencher aquele buraco
doloroso em seu coração.
Conforme ela permanecia em pé diante da mesa tentando encontrar palavras, dois
homens – vestidos em trajes distintamente não Regathanos – entraram com pressa na
câmara.

Chandra Nalaar - OFERTAS PARA O FOGO


Parte 4 (Final)

Um deles tinha peito largo e queixo barbado, vestido em armadura resistente, e o outro era
menor, rosto liso, vestindo um manto azul coberto de runas com capuz.
Todas as cabeças voltaram-se para os dois homens. Eles olharam diretamente para
Chandra e ela reconheceu os dois.
Chandra estalou. “O que é que é isso?”
“É bom ver você, Chandra”, disse Gideon Jura. “Nós precisamos da sua ajuda.”
{“É sobre Zendikar”}, veio a voz de Jace Beleren em sua cabeça.
Chandra levou os outros dois Planinautas para fora, descendo os degraus da Fortaleza em
direção às encostas do Monte Keralia. Dois Planinautas de momentos distintos de seu
passado – lembretes de outros planos, de outros tempos em sua vida – aparecendo aqui,
bem quando ela se sentia ligada às pessoas de Fortaleza Keral. Ela tentou encontrar
espaço em seu cérebro para a totalidade desta justaposição.
“Então”, disse ela. “Gideon. Vindo fazer cumprir algumas leis? De quem você está atrás
agora?”
“Dos Eldrazi”, disse Gideon.
“E de você”, acrescentou Jace. “Nós temos uma missão. Nós poderíamos usar uma
piromante.”
“Bem, o seu timing é incrivelmente ruim.”
“Me desculpe se este é um momento difícil”, disse Gideon. “E se você precisa estar aqui,
você precisa estar aqui. Mas nós precisamos de você, Chandra. Zendikar precisa de
você.”
O ar quente rodou em seu peito. “Zendikar disse isso? Isso é uma citação direta?”
Chandra deu passos para frente e para trás, não tendo certeza do que fazer com a
animação que ela sentiu repentinamente. “Que gentileza de vocês dois pensar de mim.
Como diabos vocês dois sequer...?”
Gideon inclinou a cabeça para Jace. “Nos conhecemos recentemente, em Ravnica.”
“Então vocês estão saltando de mundo em mundo à procura de pessoas para recrutar? É
isso?”
Gideon abriu a boca e fechou-a. Nesse momento de silêncio, Chandra parecia ouvir os
sussurros de um mundo de torturas que ele tinha sofrido.
Chandra sentiu um traço de empatia por ele lutando contra sua teimosia. “Gideon, você
conhece minha história aqui. Você de todas as pessoas deve saber que eu fiz sacrifícios
por este mundo.”
A pira do vulcão distante brilhava na armadura de Gideon. “Não é o único mundo que
precisa de um sacrifício.”
Chandra esfregou as têmporas sob seus óculos de proteção. O único pensamento que lhe
veio à mente foi: Jaya iria com eles. Jaya não teria hesitado em se mandar para uma nova
aventura, mergulhar em uma crise onde ela poderia liberar sua magia de fogo e explodir
tudo em vista. A tentação fez o coração de Chandra acelerar. E quando ela pensou nas
pessoas sofrendo, que ela poderia ajudar...
“Lembre-se”, Jace acrescentou. “Você tem um pouco de culpa no estado atual de
Zendikar. Temos uma dívida para pagar, você e eu. Goste ou não, temos uma
responsabilidade.”
Os olhos de Chandra literalmente acenderam em chamas. Ela falou lentamente, com tanta
calma quanto conseguiu reunir, com os dentes cerrados. “Podem. Todos. Por favor. Parar
de falar comigo. Sobre responsabilidade?”
Gideon juntou as mãos. “Chandra”, disse ele, e suas mãos tocaram o peito. Para ele, esse
pequeno gesto era como implorar abertamente, uma expressão da necessidade
surpreendente.
Jaya iria com eles. Jaya iria com eles.
“Vão”, disse ela.
Gideon olhou para Jace, e de volta para ela. Ele tentou dar um passo em direção a ela,
esticar a mão e tocar-lhe o braço. Mas Chandra o encarou e um anel de fogo cresceu ao
redor dela, cercando-a com uma parede pessoal de chamas.
“Aqui é onde precisam de mim mais”, disse Chandra. Ela cruzou os braços. “Eu pertenço a
este lugar. Eu fiz uma promessa.” E, em seu coração, era verdade.
“Gideon”, disse Jace. “Acho que terminamos aqui.”
Gideon olhou nos olhos de Chandra por um longo tempo. Então, ele balançou a cabeça e
disse: “Se você mudar de ideia, encontre-nos no Portão Marinho.” Ele mal olhou para
botas de Jace. “Vamos.”
Quando eles transplanaram, o ar ficou borrado, obscurecendo a visão de Chandra por um
momento. Quando eles haviam desaparecido, ela olhou para além, nos degraus de pedra
que levavam até a Fortaleza Keral – e ela viu Mãe Luti ali de pé, olhando da porta, com o
manto de Serenok em suas mãos.
Chandra assentiu para a Mãe Luti e subiu os degraus em direção a ela.

Nissa Revane – POR ZENDIKAR


Parte 1

Já se passaram muitos anos desde que o mundo de Zendikar buscou pela primeira vez a
ajuda de Nissa Revane, enviando-lhe visões, suplicando-lhe para ajudar a remover o
monstro negro que estava preso dentro de suas montanhas. Apesar de Nissa ter
bravamente enfrentado a monstruosidade Eldrazi então, ela não foi capaz de destruí-lo...
nem os seus irmãos. Desde aquele primeiro encontro, Nissa dedicou sua vida à luta contra
os enxames de Eldrazi que afligem o mundo dela. Ela deparou-se com muitos erros e
fracassos, mas parece que Zendikar ainda tem fé nela; o mundo envia seu poder a ela
quando ela o chama, e ele se manifesta como um gigante elemental de árvores para
ajudá-la em batalha. Então Nissa continua a lutar, o tempo todo esperando que Zendikar
tenha estado certo ao escolhê-la.
_
Nissa estava de pé lado do alto elemental de Zendikar em um cume com vista para a
floresta de Matavasta. Dali era quase possível – se ela relaxasse seu foco e apertasse um
pouco os olhos – perceber apenas os verdes e marrons, as cores naturais da floresta.
Mas ela sabia que as partes brancas estavam lá; elas corriam em riachos através da terra
como leitos de rios secos. Nissa desejava que isso fosse tudo que eles fossem. Uma seca,
mesmo a pior seca, seria de longe preferível ao que o mundo estava enfrentando agora.
As trilhas brancas de corrupção que os Eldrazi da prole de Ulamog deixavam em seu
rastro eram morte. Elas eram vazio. Elas eram nada. Os Eldrazi drenavam a vida e a
essência de todas as coisas vivas que encontravam. Nem uma única folha de grama
crescia onde eles tinham viajado; até mesmo as persistentes moscas leão sumiram das
áreas corrompidas. No começo, muitos dos Zendikari acreditavam que a terra morta iria se
recuperar – que, depois de algum tempo, a vida iria voltar. Mas com o passar dos anos, as
faixas de corrupção Eldrazi somente se ampliaram. Parecia que o dano que os Eldrazi
causavam era permanente. A vida que Zendikar perdeu foi perdida para sempre.
Estava chegando o ponto em que o mundo não tinha muito mais para dar.
“Eles querem ter tudo”, disse Nissa. “Às vezes eu não sei se podemos detê-los.”
Ela estava falando mais para si mesma, mas também para o elemental ao seu lado. Ela
tinha passado a falar com ele ao longo dos últimos dias apesar de, até onde ela podia
dizer, ele não entender o que ela estava dizendo.
O único sinal de comunicação que Nissa recebia do elemental era um gesto que ele
repetia algumas vezes a cada dia, estendendo a mão de ramos para apreender algo que
Nissa não podia ver ou compreender.
Ela havia tentado interpretar seu significado, mas cada vez que ela tentou adivinhar
parecia que ela tinha estado errada. Isso não impedia Nissa de falar com ele, no entanto.
Desde que tinham deixado a companhia de Hamadi e os outros elfos, tinha sido apenas
eles dois fazendo o seu caminho através do que restava da Floresta de Matavasta e Nissa
achava reconfortante usar sua voz para algo diferente de gritos de guerra.
“Foi um bom trabalho lá atrás.” Nissa apontou com a cabeça sobre o ombro, indicando a
seção da floresta que tinham acabado de limpar. Dois cadáveres Eldrazi estavam por trás
deles, e o elemental ao lado de Nissa fora o responsável por rasgar quatro dos tentáculos
do maior.
Nissa queria mostrar sua gratidão, mas ela ainda estava aprendendo como isso devia
funcionar. Na primeira vez que ela tinha convocado o imponente elemental, ela ficou tão
chocada quanto aqueles ao seu redor. O poder dele, a força, o próprio tamanho, era
esmagador. Claro, ela estava acostumada a lutar ao lado de elementais, acostumada a
canalizar o poder da terra através deles, mas ela não estava acostumada a isso.
Este elemental não era como os outros. E não apenas porque era grande o suficiente para
levantar por inteiro um Eldrazi de médio porte com apenas uma das suas mãos – embora
essa fosse definitivamente uma qualidade positiva. Este elemental não voltava para a terra
depois da batalha.
Ele ficava por ali, ele seguia Nissa, ele a observava. E embora não pudesse entender, ele
parecia ouvi-la.
Ele tinha uma presença, uma personalidade. Talvez ainda mais.
É por isso que parecia estranho que ele não tivesse um nome.
“Eu gostaria de saber do que te chamar”, disse Nissa, olhando através dos galhos do
elemental para o céu que se iluminava com um novo amanhecer. “Para momentos como
este, quando conversamos, eu gostaria de te chamar de alguma coisa. Você tem um
nome?”
O elemental não fez nenhum movimento para responder, não que Nissa esperasse que ele
fizesse. Ainda assim... “Se eu te desse um nome você aceitaria?”
O elemental não pareceu resistir à noção.
“Então que tal Ashaya?” Nissa disse. “Ashaya, o Mundo Despertado.” Ela tinha tirado a
ideia para o nome de Hamadi. A primeira vez Nissa tinha convocado o elemental, Hamadi
tinha chamado Nissa de “Shaya”, que ele disse que significava “Despertadora do Mundo”.
Se ela era a Despertadora do Mundo então só fazia sentido que o elemental fosse o
mundo despertado.
Os ramos do elemental torceram e esticaram. Nissa pensou que parecia que ele estava
tentando o nome, testando-o. Quando suas raízes pararam, ele parecia contente.
“Ok então, Ashaya será”, disse Nissa. O nome soava bem, soava certo. Quando os
primeiros raios de luz do sol esticaram-se ao longo do horizonte, ela suspirou. “Então,
Ashaya, o que vamos fazer agora?”
Era uma pergunta que Nissa tinha se perguntando muito ultimamente.
O que devia uma elfa fazer com todo esse poder?
Uma elfa neste vasto mundo... em um Multiverso ainda maior.
O que devia uma elfa fazer?
Mas não era exatamente isso o que Hamadi estava tentando dizer a ela? Ela devia salvar
o mundo. Ela devia usar o poder, usar o elemental, Ashaya, e destruir os Eldrazi. Zendikar
tinha a escolhido.
Mas Hamadi não conhecia toda a história. Zendikar tinha escolhido Nissa uma vez antes.
Quando ela era muito jovem o mundo tinha a enviado visões e pedido por sua ajuda.
E Nissa tinha tentado ajudá-lo.
Mas ela tinha falhado.
Ela tinha falhado.
Então, por que o mundo a escolheu novamente?
“Realmente, eu estou lhe perguntando.” Nissa olhou para o lugar na placa frontal de
madeira de Ashaya, onde os olhos do elemental deveriam estar se ele tivesse olhos. “O
que Zendikar espera que eu faça? O que você espera que eu faça?”
O elemental não deu nenhum sinal de ter ouvido ela.
“Você é parte de Zendikar, não é?” Nissa queria sacudir seus ramos, sacudir até obter
uma resposta do rosto de madeira impassível. “Por que você está aqui – comigo? De
todos os elfos... todos os povos, os kor, os tritões em Zendikar – você poderia ter até
mesmo escolhido um goblin. Mas eu?” Nissa balançou a cabeça. “Eu falhei. A última vez
que você me escolheu, eu falhei. O que faz você pensar que desta vez vai ser diferente? O
que faz você pensar que eu vou ser de alguma forma melhor, mais forte, mais corajosa?
Isso é tudo o que eu sou. Bem aqui.” Nissa esticou os braços, expondo sua plena estatura
ao elemental. “É só isso. E isso é tudo que eu sempre serei.”
Ashaya, o Mundo Despertado, mudou; ele levantou uma mão enorme, mantendo-a aberta
com sua palma virada para Nissa.
Ele estava realizando o mesmo gesto, como tinha inúmeras vezes antes. Nissa suspirou
“O quê? O que significa isso?”
O elemental formou lentamente um punho com os seus dedos grossos como troncos.
Nissa fechou a cara. “Eu não entendo. Eu não sei o que você está tentando me dizer.”
Ashaya puxou o punho em direção ao peito, estendeu-o novamente e, em seguida, um por
um, ele estendeu os dedos, abrindo a sua mão com a palma para cima.
Nissa sabia que era onde o gesto terminava. Ela tinha visto isso antes.
Ela tinha tentado colocar a mão sobre a mão do elemental. Ela tinha tentado esticar seu
próprio braço, palma para cima. Ela tinha imaginado que isso significava que ela deveria
olhar para cima, abrir-se, alcançar Zendikar. E ela tinha feito todas estas coisas. Sem
qualquer sucesso.
Ashaya fez o gesto novamente.
“Você é tão teimosa quanto eu sou”, disse Nissa.
Ashaya tentou uma terceira vez. E, em seguida, uma quarta.
“Não entendo.” Nissa parou o elemental no meio do gesto, segurando seu grande polegar
com ambas as mãos. Com o toque, a tensão saiu de seus próprios ombros. Ela respirou o
cheiro que Ashaya trazia, o cheiro da floresta – terra, seiva, madeira e folhas. Foi
maravilhoso. Foi poderoso. “Me desculpe. Eu gostaria de poder te compreender.” Seu
coração doía com a honestidade desse desejo.
Ashaya moveu sua outra mão para cima da de Nissa, apertando a pequena mão élfica de
Nissa entre as suas duas gigantescas mãos de galhos e ramos. Isso era algo novo, algo
que o elemental nunca tinha feito antes.
O coração de Nissa acelerou e seus dedos formigaram, antecipando o que estava por vir.
O ar entre eles se tornou grosso e Nissa sentiu uma poderosa força que irradiava de
Ashaya – e então veio do vale abaixo um grito distante, mas desesperado.

Nissa Revane – POR ZENDIKAR


Parte 2

Ambas Nissa e Ashaya se assustaram. Juntas, elas se viraram na direção do grito,


olhando por cima da borda do cume.
Um segundo grito perfurou o dia amanhecendo, este estrangulado.
“Lá!” Nissa apontou. Não muito longe, a carne tensa e desnaturalmente roxa de um Eldrazi
brilhou na luz do amanhecer.
Pelo que Nissa podia ver, parecia que o Eldrazi tinha acabado de invadir um pequeno
acampamento. Havia pelo menos duas fogueiras que ardiam nas proximidades e o que
parecia ser uma dúzia de tendas intercaladas entre as árvores.
Três figuras tinham cercado o Eldrazi; um parecia ser um kor, os outros dois poderiam ser
elfos. O Eldrazi parecia ter prendido uma quarta figura – talvez um humano – sob um de
seus cotovelos ossudos. O humano gritou novamente.
Enquanto Nissa e Ashaya observavam, as árvores perto do pequeno acampamento
tremeram. Em seguida, com três estalos rápidos ecoando, três árvores caíram no chão
quando mais duas monstruosidades Eldrazi – um com tentáculos e um com muitas mãos –
abriram seu caminho até o acampamento. Seu rastro de corrupção calcária consumiu os
troncos caídos.
Mais três árvores retiradas de Zendikar para sempre.
O Eldrazi de tentáculos tentou alcançar a kor que estava ocupada lutando a
monstruosidade roxa original.
“Atrás de você!” Nissa gritou, mas o vento levou sua voz para longe do vale.
O mais grosso dos tentáculos do Eldrazi cortou a parte de trás dos joelhos da kor,
enviando-a ao chão e fora da linha de visão de Nissa. “Não!”
Ashaya soltou a mão de Nissa e Nissa correu cume abaixo. “Por aqui.” Ela puxou o
elemental, comandando-o a seguir.
O mato era grosso e não havia nenhum caminho claro a se seguir. Apesar de Nissa ser
proficiente em mover-se através da floresta espessa, sua preocupação com a kor a levou
para a frente mais rápido do que ela deveria ter ido. Ela tropeçou duas vezes em seu
caminho para baixo, repreendendo-se cada vez por perder preciosos segundos.
Quando chegou ao nível do solo, Nissa orientou-se pelo sol e pressionou por entre as
árvores, trazendo Ashaya junto com ela. Ramos bateram em seu rosto e grama cortou
seus tornozelos, mas ela deixou cada arranhão lembrá-la da força da floresta, a força que
ela iria exercer contra os Eldrazi.
Quando ela e Ashaya alcançaram o pequeno acampamento, as barracas, suprimentos e
corpos caídos estavam salpicados de sangue e pegajosos com o muco Eldrazi – ou tinham
sido transformados em cascas ocas de calcário. No centro de tudo, o Eldrazi com carne
tensa e roxa estava alimentando-se sobre o cadáver de um elfo.
Nissa desviou o olhar por tempo suficiente para engolir a bile que subiu na parte de trás de
sua garganta, então se virou e investiu, trazendo Ashaya consigo.
Ela alcançou o terreno sob o Eldrazi roxo, levantando uma grande faixa da terra –
juntamente com as plantas, galhos caídos e outros detritos da floresta – com um grande
puxão. Conforme o terreno inclinou abaixo dele, o Eldrazi deslizou para o lado, derrapando
na pequena inclinação que Nissa tinha feito... e direto para os braços de Ashaya.
Nissa empurrou seu poder ao elemental conforme ele apertava o pescoço do Eldrazi,
esmagando qualquer estrutura interna que mantinha a monstruosidade de pé, até que ele
estivesse pendurado flácido e sem vida. Ao comando de Nissa, Ashaya soltou o Eldrazi
incapacitado. Com um baque surdo, o horror caiu no chão da floresta, parando ao lado do
corpo do elfo.
Com um Eldrazi morto, Nissa posicionou-se alerta para os outros dois... mas era tarde
demais.
Um tentáculo vermelho e grosso fechou em torno da perna de Ashaya. O Eldrazi de
tentáculos, agora com apenas três tentáculos – os Zendikari no acampamento deviam ter
conseguido amputar os outros três – puxou-se em direção ao elemental.
Raiva bateu no peito de Nissa. “Afaste-se de Ashaya!”
Ela convocou as raízes fortes e torcidas de uma árvore próxima, direcionando-as para
enroscar-se em torno de um dos tentáculos de trás do Eldrazi. Era um cabo-de-guerra:
Nissa mandava Ashaya marchar em uma direção enquanto as raízes da árvore puxavam
com a força da terra na outra. O Eldrazi seria logo quebrado, dividido no meio através de
sua inchada carne vermelha.
“Socorro!” Uma voz quebrou a concentração de Nissa.
Ela tinha vindo de cima. Uma kor – a que Nissa tinha visto a de cima do cume – se elevava
nos ramos de uma árvore alta. O terceiro Eldrazi estava tentando agarrá-la com oito
apêndices bifurcados que terminavam em dezesseis mãos de oito dedos.
A kor cortou o apêndice mais próximo com seu gancho, tirando três dos dedos na sua
quarta articulação, mas ela gemeu de dor quando o fez e desabou sobre o galho mais
próximo. Ela tinha sido ferida, provavelmente na luta que Nissa tinha testemunhado antes.
Ela precisava de ajuda.
Nissa alcançou os ramos da árvore, comandando uma dúzia deles por vez, ordenando-os
a se enrolar em torno da kor. Mas a barreira atrasou o Eldrazi por apenas um momento.
Cada um dos dezesseis apêndices do horror agarrou um dos ramos e os arrancou. Mesmo
o mais grosso dos ramos estalou como um graveto.
Nissa procurou por Ashaya por ajuda, mas sua falta de atenção para com o elemental
significou que o Eldrazi de tentáculos tinha tido a chance de ganhar terreno. Ele havia
superado o cabo-de-guerra e aumentado seu aperto ao redor da perna de Ashaya com
outro dos seus tentáculos. Ele estava puxando o elemental em direção a sua boca
crepitante.
“Socorro!” A kor gritou novamente. “Por favor!”
O coração de Nissa acelerou. Ela olhou de Ashaya para a kor. Ela não podia estar em dois
lugares ao mesmo tempo. O fato era simples: ela precisava da força de Ashaya para
resgatar a kor. “Apenas segure firme!”
Ela jogou toda a sua energia em Ashaya, comandando o elemental para posicionar seu
peso sobre a perna presa e pisotear os tentáculos do Eldrazi com seu outro pé gigante –
uma vez, duas vezes, e de novo.
Os impactos enviaram pedaços de Eldrazi voando, e o resultado foi que o Eldrazi tinha
apenas um tentáculo sobrando. A lesão parecia ser o suficiente para tirá-lo de equilíbrio.
Ele deslizou para trás, retirando-se para a linha das árvores, contorcendo-se e rangendo.
Nissa não parou, ela puxou Ashaya consigo – tentáculos decepados e tudo – para
enfrentar o terceiro Eldrazi de muitas mãos.
Mas ele tinha sumido.
Assim como tinha sumido a kor.
Nissa desesperadamente procurou pelas árvores, empurrando ramos para fora de sua
linha de visão. Onde tinha ido o horror? Onde ele tinha levado a kor?
O som de farfalhar o entregou. Nissa separou as árvores trêmulas, expondo o caminho do
Eldrazi. Ele já estava a várias centenas de metros de distância, deslizando agilmente
sobre catorze apêndices; ele tinha virado sobre si mesmo para transformar sete dos seus
braços em pernas, e seu oitavo apêndice estava dobrado em um ângulo desnatural para
segurar a kor sobre sua cavidade de alimentação.
Corrupção branca como calcário estava fazendo seu caminho pela perna da kor acima.
“Não!” Nissa correu através da calha que o Eldrazi tinha esculpido entre as árvores, mas
não havia como evitar; o Eldrazi consumiu a vida da kor, transformando seu corpo imóvel e
pálido em pó.
A poeira nublou a visão de Nissa e ardeu em seus olhos; ela desacelerou, piscando para
conter as lágrimas. Não havia mais o que ela podia fazer pela kor.
Com uma longa exalação, tanto para limpar a memória de seus pulmões quanto de sua
mente, ela pegou o caminho de volta ao acampamento, de volta à Ashaya.
Ela atravessou um rastro de corrupção em seu caminho, provavelmente deixado para trás
pelo Eldrazi mutilado com um tentáculo. O coração de Nissa caiu. Se aquele Eldrazi havia
deixado o acampamento isso significava que não havia mais nada lá para ele se alimentar,
nada mesmo.
Logo ela viu que ela estava certa; a pequena clareira tinha sido perdida para corrupção
Eldrazi. Nissa contou cinco cadáveres, mas não havia como saber quantos mais já haviam
se desintegrado.

Parte 3

Ashaya estava de pé no centro da clareira, a única cor – verde e marrom – contra a


expansão anormal de branco. O elemental parecia estar em luto. Elas haviam perdido esta
batalha. Muitos perderam suas vidas. E a terra tinha perdido muito, também. Por isso,
Nissa estava gravemente triste. Mas ela tinha advertido Ashaya. Ela havia dito que ela não
era a escolha certa para Zendikar. Agora o elemental devia finalmente ver que ela estava
certa.
“Não é sua culpa.” A voz fina e seca assustou Nissa. Pelo intervalo de um piscar de olhos,
ela pensou que pertencia ao elemental, mas, em seguida, ela encontrou a fonte: um
vampiro mancando em direção a ela a partir de uma seção de árvores frondosas. Ele
estava carregando o corpo de uma humana inconsciente. “Você fez tudo que podia.” A
poucos passos de distância de Nissa, ele ajoelhou-se e gentilmente colocou a humana na
terra calcária.
A visão de um vampiro cuidar tão ternamente de outro ser vivo era desconcertante. Nissa
franziu a testa, olhando do vampiro para a mulher.
“Não se preocupe, ela não está com dor”, o vampiro murmurou. “Me certifiquei disso. Ela
vai perecer em breve e então ela pode ser enterrada”, ele inspecionou os outros cadáveres
calcários, “com o resto.” Ele se levantou, dando um passo em direção à Nissa.
Instintivamente, ela deu um passo para trás.
O vampiro riu, uma risada sóbria e baixa. “Isso é justo considerando sua história com
vampiros, Nissa.”
Nissa respirou fundo. “Como você sabe o meu nome? O que você está – onde...?” Ela
tropeçou em suas palavras, sua mente girando.
“Tantas perguntas. E eu vou responder a todas elas”, o vampiro ronronou. “Mas, primeiro,
eu tenho uma pergunta para você. Se você não se importar. Por que ainda está aqui? Por
que ainda está em Zendikar?”
Nissa piscou, sua confusão aumentando.
“Eu havia pensado que você tinha partido há muito tempo”, disse o vampiro, “juntamente
com os outros como você. Quando eu tomei para mim a execução desta missão, eu
achava que eu teria que encontrar um à beira da ignição, um a quem eu poderia suplicar
antes de ele ou ela ter o poder de ir embora deste mundo moribundo. Mas encontrar um
Planinauta antes da primeira transplanação é uma tarefa ainda mais impossível do que
possa parecer.”
“Você sabe?” Nissa deu mais um passo para trás. Os pelos em seus braços se arrepiaram.
“Você é...?”
“Eu? Não. Mas eu estou lisonjeado que você pense que minha raça tem o suficiente de
uma alma para alimentar uma faísca.”
“Eu não acho...”
O vampiro levantou as mãos. “Uh, uh, não há necessidade de ferir a boa vontade que você
acabou de construir entre nós. É uma base sólida para a confiança que eu estou a ponto
de colocar em você.”
Confiar? Em um vampiro? Esta criatura tinha a mesma probabilidade de ser um servo de
Ulamog como ele tinha de ser um matador de elfos. Nissa não confiava em vampiros. Ela
aterrou seus pés, se centralizou e trouxe para si o poder da terra para limpar sua mente.
“Não há boa vontade entre nós. Dê-me uma boa razão para não acabar com você onde
você está.”
“Eu tenho quatro boas razões. Vou dar-lhes a você em um momento. Elas são presentes.
De Anowon.”
Nissa estremeceu; ela não tinha ouvido o nome do velho vampiro em muito tempo. Ela
procurou nas sombras. E se ele a tivesse encontrado de novo? Isso era uma emboscada?
“Não entre em pânico, pequena elfa. Não há motivo para preocupação. Anowon não está
aqui.”
“Onde ele está?”
“Eu não sei onde ele está. Ele sumiu há muitos anos. Mas, antes de desaparecer, ele
falava de você com frequência; me contou dos seus poderes, suas habilidades, sua
centelha. Você foi a primeira em que pensei quando eu comecei esta missão, mas eu não
esperava encontrar você ainda aqui. Eu estou muito feliz que encontrei.” Ele pegou um
pequeno pedaço de seda cinza dobrado e ofereceu a ela.
“O que é isso?” Nissa não o tocou.
Com uma segunda exibição de ternura, o vampiro puxou para trás a camada superior,
revelando quatro pequenas sementes que rolaram juntas no centro. Ele apontou para uma
de cada vez. “Kolya, mangue vermelho, jaddi, roseira-de-sangue.”
“Roseira-de-sangue.” O coração de Nissa doía com a lembrança da planta de seu amado
continente natal, mas seus instintos diziam-lhe que ele devia estar mentindo. “Mas Bala
Ged foi destruído.”
“Todo menos esta semente.” O vampiro cuidadosamente dobrou para trás a seda,
reconfortando as sementes. “Você deve entender o que é que eu estou a ponto de lhe
pedir para fazer, Planinauta Nissa, você deve entender como eu espero que você vá salvar
Zendikar.”
Nissa entendia. Ele estava pedindo a ela para levar as sementes... para outro plano.
“Eu sei que pode parecer uma coisa estranha para um vampiro pedir. Mas, nestes tempos
finais, vamos todos nos encontramos fazendo coisas estranhas. Você vê, eu via muito de
mim mesmo nas roseiras-de-sangue de Bala Ged – mortais, urticantes, contorcidas.” Ele
sorriu. “Então, se elas persistirem lá fora em algum lugar”, ele acenou com desdém para o
céu, “então de alguma forma assim também persistirei eu. Também persistirá todo o resto
de nós.” Ele ofereceu-lhe a seda mais uma vez. “Por favor, leve-as.”
Nissa estreitou os olhos, estudando o vampiro. Ela estava tendo dificuldade para entender
esta criatura; ele não era como os outros vampiros que ela conhecera. “Você está falando
sério?”
“Nada poderia ser mais sério do que o fim de um mundo.”
“E você acha que esse é o fim?”
“Eu sei que é.” O vampiro se aproximou e sussurrou: “E você também, Nissa.”
A acusação doeu. O vampiro estava errado. Nissa não achava que isso fosse o fim.
Zendikar ainda estava lutando. Havia ainda uma chance. “Você está errado”, disse ela.
“Estes são tempos difíceis, sim. Mas há muitos de nós que estão dispostos a levantar-se e
ir para a batalha. E a própria terra luta também. Você já experimentou o Turbilhão.”
“Todos valentes esforços, estou certo. Muito parecido com o seu esforço de hoje.” O
vampiro varreu o braço em volta do acampamento corrompido; a mulher que ele tinha
carregado já tinha se juntado às fileiras dos mortos. “O problema é que esforço não é
suficiente. Especialmente quando se está em tamanha desvantagem numérica como você
está.”
“Nós podemos mudar os números. Existem três a menos dessa prole nesta floresta do que
havia esta manhã.” Nissa rebateu.
“E quantos mais foram procriados através do plano hoje para tomar o seu lugar?”
Nissa começou a falar, mas percebeu que ela não tinha nada a dizer.
O vampiro juntou os dedos. “Não é culpa sua. Estas são probabilidades impossíveis. Há
centenas de milhares de Eldrazi e eles vão continuar vindo. Não importa quantos você
matar. Não enquanto os titãs ainda estiverem aqui. Você é uma elfa inteligente, você sabe
que eu estou certo. Você já sabia há muito tempo.”
Nissa arrepiou-se.
“Eu não quis ofender. Estou apenas indicando os fatos. Mesmo você não é poderosa o
suficiente para matar uma titã.”
Era a verdade. Nissa corou. Ela tentou dizer a Zendikar que ela não era suficiente. Se ao
menos ele tivesse escutado.
“Você está apenas adiando o inevitável. Mas você está ficando sem tempo para deixar
Zendikar.”
“Eu não vou...” O vampiro interrompeu Nissa.
“Você vai. É por isso que eu estou contente que nossos caminhos tenham se cruzado
quando cruzaram.” Ele pressionou as sementes em sua mão. “Você é uma poderosa
Planinauta, e você se importa profundamente com Zendikar. Você foi feita para esta tarefa.
Salve nosso mundo, Nissa Revane.”
Ela podia. Pela primeira vez, Nissa sentia que ela poderia fazer o que estava sendo pedido
dela.
Ela tomou as sementes.
Imediatamente, seu rosto inundou de sangue quente de culpa. Lembrou-se do elemental
parado de pé atrás dela. Ela ainda não tinha se acostumado a ter um elemental que não
retornava para a terra quando ela deixava de comandá-lo. Ashaya tinha estado lá o tempo
todo; ela a tinha visto tomar as sementes.
Nissa virou, lentamente, para enfrentar o Mundo Despertado. O elemental se elevava alto
acima dela, estoico perante sua traição. A vergonha se espalhou através das vísceras de
Nissa. “Espere.” Ela olhou de volta para o vampiro... mas ele se fora. Também se foram os
corpos dos mortos.
Ela não fez nenhum movimento para procurá-lo ou persegui-lo. Ela poderia ter feito, mas
não o fez.
Em vez disso, ela ficou lá no campo vazio e corrompido na sombra do elemental, a seda
ficando suada na palma de sua mão. Ela podia sentir a vida das sementes dentro, as
árvores que elas um dia poderiam tornar-se – cada uma delas uma pequena parte de
Zendikar. Então, por que ela devia se sentir culpada por querer salvá-las?

Parte 4 (Final)

“Por que eu não deveria pelo menos tentar?” Ela olhou para Ashaya. “Eu tenho dito a você
todo esse tempo que eu não posso fazer o que você quer que eu faça.” Ela fez uma
pausa, mas é claro que Ashaya não tinha uma resposta. “Mas isso, isso é algo que eu
possa fazer. Pelo menos desta maneira você vai saber”, ela enfiou a seda no bolso, “você
vai saber que Zendikar segue em frente. Isso terá de ser suficiente.”
Ashaya estendeu o braço, mostrando a palma aberta para Nissa. Em seguida, o elemental
formou um punho e puxou-o em direção ao seu peito antes de estender a mão novamente
e desenrolar lentamente cada dedo.
“Eu ainda não entendo”, sussurrou Nissa. “Talvez outro alguém entenderá.”
As palavras de Nissa não pararam Ashaya; o elemental fez o gesto uma segunda vez.
Conforme ele começava uma terceira repetição, Nissa exerceu seu poder sobre ele,
desejando que ele voltasse para a terra, de volta à Zendikar. Já era tempo.
Mas o elemental não deu atenção ao comando de Nissa. Suas raízes não se contorceram
para o chão, seus ramos não cederam.
Nissa empurrou com mais força. “Vá!”
Ashaya aproximou-se mais de Nissa e estendeu sua mão, fazendo o gesto mais uma vez.
“Já chega!” Nissa reuniu suas forças e as dirigiu ao elemental, forçando-o para longe.
Mas ele apenas ficou lá, o braço para frente e para o peito, abrindo sua palma da mão
para o céu.
“Por que você continua fazendo isso? Eu não entendo”, disse Nissa. “Eu não entendo o
que isso significa.” Ela imitou o movimento de Ashaya. “O que é isto?”
Conforme Ashaya fez um punho e puxou-o para seu peito, também o fez Nissa. “Sim eu
vejo isso, mas...” A respiração de Nissa parou. Ela tinha acabado de desenrolar seu
primeiro dedo e fluindo dele estava uma linha verde brilhante, que mergulhava para a terra
do outro lado da corrupção e então surgia novamente mais à frente, serpenteando ao
redor das árvores e torcendo através das folhas das plantas . Ele brilhava com poder.
Não se atrevendo a respirar, Nissa desenrolou seu segundo dedo. Outra linha apareceu.
Esta se estendia em uma direção um pouco diferente e então se lançava para cima,
tecendo através dos ramos mais altos da floresta.
Mais três dedos, mais três conexões poderosas. O mundo se abriu perante Nissa,
brilhando em verde e irradiando poder. Estas eram as linhas de força; Nissa tinha ouvido
falar de seu poder, o poder da terra, do Coração de Khalni, o poder que fluía por todo o
mundo.
Uma última linha de força surgiu da palma voltada para o céu de Nissa. Esta era a mais
espessa das linhas, com o perímetro de uma raiz forte. Ela se estendia desde a palma de
Nissa até Ashaya, enrolando para dentro e para fora das raízes e ramos que formavam o
peito, braços e pernas do elemental. Esta era a linha que ligava Nissa a tudo o que Ashaya
era, esta era a linha que a ligava com a alma de Zendikar.
{Uma só.}
Não eram palavras – não ditas em voz alta – mais do que um sentimento que veio à Nissa
de Ashaya.
{Uma só.}
Então o poder brilhante e verde expandiu-se da palma de Nissa por seu braço acima e
peito adentro, e ela compreendeu. Este poder, estas ligações, elas tinham estado aqui
todo esse tempo, elas eram o que Ashaya vinha tentando mostrar à Nissa. Agora Nissa
sabia como olhar.
Nissa moveu os dedos, um por um, sentindo a rede. Era como se ela tivesse centenas de
novos apêndices, dedos que eram árvores, arbustos espinhosos como punhos, a própria
terra como seus braços e pernas. A força de Zendikar surgiu através dela... e pulsava de
dentro dela.
{Uma só.}
Ela estava errada. Hamadi estava errado. Zendikar não lhe pedira para fazer isso sozinha.
Não a tinha escolhido; não tinha havido nenhuma escolha a fazer. Ela era parte do mundo,
conectada a ele como qualquer outro ser vivo. Uma árvore não escolhe um galho, o galho
é apenas parte da árvore; é um só com a árvore. Quando a árvore cresce, quando a
árvore entorta, ou quando a árvore cai... o mesmo acontece com o galho. E quando o
galho brota folhas ou dá frutos, o mesmo acontece com a árvore. Nissa não poderia ser
escolhida por Zendikar e ela não poderia escolher Zendikar, pois ela era uma só com
Zendikar.
Enquanto Zendikar estivesse em perigo, assim também estaria Nissa. E enquanto o
mundo estivesse lutando, assim também lutaria Nissa. Sem dúvida. Sem hesitação.
{Por Zendikar.} O sentimento irradiou de Ashaya.
“Por Zendikar.” A voz de Nissa respondeu.
{Por Zendikar!} A convicção de Ashaya preencheu Nissa e as linhas de força
incandescente que corriam através dela borbulharam com o poder.
“Por Zendikar!”, ela gritou.
O mundo inteiro se iluminou, refletindo a intensidade de Nissa quando ela correu para
dentro da floresta.
Ela correu ao lado da faixa de corrupção que tinha sido feita pelo Eldrazi de tentáculos
quando ele deixou o acampamento; ela tinha um alvo para sua paixão.
Depois de apenas alguns passos, ficou claro que a floresta era um lugar totalmente novo...
e era incrível.
Embora ela tivesse corrido por entre as árvores inúmeras vezes antes, ela nunca tinha
experimentado nada parecido com isso. Isso, Nissa pensou, é o que significa estar
verdadeiramente ligada à terra.
O mundo reagiu à sua presença. Cada vez que um de seus pés aterrissava, ele
aterrissava em um pedaço liso de chão. Buracos que podiam torcer seu tornozelo
fechavam-se. Raízes que podiam derrubá-la em vez disso embalavam seu pé e a
lançavam em frente, impulsionando-a para o próximo espinheiro que a jogaria em direção
a um galho que a balançaria para um pouso suave em uma cama de musgo. Era assim
que devia ser sendo uma só com Zendikar.
Ashaya corria junto ao lado de Nissa, a sua presença um dom – Nissa não precisa exercer
qualquer energia para fazer o elemental se mover, nem para dirigi-lo em um caminho, pois
Ashaya sabia. Ela sabia onde Nissa iria, ela sabia o que Nissa precisava, ela sabia o que
Nissa sentia.
Ashaya sabia do remorso de Nissa.
E ela sabia da determinação de Nissa para tornar o mundo seguro para que um dia ela
pudesse plantar as sementes que ela agora carregava no solo do próprio Zendikar.
O vampiro estava certo em dar as sementes para Nissa. Ele também estava certo quando
disse que Nissa poderia salvar Zendikar. Mas ele estava errado ao pensar que ela teria
que partir. Ele tinha estado errado ao pensar que ela não podia destruir o titã. Com a força
do mundo atrás dela, com o poder de Zendikar correndo por ela, não havia nada que ela
não pudesse fazer.
Ela olhou para Ashaya. As duas sentiam o mesmo. Corajosas. Poderosas. Prontas.
Juntas, elas eram o suficiente.
A face de uma rocha se separou para deixar Nissa passar, revelando o Eldrazi de
tentáculos. A monstruosidade, não impedida pelo fato de só ter um tentáculo restante,
estava deslizando através de uma cama de flores, deixando a corrupção em seu rastro.
Não mais.
Nissa correu para frente. Pedaços da rocha – a terra juntamente com as silvas e musgo
que cresciam sobre ela – vieram junto com ela, traçando as linhas de força brilhantes que
fluíam através de seus braços, alinhando-se com seus movimentos, tornando-se
extensões de sua própria forma.
{Uma só.}
Quando seus pés tocaram a corrupção por trás do Eldrazi, Nissa se moveu ara atacar. A
terra formou uma lança em torno de sua mão, brilhando de dentro. Ao lado dela, Ashaya
espelhou seus movimentos. Seus golpes foram focados, precisos... e mortais. A lança de
terra cortou o Eldrazi assim como o punho de Ashaya esmagou sua placa óssea.
O horror deixou escapar um ultimo som crepitante última esvaziando antes de entrar em
colapso.
Ele nunca iria causar mal à outra folha de grama sequer de Zendikar.
Nissa ficou de pé acima da forma caída, sua respiração vindo em grandes suspiros. Não
porque ela estava cansada – porque ela estava revigorada, porque ela queria mais. Era
hora de levantar-se. Era hora de lutar. Era hora de salvar o mundo.
Ashaya entendeu o que Nissa sentia; Nissa podia sentir o elemental, também. Ela baixou a
mão enorme, descansando-a no chão bem em frente dos pés de Nissa, aberta,
convidativa.
Quando Nissa pisou no dedo de ramos do elemental, uma rajada de energia verde
brilhante rodopiou em torno dela, enchendo-a a ponto de transbordar. “Por Zendikar!”, ela
gritou.
Ashaya levantou Nissa e colocou a elfa na sela formada pelos dois chifres de madeira
grossa no topo de sua cabeça. As linhas de força brilhantes responderam, costurando de
Ashaya através de Nissa e de volta ao elemental. As linhas mantiveram Nissa segura
quando Ashaya saiu correndo, atravessando a floresta com um passo de gigante após o
outro.
Elas estavam à caça... e sua presa era um titã Eldrazi.
Nissa abriu os braços, enviando um chamado pelas linhas que corriam para fora de seus
dedos.
Em resposta, um exército de elementais do tamanho de Baloths tomou forma. Eles
surgiram ao lado de Nissa e Ashaya, juntando-se à marcha, juntando-se à luta para salvar
seu mundo.

Gideon Jura - MASSACRE NO REFÚGIO


Parte 1

Portão Marinho caiu, juntando-se a Sejiri e Bala Ged na aniquilação, no rastro dos Eldrazi.
Quando a cidade oscilava à beira da destruição, o Planinauta Gideon Jura foi procurar
ajuda: um pensador que pudesse ajudar os estudiosos que fugiam de Portão Marinho a
resolver o “enigma das linhas de força” que poderia inclinar as probabilidades de volta em
favor dos Zendikari. Ele foi para Ravnica e convenceu Jace Beleren a voltar a Zendikar
com ele.
Para Jace, porém, livrar-se das responsabilidades do Pacto das Guildas levou algum
tempo – tempo que os refugiados de Portão Marinho não tinham.
_
Eles entraram na carnificina.
O estômago de Gideon revirou quando a enormidade do massacre entrou em sua mente.
A bandeira roxa de Vorik batia com o vento que chiava desfiladeiro abaixo e agitava o pó
branco e as cinzas negras em redemoinhos por todo o chão explodido. Fumaça ainda
subia de brasas aqui e ali, onde fogueiras haviam se espalhado no caos para engolir
quaisquer abrigos que os defensores tinham construído. A corrupção Eldrazi cobria o
chão, uma malha intrincada de filamentos brancos finos.
E corpos – corpos estavam por toda parte.
Alguns se pareciam com as vítimas de qualquer outra guerra, sangue encharcando o peito
e manchando seus rostos, membros cortados à parte, entranhas derramando de feridas
abertas. Mas mais – muitos mais – tinham parcialmente desintegrado, deixando montes de
poeira onde cabeças ou pernas ou braços tinham estado. O cheiro de sangue e entranhas
se misturou com o odor de carniça dos Eldrazi e virou o estômago de Gideon.
Durante o assalto final sobre Portão Marinho, Comandante Vorik tinha estabelecido um
acampamento aqui, um refúgio para as pessoas que fugiam do avanço Eldrazi. Até onde
Gideon sabia, ele tinha sido seguro – ou tão seguro quanto se pode ser em Zendikar. Ele
estava abrigado em um desfiladeiro estreito cuja boca estava quase completamente
bloqueada por um enorme edro caído. No pior dos casos, o edro servia para afunilar a
aproximação ao acampamento, mas Vorik também parecia colocar alguma esperança na
capacidade mágica do edro para afastar os Eldrazi.
Mas o acampamento de Vorik era claramente não mais um refúgio seguro. A missão de
Gideon tinha levado mais tempo do que pretendia: Jace tinha tido trabalho para atender
em Ravnica e Gideon tinha precisado da atenção de um curador. Em seguida, eles tinham
ido para Regatha em um esforço inútil para recrutar Chandra Nalaar. E, enquanto eles
tinham demorado, os Eldrazi aparentemente sobrecarregaram Vorik e seus defensores.
“Gideon!”
Ele girou sob reflexo e viu Jace agachado defensivamente enquanto um bando de prole
Eldrazi derramava em torno dos destroços de uma parede próxima, esmagando e
deslizando conforme eles se moviam.
Gideon saltou entre os Eldrazi e Jace. Seu sural varreu em torno dele, lançando os Eldrazi
para longe, jogando uns contra os outros e quebrando as placas ósseas sem expressão
que serviam como suas cabeças. Em seguida, o acampamento ficou em silêncio
novamente.
Gideon pegou uma espada curta de lâmina curva que estava semi enterrada em um monte
de pó branco. “Pegue isso”, disse ele, oferecendo o punho para Jace.
Por um momento Jace olhou como se Gideon estivesse entregando-lhe uma cobra, mas,
em seguida, ele pegou a lâmina e a balançou no ar algumas vezes.
“Não é exatamente a minha especialidade”, disse ele.
“Faça o que puder”, Gideon disse a ele.
“Então, onde está este estudioso com quem você quer que eu fale?”
Gideon olhou para o homem muito menor. “Isso é tudo em que você consegue pensar?
Aqui? Agora?”
Jace deu de ombros, mas algo em seus olhos disse a Gideon que o mago da mente
estava apenas cobrindo seu próprio desânimo.
Gideon virou. “Precisamos avançar”, disse ele. Ele olhou em volta para analisar a
configuração da terra. “Desfiladeiro acima. Se alguém sobreviveu a isto, é lá que estarão.”
Mesmo quando ele as disse ele sentiu o peso de suas palavras. E se ninguém tivesse
sobrevivido?
Se ele estivesse aqui, o acampamento não teria caído.
“Você tem certeza disso?”
“Confie em mim”, disse Gideon.
Em seu mérito, Jace assentiu e se aproximou, pronto para seguir aonde quer que Gideon
fosse.
O desfiladeiro se estreitava e se elevava fortemente por trás do acampamento.
Aglomerados de pequenos Eldrazi se dispersavam em torno do desfiladeiro, deixando um
padrão de disseminação na malha calcária atrás deles. Gideon suspeitava que eles
estivessem se alimentando, embora não pudesse imaginar que sustento que poderiam
tirar da rocha nua. Seu primeiro instinto era de destruir todo Eldrazi que ele podia ver, mas
ele tinha Jace para pensar em, e não havia tempo a perder na procura de eventuais
sobreviventes do acampamento de Vorik. Então ele escolheu um caminho ao longo do
terreno rochoso que os manteve longe dos Eldrazi.
Somente um Eldrazi ocasional desviava da maior parte de seus companheiros para vir até
eles. Gideon rapidamente despachava esses retardatários e em pouco tempo ele avistou
um cume rochoso e seu coração se animou.
Um muro bloqueava o desfiladeiro à frente, uma barreira de madeira frágil que parecia que
tinha sido arrancada de um galpão e encravada em um ponto de estrangulamento. Lanças
eriçadas por cima testemunhavam que alguns Zendikari, pelo menos, tinham sobrevivido
ao massacre no refúgio.
Mas entre Gideon e aqueles sobreviventes, centenas de Eldrazi se amontoavam em frente
ao muro, esticando longos tentáculos e garras afiadas para cima e por cima dele. As
lanças atacavam freneticamente qualquer Eldrazi que viesse dentro de alcance, mas era
evidente que os sobreviventes estavam em número bem menor e condenados.
Gideon gritou “Zendikar!” e investiu. Seu sural girou na frente dele, abrindo um caminho
através dos Eldrazi reunidos conforme ele corria em direção à parede caindo aos pedaços.
Uma voz solitária por trás da barricada ecoou seu grito, seguido por um coro irregular
enquanto lanças espetavam com vigor renovado.
“Gideon!” alguém gritou. Seu primeiro pensamento foi de olhar por cima do ombro – ele
tinha esquecido de Jace em sua ânsia de alcançar os sobreviventes. Mas Jace estava
bem atrás dele. O grito vinha de trás da parede, e novamente ele foi repetido por um
grupo, ainda mais alto do que o primeiro.
Ele alcançou a parede e sacudiu o sural para frente e para trás enquanto os Eldrazi
continuavam a pressionar o assalto.
“E agora?” Jace disse.
O sural de Gideon varreu em um amplo arco para abri-lhes algum espaço. Em seguida, ele
entrelaçou os dedos e acenou para Jace. “Para cima.”
“Sério.”
Jace tinha perdido sua chance. Os Eldrazi se aproximaram novamente. Uma onda deles à
sua esquerda chamou sua atenção por um segundo longo demais – quando ele se virou
para a direita, ele viu um membro da prole se contorcendo em direção a Jace. Gideon foi
lento demais. Jace levantou os braços para cobrir seu rosto – e uma força invisível
empurrou a criatura para trás um instante antes que pudesse espetar-lhe com um
apêndice afiado. Não foi um golpe poderoso, mas foi o suficiente para que Gideon tivesse
tempo para botar o seu sural em volta do pescoço do Eldrazi.
Então Jace levantou cambaleando e gritou quando um tentáculo azul doentio enrolou-se
em torno de sua perna. Gideon levantou o primeiro Eldrazi no ar e o jogou no chão em
cima do outro de tentáculos.
“Você está bem?” ele perguntou a Jace.
Jace assentiu com a cabeça e seus olhos brilharam com luz azul quando outro monstro
voou para longe dele, jogado para trás pelo que deve ter sido um golpe telecinético.
Novamente Gideon varreu seu sural para frente e para trás para limpar o caminho. Corpos
Eldrazi foram se acumulando, retardando o avanço do resto do enxame. Ele entrelaçou os
dedos novamente e desta vez Jace prontamente colocou um pé no lugar. Gideon
impulsionou-o e uma mão do outro lado da parede ajudou-o a subir.
De costas para a parede, Gideon enfrentou a multidão restante – prole torcida e zangões
sem rosto, extensões bestiais da vontade alheia do seu titã progenitor, da fome
interminável de Ulamog. Essas criaturas não sabiam quem estava diante delas. Elas não
se importavam que ele era Gideon Jura, o salvador de Forte Keff, o grande caçador de
Ondu, o campeão de Kabira. Para elas, ele era apenas mais um pedaço de carne, uma
coisa com vida a ser drenada.
Mas as pessoas por trás da parede sabiam. Ele era a esperança para eles, a única chance
de sobreviver a esta terrível ameaça, a sua salvação e libertação. Isso era o que ele tinha
sido para inúmeros soldados através de Zendikar, e agora ele tinha que fazê-lo
novamente.
“Eu só espero que não seja tarde demais”, ele disse para si mesmo.

Gideon Jura - MASSACRE NO REFÚGIO


Parte 2

Ele se manteve firme e lutou, varrendo seu sural para trás e para frente, sua mente
preocupada em falar com os sobreviventes e levar Jace em segurança até Jori En.
“Gideon!” veio um outro coro de trás da parede.
Já era tempo. Uma prole maior com pesadas placas ósseas em sua cabeça vinha
correndo na direção dele. Ele agachou-se, esperando o momento perfeito, então saltou.
Um pé desceu sobre a cabeça do Eldrazi, então ele pulou para cima, virou para trás no ar
e saltou por cima do muro.
Seus pés levantaram nuvens de poeira quando ele caiu e olhou para os sobreviventes do
acampamento de Vorik.
Oito soldados abatidos estavam sentados com as costas contra a parede, evidentemente
aproveitando o momento de descanso que Gideon os trouxera. O som de chiados e
arranhões na parede disse-lhes que o descanso acabara, e eles puseram-se de pé
novamente, apoiando-se sobre as suas lanças.
O sural de Gideon derrubou um Eldrazi fora do topo da parede.
“Diga-me que vocês não são os únicos sobreviventes”, disse ele.
Um dos soldados, uma kor, apontou sua cabeça em direção ao ponto mais alto do
desfiladeiro. “Comandante Vorik está conduzindo o resto”, disse ela. “Mas a maioria deles
está em situação pior do que nós.”
Considerando a quantidade de bandagens e talas que adornavam estes oito soldados,
isso dizia muito. Gideon franziu a testa.
“Quantos?” ele perguntou.
A mulher balançou a cabeça. “Algumas dúzias.”
“Eu deveria ter estado aqui”, disse Gideon sob sua respiração.
Ela fez um meio golpe com sua lança em uma Eldrazi que vinha por cima do muro, seu
rosto dizendo a Gideon que ela estava apenas fingindo não tê-lo ouvido.
“Vorik tem um plano? Aonde está ele está os levando?”
“Eu acho que sair da armadilha mortal que é este desfiladeiro é seu primeiro objetivo. Eu
não tenho certeza se ele pensou além disso.”
Jace bufou. “Que tipo de líder...”, ele começou.
“Não, ele está certo”, disse Gideon. “Todos nós precisamos sair deste desfiladeiro. Eu vou
proteger esse muro, enquanto eu puder.” Seu sural pontuou suas palavras conforme mais
Eldrazi caíam mortos aos seus pés. “Vá juntar-se aos outros, e leve Jace com você.”
A kor assentiu, sem se preocupar em esconder seu alívio. E, Gideon observou, sem se
preocupar em questionar se ele poderia proteger o muro por muito tempo. Sua reputação
tinha se espalhado amplamente.
“Jace”, ele disse, “quando você chegar aos outros, procure por uma tritã chamada Jori En.
Diga a ela que eu trouxe você para ajudar com o enigma e ela te dará tudo o que sabe.”
“Supondo que ela ainda esteja viva”, disse Jace.
Pavor deu um nó no estômago de Gideon. Ele não queria colocar essa dúvida em
palavras. Ele não tinha visto Jori En entre os mortos no acampamento abaixo, mas isso
não significava nada. Ela poderia ser poeira voando ao vento, ou talvez ela sequer tivesse
escapado de Portão Marinho. Talvez ele tivesse trazido Jace até aqui para nada.
O que fazia a ausência prolongada de Gideon ainda mais indesculpável. Ele provou bile.
“Vão!” ele gritou, e os soldados mancaram para longe da parede o mais rápido que
conseguiam.
Sem ter que se preocupar com Jace, Gideon poderia dar aos Eldrazi toda a sua atenção.
Agora que os soldados tinham ido embora, os Eldrazi se arrastavam sobre e ao redor da
parede mais rápido do que Gideon conseguia pô-los abaixo. Ele entrou em um ritmo fácil
de abate, uma dança que já havia se tornado natural para seus músculos. Seu sural
estalava e assobiava, luz dourada brilhando ao longo do comprimento das quatro lâminas
em forma de chicote conforme ele canalizava sua magia através dele. Seu escudo
alternadamente desviava golpes e se tornava uma arma em si, golpeando placas ósseas e
quebrando membros. E ondas de energia corriam através de sua pele onde os Eldrazi
ameaçavam tocá-lo, protegendo-o de dano.
Manter suas defesas era, na verdade, a tarefa mais difícil. Contra inimigos humanos, era
fácil prever cada golpe e investida e, portanto, certificar-se de que qualquer ataque que
passasse de seu sural e seu escudo acertaria pele fortificada com sua magia. Contra
inimigos humanos, ele era praticamente invulnerável.
Contra os Eldrazi, porém, ele era mais suscetível a lesões. Especialmente quando ele
estava cansado, como tinha estado há dias. Seus movimentos eram mais difíceis de
antecipar. Seus membros eram bifurcados ou eram massas de tentáculos contorcidos. Ele
muitas vezes acabava protegendo mais de seu corpo do que precisava, o que drenava sua
energia, ou calculava mal e era acertado. Isso tinha acontecido vezes demais na última
semana.
Por mais que ele odiasse admitir isso, se Jace não tivesse o arrastado para ver aquele
curandeiro em Ravnica na noite anterior, ele poderia não ter sido de grande ajuda na
defesa do acampamento de qualquer maneira. Ele poderia ter sido morto.
Ele olhou por cima do ombro enquanto os cadáveres Eldrazi se empilhavam ao seu redor.
Jace e os Zendikari estavam fora de vista. E, na frente dele, parecia que o avanço Eldrazi
estava começando a diminuir.
O que podia significar apenas que tinham encontrado uma rota mais fácil para os
saborosos pedaços de carne Zendikari atrás dele. Ele começou a recuar pelo caminho até
o desfiladeiro, seu sural agarrando e cortando os Eldrazi que o seguiam. Ocasionalmente,
também, ele batia no alto do lado do desfiladeiro, enviando uma chuva de cascalho ou
alguns pedaços maiores de rocha para baixo sobre os Eldrazi.

Parte 3

Então, um enorme Eldrazi surgiu atrás dele – não Ulamog, mas algo muito parecido com o
enorme titã. Ele não tinha pernas, apenas uma massa de tentáculos emaranhados, e ele
se arrastava ao longo do terreno acidentado com seus braços, fazendo a terra tremer cada
vez que uma enorme mão atingia o chão. Placas ósseas subiam por trás de seus braços e
cobriam seus ombros, de forma que a sua cabeça era apenas mais uma placa entre
muitas. Um emaranhado de tentáculos subia em direção ao céu da parte de trás de sua
cabeça.
Uma grande garra bateu no chão, esmagando um pequeno Eldrazi em uma erupção de
gosma arroxeada. Nem o gigante nem a prole nas redondezas pareceu se importar.
Gideon plantou os pés e respirou fundo, preparando-se. Como você ganha uma guerra,
ele se perguntou, quando o inimigo não tem medo da morte e nem nada a perder? Eles
nunca se cansavam, eles aparentemente se alimentavam de tudo – então o que iria parar
seu avanço? Quantos ele tinha matado aqui neste desfiladeiro, apenas hoje? E eles ainda
continuavam vindo.
Agora o Eldrazi levantava a parte superior do corpo enquanto pairava sobre Gideon, com
mais de duas vezes a altura dele. O que parecia quase como uma segunda cabeça e um
segundo tronco se projetava para frente do peito da coisa, contorcendo-se de forma
independente do corpo maior, como se tentasse se libertar.
Isso era para assustá-lo, mostrando o seu tamanho muito maior? Ou era algo mais como
uma exposição animalesca de ameaça, como o pelo eriçado de um lobo fazendo com que
pareça maior? Havia alguma intenção calculada por trás daquela cabeça de placa óssea?
Não importava. Uma daquelas grandes garras veio descendo em direção a Gideon. Com o
mínimo movimento de seu braço, ele colocou seu sural em torno da mão da criatura e
então ele puxou, tirando o equilíbrio do Eldrazi.
Não. Esse movimento teria tirado o equilíbrio de um humano, ou mesmo um gigante. Mas
os tentáculos do Eldrazi mal se deslocaram no chão, mantendo-o perfeitamente de pé.
Sem hesitar, ele atacou Gideon com sua outra garra. Ele golpeou a garra de lado com seu
escudo e atacou com seu sural para cima, onde ele cortou e se enrolou no pescoço da
criatura.
Pescoço? Cabeça? Ele não tinha certeza se as palavras sequer faziam sentido quando
aplicadas a um Eldrazi. Ele inspirava ar de alguma abertura na sua cabeça, descendo por
sua garganta até os pulmões em seu peito? Estava o cérebro localizado atrás daquela
placa óssea na parte superior do seu corpo? Ele sequer tinha um cérebro, ou pulmões, ou
um coração, ou quaisquer órgãos vitais e vulneráveis? De todos os Eldrazi que ele havia
matado, ele nunca tinha aberto um e estudado sua anatomia, e ele tinha visto muitos
continuarem a lutar apesar do que ele teria considerado serem feridas mortais.
E este parecia despreocupado enquanto o sural de Gideon apertava em torno de seu
pescoço. A massa de tentáculos que dava apoio à criatura avançou e o engolfou,
enrolando-se em torno dele e apertando. Luz dourada brilhou e ondulou ao longo de todo o
seu corpo, protegendo-o de qualquer lesão, mas manter esta proteção drenaria sua
energia tão rapidamente quanto o Eldrazi o sufocaria se ele não a mantivesse.
Chutando e se debatendo, ele conseguiu soltar o aperto da criatura o suficiente para que
ele pudesse puxar seu sural, arrastando a cabeça do Eldrazi para baixo. Então, em um
palpite, ele usou a mão do escudo para socar a segunda cabeça menor que crescia de seu
peito.
Foi um bom palpite. Os tentáculos soltaram seu aperto. Gideon soltou seu sural do
pescoço do Eldrazi e a criatura cambaleou para trás, depositando-o no chão. Mais dois
ataques rápidos com as lâminas brilhantes decapitaram primeiro a cabeça menor e depois
a maior, e o Eldrazi caiu morto no chão.
Gideon não teve tempo para comemorar sua vitória. Enquanto ele tinha lutado contra o
Eldrazi maior, pelo menos uma dúzia da prole tinha deslizado por ele, seguindo Jace e os
soldados Zendikari na direção dos outros sobreviventes, e mais estavam avançando a
cada segundo, subindo sobre o cadáver Eldrazi. Abatendo com seu sural cada monstro
rastejante que ele conseguia alcançar, ele caminhou pelo desfiladeiro acima.
As paredes rochosas do desfiladeiro ficavam cada vez mais próximas conforme o chão se
elevava. Por fim, com seu corpo coberto de gosma e sangue de dezenas da prole Eldrazi,
ele chegou a um ponto de estrangulamento estreito onde paredes de pedra se abriam
apenas o suficiente para ele passar. Ele pulou para cima por alguns degraus de pedra
natural e parou por um momento na abertura estreita, examinando a multidão da prole que
ainda subia o desfiladeiro atrás dele.
Ele correu mais alguns passos além da abertura. Quando o desfiladeiro se abriu de novo
ele parou, virou-se e atacou com seu sural – uma vez, duas vezes – golpeando as paredes
de pedra e fazendo chover escombros de ambos os lados do fosso sobre os Eldrazi
abaixo. Mais golpes, as lâminas em chicotes estalando como a picareta de um mineiro na
pedra, e pedras maiores foram cortadas das paredes, esmagando mais da prole e
impedindo o avanço dos que estavam atrás. Mais alguns acertos cuidadosamente
colocados e ele tinha criado uma muralha defensiva.
Ela não iria durar, é claro – não melhor do que aquela que os Zendikari tinham erguido em
sua retirada. Ele podia ouvir os Eldrazi raspando e arranhando as pedras, deslocando os
escombros conforme eles começavam a subir. Mas com um pouco de sorte, a parede iria
comprar-lhe tempo suficiente.
Ele decolou em uma corrida, saltando de pedra em pedra enquanto se aproximava do topo
do desfiladeiro. Então, finalmente, ele ouviu a voz de uma mulher gritando ordens e, um
momento depois, os sobreviventes Zendikari entraram em vista.
“Tão poucos”, disse ele a si mesmo. Poucas dúzias, a soldado havia dito – muito poucas,
se ele estava vendo todo o grupo. Do alto do desfiladeiro, eles estavam fazendo seu
caminho ao longo de um cume elevado. Ele viu muitas muletas, muitas macas
improvisadas seguradas por soldados mancando e ataduras em quase todos os corpos
vivos.
O manto azul de Jace se destacava entre os cinzas e marrons, os tecidos lisos e roupas
cobertas de sujeira dos Zendikari. O mago da mente estava em pé ao lado de uma mulher
humana de armadura. Gideon correu para se juntar a eles.
“Você conseguiu”, disse Jace. Isso foi um toque de admiração em sua voz?
A mulher se virou para ele e suas sobrancelhas levantaram em reconhecimento. “Você
deve ser Gideon”, ela disse.
“Você a encontrou?”, ele perguntou a Jace. “Jori En?”
Jace balançou a cabeça. “Eu perguntei a todos.”
“Ela... Será que ela...”
“Ela nunca chegou ao acampamento. Um dos tritões disse que ela nunca saiu de Portão
Marinho.”
O peito de Gideon apertou. “Ela morreu lá?” Ele a tinha deixado no meio da batalha,
abandonado-a para fazer seu próprio caminho até o acampamento enquanto ele partia
para encontrar Jace. Se ela estava morta, a culpa era dele.
“Provavelmente”, disse Jace. “Mas talvez não. O homem com quem conversei disse que
um pequeno grupo ficou preso, cortado da evacuação. Ele acha que Jori En estava entre
eles, e eles poderiam ter encontrado abrigo.”
“Então eles ainda poderiam estar vivos. Eles ainda poderiam estar em Portão Marinho.”
Seus ombros caíram com o pensamento do que ele tinha que fazer a seguir.
A mulher limpou a garganta. “Eu sou Tazri”, disse ela.
Ela era uma mulher de pele escura em elaborada armadura de placas, adornada com
pequenas asas em seus ombros e um anel de metal brilhando como a auréola de um anjo,
mas em torno de seu pescoço. Uma maça pesada estava pendurada em seu cinto.
“Desculpe”, disse Gideon. Ele estendeu a mão, as lâminas de seu sural estiradas no chão.
Ela pegou a mão dele animadamente, olhando sua arma. “Estou feliz que você esteja
aqui.”
“Onde está o Comandante Vorik?” Perguntou Gideon.
“Bem aqui”, veio uma voz rouca por trás de Tazri.

Gideon Jura - MASSACRE NO REFÚGIO


Parte 4 (Final)

Tazri virou-se e Gideon viu Vorik. Ele era um homem de porte forte com pele marrom
escura e com cabelo cacheado grisalho cortado curto. Seu peito sem camisa estava
enrolado em bandagens, e um pouco de sangue havia vazado através delas ao seu lado
esquerdo. Ele se inclinava sobre uma bengala enquanto caminhava em direção a eles.
“Olá, Gideon”, ele disse, sua voz um sussurro áspero.
“Senhor”, disse Gideon, escondendo a preocupação de seu tom. Vorik era um homem
orgulhoso e Gideon sabia que era melhor não auxiliá-lo. “Nós não temos muito tempo. Eu
diminuí o avanço Eldrazi, mas eu não consegui pará-los.”
“Gideon Jura, o salvador de Fort Keff”, disse Vorik, um toque de admiração em sua voz.
“Talvez agora nós devamos chamá-lo de o defensor do desfiladeiro de Vorik.”
Gideon olhou para o chão. “Eu deveria ter estado aqui mais cedo.”
“Sim”, Vorik disse categoricamente. “Nós poderíamos ter usado você.”
“Qual é o seu plano, senhor?”
Vorik deu um suspiro profundo. “O que podemos fazer se não continuar fugindo? Cerca de
cinco quilômetros abaixo deste cume há outro edro caído na frente de uma grande
saliência. Isso vai dar um acampamento tão bom quanto qualquer outro.”
Gideon franziu a testa. “Uma entrada protegida é bom. Mas não há saída?”
“Se não pudermos impedi-los de lá, estamos condenados de qualquer maneira. Não há
nenhuma maneira de que nós possamos ser mais rápidos que eles, mesmo se o grande
defensor do desfiladeiro de Vorik estiver por aqui desta vez.”
Gideon olhou ao redor do cume, coçando o queixo. Eles estavam na crista da Bulwark, o
grande anel de montanhas que cercavam Tazeem, embora o anel fosse mais baixo aqui,
perto de Portão Marinho, do que era do outro lado da ilha. À sua direita, o terreno inclinava
gradualmente para baixo até Halimar, o grande mar interior, alimentado pelos muitos rios
de Tazeem e mantido no lugar pela enorme represa que era a cidade de Portão Marinho.
À esquerda, uma ladeira muito mais acentuada levava até o oceano. A curva da terra e as
árvores emaranhadas de Matavasta escondiam a visão de Portão Marinho.
Algumas edros estavam parados imóveis no ar nas proximidades, caídos a meio caminho
do campo de edros que flutuava acima de Tazeem até o mar abaixo. Gideon deixou seu
olhar derivar-se para o campo de edros. Cordas pendiam de vários dos edros mais baixos
e conectavam alguns dos que pairavam no céu.
“Eu tenho outra ideia”, disse ele.
Vorik fez uma careta para ele. “Você conhece um lugar melhor?”
“Eu acho que conheço. Olhe.” Ele apontou para o edro mais próximo. “Há praticamente
uma escada esperando por nós.”
“Você ficou louco?” Tazri disse. “Você tem duas dúzias de pessoas aqui que mal podem
andar e você espera que eles subam cordas e escalem edros?”
“Sim. Para muitos deles, será mais fácil do que andar. E com ganchos e cordas o
suficiente, nós podemos ajudar os outros a subir.” Ele se voltou para Vorik. “Senhor, com o
grande número de Eldrazi no chão aqui eu acredito que não há nenhum outro lugar que
possa oferecer um nível de proteção semelhante.”
“Tudo bem”, disse Vorik. “Nos mostre o caminho.”
Tazri ficou boquiaberta com seu comandante. “Senhor?”
“Gideon está certo, Tazri”, disse Vorik. “Ajude-o a preparar as pessoas.”
Juntos, Gideon e Tazri trabalharam rapidamente, apesar de suas reservas. Primeiro eles
falaram com os kor entre os sobreviventes, com base em sua habilidade com cordas.
Enquanto alguns kor trabalhavam para construir arreios e fundas que poderiam transportar
os feridos até as alturas, outros escoltaram o caminho e fixaram cordas no lugar para
facilitar a subida. Em seguida, eles distribuíram quaisquer suprimentos escassos que os
sobreviventes conseguiram levar consigo de Portão Marinho e do refúgio destruído, dando
pacotes mais pesados para aqueles que eram fortes o suficiente para carregá-los. Em
apenas algumas horas, eles estavam prontos para começar a escalada.
Os batedores kor lideraram o caminho, com Gideon logo atrás deles. Ele usou seu sural
muito como eles usaram suas cordas, apesar de suas lâminas em chicotes não serem tão
longas. Faltava a ele a graça esbelta deles, mas ele compensava isso com força e
velocidade. Jace, porém, não era um alpinista experiente nem qualquer tipo de atleta. Ele
vinha atrás de Gideon, oferecendo alguma assistência para os kor que estavam
carregando os que estavam feridos demais para moverem-se.
A maioria dos edros, inclinados obliquamente no ar, oferecia uma superfície relativamente
lisa e nivelada para se mover longitudinalmente. Era mais fácil engatinhar – o que era a
razão para que Gideon tivesse dito que poderia ser mais fácil do que andar para alguns
dos feridos. Cruzar em cordas por entre edros era mais desafiador, um ato tanto de
equilíbrio quanto de coragem. Mas estes eram povos resistentes, acostumados à vida em
Zendikar com todos os seus perigos. Eles fizeram a subida sem queixas, sem erros, e sem
mais lesões.
Um enorme edro perto da borda inferior de Emeria oferecia uma superfície
adequadamente grande e plana para estabelecer um novo acampamento, pelo menos em
curto prazo. Ele também oferecia uma vista espetacular de Tazeem, com todos os seus
rios correntes, bosques emaranhados e lagos cristalinos. O Halimar brilhava à luz do
crepúsculo e Portão Marinho...
Gideon olhou longa e duramente para Portão Marinho. Mesmo a essa distância, ele podia
ver a corrupção Eldrazi se espalhando por toda a cidade. Prédios tinham virado pó ou sido
transformados em uma elaborada malha branca. A grande represa, que mantinha as
águas do Halimar, não mostrava sinais de corrupção ainda. Mas quanto tempo ela
resistiria? Por quanto tempo ficaria de pé o seu farol?
“E agora?” Jace perguntou, assustando-o e tirando-o de suas reflexões.
”Jori En ainda poderia estar lá”, disse ele, apontando para a cidade. “Eu tenho que ir
encontrá-la.” Se ele não conseguisse encontrá-la, então teria sido tudo por nada. Ele havia
abandonado Portão Marinho para ir encontrar Jace para que o mago da mente pudesse
ajudar Jori a resolver um quebra-cabeça mágico. Gastar esse tempo com Jace tinha
significado que ele não tinha estado no acampamento de Vorik quando os Eldrazi vieram e
todas aquelas pessoas tinham morrido. Se ele não conseguisse encontrá-la, eles teriam
morrido por nada.
“Improvável”, Jace disse suavemente. “Dado o que sabemos, ela está provavelmente
morta. Devemos encontrar outra abordagem.”
“Você deve”, disse Gideon. “Não temos as notas de Jori, mas talvez você possa descobrir
do que ela estava falando. Ela disse linhas de força e edros. Tem muitos edros por aqui –
veja o que você consegue aprender. E eu vou encontrar Jori En e trazê-la de volta aqui.”
“É uma missão tola”, disse Jace, como Gideon sabia que ele diria.
“Não importa. Eu tenho que encontrá-la. Se eu não fizer, então para que foi tudo isso? Por
que eu trouxe você aqui quando eu poderia ter estado aqui defendendo o acampamento
desde o início? Se você e Jori En não resolverem esse enigma dela, então foi tudo por
nada.”
“É tudo por nada se você morrer tentando encontrá-la em uma cidade repleta de Eldrazi.”
“Jace.” Gideon colocou a mão no ombro do mago da mente. “Olhe para o que fizemos
hoje. Grandes feitos estão à frente para nós dois. Confie em mim.”
Jace saiu de baixo de sua mão, deu um passo para trás para fora de alcance, e o encarou
os olhos. Ele abriu a boca para falar, depois parou.
“Confie em mim”, disse Gideon novamente.
“Eu confio”, disse Jace, com um toque de admiração em sua voz. “Eu ainda acho que é
tolice, mas eu confio.”
“Obrigado. Eu estarei de volta assim que puder.”
“Eu acredito que sim”, disse Jace. “Boa sorte.”
“Para você também.” Ele se virou e caminhou ao longo da borda da face do edro, fazendo
um grande círculo ao redor do acampamento até que alcançou a corda que levava para
baixo. Sorte, habilidade, o poder da sua magia, as lições de seu treinamento – Gideon
necessitaria de tudo isso, com certeza.
“Eu tenho que fazer isso”, ele disse para si mesmo, segurando a corda. “Eles não podem
ter morrido por nada.”

Nissa Revane - O GRITO SILENCIOSO


Parte 1
Tendo finalmente deixado de lado a dúvida e o medo que estava a contendo, Nissa se
uniu plenamente com o poder da terra, a alma de Zendikar. Sua conexão lhe permite
mover-se em sintonia com o imponente elemental de árvores, Ashaya, coordenar ataques
com fileiras de elementais menores e manejar aspectos da floresta – árvores, vinhas, terra
e folhagem – como extensões de seu ser em sua batalha contra os Eldrazi. Ela carrega
consigo um pacote de sementes de árvores que foram dizimadas pelos Eldrazi, e ela não
vai parar até que ela possa plantá-las com segurança em Zendikar novamente.
Ela luta com um único foco: procurar e destruir o titã Eldrazi progenitor da prole, a fim de
salvar Zendikar – seu casa, seu mundo, seu amigo.
_
Como foi que Nissa viveu neste mundo – este tenaz, encantado e lindo mundo – por tantos
anos e ainda assim perdeu tanto?
Todos os dias havia algo novo, algo que Zendikar ensinava a Nissa que a surpreendia e
encantava. A terra tinha centenas de segredos magníficos e estava compartilhando-os
com ela.
Ela nunca teria imaginado que os louva-a-deus gigantes secretavam um perfume
destinado a simular o odor de minhocas frescas e, assim, atrair pequenas aves – mas não
para servirem de presas aos louva-a-deus e sim com o propósito de cantar para eles. As
canções eram uma das poucas coisas capazes de embalar os louva-a-deus em um sono
fácil.
Nem teria ela sabido que as videiras enroladas entre as gigantes árvores-coração que
cresciam próximas uma da outra na Floresta de Matavasta eram mais como braços do que
videiras – braços que estavam de mãos dadas. Cada videira crescia dos troncos de duas
árvores; ela não pertencia a uma árvore mais do que à outra, ela era dividida igualmente
entre elas, um laço que prendia as árvores. As videiras ligavam uma árvore-coração com a
sua companheira escolhida e permitia as duas compartilhar memórias, sentimentos e
sonhos.
Estas árvores eram ligadas para sempre; elas casavam para a vida inteira.
E os gnarlids, os bobos, brutos e sorrateiros gnarlids; eles tinham um ritual que eles
conseguiram manter escondido de quase todo mundo em Zendikar. Nas noites mais
escuras, quando não havia lua mas o céu estava claro, os gnarlids escalavam as árvores
mais altas, elevando a cabeça acima das copas, e eles riam para as estrelas. Pequenos
sussurros que para qualquer outra pessoa que escuta soavam como nada mais do que as
folhas dos galhos mais altos farfalhando ao vento. Era uma piada interna destinada
apenas para eles.
Igualmente impressionante era a tribo de humanos que vivia no menor pavilhão de árvores
de Matavasta – não em um acampamento central, mas se espalhando através da vastidão
da floresta. Cinco ou seis seres humanos compartilhavam cada aldeia de casas na árvore,
e havia mais de uma dúzia de aldeias. A tribo era capaz de ficar bem informada dos
movimentos e necessidades uns dos outros graças a seus antepassados, que haviam
estudado de perto a linguagem das preguiças tagarelas. As pessoas enviavam mensagens
umas para as outras falando com a preguiça tagarela mais próxima. Era apenas uma
questão de minutos ate que a preguiça repassasse a fofoca para os seus vizinhos, que iria
passá-la através da rede de moradores de árvores. Logo, todos os humanos na tribo
saberiam da notícia da aldeia graças aos pequenos traficantes de fofocas.
Hoje, a mensagem era uma chamada de socorro.
Ashaya retransmitida para Nissa enquanto ela acordava do sono com a primeira luz da
aurora.
Aldeia Distante-árvore sob cerco. Dois Eldrazi. Enviem ajuda.
Elas iriam.
Sim. É claro que elas iriam.
Sempre que algo de fora deste mundo punha em perigo até mesmo a menor das criaturas
de Zendikar, seja um animal da selva, um peixe do mar, ou uma flor das planícies, o
mundo se levantaria contra a ameaça. Nissa e Ashaya eram o mundo; enquanto elas
estivessem juntas, nada que pertencia a Zendikar teria que ficar sozinho.
Elas seguiram a conversa das preguiças de volta até a fonte, correndo juntas passo a
passo, a floresta se abrindo em torno delas para liberar a passagem. Não demorou até que
elas pudessem sentir os Eldrazi, sentir a destruição e dor que as monstruosidades
estavam causando. Mas a fofoca estava errada; havia três Eldrazi, não dois. Nissa e
Ashaya podiam sentir distintamente três.
“Nós temos que ir mais rápido”, disse Nissa.
Ashaya desacelerou apenas por tempo suficiente para oferecer a Nissa uma enorme mão
de ramos, botando-a aberta no chão da floresta perante a elfa. Nissa pegou o polegar de
Ashaya e subiu na palma da mão do elemental. Um arrepio de poder, de pertencer aqui,
de Zendikar, correu através dela conforme Ashaya a levantava até a fenda que servia
como sela no topo dos seus ramos.
Nissa entrou no lugar entre os dois chifres de madeira grossos do elemental. De lá, ela
podia ver por cima das muitas das árvores enquanto Ashaya corria pela floresta. Os
passos largos de Ashaya as moviam duas vezes mais rápido do que Nissa poderia correr
sozinha. Elas avistaram uma colina baixa antes que a próxima rodada de fofocas das
preguiças tagarelas desaparecesse e de lá elas podiam ver os Eldrazi.
Havia três, assim como Nissa tinha sentido, e cada um estava deixando um rastro de
corrupção por trás dele enquanto se movia. As trilhas corriam como riachos através de
Matavasta.
Duas das monstruosidades estavam movendo-se muito próximas uma da outra, os seus
caminhos destrutivos correndo em paralelo. Eram altos e compartilhavam a mesma
estrutura corporal com placas faciais ósseas, longos tentáculos como suas pernas e
tentáculos que saíam de trás de suas cabeças. Eles estavam em curso para a aldeia de
casas na árvore e a dúzia de humanos que haviam se juntado para defendê-la.
O outro Eldrazi era muito menor. Ele estava se movendo sozinho, deslizando sobre
tentáculos rosa como minhocas mais do que andando, fora do curso de seus semelhantes.
Este Eldrazi estava indo direto em direção a um bosque de antigas e altas árvores
coração.
Ashaya parou de repente. Qual o caminho que elas deviam seguir?
Nissa endureceu, um aperto no estômago.
Devia haver apenas um alvo: a aldeia. Mas havia dois. Duas famílias estavam sendo
ameaçadas, duas comunidades precisavam desesperadamente da sua ajuda.
Qual o caminho que elas deviam seguir? Ashaya não sabia.
Chegar à aldeia e ao bosque em tempo não era uma garantia. Os dois eram muito
distantes, e os Eldrazi estavam muito perto de seus alvos.
Por uma fração de segundo, nem Nissa nem Ashaya se moveram.
“Nós temos que dar a maior ajuda que podemos dar”, Nissa disse finalmente. Ela apontou
para a aldeia e os Eldrazi gêmeos. “Temos que ir por esse caminho.”
Ashaya concordou. Dois primeiros. Dois, porque dois causavam mais destruição do que
um.
“E depois aquele um.” Nissa apontou para o terceiro Eldrazi minhoca.
Elas iriam chegar às árvores coração em tempo. Não iam?
Nissa empurrou a dúvida de lado. Um chamado tinha sido feito.
Ashaya correu descendo a colina em direção à aldeia. Em questão de momentos,
chegaram ao conjunto de casas nas árvores.
Os Eldrazi gêmeos pairavam altos e os humanos estavam fazendo sua defesa nas
árvores, brandindo suas armas – suas espadas e lanças, arcos e punhais – armas que
nunca seriam suficientes para estes enormes inimigos. Mas Nissa poderia enfrentar os
Eldrazi; com Zendikar ao seu lado, ela poderia enfrentá-los.
O mais próximo dos dois Eldrazi estendeu seu braço bifurcado, balançando os galhos
onde os humanos estavam concentrados.
Ele foi recebido com gritos e golpes, mas não o suficiente para tirá-lo do curso; ele jogou
um dos humanos para fora de seu poleiro.
Ashaya reagiu, alcançando a figura em queda, arrancando o homem do ar e colocando-o
em terra firme.
O homem olhou para o imponente elemental pasmo.
“Se afaste!” Nissa gritou para ele. Ela pulou da sua montaria na cabeça de Ashaya. “Para
lá.” Ela apontou para uma grande rocha que iria proporcionar uma cobertura temporária.
“Vá!”
O homem hesitou por um momento, mas então decolou em uma corrida agachado.
Nissa olhou para Ashaya. “Nós temos que tirar os outros de lá.”
Ashaya mergulhou a mão enorme para os galhos das árvores, tirando duas mulheres e um
homem da copa, e virou-se para depositar os humanos confusos e aterrorizados ao lado
do homem atrás da rocha.
Nissa conhecia uma maneira mais rápida. Ela estendeu a mão e a mente, fazendo o gesto
que Ashaya lhe tinha ensinado, o gesto que a abriria ao poder do mundo.
Na próxima vez que ela piscou, o mundo estava em aceso. Linhas de força verdes
brilhantes costuravam a aldeia, atravessando as casas nas árvores, as pessoas e as
próprias árvores. Era uma rede de poder e Nissa estava no nexo dela.
“Segurem-se firme aí em cima!” Ela gritou para o resto dos humanos nas árvores.
Agora todos eles já haviam se virado para ver o elemental gigante que estava tirando-os
das árvores. Seus olhares horrorizados diziam que eles não sabiam para onde apontar
suas armas. Para eles, isso devia parecer como se o perigo estivesse se aproximando de
todos os lados.
“Está tudo bem”, Nissa gritou. “Estamos aqui para ajudar. Vou levá-los para baixo!”
Ela jogou seu braço para frente, alinhando-a com a linha de força que percorria o tronco da
árvore mais grossa. Conforme ambos os monstros Eldrazi atacavam com todas as suas
oito mãos, Nissa puxou a árvore, comandando-a a se dobrar para ela. A árvore obedeceu.
Ela mergulhou para baixo como se estivesse realizando uma reverência. O povo se
agarrava a suas folhas e ramos, oscilando para os lados na copa – e os dedos famintos
dos Eldrazi passaram através de nada mais do que o ar.
“Vamos lá! Por aqui.” Nissa acenou para as pessoas chegarem à rocha. “É seguro lá.”
Com apenas ligeira hesitação, eles soltaram da árvore e caíram, correndo assim que seus
pés tocaram o chão. Os Eldrazi estavam rangendo agora, seus membros se debatendo em
direção à árvore dobrada.
“Fiquem aí”, Nissa instruiu o grupo. “Nós vamos pará-los.”
“Obrigada.” Uma das mulheres pegou Nissa pela mão enquanto os outros passavam
correndo. “Pelos anjos da terra, obrigada.”
“Vá!” Nissa fez um gesto para a mulher correr e quando ela se juntou aos outros por trás
da rocha, Nissa estendeu a mão através das linhas de força que passavam através do solo
em torno dele.
Ela puxou a própria terra, rolando-o para cima para formar um muro baixo, uma barreira
protetora ao redor das pessoas, usando a rocha como um ponto de ancoragem.
Eles estariam seguros, eles não seriam prejudicados. Mas as árvores coração... A mente
de Nissa derivou.
Eles estavam perdendo tempo.

Parte 2

Ashaya a puxou de volta.


Aqui. Havia dor aqui. Havia necessidade aqui.
“Você está certa.”
Com as pessoas seguras por trás deles, Nissa e Ashaya viraram-se para os gêmeos.
Estava na hora de acabar com seu reinado de destruição aqui na Floresta de Matavasta.
O gêmeo na frente deu uma guinada para elas, atacando através do espaço deixado pela
árvore curvada.
“Não há nada aqui para você”, disse Nissa. “Então saia.” Ela soltou seu domínio sobre a
árvore – ainda mais, ela jogou seu peso por trás dela – enviando ela de volta com uma
força tão grande que, quando se chocou contra o Eldrazi, quebrou a placa facial óssea do
monstro.
Uma chuva de espessos pedaços brancos de osso caiu.
O Eldrazi cambaleou para trás.
“Acabe com ele”, disse Nissa para Ashaya.
O elemental passou por entre as árvores e escavou os órgãos expostos do rosto do
Eldrazi com os seus dedos de ramos.
O Eldrazi se contorceu e se debateu, mas apenas para um momento. Ashaya alcançou
através do seu rosto profundamente em seu pescoço, arrancando um pedaço enorme de
suas entranhas. Seus membros ficaram moles e então a coisa monstruosa oscilou para
trás e caiu no chão da floresta.
Aplausos foram ouvidos de trás da rocha.
“Um a menos. Faltam dois.”, disse Nissa.
Ashaya virou-se para o segundo gêmeo bem quando o Eldrazi estendeu a mão para os
chifres do elemental. Ele apertou seus dedos grossos em torno dos chifres de Ashaya e
puxou-a para baixo, torcendo e puxando. Então ele enrolou dois de seus grossos
tentáculos rubi em volta da cabeça, prendendo-a.
Nissa sentiu o pânico do elemental, sua dor.
Ashaya estava em perigo; Nissa agiu por instinto.
Ela seguiu as linhas de força que corriam através das raízes mais grossas e mais
profundas no solo e se prendeu a elas.
Cada raiz tornou-se um aumento de um de seus dedos. Ela levantou as raízes fora da
terra e fez chover pedaços de terra, rochas e detritos. Ela esticou os dedos e as raízes
esticaram; ela fechou os punhos e as raízes reagiram da mesma forma. Agora Nissa tinha
seus próprios tentáculos – e ela os chicoteou em direção ao Eldrazi. Dez raízes cortaram o
gêmeo restante.
“Solte ela.” Com um movimento de seus pulsos, Nissa retraiu as raízes e empurrou-as
novamente. Desta vez ela cavou, as partes afiadas das raízes agindo como suas unhas;
ela as enganchou nos músculo do Eldrazi, segurando firme. Então ela puxou, arrastando
primeiro um tentáculo e depois o segundo para longe de Ashaya.
Livre, o elemental saiu do alcance do Eldrazi e levantou-se em sua completa estatura,
roncando como um terremoto. Ashaya não perdeu tempo, ela se virou para o Eldrazi,
esmurrando-o na parte exposta do seu abdômen uma vez e outra.
Nissa atacou com seus dedos-raízes mais uma vez, adicionando seu ataque ao de
Ashaya. Ela enrolou-os em torno de cada um dos tentáculos do Eldrazi, segurando cada
um separadamente, e então puxou os tentáculos à parte, dividindo a base da
monstruosidade, rasgando sua base de debaixo dela.
Incapaz de lutar contra o ataque de Ashaya e manter seu equilíbrio ao mesmo tempo, o
Eldrazi vacilou. Nissa puxou mais forte, não satisfeita com apenas derrubá-lo; elas não
tinham tempo para nada além de destruição eficiente. Ela arrancou completamente os
tentáculos do Eldrazi. Ele assobiou e gritou, e morreu enquanto mergulhava em direção à
terra – direto para o povo amontoado por trás da parede de rocha e terra.
Nissa se virou, soltando as raízes em seus dedos e alcançando a própria terra. Ela
chamou as linhas de força dentro do solo, movendo terra, rochas e vegetação em uma
grande onda que levou o povo para trás e para longe quando o Eldrazi atingiu o chão.
Eles gritaram quando foram elevados no ar, mas eles estavam seguros; Nissa os salvara.
“Dois mortos, falta um.” Nissa disse a Ashaya.
As pessoas de Matavasta correram para Nissa, mostrando sua gratidão. Eles a agarraram
pelos ombros, eles a abraçaram e eles choraram em sua capa.
Embora ela estivesse cercada por seu calor, a única coisa que Nissa podia sentir era a dor
das árvores coração. O terceiro Eldrazi havia chegado no bosque.
“Nós temos que ir”, disse Nissa.
“Não, fique!” a mulher segurando o cotovelo de Nissa disse. “Você tem que ficar.
Comemore esta vitória com a gente.”
“Esta não é uma vitória”, Nissa baixou a cabeça, soltando-se das garras do povo. “Há
ainda outro Eldrazi.”
“Onde?” Um jovem olhou em volta, brandindo a sua lança.
Nissa apontou em direção ao bosque. “Eu tenho que ir.”
“Ah, aquele.” Um homem alto, acenou a mão com desdém. “Eu o vi lá de cima. Está em
um curso que não vai trazê-lo aqui perto. Estamos a salvo.”
“Fique”, a mulher pediu novamente. “Deixe-nos agradecer. Nós vamos lhe fazer alguma
coisa para comer. Você deve estar morrendo de fome.”
“Vocês estão seguros, mas as árvores coração não estão”, disse Nissa. Ela olhou para
Ashaya e assentiu. As duas decolaram para as árvores sem mais uma palavra ao povo.
Não havia tempo; eles já tinham tomado tempo demais.
Zendikar compartilhava a ansiedade de Nissa. Enquanto corriam pela floresta, árvores se
abriam, raízes mudavam de lado e rochas abriam caminho. Ramos ofereciam-se para ela,
apoios para suas mãos. Com a ajuda da floresta, Nissa movia-se tão rápido quanto
Ashaya.
Quanto mais se aproximavam, mais forte a sensação de perda e destruição se tornava.
Era tarde demais.
Nissa parou abruptamente com a visão.
O bosque já não era um bosque; era um terreno ermo corrompido. Tudo o que restava do
bosque de antigas árvores coração era um único par. Elas estavam ali, ligadas por suas
videiras, no meio de uma clareira branca como cal. Todas as outras tinham virado pó.
E agora o terceiro Eldrazi estava empoleirado em uma das duas árvores coração
restantes, seus tentáculos envolvidos em torno do tronco da árvore, prestes a sugar a vida
dela.
“Não!” Nissa gritou.
Tanto ela quanto Ashaya avançaram, mas o Eldrazi foi rápido demais. Ele apertou mais
forte e se alimentou.
A corrupção se espalhou rapidamente através da árvore, descendo por seu tronco,
subindo por seus galhos e saindo por sua videira.
Com um estrondo de raiva, Ashaya derrubou o monstro de seu poleiro. Ele caiu no chão.
Menos de um segundo depois que ele caiu, Nissa chamou a terra para além da corrupção
em ambos os lados do que fora outrora o bosque, comandando-a a levantar-se como duas
ondas de maré e desabar em cima da Eldrazi.
O monstro foi morto e enterrado com o mesmo ataque.
Ashaya olhou para Nissa. Três. Eles haviam eliminado todos os três.
“Mas tarde demais.” Nissa voltou seu olhar para o par de árvores coração.
A videira que pendia entre elas havia sido quebrada. A parte danificada havia se
desintegrado. Agora o que restava da ligação das árvores pendia molemente da única
árvore remanescente, soprando com a brisa – uma brisa que seria estranha para uma
árvore que estava acostumada a viver em um bosque protegido.
Tanta coisa tinha mudado para esta árvore em tão pouco tempo. Como poderia Nissa
possivelmente explicar isso?
A companheira da árvore se fora... se fora para sempre. Mas a árvore viva não sabia
disso, ela continuaria agarrada a seu vínculo, ela continuaria a estender a mão, o coração
e a alma – e seria retribuída apenas com o vazio, sempre o vazio.
Como Nissa poderia fazê-la entender? Como ela poderia dizer à arvore que a sua
companheira não tinha ido embora por escolha? Que uma árvore coração nunca deixaria
outra – jamais?
Nissa aproximou-se da última árvore, andando através dos escombros do túmulo do
Eldrazi. Ela colocou a mão sobre seu tronco. “Sinto muito”, disse ela. “Eu sinto muito por
termos chegado tarde demais.” Sua garganta apertou e calor queimou os cantos de seus
olhos.
Ashaya se juntou a Nissa, colocando sua própria palma gigante no tronco da árvore. Nissa
podia sentir a mensagem que Ashaya enviava à árvore em nome de Zendikar. Zendikar
prometeu que a companheira da árvore coração jamais seria esquecida. Zendikar iria lutar.
Zendikar não iria parar até que os Eldrazi tivessem sumido, até este tipo de dor pudesse
terminar para sempre.
Zendikar ainda esperava por esse dia.
Ashaya ainda esperava.
Nissa tomou esperança de sua amiga.
Elas iriam pressionar. Elas iriam para sempre pressionar – até que elas houvessem
encontrado o titã, até que o destruíssem, até que tivessem ganhado.

Parte 3

Nissa e Ashaya caminharam através de Matavasta por dias. Enquanto elas continuassem
a ver Eldrazi com mais regularidade, enquanto a floresta continuasse a ficar mais
densamente povoada com proles, Nissa acreditava que elas estavam no caminho certo,
que elas estavam indo para o titã.
Sua perseguição tinha as levado da extremidade sul da floresta, através dos bosques, e
agora em direção ao mar novamente.
Talvez o cheiro do ar salgado do mar significava que o titã que elas estavam perseguindo
não estava em Tazeem. Que assim seja. Eles viajariam de barco para Guul Draz então, ou
Akoum, ou Murasa – Nissa voltaria até mesmo para a terra perdida de Bala Ged, se fosse
necessário.
Mas agora, exatamente agora, ela iria parar, por apenas um momento, e beber. Elas
tinham chegado a um fino córrego, um que acabava em uma cachoeira; Nissa podia dizer
só pelo som da água correndo e caindo um pouco além do bosque de árvores.
Nissa desceu de seu poleiro na cabeça de Ashaya, feliz por estar na sombra por um
momento. Ajoelhou-se ao lado do córrego e posicionou suas mãos para uma bebida.
Entre goles de água fresca, Nissa recostou-se, absorvendo a beleza deste bosque virgem.
De onde estava sentada, ela não via a corrupção Eldrazi. Era um pedacinho perfeito de
Zendikar.
Ashaya se juntou a ela no sentimento de paz.
Este pedacinho de Zendikar tinha sorte. Ele não conhecera a dor ainda. E Nissa prometeu
que iria fazer tudo o que podia para garantir que ele nunca conheceria.
Satisfeita e renovada, Nissa olhou para a amiga. “Vamos caminhar para o mar?”
Ashaya se dobrou, abaixando a mão, e Nissa agarrou o grosso dedão de ramo...
...e então sua respiração trancou, prendendo na garganta – ela não conseguia tomar ar.
Uma dor aguda atravessou seu peito, congelando-a no lugar.
Um Eldrazi... deve ter sido um Eldrazi... ela havia sido perfurada no peito.
De onde tinha vindo?
Ela olhou para baixo, esperando ver um tentáculo ou uma saliência óssea atravessando
seu peito, mas não havia nada lá.
Ela examinou o bosque – nada. Nenhum Eldrazi. Nenhuma corrupção.
Sob seus pés, a mão de Ashaya começou a tremer. O elemental estava com dor também.
Dor excruciante.
Uma segunda onda de dor, ainda mais brutal, disparou através de Nissa e, desta vez,
pareceu como se suas vísceras tivessem sido arrancadas de seu estômago.
Ashaya se estremeceu e golpeou, jogando Nissa de lado ofegando por respirações
estranguladas.
Nissa estendeu a mão para sua amiga, mas o mundo parecia que estava se expandindo
infinitamente, o espaço entre Nissa e Ashaya ampliando em um abismo sem fim.
Não era o interior de Nissa que tinha sido arrancado dela, era Zendikar – Ashaya – a
conexão delas que estava sendo arrancada.
Ashaya articulou e cambaleou em direção a Nissa, seus movimentos duros e inseguros.
Nissa já não podia sentir o elemental. Ashaya não podia mais senti-la também?
“Ashaya!” O grito de Nissa saiu quebrado.
O elemental inclinou a cabeça na direção da voz de Nissa. Ela tinha ouvido – ou talvez
fosse apenas que ela estava caindo. Ashaya desabou, seu corpo de troncos de árvore
grossos apontado diretamente para Nissa.
Nissa se preparou para a queda – não havia mais nada que pudesse fazer.
Mas, então, no último momento, Ashaya estendeu seu braço, lançando-se para o lado e
para longe da pequena e vulnerável elfa.
Nissa observou enquanto os ramos de Ashaya estalaram e se espatifaram no chão. “Não!”
A terceira onda de dor rasgou Nissa em pedaços.
E tudo ficou escuro.
Por um tempo infinito não havia nada.
Nenhum som.
Nenhuma luz.
Nenhuma vida.
_
Quando a respiração de Nissa voltou foi em grandes suspiros; ela não conseguia ar
suficiente.
O silêncio em torno dela era pesado e opressivo. E sua visão estava embaçada.
Ashaya. Tudo o que ela conseguia pensar era Ashaya.
Nissa se estendeu para a terra para chamar o elemental.
Mas não havia nada lá para agarrar.
Ashaya.
Ela chegou mais profundamente, afundando o seu sentimento para a terra.
Mas era de lá que o silêncio estava vindo.
As orelhas de Nissa zuniam e o mundo girava.
Ashaya.
Ela se arrastou até a pilha de galhos e montes de terra. Seus dedos trêmulos esvoaçavam
sobre as partes quebradas. Qual lasca de madeira que tinha sido o dedo de Ashaya?
Quais folhas tinham crescido no topo de sua cabeça? Onde estavam as raízes que tinham
mantido a sua alma?
Ashaya.
O silêncio era esmagador.
Nissa cambaleou para ficar de pé, mas a sensação de vertigem a mandou de volta para
baixo. Ela caiu no chão com uma batida dura. Uma pedra afiada cortou sua bochecha e
um monte de sujeira cobriu seu lado. A terra não a embalou, não a protegeu – ela a feriu.
Não.
Isso não fazia sentido.
Ashaya.
Nissa se levantou, segurando os galhos espinhosos e as vinhas frágeis.
Sozinha, ela fez seu caminho até a borda da linha das árvores, onde o córrego se
transformava em uma cachoeira.
Ela olhou para a terra, em busca de sua amiga.
A visão diante dela não era o que Nissa esperava ver. Elas haviam chegado à fronteira de
Tazeem – ela podia ver o mar não muito longe. Mas lá embaixo havia outro mar, um feito
de pilhas de Eldrazi tão grossas que Nissa não podia distinguir o chão.
Tinha sido aqueles Eldrazi? Tinham eles fito algo para Zendikar? Tinham eles levado
Ashaya?
Ashaya.
Nissa olhou para trás para os galhos caídos.
Não havia nada lá. Ashaya não estava atrás dela.
Ela seguiu em frente, tropeçando para baixo do penhasco em direção ao mar de Eldrazi
abaixo. Ela podia ver o farol de Portão Marinho à distância. Mas ela não podia ver Ashaya.
Se estes Eldrazi tinha tomado Zendikar, tinha tomado Ashaya, Nissa os faria devolvê-la.
Ela caiu uma e outra vez. A terra não reagiu à sua presença. Os espinheiros não se
moveram para que ela não se arranhasse. As vinhas a fizeram tropeçar ao invés de apoiá-
la.
Parecia que ela sem seus próprios membros. Parecia que ela estava sem parte de sua
alma.
Nissa cambaleou para a massa de Eldrazi. Eles rangiam e arranhavam em toda a sua
volta.
“Ashaya!” ela chamou, cambaleando entre as monstruosidades. “Ashaya!”
Ela tentou alcançar a terra novamente, mas não havia nenhum lugar para se aterrar; havia
tanta corrupção, tantas trilhas dela se cruzando – havia qualquer coisa de Zendikar
sobrando?

Parte 4

“Cuidado!”
O grito veio de trás dela, mas antes que Nissa pudesse se virar, algo grande, afiado e duro
bateu em suas costas, jogando-a para baixo no chão corrompido.
Uma nuvem de poeira de giz branco tomou conta dela e quando ela tentou empurrar-se
para cima, dois braços a prenderam por trás de seus ombros. “Fique abaixada.”
Nissa se contorceu tanto quanto podia para ver o que a tinha prendido. Era uma tritão,
uma vestida com armadura espessa e afiada feita de conchas.
“O que você estava fazendo?” O tom da tritão era acusatório. “Você quase foi direto para
essa coisa.” Ela apontou com a cabeça para a direita, por onde um enorme Eldrazi estava
passando. “Você está ferida?”
Sim, Nissa estava ferida. A dor ainda estava lá, em seu interior, em seu peito – em tudo;
em todos os lugares que Zendikar não estava mais – e Zendikar não estava mais em lugar
algum.
“Eu não vejo nenhum ferimento.” A tritão estava avaliando Nissa. “Nenhuma corrupção.”
Ela soltou os ombros de Nissa; o Eldrazi já tinha passado.
“Escute, eu sei que estamos em um lugar um pouco difícil agora, mas eu preciso que você
fique aqui comigo”, disse a tritão. “Essa é a única maneira que nós temos para sair dessa
vivas. Você está ouvindo?”
“Ela se foi.” Nissa piscou para a tritão. “Você sente isso também?”
“Eu não sei do que você está falando”, disse a tritão, lutando para ficar de pé. Pela
primeira vez Nissa notou que a tritão estava ferida, e gravemente. Uma de suas pernas
estava envolvida em um torniquete apertado que estava encharcado de sangue. “Mas eu
sei que é hora de nos movermos.” Ela puxou o braço de Nissa. “Vamos!”
O puxão. O sangue. A tensão na voz da tritão. Os Eldrazi se aproximando. As realidades
do mundo em torno de Nissa de repente começaram a penetrar.
Ela estremeceu. Era como se ela tivesse vagado cegamente para este pesadelo.
Ashaya não estava aqui, isso estava claro. E agora Nissa estava em extremo perigo. E
também estava a tritão. Havia muitos Eldrazi.
“Vamos.” A tritão puxou novamente. “Está vindo!”
Um dos Eldrazi – um grosso com membros demais – puxava-se em linha reta em direção
a elas.
Nissa tinha que fazer algo. Ela empurrou-se para se por de pé. “Para este lado é a saída.”
Ela apontou de volta pelo caminho por onde ela tinha vindo, em direção ao penhasco.
A tritão assentiu e meio que pulou, meio que se arrastou ao seu lado. Ela nunca
conseguiria, ela não era rápida o suficiente. Nissa tinha que fazer mais.
“Eu ajudo você.” Nissa levantou a tritão e deu seus ombros a ela. Na hora certa. O Eldrazi
mais próximo enviou um tentáculo batendo em direção a elas.
Nissa correu.
Como era possível que ela não tivesse visto nada disso em seu caminho? Os corpos, a
destruição. A corrupção.
Isto era Portão Marinho – ela se lembrava de ter visto o farol – e Portão Marinho era o
ápice da civilização de Zendikar. Era um centro de comércio, um bastião do conhecimento;
havia poder aqui, magia. Milhares de pessoas viveram e trabalharam aqui, e mais milhares
haviam fugido para a segurança de seus muros. Como era possível que Portão Marinho
fosse agora... isto? Como era possível que Portão Marinho tivesse caído?
Foi por isso que Ashaya tinha ido embora?
O bater de um tentáculo cortou o desespero de Nissa.
Um longo Eldrazi roxo se pôs no caminho delas.
Ela parou abruptamente, deslocando o peso da tritão em seu ombro, virando-se em um
círculo, em busca de uma saída, uma abertura. Tudo o que ela viu foram tentáculos e
apêndices ao seu redor.
A tritão ficou tenso e se contorceu. “Há muitos!”
Nissa apertou mais forte o braço em torno da armadura de escamas da tritão, mantendo-a
imóvel. “Eu sei.”
Ela respirou fundo e puxou sua espada.
A ação parecia estranha.
Era algo que ela não tinha feito em muito tempo. A lâmina parecia desequilibrada, o punho
parecia duro e desconfortável. Não era nada como as linhas de força vivas que ela estava
acostumada a manejar, nada como um exército de elementais ou a própria terra, mas teria
que servir. Ela não tinha outra escolha.
Colocando toda a sua força por trás da lâmina, Nissa cortou na parte carnuda do longo
Eldrazi roxo. O impacto reverberou através de suas mãos, enviando ondas de dor por seus
braços e até seu peito. Ela tinha esquecido o quão física era uma batalha desta forma.
Mas ela não parou. Ela arrancou a lâmina do corte raso que ela tinha feito no lado do
Eldrazi e atacou novamente.
Desta vez, o Eldrazi revidou, atacando ela com uma de suas patas dianteiras e tirando o
equilíbrio de Nissa. Com o peso desconhecido de sua espada e a tritão em suas costas,
ela não conseguiu se manter em pé.
Elas caíram no chão e a espada de Nissa girou para longe dela, deslizando pela
corrupção.
O braço do Eldrazi veio para elas novamente – mas exatamente antes de bater, a tritão
arrancou a concha espinhosa que cobria seu ombro e a ergueu como um escudo. A mão
do Eldrazi atingiu com força, mas não atravessou.
Ele recuou; ele iria atacar novamente em breve.
“Você acha que pode segurá-lo enquanto eu pego a minha espada?” Nissa perguntou à
tritão.
A tritão assentiu.
“Eu já volto.” Nissa se moveu pelo chão em direção à sua lâmina, mantendo-se abaixada,
esperando que ela estivesse fora do intervalo sensorial do Eldrazi.
Três vezes ela tentou alcançar a espada através da terra, dobrar o chão para que ela
deslizasse de volta para ela, pedir a ajuda de Zendikar. Mas não houve resposta.
O infinito silêncio continuou.
Nissa se sentiu tão sozinha. No meio deste enxame de Eldrazi, ela sentiu como se não
houvesse mais nada.
Um dos grossos tentáculos traseiros do Eldrazi desabou quando Nissa mergulhou para
sua arma. Sua mão se fechou ao redor do punho, mas o tentáculo pousou em seu braço.
Era como se o monstro tivesse sabido, como se tivesse mirado em seu braço para detê-la.
Mas ele não podia ter sabido. Eles não sabiam – não assim.
Ela puxou o braço com toda a força, mas o tentáculo era muito pesado. Ela estava presa.
O pânico brotou dentro dela. O que viria a seguir? Será que ele se alimentaria dela? O
braço dela poderia estar sucumbindo à corrupção do Eldrazi naquele exato momento –
como ela saberia se este era o fim?
De algum lugar acima, três cordas foram jogadas, cada uma com um gancho longo e
afiado no final. Em rápida sucessão, os ganchos afundaram no tentáculo Eldrazi em cima
de Nissa.
No momento seguinte, o tentáculo foi puxado de cima dela – e então arrancado do corpo
do Eldrazi.
Enquanto o Eldrazi gritava, Nissa rolou para longe dele. Seu primeiro pensamento foi seu
braço. Não se atrevendo a respirar, ela olhou para ele. Não havia nenhum sinal de
corrupção. Ela viveria. Mas seu ombro fora ferido o suficiente para que ela tivesse para
pegar a espada com a mão esquerda.
“Aqui em cima!” Outra corda com um gancho desceu e Nissa a seguiu até um mar de
rostos que olhavam fixamente para baixo de cima de uma alta rocha flutuante. O rosto
branco pálido de um kor estava na frente. Nissa nunca tinha estado tão grata por ver um
kor em sua vida.
“Pegue a corda. Amarre a tritão a ela”, o kor instruiu.
Nissa cambaleou, tendo esquecido a tritão na comoção. Ela soltou um suspiro de alívio ao
ver que a tritão ainda estava lá no chão, rastejando.
“Isso vai funcionar”, disse a tritão, ofegante. “Amarre-me.”
Nissa caiu de joelhos e trabalhou para prender a tritão na curva do gancho. Então ela
enrolou a corda em seu próprio cinto para que ela pudesse puxar a tritão consigo enquanto
ela subia.
Ela puxou a corda para indicar que elas estavam prontas, e se virou para a tritão. “Meu
braço está inutilizado. Pegue a espada.”
“Com prazer.” A tritão pareceu emocionada por ter a arma. Ela agarrou a espada de Nissa
em uma das mãos e o pescoço do gancho na outra.
Nissa começou a subir, arrastando a tritão com ela, favorecendo o braço esquerdo.
Enquanto ela subia, o kor e seus companheiros puxavam a corda para cima, mão sobre
mão. Isto dobrou, se não triplicou, a velocidade de subida de Nissa. Ela esperava que
fosse o suficiente.
Tentáculos e outros apêndices agitavam ao redor dela e ela podia ouvir a tritão atacando o
Eldrazi abaixo dela, mas Nissa ignorou tudo isso. Ela se concentrou apenas na corda,
apenas em sua escalada.
Em algum momento, quando os braços estavam cansados e as palmas das mãos suadas,
o vento soprou pelo cabelo de Nissa, fresco e frio. Elas tinham subido acima do enxame. O
dia não estava tão escuro quanto parecia do solo. A próxima respiração de Nissa foi a
primeira em muito tempo que não fora contaminada com Eldrazi, podridão e sangue. Ela
respirou profundamente e se permitiu fazer uma pausa por um momento.
“Quase aqui”, o kor gritou para baixo conforme ele puxava outra seção de corda. “Nós
pegamos você.”
Nissa sorriu para ele. Então, ela olhou para a tritão. “Nós vamos conseguir.”
A tritão devolveu o sorriso, afrouxando o aperto sobre a espada de Nissa, relaxando; não
avia Eldrazi para lutar aqui em cima. “Nós vamos conseguir.”
Abaixo estava a selva de Eldrazi que elas estavam deixando para trás, com sua copa de
carapaças ósseas, tentáculos e braços bifurcados. Nissa não podia ver um único pedaço
de terra, nem mesmo o lugar onde elas tinham acabado de estar. Elas deviam suas vidas
aos Zendikari na rocha acima.
“Não!” A tritão gritou.
A corda deu uma guinada e Nissa seguiu a expressão horrorizada da tritão para cima. Um
Eldrazi do tamanho de um grande leviatã havia se jogado da borda de uma segunda pedra
flutuante. Ele caiu sobre a rocha onde o kor e seus companheiros estavam. Três dos
Zendikari foram esmagados sob a gigante monstruosidade contorcida – e um caiu sobre a
borda da rocha, passando despencando por Nissa e a tritão. Não havia nada que elas
pudessem fazer para impedir sua queda.

Parte 5 (Final)

O restante dos Zendikari sacaram suas armas e atacaram os grossos apêndices azuis.
Nissa se agarrou à corda enquanto ela balançava violentamente sob a rocha que tremia.
“É grande demais!” a tritão gritou de baixo.
Ela estava certa. “Dê-me a espada.” Nissa estendeu a mão.
“O que você vai fazer?”
“A espada!”
A tritão entregou a Nissa sua espada. Nissa a embainhou, desamarrou-se do gancho e
subiu, ignorando a dor em seu ombro.
“Tenha cuidado!” a tritão gritou.
O tempo de cautela já tinha passado.
Nissa manteve os olhos apontados para cima enquanto subia. As únicas pistas sobre o
que estava acontecendo na rocha acima eram os sons: o ranger, os gritos, os cortes. Eram
o kor e seu grupo que estavam cortando o Eldrazi ou o contrário?
Quando ela chegou ao topo, viu uma bagunça de tentáculos e apêndices. Ela levantou-se
sobre a borda afiada e irregular da pedra flutuante, sacou a espada e começou a cortar a
carne azul grossa na frente dela uma vez e outra.
Sangue de Eldrazi espirrou em seu rosto, borrando sua visão. Seu próximo ataque foi em
vão, cortando nada além de ar. Nissa recolheu e atacou de novo – onde ela pensou que
podia distinguir um tentáculo através do lodo espesso que corria através de seus olhos.
Esse foi em vão também. Ela enxugou o rosto com a manga bem a tempo de ver quatro
brilhantes chicotes brancos voarem pelo ar e atacarem o lado do Eldrazi. Os chicotes se
enrolaram em torno de quatro apêndices grossos do Eldrazi. Com um grito não natural, a
monstruosidade entrou em convulsão – e então ele foi puxado para trás e atirado para fora
da rocha.
Dois dos três Zendikari que haviam sido presos sob ele lutaram para ficar de pé, tentando
recuperar o fôlego. O terceiro, um elfo, ficou ali imóvel, sua pele uma treliça branca como
cal.
“Ajudem-me a puxá-los para cima!”
Nissa girou ao som da voz, brandindo a espada.
Havia um homem agachado na borda da rocha, um homem enorme, um humano com a
pele da cor de casca de jurworrel e armadura brilhante que trazia padrões e formas que
Nissa nunca tinha visto antes. Ela soube imediatamente que ele não era de Zendikar. Um
Planinauta.
Com uma corda em cada mão, o Planinauta estava levantando a tritão e os outros quatro
Zendikari para a rocha. Embora ele tivesse chamado, não parecia que ele precisava da
ajuda de Nissa ou dos outros que estavam ali de boca escancarada ao lado dela. Nissa
correu de qualquer maneira. Ela agarrou a corda que prendia os companheiros do kor e
puxou.
Por que ele estava aqui? Ela tinha pensado que todos os outros Planinautas tinham
partido há muito tempo, especialmente os que não eram de Zendikar.
“Jori En!” O Planinauta gritou com a visão da tritão que se levantava sobre a borda. “Jori
En, é você! Você está viva!”
“Gideon.” A tritão parecia tão chocada quanto o Planinauta. “Eu pensei que você tinha
morrido. Quando você caiu por cima da borda com aquele Eldrazi...”
“Não foi tão ruim quanto pareceu.” O Planinauta, Gideon, sorriu. Seu sorriso era torto,
Nissa notou. “E eu pensei que você tinha morrido.”
“Conseguiu me manter”, disse Jori.
“Tenho boas noticias”, disse Gideon. “Eu o trouxe de volta. O homem que pode ajudar,
Jace é o seu nome. Ele tem um talento especial para quebra-cabeças – e ele já sabe uma
coisa ou duas sobre edros, ao que parece.”
“Onde ele está?” Jori olhou ao redor.
“Lá atrás no acampamento.” O Planinauta apontou com a cabeça sobre o ombro. Então
ele olhou para o resto dos Zendikari no topo da rocha, seu olhar passando tão
rapidamente sobre Nissa quanto sobre o resto. “Não se preocupem, eu estou aqui para
tirar vocês dessa. Esses são todos vocês?”
O kor assentiu solenemente. “Fomos o último grupo. Pensamos que o resto de vocês tinha
desistido de nós.”
“Nunca.” Gideon sorriu novamente. “Há um acampamento para o sul, ou pelo menos será
um acampamento em breve. Por enquanto, é seguro e não é muito longe. Entrem em
formação e me sigam.”
Foi surpreendente a rapidez com que ele tinha mudado de copartilhar amabilidades a dar
ordens. Mas ninguém parecia questionar sua autoridade – ou seu sotaque ou armadura
estranhos. Se este homem conhecia um caminho para a segurança, os Zendikari iriam
segui-lo.
Ele ergueu Jori sobre seus ombros largos; o resto do grupo estava bem o suficiente para
caminhar por conta própria. Com um movimento de sua arma de quatro lâminas, ele puxou
uma videira grossa para baixo da rocha flutuante próxima da qual o Eldrazi havia se
jogado. Ele a esticou e amarrou em uma saliência rochosa perto de seus pés.
“Atravessaremos dois de cada vez. Nós ficamos juntos. Quando você chegar à próxima
rocha, espere por mim.”
Os Zendikari prepararam-se, concordando, e o primeiro par se aproximou para atravessar.
Gideon era um bom líder. Ele era firme e seguro, e ele era forte. Ele os dirigiu com
confiança de pedra em pedra.
Nissa podia ver o lugar, não muito longe, onde a praga dos Eldrazi ainda não tinha se
espalhado. Parecia que eles poderiam chegar lá sem ter que descer de volta para a briga
e este Planinauta parecia conhecer o caminho. Por isso Nissa estava grata. Ela manteve
os olhos sobre a terra clara à frente e ela o seguiu até que eles chegaram até a periferia.
Lá, ele levou o grupo de volta para o chão e a tarefa deles mudou de navegar entre
videiras e rochas flutuantes para marchar através dos caídos – o sangue de monstro e
homem misturados na destruição.
Enquanto eles fizeram o seu caminho através das trincheiras, eles só tiveram que
enfrentar três Eldrazi. Nissa observou Gideon o Planinauta durante a batalha; sua arma de
chicotes brilhava quando ele atacava as monstruosidades e luz ondulava em sua pele
quando um tentáculo ou apêndice chegava muito perto. Este homem era poderoso.
Nissa esperou até que eles estivessem seguros, até que ela pudesse ver a tensão sair de
seus ombros. Então ela caminhou até a frente do grupo e acompanhou Gideon passo a
passo. Ela tinha coisas que precisava perguntar a ele. Se havia mais ninguém que
pudesse ter sentido o que aconteceu com Zendikar, seria outro Planinauta em sintonia
com o poder do plano. E ela tinha que saber.
Gideon carregava sua arma brilhante em uma mão e Jori na outra – a tritão tinha perdido a
consciência não muito tempo antes, mas o kor no grupo era um curandeiro e tinha feito
seu trabalho sobre ela, assegurando os outros que ela estaria muito bem contanto que
eles pudessem levá-la para o acampamento em breve.
Sentindo-a a seu lado, Gideon olhou para Nissa.
“Oi”, disse Nissa.
“Olá.”
“Eu sou Nissa.”
“Gideon. Prazer em conhecê-la.” Ele sorriu aquele sorriso torto de novo.
Intrigava Nissa como ele conseguia sorrir tantas vezes perante esse tipo de devastação.
“Foi uma luta forte lá atrás”, disse ele. “Você matou um grande.” Ele estava se referindo a
um dos Eldrazi que Nissa tinha o ajudado a derribar no caminho.
“Aquilo não é como eu estou acostumada a lutar”, disse Nissa. “Ou pelo menos não como
eu estou acostumada a lutar ultimamente. Acho que antes de tudo o que aconteceu era
assim que eu fazia as coisas, com a espada e flechas, mas agora eu estou acostumada
a... muito mais. Todos os três de uma vez não devia ter sido um problema para mim. Não
teria sido um problema. Mesmo se eu estivesse sozinha. Eu tenho mais poderes do que o
que você viu.”
Gideon riu. “Eu estou contente em ouvir o entusiasmo. E não se preocupe, haverá tempo
de sobra para provar a si mesma nas batalhas que virão.”
“Isso não... não. Eu não estou preocupada com isso, em provar a mim mesma.” Nissa se
sentia afrontada. “Eu... eu sou uma Planinauta. Como você.”
“Oh?” Gideon inclinou a cabeça, olhando-a com seriedade.
“É por isso que eu estou aqui falando com você em primeiro lugar. Eu queria saber, já que
você é um mago poderoso, se você sentiu algo estranho. Hoje mais cedo. Quando o sol
estava alto. Aconteceu de repente. Foi apenas... arrancado.”
Gideon franziu a testa. “O que foi arrancado? O que aconteceu?”
“Quando você busca o seu poder – eu vi você fazer isso com as lâminas brilhantes – ainda
está aí? Você não sente nada diferente? Nada mudou?”
“Sim. Não.” Gideon sacudiu a cabeça. “Ainda está lá. Nada mudou. Por quê? O seu...?”
Nissa encontrou seus olhos e manteve o olhar. “O meu se foi. Ele foi arrancado. Eu nunca
senti tanta dor. Eu nunca me senti tão sozinha. Zendikar simplesmente... se foi.” Quando
ela disse isso, Nissa sentiu a perda tudo de novo. Ashaya. Seu peito se apertou em torno
do espaço vazio dentro dela.
“Sinto muito”, disse Gideon. “Mas eu...”
Ele foi interrompido por um grito de cima e à frente. “Eles estão de volta!” A escada caiu
para baixo de um enorme edro flutuante não muito longe na frente deles. “Ele os trouxe de
volta!”
Três figuras desceram correndo a escada e correram em direção a eles, uma mulher kor à
frente.
Nissa deu um passo para trás.
“Dest, é você?” A mulher kor correu para os braços do curandeiro kor. “Eu pensei...” Sua
voz se quebrou quando seu abraço a envolveu.
“Foi ele”, o kor, Dest, disse, indicando Gideon. “Ele nos salvou.”
“Obrigada! Oh, obrigada!” A mulher kor pegou a mão de Gideon.
Os olhos de Gideon brilharam e ele apertou a pequena mão da mulher em sua grande.
“Fico feliz em ajudar.”
Aplausos se ouviram do acampamento acima e mais Zendikari desceram a escada e
correram na direção deles, gritando as boas-vindas.
Nissa saiu dali e observou de uma distância enquanto os outros primeiro se amontoaram
rindo e chorando e então subiram de volta pela escada até o que prometeram que era um
acampamento acima.
Ela não queria ser absorvida em seu calor no momento. Não era lá onde ela pertencia. Ela
pertencia a Zendikar. E isso era tudo que ela queria – se reconectar com seu mundo, seu
amigo.
Ela ajoelhou-se na sombra do maciço edro e colocou a palma da mão no chão frio.
“Sou eu”, ela sussurrou. Ela se recompôs, cada pedacinho de seu ser e de sua alma. E
embora ela estivesse com mais medo do que ela jamais estivera – medo do que iria
encontrar... ou do que não iria – ela enviou tudo o que ela era para a terra, indo tão
profundamente quanto pôde, sondando, procurando... esperando. “Onde está você?”
Silêncio.
Zendikar.
Ela foi mais longe.
Havia apenas o silêncio.
Ashaya.
Sua amiga não estava lá.
Zendikar estava vazio.
Nissa estava vazia também.
Ela estava sozinha.
Quando o sol se pôs sobre o mundo oco, Nissa se levantou e caminhou em direção à
escada, sua mão agarrada firmemente em torno do punho duro de sua espada.

A PEREGRINAÇÃO DOS QUE ACREDITAM


PARTE 1

Gideon Jura trouxe Jace Beleren para Zendikar na esperança de que mago da mente
pudesse desvendar o que os estudiosos tritões de Portão Marinho chamavam de “enigma
das linhas de força”, o mistério da rede de edros de pedra que flutuam no céu de Zendikar.
Os edros estão ligados intimamente aos Eldrazi, servindo como iscas, prisões e – os
estudiosos esperam – armas.
Mas com Portão Marinho tomado e os registros dos acadêmicos perdidos, pode haver
apenas um lugar em Zendikar onde Jace possa obter o que ele precisa... e apenas um
guia que está disposto a ajudá-lo a chegar lá.
_
Jace pressionou a testa contra um edro, passando a mão sobre suas runas. A estrutura se
projetava angulada para fora da grama, a maior parte submersa na terra, um iceberg de
pedra. Espalhados pelos campos rochosos daqui até o acampamento, e até Portão
Marinho depois disso, estavam os corpos de Eldrazi mortos, jogados como águas-vivas
trazidos às areias de uma praia.
Ele sentiu alguém se aproximar por trás dele da direção do acampamento. “Jori En, não
é?” Ele se virou para ela.
“E você é Jace”, disse ela. Ela era uma tritão alta, equipada para terras selvagens. Ela se
movia com a atitude auto-confiante de alguém que tinha viajado por Zendikar por anos,
mas com o olhar tenso e cuidado de alguém que tinha testemunhado a devastação muito
recentemente. “Estou aqui para compartilhar o que eu sei.”
“Bom.” Jace cutucou uma criatura Eldrazi morta com o pé. Seu tecido deformado nas
cores magenta e azul. Ele olhou para Jori En. “As pessoas costumavam adorá-los como
deuses, não é?”
“Alguns ainda adoram. Não posso culpá-los muito.”
“Precisamos parar o problema na sua raiz.”
Jori assentiu. “Isso é o que os pesquisadores esperavam fazer, em Portão Marinho.
Extingui-los.”
“Com a rede de edros.”
“Sim.”
“E vocês tiveram sucesso usando os edros?”
“Eu só vi algumas de suas pesquisas. Mas eu vou te contar tudo o que eu consiguir
lembrar.”
Jace concentrou seu olhar sobre um espaço bem entre os olhos de Jori. “Eu tenho uma
ideia melhor, se você não se importar.”
_
A consciência de Jace percorreu a mente de Jori, nadando através de imagens de goblins
atando pequenos edros em bastões, guerreiros kor pintando seus rostos para imitar as
runas dos edros e pesquisadores tritões em Portão Marinho testando sua magia em edros.
Ele se concentrou em em uma memória em particular – uma equipe de Zendikari, liderada
por uma mulher humana, usando a magia das edros para guiar os movimentos das
criaturas Eldrazi. O enigma das linhas de força. A mulher, Kendrin, tinha estado perto de
entender algo fundamental sobre como a magia dos edros poderia ser usada – e
transformada em uma arma contra os Eldrazi.
Infelizmente, Jace viu também a memória de Jori colocando a mão na testa de Kendrin
conforme o corpo da mulher morta se desintegrava em linhas frágeis de poeira cinza. Ela
tinha morrido da deterioração Eldrazi antes que ela pudesse passar adiante o suficiente do
que ela sabia.
Jace abriu os olhos e respirou fundo, emergindo da mente de Jori En como se estivesse
rompendo a superfície de um oceano.
Jori estava agachada acima dele, em cima do edro, olhando para ele. “Isso foi fascinante”,
disse ela, sorrindo com uma contração de sua mandíbula com barbatanas. “Eu quase pude
sentir a segunda presença em minha mente.”
“Às vezes eu posso sentir a pessoa percebendo a minha percepção deles. É como ver o
meu próprio reflexo em um espelho. Mais ou menos.”
“Então você sabe todos os meus segredos obscuros agora?”
“Eu sei que Kendrin estava perto de alguma coisa.” Mas Jace também sabia que ele ainda
não podia resolver o quebra-cabeça que ele fora trazido aqui para resolver. Ele precisava
de mais, e ele sabia aonde ele precisava ir.
Antes que ele pudesse explicar, passos soaram em direção a eles. “Olá, Gideon”, Jace
disse.
Jace e Jori viraram-se para ver Gideon se aproximar, luz solar refletinda na armadura do
guerreiro como luz líquida. “Diga-me que você conseguiu um avanço”, disse Gideon
rispidamente.
“Estamos perto”, disse Jace. “Nós temos que ir para o Olho.”
As barbatanas faciais de Jori se abriram em surpresa. “O Olho de Ugin? Você quer fazer
toda a viagem até Akoum?”
“É o ponto central para a rede de edros. É lá que vamos encontrar a resposta.”
“Não”, disse Gideon. “Absolutamente não. Nós apenas estabelecemos este acampamento.
Temos feridos. Nós não podemos ir separando o grupo.”
“Nós já separamos”, disse Jace. “Nissa partiu durante a noite.”
Gideon ficou horrorizado. “O quê? Por quê?”
“Eu não falei com ela. Só peguei pensamentos superficiais quando ela partiu. Consegui
entender que ela tinha uma missão que era importante para ela.”
“Mais importante do que descobrir a natureza dos edros?” Jori estalou. “Temos de focar na
vida e na morte aqui.”
“Eu tendo a concordar”, disse Jace. “Venha conosco, Gideon.”
“Eu estou focando na vida e na morte”, disse Gideon com frieza. “Este lugar é a vida e a
morte, a cada minuto. Eu não posso – nós não podemos permitir outra morte dos
refugiados. Eu não vou sair para protegê-lo em uma missão de através dos continentes.”
Gideon acenou para a tritão. “Você tem as informações de Jori. Vocês não podem resolver
isso aqui, juntos?”
“Eu só tenho o que eles conseguiram, mas não por que isso funcionou”, disse Jace. “Olhe.
Você não está vendo a imagem inteira aqui. Isso é o que eu vim fazer aqui. Deixe-me fazê-
lo.”
“Se você deixar o acampamento, essas pessoas vão morrer, e você também vai.”
Jace abriu amplamente as mãos, abrangendo todo o horizonte. “Se eu não chegar ao
Olho, todo mundo neste plano vai morrer.”
PARTE 2

“Alguma vez você já... mudou as coisas?” Jori perguntou, segurando as rédeas em suas
mãos. “Enquanto você estava lá?”
Jace estava sentado ao lado dela em um pequeno vagão puxado por um único hurda. Era
tudo que o acampamento podia ceder. Eles deixaram o acampamento com ele – sem
Gideon.
Jace fez uma pausa. “Às vezes isso se torna necessário.”
“Você poderia ter removido minha memória dela, por exemplo. De Kendrin. De sua morte.”
Jace pensou na mão de Jori tocando a testa da mulher morta. Parecera como sua própria
mão, em sua memória. Ele pudera sentir a pele de Kendrin, como estava muito fria e muito
fina, e seca ao toque. “Você não queria isso.”
“Mas você poderia ter feito.”
“Sim, poderia.”
“Como eu sei que você não alterou alguma coisa?” Perguntou Jori. Depois acrescentou:
“Não há nada que você possa dizer que vai provar isso de qualquer maneira, não é?”
“Já me disseram que eu não sou uma pessoa fácil de fazer amizade.”
“Você pensou em, sabe, mudar a mente dele?” Perguntou Jori. “Você poderia tê-lo feito
acreditar nessa missão, não poderia?”
Ele tinha pensado nisso, sim. Um feitiço rápido e ele poderia ter “convencido” Gideon a vir.
“Eu considero todas as possibilidades”, disse Jace.
“Não tenho certeza se eu teria a mesma restrição que você tem”, disse ela. “Parece que
sempre haverá possibilidades que ele nunca iria considerar.”
“Ele é difícil de se lidar, em mais de uma maneira. Uma diferença entre nós, eu acho.”
“E ainda assim você escolheu não mexer com sua mente. Talvez vocês sejam mais
parecidos do que você pensa.”
Jace olhou para o horizonte, para além da besta de carga que puxava o vagão. “Se
fôssemos iguais, ele veria a importância do Olho. Ele teria dedicado todos os seus
recursos para ter certeza que nós compreendamos os edros. Ele estaria aqui, com a
gente.”
Jori sacudiu as rédeas. “Você já se perguntou o que você seria capaz de fazer se
simplesmente houvesse mais de você mesmo por aí?”
Jace afastou os pensamentos de Gideon e deixou-se rir. Ele lançou um rápido feitiço de
ilusão e três outros Jaces apareceram. Os Jaces duplicados se empoleiravam em ângulos
estranhos nas costas do hurda, todos idênticos em seus mantos azuis. “Nós nos
perguntamos isso frequentemente”, disseram em uníssono e desapareceram.
Jori lhe deu um sorriso cético e balançou a cabeça.
_
Passaram-se dias sem que eles encontrassem qualquer Eldrazi. Eles viajavam por
paisagens repletas de edros, com ilhas de pedra lançando sombras sobre eles do ar
acima. Eles falavam pouco e Jace lutava para reunir o que ele sabia. Ele tentou encontrar
uma razão para que eles devessem voltar atrás, uma razão para que seu conhecimento
dos edros fosse de alguma forma suficiente. Ele era provavelmente até familiarizado o
suficiente com Portão Marinho para que ele pudesse transplanar de volta para lá em
segurança, através de algum outro plano. Mas isso deixaria Jori En aqui sozinha.
Quando o enxame de prole Eldrazi surgiu ao topo da colina e se moveu em direção aos
dois viajantes, o sol estava atrás deles e a luz brilhou sobre todos os cotovelos angulares e
emoldurou os rostos ósseos em branco.
“Dirija!” Jace disse.
Jori os viu, mas cobertura era quase inexistente. “Para onde?”
"Qualquer lugar!”
Jori puxou na diagonal as rédeas – com força demais. O hurda bufou em revolta e jogou
seu peso na direção oposta, arrancando as rédeas das mãos de Jori. Jace e Jori se
agarraram enquanto o vagão dobrou e saltou e algo rachou perto das rodas. O vagão se
endireitou, mas agora ele estava sendo movido pela pura vontade do hurda.
“Novo plano!” Jace disse. “Pare o vagão!”
“Pare você!”
Antes que Jace pudesse explicar a tolice de tentar alterar a mente de uma besta, o hurda
bateu no chão com as patas e jogou seu peso novamente, agora voltando-se diretamente
para a onda Eldrazi que avançava.
Isso o fez parar. Jace e Jori balançaram com a parada do vagão.
Vendo as criaturas que se deslocavam em direção a ele, o hurda lentamente começou a
andar para trás empurrando contra a armação, empurrando contra o vagão. O vagão
começou a se inclinar, e algo de madeira estava quebrando...
Uma mulher kor passou correndo pelo vagão, aparentemente do nada, segurando afiados
ganchos curvados. Ela saltou sobre a armação do vagão, correu pelas costas do hurda e
saltou para o chão entre a besta de carga e os Eldrazi. Jace pôde ver que sua pele estava
marcada com símbolos em graxa negra – semelhantes às runas de edros, mas talvez um
pouco diferente.
Jori estava incrédula. “De onde diabos ela veio?”
A mulher kor olhou para Jace e Jori e, sem quebrar o contato visual com eles, cortou o
pescoço do hurda com um dos ganchos afiados. Com um berro, o hurda caiu no chão. Ela
ficou ali, o sangue escorrendo de seu gancho, olhando para eles.
Jace verificou o rosto de Jori para ver seu próprio estado mental refletido de volta para ele:
alarme extremo.
“Venham comigo!” a mulher kor disse severamente. “Depressa! Eles vão comer o animal
primeiro.”
Com isso, ela correu por eles indo em direção a uma colina baixa.
Jace e Jori saltaram do vagão e correram atrás dela, Jori agarrando uma alabarda do
vagão e Jace agarrando – nada, como de costume. A mulher kor desapareceu sobre o
cume, e eles a seguiram até a borda de um abismo estreito.
A mulher kor já tinha implantado suas cordas e estava descendo em rapel pela fissura.
“Aqui em baixo! Rápido!”
Jace olhou para trás. Com toda a certeza, o hurda já estava sendo tomado e despedaçado
pelas criaturas Eldrazi.
“Eu vou com ela”, disse Jori En. Ela jogou a alabarda em uma alça em suas costas e
balançou-se para baixo nas cordas, descendo para o abismo.
Jace tinha oito ou nove maus sentimentos distintos sobre isso. Mas ele pegou uma das
linhas e puxou-se para baixo. Ele teve uma estranha ideia de criar ilusões de si mesmo
para escalar ao seu lado. Ele os imaginou perdendo o controle sobre as cordas e caindo e,
por alguma razão, o pensamento era estranhamente reconfortante. Melhor eles do que ele.
A mulher kor ajudou-o a descer enquanto Jori batia o pó de si mesma. “Eu sou Ayli”, disse
ela. “Temos de chegar ao santuário. Depressa, por favor!”
Jace e Jori En trocaram outro olhar – o equivalente facial de um dar de ombros
desesperado. Ayli correu através do abismo estreito e eles seguiram. Eles se espremeram
através das paredes de cada lado deles; algumas eram definidas pelas superfícies planas
de grandes edros, outras eram seções de rocha nua. Eles tentaram sse apressar, o que se
tornou cada vez mais difícil à medida que desciam na sombra. Jace tentou se manter perto
das costas de Jori, sua mente criando muitas opções de retirada enquanto eles se
afastavam cada vez mais do vagão.
O abismo se alargou e o céu se abriu em cima.
O olhar de Jace passou de Jori, que tinha parado subitamente em seu caminho – para a
mulher kor, Ayli, que estava serenamente diante deles, as mãos cruzadas – para a
abertura larga talhada na terra à frente deles, marcada com poeira cinza – para o horror
enorme, o titã posicionado sobre uma saia de tentáculos sinuosos, a divindade de caveira
sem olhos com seus grandes membros bifurcados.
Ulamog.

Parte 3 (Final)

Jace mal conseguia se mover. O ar parecia errado. Ele sentiu-se atraído para frente de
alguma forma, como se a gravidade tivesse se afastado da terra e em direção a essa
coisa. Ele sentiu-se como krill atraído para a mandíbula de uma baleia, sugado
inevitavelmente para seus braços consumidores.
“Bem-vindos, ofertas, ao santuário”, disse Ayli, levantando os braços. “A presença do deus
Mangeni, cujo segundo nome é Ula, cuja voz canta a Canção da Devoraração, será o seu
santuário final.”
Jace virou para recuar, mas ele e Jori estavam cercados. Uma dúzia de outros sacerdotes
estava entre eles e a entrada no abismo. Eles estavam todos vestidos iguais, pintados com
listras escuras e gordurosas como Ayli e todos eles carregavam armas. Dois deles
seguravam compridas correntes de ferro.
“Somos os Peregrinos Eternos”, entoou Ayli. “Vamos para sempre vagar!”
“VAMOS PARA SEMPRE VAGAR!” gritaram os outros sacerdotes.
“Nós apresentamos estes presentes-mundo, em nome de Ula!”
“EM NOME DE ULA!”
Ulamog estendeu sua massa de tentáculos, agarrou uma quantidade de terra e então,
horrivelmente, começou a arrastar-se para frente. O som da locomoção de Ulamog resfriou
a alma de Jace – era o som da terra viva tendo toda a sua essência sugada dela, de mana
feroz e selvagem sendo silenciado para sempre, de terreno rico transformando-se em osso
dessecado.
Foi só por um momento, mas Jace imaginou o seu próprio corpo dissolvendo sob a massa
de Ulamog, seus tecidos se separando um do outro, sua carne flutuando para longe dele
como as ilhas flutuantes de Zendikar...
Isso era o que ia acontecer a todo o mundo. O titã Eldrazi estava consumindo cada
pedacinho de energia no plano, desde mana da terra até vidas individuais, lenta e
inexoravelmente.
Em um momento de epifania, Jace percebeu o padrão que iria se desenvolver. Os povos
de Zendikar fugiriam das terras destruídas, reunindo-se nos lugares que ainda poderiam
suportar vida, concentrando-se em torno de locais defensáveis e pontos de referência. E,
por sua vez, Ulamog iria arrastar sua forma imponente em direção a essas concentrações.
E esses pontos de referência confiáveis se tornariam... túmulos.
Portão Marinho.
É por isso Portão Marinho estava sendo atacado pelos descendentes do Eldrazi. Eles
eram os tentáculos mais distantes da propagação de Ulamog, se estendendo, detectando
as concentrações de população, detectando concentrações de energia.
Não, não detectando, ele pensou. Degustando.
Ayli e o círculo de Peregrinos Eternos fecharam o cerco sobre eles. Eles levantaram as
correntes de ferro e aproximaram-se de Jace e Jori. Jori brandia sua alabarda,
chicoteando-a para frente e para trás.
Não era hora para sutileza. Jace caminhou direto até um dos peregrinos que estava em
seu caminho, um humano com barba cinza.
“Em nome de Ula...” o homem começou, avançando para envolver Jace com a corrente.
“Pare”, disse Jace, e o homem explodiu em chamas.
O homem gritou. Ele deixou cair a corrente e se debateu, arranhando seu corpo, tentando
apagar com tapas o fogo que repentinamente tomou conta dele. O fogo não apagava. Ele
caiu no chão e rolou na grama, mas o fogo ainda não apagava. Ele gemeu em agonia.
Jace olhou para todos os Peregrinos Eternos e eles, também, entraram em erupção.
Eles gritaram em uníssono, todos eles debatendo-se, tentando se livrar de suas vestes
consumidas por chamas, contorcendo-se no chão ou correndo em direções aleatórias.
Jace e Jori já não estavam cercados.
“Qual caminho para fora daqui?” Jace perguntou.
A boca de Jori estava aberta. “Uh... de volta para o abismo. Nós podemos subir de volta
pela outra face.”
Conforme eles corriam de volta para a fissura estreita, Jori sussurrou para ele. “Como..?
Você não é um piromante.”
“O importante é”, Jace disse, “que eles não sabem disso.”
Jori olhou para trás. Sobre seu ombro, os Peregrinos não estavam realmente pegando
fogo. Eles davam tapas em seus corpos perfeitamente inteiros, debatendo-se na grama
por nenhuma razão. Jace a viu atirar-lhe um olhar, e eles correram adiante.
_
Jace e Jori pararam para respirar. À distância, Ulamog arrastava-se para frente na direção
de Portão Marinho, talhando o seu caminho através da paisagem. Os Peregrinos não
tinham se dispersado para longe de seu objeto de adoração.
“Eu nunca tinha visto um titã antes”, disse Jori.
“Nem eu.”
Tina ficado claro para Jace o que precisava acontecer, e ele não gostava disso. Agora ele
tinha que dar a notícia a Jori e ele torcia para que concordasse.
“Bem, nós perdemos todas as nossas provisões no vagão...” Jori disse.
“Jori”, disse Jace suavemente.
“...então eu posso caçar para nós para os próximos dias. Eu devo ser capaz de nos levar
até o Olho a pé. Nós vamos ter que pedir ajuda para cruzar os mares, e depois há os
Dentes de Akoum. Mas eu tenho amigos entre os goblins Tuktuk que podem ajudar...”
"Jori, alguém tem de avisá-los.”
“Avisar quem?”
“Os outros, em Portão Marinho. Ulamog está se dirigindo diretamente para eles. Gideon
tem que saber o que está vindo.”
“E abandonar a nossa expedição ao Olho? Você não pode simplesmente... dizer a ele?
Daqui?”
“É muito longe para a telepatia.”
“Você poderia simplesmente... Retornar. Agora mesmo. Você é um desses.”
“Eu não vou fazer isso.”
“Então, o quê? Nós só... voltamos atrás?” As barbatanas no pescoço de Jori se
enrugaram. Ela virou-se, por um momento, em direção ao horizonte, mas, em seguida,
olhou para ele novamente. “Tudo bem. Sim. Vamos voltar. Voltar o mais rápido que
pudermos. E nós vamos nos preparar para uma luta no acampamento.”
“Você vai”, disse Jace.
“O quê?”
“Volte e avise-os. Eu vou para o Olho.”
“Você vai sozinho? Jace, não.”
“É o que tem que acontecer.”
“Mas você nunca vai conseguir!”
“Eu tenho que conseguir.”
“Mas há somente um de você! Eu não vou deixar você ir sozinho, sem provisões, sem
preparo.”
“Eu vou ter minhas ilusões para me fazer companhia.”
“Não é engraçado. Vamos lá. Você vai voltar para Portão Marinho comigo.”
Jace se perguntou se ela sabia que sua mão tinha involuntariamente tocado a alabarda.
“Você vai me arrastar de volta com você?”
“Se eu tiver que!”
“Eu pensei que você poderia dizer algo assim.” Jace se afastou. Ele tinha que considerar
todas as possibilidades. “Adeus, Jori.”
_
“Espere”, ela se pegou dizendo. “Jace. Espere. Não...” Sua voz foi sumindo.
Jori balançou a cabeça e olhou em volta. O acampamento não estava longe agora – outro
dia de caminhada a teria de volta lá para avisá-los. Ela tinha feito bom tempo sem o mago
da mente de pezinhos delicados para retardá-la. Havia passado apenas alguns dias desde
que ela tinha convencido Jace...
...Certo? ...Sim?
Ela franziu a testa.
...Sim.
...desde que ela tinha convencido ele a ir para o Olho sem ela. Tinha sido a opção mais
inteligente. Ele só precisava ver a imagem inteira.
Ela parou a caminhada. O que ela tinha recém dito para si mesma?
“Espere, Jace, não?”
Ela procurou ao redor, sentindo como se ela precisasse se orientar. O céu acima dela
estava muito parecido de como tinha estado nos últimos dias – largo e azul, e salpicado
com nuvens e o edro flutuante ocasional, ilimitado e familiar e ainda assim, de alguma
forma, estranho. Ela sentiu uma sensação inquietante, como se a cúpula do céu tivesse de
alguma forma dobrado em uma nova forma, subitamente e logo fora de seu campo de
visão. Ela girou a cabeça ao redor. A grama e as pedras e as árvores distantes, todas
pareciam como deveriam parecer. Ela olhou para uma pedra no chão. Ela a chutou.
“Mas que droga, Jace.”
Ela soltou um suspiro e balançou a cabeça.
Ela ajustou uma cinta em sua armadura e seguiu em frente, em direção a Portão Marinho.

OS SOBREVIVENTES DE PEDRA CELESTE


Parte 1

Portão Marinho, cidade mais importante da Zendikar, foi perdida para os Eldrazi e Gideon
se considera parcialmente responsável por sua queda. Ele deixou a luta brevemente para
ir a Ravnica e buscar Jace Beleren, esperando que o mago da mente fosse capaz de
resolver o enigma dos edros e ajudar a mudar o rumo da batalha. Quando Gideon e Jace
voltaram para Zendikar, Portão Marinho estava além da salvação. Gideon ajudouo
Comandante Vorik, ferido, a evacuar juntamente com um pequeno grupo de sobreviventes
– tudo o que restava da maior cidade da Zendikar.
O grupo montou acampamento no topo de um enorme edro que flutuava alto e, logo
depois, Jace partiu com a tritão Jori En em uma jornada para o Olho de Ugin para procurar
mais pistas sobre o poder dos edros. Jace tentou convencer Gideon a acompanhá-lo, mas
Gideon se recusou a deixar os Zendikari uma segunda vez. A sobrevivência deles é a
coisa mais importante para ele agora – embora ele não saiba como ele vai garantir essa
sobrevivência.
_
Devemos recolher a nossa força.
Devemos reagrupar.
Devemos sobreviver.
As ordens do Comandante-General Vorik. Os ideais que Gideon tinha jurado servir.
Destes, a sobrevivência era o mais difícil.
A sobrevivência nunca tinha sido simples em Zendikar, mas recentemente ela tornou-se
ainda mais evasiva. Sobrevivência neste plano, neste momento, em frente a esses
monstros, exigia patrulhas, fortificações, armas, bálsamos de cura, comida, água, abrigo,
calor. A lista só aumentava.
Então Gideon estava dando um passo de cada vez.
Agora, era em busca de água que ele estava trabalhando.
Com a ajuda da kor Abeena, ele estava no processo de reposicionar a cascata de pedra
flutuante mais próxima de modo que seu precioso fluxo de água chovesse na extremidade
mais distante do edro acampamento onde os sobreviventes poderiam facilmente e com
segurança acessá-lo.
“Tudo pronto!” Gideon gritou para Abeena.
Abeena estava equilibrada na beira fina da rocha da cachoeira, que atualmente estava
muito longe e virada na direção errada, despejando baldes de água para baixo em um
cânion enorme onde não poderia ser alcançada ou coletada.
A kor tinha prendido quatro cordas que conectavam a cachoeira ao enorme edro principal
do acampamento. Gideon segurava duas das cordas, uma em cada mão. À sua direita, um
tritão e outro kor prepararam-se, segurando a terceira corda. E à sua esquerda, três
humanos seguravam a quarta.
“Pronta quando estiveres!” Abeena gritou de volta.
Gideon acenou para os outros. “Tudo bem, aqui vamos nós. Puxem!” Ele ergueu as
cordas, andando para trás, plantando um pé atrás dele e depois o outro.
Os outros puxaram também e, juntos, eles arrastaram a cachoeira mais para perto de
Pedra Celeste.
“É isso aí”, incentivou Gideon. “Quase lá.” Suor se formava em suas têmporas conforme
ele dava outro puxão na grande pedra. A sensação de esforço era uma das mais
gratificantes que ele conhecia. E a passada de uma leve brisa Zendikari por seus ouvidos
não era nada mal também.
Seu apreço por este mundo tinha crescido imensamente em apenas o curto tempo que
tinha passado em cima de Pedra Celeste. A vista daqui de cima era incomparável. Em
outra vida, Gideon poderia ter visto a si mesmo vivendo aqui, passando seus dias
escalando, caçando, explorando e se aventurando. Era fácil ver por que tantos amavam
este mundo. Por que tantos lutavam por ele.
“Espere aí!” Abeena chamou. “Eu vou dar a volta.”
“Preparem-se!” Gideon ordenou. Ele buscou em suas reservas de energia e aterrou-se ao
edro; ele tornou-se tão imóvel quanto a mais espessa das árvores de Zendikar. Os outros
reforçaram seus apertos e prepararam-se enquanto Abeena arremessou outra corda com
um gancho espesso para uma terceira rocha flutuante.
Com um movimento largo, Abeena puxou a corda, usando-a como uma âncora para girar a
cachoeira em torno de seu eixo. Ela alinhou as cachoeiras flutuantes para que o fluxo de
água ficasse voltado para o acampamento. “Eu acho que consegui!”
Aplausos e vivas se ouviram de trás e Gideon virou-se para ver que quase todos os
sobreviventes de Pedra Celeste que estavam livres e capazes se reuniram em torno deles
para assistir. O desejo deles era palpável; eles estavam antecipando aquele primeiro gole
de água.
“Temos algumas pessoas com sede por aqui, Abeena”, disse Gideon. “Vamos trazê-los um
pouco de água!”
Outro aplauso.
“Com prazer.” Abeena soltou a quinta corda e ajoelhou-se na pedra para que ela pudesse
guiar seu caminho. “Puxem.”
“Isso vai balançar um pouco”, Gideon advertiu a multidão reunida. “Segurem-se!”
Um puxão final trouxe a cachoeira diretamente sobre Pedra Celeste. A água bateu na
extremidade do edro; toda a rocha se moveu com o peso da corrente turbulenta. Mas tanto
o barulho quanto as vibrações foram abafados quando os Zendikari correram para se
banhar sob o córrego, gritando, bebendo, cantando.
“Obrigada, Gideon.” Abeena disse quando ela desceu da rocha. “Temos sorte de ter você
aqui.”
“É por ter você que nós temos sorte”, disse Gideon. “Bom trabalho com as cordas. Eu acho
que você mereceu isso.” Ele entregou-lhe um copo.
“Saúde.” Ela levantou a taça e caminhou em direção à cachoeira.
Bom. Isto era bom, Gideon pensou. Eles tinham água agora. Eles precisavam de água
para sobreviver. Isso significava que eles estavam um passo mais perto.
"Ele não quer que você perca seu tempo com isso.” A voz de Tazri soou por trás. Ela deve
ter vindo da barraca de Vorik; que é onde ela havia passado a maior parte de seu tempo,
conversando e planejando com o comandante enquanto três curandeiros tomavam conta
dele. O objetivo da vigilância de Tazri era óbvio para Gideon. Se a tosse persistente que
ele ouvia do comandante significava o que Gideon temia – corrupção Eldrazi – então em
breve Tazri, a conselheira mais confiada de Vorik, tomaria o lugar do comandante. Isso
significaria uma série de mudanças para os sobreviventes de Pedra Celeste. E para
Gideon.
Tazri tinha sido fria para com ele desde que Vorik tinha seguido a sugestão de Gideon ao
invés da dela durante a evacuação. Tinha sido ideia de Gideon de os sobreviventes se
abrigarem no topo do edro flutuante; Tazri tinha quisto que eles continuassem em frente e
evacuassem ainda para mais longe. Gideon ainda acreditava que a sua decisão tinha sido
o curso correto de ação, mas ele não queria mais discutir com Tazri – ele precisava ganhar
a confiança dela.
“Tazri.” Gideon virou, certificando-se de manter um sorriso. “Eu tenho um copo extra. Quer
um pouco de água fresca?”
“O tempo deles teria sido mais bem usado preparando para continuar a evacuação.”
“Eles estão se preparando”, disse Gideon. “Isso vai ajudar. Vai ser mais fácil para encher
os cantis.”
“Eles estavam muito bem os enchendo no rio abaixo. Você usou o quê? Seis pessoas
saudáveis e fortes que poderiam ter estado lá fora caçando. Eles já poderiam ter
derrubado um Baloth, ou mesmo dois. Precisamos coletar rações. Ordens do Comandante
Vorik.”
“Precisamos de água também.”
“Não para se divertir e brincar.” Tazri acenou para os Zendikari que ainda estavam
dançando no córrego. “Isto é um desperdício de tempo.”
Gideon não podia deixar de sorrir com a visão. “Manter o espírito elevado nunca é um
desperdício de tempo.”
“Eu sei o que você está fazendo.” Tazri estreitou os olhos. O brilho da auréola que ela
usava no pescoço pareceu intensificar. “Você está tentando fazer com que este lugar seja
confortável. Tentando encontrar desculpas para ficar. Você está esperando que ele volte.
Aquele outro estranho. O que é como você.”
Jace. Ela estava falando sobre Jace. Esta não era a primeira vez Tazri tinha insinuado que
ela sabia que Gideon era um Planinauta.
“Eu ouvi você discutir com ele”, Tazri continuou. “E eu ouvi você perder.”
Gideon se arrepiou. Ele não tinha perdido. Ele queria que Jace resolvesse o enigma dos
edros; ele poderia ter preferido que Jace tivesse esperado para ir ao Olho de Ugin até que
as coisas estivessem mais estáveis aqui, mas ele havia concordado com o plano geral.
“Você não pode fazer essas pessoas esperarem aqui pela volta dele”, disse Tazri. “É muito
perigoso. Você tem alguma ideia de quanto tempo ele vai ficar fora? Você sabe o quão
longe Akoum é?”
Gideon sabia, mas ela não lhe deu a chance de responder.
“Não, você não sabe”, Tazri acusou. “Você não é daqui. Eu sei sobre você, sobre ele.
Nenhum de vocês pertence a Zendikar, e você não tem o direito de vir aqui e colocar esse
povo – meu povo – em perigo.” Quando ela terminou, ela estava se dobrando sobre ele,
seu dedo cutucando a armadura em seu peito.
Gideon ergueu as mãos. Ele não mentiria para ela; esse não era o caminho para
estabelecer confiança. “Você está certa. Eu não sou deste mundo.” Ele deu um passo para
trás, dando algum espaço a Tazri. Esta era a sua chance de explicar; ele precisava que ela
entendesse. “Mas eu conheço Zendikar. Eu conheço bem. Eu cruzei seus mares e escalei
suas montanhas. Eu vi seu sol nascer e se por inúmeras vezes. Eu viajei e lutou em quase
todos os continentes. E eu vou continuar a lutar.” Ele a olhou nos olhos e manteve o olhar.
“Eu me importo muito com esta terra e ainda mais com o seu povo. Eu estou aqui só para
ajudar.”
Tazri examinou-o, como se o visse pela primeira vez, realmente olhando. Gideon se
manteve firme, sua expressão séria, querendo que ela visse o quanto ele fora verdadeiro
em cada palavra.
Ela respirou fundo. “Então você vai parar de interferir. Vorik sabe o que é melhor. Eu sei o
que é melhor. E não é isso.” Tazri acenou na direção da cachoeira. “Isso é ruim, Gideon.
Você não vê? Isso dá às pessoas uma falsa sensação de segurança. Faz eles pensarem
que eles podem chamar esse lugar de lar quando na verdade eles não podem. Eles não
estão seguros aqui. A qualquer momento o enxame de Portão Marinho pode surgir sobre
nós. A qualquer momento poderemos ser forçados a lutar por nossas vidas de novo. Tão
poucos sobreviveram da primeira vez. Quantos você acha que vão sobreviver a um
segundo assalto?”
A sobrevivência não era fácil.
“Se você quer o que é melhor para essas pessoas, como você diz que quer, então ajude
eles a caçar. Ajude eles a coletar rações. Ajude eles a preparar-se para continuar a
evacuação. Essa é a sua única chance de sobrevivência.”
Um ataque de tosse da direção da tenda de Vorik chamou a atenção dos dois.
“É o que Vorik quer.” Tazri virou-se rapidamente sobre seus calcanhares e caminhou em
direção à tenda.

Parte 2

Gideon passeava no extremo norte de Pedra Celeste, o barulho da cachoeira quase


inaudível na distância. Ele estava esperando pelo resto de seu grupo de caça; os mesmos
seis que o tinham ajudado a puxar a cachoeira o ajudavam agora a perseguir um gnarlid –
ou um Baloth, se tivessem sorte.
Ele estava impaciente.
Eles estavam perdendo luz.
E Tazri estava errada sobre a cachoeira.
A cachoeira era algo bom.
A água era algo bom.
A sobrevivência era o obrjetivo e Gideon tinha agido de acordo. A água iria ajudar os
Zendikari a sobreviver, fosse por mais uma noite, mais uma semana, ou mais um mês.
Quanto mais, melhor.
Ele discordava de Tazri e do Comandante Vorik nesse assunto.
Ele achava que eles deveriam ficar.
Não só por causa de Jace, embora Tazri não estivesse errada ao dizer que Gideon queria
esperar o retorno de Jace. O mago da mente não ficaria longe por tanto tempo quanto
pensava Tazri; seria uma longa jornada para Akoum, sem dúvida, mas Jace
provavelmente iria transplanar de volta para o acampamento depois que ele encontrasse o
que precisava no Olho. Isso reduziria a distância total, e tempo, pela metade. E com a
informação encontrada por Jace, Gideon esperava que suas chances de sobrevivência
aumentassem. A promessa do poder dos edros era a esperança a que ele se agarrava. Se
os Zendikari pudessem exercer esse poder, talvez eles realmente sobrevivessem a
evacuação que Vorik e Tazri queria que eles fizessem.
Gideon não podia protegê-los lá fora no deserto da mesma forma que podia aqui no edro.
Pelo menos aqui eles estavam todos em um só lugar, e ele sabia onde estavam. Pelo
menos aqui eles tinham acesso à comida, eles estavam construindo abrigos – e eles
tinham água.
Se o objetivo era sobreviver, Gideon não achava que eles deveriam partir.
Então, quanto tempo eles poderiam ficar?
Ele olhou para o norte, na direção de Portão Marinho. Apenas o topo do seu farol era
visível daqui.
O que os Eldrazi estavam fazendo? Eles ainda estavam subindo por suas paredes e
espalhando sua corrupção através das rochas? Ou eles estavam em movimento, como
Tazri sugerira?
O quão rápido eles viajavam? Quanto tempo levaria para chegarem a este edro flutuante?
Quantos viriam?
Quantos Gideon poderia segurar?
Se eles viessem em um ritmo lento o suficiente, ele poderia despachá-los um por um antes
de chegarem ao acampamento.
Ele poderia fazer isso sozinho.
Ninguém mais precisaria arriscar a sua vida.
Ele lutaria contra todas as malditas criaturas uma a uma, se fosse preciso.
Mas se eles viessem em um grupo... “Apresse-se, Jace”, Gideon suspirou.
“Gideon!” A voz veio de cima, assustando Gideon – por apenas um piscar de olhos ele
pensou, torceu, rezou para que fosse Jace. Mas era muito cedo. Claro que não era Jace.
“Gideon!”
Gideon deu um passo para trás quando uma enorme raia azul e branca veio de cima e
pairou a distância de um braço na frente dele. A elfa em suas costas parecia um pouco
fora de lugar, mas não desconfortável. Ela se ajoelhava em postura forte, suas costas
retas. Seu braço estava levantado, segurando uma lança.
“Seble”, disse Gideon. “O que foi?”
“Problema. Suba!”
Gideon não questionou a cavaleira celeste; Ela era a única vigia do acampamento
posicionada no ar e ela tinha sido o sistema de alarme que os salvou de um potencial
ataque Eldrazi mais do que um punhado de vezes.
Ele subiu a bordo.
“Há um grupo vindo do sul”, Seble gritou para trás por cima do ombro enquanto a raia
subia para o céu. “E eles estão sendo seguidos por um Eldrazi.”
Gideon exalou um suspiro aliviado. Se eles estavam vindo do sul, então qualquer Eldrazi
que estivesse atrás deles não era parte do enxame de Portão Marinho. Ainda havia tempo.
“É um voador”, disse Seble. “E é grande, Gideon.”
Gideon se focou. Mesmo se não fosse o enxame, ainda era um Eldrazi que ele teria que
destruir. “Me leve até lá.” Ele agarrou a parte de trás do cinto de Seble conforme a raia
avançou.
“Eu acho que eles são mais refugiados,” a elfa gritou para trás. “Eles pareciam muito
surrados, pelo que eu vi.”
“Então, vamos certificar que a última etapa de sua viagem seja tão agradável quanto
possível”, disse Gideon.
Este seria o segundo grupo de refugiados que Pedra Celeste tinha acolhido nos últimos
dias. O último grupo de refugiados era um grupo de kor que tinha sido encontrado por um
grupo de caça, vagando em choque depois de ter visto Portão Marinho. Eles tinham vindo
de Akoum; tinham viajado através de dois continentes e o mar, tudo porque Portão
Marinho deveria ser um santuário. Essa era a notícia que tinha se espalhado na maior
parte do mundo, de acordo com os kor. Eles prometeram que havia mais vindo, de todo
lugar. E aqui estava mais prova.
Todos estes Zendikari estavam fugindo para um santuário que não existia.
À medida que a raia circulou um grande edro quebrado, Gideon teve seu primeiro
vislumbre do gigante Eldrazi de que Seble o avisara. Era um voador baixo, com tentáculos
surpreendentemente azuis e estava ondulando logo acima das copas das árvores,
traçando seu caminho sinuoso entre as vinhas que pendiam para baixo das edros acima.
Seu curso estava voltado para um grupo na distância, assim como Seble tinha dito. Eles
não pareciam estar conscientes do perigo em que estavam.
“O quão perto você pode me deixar?” Gideon gritou para Seble.
“O quão perto você quer estar?” Seble chutou o lado da raia, comandando-a em um
mergulho, mirando diretamente para o Eldrazi.
Enquanto que a raia descia, Gideon desprendeu seu sural.
A passagem de Seble os trouxe perto o suficiente para ela alcançá-lo com um golpe forte
de sua lança. Enquanto a ponta da lança perfurou o lado do Eldrazi, as quatro lâminas do
sural de Gideon atacaram suas costas, cortando-a em quatro lugares.
Mas isso não foi dano o suficiente para retardá-lo.
“Perigo à vista!” uma voz em pânico gritou de baixo. Era uma dos refugiados – uma mulher
humana com longo cabelo cinza-prata. Ela tinha visto o Eldrazi.
A agitação da mulher pareceu atrair a monstruosidade. Ele aumentou seu ritmo.
Os refugiados começaram a correr.
“Outra passagem”, Gideon ordenou para Seble. “Depressa!”
Em sua segunda passagem, Seble voou ainda mais perto do que da primeira vez. Tão
perto que Gideon pôde sentir o cheiro das vísceras recém-expostas do Eldrazi.
Ele atacou em frente com seu sural e sangue gosmento salpicou de mais quatro cortes no
lado do monstro. Mas os ferimentos não diminuíram sua velocidade.
Ele tinha que retardá-lo.
Ele sacudiu o sural novamente, desta vez com a intenção de prender ao invés de cortar.
Com um movimento do pulso, as lâminas de sua arma se enrolaram em torno de
tentáculos do Eldrazi.
Gideon puxou, trazendo o Eldrazi para trás e para fora do curso, para longe dos
refugiados.
Mas ele não tinha considerado a física de uma batalha no céu. Sem nada para se opor à
força de seu ataque, Gideon, Seble, e a raia foram jogados pelo ar na direção oposta.
Eles balançaram e vacilaram, Seble lutando para recuperar o controle. “Solte!” ela gritou
para Gideon.
Gideon agitou o sural, tentando liberar o Eldrazi, mas duas das lâminas de sua arma
estavam emaranhadas em torno dos tentáculos, presas; ele não conseguia soltá-las
puxando.
O Eldrazi coiceou e a raia foi puxada para o lado.
“Solte!” Seble gritou novamente.
Gideon percebeu que ela estava falando para ele soltar o sural – mas tarde demais. Ele
perdeu seu assento e deslizou para fora das costas curvadas da raia.
Por um momento ele despencou pelo céu. Então seu sural o puxou em uma súbita parada
e ele ficou balançando do lado traseiro do Eldrazi – ele assistiu Seble e a raia
mergulharem em direção ao chão.
Toda essa provação não tinha o feito ganhar tempo algum. O Eldrazi ainda estava em
curso. Oscilando dele, Gideon podia ver as cicatrizes e feridas nos braços e pernas dos
refugiados.
“Fique longe dele!” Usando seu sural como um guincho, do jeito que ele tinha visto Abeena
fazer, Gideon se puxou pelos tentáculos do Eldrazi e subiu nas placas ósseas de sua parte
traseira.
A coisa bestial balançava e se retorcia, atacando-o com quatro braços estranhamente
dobrados para trás e ainda, de alguma forma, mantendo a sua direção.
Gideon canalizou a magia de seus protetores escudos de incandescência, colocando um
primeiro de seu lado, então à sua frente e depois na perna, bloqueando todos os
apêndices conforme ele subia as placas ósseas em direção à cabeça do Eldrazi.
Ele agarrou os tentáculos mais finos da cabeça que pareciam vagamente como antenas e,
usando-os como rédeas, ele puxou a cabeça do monstro para trás. Em seguida, ele
empurrou-a para frente, colocando todo seu peso sobre ela e forçando o Eldrazi a entrar
em queda livre.
A coisa gritou e se rebateu, lançando seus tentáculos sobre ele, mas Gideon não desistiu.
“Eu lhe disse para ficar longe!”
Com um impulso final de energia, ele dirigiu o Eldrazi direto para o chão, levantando seus
escudos de magia bem a tempo de se proteger do impacto.
O acidente desprendeu seu sural e Gideon o estalou de volta, rebobinando-o. Ele pulou do
Eldrazi e no momento seguinte ele atacou a monstruosidade, uma vez, duas vezes, e de
novo. Cortando fora tentáculo após tentáculo, rasgando as partes mais sensíveis de sua
carne.
A coisa gemeu e gritou; os ruídos não naturais apenas estimulando Gideon adiante. Ele
iria chicotear o Eldrazi uma vez por cada Zendikari que havia sido perdido para sua
espécie. E mais uma vez por aqueles que em breve seriam perdidos. Tudo o que as
pessoas estavam fazendo era tentar sobreviver, mas havia monstros demais – monstros
que viriam sem parar, se espalhando por todo a terra. Para sempre. Não acabaria nunca.
Os Zendikari nunca estariam seguros.
Como é que eles iriam sobreviver?
Como?
Uma pilha de sangue Eldrazi e tiras de carne jazia aos pés de Gideon. Não havia mais
nada para destruir. Ele deixou cair seu braço e seu sural parou imóvel ao seu lado.
Eles não podiam retirar-se para Zulaport.
Não importava o que Vorik disse.
Não importava o que Tazri queria.
O povo de Pedra Celeste nunca iria sobreviver a isso. Eles nunca iriam conseguir
atravessar Tazeem, muito menos atravessar o mar.
Havia muitos Eldrazi.
Eles tinham que ficar. Se eles quisessem sobreviver, eles tinham que ficar aqui.
Mas e se eles quisessem fazer mais do que sobreviver?
Uma rajada de vento e o bater de asas de couro chamou a atenção de Gideon. Ele se
virou para ver Seble pairando não muito acima, olhando com uma pergunta em seus olhos.
“Eles chegaram ao acampamento?” ele perguntou.
Ela assentiu com a cabeça.
“Me leve de volta.”
Ela dirigiu a raia para baixo para que Gideon pudesse subir.

Parte 3

Mesmo antes que Gideon pudesse descer das costas da raia, ele podia ouvir a voz de
Tazri. Ela estava discutindo com o novo grupo de refugiados. Gideon correu para lá.
“Portão Marinho não pode cair”, um kor no grupo grunhiu como se a ideia fosse absurda.
“Mas caiu”, disse Tazri. “Nós evacuamos há poucos dias. A cidade está perdida.”
“Não.” A mulher velha com o longo cabelo cinza-prata que Gideon tinha visto de cima
agarrou o braço de Tazri. “Não.” Ela balançou a cabeça. “Isto.” Ela ergueu a outra mão e
levantou um dedo enrugado. “É por isto que nós lutamos. É por isto que...”, ela mordeu um
dedo para lutar contra o choro. “Você não tem ideia.” Sua voz tremeu, mas ela não chorou.
“Você sabe de quão longe nós viemos? O Turbilhão, quatro vezes. Aquele Eldrazi
monstruoso. O enxame deles no rio. Tho, Zuri, Daye, Itri, todos eles caíram sabendo que
iríamos encontrar – não. É por isto que nós viemos.” Ela brandiu o dedo na cara de Tazri.
“Isto é Portão Marinho. Portão Marinho é a única esperança de Zendikar. Portão Marinho é
tudo o que nos resta. Nós viemos por Portão Marinho.”
Os outros atrás dela ergueram os dedos também. Gideon reconheceu o gesto. O primeiro
grupo de refugiados tinha feito a mesma demonstração. Seus dedos eram um sinal para o
farol. Portão Marinho. Sua esperança.
“Sinto muito”, disse Tazri. “Portão Marinho está perdido. Você pode vir conosco para
Ondu.”
“Ondu!” Uma jovem mulher no grupo empacou. “Não há quase sobrando em Ondu.”
“Todos de Ondu estão indo para Portão Marinho. Assim como todo mundo de Akoum. Até
mesmo alguns dos vampiros de Guul Draz. E agora você está dizendo a nós, todos nós –
depois de tudo que nós perdemos, depois de tudo pelo que lutamos – que não há nada?
Não há um fim?” Ela olhou de Tazri para Gideon. “Isso não pode ser verdade. Por favor.
Isso não pode ser verdade.” Lágrimas silenciosas escorriam pelo seu rosto.
Gideon sentiu o desespero.
Isso não pode ser verdade.
“É o comandante.” A voz de Abeena soou, corrida e vinda de trás. Gideon virou. “Ele
chamou por você.” Ela estava olhando para Tazri.
“Sinto muito”, disse Tazri aos refugiados. Ela já estava correndo para a tenda de Vorik. “Eu
tenho que ir.”
“Você também”, disse Abeena. “Gideon, ele quer que você também. Agora.”
Gideon podia ver em seus olhos. Vorik não viveria para ver o sol novamente.
“Fique com eles, Abeena”, disse Gideon.
A kor assentiu solenemente.
Gideon deixou o pequeno grupo de refugiados e correu pelo edro atrás de Tazri.
Ela olhou para ele. “Não há novas rações”, ela cuspiu. “Você não foi à caça.”
“Não.” Gideon alcançou-a e abriu a aba da tenda de Vorik. “Eu não tive a chance.” Agora
não era o momento para Vorik morrer. Gideon não estava pronto para ter que responder a
Tazri.
Dentro da tenda do comandante era abafado e o ar cheirava a fungo seco e podre – cheiro
de corrupção Eldrazi. Vinha da respiração de Vorik.
Três curandeiros esperavam contra a parede oposta, silenciosamente vigilantes.
Gideon se ajoelhou ao lado da cama do comandante e Tazri ficou atrás.
“Senhor, nós estamos aqui”, disse ela.
Vorik abriu os olhos; eles estavam vermelhos e tinham a aparência de vidro rachado. “Ouvi
dizer que há novas chegadas.”
“Sim”, disse Tazri. “É um pequeno grupo.”
“Refugiados. E há mais chegando todos os dias”, disse Gideon. “Eles estavam indo para
Portão Marinho.”
Vorik balançou a cabeça, com pesar. “Portão Marinho”. Sua voz era pouco mais que um
sussurro.
Tazri olhou para Gideon, um olhar que lhe disse para parar de falar, mas ele sentiu a
necessidade urgente de se impor. Vorik tinha que saber a verdade – agora, antes que ele
falecesse. Agora, enquanto ele ainda poderia decidir o destino das pessoas aqui. “Eles
estão vindo de todo o mundo, senhor. De todos os outros lugares que estão caindo para
os Eldrazi, Akoum, Guul Draz... e Ondu.”
“Portão Marinho nunca deveria ter caído.” Vorik ainda estava balançando a cabeça,
perdido em pensamentos. Ele não parecia ter ouvido Gideon. Ele olhou para Tazri. “E
como estão os preparativos para a evacuação?”
“Estamos no caminho certo, senhor.” Tazri disse. “Os novos números significam que
vamos precisar recolher mais algumas rações. Mas podemos partir dentro de uma semana
se cada um fizer a sua parte.” Ela lançou outro olhar a Gideon. “Eu mapeei uma rota
através de Tazeem e...”
“Uma rota que estará repleta de Eldrazi”, Gideon cortou.
“O caminho mais seguro que conseguimos encontrar”, Tazri rebateu.
“Não há rota segura para atravessar Tazeem”, Gideon elevou a voz sobre o protesto de
Tazri; ele tinha um ponto a provar e ele iria prová-lo. “Não há rota segura em todo o plano
de Zendikar.”
“A nossa viagem será perigosa, sim”, disse Tazri. “Mas nós sabíamos disso. E eu fui
assegurada por nossos batedores que, assim que chegarmos à costa, haverá barcos
esperando para levar-nos através do mar.”
“Barcos que acabaram de fazer aportar em terra”, disse Gideon. “Barcos que levavam
refugiados para longe de lugares como Akoum e Ondu. Porque esses lugares caíram.”
As narinas de Tazri inflaram e a auréola em volta de seu pescoço ardia. Ela virou-se para
Gideon. “Eu ouço você! Todos nós ouvimos você! Você não quer que nós evacuemos.
Você não quer que a gente vá para Zulaport.”
“Não, eu não quero”, disse Gideon.
“Então o que você quer que façamos em vez disso? Fiquemos aqui? Ficar aqui sobre esta
pedra vulneráveis e expostos e esperar que eles venham até nós? Esperar para morrer?”
“Não.” Gideon percebeu que ele tinha, de fato, outro plano. Em algum momento entre
abater o Eldrazi voador, falar com os refugiados e ver as rachaduras nos olhos de Vorik,
ele tinha decidido o que tinha de ser feito. Ele olhou para o comandante, encontrando o
olhar desvanecido de Vorik. “Eu nos levaria de volta para Portão Marinho.”
“O quê?” Tazri gritou. “Impossível”.
“Portão Marinho caiu, Gideon.” Vorik tossiu, uma nuvem de poeira subindo para fora de
sua boca e flutuando no ar entre eles. “Está tomado. Está perdido.”
Parte de Gideon queria olhar para longe da poeira, do comandante moribundo, mas ele
respeitava e gostava demais do homem; ele nem sequer piscou. “Ele pode ficar de pé
novamente, senhor”, disse ele. “Nós podemos tomá-lo de volta. Nós podemos reunir um
exército aqui em Pedra Celeste – já temos metade de um com todos os refugiados que
estão aparecendo por aqui. Uma vez que tivermos soldados suficientes, nós os cercamos
exatamente como eles fizeram, e nós voltamos e recuperamos o que é nosso. Você
mesmo disse que é o local mais estratégico em toda Zendikar. Nós precisamos de Portão
Marinho, senhor, precisamos...”
“Você está louco”, Tazri o cortou. “Você estava lá, Gideon – por grande parte da batalha,
pelo menos. Você viu o nosso povo cair. Você viu os enxames de Eldrazi. Como é possível
você pensar que temos alguma chance?”
“Os Eldrazi não vão ficar lá por muito tempo”, disse Gideon. “Eldrazi não funcionam como
os exércitos conscientes que conhecemos. Eles não têm interesse em manter Portão
Marinho. Eles se alimentam do que eles podem e então vão em frente, assim como eles
foram em frente de qualquer outro lugar.”
“Eles vão em frente e vêm direto para nós!” Tazri disse. “Devemos partir o mais cedo
possível.”
“Não há nenhum lugar para ir, Tazri!” Gideon cerrou os punhos. Por que ela não podia
ver? “Você continua dizendo que nós temos que 'evacuar', mas não há lugar para
evacuar.”
“Zulaport”, disse Tazri. “Nós estamos indo para Zulaport, ordens do comandante.”
“E o que nos diz que Zulaport não estará destruído quando chegarmos lá? O que nos diz
que não está destruído agora? Este é o fim. Os Eldrazi estão tomando tudo. Se não
tomarmos uma posição agora, todo Zendikar será destruído.”
“Basta!” Vorik gritou, e seu grito veio com um ataque de tosse. Nuvens de poeira subiram
no ar com cada tossida.
Os três curandeiros passaram correndo por Gideon e Tazri.
Gideon se levantou, dando um passo para longe da cabeceira do comandante.
“Tolo”, Tazri cuspiu. “Você é um tolo. Você marcharia com essas pessoas, o meu povo, o
povo de Vorik, para a sua morte.”
“Não, eu daria a eles uma chance de viver.”
“A chance de sobrevivência é a Zulaport. Você sabe disso tão bem quanto eu.”
“Sobrevivência não é mais suficiente, Tazri”, disse Gideon.
“Como você pode dizer isso? Sobrevivência é a única coisa.”
“Eu não via também. Não até agora. Eu estive tão focado no que estava bem diante de
nós. Nós todos estivemos. Mas temos de olhar para a imagem inteira.” Gideon reconheceu
as palavras de Jace em seus lábios. Neste aspecto, o mago da mente tinha razão. “Não é
apenas Portão Marinho que foi tomado. Os enxames de Eldrazi estão tomando tudo. Eles
estão em toda parte. Eu os vi por mim mesmo. Se não agirmos agora, se não lutarmos,
então este mundo será perdido. Tudo e todos nele serão destruídos.”
Os olhos brilhantes de Tazri perfuraram Gideon. “Exceto você. Você só vai partir.”
Gideon piscou, surpreso com a acusação, mas, antes que pudesse contrariar, a voz de
Vorik soou alta. “Já chega, saiam daqui!” Por um momento, parecia que a força do
comandante havia sido restaurada, como se ele estivesse gritando ordens no campo de
batalha. “Parem cde ficar dando voltas em torno de mim e se afastem, já. Deem a um
velho moribundo uma chance de respirar.” Ele estava falando com os curandeiros. “Seu
trabalho aqui está feito.” Ele acenou para eles, seu olhar firme. “Obrigado por tudo o que
fizeram, mas acabou.” Ele olhou para além dos curandeiros. “Tazri, Gideon. Venham. O
tempo é curto.”

PARTE 4 (Final)

Conforme os curandeiros sombriamente se afastaram, Gideon e Tazri se aproximaram.


“Estou morrendo e vocês estão discutindo.”
"Senhor..." Tazri começou, mas Vorik falou sobre ela.
"Agora não é o momento para discutir. Agora é o tempo para ouvir. Escutem um ao outro.
Vocês são o bem mais valioso um do outro.”
Gideon olhou para Tazri, mas ela continuou a olhar para baixo, para Vorik, impassível.
"Se vocês não vão ouvir um ao outro, então pelo menos ouçam a mim." Vorik apoiou-se
levemente. "Há algo importante que eu preciso lhes dizer." Ele lambeu os lábios secos,
mas sua língua estava ainda mais seca. Flocos caíram de ambos. Ele limpou a garganta.
"Quando eu estava encurralado no campo de batalha, quando aquela monstruosidade
Eldrazi me perfurou e contaminou com sua essência corrompida, foi a coisa mais terrível
que eu já tinha experimentado."
Gideon ficou tenso.
"Mas naquele momento, não foi terror que senti. Nem mesmo arrependimento. Não. O que
eu senti foi alívio. Tenho vergonha de dizer isso, mas é verdade. Senti alívio por saber que
eu iria tomar o caminho mais fácil, que eu não teria que ficar e enfrentar o que viria a
seguir."
Ao lado de Gideon, Tazri mudou.
"Mas depois eu pensei no meu povo", disse Vorik. "Eu pensei em todas os Zendikari e eu
senti remorso. Eu teria ido e eles estariam aqui, vocês estariam aqui, vocês teriam que
assistir o fim do mundo." Vorik fez uma pausa, engolindo uma tosse. "Mas agora eu tenho
esperança", sua voz estava sufocada. "Tenho esperança de que isso não é verdade.
Tenho esperança de que ainda há uma chance para Zendikar. Gideon Jura, você me deu
esperança." Ele levantou um dedo.
Gideon pensou que o comandante estava indicando que eles deviam esperar, que ele
estava lutando com outro tosse... mas então ele viu...
"Portão Marinho," Vorik disse, mantendo o dedo no alto. Em seguida, ele o virou para
apontar para Gideon. "Essas pessoas precisam ser inspiradas da mesma forma que você
me inspirou. Eles precisam encontrar esperança, assim como eu encontrei. Eles precisam
de um líder que vê o caminho para a vitória, não importa as circunstâncias. Quando eu me
for, você vai liderar estes pessoas. Você vai recuperar Portão Marinho, Comandante-Geral
Jura.”
"Sir." Gideon cambaleou. O título...
"Não." Tazri engasgou.
"Tazri." Vorik olhou para sua assessora. "Você é forte e corajosa, e você tem sido minha
conselheira mais leal. Mas você está muito perto. Você está muito perto de mim, de
minhas ideias, de Zendikar. Este mundo precisa de uma nova perspectiva, essas pessoas
precisam de uma nova razão para acreditar."
"Mas..."
"Você conhece Zendikar melhor do que ninguém – talvez melhor até do que eu. Por isso, o
comandante vai precisar de sua ajuda. Você vai ficar ao seu lado como você ficou ao
meu."
"Você não pode fazer isso, senhor", disse Tazri. "Ele nem sequer é um Zendikari."
Vorik tossiu novamente. Uma tosse forte que trouxe para fora um pedaço de corrupção tão
grande quanto uma moeda. Ele lutou para respirar, balançando a cabeça. "Não importa de
onde ele veio, Tazri. Ele tem o espírito teimoso de um Zendikari." Vorik estendeu a mão
para Gideon.
Gideon fechou os dedos grossos em torno da mão murcha do comandante.
"Não perca esse espírito", disse Vorik. "Não perca esta terra."
"Eu não vou, senhor", Gideon prometeu.
"Eu deixo Zendikar para você, Gideon." As palavras saíram em uma tosse que rasgou o
interior do comandante. Seu corpo estremeceu e então sua mão caiu flácida dentro da
mão de Gideon.
_
O funeral foi realizado no nascer do sol na borda do edro, com vista sobre a terra.
Os Zendikari cantavam hinos, as suas vozes começando baixos e fortes e inflando em
algo tumultuoso e ousado.
Gideon participou quando podia, mas olhares de soslaio de Tazri confirmavam que ele
estava fora do tom.
O corpo do comandante Vorik foi embrulhado com cuidado em panos e os Zendikari no
acampamento formaram um círculo em torno de seu líder caído. Em turnos, cada um deles
ajoelhou-se e, com um carvão escuro, fez uma marca sobre o pano funerário, sussurrando
uma mensagem em cântico.
Chegou a vez de Gideon.
"Você não sabe o que dizer, então não diga nada", Tazri falou baixinho quando ele se
aproximou o corpo de Vorik.
Gideon se ajoelhou. Ele pegou o carvão escuro e fez a marca em silêncio.
Tazri estava certa, ele não conhecia as palavras do enterro. Mas ele sabia o que dizer.
Ele se levantou, inalou uma grande golfada de ar Zendikari e deixou o cheiro da terra
selvagem enchê-lo. Ele olhou para o povo de Pedra Celeste, seu povo. "Hoje nós
perdemos muito", ele começou. "Mais do que apenas nosso comandante. Ficamos sem o
nosso líder, nosso campeão, a nossa luz guia. Como o farol em Portão Marinho,
Comandante-Geral Vorik se mantinha forte e verdadeiro, mesmo perante a maior
adversidade. E apesar de ele ter partido, temos de ser como ele, porque nós enfrentamos
agora a maior adversidade que Zendikar já conheceu.
"Da mesma forma que a corrupção se propagou para reivindicar o corpo de nosso amigo,
também se propagam os monstros corruptores por esta terra. Cada dia é pior. A cada dia
há mais. A cada dia eles tomam mais. Nós não podemos mais deixá-los fazer isso." Ele
inclinou a cabeça em direção ao corpo de Vorik. "Nós vimos o que acontece quando eles
têm liberdade para perambular à vontade. Não podemos deixar que o que aconteceu com
o nosso líder aconteça a este mundo."
Ele fez uma pausa, olhando em volta para os rostos caídos e desesperados. "Nós temos
uma escolha diante de nós hoje. Podemos optar por deixar Pedra Celeste. Estaremos
prontos para evacuar dentro de uma semana. Nós temos rações e suprimentos. Barcos
esperaram por nós no porto. Podemos recuar para Zulaport."
As pessoas se inclinaram, ansiosos.
"Mas se for isso que nós escolhermos, muitos de nós não vão sobreviver. A viagem vai ser
perigosa. Vamos encontrar dezenas de Eldrazi pela terra e nas águas. Eu já estive do
outro lado dos mares. Eu vi os Eldrazi em Ondu , Kabira, Forte Keff, e todos os lugares
entre eles. Eles estão em toda parte. E a cada dia há mais. Eles podem já estar em
Zulaport. Aqueles de nós que conseguirem chegar a Zulaport podem encontrar nada,
exceto mais Eldrazi."
Tazri fez menção para discutir, mas Gideon levantou a mão e continuou. "Ou talvez
descubramos que a fortaleza continua de pé. Mas se assim for, por quanto tempo? Quanto
tempo vai ficar de pá qualquer coisa?" Ele olhou para Tazri. "Não há como dizer, mas em
algum momento, se nós escolhermos Zulaport, Zulaport vai cair. Ele vai cair assim como
Portão Marinho caiu, assim como todas as outras partes de Zendikar estão caindo. Se nós
escolhemos recuar, vamos ser destruídos junto com este mundo.”
Era uma dura verdade, mas era a verdade, e essas pessoas mereciam saber a verdade.
Eles tinham que saber a verdade.
"Mas nós temos outra escolha", Gideon continuou. "Nós podemos escolher lutar. Podemos
optar por parar de correr. Podemos optar por ir para a ofensiva. Por nos mantermos fortes
e verdadeiros em face da maior adversidade. Estou diante de vocês hoje como seu
comandante, e peço-lhes para escolher lutar. Peço-lhes que me ajudem. Ajudem-me a
reunir todos os Zendikari, de todos os cantos do mundo, de todos os continentes, cada
último Zendikari que estiver disposto a lutar. Vamos nos reunir aqui mesmo, em Pedra
Celeste. A força total de Zendikar irá convergir em um só lugar e com essa força nós
iremos lutar. Com o poder do mundo atrás de nós, não podemos perder. Vamos usar esse
poder para recuperar Portão Marinho.”
Um murmúrio levantou-se da multidão reunida, mas Gideon continuou. Havia mais que
eles tinham de ouvir. Mais que ele tinha a dizer. "Portão Marinho é o coração deste mundo.
É o local mais estratégico, cheio de armas, comida e suprimentos. Fortificável, defensável.
Reivindicar é apenas o primeiro passo. A partir daí, lançamos nosso próprio ataque. Nós
nos tornamos os predadores. Nós caçamos os invasores. Nós acabamos com os
corruptores. Nós nos espalhamos por todo a terra e tomamos de volta o que é nosso. "Ele
sacudiu o sural através do ar. "Nós tomamos de volta Zendikar!"
Ele olhou para os Zendikari reunidos à sua volta. "Quem está comigo?"
Depois de um longo momento, Seble ergueu o punho. "Por Zendikar!"
"Por Zendikar!" Abeena acrescentou o seu grito.
Gritos de vivas se levantaram da multidão reunida com tal força que as vozes balançaram
o próprio edro onde o povo estava. "Por Zendikar!"
Gideon olhou para Tazri. Ela estava em pé ao seu lado, com os braços cruzados.
"Eu não vou partir", Gideon prometeu. "Eu estou aqui até o fim."
Tazri encontrou seu olhar.
"Você tem a minha palavra", disse ele. "Eu vou lutar por Zendikar."
A auréola em torno do pescoço de Tazri brilhava intensamente, sua luz capturando a
umidade em seus olhos. Ela assentiu com a cabeça.
"Por Zendikar, Comandante, eu vou lutar também."

MEMÓRIAS DE SANGUE
Parte 1

Quando Kalitas e os Ghet ameaçaram transformar todos os vampiros de Malakir em


escravos dos Eldrazi, Drana revidou, retomando o controle de Malakir e afastando Kalitas
e seus traidores para longe da cidade. Mas a vitória de Drana foi de curta duração, e ela e
seu povo remanescente foram expulsos da cidade por hordas crescentes de Eldrazi.
Seus números têm aumentado com milhares de mortais que não têm escolha se não se
juntar a eles ou perecer diante do assalto Eldrazi. Eles são o último bastião remanescente
da civilização em Guul Draz, e eles vagam pelo continente devastado em busca de
esperança ou de socorro em um mundo que tem infimamente pouco de ambos.
_
Contra um céu da cor de árvores mortas, um bando de pássaros caiu do ar. Nenhuma
força os impediu, nenhuma flecha ou feitiço perfurou seu voo. Eles só pararam e
morreram, seus corpos sem vida deixando de seguir em frente. Drana pensava que tinham
desistido. Talvez tenha sido a escolha razoável.
Em torno dela, enormes trenós gemiam sob o peso de milhares de refugiados, tanto
vampiros quanto mortais. Cada trenó era ligado a centenas de nulos, babando e
balbuciando conforme eles se moviam para frente, sempre para frente. Eles já não
estavam se movendo em direção a algo. Apenas para longe. Longe dos Eldrazi, longe da
morte certa. Mas cada dia havia menos lugares para ir “para longe”. A terra do “longe”,
aqui em Guul Draz, estava sendo substituída pela presença de mais Eldrazi.
Drana subiu pelo ar, uma pesquisa que ela sabia que não oferecia nenhuma esperança,
mas ela voou mesmo assim. Seis trenós gigantescos, além de pequenos grupos dispersos
de batedores vampiros e os poucos mortais que ainda estavam prontos para o combate.
Quinze mil vidas, no máximo, e talvez um quinto das pessoas valessem mais no campo de
batalha do que o delicioso sangue que carregavam em suas veias. Quando Drana havia
libertado Malakir dos vampiros traidores que tinham sucumbido à chamada dos Eldrazi,
quando eles ainda pensavam que esta guerra podia ser vencida, eles tinham mais de três
vezes esse número, a grande maioria deles guerreiros vampiros úteis.
Drana subiu mais alto para ver a grande massa de Eldrazi por trás deles. Ela queria dizer
que havia milhares deles, mas ela não gostava de mentir para si mesma. Havia muitos
mais do que milhares deles, um número tão maior que não era útil rotular ele. Lá no meio
da prole estava o enorme progenitor Eldrazi, elevando-se sobre as colinas vizinhas, o
senhor do seu domínio. O progenitor não era tão grande ou formidável quanto o próprio
Ulamog, mas ainda era enorme e poderoso o suficiente para acabar com o continente de
Guul Draz. Seus múltiplos membros acenavam em uma órbita constante no céu alto. Os
vampiros tinham perdido muitos dos seus para seus braços em ataques aéreos antes que
a inutilidade de tais ataques se tornasse clara.
A massa Eldrazi era enorme e a massa era inexorável e a massa era a morte... mas, pelo
menos, a massa era lenta. Às vezes, os trenós tinham sido puxados muitos quilômetros à
frente, de modo que os perseguidores não fossem mais visíveis. Mas havia massas Eldrazi
menores, que tinham vindo da esquerda e da direita, e ao fazer ângulos para frente e para
trás para ficarem longe, a força de Drana tinha permitido à massa perseguidora recuperar
o atraso. Agora, os vampiros estavam apenas alguns quilômetros à frente, e eles estavam
ficando sem espaço para manobrar. Logo eles estariam na costa e sua única esperança
seria dar a volta e... permanecer vivos hoje, Drana lembrou. Essa era a nova meta. A única
meta. Fique vivo hoje.
A meta ficava mais difícil a cada dia.
Eldrazi estavam por toda parte e a terra que ela havia conhecido há milhares de anos
estava evaporando abaixo. Nem pedra nem madeira nem vida resistia à calcificação
calcária que era o resíduo do assalto Eldrazi. Drana pensou no cadáver da terra sendo
drenado de essência e sangue para alimentar a fome insaciável de um predador
implacável. Nós fomos feitos nas sombras de nossos criadores, ela pensou, não pela
primeira vez. Não na imagem, mas em ação. A dolorosa verdade, a verdade essencial, era
que os Eldrazi eram melhores vampiros do que os vampiros.
Ela se virou para olhar em direção ao litoral, seu destino atual. Lá, além das águas
estreitas, estava Tazeem. Alguns dos vampiros sentiam que haveria refúgio lá, mas muito
mais, incluindo Drana, sentia que não havia razão para lá ser diferente do que aqui. Se os
vampiros, a raça mais poderosa em Zendikar, não poderiam derrotar os Eldrazi, que
chance teriam seres inferiores? Mas a cada dia mais alguns vampiros partiam, carregando
uma esperança tola de que santuário existia em algum lugar.
Ela avistou um ponto no horizonte, e o ponto se dividiu em cinco pontos, dez pontos, então
mais. Da direção de Tazeem eles vieram, e vários olheiros vampiros voaram para ter uma
visão mais de perto. Um superintendente voou até se juntar a ela. Os pontos tornaram-se
imagens mais nítidas. Havia talvez uma centena deles. “São aeroveleiros. Kor."
"Dar as boas-vindas ou matar?" Kan tinha sido um de seus superintendentes pessoais por
milênios. Ele conhecia os modos com que ela pensava, e ela apreciava sua eficiência
lacônica. Ainda assim, ele parecia cansado. Ela estava cansada. Ela já existia há milhares
de anos e, embora ela não conseguisse lembrar-se mais do que uma fração dessa vida,
ela pensou que nunca tinha estado tão cansada. Uma nova experiência. Ela deu um
sorriso apertado. Eu deveria ser grata.
"Boas-vindas. Eles vêm se juntar a nós no fim do mundo. Vamos acomodá-los."
_
O líder da delegação kor era alto e magro, mas com uma boa quantidade de massa
muscular magra. Um guerreiro, como o restante. Drana podia sentir o cheiro do sangue, o
delicioso aroma dos saudáveis. Ela não tinha se alimentado em alguns dias, e mesmo o
pouco sustento antes disso tinha sido o sangue dos moribundos e doentes. Estes kor
cheiravam bem. Ela sorriu amplamente, e ela deu crédito ao líder kor quando ele não
recuou, nem sequer tentou alcançar sua espada. Sangue corajoso era mais saboroso.
Ela colocou o arrependimento de não poder prová-lo em sua lista de arrependimentos
desde o início da ascensão Eldrazi. Esta tinha se tornado uma lista longa. O nome do líder
era Enkindi; ele e o resto de seu bando tinham sido enviados por Gideon de Portão
Marinho para encontrar outros sobreviventes em Guul Draz e trazê-los de volta para se
juntar o exército de Gideon. Drana tinha ouvido falar de Gideon de alguns dos retardatários
que se juntaram recentemente a seu acampamento. Os rumores eram de que Gideon era
um poderoso humano mago e guerreiro, mas quando Drana perguntou se ele havia
derrotado os Eldrazi em Tazeem, eles só poderiam responder: "Não, mas ele sobrevive."
Drana não conseguia ver nada de especial sobre este Gideon. É o que todos eles estavam
fazendo, sobrevivendo, até que chegasse o tempo em que eles parassem de sobreviver.
Fique vivo hoje. Mas poderia ser amanhã.
Ainda assim, se este Gideon podia se dar ao luxo de enviar uma centena de soldados
capazes à procura de aliados em outros continentes, ele estava melhor do que o seu
exército. Mas, no fim, isso não importava. Mas que estes kor podiam voar poderia
importar.

Parte 2

Os trenós gigantes tinham parado. Superintendentes vampiros andavam entre os nulos


acorrentados aos cabos que puxavam, derramando punhados de carne em decomposição
de grandes baldes. Os nulos eram os mais fáceis para alimentar; o resto de seu grupo,
menos. Os mortais trêmulos deixavam os trenós e eram entregues alimentos em
condições levemente melhores do que o que os nulos comiam. Agora não havia mais
combates e tumultos dos mortais por comida. Eles estavam exaustos demais para lutar.
Mas não exaustos demais para ficar nos trenós. Todo mundo que podia se afastava dos
trenós. Eles tinham aprendido.
Conforme seus vampiros andavam entre os trenós, retirando o pouco alimento que
conseguiam dos mortos e moribundos, ela levou os kor através de milhares de refugiados.
Havia ainda alguns mortais que tinham reservas e compaixão. Magos, curandeiros,
guerreiros, eles caminhavam entre os grupos amontoados oferecendo qualquer ajuda que
pudessem. Mas todo mundo sabia que era os vampiros que os mantinham vivos.
Caçadores e olheiros estavam constantemente indo a buscas em um amplo raio, trazendo
de volta tudo o que podia que se assemelhava a comida. Havia muito pouco sustento
sobrando em Guul Draz, no entanto. Agora, quando os batedores voltavam, traziam pouco.
Mais frequentemente eles sequer retornavam.
"Vocês estão morrendo, aqui." A voz de Enkindi era áspera, rouca.
Não havia julgamento em sua voz, porém, apenas uma observação dos fatos. Ainda
assim, a voz de Drana carregava um pouco de ressentimento. "Nós vivemos hoje."
Embora enquanto olhava para os rostos sujos em torno deles, caras sem esperança ou
energia, ela sabia que tinha forçado o significado de "vivemos".
"Sim, hoje. Mas para quê? Onde isto termina? Gideon acredita que podemos tomar uma
posição. Que, se todos nós ficarmos juntos, nós podemos..."
"Morrermos juntos?"
"Ganhar. Podemos ganhar. Muitos de vocês ainda são fortes. Nós sabemos o que vocês
podem fazer em batalha. Juntem-se a nós."
"E o que devemos fazer com eles?" Drana gesticulou em direção a vários aglomerados de
mortais que se amontoavam uns com os outros, rostos virados para o chão até que
ouvissem o chamado para voltar para o trenó. Nenhum rosto olhava para cima. Os mortais
não tinham vontade de ganhar a atenção de qualquer vampiro. Drana compreendia.
Comer os mortais moribundos fora o melhor compromisso que ela pudera impor sobre o
seu povo, e se os mortais pensavam que isso era horrível, ela também não ganhou
nenhum favor com aqueles que ela liderava.
"Eu..." A voz de Enkindi vacilou. "Eu não sei. Mas eles vão morrer de qualquer forma, a
menos que possamos vencer os Eldrazi." Drana os levou em direção a um grande grupo
de pessoas pequenas na periferia dos trenós. Havia uma centena deles, provavelmente
mais. Aqui e somente aqui havia sinais de movimento não estritamente relacionados à
sobrevivência. Muitas das pequenas pessoas ainda estavam amontoadas, mas alguns
deles corriam e jogavam e gritavam.
Apenas aqui Drana tinha posicionado vários guardas, seus melhores e mais confiáveis
guardas, cercando o grupo – observando por qualquer sinal de perigo ou dano. Os Eldrazi
não eram a única ameaça. Embora os vampiros não atacassem nenhum mortal saudável
sob seus cuidados, pelo menos não depois dos primeiros transgressores terem sido
punidos fatalmente, ela tinha postado os guardas de qualquer maneira.
"Crianças. Elas são..." A voz de Enkindi tinha hesitado antes, mas aqui ela quebrou.
Perfeito.
"Não, não crianças. Guerreiros. Como você." A voz de Drana era lânguida, macia e
aveludada, assim como antes de afundar seus dentes em suas vítimas. Se ela não podia
desfrutar de sangue real, pelo menos ela poderia desfrutar da caçada. "Melindra, venha
aqui." Ela não gritou, mas sua voz foi carregada.
Uma das crianças menores parou de correr e veio até Drana e Enkindi. Seu cabelo estava
cortado curto – raspado com um punhal por si mesma ou uma das outras crianças. Ela
tinha as mesmas maçãs do rosto angulares e pele pálida de Enkindi, marcando-a como
kor, mas as semelhanças terminavam aí. Seu rosto estava imundo e suas roupas
rasgadas e esfarrapadas. Drana trouxe um pequeno pedaço de carne e entregou-o à
criança que o engoliu e sorriu. Melindra tinha um belo sorriso.
"Vocês são crianças, Melindra?" A voz de Drana continuou sua melodia suave.
"Não. Nós somos soldados. Somos uma brigada, você disse. Somos a Brigada dos Órfãos.
Você disse que nós podíamos nos nomear, e nós nomeamos." Enquanto ela falava,
Melindra sacou um punhal de uma bainha caseira toda feita de corda áspera e couro. Mas
o punhal estava afiado e oleado. "Você disse. Nós podíamos escolher. Somos a Brigada
dos Órfãos.”
"E assim eu disse, Melindra. E assim que vocês escolheram. Brigada dos Órfãos". Ela deu
um tapinha na cabeça de Melindra e a criança olhou para ela e sorriu novamente.
Enkindi olhou para a criança, e de volta para Drana, lágrimas e raiva nos olhos. "Eles são
crianças! Crianças kor..."
"E humanos e tritões e elfos. Todos os mortais são mortais. Tornar-se um adulto não
parece oferecer proteção adequada contra a morte."
"Você realmente os utiliza para lutar? Quão má é você? Eles são..."
"Crianças, sim." Ela continuou a acariciar o cabelo tosco curto de Melindra. "Ser criança
não parece mais proteção contra a morte do que ser um adulto. Isso é guerra. Na minha
experiência, as guerras são geralmente muito eficazes em matar crianças. Talvez esse
seja o propósito de guerra, matar as crianças."
A mão de Enkindi começou a flexionar e tremer, apenas um pouco. Seus olhos se
apertaram enquanto suas lágrimas pararam. Drana tinha que ter muito cuidado aqui. Ela
não podia provocá-lo tão longe ainda.
"Exceto nesta guerra, Enkindi, contra os Eldrazi, somos todos crianças."
Os ombros de Enkindi caíram e sua mão parou de flexionar. Ele olhou para ela,
claramente perdido. Como você salva o que não pode ser salvo?
"Eu não vou deixá-los para os Eldrazi. Eu não vai deixar qualquer um deles. Você me pede
para atravessar o estreito oceano para lutar com este Gideon, para matar Eldrazi lá em
vez de matar Eldrazi aqui. Para salvar as crianças, mas não salvar essas crianças. Eu
tenho uma proposta diferente. Vou partir com você para lutar com Gideon em Portão
Marinho, se você e seus guerreiros lutarem comigo primeiro. Ajude-me a matar os Eldrazi
atrás de nós, que até mesmo agora deslizam mais perto em sua fome. Ajude-me a vencer
a minha batalha, e eu vou ajudá-lo a vencer a sua."
Ela estendeu a mão, na forma como os mortais fazem, e com sucesso resistiu ao desejo
de trazer para perto seu pescoço e o morder quando ele ofereceu sua mão em troca. Foi
um toque extra Melindra embainhar a adaga e esticar a mão da mesma maneira, mas
Drana amava a criança um pouco mais por isso.
Drana enviou seus tenentes para iniciar os preparativos, e ela marcou um encontro com
Enkindi no ar. Eles tinham uma batalha para planejar.

Parte 3

O sol conseguiu mostrar-se no início da tarde, sua luz pálida e fraca. Os Eldrazi
aparentemente sugavam a energia de tudo, até mesmo a própria luz. Os planos de batalha
tinham sido elaborados rapidamente. Uma das poucas vantagens de se lutar contra
chances improváveis e um inimigo inexorável e negligente era que estratégias de batalha
eram simples. A cada dia, a cada hora, seu exército enfraquecia. Melhor atacar agora. Um
zumbido percorria as massas. Depois de tantos dias de fuga e morte, aqui havia uma
chance de resolução. Não importa o resultado, a realidade de amanhã seria diferente do
que o medo de hoje.
Ela não estava propensa à introspecção cuidadosa, mas era difícil não reconhecer que
este poderia ser o último dia de sua existência. Ela tinha estado viva por muitos milhares
de anos. Mas mesmo depois de algumas centenas de anos de vida ela percebeu que tinha
uma escolha. Ela poderia dedicar-se a recordar o seu passado, a cada novo dia um
exercício em manter centenas de anos de memórias vivas, ou ela podia... desapegar. Ela
tinha escolhido desapegar.
Memórias para os que viviam longamente eram um edifício delicado de grãos. Grão
empilhado em cima de grão em cima de grão. Ela poderia aproximadamente traçar os
maiores deles, mas depois de tantos anos, tudo em sua fundação, em seus primeiros
tempos, fora enterrado. Ela queria esses primeiros dias, ela sabia que seriam essenciais
para os vampiros sobreviventes desta guerra. Hoje ela iria receber essas memórias ou ela
iria morrer. Ela deu boas-vindas à perspectiva de clareza, independentemente da forma
em que ele chegasse.
Suas oportunidades de clareza estavam se aproximando em todos os três lados. A
principal massa Eldrazi, centrada em torno do enorme progenitor, vinha do leste. Dois
grupos menores convergiam do norte e do sul. Ela tinha posicionado a maior parte de seu
exército para receber a maior massa. A maioria desse contingente eram vampiros
suportados pelos mortais em que ela podia confiar em batalha. Aqueles mortais muito
rebeldes para obedecerem de forma confiável suas ordens foram colocados no comando
dos frágeis e doentes. Ela não se incomodou em dar instruções sobre o que eles deveriam
fazer se o exército falhasse. Eles iriam descobrir em breve, no curto espaço de tempo que
lhes restaria.
Os melhores superintendentes de Drana comandavam as poucas centenas de voadores
que ainda havia. Seus voadores, juntamente com Enkindi e sua centena adicional, seriam
fundamentais. Drana manteve os olhos no progenitor Eldrazi. Ele era tanto o principal
desafio quanto a principal oportunidade nesta batalha. Eles poderiam matar todos os
outros Eldrazi que quisessem, mas se eles não pudessem encontrar uma maneira de
derrubar o progenitor, nenhuma das outras mortes teria importância. E eles não tinham
chance de matar o progenitor sem voadores.
Os Eldrazi estavam perto. Havia milhares, dezenas de milhares, mais; diferentes formas e
tamanhos correndo, rastejando, deslizando, mastigando seu caminho através do solo
rochoso, aqui na periferia de Guul Draz. Alguns até voavam, seus grotescos corpos
deformados uma afronta ao domínio de Drana. Ondulações ocasionais surgiam entre as
massas e corpos Eldrazi explodiam ou eram engolidos para dentro da terra. Era a própria
Zendikar ondulando para se livrar dos invasores estrangeiros, utilizando o turbilhão para
lutar sua guerra.
Mas as armas dos Eldrazi eram mais temíveis. Em todos os lugares que tocavam a vida, a
vida morria. Em todos os lugares que tocavam matéria, a matéria se desintegrava. Em
todos os lugares que eles tocaram o mundo, o mundo se dobrava. Eles são o fim de todas
as coisas. Os Eldrazi caíram sobre eles.
Mortais e vampiros igualmente receberam a investida inicial com uma selvageria feroz.
Eles explodiram, cortaram e rasgaram um caminho através dos irracionais tumores de
fome incorporados em formas gelatinosas com tentáculos. Todo o medo e desespero das
últimas semanas foi convertido em pura fúria e poder. Se estes eram os seus últimos
momentos de vida, eles seriam momentos épicos; momentos que valiam mil anos de
história e música para comemorar.
Os Eldrazi não se importavam. Os Eldrazi continuavam vindo.
Um zangão Eldrazi atacou com um tentáculo farpado a sua cabeça. Ela mordeu através
dele e pegou o apêndice cortado, chicoteando-o ao redor para decapitar outro Eldrazi atrás
dela. O Eldrazi sem cabeça não sabia que estava morto, devorando um mortal de boca
aberta, sugando-o e eviscerando-o em um único movimento ondulante. Dois outros
mortais fugiram em terror antes de serem mortos por mais Eldrazi. Drana cortou um
Eldrazi ao meio com sua espada e, em seguida, virou para perfurar o corpo de outro.
Drana rosnou quando fez isso, um feroz sorriso maníaco no rosto. Mas nenhum Eldrazi
correu em terror. Grande parte do ímpeto na batalha se baseava na criação de medo e
intimidação entre os seus adversários; uma vez que a mente sucumbia, o corpo seguia.
Essa abordagem era inútil contra os Eldrazi. A única tática disponível era matar.
Os Eldrazi quebraram através das linhas de frente, penetrando mais fundo no coração de
suas forças. Mais Eldrazi vieram atrás destes, e mais ondas estavam atrás daqueles,
sempre avançando. Eram muitos. Matar não seria suficiente. Drana precisava prosseguir
em seu outro caminho para a vitória.
Ela elevou-se para o alto, onde Enkindi e suas tropas atacavam vigorosamente e
planavam e rasgavam Eldrazi voadores em pedaços com seus ganchos afiados e
espadas. Drana admirava a eficiência e a eficácia dos kor aeroveleiros. Eles claramente
tinham muita prática matando Eldrazi. Drana esperava que fossem competentes o
suficiente.
"Kan!" Drana gritou por seu superintendente, a quem ela tinha mantido perto das forças de
Enkindi. "Mobilize a Brigada dos Órfãos. Envie-os para o progenitor!" Kan voou para baixo,
sem uma palavra. Enkindi também estava perto o suficiente para ouvir. Ele desviou seu
aeroveleiro em um loop amplo para enfrentar Drana. "Monstro!" Seu rosto se contorceu de
raiva e incredulidade. Ele atravessou sua espada através de uma Eldrazi, suas gotas de
gelatina dilaceradas e caindo no chão abaixo, com os olhos em Drana o tempo todo.
"Você envia aquelas crianças para a morte!" Seus gritos queriam rasgá-la em pedaços,
mas nenhuma mão da justiça veio do céu para obedecer ao seu comando. Drana
receberia de bom grado tal mão, contanto que ela matasse os Eldrazi também.
"Nós todos vamos morrer. É melhor morrer ao tentar ganhar. Temos de matar esse
progenitor, ou não temos chance. As crianças vão servir como isca necessária para atraí-
lo onde nós precisamos que ele esteja." Ela estava calma, pacífica. Cada palavra que ela
dizia era verdade. As mentiras mais fáceis eram aqueles que eram verdadeiras.
Quinze metros abaixo, a massa de crianças aproximou-se das linhas de frente, rodeada na
frente por seus guardas vampiros. Elas ainda nunca tinham conhecido combate
intencionalmente, embora cada criança tivesse experienciado batalha; cada sobrevivente
tinha. Os Eldrazi não se preocupavam com combatentes intencionais.
Enkindi balançou no ar, velejando para frente e para trás. A maioria de seu povo se reuniu
perto de seu líder, compartilhando seu desgosto, medo e ódio. Ele olhou para o progenitor
Eldrazi, trinta metros de altura, braços saindo de braços saindo de braços – uma fortaleza
impenetrável na forma de um único gigante Eldrazi. Drana imaginou os cálculos passando
pela mente de Enkindi. Certamente ele sabia que chances que tinham contra tal ser.
Todos sabiam.
Ódio e desespero guerrearam no rosto de Enkindi conforme ele chegou à sua decisão. Ela
aplaudiu seu ódio. Ele merecia melhor. Sua voz rosnando se ouviu sobre o vento. "Que a
sua morte seja dolorosa e longa. Que a sua morte não traga paz nem redenção." Virou-se
para o seu grupo. "Comigo! Devemos derrubar o progenitor!" Eles se espalharam como um
grupo, dobrando suas asas para cima e para cima para buscarem sua briga com o
progenitor Eldrazi.
Drana seguiu atrás, não muito perto, preparando-se. Ela só tinha começado a ter
esperança quando viu pela primeira vez os aeroveleiros no horizonte mais cedo hoje. Eles
eram uma possibilidade, uma esperança, que ela tinha perdido após a primeira grande
batalha com os Eldrazi semanas atrás, nos arredores de Malakir. Seus vampiros eram
destemidos, fortes, implacáveis e ferozes em combate, mas milhares de vampiros nunca
poderiam contemplar fazer o que uma centena de kor podia: se sacrificar para o bem dos
outros.
Enkindi liderou o ataque diretamente para a cabeça do progenitor Eldrazi. Drana entendeu
o plano. A cabeça e o pescoço da criatura, ou pelo menos os apêndices que se
assemelhavam mais a esses equivalentes, pareciam os lugares mais vulneráveis às
lâminas. Embora Enkindi e seu grupo estivessem se movendo rápido, o Eldrazi se movia
mais rápido. Um grande tentáculo da cabeça do Eldrazi envolveu-se em torno de Enkindi
enquanto um tentáculo menor envolveu-se em torno da cabeça de Enkindi e apertou. O
corpo decapitado de Enkindi, ainda ligado ao seu aeroveleiro quebrado, caiu inutilmente ao
chão. Os kor estavam sendo abatidos conforme os numerosos apêndices do progenitor
Eldrazi rasgavam e os jogavam para fora dos céus.
Drana agarrou um dos kor que caía a meio do caminho antes de ele encontrar o seu
destino fatal. Ele ainda estava vivo, embora inconsciente e sem muito tempo de vida. Ela
mordeu profundamente através de seu pescoço; e seus olhos se abriram e, em seguida,
fecharam. Foi um dos mais requintados gostos que ela já tinha apreciado, adequado para
a sua última refeição. Ela esvaziou-o completamente, deixando sua pele dessecada pairar
suavemente até o chão. Ela precisava de cada partícula de energia para o que estava por
vir. Ela buscou sua reserva e lançou um feitiço conforme ela ganhou velocidade em
direção ao progenitor Eldrazi. Apenas alguns kor ainda estavam voando livres; o resto
estava morto ou sendo agarrado pelo progenitor. O gigante Eldrazi, mesmo distraído por
todos os kor, ainda podia se mover extremamente rápido. Mas desta vez, Drana se moveu
mais rápido.
Ela voou direto para o abdômen central do monstro, perfurando gelatina, carne e músculo
até o coração da criatura. Seu mundo explodiu.
MEMÓRIAS DE SANGUE
Parte 4 (Final)

O feitiço que ela lançou lhe permitiu ver mais, ver energia e padrões normalmente
invisíveis, mesmo para alguém como ela. A energia era estranha, estrangeira, como uma
mancha magenta doentia, mas estava em todos os lugares. Eu sou a caçadora. Eu sou a
predadora. Tudo é presa. Tudo é meu. Ela tinha estado tão sedenta. Ela enfiou a boca no
coração magenta batendo deste monstruoso Eldrazi e ela bebeu. Ela bebeu
profundamente. Claridade floresceu.
No início, no começo, havia fome. Isso era tudo o que havia, essa fome, esse querer, essa
necessidade. Nosso objetivo era consumir. Precisávamos de pernas e olhos para
encontrar presas. Braços e dentes para agarrar as presas. Mentes e força para superar a
presa. Nós consumíamos e usávamos a energia que ganhávamos para consumir mais.
A missão era clara. Não clara em palavras. As palavras vieram mais tarde, uma má
tradução da verdade para o cérebro e para as palavras, esses imperfeitos mensageiros de
necessidade. Ficou claro em seus ossos. Você vai consumir. Você vai libertar. Os
remanescentes dos quebrados devem ser consumidos e purificados.
Ela não sabia o que significava os “quebrados”, ou que os Eldrazi sequer pensavam de um
todo, para que eles pudessem comparar e saber o que estava quebrado. Talvez para
essas monstruosidades, tudo o que era real, que era o mundo, estava quebrado.
Ela bebeu mais profundamente, mais profundamente. A energia do grande Eldrazi fluiu
para ela, impregnado todos os poros famintos na sua carne apertada. O progenitor Eldrazi
tinha um enorme buraco em seu peito, onde ela tinha escavado, mas ele ainda estava de
pé, ainda matando, ainda marchando sobre seu povo. Ela precisava de mais.
Consciência, um sentido de “eu” se separando da fome, levou anos. Talvez centenas de
anos, embora como eu poderia saber? A percepção de consciência veio em ondas,
rajadas crescentes de visão que me separavam de minha fome, me separavam do meu
mestre. Eu não era mais uma extensão dele, da força consumidora chamada Ulamog. Eu
era eu. Drana.
Mas antes da separação, tinha havido um... mal-estar. Um mal-estar que era parte dela
porque não havia ela, só a totalidade de Ulamog em muitas formas diferentes. Um mal-
estar que só mais tarde, nesses primeiros momentos entre ser Eldrazi e ser Drana, antes
que ela esquecesse totalmente, ela entendeu como um vislumbre de uma faceta de um
sonho.
Eles não deveriam estar aqui. Eles deveriam estar “longe”. De algum modo, havia um
“longe” de Zendikar. Havia muitos “longes” de Zendikar e o Eldrazi sabia, na medida em
que eles poderiam saber alguma coisa, que eles deveriam estar lá, e não aqui.
Mas eles estavam aqui, e sua finalidade era consumir, e assim o fizeram.
Por um breve segundo ela se lembrou daqueles primeiros momentos, o borrão confuso de
si mesma despertando e quão forte o seu propósito tinha sido naquela época, milhares de
anos atrás. Esse propósito tomou conta dela, uma onda gigante de oceano caindo sobre
ela e subsumindo-a inteiramente.
Você vai consumir. Você vai libertar.
Ela não estava mais recordando. Ela estava se tornando. A energia alienígena magenta
que ela bebeu do progenitor Eldrazi pulsava em suas veias, não mais sujeita à sua
vontade. Ela não estava devorando-o. Ele estava devorando ela.
Você vai consumir. Você vai libertar.
Tentáculos irromperam de suas costas e ombros, matéria viva criada instantaneamente na
forma de seus mestres, seus criadores. Nós fomos feitos à imagem dos nossos criadores.
Você vai consumir. Você vai libertar.
A estranha criatura que residia no coração do progenitor Eldrazi, uma forma disforme no
precipício de transformação total, gritou. Era um grito de paz ausente ou redenção. Era um
grito que anunciava o fim de um mundo.
Em algum lugar, a sombra de um pensamento mais breve do que um piscar de olhos que
uma vez que se autodenominou Drana se agarrou a um grão de memória. O grão dizia, eu
não sirvo a ninguém.
O grão brilhava preto, um brilho orgulhoso, um brilho com gravidade, e atraiu outros grãos.
Você vai consumir. Você vai libertar.
Os grãos foram atingidos por uma explosão de energia, derrubando e espalhando-os.
Eu não sirvo a ninguém. Os grãos se reuniram e fundiram-se em uma forma. Aquela forma
surgiu da guerra entre luz magenta e luz negra. A voz ressoou por toda parte.
Eu não sirvo a ninguém.
Você vai consu...
Eu não sirvo a ninguém! Eu vou ser livre! Drana reformou-se no interior do útero Eldrazi.
Ela bebeu tudo, cada partícula da energia Eldrazi em torno dela. Ela a obliterou e a
consumiu e se banhou nela. A carne vazia em torno dela explodiu, deixando nada além de
Drana flutuando no espaço observando o massacre abaixo dela. Seu exército estava
sendo dizimado e, mesmo com a perda do progenitor, a vitória Eldrazi estava quase
completa.
É assim que é ser um deus. Energia impregnava cada fibra do seu ser. Ela poderia destruir
exércitos, ela poderia destruir o sol. Com esse poder eu poderia fazer qualquer coisa. Sua
visão estava ampliada dez vezes mais do que o normal. Ela podia ver cada rosto, cada
detalhe abaixo. Ela viu a Brigada dos Órfãos, a linha exterior de crianças atacadas pelos
Eldrazi, enquanto alguns deles lutavam e alguns deles corriam e alguns deles morriam.
Ela devia deixá-los todos. Eles não podiam ajudá-la. Ela poderia ir diretamente até Ulamog
e confrontá-lo, destruí-lo. Ou ela poderia encontrar este “longe” de Zendikar. Por que se
contentar com dominar um mundo, quando havia mundos sem fim para possuir? A energia
dentro dela resistiu e se contorceu. Veias se abriram, ricos demais de poder para serem
contidas por qualquer forma física.
Seu povo estava sendo destruído. Ela devia salvá-los? O que importavam esses mortais,
até mesmo seus vampiros, quando mundos e deuses esperavam?
Eu não pertenço a ninguém.
Ela viu Melindra correr até uma prole Eldrazi e esfaqueá-lo na cabeça, enquanto ela
gritava. A prole Eldrazi estalou e balançou, mas ainda reagiu com a tensão de um
tentáculo e Drana podia ver o chicote destinado a cortar a cabeça de seu agressor.
Eu não pertenço a ninguém. Melindra não podia ver a reação da prole, não podia ver o
tentáculo vindo em sua direção para acabar com sua vida.
Eu não pertenço a ninguém... mas eles pertencem a mim.
Drana gritou quando ela soltou a energia armazenada em seu corpo, tornando-se um sol
magenta brilhante no meio do dia. Raios de luz roxa golpearam as pessoas, tanto
vampiros como mortais, curando suas feridas, tornando-os mais forte, mais rápidos,
invulneráveis.
O tentáculo do Eldrazi atingiu Melindra em seu ombro e se quebrou. Melindra riu quando
ela rasgou a cabeça do Eldrazi para fora de seu corpo. Ela correu para matar o próximo
Eldrazi. Em segundos a batalha mudou e o que sobrou do exército de Drana começou a
obliterar as forças Eldrazi.
A energia continuou a derramar de Drana. Ela já havia perdido mais de metade do
aumento de energia Eldrazi e ainda assim ela sentia que não conhecia nada igual no
mundo. Mas seu povo precisava de mais, e ela deu a eles. Feridas fecharam, doenças
sumiram, forças foram restauradas.
A energia estava desaparecendo, tornando-se surtos curtos, cada impulso que emanava
de si mais lento e mais fraco do que o último. Com cada pulsação ela chegou mais perto
do chão, de má vontade, mas obedecendo às leis de esgotamento maior do que sua
capacidade de voar. Não havia mais Eldrazi à vista, tudo havia sido destruído por seu
exército com poderes. Os padrões brancos e dessecados no terreno estavam mais
próximos. Eles são lindos. Eles são horríveis. Em seguida, ela bateu no chão e encontrou
o esquecimento.
_
"Podemos retomar Guul Draz." Nos milênios que ela o tinha conhecido, Kan nunca soou
animado, mas ele soava agora. Excitação era o sentimento predominante entre os
sobreviventes, os dois mil deles que permaneceram. Eles estavam saudáveis e
revigorados, uma combinação da magia de Drana e do primeiro sabor da vitória que eles
tiveram em semanas. Drana não queria arruinar a sua euforia, mas ela sabia que os meios
que levram a esta vitória eram únicos. Ela não iria arriscar lutar diretamente contra
qualquer Eldrazi da mesma maneira em qualquer momento breve ou talvez nunca. Desta
vez, ela tinha conseguido preservar a sua identidade, seu próprio ser. Da próxima vez, os
resultados poderiam ser muito diferentes.
"Algum dos emissários vivo?" Kan balançou a cabeça. Enkindi e o resto dos enviados
tinham servido ao seu propósito bem. Ela não tinha necessidade de honrar o sacrifício
deles, nem ela sentia culpa sobre a sua manipulação. Assim era as relações com presas.
Mas mesmo assim...
"Faça os preparativos para atravessar para Tazeem. Vamos para Portão Marinho." Kan
levantou uma sobrancelha por um momento antes de se virar e dar ordens. Vários outros
superintendentes fizeram o mesmo. Não houve vozes dissidentes. Qualquer desejo de
recuperar Guul Draz foi engolido por sua obediência fervorosa para com Drana. Ela os
tinha salvado em seu momento mais terrível de necessidade.
Drana andou entre seu povo, e todos, tanto vampiros como mortais, curvaram-se com sua
passagem. Suas cabeças olhavam para cima, no entanto, em busca de seus olhos, sua
gratidão. Ela encontrou seus olhares e continuou andando até que ela encontrou o que
estava procurando.
Melindra estava entre as outras crianças sobreviventes da Brigada, afiando seu punhal
com uma pedra de amolar. A criança, embora ainda vestida em trapos, se parecia nada
com a criança abandonada faminta que ela tinha sido. Ela parecia forte, sã, uma guerreira
de verdade.
Melindra olhou para cima, o rosto intocado pela malícia. O que quer que ela tenha visto no
rosto de Drana a fez sorrir e ela voltou para sua pedra de amolar e punhal.
Drana tinha tomado a decisão antes de perder a consciência, depois da batalha. Ela tinha
procurado o progenitor Eldrazi, procurado a sua energia para desbloquear suas próprias
memórias antigas. E ela encontrou o que estava procurando. Os Eldrazi não eram daqui.
Talvez eles nem sequer quisessem estar aqui, seja lá o que “querer” significava para eles.
Mas o mais importante, havia um “lá” para os Eldrazi voltar para.
Ela contemplou o que ela iria encontrar em Portão Marinho. Ela ansiava para encontrar
esse guerreiro mágico chamado Gideon, um homem estranho em roupas estranhas que
ninguém em Zendikar nunca tinha ouvido falar antes de tudo isso. Talvez ele viesse desta
“lá”, também.
Eles têm um lugar para ir. Podemos mandá-los embora para lá. Ou podemos ir embora
para lá nós mesmos.
Drana acariciou a cabeça da criança, e sorriu.

A MISSÃO DE NISSA
Parte 1

Nissa estivera mais perto do poder de Zendikar, e da alma do mundo, do que nunca. Ela
era capaz de canalizá-lo através do gigante elemental de árvores que ela chamou de
Ashaya, o Mundo Despertado – sua amiga. E a própria terra respondia à sua presença,
aumentando sua força e agindo como uma extensão de seu ser, ajudando-a a lutar contra
os Eldrazi. Mas tudo isso foi subitamente arrancado; a alma de Zendikar foi tirada dela e
agora não está mais lá quando ela estende a mão para a terra. Nissa foi deixada quase
impotente e sozinha, e ela acredita que os Eldrazi, talvez até mesmo o titã – têm algo a ver
com isso. Ela sente o peso do pacote de sementes que carrega consigo, sementes de
árvores que foram dizimadas pelos Eldrazi; ela prometeu ao mundo que ela não iria parar
até que ela pudesse plantá-las com segurança em Zendikar novamente. Mas agora,
enquanto outros ao seu redor se preparam para ir para a batalha para salvar o mundo,
Nissa sente o vazio à sua volta e se preocupa ao pensar que eles o fazem muito tarde,
que já não há um mundo para salvar.
_
Acontecia mais no crepúsculo do que qualquer outro momento. Uma forma longa e escura
se movia. Um galho de esticava ou dobrava. Nissa o via com o canto do olho e ela tinha
certeza – por apenas aquele momento, apenas aquela fração de segundo – que era
Ashaya, a manifestação elemental da alma de Zendikar, voltando assim como ela sabia
que voltaria.
Mas então ela virava a cabeça. Por que ela sempre tinha que virar a cabeça? E ela via que
era apenas uma árvore, apenas o vento, apenas as longas sombras projetadas pelo sol
poente. A respiração dela voltava ao normal, seu coração entrava no ritmo de novo, e ela
era deixada sozinha, sentada de pernas cruzadas no chão duro, no exato lugar na falésia
onde ela estivera quando Zendikar tinha sido arrancada dela.
Ela manteve vigília lá, retornando a cada dia para sentar-se no chão, adentrar a terra, e
procurar qualquer indício de Zendikar. Ela estava convencida de que fora o titã Eldrazi que
tinha a tomado, ou a afugentado, ou a ferido; ela já tinha visto uma vez o quão
terrivelmente um titã poderia ferir Zendikar. Mas ela se convenceu de que, se fosse
retornar, ela iria retornar para o lugar onde tinha estado por último – e Nissa acreditava
que ela iria retornar, ela queria acreditar que ela iria retornar à sua procura. Quando o
fizesse, ela estaria lá. Ela estaria sempre lá por sua amiga.
Mas quando Nissa se estendia para a terra, tudo que ela sempre encontrava era o vazio,
os pedaços quebrados de uma casca. Zendikar nunca se estendia de volta. Ao invés de
seu abraço, ela era recebida com um frio gélido que subia sua através de seus ossos
conforme a noite se aproximava.
A escuridão e o frio significavam que era hora de voltar para seu poleiro no grande
salgueiro próximo. Não faria a Zendikar ou qualquer outra pessoa qualquer bem se ela
cochilasse e fosse consumida por um Eldrazi no meio da noite.
Ela muitas vezes considerara voltar a Pedra Celeste. Havia algo de sedutor sobre a
segurança oferecida pelas patrulhas no céu de Gideon, para não mencionar a proteção do
próprio formidável Planinauta. Mas o fascínio não superava a desvantagem. Se os outros a
vissem, ela teria que tentar mais uma vez explicar-lhes – e ela não podia suportar a ideia
de expor sua dor apenas para enfrentar os olhares céticos e questionamentos mais uma
vez.
Ela tinha tentado explicar isso a eles, todos eles. Ela tentou explicar a Gideon e,
posteriormente, ao seu amigo e também Planinauta Jace. Ela havia dito a eles que algo
horrível tinha acontecido com a alma de Zendikar. Ela havia sido arrancada dela. Ela havia
perdido sua amiga, e seu acesso ao enorme poço de poder que corria pela terra.
Mas nem Jace nem Gideon pareciam entender, nem qualquer outra pessoa, embora Jace
tivesse se mostrado, no mínimo, curioso sobre sua "percepção do mundo", como ele a
chamava. Mas o problema era que não era sua percepção; a alma de Zendikar era real.
Como eram as almas de outros planos; Nissa tinha sentido elas, ela tinha até mesmo se
comunicado com a alma de Lorwyn. Mas esse tipo de coisa era difícil, se não impossível,
de se explicar em palavras. O conceito de um mundo ter uma alma era tão estranho que
era fácil para os outros a ignorarem, tomar a verdade como a “percepção” de uma única
elfa.
Nissa não culpava Gideon ou Jace, ou qualquer um dos outros. Eles não viam as coisas
como ela via. Quando eles olhavam para Zendikar, viam árvores, rochas, silvas, animais,
rios e montanhas. Mas eles viam cada uma dessas coisas como elementos distintos e
separados entre si. Eles não percebiam a conexão. Eles eram cegos para as poderosas
linhas de força que ligavam cada coisa viva no mundo como uma rede de artérias,
bombeando o poder e a promessa de um coração para o próximo. Eles eram surdos para
a voz do mundo que sussurrava e gritava e ria e, às vezes, até mesmo chorava de dor.
Eles não podiam ver o quão viva Zendikar realmente era... ou costumava ser.
Não era mais.
Quando Nissa olhava para o mundo agora, ela também só via galos quebrados, folhas
caídas e ramos enrolados em emaranhados espinhosos. Ela não podia mais ver o todo,
ela não podia sentir a unicidade. Ela não conseguia ouvir a voz de sua amiga.
A apatia do mundo ao seu redor gritava realidade. Fazia suas memórias parecerem como
sonhos, as percepções fantasiosas de uma elfa.
Se esses sonhos tinham sido alguma vez reais, eles não eram mais.
"Você realmente se foi?" Nissa não queria acreditar. Havia algo que dizia a ela que não
podia ser verdade. Ainda assim... ela baixou a mão, os dedos estendidos, muito
lentamente em direção à superfície do solo. Prendeu a respiração e tocou na terra.
Mas isso é tudo o que era: terra.
Se a alma de Zendikar tinha ido embora, se o titã Eldrazi a havia destruído, então toda
essa terra, todos os espinheiros e galhos e feras, logo desapareceriam também. Um
mundo sem uma alma não seria um mundo por muito tempo.

Parte 2

Com sua outra mão em seu peito, Nissa agarrou o pacote de seda com sementes dadas a
ela pelo vampiro no que pareciam décadas atrás. Se isto era realmente o fim para
Zendikar, então essas sementes eram exatamente o que o vampiro tinha dito que eles
eram: a última esperança do mundo de seguir em frente. Em outro plano.
Nissa engoliu em seco, mas a massa quente na parte de trás de sua garganta subiu por
seu rosto de qualquer maneira. Ela fechou os olhos quando uma única lágrima se arrastou
pelo lado de seu rosto.
Ela agarrou as sementes mais apertadamente. Ela tinha tido tanta certeza de que ela iria
provar que o vampiro estava errado – não, ela tinha tido tanta certeza de que juntas, ela e
Zendikar iriam provar que o vampiro estava errado. Ela havia prometido às sementes que
ela iria plantá-las aqui em solo do seu próprio mundo quando fosse seguro, quando a
ameaça Eldrazi houvesse sido eliminada, quando poderiam crescer e se tornar árvores
altas e fortes e tecer suas vidas com a alma de Zendikar.
Mas a alma de Zendikar se fora. Ela se fora. Quantas vezes mais ela teria que se estender
para o vazio para ser convencida disto?
Se foi. Ela forçou as palavras em sua mente. Zendikar se foi!
Uma parte dela ainda se recusava a acreditar.
Ela sabia que toda a evidência – tudo o que ela viu, sentiu e ouviu – a dizia que era
verdade, mas de alguma forma ela não podia acreditar.
Nissa abriu os olhos para o mundo crepuscular de longas sombras. Hoje à noite, nenhuma
delas era Zendikar, mas uma noite, uma delas poderia ser. Se fosse voltar, este é o lugar
aonde a alma do mundo viria.
Então, ela ficaria.
"Corre!" A voz estridente de um goblin vinda de trás assustou Nissa.
Instintivamente, ela saltou para seus pés e sacou sua espada.
"Corre!" gritou o goblin. Estava voando em direção a ela, se movendo a uma velocidade
surpreendente, considerando que uma de suas patas traseiras parecia estar quebrada –
ou talvez até mesmo parcialmente amputada, Nissa não poderia dizer. "Corre, agora!"
Nissa deu um passo para o lado quando o goblin passou correndo por ela.
E então, ao longe, ela viu a debandada. Havia pelo menos três dúzias de Eldrazi.
Pequenos, não maior do que o tronco de uma árvore. Moviam-se tão rapidamente que
cada um dos monstros parecia com um inseto ósseo sendo levado por uma nuvem turva
de poeira que eram suas pernas.
Eles navegaram agilmente através da floresta, vindo direto para ela, em linha reta para a
clareira – a clareira de Zendikar.
Ela não podia permitir que eles tocassem este lugar. Ela não podia permitir que eles
corrompessem uma única folha de grama.
Ela apertou sua mão no punho da sua espada – era a única arma que tinha. Teria de ser
suficiente; ela iria torná-la o suficiente. Ela deu um passo à frente para ficar entre o
precioso pedaço de terra e os monstros.
Eles estavam tão perto que ela podia sentir o cheiro deles agora.
Criaturas distintamente carnudas e horrendas. Elas nunca fizeram parte da unidade que
era Zendikar.
O líder de seu bando definiu seu curso direto para Nissa.
Toda a dor e destruição aqui, era tudo culpa deles.
Eles entraram em seu alcance.
Nissa balançou sua lâmina.
O aço atingiu a placa óssea do primeiro Eldrazi e Nissa a forçou diretamente para baixo
até o tendão, cortando o monstro em miniatura no meio.
Um segundo depois, ela girou e levou seu impulso com ela através de sua espada e
cabeça adentro de um segundo Eldrazi.
Nissa odiava essas criaturas.
Ela os odiava tanto que ela poderia espremer cada um de seus pescoços até que suas
cabeças explodissem.
Ela cortou e picou a horda enquanto esta a cercava. Pareciam ter esquecido sobre o
goblin que estavam prosseguindo. Bom. Assim eles não teriam nenhuma razão para
atravessar rasgando a clareira.
Nissa girou em um círculo, a lâmina estendida, cortando nada menos que quatro corpos de
suas pernas contorcidas.
Um conseguiu se prender em sua perna. Ele avançou para cima, puxando o tecido de
suas saias, cavando suas afiadas garras dos pés em sua carne.
"Fiquem longe de mim!" Nissa agarrou a coisa pelas suas costas ossudas e arrancou suas
pernas para fora de sua coxa. Ela lançou-o diretamente em uma árvore próxima com tanta
força que, quando ele bateu, sua placa óssea explodiu e suas entranhas respingaram
contra a casca da árvore.
Ela não teve tempo para assistir o monstro gotejar para baixo no tronco; havia dezenas
mais.
Se Ashaya estivesse lá, o elemental teria pisado em cima das criaturas com um pé
enorme, eliminando todo o enxame com um único golpe.
Se Nissa pudesse alcançar o poço de poder de Zendikar, ela teria chamado para si
grandes paredes de terra para se fecharem sobre eles, esmagando todo o grupo, no
intervalo de um segundo.
Mas como estava, ela era apenas uma e ela só tinha sua espada. Ela agarrou-se no punho
e atacou de novo e de novo e de novo.
Parecia que eles nunca iriam parar de vir.
Um cuidado surgiu no canto de sua mente, o mesmo cuidado que estava dançando na
borda de sua consciência pelos últimos dias sempre que ela enfrentava um Eldrazi. Se
chegasse a isso, se ela não pudesse destruir os Eldrazi e ela não pudesse escapar –
então ela teria que ir. Ela teria que transplanar para longe antes que a corrupção a
tocasse. Ela não podia permitir que as sementes fossem transformadas em pó branco em
seu bolso. Não se elas fossem a última esperança de Zendikar.
Seu interior ficou tenso e as bordas de sua forma formigavam. Seu corpo estava
preparado para transplanar. Tudo o que ela tinha que fazer era se soltar deste mundo,
deste lugar, e ela poderia partir.
Mas partir significaria que tudo estava acabado.
E Nissa não estava pronta para que isso fosse o fim. Ainda não.
Ela enfiou a lâmina em dois dos Eldrazi mais próximos, cortando o par através do peito; ao
mesmo tempo, ela chutou um terceiro para longe de suas pernas, mas o enxame apenas
ficava maior.
O formigamento se intensificou. Os instintos de Nissa lhe diziam que esta não era uma
batalha que ela ganharia facilmente.
Ela deu um salto para fora do caminho de um quarto e deu um soco em um quinto em seu
lado de baixo, usando o ricochete para catapultar-se sobre mais três que tinham chegado
muito perto.
O formigamento tinha aumentado até uma freqüência de ressonância e puxava a boca de
seu estômago.
Não. Ainda não.
Ela ainda podia ganhar isto. Ela cortou mais dois.
E, em seguida, mais quatro.
Mas oito a mais se aproximaram.
Ela podia sentir o peso das sementes em seu bolso.
Você realmente se foi?
Não houve resposta. É claro que não houve resposta.
Ela olhou por cima do ombro para a clareira.
Então, com um som metálico, um gancho em uma corrente passou voando por ela e
mergulhou em um dos Eldrazi, que – agora que ela viu – parecia que estava prestes a
atacar.
A corrente foi puxada, levando o gancho de volta, e Nissa a seguiu até um kor de peito
largo. Ele estava segurando um gancho em cada mão. Tatuagens de edros brilhavam em
seus braços e na testa, iluminando suas feições faciais duras e as longas tranças que
pendiam do queixo como barba. "Eu fico com este grupo, você se concentra no bando à
direita."
Nissa assentiu, voltando sua atenção para o punhado deixado para ela. Havia apenas
cinco. Isso era administrável, mesmo que por apenas uma elfa. Este não seria o fim. Ela
empurrou o impaciente formigamento para longe das bordas de seu ser. Ela não teria de
deixar este mundo, não esta noite.

A MISSÃO DE NISSA
Parte 3

Quando Nissa eo kor estavam certos que não havia mais Eldrazi sobrando, ele se virou
para ela, limpando o sangue Eldrazi de seus ganchos. "Você por acaso não viu um goblin
passar por aqui, não é?"
"Ela foi por ali." Nissa apontou para as árvores do outro lado da clareira. A bela e
incorrupta clareira.
"E eu presumo que foi ela que trouxe o enxame consigo."
Nissa embainhou a espada. "Você poderia dizer isso."
"Eu avisei. Quantas vezes você tem que dizer a um goblin para ir devagar para que isso
entre em sua cabeça dura?" O kor caminhou através da terra onde Zendikar tinha sumido
e na direção das árvores onde Nissa tinha apontado, mas ele não parecia ver a trilha que a
goblin tinha deixado para trás; ele já estava vagando para fora do curso.
"Eu não acho que goblins entendem o significado de 'devagar'", disse Nissa. "E é mais
para cá." Ela atravessou a clareira também, sem dar um único passo no chão não
corrompido, para garantir. Ela apontou para baixo na vegetação rasteira amassada onde a
goblin tinha passado correndo e arrastando a perna machucada. "Vê?"
"Ah, certo" disse o kor, ajustando seu curso. "Em todo caso. Você deve ser um dos
batedores de Gideon."
Uma patrulheira. Nissa não se considerava uma patrulheira pelo que parecia ser um tempo
muito longo. Uma animista, uma maga da natureza, uma parte de Zendikar. Mas não uma
patrulheira. Agora essa parecia ser a única coisa que ela podia fingir ser. "Algo parecido
com isso", disse ela.
"Gideon tem sorte de ter alguém como você aqui fora patrulhando", disse o kor enquanto
ele traçou o caminho do goblin. "E também a Pili. Não acho que ela teria lidado com
aquele enxame com a mesma... delicadeza que você lidou." Ele sorriu, suas tatuagens de
edros brilhantes iluminando nitidamente suas feições. "Eu sou Munda, um dos líderes de
esquadrão de Gideon. Normalmente você não iria me encontrar correndo por aí atrás de
goblins perdidos, mas esta noite eu tive a sorte grande."
"Oh." Nissa disse. O kor, Munda, estava um pouco fora do curso novamente. A trilha era
mais difícil de seguir aqui. Eles estavam andando em frente, em solo rochoso duro agora,
que era significativamente menos revelador do que a terra macia ou as folhas. "À sua
esquerda."
Munda arrumou o curso.
Nissa não tinha certeza de quando ela havia concordado em ajudar Munda a rastrear Pili,
mas aqui estava ela, uma patrulheira novamente.
"Ela veio com os novos recrutas hoje", disse Munda, acenando com a cabeça à frente,
indicando a goblin perdida. "Se rebelando desde o momento em que os curandeiros a
arrumaram o suficiente para que ela recupere a consciência. Algo sobre seu amigo, Leek.
Outro goblin, eu presumo. Pelo que eu fui capaz de tirar dela, os dois foram separados em
Portão Marinho. Ela foi encontrada pelos Nômades Dojir em seu caminho ao longo das
Planícies de Calcita. O outro goblin, Leek, provavelmente já era. Mas essa Pili, ela acredita
em sua cabeça que ele ainda está por aí. Eu disse a ela que não sobrou nada em Portão
Marinho."
Nissa sabia o que era sentir algo que ninguém mais poderia entender.
"Mas você viu os números que obtivemos?" Munda continuou. "Eu não sabia que havia
tantos exilados nas Planícies de Calcita. Ah, mas Gideon – Comandante-Geral Jura, quero
dizer – ele diz que eles não são exilados. Estamos todos juntos nisso. E assim que
pisaram em Pedra Celeste, eles já não eram os Nômades Dojir, eles eram parte de nosso
exército. É simples assim. Aquele homem é surpreendente." Munda coçou as tranças no
queixo. "Você pode se surpreender, mas eu o conhecia antes de tudo isso."
Seu olhar indicava que ele estava esperando algum tipo de reação de Nissa. "Oh", ela
disse. A maior parte de sua atenção estava voltada para os rastros da goblin. Eles
estavam indo na direção de Portão Marinho, assim como Munda havia previsto. Nissa
queria que a goblin estivesse certa, mas ela não via como Pili poderia estar. Nada fora
deixado em Portão Marinho, ela tinha visto por si mesma.
"Nós batalhamos juntos, Gideon e eu", disse Munda. "Um grande número de vezes.
Nossos caminhos se cruzavam invariavelmente, já que nenhum de nós se esquivava de
enfrentar os maiores dos monstros."
"Oh", Nissa disse novamente.
"Isso foi antes de Portão Marinho ter caído, é claro. Agora enfrentar um dos grandes é
apenas considerado tolice. Guarde suas forças, porque nós precisamos de você para a
luta que está vindo, você sabe?"
Nissa assentiu gentilmente.
"Gideon está certo", disse Munda. "Nós precisamos de cada homem, mulher e criança que
este mundo tem para oferecer, se esperamos ter uma chance. Essa é uma das razões
pelas quais eu estou rastreando este goblin. Pili é uma lutadora. Obviamente por seu
espírito. Nós precisamos especialmente de lutadores. Nós todos temos que nos unir. É
agora ou nunca. Como um, nós vamos recuperar Portão Marinho. E a partir daí, vamos
pegar de volta Zendikar.”
A respiração de Nissa trancou. Ela quase girou sobre o kor, quase surtou, quase lhe disse
que Zendikar não era algo que você poderia "pegar de volta". Zendikar não era algo que
pertencia a ninguém. Não ao povo, não aos Eldrazi, nem mesmo ao grande Comandante-
Geral Jura.
Zendikar, a verdadeira Zendikar, era ao mesmo tempo maior do que qualquer coisa que
eles pudessem imaginar e muito mais íntimo do que jamais poderiam compreender.
Ela quase lhe disse que quando eles gritavam – "Por Zendikar!" – eles não sabiam o que
estavam dizendo. Ela quase disse a ele. E então ela ouviu o choro de um goblin.
Sentada no que era claramente a boca recentemente exposta de uma caverna
subterrânea escondida estava a pequena forma da goblin ferida.
"Eu disse para você ir devagar", a voz de Munda se ouviu. "Você teria sido devorada se
não fosse por...”, ele interrompeu quando viu as lágrimas.
Nissa ajoelhou-se ao lado da goblin e descansou a mão no ombro arfante de Pili.
"Leek." O nome saiu em um soluço.
Nissa olhou para o buraco no solo.
"Olá?" Uma voz veio de baixo para cima. Ela era fraca e baixa. "Ajuda. Por favor."
Pili soluçou novamente. "Leek." Ela balançou a cabeça.
Nissa olhou para Munda. "Fique de olho nela. Eu já volto."
Munda assentiu, embora ele não se tivesse se movido para mais perto. Ele parecia fora de
seu elemento na presença desta pequena criatura que soluçava descontroladamente.

Parte 4 (Final)

Nissa desceu por um túnel apertado que terminava em um quase completo


desmoronamento. Havia uma minúscula abertura na parte superior. Ela buscou em seu
cinto uma tocha e a riscou contra a parede. Segurando a chama em direção à abertura,
Nissa podia distinguir o que a princípio pareciam ser uma centena de pequenas luzes
brilhantes. Mas, quando sua visão se ajustou, Nissa viu que as luzes eram olhos, olhos
que pertenciam a um grande grupo de goblins.
"Ajude", um deles disse fracamente.
"Munda!" Nissa chamou. "Nós vamos precisar de uma corda. E esses ganchos." Ela olhou
para os goblins. "Nenhum de vocês é Leek, é?"
Coletivamente, eles abaixaram suas cabeças. Um deles apontou para trás, para o canto
mais distante da caverna. Três corpos estavam enfileirados contra a parede. "Oh", disse
Nissa. Seu coração se partiu por Pili; a goblin tinha estado tão perto.
Com trabalho cuidadoso e paciência, o desmoronamento foi aberto – Nissa poderia ter
feito isso num piscar de olhos se ela tivesse acesso a seus poderes – e os goblins foram
retirados.
Munda estava satisfeito com o tamanho do exército goblin que tinha descoberto, e
enquanto ele ajudou a organizar para que os feridos fossem levados de volta a Pedra
Celeste pelos outros ele lhes contou do Comandante-Geral Jura e o plano para recuperar
Portão Marinho. Ele tinha a atenção da maioria dos goblins. Mas Pili estava sentada de
lado, sozinha.
Nissa se aproximou lentamente e se ajoelhou ao lado da goblin.
Por um longo momento elas apenas sentaram lá no escuro, em silêncio. Então, a goblin
inspirou profundamente. "Eles disseram que ele tinha partido." Ela balançou a cabeça.
"Mas eu sabia que ele tinha ido para o lugar seguro. Eu sabia." Ela bateu com o punho na
terra. "Eu deveria ter sido mais rápida."
"Não é culpa sua", disse Nissa.
A goblin apontou para a perna machucada, que estava agora fortemente enfaixada. "Eu
deveria ter corrido mais rápido." Ela bateu na terra de novo e de novo, e mais uma vez, e
então as lágrimas vieram.
Nissa nunca tinha abraçado um goblin antes. Tinha passado um longo tempo desde a
última vez que ela tinha abraçado qualquer um. Mas parecia que era a coisa certa a se
fazer. Ela entendia a dor de Pili. Ela entendia o que era ser machucada por dentro.
Machucada em uma forma, em um lugar, que ninguém podia ver ou alcançar ou corrigir.
Este era o tipo de dor que existia em poços profundos e que desabava em ondas
avassaladoras. Ondas que surgiam de um mar infinito. Ondas que nunca iria parar de
bater. Às vezes elas seriam duras e, às vezes, elas seriam silenciosas. Mas elas nunca
iriam parar de bater na praia.
Nissa apertou Pili em volta dos ombros e esperou essa onda passar.
"Eles disseram que ele tinha partido." Pili disse, enxugando as lágrimas. "Mas eu sabia."
Ela bateu o punho contra o peito. "Eu sabia aqui." Ela bateu em seu peito novamente.
"Aqui!" Ela se levantou. "Eu sabia!" Ela virou-se para enfrentar Nissa, seus olhos se
estreitando enquanto sua tristeza se tornava em vingança. "Os monstros vão pagar por
fazê-lo correr. Eles vão pagar!" Ela correu para juntar-se aos outros, para ouvir a
mensagem de Munda.
O coração de Nissa batia em seus ouvidos, um eco da batida do punho de Pili em seu
coração.
Era exatamente como Pili tinha dito. Nissa tocou seu próprio peito. Ela sabia. Ela sabia
exatamente como a goblin sabia. É por isso que ela não conseguia partir quando sua vida
estava ameaçada, ela não conseguia transplanar para longe, mesmo quando ela estava
cercada por Eldrazi. É por isso que ela mantinha a vigília. É por isso que ela se recusava a
ouvir, mesmo quando sua mente lhe dizia que ela tinha partido.
Zendikar estava lá. Era como uma palavra na ponta da língua.
Mas onde?
Não havia um lugar aonde a alma do mundo fosse quando ela estava com medo ou
quando era necessário reagrupar. Ou quando estava ferida.
Nenhum esconderijo secreto, ou túnel, ou caverna, ou...
Nissa estava de pé, as bordas de seu ser cintilando, pronta para transplanar antes mesmo
que sua mente tivesse sequer compreendido o que seu coração já sabia.
Havia um lugar. Um lugar seguro, um lugar poderoso. Um lugar para onde Zendikar
poderia ter recuado.
Coração de Khalni.
A expressão de mana de Zendikar. O local onde todas as linhas de força convergiam. Se
algo tivesse acontecido, se o titã tinha ameaçado a alma do mundo, lá é para onde ela
teria corrido. É onde ela estaria escondida.
Coração de Khalni.
Zendikar ainda estava aqui, assim como Nissa tinha sabido todo esse tempo. Ela só não
estava exatamente aqui. É claro que não estava aqui. Por que ela voltaria para a floresta
onde a coisa horrível tinha acontecido? Nissa tinha estado procurando no lugar errado
todo esse tempo.
Ela riu em voz alta e seu coração se elevou; ela tinha esquecido o que era sentir seu
coração ser livre e leve o suficiente para se elevar. O formigamento voltou, puxando-a
novamente, puxando-a por dentro. Mas não para outro plano. Desta vez para...
"Elfa louca."
A voz murmurada de um goblin que a assistia trouxe Nissa de volta para a realidade, de
volta para a floresta, onde seus pés estavam fixados – embora não completamente. Ela
tinha esquecido dos goblins, de Pili e Munda, de Gideon e Jace, e até mesmo dos Eldrazi.
Ela tinha esquecido tudo, menos Zendikar.
"Eu tenho que ir", ela disse para ninguém e para todos ao mesmo tempo. Tudo o que
podia fazer era correr para dentro da floresta, para fora da linha de visão deles.
Das árvores de Matavasta, Nissa imaginou seu curso para Bala Ged.
Que destino adequado que era – o lugar onde ela havia encontrado a alma do mundo pela
primeira vez. Todas as memórias voltaram com força. Era como se ela estivesse lá
novamente. Era como se ela fosse aquela jovem elfa – aquela patrulheira Joraga – de
novo. Esta noite era como a noite que ela tinha deixado sua casa há muito tempo. Ela
tinha escapado na cobertura da escuridão. Ela tinha caminhado sozinha através da
floresta.
A diferença era que naquela época ela estava fugindo porque ela estava com medo de
Zendikar, ela pensava que a terra queria machucá-la. Desta vez, ela estava correndo
diretamente para ela. Ela não podia esperar para vê-la novamente; Zendikar era sua
amiga mais próxima.
Tremendo, Nissa se libertou de Matavasta; ela parou de lutar contra os puxões em seu
peito, e o formigamento em suas bordas fez seu caminho para dentro. Quando atingiu seu
centro, Nissa transplanou – de volta para casa, de volta para Bala Ged, para encontrar
Zendikar.

ÁGUAS NATAIS
Parte 1

Da última vez que vimos a Planinauta tritão Kiora, ela havia acabado de escapar por muito
pouco de uma batalha contra uma divindade: Thassa, a deusa dos mares de Theros.
Apesar de ela não ter conseguido o que queria daquela batalha, ela também não partiu de
mãos vazias, fugindo do plano com a arma sagrada da deusa em suas mãos.
Agora, ela retorna a Zendikar, seu plano natal,preparada para combater os monstruosos
Eldrazi que condenam seu mundo à destruição. Eles são numerosos e imparáveis. Mas os
Eldrazi não são apenas monstros. Por muito tempo, os tritões de Zendikar os adoraram
como deuses.
E Kiora já enfrentou um deus e viveu para contar a história.
¬_
“Vamos!”, disse ela em seu sonho.
Ela pegava e puxava a pequena e escamosa mão de Turi.
“A anciã Misha está contando estórias. Se apresse! A gente vai ficar de fora!”
Ela puxava sua irmã insistentemente consigo até chegarem à praia e se sentarem com os
outros jovens tritões bem em tempo de ouvir a anciã Misha começar a falar. Os outros
adultos se amontoavam na parte mais distante da praia, quase invisíveis sob o luar, onde
contavam suas próprias estórias – estórias de adultos. A estória de Misha era para
crianças. A voz da matriarca superava o barulho da rebentação das ondas e era suave,
mas ao mesmo tempo penetrante.
“Há muito tempo, mas ainda em nosso próprio mar, o grandioso deus Ula estava se
preparando para uma caçada.”
Ula, que criou os mares – o maior dos deuses dos habitantes dos mares, severo e
orgulhoso. Ela mostrou a língua para ele. Turi mostrou a língua, também.
“Ula estava furioso com os golfinhos, cujas atitudes levianas eram um insulto à dignidade
dele. Então, ele planejou caçar um deles para servir de exemplo aos outros. Mas golfinhos
são trapaceiros e são amados por Cosi, o maior trapaceiro de todos.”
Estórias sobre Cosi! Todas as melhores estórias eram sobre Cosi, mas os outros adultos
nunca as ouviam.
“Então Cosi decidiu sabotar a caçada de Ula. Na noite anterior à caçada, Cosi foi até o
leito de Ula no fundo do mar e trocou sua majestosa lança por uma pena de gaivota, que
ele encantou para que se parecesse exatamente com a lança. Emeria viu tudo isto de sua
confortável moradia no reino celeste, mas ela nada disse, pois ela apreciava assistir às
disputas entre os outros dois deuses.”
“Pela manhã, Ula se preparou para sua caça, sem nada perceber. Ele deu um extenso discurso aos
berros sobre sua dignidade e posição. Os golfinhos se agruparam para ouvi-lo, isso porque Cosi
havia dito a eles que nada precisavam temer. Isso só irritou Ula mais ainda. Ele os golpeou com sua
lança-que-não-era-uma-lança uma vez, duas vezes – mas os golfinhos apenas riam, pois na
verdade aquilo era apenas uma pena e tudo o que ela provocava eram cócegas neles.”
A anciã Misha fez uma impressionante demonstração de como a risada dos golfinhos
soava. As crianças riram.
“Ula não conseguia entender o porquê dos golfinhos estarem imunes à lança, mas ele
sabia quando zombavam dele. Ele investiu a lança outra vez, e outra vez, e de novo,
tentou girar a lança dentro das feridas que não tinha causado. Os golfinhos gritavam de
tanto rir. Enfurecido, Ula quebrou a inútil lança com seu joelho – e se viu segurando duas
metades de uma simples pena. Os golfinhos riram tanto que ainda hoje você pode ouvi-los
rindo...”
_
Kiora caiu com força na areia sobre suas mãos e joelhos, os ouvidos zumbindo e a visão
ondulada.
Transplanar. Ha.
Ha, ha, ha.
Kiora preferia nadar – ir cada vez mais fundo até adentrar a mais fria e escura
profundidade, onde os diferentes mares dos diferentes mundos se tornavam um só, se
tornado uma ponte sobre o caos sem sentido muito mais escuro e muito mais frio. Mas
neste caso, ela tinha tido sorte de sequer ter conseguido chegar.
Lar. Zendikar.
Ela tossiu, sugando o ar, as guelras se abrindo e fechando. Ela estava tremendo, exausta,
imunda – revestida com a lama do fundo de um oceano a um mundo de distância.
Suas mãos estavam dormentes, então ela não fazia ideia se estava de mãos vazias. Ela
esperava que a lama não fosse a única coisa que ela tinha trazido de Theros.
Sua visão clareou. Ela olhou para baixo.
Lá, ainda presa firmemente entre suas mãos, estava a arma de um deus.
Ela soltou uma longa e barulhenta risada.
Eu venci, ela pensou. Eu derrotei um deus. Eu venci!
A lança de duas pontas não era manejável, era mais comprida do que sua altura, apesar
de ter sido muito maior quando Thassa a segurava. Parecia não ter peso algum. Enquanto
Kiora a observava, o campo estrelado que a identificava como o trabalho de um deus – o
que o povo de Theros chamava de “toque de Nyx” – parecia ficar mais fraco e sem vida,
como se estivesse evaporando, como se o ar de outro mundo fosse completamente
contrário aos deuses e suas coisas. Logo o bidente adquiriu a textura de coral seco.
Decepcionante.
Kiora tinha esperança de que ainda fosse uma arma digna de um deus. Mas mesmo que
fosse apenas uma lança, ainda era o melhor troféu que ela já roubara. Talvez ela o desse
à Turi, para se juntar aos outros mementos das viagens de Kiora.
Se Turi ainda estivesse viva. Se qualquer um deles estivesse.
Se os Eldrazi não tivessem matado todos eles.
Kiora lutou para ficar de pé. Ela ainda estava atordoada depois de uma grande batalha
mágica, depois de ser sufocada quase até a morte por uma deusa, e depois de encarar
uma desesperada e confusa transplanação. Mas aqui era Zendika. Não era seguro,
especialmente agora.
Ela olhou ao redor.
Ela estava às margens de Tazeem. Ondas se lançavam contra a praia. O sol brilhava.
Grandes pedras flutuavam no céu, desafiando as leis da gravidade.
Zendikar vivia!
Kiora soltou um grito de satisfação e correu até as ondas que batiam, deixando que o mar
de Zendikar lavasse a lama de Theros. O bidente cantou uma nota tênue e clara quando
tocou na água. Apenas isso – mas era promissor.
Água gelada e limpa fluiu sobre ela e ao seu redor, lavando de suas guelras o gosto de
fundo do mar de sua luta com Thassa. Ela estava limpa, ela estava livre e ela estava em
casa. Ela mergulhou em um mar cujo gosto era incomparável. Ela nadou com velocidade
ao longo da costa, girou, mergulhou e se jogou em direção à superfície, e emergiu num
enorme arco.
Kiora estava em pleno ar quando ela viu: uma extensão da praia que estava errada, toda
de poeira fina e cinza, esponjosa e quebradiça...
Ela se virou para olhar, caiu na água em um ângulo estranho e doloroso e forçou seu
caminho até voltar à superfície. A praia parecia errada. E soava errada também, com cada
onda que se chocava contra ela produzindo um assobio e deixando a areia – se é que
aquilo podia ser chamado de areia – completamente e impossivelmente seca. Ela
mergulhou, capturou um caranguejo da maré e subiu numa margem rochosa próxima da
praia morta.
“Me desculpe, amigo”, ela disse, e atirou o caranguejo na anormal praia cinzenta. O
caranguejo se recompôs, assumiu uma posição de ameaça e marchou de volta para a
água.
Satisfeita em saber que aquela coisa não iria matá-la instantaneamente, Kiora pisou na
praia. A textura era normal, mais poeira do que areia, e ela podia senti-la sugar a umidade
de seus pés. O que antes eram rochas sólidas agora eram massas disformes se
decompondo. Era isso que os Eldrazi estavam fazendo a Zendikar?

Parte 2

Uma rajada de vento levantou um pouco da poeira. O corpo de Kiora reagiu como se ela
estivesse submersa no mar – pulmões se fechando e guelras se abrindo. Enojada, ela
cuspiu no chão e voltou a mergulhar no mar, piscando.
Ela imaginou aquela poeira circulando pelo oceano, corrompendo tudo, até a vida se tornar
impossivel.
Kiora agarrou o bidente e direcionou sua vontade para ele. Lentamente, enquanto ela
nadava, seus sentidos se expandiram. Ondas e correntezas, placas tectônicas e gêiseres
submarinos, a proliferação das algas e as zonas anóxicas... Ela sentia tudo, se
estendendo ao redor dela como se fossem membros de seu próprio corpo. A desprezível
praia atrás dela era como um grande peso morto, como um furo em sua consciência.
Ao longo da costa e até mesmo no fundo do mar, no oceano, ela podia sentir mais lugares
mortos, privados de todo tipo de vida pela invasão dos Eldrazi. Eldrazi nos oceanos! Já era
bastante ruim quando eles atacavam em terra firme. Agora, eles viraram sua atenção para
o mar, nadando pelo oceano dela, sugando toda vida que conseguiam e se arrastando
pelo fundo do mar. Ela podia sentir todos eles.
Mas os Eldrazi não eram as únicas coisas espalhadas por lá. Ela não podia sentir eles,
mas os tritões de Zendikar ainda estavam vivos, ainda estavam lutando. Eles tinham que
estar.
Kiora se afastou daquele lugar sem vida e se pôs em direção ao norte seguindo a costa,
procurando por qualquer sinal de habitação.
Em alguns pontos, Zendikar estava como sempre foi. Em outros, o que se via eram
terrenos devastados. Os assentamentos dos tritões estavam abandonados nas planícies
costeiras, engolidos por algas e se desfazendo, reduzidos a ruínas sem vida sufocadas
pela poeira. Kiora explorou os primeiros a procura de sobreviventes, mas tudo o que
encontrou foi pequenos Eldrazi infestando as ruínas e penetrando os escombros,
procurando por só os deuses sabem o quê.
E os deuses de fato sabem, pensou ela. Ula, Cosi e Emeria – os deuses dos tritões, até
terem sido desmascarados e descobertos como sendo os titãs Eldrazi Ulamog, Kozilek e
Emrakul. Eles eram deuses? Eles tinham planos para Zendikar? Ou eram eles apenas
bestas sem mente que consumiam sem propósito ou raciocínio?
Depois de presenciar apenas Eldrazi nas ruínas que explorava, ela se manteve bem longe
dos assentamentos abandonados. Procurar por improváveis sobreviventes não valia a
pena se o risco era ser pega desprevenida em um lugar fechado.
Quando o sol começou a se recolher, ela encontrou uma caverna localizada no alto de um
penhasco para passar a noite. Com o restante de sua energia, ela convocou um polvo
gigante das profundezas de Zendikar. A criatura a elevou até a caverna e se pôs em
guarda para protegê-la dos Eldrazi.
Logo após a estreita abertura na rocha havia uma caverna iluminada por uma abertura no
teto. Era uma câmara trabalhada em pedra, e bem no fim dela havia um altar dedicado à
Trindade.
Ela já havia viajado junto com sua tribo para um altar bastante similar a este mais de uma
vez, para entregar oferendas aos pés de indiferentes deuses feitos de pedra. Os
suplicantes traziam lascas de edros e frutas da terra para Emeria, conchas e pérolas para
Ula – e nada para Cosi.
Ela e Turi escapuliam de noite para deixar para Cosi nós atados e para sussurrar segredos
em seu ouvido, e o altar dele nunca estava vazio quando elas chegavam. Elas eram
crianças, oferecendo devoção ao deus proibido apenas pela emoção, a sensação de estar
fazendo algo errado. Ela se perguntara mesmo naquela época quantos dos anciões
haviam feito o mesmo em sua juventude – e quantos nunca pararam de fazê-lo.
Ninguém adorava a Cosi. Todos sabiam disso. Os adultos se recusavam a escutar as
estórias sobre ele – não porque as estórias eram infantis, ela havia descoberto depois,
mas sim porque as estórias eram blasfêmias e vergonhosas de serem ouvidas por eles.
Então, por que eles permitiam que se contassem estórias sobre Cosi às crianças? Por que
não se contentar com as estórias piedosas, estórias para se contar à luz do dia, sobre
como os três deuses criando o mar, a terra e o céu? Por que contar estórias que faziam os
deuses parecerem tolos?
Por que sequer construir estátuas de Cosi?
Ela sentiu um arrepio. Os olhares dos deuses eram vazios e impiedosos. Seria fácil,
bastante fácil, ainda reverenciá-los, tratar aquelas monstruosidades que sugiram como
legítimos deuses, dignos de adoração. De fato, seria fácil... Exceto por ela se lembrar das
estórias de Cosi roubando as vestimentas de Emeria, ou enganando Ula e o fazendo
engolir uma pedra. Ela então se lembrou de estar sentada, tremendo, naquela praia
banhada pelo luar e de como riu da arrogância dos deuses, os corpos quentes de seus
parentes ao seu lado balançando com as risadas, totalmente vivos e mortais.
Aquelas estórias a haviam ensinado a não temer deuses... E nem confiar neles.
Sua infância, ela conseguia perceber agora, havia sido um campo de batalha silencioso.
Os respeitáveis tritões do mundo preferiam obliterar a adoração a Cosi e esquecer o deus
trapaceiro para todo o sempre. Mas os secretos adoradores dele nunca iriam deixar isso
acontecer. Se eles queriam construir estátuas de Cosi e ali lhe deixar oferendas e contar
estórias pagãs às crianças... Quem é que iria impedi-los? Um trapaceiro era capaz de
fazer os problemas da tribo desaparecerem num piscar de olhos, no passado e ainda hoje.
Mas eles também poderiam causar ainda mais dano, se alguém tentasse impedi-los. E
pode haver um trapaceiro em qualquer tribo.
Outras culturas não contavam estórias como aquelas para as crianças – estórias sobre
pregar peças e desafiar deuses. Mas outras culturas não tinham Cosi. Cosi se manteve
vigilante. Seus trapaceiros se certificaram em lembrar que até mesmo deuses são falhos.
Quando os Eldrazi surgiram, quantos teriam escolhido juntarem-se a eles, quantos teriam
perdido toda a esperança ou quantos teriam apenas enlouquecido se não fosse
simplesmente por aquelas estórias? Será que era essa a intenção? Ou foi apenas
coincidência?
Lentamente, segurando sua respiração sem intenção de segurá-la, ela caminhou em
direção às estátuas da Trindade. Ela os encarou, em sua posição elevada. E ela cuspiu na
estúpida e vazia face de Ula.
“Você não reina aqui”, ela disse, sua voz ecoando na caverna úmida. “Nem agora, nem
nunca.”
Nada aconteceu, nada mudou. Havia apenas cuspe, pedra e silêncio.
Kiora suspirou então se recolheu para dormir embaixo da estátua de Cosi.
No fim das contas, o único deus honesto, ela pensou. Nós sempre soubemos que você era
um mentiroso.
Sob a visão dos olhos de pedra dos falsos deuses e agarrando a arma que roubou, Kiora
adormeceu com dificuldade.
Parte 3

Já era tarde quando Kiora encontrou seu povo no dia seguinte.


Ela viu os Eldrazi primeiro, surgindo da água e do céu. Eles haviam cercado um grupo de
tritões e os afastado da costa.
Kiora agarrou o bidente e acelerou.
Havia talvez uns cem tritões, nadado numa tênue formação. Eldrazi aquáticos – linhagem
de Ulamog, pela aparência, com as brancas cabeças ósseas sem expressões e tentáculos
que se contorciam – se colocaram entre eles e a costa. Havia soldados entre os tritões que
mantinham os Eldrazi à distância com redes e lanças, mas as criaturas estavam atacando
os que se dispersavam. Um dos Eldrazi capturou um dos tritões e o espremeu. Então ele
relaxou os tentáculos, mas ao invés de um corpo, tudo que ele liberou foi uma nuvem
daquela horripilante poeira. Kiora estremeceu.
Ela chamou pelas criaturas do fundo do oceano – não havia necessidade de conjurá-los,
não quando Zendikar os oferecia de boa vontade. Ela os chamou e ouviu suas respostas.
Neste meio tempo: o bidente. Finalmente!
Ela ergueu a mão e tomou controle de uma vertente de água qualquer e balançou o
bidente. Um redemoinho se formou próximo a um dos Eldrazi e o levou rodopiando.
Conveniente. Ela tentou de novo, com um balanço maior, e fez outro Eldrazi ser sugado
para as profundezas. Ela riu, em alto e bom som. Ah, sim! Aquilo era bom. Mas o maior
Eldrazi não iria para baixo com tanta facilidade assim.
Mais redemoinhos – e então seus aliados chegaram: alguns polvos gigantes e uma grande
serpente esguia. Eles se puseram ao trabalho, derrubando os menores Eldrazi e lutando
contra os maiores. Enquanto isso, os tritões aproveitaram a distração para nadarem de
volta para a costa, os soldados entre eles dando cobertura.
Um dos polvos caiu, muitos de seus tentáculos estavam debilitados. Outro se engalfinhava
com o maior dos Eldrazi, rolando e se chocando na água. Tentáculos com ventosas
entrelaçados com tentáculos fibrosos antinaturais, formando uma confusão de carne e
fúria que levantava sedimento do fundo do mar que obscurecia os dois combatentes. O
primeiro dos tritões alcançou a costa, mas se aquele enorme Eldrazi derrotasse o polvo...
Ele precisava de ajuda. Ela nadou em direção à costa, canalizando poder através do
bidente. Ele começou a brilhar satisfatoriamente. Ela sentiu o polvo se fortalecer com a
energia das profundezas. Ela se postou na costa, triunfante, enquanto o polvo espremia
todo traço da falsa e perturbada vida de dentro do Eldrazi.
Quando ela finalizou tudo aquilo e o ferido polvo retornou para as profundezas do mar, a
praia estava repleta dos tritões refugiados. Não eram cem, mas chegavam perto disso. Os
sobreviventes se espalharam sobre a praia, muito juntos uns dos outros, eles formavam
vários grupos. Era uma mistura de tribos, e mesmo que eles estivessem nas águas natais
dela, todas as faces que ela viu eram de estranhos.
Kiora se sentou bruscamente numa rocha distante do grupo principal e deixou seu bidente
repousando em seus joelhos. Ninguém a agradeceu, mas ela não se importava. Eles
estavam ocupados cuidando de seus ferimentos e contando os que eles haviam perdido. E
quem ela era para eles? Uma estranha com uma arma estranha.
“Kiora!”, alguém gritou na multidão.
Ela se levantou.
Uma jovem forçou seu caminho pelos grupos de sobreviventes, seus olhos brilhantes. Ela
portava um conjunto de pergaminhos.
Turi!
Ela teve apenas tempo de por o bidente de lado antes que ela a envolvesse em um abraço
apertado como o de um polvo.
Turi se virou para os sobreviventes atrás dela, seus braços ainda em volta de Kiora.
“É ela!”, gritou. “Minha irmã! Eu disse que ela ia voltar!”
Kiora fez uma expressão sorridente. “Que tipo de histórias você vem espalhando sobre
mim, peixinho?”
Turi desfez um pouco o abraço e sorriu.
“Apenas verdades!”, disse Turi. “Eu disse a eles que minha irmã visitou lugares que eles
nunca nem ouviram falar e que ela me traz tesouros. E não importa por quanto tempo ela
fique distante, ela sempre retorna, mesmo daquela vez que eu a vi comida por uma
serpente com meus próprios olhos.”
Aquela memória de anos atrás fez Kiora estremecer. Turi falava como se não tivesse sido
nada, mas aquele havia sido um dos momentos mais terríveis da juventude delas. A
pedido de Kiora, elas estavam explorando em um lugar muito distante – além da fronteira
continental – quando uma serpente surgiu das profundezas para devorá-las. Kiora se pôs
na frente dela para chamar sua atenção e gritou para sua irmã nadar com toda força para
um lugar seguro e não olhar para trás.
Turi olhou para trás mesmo assim, e sua cara de pânico foi a última coisa que Kiora viu
antes que as mandíbulas da serpente se fechassem ao redor dela e seu mundo se
dissolvesse. Foi naquele momento de terror efervescente que sua centelha de Planinauta
acendeu. Passaram-se meses até ela conseguir voltar para Zendikar e seu povo. A
revelação de que havia outros mundos além do dela de nada valia em comparação com a
certeza de que ela não havia conseguido salvar Turi. Quando ela havia finalmente
conseguido voltar, ela encontrou Turi magra como uma vareta e com o olhar perdido,
inconsolável e se matando com a culpa de ter causado o sacrifício de Kiora.
Elas fizeram um pacto após aquilo. Kiora prometera sempre voltar e ela prometera sempre
esperar.
“E eles acreditaram em você?”
“Bem...”
Kiora abraçou sua irmã novamente. “Verei o que posso fazer. Eu não quero decepcioná-
la.”
Turi examinou o bidente.
“Isto é para mim?”
Kiora constantemente trazia bugigangas de outros mundos, mas desta vez ela não teve
tempo.
“Não!”, disse Kiora afastando o bidente com um sorriso. “Eu roubei isso de forma justa.”
“Você roubou? De quem?”
Kiora sorriu.
“De um deus do mar”, ela disse. “Um deus do mar de verdade.”
Turi mostrou a língua para Kiora.
“É verdade!”, disse Kiora levantando a mão em juramento. “Que Cosi me leve caso eu
esteja mentindo.”
Turi empalideceu. Alguns tritões que estavam próximos a encararam.
“Kiora”, disse Turi em voz baixa. “Por favor, não... faça mais isso. Jurar aos deuses.”
Kiora ergueu a cabeça.
“Por que não?”, perguntou ela, em alto e bom som. “Eles blasfemam contra os deuses,
mas não contra os monstros?”
“Por favor”, disse ela cerrando os dentes. “Algumas dessas pessoas viram Cosi. Kozilek.
Antes que ele partisse. Elas perderam suas famílias e seus lares para ele. Pense em como
eles estão se sentindo.”
“Partisse?”
Turi suspirou – Não é esse o ponto! – mas ela sabia que era melhor não ficar entre sua
irmã e a curiosidade implacável dela.
“Já se fazem meses que ninguém o vê”, disse ela. “Ou Emrakul. Apenas Ulamog. Algumas
pessoas andam dizendo que os outros dois voltaram para o lugar de onde vieram.”
Kiora franziu a testa. Poderia ser possível? Poderiam eles simplesmente... terem partido?
“Eu só acredito vendo”, disse ela. “E quanto à nossa tribo?”
Turi envolveu seus braços em volta de si mesma, de repente parecendo mais jovem do
que era.
“Eu não sei”, disse ela. “Eu estava estudando em Portão Marinho...”
“Estudando?”, disse Kiora. “Você?”
“Eu gosto de aprender!”, disse Turi com o orgulho ferido.
“E eu também”, respondeu Kiora. “É por isso que eu viajo.”
Kiora não pretendia soar ácida, mas Turi se encolheu.
“Então, você estava em Portão Marinho”, disse Kiora com mais gentileza. “E aí?”
“Os Eldrazi”, disse Turi. Os olhos dela pareciam distantes. “Eles tomaram conta do lugar.
Eu tive sorte de conseguir escapar. Nem... Nem todos conseguiram. Eu me juntei a este
grupo para tentar chegar em casa. No nosso caminho para longe de Portão Marinho, nós
vimos Ulamog à distância.”
“Ulamog está em Portão Marinho?”
Era a pergunta errada. Ela sabia que era a pergunta errada. Maldição! Mas ela precisava
saber a resposta.
“Eu não dou a mínima pra onde Ulamog esteja!”, exclamou Turi. “Eu estou tentando voltar
pra casa, Kiora! Para a nossa família. Você sequer liga para o que aconteceu a eles?”
Agora os outros que estavam encarando desviaram o olhar, fingindo que não ouviam. Que
legal da parte deles.
Kiora repousou suas mãos nos ombros de Turi.
“Irmãzinha”, disse ela. “Eu sabia o que estava acontecendo aqui. Durante todo o tempo
que estive fora, eu estava preocupada com você – eu me preocupava com todos, mas
especialmente com você. Você não sabe o que significa pra mim te ver sã e salva.”
“Sim, eu sei”, disse Turi calmamente. “Toda vez que você se vai, eu me pergunto se você
irá voltar. E eu sei que se algo acontecer a você, eu nunca vou descobrir. Eu nunca vou
ser capaz de te seguir.”
“Se eu pudesse te levar comigo, eu levaria.”
“Não”, disse Turi, não de uma forma gentil. “Você não levaria. Você quer que eu fique aqui.
Que eu fique a salvo. Não é?”
“Nenhum lugar em Zendikar está a salvo”, disse Kiora. “Não agora. É por isso que eu não
estou preocupada em encontrar a tribo. É por isso que eu irei até Portão Marinho. Se
ninguém derrotar Ulamog, todos morrerão, não importa onde estejam.”
Muito alto. Os outros voltaram a encarar.

Parte 4 (Final)

“Voltar para Portão Marinho?” disse Turi. “Não.”


“Kiora, estou certo?”, perguntou uma voz rouca, interrompendo o que era obviamente um
momento privado. Grosseiro.
Kiora desviou sua atenção de Turi para encarar o estranho. Ele era velho e possuía várias
cicatrizes, com algumas escama escuras, características de alguém que passou muito
tempo fora d’água. Seu sotaque indicava Sejiri, e ele falava como alguém que esperava
ser ouvido mesmo tão distante de casa. Kiora imediatamente desgostou dele.
“Sou eu”, disse ela, num tom que ela torceu que soasse suficientemente amigável.
“Me chamo Yenai”, disse o velho tritão. “Muito obrigado pela sua assistência.”
“Sem problemas”, disse Kiora. “Estamos todos no mesmo barco agora. Não é, Sejiri?”
Yenai pareceu ficar aflito, apesar de Kiora não saber por quê. As divisões étnicas entre os
tritões criavam rivalidades, não ódio. Será que aquilo havia mudado?
“Mas é claro”, disse ele. “Eu esperava que estivéssemos indo para o mesmo destino
também.”
”Isso depende”, disse Kiora. “Pois eu estou indo para Portão Marinho.”
Essa era a verdade, apesar de poucos minutos atrás ela ainda não ter se decidido. Mas,
se era lá que Ulamog estava ela não iria desperdiçar tempo algum se escondendo em
outro lugar.
“Nós acabamos de voltar de Portão Marinho”, disse Yenai. “Nós não iremos voltar.”
“Uma pena”, disse Kiora. “Então, acho que vou pegar minha irmã e meus monstros
marinhos e ir.”
“Kiora, não seja tola!”, disse Turi. “Nós estamos falando de um titã. Um deus. Você não
pode se comparar a isso. Kozilek e Emrakul se foram. Talvez... Talvez Ulamog parta
também. Talvez eles nos deixem em paz. Se por no caminho deles não vai causar nenhum
bem.”
“Não existe nenhum abrigo em Portão Marinho”, disse Yenai.
Ele subiu numa rocha e projetou sua voz em alto som.
“Nosso plano não mudou. Nós continuaremos seguindo a costa, distantes dos enxames e
distantes de Ulamog. E, apesar da jornada ser longa e pesarosa, nós sabemos pra onde
devemos ir.”
Ele se virou e olhou para a imensidão do oceano. Mas que idiota.
“Além do mar, em direção a Murasa. Nós ouvimos falar que é melhor lá. Não pode ser
pior.”
Havia cabeças assentindo na multidão. Uma dessas cabeças, para a insatisfação de Kiora,
era a de Turi.
“Um lindo discurso”, disse Kiora. “Você tem uma linda voz. A voz de um contador de
estórias, na verdade.”
Yenai olhou enfurecidamente para ela.
“Você conhece alguma das estórias sobre Cosi?”, perguntou Kiora.
“Como você se atre...”
“Você sabe”, disse Kiora. “As estórias sobre Cosi. Como aquela sobre Ula e o marisco. Ou
aquela sobre quando Emeria pensou que uma água-viva era a lua...”
“Blasfêmias e gozações”, cuspiu Yenai. “Turi, você não mencionou que sua irmã era uma
trapaceira. Teria evitado que tivéssemos esperança à toa.”
“Ela não é uma trapaceira”, disse Turi, apesar de não ter soado muito certa disso.
Kiora não era uma devota a Cosi. Não mesmo. Ela só era uma alma rebelde que nunca
havia parado de se intrometer quando o assunto era os deuses.
“Está tudo bem”, disse Kiora. “Se você não conhece nenhuma das estórias sobre Cosi, era
só ter falado.”
Turi agarrou seu braço.
“Kiora, pare.”
Kiora se libertou da mão de Turi e começou a andar mar adentro, deixando as pontas do
bidente fazerem uma trilha na água atrás dela. Todas aquelas correntes se espalhavam
como se fossem fios. Ela selecionou um e sentiu seu movimento.
“Eu conheço uma estória sobre Cosi”, disse ela. “É sobre o dia em que Cosi ensinou a
uma mortal como roubar a lança de Ula.”
Ela caminhou de volta até a praia, arrastando o bidente e o próprio mar atrás de si.
“A mortal pegou a lança e fugiu. E quando Ula veio à procura de sua arma...”
A plateia estava em silêncio, prestando muita atenção. Se estavam encantados ou
enfurecidos, Kiora não sabia dizer.
“...a mortal cuspiu em seu olho.”
Uma grande onda arrebentou ao redor dela, se lançando na praia, mas se partindo ao
redor da assembleia de tritões, se limitando a apenas molhar seus pés, mesmo quando
rugia ao seu redor contra as pedras. Kiora até evitou que a onda atingisse Yenai, apesar
de se sentir tentada em deixar a onda consumi-lo e transporta-lo junto com sua frágil
dignidade para longe dali.
“Eu não irei me enfiar em algum buraco ou arriscar minha vida numa jornada pelos mares
enquanto os Eldrazi devoram o mundo”, disse ela, sua voz superando o som da onda que
retornava ao mar. “Eu irei para Portão Marinho. Eu irei resistir e eu irei lutar.”
Ela ergueu o bidente. Tudo que se ouvia era o silêncio.
“Então?”
Ao redor dela, dúzias de tritões assentiram, seus olhos arregalados.
“Não!”, disse Yenai. “Vocês perderam o juízo.”
Kiora se virou para Turi.
“Kiora, não”, disse ela. “Eu não posso retornar para lá. Não consigo. Por favor. Não.”
“Mas eu tenho que ir”, respondeu Kiora. “Você sabe que eu tenho.”
Os lábios de Turi tremiam.
“Eu acabei de te reencontrar”, ela disse. “Nós acabamos de nos reencontrar, e eu
pensei...”
Kiora envolveu sua irmã num longo e caloroso abraço.
“Eu voltarei”, falou Kiora no ouvido de Turi. “Eu prometo.”
As mesmas palavras de sempre.
“Eu esperarei por você”, disse Turi.
Kiora então se afastou, entrou na água e convocou uma serpente. Se ela quisesse chegar
a Portão Marinho antes que Ulamog chegasse em terra firme e causasse mais destruição,
ela iria precisar se apressar.
E meia dúzia dos tritões avançaram e se colocaram ao lado dela.
Yenai os observou partirem, cabisbaixo. Mas ele deveria saber que ela havia afastado a
maioria – talvez todos – dos seguidores de Cosi entre sua pequena tropa. Talvez, eles
enfrentassem menos problemas agora que eles se foram. Mas talvez, eles enfrentassem
problemas que só trapaceiros poderiam solucionar, e ele – e Turi – teria que se virar sem
eles.
“A minha irmã”, disse Kiora em baixo tom. “Ela está indo com Yenai. Eu preciso que
alguém cuide dela. Por favor.”
Uma alta mulher assentiu e ficou para trás. Ela merecia benção por aquele ato, apesar de
Cosi não dar nenhuma.
Kiora se virou e olhou para a praia, onde Turi, Yenai, a guardiã sem nome de Turi e os
outros estavam olhando de volta, com expressões que variavam entre pesar, raiva e
apenas cansaço.
“Boa sorte”, disse Kiora. Sorte, o domínio de Cosi. Mesmo que ela realmente tivesse
desejado o melhor para eles, ela não pode evitar sentir um desconforto.
Então uma serpente se estendeu ao longo da praia, e ela e seu pequeno bando de
trapaceiros subiram em suas costas. Quando a praia, a maré e os rostos de Turi, Yenai e
dos outros desapareciam, Kiora fez um breve aceno e logo depois a serpente os levou
embora.
Kiora aprendeu os nomes de seus companheiros e ouviu o que eles tinham a dizer sobre
como a vida em Zendikar havia mudado para pior. Ela aprendeu que Bala Ged e Sejiri
tinham sido devastados, e ela se sentiu um pouco culpada por fazer Yenai se lembrar de
seu lar condenado.
Então, ela lhes contou como conseguiu o bidente e jurou que era tudo verdade, cada
palavra.
Portão Marinho esperava. Ulamog aguardava. A serpente nadava.
E o mar vibrava com o som dos risos dos trapaceiros.

A RESOLUÇÃO DE NISSA
Parte 1

Nissa já passou por muito desde que deixou seu continente de origem Bala Ged em sua
juventude. Embora ela tenha cometido muitos erros no passado, desde que ela se ligou
com a alma de Zendikar, Nissa aprendeu a suprimir seus instintos mais imprudentes. Ela
não precisa acessar a essência selvagem dentro de si mesma quando ela tem o poder
forte e confiável de um mundo inteiro do lado dela. Mas quando sua conexão com
Zendikar foi arrancada, Nissa ficou sem o poder da terra e sem a amiga Ashaya, a
manifestação elemental da alma do mundo. Incapaz de ver sentido em sua perda e
temendo pelo futuro do mundo, Nissa vasculhou o continente Tazeem em busca de
qualquer sinal de Zendikar, até que finalmente ela entendeu – ela tinha estado procurando
no lugar errado o tempo todo. Uma alma ameaçada pelos Eldrazi teria recuado e só havia
um lugar poderoso o suficiente para oferecer proteção para algo tão precioso: a poderosa
flor Coração de Khalni. Sem hesitar, Nissa transplanou para o lugar onde se acreditava
que a flor crescia, Bala Ged. Era hora de ir para casa.
_
Por Zendikar.
Não da maneira que Gideon dizia isso, não como um grito de guerra, mas pela parte mais
profunda da terra, pela alma do mundo. Era por isso que Nissa estava fazendo isso. Ela
lembrou-se mais uma vez e disse a si mesma novamente para abrir os olhos.
Em sua corrida para transplanar aqui para Bala Ged, Nissa não tinha pensado sobre o que
encontraria quando ela chegasse – além de Coração de Khalni, onde ela estava
convencida de que a alma de Zendikar estaria esperando por ela.
Mas a visão de que a saudou, infinitamente branca e infinitamente corrompida, a levou a
fechar os olhos sobre seu continente de origem.
Claro, ela sabia que seria assim. Bala Ged havia caído para os Eldrazi; o mundo inteiro
sabia disso. Mas, em todo o tempo desde que ela tinha ouvido isso, ela não tinha pensado
nisso assim. Ela tinha imaginado uma terra em ruínas, grandes faixas de corrupção
branca, árvores mortas. Mas essas visualizações foram feitas com base no que ela tinha
visto em Tazeem – um continente caindo, não um caído.
Ela abriu os olhos.
Em Bala Ged, não havia nada. Como pode tudo, tudo mesmo, estar apenas... branco,
vazio?
Era impossível.
Mas de alguma forma era real.
A terra não estava destruída – ela tinha sido totalmente consumida.
Não havia árvores mortas. Não havia nem mesmo vestígios de árvores mortas; a
paisagem branca estava completamente plana, as árvores tinham todas se desintegrado.
Tudo havia se desintegrado. E não havia trechos de corrupção; trechos de uma coisa, por
definição, significava que também devia haver faixas de outra coisa. E aqui não havia
nada, apenas a corrupção. Além de Coração de Khalni, Nissa lembrou a si mesma; não
havia nada aqui além de Coração de Khalni.
Se os rumores eram verdadeiros – e eles eram, eles tina que ser – então o coração do
poder de Zendikar tinha vindo aqui para reviver a terra, fazendo crescer um broto novo em
algum lugar neste continente. Onde quer que fosse, era lá onde ela iria encontrar a alma
da terra. Era para lá que Zendikar devia ter recuado. Ela disse a si mesma para dar um
passo a frente, e depois outro, e outro. A corrupção calcária rachava e rangia sob os seus
pés enquanto ela caminhava, suas pegadas se tornando a primeira variação que o
continente empoeirado tinha visto desde a sua queda.
Bem vinda ao lar, ela pensou consigo mesma enquanto partiu através de Bala Ged.
_
Não parecia razoável que ela seria capaz de reconhecer qualquer parte em particular
desta terra devastada uniforme – um dia inteiro de caminhada e ela poderia muito bem ter
estado marchando em círculos, pois toda a paisagem mudara. Mas Nissa sabia
exatamente onde ela estava quando ela desacelerou e parou profundamente dentro do
continente.
Seus pés tinham pisado aqui inúmeras vezes. Na verdade, houve um tempo em sua vida
quando ela pensou que esta seria a única terra que seus pés conheceriam. Ela tinha
imaginado que ela andaria pelos mesmos caminhos, sentaria em torno das mesmas
fogueiras e colheria frutas das mesmas árvores até que ela fosse uma dos anciões Joraga.
Esta tinha sido a sua aldeia. Bem aqui tinha estado a grande árvore jurworrel. E ali a tenda
de armazenamento onde os Joraga secavam todas as suas carnes e frutas e cogumelos
da floresta. E aqui, a maior das fogueiras, aquela onde eles queimavam as vinhas de
roseiras-de-sangue no outono enquanto Chefe Numa liderava os cânticos.
Nissa podia ver tudo, podia ouvir tudo, ela podia até mesmo sentir o cheiro do ensopado
de sua mãe. O cheiro desencadeou lembranças. Devia ter sido uma coisa bem-vinda para
se lembrar, ela desejou que fosse, mas de todas as vezes em que sua mãe tinha feito
ensopado, sua mente a levou de volta para aquela noite, a última noite, a única noite em
que ela não queria pensar nunca mais. Ela tinha acordado de uma visão com o cheiro do
ensopado... e vozes. Foram as vozes que a tinham convencido a partir. E ela tinha
escapado durante a noite.
Nissa podia se ver esgueirando-se pelas sombras. Ela deu as costas para a visão, para a
elfa que ela tinha sido. Ela não tinha pensado naquela elfa em um longo tempo. Na
verdade, ela tinha feito tudo o que podia para esquecer aquela elfa. Aquela elfa tinha feito
tantos erros –erros horríveis – após deixar esta aldeia. Erros que ainda assombravam
Nissa, erros que iriam assombrá-la para sempre.
Mas ela não era mais aquela elfa. E a única razão disso era a alma de Zendikar. Foi a sua
ligação com a terra que a mudou, que a salvou. Era Zendikar que a mantinha concentrada,
equilibrada e certeira. Era Zendikar que a guiava. Ela precisava de Zendikar.
Nesse momento, Nissa percebeu que ela tinha vindo aqui para Bala Ged para salvar a
alma do mundo não apenas pela terra, pelo plano, pelas pessoas e não apenas pelo seu
poder: ela tinha vindo aqui para salvar a alma do mundo para que ela pudesse salvar a si
mesma. Sem Zendikar, ela iria se tornar novamente a elfa que ela tinha sido da última vez
que esteve aqui – selvagem, imprudente e certamente fadada a errar.
Ela não seria aquela elfa novamente, ela não podia ser. Não. Nissa jurou que não deixaria
Bala Ged sem Zendikar.
_
Toda a distância que Nissa colocou entre ela e sua aldeia não parecia importar. Embora
ela tenha tentado afastar as memórias de sua mente, ela não conseguia parar os flashes e
as lembranças. Ela se sentiu como se estivesse sendo perseguida por aquela inexperiente
elfa de pés suaves. Pior, ela se sentiu como se estivesse se fundindo com as memórias
dela.
Tudo era de repente familiar. Mesmo que a terra fosse uma massa sólida de corrupção
branca monótona, ela sabia exatamente o caminho que ela estava tomando através do
Vale Emaranhado; ela havia caçado aqui inúmeras vezes. Ela sabia onde pisar para evitar
as armadilhas das que os grupos de humanos preparavam para os gnarlids – e ela as
contornou, mesmo elas não estando lá, mesmo ela tentando evitar que seus pés
respondessem à reminiscência indesejável. Seus joelhos instintivamente se preparavam
para subir uma colina que não existia. E quando ela tinha dado passos suficientes para ter
alcançado o topo da colina, sua boca se encheu d’água e seu estômago roncou,
antecipando um lanche dos cogumelos grossos que cresciam no topo como ela sempre
fazia. Então, quando ela ouviu o barulho estridente de uma gomazoa, ela se abaixou para
evitá-la – o fantasma de uma memória de um caçador mortal.
Ela a empurrou de sua mente, mas o barulho seguiu, zombando sua incapacidade de
separar a realidade da memória indesejada. Sua mão se moveu para sua espada no
instinto. Elfa tola. Não havia nada lá...Nissa parou abruptamente.
A coisa que ela tinha visto no canto do olho não era uma memória. E não era uma
gomazoa também. Mas estava perto o suficiente: o Eldrazi médio tinha tentáculos e um
corpo mole, , assim como o predador de seu passado.
Nissa estava se lançando para ele, lâmina para fora, antes que sua mente consciente lhe
dissesse para se mover. Ela tinha feito isso antes. Bem aqui nesta terra. Mais vezes do
que ela podia contar. Um corte através do seu centro e um segundo por toda a sua frente.
Ela esquartejou a monstruosidade tão rapidamente que o eco de seu grito agudo persistiu
durante um segundo após sua vida ter terminado.
Algo dentro de Nissa se agitava. Ela se levantou, respirando pesadamente, acima do
corpo do Eldrazi. Ela não tinha lutado assim pelo que parecia ser uma vida inteira. Ela
tinha esquecido a adrenalina de empunhar sua espada com tanta precisão e força.
Havia mais força dentro dela. Mais poder que ela... não. Nissa engoliu em seco, forçando
para baixo o pensamento que ameaçou desfazer ela.
Ela não era aquela elfa. Isto não foi era aquele Bala Ged. E a coisa na frente dela não era
uma gomazoa. Era um Eldrazi.

Parte 2

Era um Eldrazi!
Nissa nunca tinha estado tão emocionada por ver uma dessas monstruosidades em sua
vida, nem nunca estaria de novo, mas agora, aqui neste continente perdido, só havia uma
coisa que a presença deste Eldrazi podia significar: vida.
Devia haver algo aqui para ele se alimentar. Tinha de haver, ou ele não estaria aqui.
Nissa não sabia muito sobre as monstruosidades sobrenaturais que tinham caído sobre
Zendikar; de maneira geral, eles provaram ser inescrutáveis. Mas ela sabia de uma coisa:
eles estavam incessantemente com fome, em um caminho sem fim de destruição por
devoração. Eles só iam a lugar onde havia algo para consumir e para eles isso significava
vida.
Em algum lugar em Bala Ged, havia vida.
Coração de Khalni.
Tinha que ser Coração de Khalni.
Com seu coração batendo contra as costelas e os olhos fixos na trilha torta que o Eldrazi
havia deixado em seu caminho, Nissa correu pela terra. De onde quer que a
monstruosidade tenha vindo, o que quer que tenha deixado para trás para perseguir e
alimentar-se dela, era lá onde ela esperava encontrar a vida que ela estava procurando.
Este tipo de rastreamento era incrivelmente fácil para Nissa – a elfa patrulheira que ela
costumava ser tinha rastreado centenas de criaturas através deste mesmo terreno.
Embora as impressões do Eldrazi pudessem não destacar-se contra a corrupção
esburacada para o olho destreinado, Nissa via a trilha como um farol brilhante. Ela o
seguiu pelo caminho que o Rio Umung costumava levar através dos Vales – agora apenas
mais corrupção branca. Ela correu pelas Terras Selvagens Guum – ela nunca teria
coragem de correr com tanta casualidade pelo que uma vez tinha sido a parte mais grossa
e mais venenosa da selva. E ela foi em linha reta em direção às cavernas onde os surrakar
costumavam fazer seus ninhos.
Quando ela percebeu para onde estava indo, Nissa diminuiu apenas ligeiramente. Um
arrepio percorreu-lhe a espinha com o pensamento dos territoriais animais reptilianos.
Sua mente estava no sistema profundo de túneis que corria sob Bala Ged. Tinha isto sido
corrompido também? Tinham os Eldrazi ido abaixo da superfície? Ou tinham eles
negligenciado os túneis, deixando as coisas que estavam escondidas abaixo sobreviver?
Nissa não tinha certeza do que ela esperava. O que ela preferiria enfrentar, um bando de
surrakars famintos ou mais terreno profanado?
Ela não tinha a resposta, pelo menos não uma que estivesse disposta a admitir, e ela não
tinha muito tempo para considerá-la – foi na abertura parcialmente colapsada e corrompida
de um túnel surrakar, onde a trilha do Eldrazi dava voltas, que ela viu o primeiro sinal de
vida.
Um delicado cobertor de musgo verde pálido, que parecia que mal estava aguentando,
forrava a abertura desmoronada.
Nissa caiu de joelhos e passou os dedos em todo o restolho de verde. Era macio, frágil e
um pouco quente.
Zendikar.
Seu espírito se elevou e impulsivamente ela se abaixou para a terra, procurando qualquer
sinal da alma do mundo – mas retraiu com a mesma rapidez, retirando-se do vasto vazio.
Este tinha que ser o lugar, mas então onde estava Zendikar? Ela já não devia ser capaz de
sentir Coração de Khalni agora? Ela afastou a dúvida e preocupação de sua mente; estaria
aqui.
A fina película de verde se estendia até à entrada do túnel abaixo. Nissa não tinha certeza
se era uma combinação da escuridão e sua esperança, ou se era real, mas parecia que o
musgo ficava mais grosso e mais profundo mais fundo no túnel. De qualquer maneira,
estava lá, como uma trilha que a levaria para casa.
Seus membros não podiam se mover rápido o suficiente para o seu desejo. Ela rastejou
para dentro do túnel, se arrastando tão rapidamente quanto possível nos locais apertados.
Seus olhos não a enganaram acima: Quanto mais longe dentro do túnel ela ia, mais
grosso o musgo tornava-se sob seus dedos e palmas das mãos – mais espesso, mas mais
frágil? Outro traço de dúvida fez cócegas no fundo de sua mente. Algo não estava certo
aqui. Ela sentia-se inquieta.
Enquanto ela ia em frente, seus sentidos se aguçaram, em alerta para o que ela não
conhecia.
O túnel estreito se abriu para revelar uma caverna banhada em um brilho azulado. Isso era
estranho. Ela estreitou os olhos, esforçando-se para ver mais à frente, e suas orelhas se
levantaram, inclinando primeiro para um lado e depois para o outro. Mas ela não
conseguiu verificar nenhuma pista sobre o que a luz azul era, então ela rastejou para
dentro da cavidade alta e se pôs de pé.
Ela perdeu o fôlego e sua mente cambaleou, tentando juntar as peças do que ela estava
vendo. A luz azul vinha de um círculo apertado de edros ligados entre si com uma rede de
linhas de força brilhantes costuradas. As linhas de força estavam dispostas em um padrão
que ela nunca tinha visto antes – era antinatural.
Por que isso estava aqui? O que – quem – tinha feito isso?
Não um surrakar. Ela tinha bastante certeza de que eles não tinham qualquer interesse em
organizar edros.
Um Eldrazi?
Sua pele se arrepiou; ela já não podia esconder sua preocupação.
Ela caminhou lentamente ao redor do círculo, os olhos rastreando, os pelos nos braços
arrepiados. Nada estava certo aqui, nada tinha estado certo desde que ela entrara na
caverna.
A força que tinha se mexido dentro dela quando ela matou o Eldrazi acima borbulhava
mais uma vez, pronta para o que quer que viesse a seguir – o que significava que cabia a
Nissa contê-la. Este não era o momento; muito estava em jogo. Ela acalmou-se e voltou
sua atenção para os edros.
Cada edro estava apoiado em sua base com um monte de terra que parecia ter sido
arrastado intencionalmente com os dedos – ou garras – de alguém (ou de alguma coisa).
No início, parecia que o anel de edros estava completo, mas, em seguida, Nissa chegou a
uma lacuna, uma que parecia ter exatamente o tamanho de um único edro.
E foi através dessa lacuna que Nissa viu: Coração de Khalni.
Zendikar.
Seu coração saltou – e com a próxima batida despencou. A flor jovem estava deitada em
uma laje de pedra, suas pétalas meio murchas caídas de um lado e as suas raízes,
espessas com pedaços de terra seca, pendendo do outro.
Ao ver as raízes expostas, uma memória agonizante passou pela cabeça de Nissa. A dor,
a sensação de ser rasgada. De repente, ela estava de volta ao cume na borda da floresta
de Matavasta em Tazeem. Era como se o seu vínculo com Zendikar estivesse sendo
quebrado mais uma vez.
A alma de Zendikar não tinha recuado para Coração de Khalni livremente; alguém tinha
feito isso a ela. Mesmo enquanto os Eldrazi assolavam a terra, alguém tinha desenraizado
a alma da terra e a prendido aqui para morrer. Quem poderia ser tão cruel?
Mais forte do que o choque que ameaçava paralisar dela, os instintos de Nissa dirigiram
suas ações. Suas pernas se moveram, levando-a em frente para a flor. Seus braços se
estenderam em uma tentativa de proteção. Mas antes que pudesse adentrar a prisão de
edros, uma rajada de vento soprou através de sua pele e algo duro e quente bateu em seu
lado. Ela voou através da caverna e derrapou ao longo do chão.
Ofegando para recuperar o fôlego que tinha sido tirado dela, Nissa empurrou-se sobre
suas mãos e joelhos apenas para ser golpeado para baixo novamente.
Ela caiu e rolou pelo chão da caverna, caindo sobre suas costas – e olhando diretamente
para um demônio.

Parte 3

"Por que você está aqui?" A voz profunda do demônio era de alguma forma tanto
ressonante quanto vazia. Ele pairava sobre ela; suas asas, apenas meio abertas,
preenchiam a largura da caverna, bloqueando sua visão da prisão de edros e da flor.
Longas farpas afiadas se alinhavam em seus braços e pernas e cinco chifres grossos
coroavam sua cabeça. "Quem te mandou?"
Esse demônio era quem tinha feito isso. Olhando em seus olhos vermelhos brilhantes,
Nissa sabia disso sem dúvida. Ele era quem tinha desenraizado Zendikar. Ele havia
roubado sua amiga dela, lhe tinha causado dor imensurável, tinha prejudicado a alma do
mundo. E por isso, Nissa o odiava.
"Me responda!" o demônio se enfureceu. Veias de magia como lava quente surgiram no
peito e ao longo de seus braços. "Como você me achou?"
Ele voou para ela. Em um movimento fluente, Nissa sacou a espada, mas o demônio era
rápido também. Ele fechou a mão em torno de seu pulso, dobrando-o para trás e soltando
seus dedos de sua arma.
Conforme sua lâmina ruía sobre a pedra, o demônio jogou o peso de seu corpo sobre ela,
forçando-a para trás e para baixo como se ele pretendesse enterrá-la ali mesmo no chão.
"Foi Nahiri?"
Nissa lutou contra o seu peso. Ele tinha quase três vezes o seu tamanho, então ele teria a
vantagem – ou pelo menos ele acreditaria que ele tinha a vantagem. Elfos estavam entre
as mais leves das raças em Zendikar, mas um elfo experiente poderia derrubar qualquer
das raças – ou criaturas – mais pesadas do mundo. E Nissa era uma elfa experiente, ou
pelo menos ela tinha sido. A elfa que era antes, aquela que tinha vivido aqui em Bala Ged,
uma vez tinha lutado com um baloth espiculado e saído vitoriosa.
Esse demônio não era diferente do baloth. Ele era uma criatura, um animal, e ela poderia
derrubá-lo. Nissa mediu seus movimentos enquanto eles lutavam e não demorou muito
tempo para identificar o seu centro de gravidade. Uma vez que ela o encontrou, ela jogou
contra ele, ganhando mais vantagem com cada movimento que fazia. Quando ela tinha
vantagem suficiente, ela enfiou os pés para cima e chutou o peito do demônio exatamente
no lugar certo para tirar seu equilíbrio, lançando-o para longe dela.
O demônio cambaleou para trás, parando em pleno ar com uma poderosa batida de suas
asas de couro.
Ele se jogou para ela novamente, mas Nissa foi mais rápida desta vez; os movimentos e
os instintos de combate estavam voltando para ela. Tendo recuperado sua espada, ela
empurrou a lâmina para ele, pegando o lado de sua perna mesmo quando ele se esquivou,
tirando sangue.
Seus olhos se contraíram e ele gritou. Mas Nissa não vacilou.
Ele pairava sobre ela com um olhar em seu rosto que ela não conseguia ler. Havia ódio lá,
isso estava claro, mas também havia algo mais, algo desconcertado. Ele assobiou. "Se
Nahiri acha que pode me parar agora, ela está muito enganada."
Nissa não sabia do que ele estava falando e ela não se importava. Ela se lançou com sua
espada novamente, mas ela não estava preparada para o seu contragolpe. O demônio
girou sobre ela, a força queimando dentro dele até jorrar de sua palma, explodindo
diretamente no peito dela. Era um poder que drenava a vida e atacava diretamente
essência de Nissa – e alimentava a escuridão do demônio conforme o fazia.
Embora ela tivesse se tornado hábil em ignorar o poder dentro dela, até mesmo suprimi-lo,
ele não tinha diminuído. E agora, quando estava ameaçado, quando ele era puxado para
longe dela, uma onda profunda de dor caiu sobre ela.
Nissa engasgou e deu uma guinada, cambaleando sob o sentimento doentio de fraqueza.
Se ela não agisse, este seria o fim. O demônio a drenaria, e então Zendikar.
Ela sabia o que tinha que fazer. Ele a deixou sem escolha. Ela iria usar apenas uma
fração, só por um momento.
Não foi fácil de manejar no começo. Embora o poder estivesse ansioso para ser liberado,
Nissa se sentiu desengonçada ao usá-lo, como se estivesse navegando por um quarto
escuro da casa de um estranho. Ela tropeçou e se debateu enquanto canalizava o poder
através de seu peito e em direção ao seu braço.
Erguer a espada pareceu como levantar toda uma árvore jaddi, mas ela manteve a lâmina
para cima e forçou sua essência através dela. Quanto mais o poder fluía, mais ela o
reconhecia. Algo dentro dela estava acordando, e estava feliz por essa manhã ter
finalmente chegado.
Ela posicionou a lâmina carregada entre seu peito e a explosão de energia drenante do
demônio e empurrou-a com toda a força em seu interior. De repente, toda a força da
essência de Nissa veio correndo de volta para ela – e com ela todas as memórias, todos
os horrores, os erros. Quantas vezes ela tinha exercido esse poder apenas para arruinar
tudo? Quantas vezes ela tinha causado mais mal do que bem? Ela não podia confiar em si
mesma.
Mas já era tarde demais para isso. O ataque do demônio refletiu no poder infundido em
sua lâmina e disparou em linha reta de volta para ele. A força do golpe jogou tanto Nissa
quanto o demônio rapidamente para trás, batendo nas paredes opostas da caverna.
A cabeça de Nissa girava e seus dedos formigavam com poder, o impaciente poder. Ela
saltou para seus pés enquanto o demônio caminhava para ela.
"Impressionante", disse ele. "Sua aparência engana. Você está vestida como uma simpes
Joraga." Ele cheirou o ar ao seu redor. "Mas você cheira como as Eternidades Cegas.
Planinauta."
Nissa ficou tensa. Ele era um Planinauta, também? Ele devia ser. Ela focou seus sentidos
sobre ele, procurando por sua energia. Havia algo ali nas bordas de seu ser, mas não
estava certo, e ela não conseguia identificar o por quê.
"Eu não deveria ter esperado menos da emissária de Nahiri", disse ele. "Mas eu tenho que
perguntar, por que ela mandou você? Por que ela própria não veio?"
"Eu não sei do que você está falando." Nissa conteve o impulso de correr para o demônio,
mas por pouco. O poço de poder dentro dela estava excitado e não seria contido por muito
tempo.
"Talvez seja porque Nahiri estava com medo de me enfrentar, preocupada porque, assim
que isto estiver acabado, eu vou exercer mais poder do que qualquer Planinauta já teve
em um longo tempo." O demônio olhou para a flor e Nissa seguiu seu olhar, seu coração
batendo por Zendikar. "O poder de um mundo inteiro vai ser tudo meu."
"Esse poder não é para você." As palavras de Nissa saíram fortes e seguras,
impulsionadas pela força pulsante em suas veias. "Coração de Khalni pertence à terra."
"Não seja ingênua", o demônio rebateu. "Poder pertence àqueles que o tomam. Eu tomei.
Então é meu."
"Então eu vou tomá-lo de volta." Nissa não podia mais se conter; sua essência selvagem a
impulsionou e ela mergulhou em direção a abertura entre os edros. Ela tinha vindo por
Zendikar e ela não iria embora sem a ama – mas o demônio atirou outra explosão e Nissa
foi forçada a se esquivar.
"Você não quer morrer aqui, elfa", disse ele. "Não vale a pena. Não pelo que quer que
Nahiri tenha lhe prometido."
"Eu não sei quem é Nahiri", Nissa atirou de volta. Mas o demônio estava certo, ela não
queria morrer aqui. O que ela estava fazendo? Ela estava mostrando um inconsequente
desrespeito pela sua vida, pela vida de Coração de Khalni, que estava bem ali na frente
dela, vulnerável e enfraquecendo. Era a energia volátil dentro dela que estava dirigindo
suas ações. Isso não deveria ter acontecido. Ela deveria apenas ter acessado por um
momento; ela tinha se prometido isso. Ela não era mais aquela elfa. Ela era a elfa que
estava no controle, a elfa que silenciara os impulsos erráticos e instáveis que se erguiam
de dentro. A elfa que dependia de seu vínculo com a terra para buscar o poder que ela
precisava, poder em que ela podia confiar, poder que não cometia erros.
Aquela elfa autossegura era a elfa que tinha vindo aqui para salvar Zendikar, e aquela era
a única elfa que teria sucesso. Com esforço, ela dirigiu sua essência ansiosa para baixo,
contendo a sua vontade para que ela mergulhasse diretamente sobre o demônio
novamente. Isso não iria funcionar. Havia outras maneiras de passar por ele do que por
pura força. Ela tinha que pensar. Ela tinha que se concentrar.
O problema era que havia apenas um caminho para o anel de edros, de modo que o
demônio sempre saberia o caminho que ela iria tomar. Mas se houvesse outro buraco no
círculo... sim! Esse era o tipo de elfa que ela era.
"Se Nahiri não lhe enviou, então por que você está aqui?" O demônio olhou de soslaio
para ela.
Nissa indicou com a cabeça para Coração de Khalni atrás dele, uma desculpa para
inspecionar o anel de edros. "Eu estou aqui para salvar aquela flor. Estou aqui por
Zendikar."
"Por Zendikar?" O demônio deu uma gargalhada. "Ou você está mentindo ou você está
delirando. Você já viu Zendikar ultimamente? Não há mais nada para salvar. Logo os
Eldrazi vão consumir tudo."
"Eles não vão." Nissa encontrou seu alvo em um edro à esquerda do demônio.
"Você diz isso com tanta confiança."
"Sim." Nissa ficou tensa, pronta para correr.
"E quem é que vai parar o Eldrazi?" perguntou o demônio. "Você?"
"Sim", disse Nissa. "Eu." Ela correu.

Parte 4 (Final)

O demônio se moveu para bloquear a entrada da prisão, mas não era para lá que ela
estava indo.
Ela lançou-se no ar, dando cambalhotas em direção ao edro à esquerda dele, um caminho
livre na frente dela. Ela preparou sua espada para o ataque.
Mas quando o edro entrou em seu alcance, ela sabia que não teria sucesso. Ecos de uma
memória distante brincaram em sua mente. Ela tinha quebrado um edro uma vez antes.
Um edro em uma caverna, muito parecido com esta. No entanto, isto tinha requerido o
poder de sua essência. Se ela batesse na rocha agora com apenas sua lâmina nua, ela
teria a sorte se deixasse sequer um arranhão.
Ela precisava de mais poder, mais dela.
Não ficou claro se foi por escolha – não ficou claro se ela sequer tinha uma escolha – mas
quando sua lâmina se chocou contra o edro, a essência dentro de Nissa explodiu. E, em
seguida, o demônio se chocou contra ela.
Eles rolaram pelo chão, lutando uns contra os outros, igualmente poderosos. Nissa
manteve os olhos no edro, esperando por que ele rachasse, esperando pela cascata de
caos que ela sabia que viria. Esperando para ver se ela tinha agido em tempo.
Um segundo depois, uma fissura de poder surgiu na superfície do edro, rachando pelos
seus lados, para baixo, e no instante seguinte, a rocha maciça se despedaçou. Quando o
fez, o padrão de linhas de força que tinham estado ligadas a ele começou a tremer e
falhar. As reverberações fizeram os outros edros balançar. A prisão estava perdendo sua
integridade. Em breve entraria em colapso completo e provavelmente derrubaria o resto da
caverna junto.
Agora era a única chance de Nissa. Ela viu o que tinha que fazer e ela buscou em seu
poder novamente. Desta vez, ela o usou para arremessar o demônio para longe dela. Ela
pôs-se de pé e correu para Coração de Khalni.
"Não!" o demônio rugiu. "Eu não vou deixar você fazer isso!"
Ele se lançou atrás dela, mas ele hesitou entre Nissa e os edros oscilando precariamente.
Ela viu a dúvida em seus olhos e, em seguida, o brilho de decisão quando ele se lançou
para a pedra angular mais próxima, envolvendo os braços grossos em torno dela,
esforçando-se para segurá-la.
Nissa saltou por ele e estendeu a mão para Coração de Khalni.
No momento em que seus dedos tocaram a flor – foi tudo.
Zendikar.
O mundo, a presença, a alma ecoou dentro dela.
E então a mão do demônio se fechou em torno da dela, apertando com tanta força que
Nissa pensou que ela iria estrangular a flor. "Isso foi um erro." O fogo se alastrou dentro
dele. "Mais do que um erro."
Mas ele não estava mais segurando os edros que quebravam. As linhas de força se
deslocavam conforme as pedras caíam em torno deles, desaparecendo uma por uma.
O demônio olhou para Nissa, ódio quente irradiando de seu olhar. "E agora você vai pagar
por isso." Sua indignação derramava dele para Nissa, prendendo-a no lugar como uma
corrrente. Ela lutou para libertar-se, mas com cada respiração ele drenava mais da sua
força para lutar.
Seu único objetivo era matá-la ali mesmo, destruí-la. Ela podia sentir isso. Ela podia ver
isso em seus olhos.
"Não importa o quanto você pode querer isso", o demônio levantou as mãos deles unidas
sobre Coração de Khalni: "Eu quero mais. E eu vou tê-lo."
Sua raiva queimava mais forte com cada batida do coração enfraquecido de Nissa. "Se
você quer viver, agora é a hora de transplanar para longe."
Nissa entrou em pânico. As bordas de sua visão estavam ficando escuras. Seus olhos
correram para Coração de Khalni. Sua essência buscou o poder de Zendikar, o poder que
estava bem ali em suas mãos. Com ele, ela poderia esmagar o demônio, ela poderia
vencer – tudo o que ela tinha que fazer era pegá-lo.
Não. Nissa se conteve, controlando seu desespero. Zendikar não tinha poder para dar a
ela, não agora, quando ele estava arrancado e sem ligação à terra. Se ela usasse seu
poder, ela iria drená-lo, ela iria destruir a flor, e ela poria um fim a Zendikar.
Ela não era mais que aquela elfa, a que agia sem saber as consequências. Ela não ia
fazer esse tipo de erro.
Então o que? Perecer para o demônio?
Não. Ela não era aquela elfa também.
Ela era algo entre quem ela tinha sido há muito tempo e quem ela pensava que havia se
tornado. Nenhuma das duas era completamente verdade. Tinha sido um erro represar a
força dentro dela por tanto tempo – ela era poderosa, mais poderosa até do que esse
demônio, e isso não era algo que ela deveria esconder. Mas ela não tinha estado errada
em aprender a ter controle, aprender a ter cautela. Nunca fora o poder que tinha sido
errado, nunca a paixão. Ela sempre tinha feito as coisas pelas razões certas, sempre com
as intenções certas. Mas ela tinha cometido erros, porque ela não tinha a consciência do
mundo ao seu redor, o entendimento mais profundo que era necessário para agir com
cuidado.
Mas agora ela tinha.
Ela tinha aprendido de Zendikar. Ela podia ver os padrões e conexões, ela podia sentir o
mundo à sua volta. Esta caverna, estes edros, o poder de Coração de Khalni, a essência
de drenagem do demônio. Ela também podia ver toda Zendikar, os Eldrazi, os outros
Planinautas, o acampamento dos sobreviventes. E ela podia ver o Multiverso, todos os
inumeráveis mundos.
Ela tinha um lugar em tudo isso. Ela tinha um poder que pertencia a algum lugar. Um
poder que ela pretendia usar – hoje, agora, para salvar Zendikar.
O que ela estava prestes a fazer era perigoso. Possivelmente a coisa mais perigosa que
ela já tinha feito. Mas não era um risco. Ela sabia exatamente o que iria acontecer. E ela
estava preparada.
Nissa recolheu todo o poder deixado dentro dela, tudo o que o demônio ainda não tinha
drenado, e ela empurrou-o para longe dele. Ela podia sentir o aperto dele sobre esse
poder, senti-lo lutando contra ela, mas ela forçou-o para baixo através de seus braços,
através de seus dedos, e para dentro de Coração de Khalni.
Conforme sua essência correu para a flor, ela se tornou viva. Suas pétalas levantaram,
suas folhas desdobraram, ela se iluminou. E, finalmente, as suas raízes começaram a
crescer. Elas desceram em direção ao chão.
"O que você está fazendo?" O demônio puxou para trás a essência dele. Ela podia ver a
confusão em seus olhos.
Nissa se sentiu como um ramo de salgueiro, puxada para baixo pelo demônio e puxada
para cima pela força de seu centro. As raízes de Coração de Khalni tinham quase chegado
ao chão. Ela enviou uma última onda para a alma de Zendikar, e, em seguida, sua visão
escureceu e seu corpo despencou.
O demônio arrancou a flor de seus dedos frouxos e Nissa caiu de joelhos.
"Este mundo é meu!" ele rosnou. "Este poder pertence a mim."
Mas não pertencia.
As raízes já estavam no chão. A alma do mundo tinha voltado para a terra. Zendikar não
pertencia a ninguém. A terra subiu com força, enviando pedaços de rocha voando
enquanto se estendia para Coração de Khalni. Ela puxou a flor para baixo, para fora das
mãos do demônio e para o abraço do mundo.
"Não!" O demônio caiu de joelhos, arranhando o chão com garras grotescas. Mas já era
tarde demais. A terra já havia guardado o coração do poder. A flor fora embora. Ela estava
segura.
Toda a caverna começou a tremer quando a força de Zendikar surgiu através das palmas
de Nissa, preenchendo o vazio dentro dela, misturando-se com a única gota de sua própria
essência que havia permanecido.
O demônio foi jogado para longe. Ele tentou apoiar a mão sobre a parede para se firmar,
mas a parede se abriu. Ele atirou-se para o ar, esquivando-se a rocha. "O que você fez?"
Nissa ficou de pé e se virou para encará-lo. "Se você quer viver, agora é a hora de
transplanar para longe." Ela estendeu a mão para seu vínculo com Zendikar, buscando o
poder dentro dela e o poder do mundo, chamando uma extensão de seu ser, uma
perfeição de sua forma. Quando ela golpeou o demônio, a terra e os detritos se moveram
com ela, levando um punho de terra diretamente sobre seu peito. Ele foi enviado para trás
sobre a parede de pedra em colapso.
Nissa saltou de um pedaço de terra que se quebrava para o próximo, cada fragmento de
Zendikar alternadamente lhe segurando em seu pouso e lhe dando força para o próximo
salto. Enquanto o mundo caía sobre o demônio, Nissa se elevou, e assim também fez a
alma do mundo, sua amiga.
Ashaya.
Quando chegou à superfície, os pés de Nissa tocaram em um tapete macio e exuberante
de musgo. Ela respirou o cheiro de vida vibrante. Ao lado dela, o gigante elemental, feito
de restos do túnel e da terra em colapso, fez o mesmo.
Nissa olhou para a amiga. Ashaya enviou uma onda de fervor até Nissa, e Nissa enviou
sua própria essência de volta. Elas eram uma só, e ao mesmo tempo eram cada uma,
mais fortes pelo poder que compartilhavam. Agora era hora de usar esse poder para salvar
Zendikar.
Nissa e Ashaya voltariam a Portão Marinhho, elas se encontrariam com o exército de
Gideon, e se juntariam ao seu grito de guerra, pois as palavras tinham recuperado o
significado.
"Por Zendikar!"
Juntas, elas partiram pelo continente, lado a lado a cada passo.

REVELAÇÃO NO OLHO
Parte 1

Jace Beleren não é um lutador. Seu objetivo imediato em vir para Zendikar era resolver um
quebra-cabeça: a questão de como os edros flutuantes do plano haviam contido os
Eldrazi, e como eles podem ser usados para capturar - ou matar - o titã Ulamog, que
permanece em Zendikar.
Com todos os estudos sobre o assunto destruídos na queda de Portão Marinho, Jace foi
forçado a iniciar uma viagem perigosa para o Olho de Ugin, o centro da rede de edros.
Jace tinha estado lá uma vez antes, quando ele inadvertidamente ajudou a liberar os
Eldrazi. Agora, ele deve retornar para o Olho e desvendar o enigma dos edros de
Zendikar.
Se ele conseguir viver por tempo suficiente.
_
Jace Beleren cravou sua bota contra uma rocha irregular, empurrou e puxou, passando
com dificuldade os dedos doloridos em torno do próximo apoio.
Ele não estava exatamente em seu elemento. O vento soprava a sua capa ao redor dele.
Ele não olhou para baixo.
Ele não tinha medo de altura, não mais do que a maioria das pessoas. Mas ele sabia o
quão alto estava na face do penhasco e olhar para baixo não adicionava nenhuma
informação útil. De qualquer maneira, uma certa quantidade de cautela parecia racional,
uma vez que uma queda dessa altura certamente iria matá-lo, o fazendo em pedacinhos
contra a...
Ele não olhou para baixo.
No topo deste penhasco, se o mapa mental que ele tinha extraído da mente de Jori En era
preciso, estava o que se passava por terreno plano em Akoum, uma vasta extensão de
rochas vulcânicas irregulares e desfiladeiros traiçoeiros. A tribo de goblins de Tuktuk vivia
em algum lugar nessa área, ou viveu antes do despertar dos Eldrazi. A paisagem tinah se
rearranjado quando os três progenitores Eldrazi fisicamente surgiram da cadeia de
montanhas conhecida como os Dentes de Akoum e nem experiência prévia de Jace nem o
conhecimento de Jori poderiam guiá-lo. Ele precisava de ajuda. Ele precisava de Tuktuk e
sua tribo.
Centímetro por centímetro, apoio por apoio, Jace se levantou na face da rocha. Por fim,
com as mãos doendo, ele se arrastou ao longo da borda do penhasco...
...de frente para um Eldrazi.
Ele era pequeno para um Eldrazi - talvez tão grande quanto Jace - e seu rosto branco e
ósseo estava apenas a alguns metros do seu. Jace tropeçou para trás, mas se segurou,
uma bota pendurada para fora sobre o abismo. Ele rolou para o lado e se ajoelhou fora do
alcance fácil da coisa.
O Eldrazi estava olhando para ele, seu rosto sem olhos giraram para seguir o seu
movimento. Ele se lançou.
Jace empurrou-se com seus pés, convocando um guardião ilusório. A mente dos Eldrazi
era tão vazia quanto seus rostos e nenhum dos seus truques habituais parecia funcionar
neles. Magia sonífera não fazia efeito contra coisas que não dormem. Invisibilidade era
inútil contra monstros sem olhos. Até mesmo suas ilusões pareciam vacilar contra esses
adversários de outro mundo.
O Eldrazi rasgou através de sua ilusão como se fosse papel e continuou se aproximando.
Com mais tempo, Jace poderia ter conjurado uma ilusão mais sólida. Com mais tempo, ele
poderia ter sido capaz de confundir a criatura por tempo suficiente para fugir -
experimentar ilusões auditivas ou táteis que poderiam desorientá-lo. Mas ele não tinha
tempo e estava exausto da subida, e tudo o que podia fazer era tentar enfiar-se entre duas
pedras afiadas e torcer para que ele conseguisse dar alguns bons chutes nele.
Houve uma pancada e um flash de luz azul brilhante. O Eldrazi cambaleou. Jace piscou. O
quê...?
“Cai, coisa obscena!" veio uma voz da sua esquerda.
O Eldrazi girou seu rosto ossudo para olhar - ou o equivalente a olhar para algo que não
tem olhos - exatamente quando uma pesada maça desceu sobre a sua cabeça branca.
Houve um som como porcelana quebrando e um derramamento de algo viscoso de sua
carne, e o Eldrazi caiu.
Jace espiou ao redor da pedra ao lado dele para ver um goblin agachado sorrindo de
orelha a orelha. Como a maioria dos goblins que ele tinha visto desde o seu retorno, ela
tinha uma protuberância metálica pesada em cima de seu crânio. Ela tinha uma cesta
pesada nas costas e uma maça de pedra - não, não uma maça, ele percebeu, e não uma
cesta. Um pilão e um almofariz. A goblin era apenas tão alta quanto a cintura de Jace, mas
tinha que ser monstruosamente forte para carregar aquelas coisas por aí.
"Olá!" disse a goblin com, pareceu a ele, uma reverência exagerada. "Não é seguro, viajar
sozinho."
Ela limpou o pilão em uma rocha, raspando pedaços de osso e o que quer que sirva de
cérebro em um Eldrazi. Jace não queria ir fuçando em sua cabeça ainda. Essa era uma
maneira de impedir potenciais boas relações.
"Obrigado pelo salvamento", disse ele. "Como você fez isso? Com o Eldrazi?"
"Oh, os crânios deles se quebram tão facilmente quanto o seu", disse a goblin. Ela bateu
no topo de sua cabeça, que soou metalicamente. "Mais fácil do que o meu."
"Antes disso", Jace disse. "O feitiço, ou o que quer fosse."
Como forma de resposta, ela olhou em volta como se tivesse perdido alguma coisa, então
gritou "Aha!" e correu a apanhar o que parecia a Jace como uma pequena pedra. Não -
não uma pedra. Um fragmento de um dos edros mágicos de Zendikar.
"Um edro armazena magia por mil anos", disse ela. "Ou menos, se necessário. Esse está
bem gasto, mas eu vou moer o que eu puder."
Ela gargalhou, jogou o edro em seu almofariz, e começou distraidamente a moer com seu
pilão. Houve faíscas e estouros.
"O tamanho deles não diz muito", disse a goblin. “Cada edro é como um escuro e profundo
buraco. Pode estar cheio de coisas boas. Pode estar vazio. A única maneira de saber com
certeza é mergulhar nele."
"Entendi", disse ele. "Oh... Eu sou Jace, por sinal."
"Zada do Refúgio do Pedregulho", disse a goblin, como se isso explicasse tudo.
"Eu estou procurando Tuktuk", disse Jace. "Você conhece ele?"
Por alguma razão, isso fez Zada cair em gargalhadas.
"Ele está morto", disse ela. "Morto que nem pedra, dá pra se dizer."
Ela começou a rir de novo, mas em resposta à expressão pálida de Jace ela conseguiu
falar "Ele era feito de pedras, sabe."
"O que aconteceu?" Jace perguntou.
"Eu comi ele", disse Zada.
Jace passou um momento imaginando rituais canibais horríveis até que se lembrou do que
ela tinha dito sobre Tuktuk, o que transformou seus pensamentos de horripilantes para
meramente improváveis.
"Você o quê?"
Zada sorriu de novo, mostrando fileiras de dentes pontiagudos.
"Eu. Comi. Ele".
"Eu achei que você tinha dito que ele era feito de pedras", disse Jace.
"Sim", disse Zada. "Você não sabe muito sobre goblins, não é?"
"Eu realmente não sei", disse Jace. "Por que você... comeu ele?"
"Quando encontramos edros e outras pedras mágicas, nós moemos e comemos", disse
Zada. "Nos tornam mais fortes. Tuktuk nos disse para fazer isso. Mas então eu percebi:
Tuktuk era a pedra mais mágica de todas..."
Ela deu de ombros e acariciou sua barriga.
"Isso... estranhamente faz sentido, eu acho."
"Obrigada!" disse Zada.
"Ah... De qualquer maneira", disse Jace, "o que eu realmente estou procurando é o Olho
de Ugin. Eu estive lá antes, mas tudo parece ter mudado."
"Para quê?" disse Zada.
"Para parar os Eldrazi", disse Jace. "Eu preciso aprender mais sobre a rede de edros e o
Olho de Ugin é seu centro."
"Era", disse Zada. "Uma bagunça desordenada não tem um centro."
Ela suspirou.
"Mas acho que vou lhe mostrar o caminho, se você acha que é importante", disse ela,
apontando para ele seguir. "Não sei por que toda essa confusão, apesar de tudo. Nós
estamos nos virando bem aqui em cima...”

Parte 2

Foram algumas horas de caminhada difícil até o Olho. Zada escolheu um caminho sinuoso
através das espirais de Akoum. Duas vezes eles tiveram que dar meia volta para evitar
Eldrazi e até mesmo Zada parecia um pouco perdida na paisagem tumultuada. O tempo
todo ela tagarelava sobre a natureza da edros. Jace não tinha percebido que eles
realmente armazenavam energia ou que a sua energia poderia ser dirigida contra os
Eldrazi, então, pelo menos, ele estava aprendendo algo.
Finalmente, Zada apontou para a entrada de uma caverna e se despediu.
"Você não vem junto?" disse Jace.
“Não", respondeu Zada. "Ninguém vai lá. Magia ruim. Morte certa. Boa sorte!"
Ela saltou por cima das rochas e Jace se virou para a entrada sinistra e angular de uma
caverna que certamente não era de pedra natural.
Ele desceu com cuidado, abrindo caminho entre enormes edros caídos. O lugar era
silencioso, sem vida, sem o poder que o inundava em sua última visita. Sua luz ilusória
jogou sombras estranhas através do espaço vasto e arruinado. Se o Olho estava morto, se
todo poder que o dava vida tinha se acabado, ele não descobriria nada ali, no final das
contas.
Uma luz azul e fria brilhou à frente – seus olhos estariam brincando com ele? Ele apagou
sua luz. Sim. Um brilho. Isso significava – o quê? Alguma vida remanesceu no Olho,
afinal? Ou alguém mais estava aqui?
Ele andou com cuidado agora, com apenas o necessário de luz, pelo caminho de lascas
irregulares de edros. Enquanto caminhava, as pedras ao seu redor tornaram-se mais
organizadas – suas superfícies e runas reparadas, seus alinhamentos corrigidos.
"Bem-vindo de volta", disse uma voz. Ela era suave e poderosa, parecendo um trovão
vindo das pedras ao redor dele. "Eu espero que você não tenha vindo sozinho. Meus
preparativos estão quase completos."
Uma forma se desdobrou das sombras da caverna enorme. Chifres brilharam, asas
desdobraram e um enorme dragão deslizou rapidamente na direção dele. Jace deu um
passo para trás, coração disparado... Bolas?
Não. Não era Bolas. Este dragão emitia a luz suave que Jace vira antes.
A enorme forma de dragão pairou na frente dele com as asas estendidas.
"Hmm", disse o dragão, franzindo a testa. "Você não é quem eu estava esperando."
"Eu poderia dizer o mesmo", disse Jace. "Quem é você?"
O dragão olhou para ele.
"Você sabe o nome deste lugar?"
"Sei", disse Jace. "Mas eu não vou deixar você dizer ser quem eu penso que você é. Qual
é o seu nome?"
O dragão sorriu, mantendo os dentes escondidos.
"Justo", disse o dragão. "Meu nome é Ugin. Eu ajudei a construir este lugar, há muito
tempo."
Jace tinha assumido que Ugin estava morto há muito tempo, isso se ele fosse de fato uma
pessoa. No entanto, ali estava ele, em carne e luz. Jace tentou ler a mente do grande ser
para verificar a sua história, mas ela era tão era tão impenetrável e deslumbrante como
uma parede de cristal.
"Meu nome é Jace Beleren. Estou aqui para aprender sobre a rede de edros. Eu não
imaginava que eu iria encontrar um dos seus construtores."
"Você já esteve aqui antes", disse Ugin. Isso, infelizmente, não era uma pergunta.
“Ah", disse Jace. "Sim. Uma vez. Isso... não deu muito certo...”
"Você libertou os Eldrazi", disse Ugin.
"Eu...", disse Jace. "Sim. Havia três de nós. Nós lutamos. A câmara...”
"Eu sei", disse Ugin. "Você, uma priomante e um mago dragão. Todos Planinautas. Vocês
abriram o Olho."
Como ele sabia disso?
"Não foi nossa culpa", disse Jace. "Nós estávamos sendo..."
"Manipulados, sim", disse Ugin. "Por outro dragão Planinauta, um rival meu..."
"Ah, não."
"...Nicol Bolas. Você o conhece?"
"Nos conhecemos, sim", disse Jace. "E esta não seria a primeira vez que ele me
manipulou."
"É da natureza dele", disse Ugin.
"Por quê?" Jace disse. "Por que ele iria querer libertar os Eldrazi?"
"Essa", disse Ugin, “é uma excelente pergunta, uma que eu irei dedicar recursos
consideráveis para responder. No momento, porém, temos de fazer, com toda a
probabilidade, exatamente o que Bolas quer que façamos, e isso é nos concentrar nos
Eldrazi.”
"É melhor nos apressarmos", disse Jace. "Um dos titãs Eldrazi está se dirigindo para
Portão Marinho agora."
"Portão Marinho?" disse Ugin.
Jace congelou.
O poderoso Ugin, criador do Olho... Não conhecia a maior cidade de Zendikar?
"Por quanto tempo você esteve fora?" disse Jace.
"Eras", disse Ugin, com um tom que sugeria o significado literal da palavra. "Estive
impossibilitado. Portão Marinho?"
"Um centro de civilização e de aprendizagem na costa de Tazeem. Eles tinham estudos a
respeito dos edros, mas foi tudo perdido para os Eldrazi. Agora Ulamog está indo devorar
os sobreviventes que se reuniram lá."
"Não presuma", disse Ugin, "que você sabe alguma coisa das mentes dos Eldrazi. Ulamog
vai aonde tem que ir e faz o que tem de fazer.”
"Mas eles são atraídos para as concentrações de vida, não são? Há uma lógica em seus
movimentos, não há?"
"Eles são atraídos e há certa lógica", disse Ugin. "Se sobreviventes se reuniram neste
Portão Marinho, então Ulamog poderia estar indo atrás deles."
"Nós temos que pará-lo", disse Jace. "Incapacitá-lo, matá-lo – o que for preciso."
"Não se pode matar Ulamog", disse Ugin.
"Pará-lo, então. Não importa como, só precisamos fazê-lo agora. As pessoas estão
morrendo. Temos que fazer alguma coisa e, graças a seus edros, nós temos todas as
linhas de força do plano à nossa disposição. O que você sugere?"
Jace começou a reunir mana, uma sensação como uma corrida de conhecimento e uma
corrente fria tomou conta dele.
"Eu tenho aliados, antigos e poderosos", disse Ugin. "Os dois que me ajudaram a prender
os Eldrazi neste mundo há milhares de anos... Eles podem ajudar. Você começou a
entender o verdadeiro propósito dos edros. Os Eldrazi podem ser aprisionados."
“E como é que isso acabou da última vez?”
O dragão se deslocou. Ergueu-se. Ele também sentiu aquilo, aquela sensação persistente
que eles, talvez, poderiam não estar do mesmo lado afinal.
“Perfeitamente bem", disse Ugin. "Até que você e seus companheiros os libertaram.”
“Me desculpe", disse Jace, "mas se levarmos em consideração que três pessoas que não
sabiam praticamente nada sobre isso foram capazes de sobrepujar suas medidas de
segurança, por acidente..."
"Não foi um acidente", disse Ugin. "Foi cuidadosamente orquestrado. Não cometa o erro
de pensar que seus planos são os únicos que importam."
"Será que você não cometeu o mesmo erro? Você pensou que ninguém iria querer os
Eldrazi livres da sua prisão. Mas Bolas queria. E se ele quer eles livres, ele pode
orquestrar isso novamente."
"Você ainda está fazendo suposições", disse Ugin. "O que quer que Bolas queira, é
perfeitamente possível que ele já tenha conseguido. E como você diz, as pessoas estão
morrendo. Seríamos tolos para perseguir o impossível simplesmente porque você acredita
que o alcançável é falho."
"Impossível é uma palavra tola, vinda de você", retrucou Jace. "Você sabe muito mais
sobre os edros do que eu, mas tudo o que você fala é sobre o que não podemos fazer.
Você deve ter uma ideia melhor. Certo? Eu estou ouvindo!"
Uma onda de mana, um feitiço do grande dragão – mas não um ataque. Uma ilusão. Uma
rede de nós espalhados e linhas suavemente curvas desenhadas em luz branca brilhante.
Jace deixou o feitiço entrar em sua mente.
"A rede de edros", disse Ugin, "como era."

REVELAÇÃO NO OLHO
Parte 3

A voz do dragão foi amplificada, ecoando de dentro de cada uma das pedras angulares
que compunham as paredes da câmara. O diagrama cresceu e cresceu, um anel no centro
brilhando intensamente – o Olho de Ugin. Jace tentou decifrá-lo, mas era demais – muito
vasto, muito complicado, um nó que ele não poderia desembaraçar em cem vidas. Um nó
que Ugin havia criado.
Então, tudo mudou. Os nós saíram do lugar, alguns desapareceram. As curvas das linhas
de força – certamente, elas eram linhas de força – começaram a mudar. Dentro de poucos
segundos, a rede ficou desordenada, caótica.
“A Litomante que fez esses edros se foi há muito tempo", disse Ugin. Mais ilusões surgiam
em torno do dragão, múltiplas imagens de uma mulher kor com um largo sorriso e olhos
ferozes. Então, ela desapareceu. "Se foi, ou desapareceu. Sem ela, os edros deterioraram-
se. Então... vocês chegaram. Os Eldrazi foram despertados, suas ninhadas lançadas
sobre Zendikar. Mas minhas medidas de emergência permaneceram ativas. Os Eldrazi
ainda não estavam livres."
Mais mudanças. Ordem. A rede se reconfigurou. Nós se reorganizaram de volta em curvas
e em linhas. O que tinha sido uma rede flexível e suave tornava-se algo rígido e forte. Jace
permaneceu paralisado em seu lugar, incapaz de se afastar da visão abstrata de um
pesadelo.
"A rede tentou conter os Eldrazi, assim como ela foi projetada para fazer", disse Ugin.
"Sem maiores interferências, ela poderia ter sido eficaz. Então, alguém – ou foi você
também? – desarmou a última trava de segurança e desmantelou a última medida
emergencial da rede."
O diagrama fraturou-se. Os nós espalharam-se. As linhas se descontrolaram. O olho no
centro apagou-se, de modo que Jace podia ver o próprio Ugin através dele.
"A rede de edros tal como está", disse Ugin. "Isso é com o que temos de trabalhar,
Beleren. Se três Planinautas no auge do nosso poder não puderam matar os titãs Eldrazi
com os edros em pleno funcionamento, o que te faz pensar que você e eu podemos fazê-
lo com este triste remanescente de uma rede?”
Jace rangeu os dentes. Já era o bastante. O bastante.
"Você está falando em abstrações", ele disse.
Ele disparou uma contra mágica rasgando através da ilusão de Ugin e conjurou algumas
de suas próprias imagens. Portão Marinho no auge, quando Jace tinha visitado logo após
a ascensão dos Eldrazi. O acampamento dos sobreviventes em que ele tinha estado
semanas atrás onde os mesmos estudiosos, agora menores em número e em esperança,
reuniam-se em torno de fogueiras. Gideon, em pé, inspirando as pessoas. Nissa em
comunhão com a terra.
"Zendikar não é um enigma a ser resolvido", disse Jace. "É um lugar. É o lar de muitos. E
essas pessoas estão lá fora, agora, lutando por seu mundo e perguntando se alguém vai
ajudá-los a matar o que os está matando."
Ele mostrou cenas de sofrimento, então – de famílias de luto por suas perdas, de
paisagens devastadas por Ulamog, até mesmo dos céus e mares repletos da ameaça
Eldrazi.
Ugin inclinou a cabeça. A arquitetura de edros da câmara pareceu derreter e fluir, tornou-
se um padrão pavimentado de dragões zombando de Jace das paredes.
"Tão seguro", disse Ugin, “e tão jovem.”
O diagrama surgiu novamente, apagando as imagens de Jace. Em seguida, ele mudou
mais uma vez – restaurado, tanto quanto seu estado atual permitia. Tinha menos nós,
curvas mais acentuadas. Um padrão. Um glifo – circular, com três pontos a intervalos
iguais em torno da circunferência. Ele nunca tinha visto o glifo antes, mas imediatamente
ele entendeu o que via. Linhas de força. Se as linhas de força de Zendikar pudessem ser
reorganizadas desta forma...
"Os Eldrazi poderiam ser aprisionados", disse Ugin. "Você fala de matá-los como se
fossem moscas. Você não deve – e você não pode.”
"Não me fale sobre o que não poder ser feito", disse Jace. "Fale sobre o que será e o que
não será feito. Matá-los, prendê-los... é irrelevante. Tudo isso. Eu vim aqui para detê-los.
Assim como você. Certo?"
As ilusões de Jace fluíram e mudaram sem seu desejo, tornaram-se envolvidas pela vasta
abstração da rede de edros.
"O seu conhecimento sobre os edros", disse Jace. "Meu conhecimento sobre Zendikar. De
um lugar chamado Portão Marinho. Das pessoas daqui e por que vale a pena salvá-las."
"Não me diga sobre o que vale a pena salvar", disse Ugin, sua voz crescendo. "Há mais do
que este mundo em jogo – certamente mais do que as pessoas que estão vivas aqui
nesse momento. Você vem até mim e fala da ameaça de Ulamog, mas não se esqueça:
Eles vieram em três. Com os Eldrazi livres, todo o Multiverso está em risco. Isso é o que
eu estou aqui para salvar, Beleren. O Multiverso, em toda a sua vastidão de tempo e
espaço. Não as pessoas com quem você compartilhou uma fogueira."
Dragão e diagrama tornaram-se um, luminoso e iminente. Linhas e nós, asas e chifres, as
formas de edros, e no centro uma incandescência, o Olho brilhando. Jace vacilou sob o
seu olhar.
"Diga-me o que fazer, Ugin. Diga-me como ajudar."
O Olho pulsava. A consciência de Jace começou a apagar.
Em seguida, tudo sumiu. As ilusões de Ugin, de Jace, tudo. Somente a câmara e o dragão
permaneceram.
“Você realmente quer ajudar?”
“Foi por isso que eu vim aqui", disse Jace. "Eu tive uma parte na liberação dos Eldrazi. Se
eu puder pará-los, eu o farei."
"Eu disse antes que você não era quem eu estava esperando", disse Ugin. "Meus aliados,
os dois que me ajudaram a prender os Eldrazi milhares de anos atrás... Não estão aqui.
Uma está desaparecida. Eu mandei o outro atrás dela. Não tive mais notícias dos dois.
Eles são necessários aqui, urgentemente. Você já ouviu falar do Planinauta chamado
Sorin Markov?"
"Não", disse Jace. "Eu deveria?"
"Apenas por causa da ligação dele com este lugar", disse Ugin. "Ele é meu antigo aliado,
senhor auto proclamado de seu plano natal de Innistrad."
Um dos lugares favoritos de Liliana, embora Jace nunca tivesse estado lá.
"De lá eu já ouvi falar", disse Jace. "Pode-se dizer que tenho uma aliada lá."
Você estaria se enganando, ele pensou, mas até pode-se dizer isso.

REVELAÇÃO NO OLHO
Parte 3

A voz do dragão foi amplificada, ecoando de dentro de cada uma das pedras angulares
que compunham as paredes da câmara. O diagrama cresceu e cresceu, um anel no centro
brilhando intensamente – o Olho de Ugin. Jace tentou decifrá-lo, mas era demais – muito
vasto, muito complicado, um nó que ele não poderia desembaraçar em cem vidas. Um nó
que Ugin havia criado.
Então, tudo mudou. Os nós saíram do lugar, alguns desapareceram. As curvas das linhas
de força – certamente, elas eram linhas de força – começaram a mudar. Dentro de poucos
segundos, a rede ficou desordenada, caótica.
“A Litomante que fez esses edros se foi há muito tempo", disse Ugin. Mais ilusões surgiam
em torno do dragão, múltiplas imagens de uma mulher kor com um largo sorriso e olhos
ferozes. Então, ela desapareceu. "Se foi, ou desapareceu. Sem ela, os edros deterioraram-
se. Então... vocês chegaram. Os Eldrazi foram despertados, suas ninhadas lançadas
sobre Zendikar. Mas minhas medidas de emergência permaneceram ativas. Os Eldrazi
ainda não estavam livres."
Mais mudanças. Ordem. A rede se reconfigurou. Nós se reorganizaram de volta em curvas
e em linhas. O que tinha sido uma rede flexível e suave tornava-se algo rígido e forte. Jace
permaneceu paralisado em seu lugar, incapaz de se afastar da visão abstrata de um
pesadelo.
"A rede tentou conter os Eldrazi, assim como ela foi projetada para fazer", disse Ugin.
"Sem maiores interferências, ela poderia ter sido eficaz. Então, alguém – ou foi você
também? – desarmou a última trava de segurança e desmantelou a última medida
emergencial da rede."
O diagrama fraturou-se. Os nós espalharam-se. As linhas se descontrolaram. O olho no
centro apagou-se, de modo que Jace podia ver o próprio Ugin através dele.
"A rede de edros tal como está", disse Ugin. "Isso é com o que temos de trabalhar,
Beleren. Se três Planinautas no auge do nosso poder não puderam matar os titãs Eldrazi
com os edros em pleno funcionamento, o que te faz pensar que você e eu podemos fazê-
lo com este triste remanescente de uma rede?”
Jace rangeu os dentes. Já era o bastante. O bastante.
"Você está falando em abstrações", ele disse.
Ele disparou uma contra mágica rasgando através da ilusão de Ugin e conjurou algumas
de suas próprias imagens. Portão Marinho no auge, quando Jace tinha visitado logo após
a ascensão dos Eldrazi. O acampamento dos sobreviventes em que ele tinha estado
semanas atrás onde os mesmos estudiosos, agora menores em número e em esperança,
reuniam-se em torno de fogueiras. Gideon, em pé, inspirando as pessoas. Nissa em
comunhão com a terra.
"Zendikar não é um enigma a ser resolvido", disse Jace. "É um lugar. É o lar de muitos. E
essas pessoas estão lá fora, agora, lutando por seu mundo e perguntando se alguém vai
ajudá-los a matar o que os está matando."
Ele mostrou cenas de sofrimento, então – de famílias de luto por suas perdas, de
paisagens devastadas por Ulamog, até mesmo dos céus e mares repletos da ameaça
Eldrazi.
Ugin inclinou a cabeça. A arquitetura de edros da câmara pareceu derreter e fluir, tornou-
se um padrão pavimentado de dragões zombando de Jace das paredes.
"Tão seguro", disse Ugin, “e tão jovem.”
O diagrama surgiu novamente, apagando as imagens de Jace. Em seguida, ele mudou
mais uma vez – restaurado, tanto quanto seu estado atual permitia. Tinha menos nós,
curvas mais acentuadas. Um padrão. Um glifo – circular, com três pontos a intervalos
iguais em torno da circunferência. Ele nunca tinha visto o glifo antes, mas imediatamente
ele entendeu o que via. Linhas de força. Se as linhas de força de Zendikar pudessem ser
reorganizadas desta forma...
"Os Eldrazi poderiam ser aprisionados", disse Ugin. "Você fala de matá-los como se
fossem moscas. Você não deve – e você não pode.”
"Não me fale sobre o que não poder ser feito", disse Jace. "Fale sobre o que será e o que
não será feito. Matá-los, prendê-los... é irrelevante. Tudo isso. Eu vim aqui para detê-los.
Assim como você. Certo?"
As ilusões de Jace fluíram e mudaram sem seu desejo, tornaram-se envolvidas pela vasta
abstração da rede de edros.
"O seu conhecimento sobre os edros", disse Jace. "Meu conhecimento sobre Zendikar. De
um lugar chamado Portão Marinho. Das pessoas daqui e por que vale a pena salvá-las."
"Não me diga sobre o que vale a pena salvar", disse Ugin, sua voz crescendo. "Há mais do
que este mundo em jogo – certamente mais do que as pessoas que estão vivas aqui
nesse momento. Você vem até mim e fala da ameaça de Ulamog, mas não se esqueça:
Eles vieram em três. Com os Eldrazi livres, todo o Multiverso está em risco. Isso é o que
eu estou aqui para salvar, Beleren. O Multiverso, em toda a sua vastidão de tempo e
espaço. Não as pessoas com quem você compartilhou uma fogueira."
Dragão e diagrama tornaram-se um, luminoso e iminente. Linhas e nós, asas e chifres, as
formas de edros, e no centro uma incandescência, o Olho brilhando. Jace vacilou sob o
seu olhar.
"Diga-me o que fazer, Ugin. Diga-me como ajudar."
O Olho pulsava. A consciência de Jace começou a apagar.
Em seguida, tudo sumiu. As ilusões de Ugin, de Jace, tudo. Somente a câmara e o dragão
permaneceram.
“Você realmente quer ajudar?”
“Foi por isso que eu vim aqui", disse Jace. "Eu tive uma parte na liberação dos Eldrazi. Se
eu puder pará-los, eu o farei."
"Eu disse antes que você não era quem eu estava esperando", disse Ugin. "Meus aliados,
os dois que me ajudaram a prender os Eldrazi milhares de anos atrás... Não estão aqui.
Uma está desaparecida. Eu mandei o outro atrás dela. Não tive mais notícias dos dois.
Eles são necessários aqui, urgentemente. Você já ouviu falar do Planinauta chamado
Sorin Markov?"
"Não", disse Jace. "Eu deveria?"
"Apenas por causa da ligação dele com este lugar", disse Ugin. "Ele é meu antigo aliado,
senhor auto proclamado de seu plano natal de Innistrad."
Um dos lugares favoritos de Liliana, embora Jace nunca tivesse estado lá.
"De lá eu já ouvi falar", disse Jace. "Pode-se dizer que tenho uma aliada lá."
Você estaria se enganando, ele pensou, mas até pode-se dizer isso.

Parte 4 (Final)

"Bom", disse Ugin. "Sorin é fundamental para os nossos esforços. Se você quiser ajudar,
então procure-o, traga-o aqui, mas... Não confie nele."
"O que quer dizer?”
“Quero dizer”, disse Ugin, “que embora ele fale de um bem maior, ele é uma criatura
egoísta. Ele lutou contra os Eldrazi não por compaixão por Zendikar, mas por um grande
instinto egoísta de auto preservação. Se assuntos mais urgentes tomaram sua atenção,
suas prioridades podem não se alinhar com as nossas.”
Jace não tinha certeza se era a longevidade ou o poder, mas ele percebeu que
Planinautas antigos tinham algo em comum: Todos eles eram completamente loucos.
"E quanto ao seu outro aliado?" Jace disse.
"Nahiri, chamada de a Litomante", disse Ugin. "Uma kor de Zendikar, e sua guardiã. Eu
não sei por que ela iria deixar este mundo e eu não posso imaginar porque ela iria ficar
longe se ela pudesse voltar. Algo aconteceu com ela. Se você não conseguir encontrar
Sorin, encontre-a.”
"Eu não vou abandonar Zendikar", disse Jace. "Eu tenho amigos aqui." Amigos. Sim.
Pessoas próximas o suficiente. "Eles estão confiando em mim para voltar com informações
sobre a rede de edros. A menos que você queira ir para Portão Marinho e dizer-lhes você
mesmo?"
"Não", disse Ugin. "Eu sou necessário aqui, no Olho. Eu devo reconstruir a câmara central
para que meus companheiros possam restaurar a rede à sua função plena e aprisionar os
Eldrazi mais uma vez."
"Então, infelizmente, seus aliados terão de se virar sozinhos", disse Jace. "O que posso
fazer aqui?"
"A rede edros está danificada", disse Ugin. "Vou precisar de Ulamog encurralado. Contido,
dentro de um círculo de edros. Será que esses seus amigos podem ajudar a prender um
titã Eldrazi, ao invés de tentar matá-lo?"
"Eu acho que sim", disse Jace, embora, na verdade, ele estivesse longe de ter certeza.
"Mas só se eu puder convencê-los de que é a única opção. Eles viram muitos Eldrazi
morrerem. E você ainda não me disse por que não podemos matar Ulamog."
"Os titãs Eldrazi não residem no espaço físico", disse Ugin. "Eles são criaturas das
Eternidades Cegas e é nas Eternidades que eles estão de verdade."
"Até que eles se manifestem fisicamente, você quer dizer?"
"Não", disse Ugin. "Eu quis dizer o que eu disse. Ulamog permanece nas Eternidades."
"Então o que eu vi indo em direção ao Portão Marinho?"
"Você viu uma parte dele", disse Ugin. "Uma projeção. Imagine estender sua mão adentro
de uma lagoa. O peixe abaixo da superfície vê um monstro de cinco cabeças, e não pode
perceber o homem ligado a ele. Ele confunde unhas por olhos porque a verdade está além
de sua compreensão. Entende?"
"E quando você os prendeu..."
"Foi como prender a mão com um prego", disse Ugin. "O homem não vai morrer, mas não
poderá se deslocar para outras lagoas. 'Matar' essa forma física de Ulamog seria como
cortar a mão. O homem ficaria ferido, mas ele iria sobreviver – e ele seria libertado."
"Mas os edros não apenas canalizam as linhas de força", disse Jace, pensando rápido.
"Eles armazenam energia. Vastas quantidades de energia. Foi assim que eles atraíram os
Eldrazi no começo, não foi?"
Foi um palpite, mas parecia ser razoável.
"Correto", disse Ugin. "Sua opinião?"
A mente de Jace fervilhava.
Se os edros poderiam atrair, então eles não poderiam puxar com mais força? Com poder
suficiente, não poderiam ser usados para trazer completamente os Eldrazi para o mundo
físico? Se você tem um prego atravessado na mão de um homem, você poderia fazer
muito mais do que segurá-lo. Você poderia puxá-lo para a lagoa. E depois...
“Eu... Não, não importa", disse Jace. "Desculpe. Ainda esteou tentando entender tudo
isso.”
O dragão tinha deixado clara sua posição sobre matar Ulamog e Jace realmente não tinha
certeza de que era uma boa ideia. Ele entendia os edros agora. Ele tinha visto o glifo. Se
Ugin iria ajudá-los a aprisionar os Eldrazi, então era, no mínimo, um bom primeiro passo. E
se surgisse a oportunidade de fazer mais... Ele estaria pronto. E Ugin poderia não estar.
"É claro", disse Ugin. "Considerando a sua inexperiência, você está se saindo melhor do
que eu esperava.”
A intenção foi de um elogio. Jace decidiu levá-lo como tal.
"Essa... Metáfora da mão", disse Jace. "Ele está descrevendo os três titãs. E quanto a
todos os outros? Será que matá-los os liberta também? Há milhares de Eldrazi soltos nas
Eternidades agora?”
“Suponha que o homem estique a outra mão sobre a lagoa", disse Ugin. "Será que o peixe
vê um monstro ou dois?"
A paciência de Jace para este método de transmitir informação era mínima, mas ele tentou
dar respostas às perguntas do dragão, por consideração.
"O peixe vê dois seres", disse ele, depois de um momento. "Mas eles são parte de um
todo."
"Suponha que o homem tem uma centena de mãos", disse Ugin. "Ou um milhão.”
Jace entendeu. Uma onda de náusea tomou conta dele.
"Você está dizendo que eles estão conectados. A ninhada de Ulamog não são realmente
seres independentes. Eles são... apêndices..."
"Mais como células", disse Ugin. "Órgãos, no caso de alguns dos maiores. Mas todos eles
são substituíveis – sub vidas que se tornam seres, cumprem uma função, morrem ou são
reabsorvidos, sem diminuir o todo."
"Então matá-los não faz nada, a não ser impedi-los de nos matar."
"Em última análise, não", disse Ugin.
Jace passou a mão pelo cabelo.
"Tudo bem", disse ele. "Isso é informação suficiente. Vou apresentar o seu plano para
meus amigos em Portão Marinho. Vou tentar convencê-los de que o aprisionamento de
Ulamog é o caminho certo a seguir."
"Você deve fazer mais do que tentar", disse Ugin. "Com a rede de edros danificada e as
medidas de segurança removidas, os titãs estão livres para deixar o plano. Se Ulamog
fosse ferido, você poderia levá-lo para longe de Zendikar inteiramente. Longe da rede de
edros, e de nossa melhor chance de pará-lo. Você compreende por que isso seria um
desastre. Mas pode não parecer assim para o povo de Zendikar. Você deve dissuadir os
seus amigos de atacar diretamente Ulamog – e, se necessário, você deve detê-los.”
"Entendido", disse Jace. "Eu vou dizer a eles."
"Não os deixe conduzir Ulamog para longe de Zendikar", disse Ugin. "As consequências
seriam graves e isso justifica todas as medidas necessárias para impedi-lo."
"Você se fez claro", disse Jace. "Eu não vou deixar Ulamog fugir."
De uma forma ou de outra, ele pensou.
"Boa sorte, Jace Beleren. Eu vou garantir que meus preparativos estejam completos."
"Eu vou estar pronto", disse Jace.
Jace virou-se, saiu do Olho de Ugin e saiu para a luz do dia. Ele tinha um plano. Ele tinha
um destino. Ele estava pronto.
De uma forma ou de outra.

Parte 1

Noyan Dar era uma vez um mago da calmaria, uma tradição especializada de feiticeiros
que aprenderam, através de prática dolorosa, a acalmar a fúria de Zendikar. O problema
era o Turbilhão, as imprevisíveis condições meteorológicas mágicas que podiam causar
desde rajadas de ventos até pedaços de terra arrancados e vegetação espontânea.
Exploradores que sabiam o queestavam fazendo sempre levavam pelo menos um mago
da calmaria em suas expedições, para que não se encontrassem à mercê dos elementos.
Mas os tempos mudaram. Os Eldrazi surgiram. Gideon Jura está buscando aliados para
lutar contra os Eldrazi em Portão Marinho. E o Turbilhão, uma vez o perigo mais mortal de
Zendikar, pode agora tornar-se uma arma crucial na sua salvação.
_
"Equilíbrio é morte!" As vozes dos iniciados soavam claramente, embora não de forma
bela, no ar úmido. Eles haviam aprendido a gritar a ladainha, até mesmo guinchar,
independentemente do que o som resultante fazia aos ouvidos de Noyan Dar. Dissonância
não era para ser ignorada, mas bem-vinda.
"Calma é morte!" O cantor executou uma dança estranha enquanto ela liderava o grupo
através da ladainha. Ondas de terra se moveram sob seus pés em uma forma desconexa,
mas ainda com impulso suficiente para gerar um ou outro tropeço. Quando ela tropeçava,
ela emitia uma entonação aguda em qualquer palavra que escapava de seus lábios,
independentemente do tom, ritmo, ou bom senso. Ouvindo um grito esganiçado de
"mooooorte!" não era uma maneira agradável de passar a manhã.
E isso era, infelizmente, exatamente o objetivo.
Todo o arranjo era desagradável. Noyan imaginava que tipo de ambiente um típico mago-
estudioso tritão brilhante – que amava o oceano e o momento perfeito para se dar uma
resposta inteligente – criaria para si. Seria claramente o exato oposto deste retiro em Elmo
de Coral, que estava a quilômetros de distância de ser sagaz, rodeado por lunáticos ou
incompetentes e muitas vezes ambos.
O fato de que ele era o responsável por criar o retiro só lhe dava um breve prazer irônico.
Na maior parte do tempo, o deixava muito irritado.
O que era, nova e infelizmente, exatamente o objetivo.
"A paz é morte!" Noyan Dar ressentia muitas coisas sobre o despertar dos Eldrazi. Ele
tinha perdido sua casa, sua tranquilidade e a capacidade de lutar contra adversários que
ele pudesse visivelmente irritar. Mas o que ele ressentia mais eram as quase infinitas
vezes que ouvira este maldito cântico. Que ele havia escrito a ladainha não lhe dava
prazer, nem mesmo ironicamente. Era um cântico deliberadamente pobre e arrítmico e
aparentemente ele estava condenado a ouvi-lo repetidamente pelo resto de sua vida.
Ou apenas até que os Eldrazi viessem e rasgassem suas entranhas ou arrancassem seu
cérebro ou transmutassem-no em pó. Era importante ter coisas para se esperar do futuro.
Pelo menos Noyan já não tinha que liderar os iniciados em seus rituais. Outros iniciados
que se distinguiam por serem um pouco menos incompetentes do que o resto tinham
tomado os rituais como sua salvação pessoal. Dominar de verdade como usar o Turbilhão
sem matar a si mesmo ou aqueles ao seu redor era muito difícil, mas massacrar a rima e
os ouvidos de Noyan Dar era trivialmente fácil.
O líder do cântico engasgou através da seguinte frase, dando a todos uma versão
dolorosa de "O mundo se eleva!" Os outros iniciados obedientemente se esforçaram para
fazer jus ao seu tom de voz tenso, muitos deles adicionando sua própria atonalidade à
mistura, criando o que Noyan pensava ser a definição literal de cacofonia.
Era tudo para o bem maior e, como a maioria dos sacrifícios para o bem maior, era
apreciado por ninguém.
As próximas palavras da ladainha rodaram em sua cabeça. "Ele treme. Ele luta!", mas ele
percebeu que não havia sons correspondentes vindos da realidade. Ele olhou para cima
para ver o cantor e os iniciados todos olhando em direção ao céu atrás dele para o sul.
Noyan se virou e viu um kor aerovelista transportando um passageiro em um arnês.
Faltavam poucos minutos para pousarem, mas eles estavam vindo da direção errada.
O retiro em Elmo de Coral era de difícil acesso. Protegido por um grande desfiladeiro em
todos os lados, a massa de terra flutuante era presa com cordas nas bordas das falésias.
Era possível para um kor atravessador de penhascos hábil escalar pelas cordas, mas a
maioria das pessoas que vinham para o retiro voavam até lá. Mas só do norte. Mesmo
sem o Turbilhão, os ventos nos cânions eram imprevisíveis e perigosos. Com o Turbilhão,
e especialmente com dezenas de magos do Turbilhão – a maioria deles não
particularmente qualificados – os ventos poderiam ser muito previsivelmente perigosos.
Especialmente vindo do sul, razão pela qual todas as idas e vindas para o retiro flutuante
vinham do outro lado. O aerovelista tolo iria se tornar um só com a terra muito íntima e
muito mortalmente.
Noyan correu para frente, com os braços balançando, uma sensação desagradável em
seus pulmões. O aerovelista não podia ouvi-lo e estava fazendo sua preparação para
pousar quando uma corrente de ar feroz levou ele e seu passageiro quinze metros para
cima e para os lados com tanta força que o arnês em anexo foi arrancado e o passageiro
caiu em direção ao chão centenas de metros abaixo.
Noyan só podia assistir em horror e então perplexidade quando o homem caiu. Ao
contrário de Noyan Dar, o homem não estava se debatendo ou gritando ou sequer parecia
perturbado. Ele caiu com graça, se tal coisa fosse possível, embora ele estivesse
claramente caindo para a morte certa. Noyan continuou a correr para frente e começou a
lançar um feitiço para amortecer a queda do homem – embora soubesse que, naquela
velocidade, o amortecimento só iria deixar o corpo um pouco menos desagradável.
Houve vários flashes de luz dourada e corpo do homem brilhou. Pouco antes de atingir o
chão, Noyan viu algum tipo de onda cintilante surgir debaixo dele e ele bateu com um
impacto que Noyan sentiu em suas próprias pernas e o fez cair no chão.
Enquanto Noyan estava ali jogado no chão gemendo ao verificar se ele não tinha
quebrado nada, ele inclinou a cabeça para cima, esperando ver alguma forma de
panqueca horrivelmente ensanguentada. Em vez disso, ele viu um homem alto, de pé,
com o sol brilhando em sua armadura, sem um pingo de sangue, osso quebrado, ou
mesmo uma contusão sequer em vista.
Noyan lentamente se levantou, ainda se perguntando como o homem sobrevivera. Atrás
deles, o aerovelista kor conseguiu pousar com segurança e foi correndo em direção aos
dois, presumivelmente para verificar a saúde de seu passageiro. O homem olhou para ele
de perto e disse: "Eu sou Gideon Jura. Eu estou procurando o mago do turbilhão, Noyan
Dar. Você tem um pouco de sangue em seu nariz. Você está bem?" O olhar de
preocupação foi tão genuíno que Noyan queria gritar.
Ele gritou, só um pouco. Foi a melhor sensação que ele sentira durante toda a manhã.

Parte 2

"O mundo destrói ou o mundo morre!" Os iniciados haviam retomado sua alegre ladainha e
Gideon Jura levantou uma sobrancelha.
"Me disseram que você era o chefe de uma elite força de elementalistas." A cabeça de
Gideon girou, olhando brevemente para os mais ou menos vinte iniciados de Noyan
gritando para o ar e agitando os braços em padrões aleatórios no pátio. "Eles estão
praticando no lá dentro...?" Gideon olhou através do pátio para os aposentos vazios atrás.
"Eles são invisíveis. É difícil manter uma força de combate de elite quando qualquer um
pode vê-los." Gideon olhou para Noyan categoricamente. Noyan continuou a se sentir
melhor.
"Encontre sua paz interna! Matem ela! Esmaguem ela!" Muitos dos iniciados faziam
movimentos de corte ou pulos quando eles passavam por esta parte do ritual. Alguns
realmente gostavam de demonstrar o quão bem eles estavam demolindo sua paz interior.
Tanta grama havia sofrido a fim de conquistar a paz interior.
Gideon levantou uma sobrancelha. "Esses são alguns... gritos de guerra bem incomuns.
Há algum lugar mais calmo onde podemos ir?" Um pequeno grupo de iniciados
descoordenados e sem ritmo foram capazes de fazer o que uma queda de sessenta
metros não tinha conseguido – fazer Gideon Jura se sentir desconfortável.
Noyan Dar levantou a mão e a trouxe para baixo com força. A terra retumbou por um
segundo e então se acalmou. Os iniciados se acalmaram também. "Iniciados, pratiquem
seus movimentos. Por favor, sejam... discretos." Os iniciados tinham aprendido
dolorosamente através de erros e mais erros o que significava discrição.
Enquanto caminhavam em direção ao centro da clareira, Noyan notou o equilíbrio do
homem ao lado dele. Ele andava em passos perfeitamente medidos, cada passo
equilibrado e centrado, capaz de se transformar em um agachamento ou salto ou ataque
dependendo de sua vontade. Noyan nunca tinha visto alguém tão totalmente no controle
de seu movimento e de seu corpo.
Gideon Jura daria um terrível mago do Turbilhão.
"Como você sobreviveu à queda?" Noyan via isso como uma façanha notável. Se magos
do Turbilhão conhecessem esse tipo de proteção, haveria mais magos do Turbilhão vivos.
Embora isso significasse que a expectativa de vida dos não-magos do Turbilhãos
diminuiria.
"Eu sou... à prova de danos." Gideon fez uma pausa e olhou para ele, sem dizer nada.
Noyan também não disse nada, esperando que a ausência de palavras encorajaria Gideon
a preencher o vazio. Depois de vários momentos de silêncio, Noyan tentou ajudar.
"Você parece... à prova de explicações." Mais tempo de olhares de Gideon. Ele parecia
adeptos a fazer isso.
"Me disseram que você e suas tropas poderiam controlar a terra, o ar, a água. Precisamos
de sua ajuda em Portão Marinho." Gideon, então, decidiu parar de falar novamente.
Gideon parecia muito mais confortável usando pausas pungentes e olhares para
comunicar-se do que, digamos, palavras de verdade. Noyan pensou que talvez essa fosse
uma língua que valia a pena aprender.
"Primeiro, estamos no meio do treinamento e não pode simplesmente vagabundear para
Portão Marinho. Em segundo lugar, não somos... elementalistas." Ele fez uma pausa para
deixar seu completo desprezo impregnar na palavra e olhou com expectativa para o rosto
de Gideon. Aparentemente, Gideon não entendia a língua tão bem quanto a falava. Depois
de mais alguns segundos de silêncio, Noyan estava descontente. Era chato ficar
deliberadamente em silêncio.
"As pessoas espirram de onde você vem?" Era muito melhor insultar.
Gideon deu-lhe um olhar vazio. "Sabe, atchim" Noyan imitou um espirro humano, com uma
quantidade abundante de muco no final. O olhar de Gideon se comprimiu.
"Sim, eu sei o que é um espirro", Gideon respondeu. Pelo menos não havia pausa
pungente ou olhar no fim.
"O meu povo tem muitas histórias e mitos sobre os três deuses. Um dos favoritos para as
crianças é 'Ula e o Espirro do Oceano’. Cosi convence Ula que há uma poderosa pérola
mágica escondida no coração do oceano. Então Ula procura o coração do oceano para
que ele possa roubar a pérola. Eventualmente, ele encontra o coração e estende a mão lá
dentro, mas quando ele está puxando a pérola para fora, a manga de Ula raspa no interior
do coração e o coração espirra. Ula fica preso em um casulo gigante de ranho sólido
branco até que Cosi vem para libertá-lo." Noyan sorriu.
"Ranho branco." O olhar sem expressões no rosto de Gideon ameaçava tornar-se um
elemento permanente.
"A questão não é o ranho branco, mesmo tão interessante quanto seja, mas sim o espirro."
Nenhuma iluminação pareceu lutar com o olhar fixo do guerreiro. O olhar fixo continua a
ser o vencedor incontestado. Noyan suspirou. Qual era a vantagem de ser mais esperto do
que seu inimigo quando ele não percebia isso? Ele não podia dizer se Gideon ou os
Eldrazi eram piores neste aspecto.
"O Turbilhão", continuou Noyan, "o Turbilhão é o espirro. Os Eldrazi são uma irritação para
o mundo. O Turbilhão se construiu ao longo do tempo como uma defesa natural contra a
presença dos Eldrazi. Antes da chegada dos Eldrazi, aqueles de nós chamados magos da
calmaria passaram anos tentando aperfeiçoar o ofício de acalmar o Turbilhão. Como se
fossemos um curandeiro tentando diminuir uma febre."
"Mas então os Eldrazi voltaram." Noyan ficou grato pela presença de Gideon Jura, mestre
do óbvio, aqui para perpetuar a ilusão de uma conversa.
"Mas então os Eldrazi voltaram. E o Turbilhão voltou com toda força com eles."
"Ser um mago do Turbilhão deve ter sido fácil então."
"Fácil, exceto por dois problemas. Primeiro, intensificar o Turbilhão é fácil, mas intensificá-
lo sem matar a si mesmo ou qualquer um que passe por perto é muito, muito difícil. A
menos que você seja... à prova de danos." Os olhos de Gideon estreitaram, mas Noyan
continuou.
"Em segundo lugar, os magos mais experientes em lidar com o Turbilhão são..."
"Todos os magos da calmaria que passaram anos aprendendo a fazer exatamente o
oposto", Gideon terminou por ele. Noyan sorriu. Uma genuína resposta inteligente! O
mundo estava cheio de surpresas.
"Exatamente. Combater os instintos de pacificar o Turbilhão ao invés vez de aumenta-lo
provou ser um desafio mental que requeria muito treinamento. De fato..." Noyan levantou
os braços em uma forma dramática e bateu as palmas com um som alto como um trovão.
Os magos do Turbilhão em treinamento correram e formaram um grande círculo em torno
de Noyan.
"Llura, inicie a ladainha, por favor, desde o início."

Parte 3

Llura tinha um grande sorriso em seu rosto enquanto ela gemia e se debatia. Os iniciados
obedientemente a seguiam, cada palavra constrangedora criando um buraco no tecido do
bom gosto que nunca poderia ser reparado.

"Equilíbrio é morte!
Calma é morte!
A paz é morte!
O mundo se eleva!
Ele treme!
Ele luta!

O mundo destrói ou o mundo morre!


Encontre sua paz interna!
Matem ela! Esmaguem ela!
Não se torne um com coisa alguma!
Sinta sua solidão! Seu medo! Você está perdido!
Cada passo que você dá cria dissonância e caos!
Você vai lutar! Você vai tremer! Você vai se elevar!
Você deve destruir ou morrer!"

Apesar de cada palavra soar horrível, Noyan não pode deixar de ficar satisfeito. A ladainha
era notavelmente eficaz na criação do estado mental perfeito nos iniciados. Ele olhou para
Gideon e viu as sobrancelhas levantadas, o olhar fico finalmente conquistado por um
silêncio espantado de olhos arregalados.
"Talvez... talvez isso não tenha sido uma boa ideia", resmungou Gideon.
Não foi uma boa ideia? Noyan tinha estado irritado pela maior parte do dia, a maior parte
de todos os dias desde que se tornou um mago do Turbilhão, mas esta foi a primeira vez
que ele tinha estado com raiva. Este imbecil blindado tinha vindo à sua escola e presumido
que ele poderia simplesmente sair dando ordens a ele e seus estudantes e então decidir
que não eram bons o suficiente? Não foi uma boa ideia!
"Uma demonstração prática será realizada", disse Noyan. "Eu insisto."
_
Levou grande parte da manhã para transportar Gideon, Noyan e os iniciados até o
principal continente de Tazeem. Estavam a muitos quilômetros de distância de Portão
Marinho, mas a densidade Eldrazi tinha aumentado significativamente nos últimos meses.
Encontrar grupos errantes deles não era difícil.
Noyan se perguntou por um segundo ocioso se Gideon talvez fosse secretamente um
brilhante gênio tático, elaborando uma fachada de guerreiro idiota e usando o próprio
orgulho de Noyan para manipulá-lo a dedicar os magos do Turbilhão para a sua causa. O
segundo passou e Noyan descartou o pensamento. Em primeiro lugar, Noyan tina talvez a
única mente brilhante o suficiente para conceber um plano desse tipo. Em segundo lugar,
Gideon Jura era um idiota. Nenhum idiota poderia ser tão bom em duplicidade de tal nível.
O plano de Noyan era simples e elegante. Gideon empacou, fazendo muitas perguntas
irritantes sobre contingências que Noyan assegurou-lhe não iriam ser um problema.
Eventualmente Gideon foi contido a se comunicar através de levantamentos das
sobrancelhas. Ele demonstrava uma notável facilidade em levantar suas duas
sobrancelhas, tanto esquerda quanto direita. Ele era um homem de muitos talentos, este
Gideon Jura.
Gideon tinha estado mais preocupado com as consequências de atrair Eldrazi,
considerando o seu próprio número reduzido de pessoal. Ele havia sugerido vários grupos
pequenos, mas Noyan ignorava cada um. Eles precisavam de um grupo grande o
suficiente para fornecer um palco adequado para o desempenho. Em uma planície já
devastada, eles encontraram um grupo isolado com várias centenas de criaturas, prole e
zangões, e algumas criaturas maiores que Noyan chamava de "linhagem direta" do próprio
Ulamog.
Os iniciados estavam nervosos e animados quando se espalharam em um grande círculo
na planície. Embora, para ser justo, eles estavam quase sempre nervosos e animados.
Não era nem mesmo a sua primeira vez lidando com Eldrazi... isso era uma função
constante da vida em Zendikar agora. Mas era a primeira vez em que eles iriam usar a sua
magia em conjunto uns com os outros para lutar contra os Eldrazi. Este seria seu primeiro
teste ao vivo.
Enquanto os iniciados gritavam para os outros e para si mesmos em rituais bizarros de
preparação, Gideon Jura estava imóvel. Suave, equilibrado e, sem surpresa alguma, em
silêncio. Quando os primeiros Eldrazi começaram a se reunir, lâminas flexíveis de metal
brilhante apareceram de algum mecanismo na mão de Gideon. Noyan revirou os olhos em
descrença. Ele queria dar um tapa em Gideon, mas, provavelmente acabaria cortando sua
própria mão. Que pessoa em são consciência tem lâminas saindo da própria mão?
Noyan tinha pensado que ele teria que gerar algum tipo de sinal mágico para atrair os
Eldrazi, mas isso acabou não sendo necessário. Os Eldrazi lentamente começaram a
fervilhar na direção de Gideon e Noyan, ignorando os iniciados espalhados largamente.
Tendo nunca encontrado esta reação antes quando sozinho, Noyan imaginou que a
explicação mais razoável era de que os Eldrazi consideravam Gideon tão desagradável
quanto ele.
Talvez os Eldrazi fossem inteligentes, afinal.
Gideon olhou para Noyan. "Em que ponto ser um mago do Turbilhão envolve o uso do
Turbilhão? Há um monte de Eldrazi aqui." Mesmo idiotas detestáveis, às vezes, tinham
razão. Noyan estendeu as mãos amplamente e deu o sinal para seus iniciados começarem
seu exercício. Nas aulas eles chamavam isso de "trabalhar no círculo". Os iniciados
começaram suas conversas com o Turbilhão, cada um à sua maneira. Alguns falavam com
a terra e outros para o ar. Ainda que não houvesse algum grande corpo de água, alguns
magos do Turbilhão falavam com a sempre presente água no interior da terra.
Era hora de Noyan começar a sua própria magia.
Sinta a irritação. É o mosquito no meio da noite, a coceira no meio de suas costas, a dor
crua que nunca se cura. É o espirro que não virá, o pedaço de comida preso em seus
dentes, o choro da criança que não é sua. Sinta.
Noyan mal tinha consciência do mundo exterior, tendo apenas vislumbres na borda da
consciência de Gideon se movendo e girando lâminas brilhantes em uma exibição
caleidoscópica de maestria que, mesmo se Noyan fosse capaz de prestar a máxima
atenção, ele tinha certeza que acharia pretensioso e chato. Os Eldrazi estavam
pressionando e Gideon os mantinha à distância.
Bom garoto, ele tentou dizer, mas as exigências do Turbilhão pressionavam sobre ele.
Cada interação errada do dia, cada errada e movimento estranho, cada palavra emitida do
buraco escuro da boca de Gideon, cada pingo de alienação e amargura Noyan Dar
recolheu e reuniu dentro de si mesmo. Isto é o que a terra sentia, isso é o que Zendikar
sentiu quando o horrível toque alienígena dos Eldrazi se lançou sobre ela.

Parte 4 (Final)

No círculo mais amplo, os iniciados tinham alcançado conexões com partes do Turbilhão.
A terra entre os iniciados e Noyan rugia e balançava, o ar soprava e gemia e os iniciados
moviam terra, ar e água em um padrão semicircular, para frente e para trás. Vush, vush, o
chão se mexeu e levantou enquanto tentava girar ao longo do círculo. Os iniciados
começaram a alinhar os seus movimentos e tempo e o grande círculo de terra à volta de
Gideon e Noyan começou a girar em uma direção e depois na outra.
Os Eldrazi entraram em um frenesi pelo deslocamento da terra debaixo deles. Não mais
letárgicos, eles zumbiam com intensidade à medida que se atiravam sobre Gideon e
Noyan. A pele de Gideon brilhava e faíscas douradas de um escudo invisível de energia
brilhavam constantemente conforme ele se tornava um borrão interminável de ataques e
cortes selvagens. Um tentáculo Eldrazi atacou o rosto de Noyan e, de alguma forma,
Gideon estava lá antes, afastando-o e decapitando o Eldrazi em um único movimento
quase impossível. Os Eldrazi maiores estavam quase em cima deles e a respiração de
Gideon trabalhava com força. "Se você vai fazer qualquer coisa para realmente matar
Eldrazi, eu sugiro que você faça isso logo. Eu não posso mantê-lo vivo para sempre."
O Turbilhão estava perto. Tão perto. Ele queria se soltar, mas Noyan não iria deixá-lo,
ainda não. A irritação dentro de Noyan, dentro da terra, crescia. Os iniciados tinham
fundido suas magias em uma batida autônoma, finalmente encontrando o ritmo que lhes
tinha escapado durante toda a manhã. Vush, vush enquanto pedras se soltavam e o vento
aumentava. A terra queria destruir todos eles, eliminar cada toque maldito da mão de
decadência; o Turbilhão subiu e coiceava, desesperado para encontrar alívio.
Um Eldrazi com o dobro da altura de Gideon atacou eles com um braço mais grosso do
que um tronco de árvore. Gideon levantou o braço e o membro maciço bateu em seu
escudo de energia, criando uma enxurrada de faíscas douradas. Mas Gideon afundou no
chão sobre um joelho e o Eldrazi gigante levantou o braço para outro golpe.
"Agoram mago!" Gideon rosnou.
Eleve-se, trema, lute, destrua.
"Você é invulnerável, certo?" Noyan gritou. Gideon assentiu.
Eleve-se, trema, lute, DESTRUA.
Noyan lançou seu feitiço. Toda a terra entre Noyan e o círculo de iniciados se desintegrou
por baixo em um vórtice circular de vento, magma, e pedras. Onde antes havia centenas
de metros de terra firme, agora havia... nada. Os Eldrazi e Gideon caíram através de uma
tempestade de escombros e Noyan pôde ver a luz dourada das faíscas brilhantes
constantemente enquanto Gideon caía.
O que tinha sido o som de uma batalha caótica agora fora substituído por um silêncio
impressionante. Noyan estava de pé, sozinho, em um pedaço de terra com no máximo um
metro quadrado. Centenas de metros em todas as direções eram agora um abismo, um
grande vazio separando-o de seus iniciados, que nem podiam acreditar no que haviam
feito. Os iniciados olhavam para o abismo e um para o outro, e começaram a aplaudir.
Quando os detritos se assentaram muito abaixo, eles puderam identificar os cadáveres
dos Eldrazi além de uma figura solitária cercada por faíscas brilhantes de ouro enquanto
pedras e fogo faziam suas quedas finais.
Noyan sorriu. Foi um momento fantástico. A única coisa que ele lamentava era que Gideon
não tinha gritado uma vez sequer em todo o seu caminho para baixo. O que era
necessário para perturbar aquele homem?
_
"Você tem uma equipe poderosa, Noyan Dar. Nós gostaríamos de ter todos vocês em
Portão Marinho conosco. Nós precisamos de vocês."
Os iniciados... não, isso não era justo. Os magos do Turbilhão em torno deles aplaudiram.
Depois de ambos Noyan e Gideon terem sido resgatados, todos tinham se reagrupado em
um assentamento em um penhasco perto de Elmo de Coral. Noyan se alegrou.
Finalmente, o homem reconhecera o verdadeiro valor dos magos do Turbilhão! Era difícil
não se sentir orgulhoso. "Acho que foi uma boa ideia você ter vindo nos ver afinal de
contas."
"Sim, foi." Gideon olhou para Noyan atentamente, mas havia algo em seus olhos que fazia
Noyan se sentir sem jeito de tentar tirar sarro dele. "Sinto muito, Noyan, por qualquer
dúvida. Essa exibição foi incrível." Gideon sorriu e Noyan ficou ali, silencioso e
surpreendido em quão orgulhoso ele se sentia só porque um guerreiro idiota tinha o
elogiado.
Os magos do Turbilhão começaram a trazer comida e bebida. Haveria uma grande festa
hoje à noite para todos eles comemorarem sua vitória. Os Eldrazi ainda estaria lá amanhã.
Gideon fez um gesto para o aerovelista que o trouxe para iniciar os preparativos para
partir. "Eu tenho que voltar para Portão Marinho. Todos vocês virão amanhã?"
"Sim, Gideon Jura. Nós estaremos lá." Noyan queria dizer mais, de preferência algo
inteligente e sarcástico, mas ele não encontrou as palavras. Todos as suas piadas tinham
estranhamente desaparecido.
Gideon voltou. "Uma pergunta, porém, antes de eu partir. Na história que você estava me
contando, aquela sobre Cosi e Ula, quem acabou com a pérola?"
Noyan sorriu. "Cosi, é claro. É assim que a maioria das histórias de Cosi acaba, com Cosi
convencendo Ula a fazer algo que ele não queria inicialmente fazer e depois Cosi acaba
se beneficiando com isso." Noyan amava as histórias Cosi.
Gideon sorriu. "Bem inteligente, esse Cosi. Inteligente demais para mim, de qualquer
forma. Eu vejo você em Portão Marinho, Noyan." Gideon virou-se e amarrou-se ao
aerovelista e ele e Gideon começaram sua ascensão de volta a Portão Marinho. Noyan os
assistiu ir, confuso com a admissão aberta de Gideon sobre suas faculdades mentais
limitadas e refletindo sobre o estranho sorriso fácil no rosto de Gideon.
Foi só no final da tarde, depois de muito álcool e deliberação posterior sobre as últimas
palavras de Gideon que a euforia de Noyan Dar se transformou em um olhar fixo.
A LIBERTAÇÃO DE PORTÃO MARINHO
Parte 1

Acampado entre os edros de Emeria no céu acima de Tazeem, Gideon Jura enviou
emissários através do mundo para reunir aliados para uma última batalha desesperada
contra os Eldrazi. A cidade de Portão Marinho, uma vez um farol de aprendizado e cultura,
está tomada por enxames Eldrazi, mas Gideon a escolheu como o local desta batalha.
Aqui, ele vai reunir o povo de Zendikar e mostrar-lhes que a vitória sobre os Eldrazi está
dentro de seu alcance.
Aliados vieram. Drana da Casa Kalastria trouxe vampiros de Guul Draz. O habilidoso tritão
Noyan Dar trouxe um contingente de "magos do Turbilhão", cuja magia controla a violência
dos turbilhões de Zendikar. Guerreiros e refugiados de todo o mundo se uniram sob a
bandeira de Gideon. Ele montou o maior exército que Zendikar já viu.
Mas será o suficiente?
_
As pessoas começaram a descer dos edros assim que o primeiro raio de sol surgiu no
horizonte distante. Foi uma descida lenta – as cordas e escadas que ligavam os edros não
haviam sido feitas para a passagem de tantas pessoas ao mesmo tempo. Quando Gideon
chegou ao chão, ele encontrou metade de um exército já esperando por ele, composto por
refugiados dos acampamentos que haviam se formado nas sombras dos edros, quando os
espaços nos próprios edros ficaram lotados demais pra recebê-los. Ele gritou "Por
Zendikar!", e um grito ensurdecedor veio em resposta.
Quando Gideon levara os sobreviventes de Vorik até os edros flutuantes de Emeria, eram
apenas algumas dezenas – poucas dezenas, ele pensou na época. E muitos deles
estavam feridos – alguns, como o próprio Vorik, morreram de suas feridas dentro de dias.
Mas, nas semanas desde então, grupos dispersos de refugiados haviam chegado, um
após o outro, tão gradualmente que ele mal tinha notado quanto o acampamento tinha
crescido. Os curandeiros trabalhavam com pouco descanso para recuperar a saúde de
tantos soldados quanto possível para que eles estivessem prontos para lutar novamente.
Agora, Gideon liderava um exército – uma seleção desorganizada e despreparada, com
certeza, mas um exército de centenas, e não poucas centenas. Era um verdadeiro exército
de Zendikar, com soldados de todas as partes do mundo, até da congelada Sejiri, que já
era quase deserta mesmo antes da ascensão dos Eldrazi. Kors, tritões e elfos marchavam
ao lado de humanos e até mesmo goblins e vampiros tinham se juntado às fileiras.
Gideon sorriu enquanto olhava para eles. "Irregulares de Gideon", ele disse para si
mesmo, evocando doces memórias dolorosas de sua juventude em Theros. Ele e seus
amigos também tinham sido um exército desorganizado e despreparado – bem distante
dos rígidos exércitos dos Boros em Ravnica.
Agora, sob a liderança de Gideon, este exército desorganizado – o exército de Zendikar –
começava sua marcha para retomar Portão Marinho dos Eldrazi.
Os primeiros Eldrazi que encontraram eram pequenas proles, espalhadas por toda a
encosta rochosa como ovelhas pastando. Cada um se encontrava no fim de um rastro de
pó branco, a devastação deixada para trás em sua alimentação. Gideon deu um grito e
investiu pelo monte abaixo e uma dúzia de soldados ansiosos o seguiu. Seu sural varreu
ao redor, cortando e agarrando Eldrazi enquanto lanças e espadas de seus aliados
cortavam e esfaqueavam as contorcidas criaturas com tentáculos.
Em algum lugar à sua direita, muito além de seu alcance, um soldado gritou. Gideon fez
uma pausa, olhando em volta à procura da fonte do grito, mas mais proles o atacaram.
As proles caíram rapidamente sob o avanço inicial e a multidão atrás dele formou um
excitante e espantoso impulso em direção à cidade, como um vento nas costas de Gideon.
Logo ele estava correndo, gritando, agitando sua arma no ar como um estandarte,
mergulhando de cabeça em outra massa de Eldrazi mais perto da cidade. Estes eram
maiores e suas mortes não foram tão rápidas. Armas cortavam através das placas ósseas
e fatiavam as composições de tentáculos, mas Gideon ouviu mais gritos de dor soando
acima dos gritos de batalha enquanto garras afiadas cortavam e perfuravam e carne fervia
ao toque Eldrazi ou se desfazia em pó.
O exército se manteve indo à frente, tão inexorável quanto os enxames Eldrazi, cortando
através dos inimigos de Zendikar. Gideon conhecia apenas a batalha: os ritmos irregulares
de seu sural varrendo e estalando, os ataques Eldrazi batendo contra seu escudo ou
ricocheteando em uma explosão de energia dourada que protegia sua pele. O ritmo do
movimento de seus pés, para frente e para trás, mas sempre mais para frente que para
trás. Cada vez mais para perto da pedra branca de Portão Marinho, do farol que logo
entrou no campo de visão, tocando o céu. Para frente, sempre para frente, com o exército
de Zendikar à sua retaguarda.
Um tentáculo dentado irrompeu na parte de trás de um soldado tritão à esquerda de
Gideon. Eu poderia ter evitado isso, Gideon pensou com um peso no estômago, mas não
havia tempo para se debruçar sobre o seu erro.
Sempre para frente.
Uma massa de tentáculos se contorcendo e coroados por uma cabeça óssea engoliu um
trio de soldados à sua direita. Ele saltou para atacar e cortou a cabeça com um golpe
rápido, mas tudo o que restava dos três soldados era poeira escapando de entre os
tentáculos. Ele tinha sido muito lento.
Sem tempo. Sempre para frente.
Uma enorme mão ossuda varreu um kor próximo do chão e levantou-o no ar. Gideon
saltou atrás dele, cortando o braço e batendo seu escudo no rosto do Eldrazi. A mão
contraiu-se, o sangue jorrou entre os dedos e o monstro e o kor caíram no chão juntos.
Para frente...
Tantos Zendikari estavam morrendo. Tantos homens e mulheres, seguindo sua liderança,
estavam correndo de cabeça para a morte. De repente, ele estava de volta em Theros, um
jovem impetuoso arremessando a lança de Heliod contra o deus da morte. E os Zendikari
em torno dele, o exército desorganizado que ele tinha comparado com seus Irregulares,
agora estavam morrendo, assim como seus Irregulares originais tinham morrido, pagando
por seu erro tolo, sua arrogância.
O peso dessas quatro mortes nunca seria tirado de seus ombros. Quatro. Quantas
centenas mais ele carregaria depois deste dia?
Ele balançou a cabeça para clarear e percebeu que sua investida para frente o havia
separado do resto do exército. Cortando um amplo arco através dos Eldrazi em torno dele,
ele voltou para suas tropas. As forças de avanço haviam sido paradas e agora um mar de
Eldrazi agitava-se entre ele e o resto de seu exército.
Tantos deles estavam morrendo.
Não havia mais uma formação compacta dirigindo-se em direção a Portão Marinho, o
exército havia se espalhado e Eldrazi haviam penetrado até os soldados. Formações
defensivas foram quebradas, a investida ofensiva tinha parado e os soldados estavam
cansados, ele percebeu. Há quantas horas eles estavam lutando?
A maior parte do dia se fora. O farol de Portão Marinho ainda era um ponto distante,
através de um campo repleto de inimigos mortais. E o exército de Zendikar estava
vacilando – morrendo.
E era culpa dele.
Munda, o líder kor a quem chamavam de "A Aranha", estava a alguns metros à sua direita,
balançando o complexo emaranhado de cordas que lhe rendeu o apelido. Como Gideon,
ele tinha se separado do exército Zendikari e sua força estava acabando.
Gideon abriu um caminho para ficar ao lado dele. "Vamos para lá", disse ele.
Munda resmungou.
"De volta para a tropa", disse Gideon. "Nós precisamos reagrupá-los."
Munda lançou um olhar por sobre seu ombro, para o exército, para o que tinha sido uma
linha de frente coerente. "Eles precisam de mais do que isso", disse ele.
Apesar de seus receios, Munda moveu-se com Gideon. Os dois tinham se aventurado
juntos muitas vezes antes, caçando Eldrazi, e eles lutavam bem juntos. Mas mais e mais
Eldrazi se posicionavam nos vazios deixados pelo constante movimento de suas
rodopiantes armas.
"Por Zendikar!" Gideon gritou enquanto a linha irregular de soldados se juntava a eles. O
grito de resposta foi sincero, sem dúvida, mas fraco. "Comigo!" ele gritou, e os soldados
começaram o laborioso trabalho de voltar a, pelo menos, ter alguma aparência de uma
formação.
"Nós não vamos ganhar esta batalha", disse Munda. "Não hoje."
O estômago de Gideon deu uma guinada. A derrota não era uma opção que ele estava
pronto a considerar.
"Outro dia", disse Munda. "Se nós vivermos para ver outro dia."
"Recuar", disse Gideon, meio para si mesmo.
"Recuar!" um soldado perto dele gritou. Foi uma kor que ele já havia visto antes, uma
sentinela do acampamento. O sangue escorria da testa dela para baixo, pelo seu olho,
marcando seu rosto como lágrimas.
"Recuar!" Munda ecoou e o grito passou pelas fileiras.
Gideon sentiu quase que imediatamente: o que tinha sido uma sensação de impulso para
frente, quase uma pressão palpável atrás dele, sumira e em seu lugar surgira um leve
puxão enquanto a retaguarda do exército começava a recuar.
"Recuar!" Gideon gritou, preparando-se para proteger a retaguarda do exército em
retirada.
Tropas disciplinadas poderiam manter a formação enquanto se moviam para longe do
inimigo, protegendo-se enquanto se retiravam. Por alguns momentos, parecia que o
exército de Zendikar poderia ser capaz de gerir tal retirada. Munda ficou perto, ao lado
dele, ajudando-o a proteger as tropas em suas costas.
Mas estas não eram tropas disciplinadas, em sua maior parte. Eles eram duros, ferozes e
determinados, acostumados com as dificuldades de Zendikar e acostumados aos horrores
dos Eldrazi. Mas eles não eram uma tropa treinada e eles estavam cansados e os Eldrazi
os perseguiam implacavelmente.
E tantos deles haviam morrido.
A retirada ordenada transformou-se em um tumulto. A sensação de um puxão à suas
costas se tornou em um vórtice sugador quando as tropas atrás dele se dissolveram e
dispersaram como poeira.
"Mantenham a formação!" Gideon gritou e a confusão diminuiu ligeiramente. Os soldados
mais próximos a ele retardaram sua retirada e puseram-se em formação, mas era tarde
demais para os outros. O exército de Zendikar – seu exército – se fora.
Sobraram Gideon, Munda e um pequeno punhado de soldados para conter os Eldrazi,
como a represa de Portão Marinho continha as águas do Mar Halimar.
Em algum lugar longe atrás dele, uma corneta soou sinalizando um ponto de reunião. Não
fazia diferença para ele nem para as ondas de Eldrazi batendo contra ele. Mas isso lhe
deu uma direção, na ausência de um exército ordenado batendo em retirada. Ele manteve
o som sempre às suas costas e tortuosamente fez o seu caminho de volta para as colinas
acima da cidade.

Parte 2

Eventualmente os Eldrazi pararam de persegui-los e Gideon deixou Portão Marinho para


trás e se reuniu com o que restara de seu exército. No topo de uma subida, Tazri se
encontrava embaixo de um estandarte esfarrapado entre alguns soldados dispersos – ela
havia soado a corneta. Enquanto Gideon subia ao topo e olhava em volta, ele viu grupos
de soldados acendendo fogueiras em toda a encosta abaixo. Enquanto o sol ia tocando o
horizonte, o exército de Zendikar ia se reagrupando.
Munda bateu-lhe no ombro. "Nós estamos a salvo, amigo", disse o kor.
"Boa luta", disse Gideon. "E eu estou contente de vê-la, Tazri."
"Isso foi um desastre, Comandante-General", disse ela, seu tom usando o título em uma
acusação de seu fracasso.
Gideon fez uma careta para ela por um longo momento enquanto Munda prendia a
respiração.
"Tudo bem, então", disse ele, por fim. "O que eu fiz de errado?"
"Nada", disse ela. "É exatamente isso. Você não fez nada."
Gideon sentiu seu rosto queimar. "Nada? Devo ter matado dezenas. Eu salvei..." Suas
palavras ficaram presas na garganta. Dezenas? Talvez. Mas não o suficiente.
"Você é um herói sem comparação, meu amigo", disse Munda. "Meus próprios ganchos
derrubaram..."
"Mas essas pessoas precisam de um comandante", interrompeu Tazri. "Eu fiz o que pude.
Eu tentei. Mas eles olham para você."
"Eu liderei o ataque", ele protestou, mas seu coração sentia o peso de cada morte que ele
tinha sido incapaz de evitar.
"Não é a mesma coisa. Você liderou – liderou pela frente, um excelente exemplo para suas
tropas." Ela zombou. “E você espera que seu exército siga você de cabeça em um ataque
no meio da batalha.”
Gideon franziu a testa. "Sim, eu espero que cada soldado nesse exército enfrente a
batalha com o resto de nós. Ninguém está aqui apenas de carona.”
"Você espera que cada soldado nesse exército seja mais um de você", disse ela,
apontando o dedo para o peito de Gideon. "Olhe para eles! Não são mil Gideons lá
embaixo."
"Infelizmente", Munda interveio com um bufo.
"Sim", disse Tazri. "Sim. Mil Gideons seriam uma força a ser reconhecida, certamente.
Mas o que eles fariam contra os Eldrazi voadores? Ou os do mar?"
Gideon olhou para o exército, para os contingentes de tritões e elfos, com suas enguias
aéreas seladas e arraias voadoras, para os vampiros e goblins, para os kors aerovelistas e
mestres do arpéu e para os humanos de todas as regiões do mundo.
"Mil Gideons agitando seus chicotes no ar e gritando ‘Por Zendikar!’ enquanto se jogam no
inimigo. Talvez isso pudesse funcionar, se todos eles compartilhassem de sua
invulnerabilidade. Talvez eles pudessem superar os Eldrazi, até mesmo o próprio Ulamog,
através de pura e teimosa força. Mas esse não é o exército que você tem, Comandante-
General."
"Você acha que eu não sei disso?" Gideon disse, inclinando-se sobre ela. "Eu assisti eles
morrerem. Muitos deles."
Tazri colocou as duas mãos sobre o peito dele e o empurrou para longe, a auréola em
torno de seu pescoço queimando mais brilhante. "E eu os assisti lutar! Nós somos
Zendikari, Planinauta. Cada pessoa aqui cresceu em um mundo determinado a matar
todos nós, mesmo antes dos Eldrazi chegarem. Cada raça e cultura do nosso mundo
desenvolveram maneiras de lutar, maneiras de lidar com quaisquer ameaças que o mundo
jogue contra nós. E pouquíssimas delas envolvem se jogar de cabeça contra a
aniquilação!"
As palavras bateram como uma faca no peito dele.
"Você inspira essas pessoas", disse ela. "Vorik viu isso. Você o inspirou também. Até eu
senti isso. Você confia que as pessoas vão dar o seu melhor e você os faz querer
corresponder a isso. Mas você não está dando-lhes uma chance de fazê-lo."
Gideon ergueu as mãos. "Eu não entendo", disse ele. "O que mais eles precisam?"
Tazri virou para encará-lo. "Um plano!" ela disse. "Uma estratégia! Eles precisam saber
como eles se encaixam no exército e no plano geral de ataque. Eles precisam saber que,
se eles fizerem o que fazem melhor, eles vão ajudar outra parte do exército a fazer sua
parte melhor. Eles sabem o que eles podem fazer, mas você tem que descobrir como tudo
se encaixa e explicar isso a eles."
Gideon viu a angústia em seu rosto, ouviu a confusão em sua voz e, de repente, a viu no
meio da batalha desastrosa, observando soldados morrendo e sendo incapaz de ajudar. E
ele percebeu que ele não tinha apenas falhado com o seu exército – ele também tinha
falhado com seus comandantes.
"Caminhe comigo, Tazri", disse ele. "Munda, você também."
Com dois comandantes ao seu lado, o Comandante-General Gideon Jura desceu a colina
para os acampamentos de seu exército.
_
Ao longo dos próximos dias, um plano foi criado. Gideon se reuniu com cada comandante
do exército, individualmente e em grupos. Ele treinava com os soldados, aprendia o que
podiam fazer e voava nas costas de uma enguia aérea. Batedores voadores – kors com
seus aeroveleiros, elfos e tritões em suas montarias bizarras e vampiros flutuando de uma
forma que Gideon não compreendia – lhe traziam atualizações constantes sobre os
movimentos dos Eldrazi e o status de Portão Marinho.
Agora era realmente a hora.
Antes, ele tinha tido certeza da vitória, seguro em sua invulnerabilidade e o puro
entusiasmo do seu exército. Agora, ele estava confiante. Ele tinha um plano – o exército
tinha um plano, e cada soldado podia ver como cada conjunto específico de habilidades
poderia ajudar a garantir uma vitória. Eles eram um só corpo e cada parte sabia o seu
papel. Ele conhecia a configuração do terreno e onde os Eldrazi estavam mais
concentrados. A vitória não era certa, é claro, mas ele sabia que era possível. Cada
soldado sabia disso. Eles não mais lutavam na esperança desesperada de sobrevivência,
mas sim com um plano para a vitória.
Outro amanhecer dourado surgiu sobre o mar ao leste e os primeiros raios de sol
refletiram em lanças e capacetes por toda a encosta. As tropas já estavam em uma
formação cuidadosa, prontas para marchar ao seu comando. Quando ele viu o primeiro
brilho avermelhado ao longo do horizonte, ele chicoteou seu sural no ar e gritou: "Por
Zendikar!"
E, de alguma forma, mesmo após o massacre do ataque anterior, mesmo com tantos
soldados caídos, o exército de Zendikar respondeu com um grito que ressoou em seus
ouvidos.
Eles marcharam. As linhas de frente eram separadas em regimentos, organizadas,
marchando em ritmo perfeito com a batida do tambor de concha de um tritão. Atrás deles,
Gideon sabia, goblins corriam para todos os lados, elfos iam para frente e para trás com
seus arcos, enguias aéreas e arraias voadoras varriam os céus e um grupo muito diferente
de tritões, sob o comando de Noyan Dar, cambaleava e se contorcia antecipando sua
bizarra magia de Turbilhão. Ordem e ritmo importavam na frente, para estes soldados
perto dele, mas não para os outros. Diferentes tambores para diferentes marchas, ele
lembrou a si mesmo.
Enquanto desciam sobre os primeiros grupos dispersos de Eldrazi, Gideon gritou
lembretes desnecessários e o exército marchou para frente em linhas ordenadas. Lâminas
cantaram e cortaram. Eldrazi caíram. Soldados feridos recuaram e soldados do posto
seguinte tomaram seus lugares. A maior parte do exército esperava até que fossem
necessários. Era muito cedo para Gideon alocar suas tropas mais móveis.
Gideon lutou. Ele matou Eldrazi. Ele protegeu os soldados perto dele quando podia. Ele
manteve a formação para que não fosse rompida por Eldrazi. Ele insistiu, apesar das
objeções de Tazri, em continuar a liderar seu exército a partir das fileiras da frente. O
acordo com o qual ele tinha aceitado, porém, era de que ele recuaria, apenas algumas
fileiras e apenas ocasionalmente, para ouvir um relatório de um batedor alado – para ter
certeza de que ele entendia como toda a batalha se desenrolava.
Um desses olheiros, à tarde no primeiro dia, trouxe um relatório alarmante. Ela tinha visto
algo no oceano fora de Portão Marinho: o que parecia ser um exército – uma frota? – de
monstros nadando em direção à cidade. Não Eldrazi, mas serpentes, tubarões, polvos
gigantes e até mesmo um ou dois kraken, todos indo em direção a Portão Marinho como
uma onda. Gideon teria se preocupado, mas a batedora acrescentou que eles estavam
deixando um rastro de Eldrazi marinhos flutuando na água atrás deles despedaçados.
"Aliados, então", disse Gideon. "Pelo menos por enquanto."

Parte 3

O exército continuou seu avanço constante e o farol de Portão Marinho voltou à vista. A
visão acendeu uma onda de ânimo nas tropas – Gideon sentiu a energia como uma
pressão física em suas costas. Ele também sentiu a emoção, mas lutou contra o desejo de
romper fileiras e disparar em frente. Muitas horas de duros combates ainda estavam entre
o exército e as paredes de Portão Marinho.
Quando um batedor relatou pesadas perdas no flanco direito, Gideon enviou mais tropas
para lá, suas ordens carregadas por sinais de cornetas. Quando ele soube que um grande
enxame de Eldrazi voadores estava se aproximando vindo de Halimar, o mar no interior do
continente, ele enviou um contingente de ginetes de enguias e arqueiros para combatê-los.
Ele enviou forças goblins para enfrentar uma multidão de Eldrazi menores que teria
distraído seus soldados mais fortes de ameaças maiores.
O sol começou a se por, vermelho sangue, no horizonte ocidental, emoldurando a batalha
contra um cenário de cor deslumbrante. Claro, os Eldrazi não mostravam sinais de
cansaço e as sombras que caíam não pareciam prejudicá-los em nada. Gideon deu uma
ordem, cornetas ecoaram e as primeiras fileiras de soldados começaram uma retirada
cuidadosa.
Gideon percebeu que estava segurando a respiração e ele se obrigou a soltá-la, a confiar
em suas tropas. Isso era tudo parte do plano e todos sabiam o que estava vindo. As fileiras
de humanos, kors, tritões e elfos se retiraram e novas tropas avançaram em seu lugar –
tropas de vampiros.
Gideon podia sentir a tensão dos soldados em retirada. Eldrazi na frente, vampiros atrás e
sua aterrorizante grã-vampira, Drana, pairando acima – parecia muito como estar preso
entre dois inimigos. Ele sabia, todos sabiam, que os vampiros lutavam por Zendikar assim
como eles. Mas também sabiam que os vampiros se alimentavam de sangue. E todo o
exército estava com fome.
Mas a manobra ocorreu sem incidentes. Os vampiros, bem descansados e sem serem
afetados pela escuridão, avançaram e destruíram os Eldrazi com terrível zelo.
Evidentemente, eles foram capazes de transformar a sua fome e sua sede de sangue em
ferocidade na batalha. Gideon e as fileiras de soldados atrás dele sentiram uma onda de
alívio, mesmo com a exaustão de um dia de batalha caindo sobre eles.
Esta era a parte do plano em que Tazri tinha superado as objeções de Gideon: Ele
descansou, comeu com os outros comandantes e passou a noite discutindo planos e
estratégias. Tinha sido um dia bem sucedido e Gideon tinha que confiar que a noite iria
seguir igualmente bem, mesmo sem ele lutando na linha de frente. Ele até conseguiu
dormir. Mas assim que a luz surgiu no céu oriental, ele tornou a reunir suas tropas nas
linhas de frente, inspirando os vampiros a uma nova onda para frente.
_
A parede de Portão Marinho, construída para proteger a cidade das feras e bandidos, e em
grande parte arruinada quando os Eldrazi invadiram, veio à tona no segundo dia. A terra
que dividia o Mar Halimar do oceano se estreitava rapidamente até bater na enorme
barragem branca de Portão Marinho e sua parede desmoronada. O lado de Halimar era
um declive suave até uma praia tranquila; enquanto penhascos do outro lado pairavam
sobre o oceano agitado abaixo. A terra estreita apresentou um desafio único, expondo
ambos os lados do exército aos ataques dos Eldrazi que nadavam ou voavam. Ela
também descia bruscamente até a entrada da cidade, dificultando uma marcha ordenada.
Mas o problema que comandou a atenção de Gideon não tinha nada a ver com o terreno,
ou mesmo com Eldrazi. Mas sim o enorme polvo que tinha escalado o penhasco ao lado
de suas forças, levantando um tentáculo gigantesco até eles. Mais especificamente, a
tritão empoleirada no topo do tentáculo.
Seus soldados estavam olhando para ele esperando por ordens, então ele empurrou seu
próprio espanto de lado e caminhou até a borda do penhasco para se encontrar com esta
tritão. Ela era impressionante: sua pele cerúlea brilhava como a água, grandes barbatanas
listradas em anil levantavam-se de sua cabeça como cabelo elaboradamente esculpido e
ela usava uma enorme safira azul em sua testa, em algum tipo de tiara ou coroa. E em
uma mão ela segurava uma arma: uma estranha lança bifurcada feita do que parecia ser
coral vermelho, graciosamente curvado no fim em duas pontas idênticas. Parecia...
estranhamente familiar, de alguma forma.
"Bem, olhe para isso", disse ela com um sorriso. "Você trouxe um exército para me ajudar
a tomar a cidade?"
"Para ajudar..." Gideon gaguejou.
"Eu sou Kiora", disse ela.
O olhar de Gideon encontrou os olhos escuros de Kiora. "Gideon Jura", disse ele.
"Comandante-General deste exército. Realmente viemos para retomar Portão Marinho",
ele ergueu sua boca em um meio sorriso, "e estamos felizes em aceitar sua ajuda."
Ela deu uma risada dura e levantou a lança. Uma onda levantou-se no mar atrás dela,
revelando as formas escuras de enormes criaturas do mar – a "frota" sobre a qual a
batedora de Gideon lhe tinha falado.
"E eu sou a comandante-general deste exército", disse ela. "Eu sou o Onda que Arrebenta,
a Mestra das Profundezas. Eu enfrentei um verdadeiro deus – os falsos deuses Eldrazi
não vão suceder onde Thassa falhou."
"Thassa?" Gideon disse, os olhos arregalados. Claro, o bidente! "Você esteve em
Theros?"
Kiora piscou para ele – um gesto inquietante envolvendo o fechamento de duas pálpebras
separadas no mesmo olho. "Então, eu estou feliz em aceitar sua ajuda, Planinauta."
A onda que ela convocou caiu contra a grande barragem branca de Portão Marinho. O mar
se agitou quando tubarões, baleias, serpentes e krakens rasgaram os Eldrazi.
"A batalha de Portão Marinho começou, Gideon Jura. Melhor se apressar, se você quiser
participar."
O tentáculo monstruoso levou Kiora de volta para o oceano e outra enorme onda subiu
além do mar. Uma nova leva de Eldrazi, talvez tentando escapar das ondas de Kiora,
estava vindo até o exército e Gideon gritou ordens. O "exército" da Planinauta tritão era
uma força de caos que ele não podia comandar, mas ele podia ajustar a investida de seu
próprio exército para fazer o melhor uso dela. Cornetas soaram para espalhar suas ordens
através de todo o contingente e ele pôde sentir uma onda de energia renovada
atravessando os soldados ao seu redor.
As forças de Kiora efetivamente cobriram o flanco de seu exército em um lado, tornando a
tarefa de alcançar a parede externa de Portão Marinho mais fácil – pelo menos em teoria.
A maior dificuldade, porém, era que os Eldrazi estavam constantemente fluindo para fora
de Portão Marinho, correndo à procura de qualquer coisa que se passasse por pastos
verdes em suas mentes, e o terreno canalizava-os diretamente para o caminho do exército
de Gideon. Não havia mais como rodear as maiores concentrações de Eldrazi. Eles teriam
que enfrentar o inimigo de frente.
Ele sentiu a ânsia de suas tropas. Com as paredes de Portão Marinho em vista, eles
queriam avançar, encarar o inimigo e extingui-los da terra. Ele reconheceu o impulso, mas
conteve a linha de frente em uma marcha lenta e constante. Não haveria repetição de seu
primeiro ataque imprudente.
Para a frente, sempre para a frente – mas muito mais lentamente. Os Eldrazi eram um
dilúvio correndo para fora da cidade e cada passo em frente era conquistado arduamente.
Quando outra noite caiu, os vampiros de Drana encheram as fileiras da frente novamente
e tentaram manter sua posição, mas os seus números eram muito pequenos para conter o
fluxo. A força de ataque aquático de Kiora parecia diminuir com a maré da noite também.
Os vampiros foram forçados para trás e para trás até que eles chegaram aos
acampamentos atrás deles e os soldados cansados foram acordados no meio da noite
para conter os Eldrazi na escuridão.

Parte 4 (Final)

A noite difícil tornou ainda mais lento o progresso no dia seguinte. Mas, no momento em
que o sol terminou sua descida, o exército tinha atingido a parede externa de Portão
Marinho. Comemorações irromperam ao longo das linhas de frente quando os soldados
tocaram a pedra, colocando as mãos sobre a parede em atos de reverência familiares.
Para muitos deles, Portão Marinho era um lar, e até mesmo para o resto a parede
representava um marco no caminho para a vitória.
Um terço da parede era escombros e outro terço era poeira branca, mas pelo menos ela
canalizava de certa forma o movimento dos Eldrazi. Ocupar posições defensivas – mesmo
que do lado errado das paredes – ajudou os vampiros a segurar os Eldrazi durante a noite,
para que os outros soldados pudessem descansar.
E, no dia seguinte, o quarto alvorecer desde que começaram a sua marcha, o exército de
Zendikar atravessou as paredes e adentrou Portão Marinho.
De repente, Gideon estava lutando uma batalha diferente. Em vez do terreno aberto fora
dos muros, as duas forças se encontravam nas ruas da cidade e lutavam em becos
entrelaçados e em pequenas praças. Como a parede exterior, muitos dos edifícios
estavam ao menos parcialmente destruídos, mas mesmo os escombros derrubados de um
edifício interrompiam a linha de visão e formavam um obstáculo no caminho do exército.
Uma marcha disciplinada já não era possível.
Isso significava que era hora de deixar que outras forças fizessem o que elas faziam
melhor. Elfos patrulheiros moveram-se rapidamente e em silêncio, de prédio em prédio,
abrindo o caminho para que esquadrões individuais de soldados pudessem avançar pela
cidade. Goblins furtivos espremiam-se em fendas estreitas para atacar os Eldrazi
escondidos – e até mesmo conseguiram resgatar alguns sobreviventes que tinham ficados
presos em escombros ou escondidos em porões desde a queda da cidade. Aeroveleiros e
ginetes de enguias jogavam misturas alquímicas voláteis em grupos maiores de Eldrazi,
criando rajadas explosivas de chamas consumidoras.
Gideon não mais podia sequer medir se eles estavam avançando ou recuando. Enquanto
esquadrões de soldados limpavam e tomavam uma quadra de edifícios, os Eldrazi
circulavam em volta e atacavam um edifício diferente por trás deles. Alguns soldados
tinham quase chegado ao farol, mas outros ainda estavam lutando contra os Eldrazi
próximos dos muros. Ele não tinha nem mesmo certeza de como seria uma retirada, mas
os Eldrazi estavam por toda parte e seus soldados não podiam estar. Ele tinha que pensar
em algo.
Ele parou por um momento, olhando para um gigantesco Eldrazi se contorcendo em
agonia letal, e sentiu o chão tremer sob seus pés.
"Eu preciso de olhos!" ele gritou. "O que está vindo?"
Uma tritão em uma enorme enguia desceu perto dele. "Zendikar!" ela gritou. "Zendikar está
vindo lutar conosco!"
"O quê?"
"Árvores e pedras! A terra se levanta para destruir os Eldrazi!"
Gideon não conseguiu entender – até que viu o primeiro elemental passar por ele. Sua
forma era a de um animal gigante, mas sua cabeça parecia um velho carvalho, com uma
boca escancarada no meio das raízes, e suas pernas eram emaranhados maciços de
madeira e vinhas. Cada passo seu balançava a terra e sua cabeça ia para frente e para
trás enquanto se movia, arremessando Eldrazi para os lados.
Mais elementais surgiram, pairando sobre edifícios e descendo pelas ruas largas. Eles
eram de madeira e folha, videira e ramos, pedras e terra. E a algumas ruas de distância,
de pé entre dois chifres de madeira em arco em cima de um elemental enorme e
imponente, ele viu uma elfa exultante, mãos e olhos brilhando em verde. Nissa havia
retornado. E ela tinha de fato trazido Zendikar com ela.
Os magos do turbilhão de Noyan Dar tinham cantado sobre o poder destrutivo do mundo:
"O mundo se eleva; Ele treme; Ele luta; O mundo destrói ou o mundo morre!" E aqui o
mundo estava fazendo exatamente isso, não através do imprevisível e indiscriminado
Turbilhão, mas com as forças da natureza incorporadas em formas animadas, marchando
sob o comando de Nissa.
Gideon podia sentir a maré virar. Seus soldados estavam mais inspirados e animados do
que nunca. Zendikar era um mundo duro e a maioria dessas pessoas tinha crescido com
um sentimento de que o mundo estava tentando matá-las. Mas agora, em um sentido
muito concreto, o mundo estava lutando junto com eles, matando seus inimigos. Multidões
de soldados corriam por trás dos elementais, aplaudindo-os e matando qualquer Eldrazi
que escapasse das garras de raízes e dos golpes de pedra.
"Leve-me para cima!" ele gritou para a tritão, ainda pairando com sua enguia sobre ele.
Ela baixou a enguia e Gideon subiu, primeiro para o telhado de um edifício próximo e
então para cima da sela da enguia, ao lado da ginete. Juntos, eles subiram acima da
cidade, para que Gideon visse todas as partes de seu exército trabalhando juntas.
Enquanto ele estava trabalhando com os comandantes para formular o plano para o
ataque, ele muitas vezes retornou à metáfora de um corpo, com todas as suas partes
trabalhando em conjunto. Agora ele podia ver a verdade disso. As duas forças – o exército
de Zendikar, com seus soldados, monstros marinhos e elementais, e os enxames de
Eldrazi – estavam engajados em batalha, como dois lutadores pugilistas. Cada um deles
ocupava cerca de metade da superfície da barragem de Portão Marinho, com o farol entre
eles. Os elementais tinham ajudado a eliminar os Eldrazi que tinham rompido a linha de
frente, portanto os Zendikari tinham um controle sólido de sua metade da cidade.
E os Zendikari estavam em vantagem. Eles estavam indo em direção à vitória!
Ao comando de Gideon, a ginete o deixou perto do farol. Ele gritou ordens e cornetas as
transmitiram através do campo de batalha. Soldados marchavam, aeroveleiros avançavam
pelo ar, batedores esgueiravam-se entre os edifícios, e a vitória se aproximava.
Além do farol, a batalha tornou-se gradualmente menos intensa. Em vez de lutar contra
uma enxurrada de Eldrazi saindo da cidade, os Zendikari os estavam expulsando da
cidade na sua outra extremidade. As criaturas ainda lutavam; eles pareciam ter a mesma
intenção de sempre em transformar os Zendikari em alimento ou poeira. Mas os Zendikari
mantinham o ímpeto em seu lado. Quando eles pararam para a noite, os soldados
vampiros de Drana tiveram pouca dificuldade em segurar os Eldrazi.
Era perto de meio-dia do dia seguinte quando uma calma caiu sobre a cidade. Um instante
depois, gritos de comemoração surgiram perto da parede e se espalharam por toda a
tropa. Com o coração batendo, Gideon sinalizou por um relatório do batedor aéreo.
"A luta parou, Comandante-General Jura," o elfo relatou. "Eu não consigo ver mais
nenhum Eldrazi dentro das muralhas da cidade."
Gideon precisava ver por si mesmo. "O topo do farol", disse ele. "Você pode me levar até
lá?"
O elfo assentiu com a cabeça e Gideon subiu na parte de trás da raia voadora ondulada.
Um momento depois, ele escalou através de uma janela na parte superior da torre do farol
e olhou para Portão Marinho.
A cidade estava em ruínas. Muitos edifícios eram apenas poeira e escombros e as ruas
estavam repletas com os corpos dos mortos. Até mesmo a poderosa barragem tinha
cedido e ele podia ver manchas de corrupção calcária aqui e ali na superfície.
Mas Portão Marinho era deles. O exército de Zendikar tinha tomado a cidade dos Eldrazi.
Eles haviam vencido.
Uma sinalizadora se juntou a ele no topo da torre e transmitiu suas ordens em sua corneta
– dois grupos fortes de soldados se reuniram em cada uma das extremidades da
barragem, patrulhas menores ao longo do lado de Halimar para patrulhar contra Eldrazi
que poderiam vir das águas, arqueiros ao longo da parede perto do oceano. Eles tinham
reivindicado Portão Marinho, mas eles ainda tinham que defendê-la.
Lentamente, outros comandantes se juntaram a ele e, eventualmente, Nissa também
chegou – e depois Kiora.
"Eu tenho algumas perguntas para você", disse ele à tritão Planinauta, sorrindo.
"Eu aposto que você tem", disse ela.
Antes que ele pudesse continuar, ele ouviu gritos na cidade abaixo. Com medo de que os
Eldrazi tivessem feito outra incursão, ele correu para a janela.
Uma tritão, em uma armadura de coral branco que contrastava com sua pele avermelhada,
estava correndo em disparada, indo para o farol.
"Jori En?" ele disse.
Ela estava gritando, mas ele não conseguia entender suas palavras. Quando ela entrou no
farol, ele começou a descer as escadas para encontrá-la.
Em seguida, ele finalmente ouviu claramente: "Ulamog!"
Eles se encontraram no meio da escada. Ofegando com o esforço, ela repetiu seu aviso.
"Ulamog está chegando!"

ALINHAMENTO DE EDROS
Parte 1

Foi uma batalha desafiadora, mas com a ajuda e conselhos de seus confiáveis assessores
Zendikari, Gideon liderou seu exército até uma vitória em Portão Marinho. Foram
necessárias todas as forças distintas de Zendikar: Drana e sua legião de vampiros, Noyan
Dar e seus magos do turbilhão, Tazri e suas tropas terrestres, os ginetes no céu, os
goblins, os kor, Nissa e sua força de elementais, e Kiora, que apareceu com um
contingente de criaturas do mar bem a tempo de virar a maré. Gideon aprendeu muito
tanto sobre os Zendikari quanto sobre si mesmo conforme eles lutavam por dias lado a
lado – coisas que ele espera usar agora quando ele liderar o exército para enfrentar o que
está por vir.
_
Kiora subiu os degraus das escadas do farol de dois a dois, indo em direção à sala onde
ela ficara sabendo que Gideon estaria "liderando um encontro de importantes mentes
Zendikari." Não terem convidado ela fora claramente um descuido. Ela marchou para
dentro da sala.
Sua entrada provocou um silêncio no grupo lá dentro. Eles eram um grupo estranho,
mesmo para os padrões Zendikari: uma elfa, dois humanos, um kor e uma vampira. Eles a
olharam, ou melhor, a encararam, irritados com a interrupção.
Gideon era o único sorrindo. "Eu tenho algumas perguntas para você."
"Eu aposto que você tem." E ela tinha algumas diretrizes para ele. Ela tinha vindo aqui
com um propósito. Quando ela chegara a Portão Marinho, ela tinha desafiado Gideon a
acompanhá-la na batalha, e ele tinha acompanhado – na maior parte. Talvez ele não fosse
um aliado tão espantoso como ela tinha imaginado inicialmente. Ela tinha vindo até aqui
para ver se ele poderia ser útil para o que estava por vir.
"Primeiro, eu gostaria que você conhecesse meus assessores de confiança." Gideon
apontou para cada Zendikari. "Drana, Tazri, Nissa e Mun-" Mas ele nunca terminou a
introdução do kor. A porta se abriu. Kiora girou, instintivamente levantando o bidente.
"Ulamog!" Uma tritão de armadura estava à porta, ofegante. "Ulamog está chegando!"
Por um segundo, a sala ficou em silêncio. A mente de Kiora cambaleou. Poderia ser
realmente assim tão fácil? Ela pensou que eles iam ter que rastrear o titã. Mas se ele
estava vindo para cá, direto para ela, então agora era a hora. Este era o momento pelo
qual ela estava esperando. Ela jogou o bidente no ar. "Sim!"
"Não!" Gideon passou por ela, seu braço grosso empurrando sua arma.
"É verdade", a tritão engasgou, sem fôlego, suas guelras inspirando inutilmente.
"Quão longe? Quanto tempo?" Kiora empurrou Gideon para o lado. Se ele ia empurrar,
então ela empurraria de volta. "Onde você o viu?"
"Nós estávamos muito perto." A tritão fez um gesto para indicar a distância entre ela e
Kiora como se quisesse dizer que ela estivera cara a cara com Ulamog. Um exagero. Kiora
a olhou de cima a baixo. Se esta tritão tivesse estado realmente assim tão perto do titã, ela
não estaria aqui agora para contar a história.
"Jori, onde?", perguntou Gideon.
"Lá em..." A voz da tritão, Jori, sumiu. "Ele estava... ele estava vindo para cá... e então
Jace..."
"Jace! Onde ele está?" Gideon olhou em volta como se esperasse ver este Jace se
materializar.
"Ele está..." Jori baixou o olhar. "Ele..."
Gideon caiu. "Eu sinto muito que ele tenha lhe deixado. Só porque nós podemos não
significa que... "
"Ele não me deixou", disse Jori. "Ele não fez aquela coisa de trocar de planos que vocês
fazem. Nós fugimos juntos."
Ah, agora aquilo fazia mais sentido. A tritão tinha um Planinauta para ajudá-la. Ainda
assim, Kiora pensou, a proximidade com Ulamog tinha que ser um exagero. Ninguém
podia chegar tão perto de um titã e sobreviver. Não a menos que eles estivessem
preparados. Ela agarrou o bidente da deusa do mar. Pode vir, Ula.
"E os edros, então?" Perguntou Gideon. "Jace resolveu o enigma?"
"Eu não sei", disse Jori. "Nós ainda estávamos muito distantes do Olho quando aconteceu.
Ele seguiu em frente, mas usou seus truques mentais para me forçar a voltar. Eu disse
que nós deveríamos ficar juntos, mas alguém tinha que avisá-los. Ele estava certo sobre
isso."
"Um titã a caminho." O kor balançou a cabeça. "O que nós faremos?" Ele acenou pela
janela para a barragem lá fora, repleta de Zendikari comemorando. "O que faremos com
eles?"
"Evacuar." Tazri, a humana com uma auréola brilhante em torno de seu pescoço, falou
com firmeza, como se ela estivesse no comando.
Não, Kiora pensou. Nós...
"Planejaremos um ataque", Drana, a vampira, disse.
Exatamente!
"Absolutamente não", disse Tazri. "Um ataque seria suicídio."
"Um ataque é a única razão pela qual eu estou aqui", disse Drana. "Eu não trouxe minha
legião de tão longe só para recuar."
Kiora poderia vir a apreciar esta vampira.
"Eu concordo", Nissa, a elfa com os brilhantes olhos verdes, falou. "Nós não podemos
fugir. Nós lutamos muito duro para isso. Zendikar lutou muito duro para isso."
"Nós lutamos por uma fortaleza, um lugar para fortalecermos, não um lugar para
morrermos", Tazri rebateu. Ela se virou para Jori. "Se a ameaça é real, não podemos
ficar."
"A ameaça é real", Jori confirmou.
"Então não temos escolha." Tazri virou-se para Gideon. "Comandante-General, temos a
ordem de evacuar?"
Gideon hesitou apenas por um momento, mas um momento era tudo que Kiora precisava.
"A evacuação não é uma opção." Ela entrou em cena. "Não há lugar algum para evacuar.
É hora de lutar!" Ela levantou o bidente. "Eu vou liderar a ofensiva."
"Impressionante." A vampira aplaudiu. "Eu acho que eu poderia me juntar a você."
"Isto é um motim!" Tazri se colocou entre Drana e Kiora. "Agora não é o momento de
dividir as nossas forças. Nós devemos aderir ao plano e ficarmos juntos. Quando
soubermos que podemos usar o edros..."
"Nós não precisamos dos edros." Kiora disse. "Nós temos isso." Ela girou o bidente,
sorrindo.
"O que é isso?", perguntou Jori.
"Apenas o artefato mais poderoso em toda Zendikar – não precisa agradecer. Mais
poderoso do que os edros." Ela olhou para Tazri. "Essas rochas têm estado aqui desde
sempre e eu nunca os vi fazer nada para impedir os Eldrazi. Isto, por outro lado, é novo.
Veja só." Ela varreu o bidente em um arco para fora, chamando a maré e, quando ela
varreu-o novamente para dentro, uma onda perfeitamente formada do mar se levantou e
passou diretamente através da janela sem sequer encostar as bordas. Ela choveu sobre
aqueles na sala.
"Uau." Jori olhou com reverência para Kiora e o bidente.
Kiora piscou. "Eu avisei."
"Nós não temos tempo para isso." Tazri estalou, limpando a água salgada do mar de seu
rosto. "Comandante-General, nós temos que..."
"Matar o titã!" Kiora elevou o bidente e a sua voz. Ela olhou para os outros. "Esta é a
nossa chance. Este é o nosso momento. Olhem o que fizemos lá fora." Ela empurrou o
bidente para a janela. "Se conseguimos superar um gigantesco enxame Eldrazi, podemos
matar o titã."
"Eu gosto do plano", disse Drana. "Ou melhor, a noção ao redor da qual nós podemos
construir um plano adequado."
O estômago de Kiora vibrou. Sim! Ela não se importava com os aspectos técnicos, a
vampira estava do seu lado.
"Nós vamos ter o poder de todo o mar atrás de nós", disse Jori, acenando para o bidente.
"Eu acho que nós temos uma chance."
Kiora se animou ainda mais. Sim!
"O poder do mar é grande, mas vai precisar mais do que isso", disse Nissa. "Eu vou levar
a terra para auxiliar. Se trabalharmos juntos, eu acredito que nós podemos fazer isso."
Era isso! Finalmente Kiora tinha encontrado pessoas que não recuariam. "Então, quem
está comigo?" Ela gritou. "Quem está pronto para pôr fim a Ulamog de uma vez por
todas?"
Gritos animados soaram na pequena sala do farol.
"Eu não vou permitir que você faça isso", Tazri latiu.
"Corrija-me se eu estiver errada, mas não é você quem deve tomar essa decisão", disse
Drana. Ela olhou para Gideon. "Eu acredito que seja você, Comandante-General."
Kiora acompanhou seu olhar. Este era o momento da verdade. Gideon era o aliado que ela
esperava que ele fosse?

Parte 2

Eles estavam todos olhando para ele. Cada um deles. Como deveriam estar. Gideon era o
Comandante-General. E, como Comandante-General, cabia a ele dar a ordem. E isso é o
que ele faria.
Em um momento.
Talvez dois.
Ele tinha que pensar. Ele tinha que estipular o melhor curso de ação. Devia haver um
melhor curso de ação.
"Temos a ordem de evacuar?" Tazri solicitou.
"Eu te ouvi da primeira vez, Tazri." Gideon não queria ter soado grosso. Ele limpou a
garganta. "Eu só preciso de um momento." Ambas Tazri e Kiora abriram suas bocas, mas
Gideon as cortou. "Um momento de silêncio."
Houve resmungos atrás dele enquanto Gideon se afastou deles, mas ele os ignorou. Ele
caminhou até a janela e olhou para fora, protegendo os olhos do sol que brilhava. O
horizonte era uma linha reta. Não havia nenhum sinal do horror que Jori tinha prometido
que estava por vir. Mas ele acreditava nela; ele tinha ouvido os rumores, o titã se movia
lentamente. Mas lentamente o suficiente para que Jace pudesse chegar aqui antes com o
segredo de como se usar os edros? Não havia como saber.
Sem os edros, eles precisavam de algo mais, outra vantagem que inclinaria a balança a
seu favor. Ele pensou em Kiora e o bidente da deusa. Uma arma poderosa, com certeza.
Mas apenas uma arma e uma maga – um flash por trás de seus olhos e ele estava
olhando para seus Irregulares caídos.
Ele piscou, forçando a imagem para longe. Ele havia aprendido essa lição há muito tempo.
Gideon suspirou, olhando para os Zendikari reunidos na barragem. A presença deles aqui,
todos juntos assim, era provavelmente a razão para o titã estar se dirigindo para cá. O
Eldrazi não poderia resistir à tentação de tanta vida reunida. Eles alvos fáceis.
Não! Ele bateu os punhos no parapeito da janela. Ele havia aprendido essa lição também.
Essas pessoas não eram inúteis. Longe disso. Eles eram fortes. Eles eram bravos. Eles
eram capazes. Eles eram o seu exército.
Eles haviam se reunido de toda Zendikar. Eles que haviam posto de lado suas diferenças
– ainda mais, eles tinham aprendido a usar as suas diferenças para o bem maior. E eles
tinham superado uma horda de Eldrazi tão grande que levaria semanas, se não meses,
para queimar todos os cadáveres alienígenas.
Eles eram uma força de combate do tipo que Zendikar nunca tinha visto antes e
provavelmente nunca veria novamente. Isso era muito. Isso era mais do que muito. Isso
era... Gideon sorriu para si mesmo; isso poderia ser exatamente a vantagem de que eles
precisavam.
Ele virou-se para os outros e ele deu suas ordens. "Nós não evacuaremos. Nós ficaremos
e nós lutaremos. E nós mataremos o titã."
Tazri engasgou.
"Ha!" Kiora levantou o bidente. "Sim!"
"Bravo." Drana aplaudiu.
"Nissa", disse Gideon, lançando os detalhes de seu plano mesmo enquanto os criava.
"Você vai liderar dois contingentes de terra. E por terra, eu quero dizer, você sabe, a terra
mesmo. Terra e rochas e tudo isso." Gideon imitou o movimento a passos largos de um
dos elementais de Nissa. "Traga uma força de cada lado da barragem."
Nissa assentiu.
"Kiora", continuou Gideon, "você vai coordenar um ataque do mar."
"Claro que vou. Eu não preciso de você para..." Uma batida na porta interrompeu a
insubordinação de Kiora – sorte dela.
Era Ebi, um dos sentinelas que Gideon tinha posicionado em torno de Portão Marinho. Ao
ver o rosto do kor espiando na porta, o peito de Gideon se apertou. Ele temia que Ebi
estivesse vindo para dizer-lhe que as sentinelas tinham avistado Ulamog. Ainda não; eles
precisavam de mais tempo.
"Acho que encontrei algo que você está procurando, Comandante-General." Ebi acenou
atrás dele e Gideon teve um vislumbre de algo azul em movimento no outro lado da porta
– algo azul que ele reconheceu...
"Jace!" Gideon podia respirar novamente.
O mago da mente cruzou o limiar da porta. "Vejam só quem vem praticando seus poderes
de adivinhação."
Gideon percorreu a distância e abraçou o homem menor, batendo-lhe no ombro. Jace
estava sempre tão tenso. Ele sorriu para Ebi. "Obrigado."
"Senhor." Ebi assentiu.
"E o perímetro?" Gideon perguntou, testando sua sorte.
"Seguro", disse Ebi.
"Bom." Gideon soltou um suspiro. Bom. Eles teriam um pouco mais de tempo.
Ebi se moveu, parecendo detectar a tensão na sala. "Eu vou voltar para o meu posto,
então."
"Obrigado, Ebi".
Quando o sentinela kor fechou a porta atrás dele, Gideon se voltou para Jace. Ele estava
procurando uma vantagem e agora ele tinha duas. As probabilidades estavam mudando
em seu favor; esta batalha agora era deles. "Os edros", disse ele. "O Olho. Conte-me
tudo."
_
Tudo estava muito melhor do que Jace tinha imaginado que seria. Ele havia previsto que
ele ia ter que ajudar Gideon a montar o exército, encontrar a localização mais vantajosa e
acumular os edros para construir a prisão – a prisão que ele ainda acreditava que poderia
ser transformada em uma arma mortal, independentemente do que Ugin tinha dito. Mas
aqui estava, tudo disposto em sua frente: um exército formidável, um local favorável e mais
da metade dos edros que ele precisaria, flutuando acima do mar. Agora ele simplesmente
tinha que mover as peças para o lugar... com cuidado.
Ele não teve que ler qualquer uma das mentes na pequena sala para saber que havia uma
quantidade excessiva de tensão. Jori estava aqui, parecendo cansada e um pouco pior
pelo desgaste, o que presumivelmente significava que ela tinha recentemente chegado e,
portanto, quase certamente acabado de entregar a notícia sobre Ulamog. Por isso, a
conclusão era que os olhares e posturas agressivas indicavam que aqueles na sala não
estavam de acordo sobre o que fazer a respeito da abordagem do titã.
Nissa parecia pronta para lutar, assim como a tritão que Jace não conhecia e a vampira.
Mas Tazri e o kor pareciam menos convencidos e Jace ainda não podia de que lado
estava Jori. Cabia a ele, então, botá-los todos no mesmo lado; ele precisava do apoio de
todos se ele esperava executar isso com êxito. Um acordo de mentes, se não coagido ou
manipulado magicamente, algo que ele teria que considerar seriamente se chegasse a
tanto, poderia ser alcançado por apresentar a narrativa mais atraente. Tudo dependia da
implantação de informações. "Você recuperaram Portão Marinho", disse ele sorrindo.
"Impressionante." E também dependia um pouco de atiçar alguns egos.
"Eu tive todo um exército..." começou Gideon.
Mas a segunda tritão, a que Jace não conhecia, cortou Gideon. "Não foi nada."
O kor e Tazri lançaram olhares de soslaio para a tritão. Então ela o problema. Bom saber.
"Foi muito mais do que nada para um monte de gente", disse Gideon. Ele estava olhando
para Jace, mas falando para a sala em geral. "Cada soldado que lutou por Portão Marinho
deu tudo de si. E muitos se perderam na luta." Ele parou por um momento e tanto a
humana quanto o kor inclinaram a cabeça com reverência; a tritão problemática não o fez.
"Mas nós acabamos vitoriosos. Recuperamos esta cidade." Ele balançou a cabeça. "E
então ouvimos a notícia. Então agora nós estamos reajustando o plano. Um ataque direto
contra o titã. Um ataque que tem uma probabilidade muito maior de sucesso, agora que
você está aqui. Os edros", Gideon pressionou. "Como podemos aproveitar seu poder?"
"Os edros". Jace exalou. Este era o ponto onde as coisas ficavam um pouco complicadas.
"Nós não precisamos dos edros. Eu tenho um bidente e um exército de criaturas do mar",
disse a tritão problemática.
Jace a ignorou e focou em implantar a informação. "Os estudiosos aqui em Portão Marinho
estavam no caminho certo quando trabalhavam para utilizar o poder dos edros e
empunhá-lo contra os Eldrazi. Mas não é de edros individuais que precisamos, nós..."
"O que nós precisamos é começar a nos mexer", a tritão interrompeu, agitando seu garfo
irritantemente longo de coral. "Eu vou liderar o ataque. Se vocês simplesmente me
seguissem, já poderíamos estar a meio caminho de matar Ulamog agora."
"Isso seria extremamente imprudente", disse Jace. "Se vocês saírem correndo ao acaso,
vão ser vocês que acabarão sendo mortos."
A tritão se inclinou. "Sem ofensa... Jace, certo? Mas a sua mística e truques mentais não
vão funcionar em mim. Minha mente é minha própria e eu sei o que estou fazendo."
"Se eu quisesse usar truques men..." Jace parou. Deixar seu temperamento falar por ele
não iria servir de nada agora. "Eu não tenho nenhuma intenção de usar minha ‘mística’ em
você ou qualquer um aqui, hmm..."
"Kiora", a tritão informou. "Lembre-se deste nome. Logo, todos em Zendikar vão conhecê-
lo."
"Kiora", disse Jace. Delirante. Ela estava completamente delirante. Cuidado. Tudo bem,
ele iria ter cuidado, mas ele ainda tinha que mostrar-lhes o seu ponto de vista. "Devo
presumir que você já teve oportunidade anterior para usar essa arma a fim de destruir algo
deste tamanho?"
"Você não pode imaginar as coisas que esta arma é capaz de fazer." Kiora girou o bidente.
"E foi você quem a usou para fazer tais coisas?" Jace pressionou. Ele reconhecia evasão
quando a ouvia.
"Eu a comando agora, isso é tudo que importa." Kiora se moveu. Não por desconforto,
mas inquieta. "E eu estou pronta para o ataque. Vamos lá." Ela acenou para os outros.
"Ouçam", Jace disse para a sala em geral. "O titã com que estamos lidando é um ser
incompreensível, que empunha forças que o resto de nós pode apenas tangencialmente
perceber. Ele está ameaçando a própria existência deste mundo. A fim de pará-lo, nós
vamos ter que usar muito mais do que apenas uma arma física – não importa o quão
poderosa seja. Vou precisar de todos aqui e todos lá fora", ele acenou em direção aos
Zendikari pela janela, "para ajudar a construir e executar a armadilha que eu pretendo..."
"Armadilha?" Nissa, que tinha estado relaxada, levantou-se ereta. Suas orelhas estavam
empinadas e seus brilhantes olhos verdes perfuravam Jace. "Você disse armadilha."
"Eu disse." Jace assentiu. "Um edro por si só não é o suficiente, mas uma complexa rede
de edros pode ser alinhada para prender o titã para que ele não possa causar mais
destruição. Uma vez que nós o prendermos..."
"Não!" Nissa bateu seu bastão no chão.
Ah, que ótimo. Mais antagonismo. Jace estava em com tudo.
"Nós não vamos prendê-lo", a voz de Nissa ressoou com força. "Os titãs estiveram presos
aqui por muito tempo. O mundo tem estado em dor por muito tempo."
"A armadilha não seria permanente", disse Jace. Por que ele não tinha começado dizendo
isso? "Uma vez que o prendermos, vamos descobrir como destruí-lo. Tenho algumas
ideias..."
"Como eu disse, eu já sei como matar o titã." Kiora brandiu seu bidente e caminhou até a
janela. "Vocês vêm?" Ela olhou para Nissa. O que ela pretendia fazer, saltar para fora?
Nissa assentiu. "Zendikar e eu vamos lutar ao seu lado."
"Ah, sim, certo... Zendikar. Ótimo. Mais alguém?" Kiora piscou para a sala com quatro
pálpebras.
"Eu vou aonde a batalha estiver", disse a vampira.
"Basta!" Gideon se interpôs. "Eu dei as minhas ordens, e..."
"E nós estamos as seguindo", disse Kiora. "Mais ou menos." Ela deu uma piscadela,
subindo no parapeito da janela; ela realmente ia saltar para fora.
"Eu ordeno que vocês fiquem onde estão", disse Gideon. "Todos vocês."
"Você não pode simplesmente ir até lá e lançar seu próprio ataque", o kor entrou na
conversa.
"Por que não?", perguntou Kiora.
"Porque", Jace deixou escapar, "qualquer ataque ao titã que não o destrua gera o risco de
afastá-lo de Zendikar completamente e conduzi-lo para um outro mundo."
"Parece bom para mim. Eu direi 'Boa viagem!’". Kiora estendeu o braço para fora da janela
e o enorme tentáculo de um polvo levantou-se para encontrá-la. "Você vem?", ela sinalizou
para Nissa.
Mas Nissa hesitou, olhando para Jace. "Para outro mundo?"
"Sim." Jace assentiu solenemente. "E nós não sabemos qual." Ele olhou para Kiora. "Mas
onde quer que vá, ele vai devastar este mundo, também. As pessoas e a terra serão
destruídos. E uma vez que tenha concluído, ele vai encontrar ainda um outro plano. Ele vai
fazer isso de novo e de novo por toda a eternidade. A menos que isso termine aqui."
"E vai." Kiora deslizou para o tentáculo.
{Por favor.} Jace se estendeu para a mente de Kiora. {Você não quer fazer isso.}
Ambos Kiora e Gideon se moveram tão raidamente que Jace não percebeu o que estava
acontecendo até que ele estava no chão, empurrado pelo grosso braço de Gideon, e
Gideon estava desviando o ataque do bidente de Kiora mirado a Jace.
"E você não quer fazer isso!", Kiora cuspiu. "Nunca mais." O tentáculo abaixou para fora
da janela, levando a tritão problemática com ele.
"Nós temos que impedi-la," Jace ficou de pé. "Nós temos que..."
"Não." Gideon se pôs em frente da janela. "Estamos perdendo tempo que não podemos
nos dar ao luxo de desperdiçar. O titã está se aproximando e temos de nos preparar.
Vamos construir a armadilha e, uma vez que nós tenhamos assegurado o nosso objetivo,
vamos lançar a nossa ofensiva como planejado. Nós vamos tanto prendê-lo quanto
destruí-lo. Alguma pergunta?" De pé no meio da sala, Gideon parecia preenchê-la, não
deixando espaço para debate.
"Bom. Temos de agir rapidamente. Jace, meu exército está à sua disposição, use-o como
você precisar para construir a armadilha. Nissa, acompanhe Jace, ajude-o de qualquer
maneira que você puder. Munda, Jori, verifiquem as patrulhas. Nós vamos precisar de
mais sentinelas. O titã não viajará sozinho e temos de garantir que o nosso perímetro
esteja seguro. E isso significa seguro de uma certo tritão também. Não permitam que Kiora
interfira com o que estamos prestes a fazer. General Tazri, Drana, vocês virão comigo
para falar com o exército. Precisamos preparar nossas tropas."
"Sim, senhor." O consentimento foi ecoado ao redor da sala e Jace não percebeu que ele
também tinha dito aquilo até que ouviu sua própria voz na mistura. Ele se surpreendeu.
Gideon o surpreendeu. O Planinauta tinha verdadeiramente se tornado um líder desde que
Jace o tinha deixado em Pedra Celeste. Isso era bom. Eles precisariam de um líder forte
para o que eles estavam prestes a fazer.
Enquanto os outros saíam, Jace se virou para Nissa. "Estou feliz que você tenha ficado."
Ela não fez nenhuma tentativa de responder.
Tudo bem, eram apenas negócios, então. Jace poderia fazer isso. "Então, eu fiquei
sabendo que você pode mover a terra."

Parte 3

Horas mais tarde, Nissa se estendeu para a terra, sentindo mais um edro enterrado. Ela
gentilmente persuadiu a terra para baixo para empurrar a pedra para cima. Mesmo que ela
não pudesse ver o edro, ela sabia onde ele estava, ela sabia exatamente o espaço dentro
de Zendikar que ele ocupava. E mesmo que ela não pudesse ver o titã, ela sabia que ele
estava lá. Durante a noite, enquanto eles tinham trabalhado para montar a armadilha de
Jace, Nissa tinha percebido o movimento de Ulamog na baía de Portão Marinho. Ele
estava vindo na direção deles através da água. E quando o sol se levantasse, todos
seriam capazes de vê-lo, elevando-se sobre eles. Apenas esperando para ser destruído.
_
Ela olhou para Ashaya, seu elemental, sua melhor amiga, e a alma de Zendikar. "Está
quase na hora."
A determinação de Ashaya inundou Nissa quando juntas elas arrancaram o edro do chão e
puseram-no sobre um de seus lados longos e angulares.
Nissa andou ao redor da imensa rocha, passando a mão sobre a sua superfície. Ela
estava procurando por rachaduras, manchas, ou quebras. Mas, assim como todos os
outros que elas tinham escavado naquela noite, este também estava perfeitamente
preservado. Estes edros não eram apenas poderosos, eles eram poderosamente
resistentes. Robustos o suficiente para suportar a canalização de todo o poder deste
mundo, Jace tinha lhe assegurado disso.
E se de alguma forma ele estivesse errado, ou se os edros falhassem, então Nissa estaria
pronta.
Zendikar estaria pronta também. Ashaya descansou sua enorme mão no ombro de Nissa.
Nissa olhou para a familiar face de madeira de seu elemental. "Você sabe que eu não
permitiria que o titã fosse preso novamente se não houvesse nenhuma outra maneira." Ela
fez uma pausa. "Ou se eu tivesse alguma dúvida."
Ashaya sabia. Zendikar compreendia.
Havia uma segunda parte desse entendimento entre elas não dita em voz alta: Ambas
Nissa e Zendikar queriam que isso terminasse aqui e agora e elas queriam que fossem
elas a acabar com tudo. Elas não queriam afastar o titã; elas queriam enfrentá-lo.
A terra se enchera de uma fome que não iria ser saciada se ela não tivesse a oportunidade
de enfrentar seu inimigo, de lutar e de destruí-lo. Zendikar era mais poderosa que o
monstro que a atacava e hoje o mundo iria provar sua força.
Nissa exalou. "Vamos terminar o que começamos."
Juntas, elas moveram o edro até a borda do penhasco onde Gideon e Jace estavam com
uma equipe de kors e uma enorme quantidade de corda.
"Bom, bom. Tragam-no aqui." Gideon dirigiu Nissa e Ashaya entre duas linhas de corda.
"Amarrem ele bem forte", ele instruiu os kors.
"Este vai entrar perfeitamente entre estes dois." Jace estava conversando com Munda,
apontando para uma ilusão azul brilhante que pairava no ar na frente deles. A ilusão era
um modelo em miniatura do anel de edros que estava sendo construído sobre a água.
Nissa não entendia por que o Planinauta mago da mente insistia em confiar nesta entidade
sintética de sua própria criação, uma com tantas possibilidades de imprecisões, quando o
anel genuíno estava bem ali na frente dele. Com a cabeça inclinada sobre a ilusão, Jace
estava perdendo a magnífica vista.
"É realmente lindo", sussurrou Nissa para Ashaya. O elemental concordou.
Os edros tinham começado a brilhar quando os dois primeiros tinham sido ligados. Agora
as runas esculpidas nas superfícies das rochas brilhavam com poder em um padrão
conectado que suscitou lembranças da primeira vez que Nissa tinha recebido visões de
Zendikar.
Esta não era a única maneira em que esta noite tinha vindo a parecer como uma
culminação para Nissa. Era como se tudo o que ela tinha feito toda a sua vida, tudo o que
ela tinha trabalhado por, a levara a isso. Ela tinha feito um voto há muito tempo, uma
promessa a Zendikar, e esta era a sua chance de fazer valerem as suas palavras.
"Com calma... com calma!" A chamada afiada de Munda chamou a atenção de Nissa.
"Soltem o contrapeso."
Nissa e Ashaya assistiram enquanto uma equipe de quatro kors e humanos, que estavam
posicionados em uma rocha flutuante nas proximidades, baixaram uma grande pedra que
estava anexada ao edro através de um sistema de roldanas e cordas. Conforme o
contrapeso descia, o edro subia em direção ao anel.
"Cuidado agora – assim está bom", Gideon caminhava no limiar. Nissa podia sentir sua
inquietação; ele queria estar lá fora, puxando, levantando, empurrando – ele queria estar lá
fora fazendo tudo, sempre. Ela sorriu; ela estava grata que Gideon tivesse vindo para
Zendikar.
"Tudo certo." Gideon sinalizou para uma terceira equipe de kors que se alinhavam no
paredão. "Equipe do Portão, puxem!"
A equipe puxou e o edro flutuou horizontalmente através do ar. Parecia uma nuvem
escura, embora Nissa pudesse ouvir o ranger das cordas e roldanas que a apoiavam. Aqui
e ali havia flashes de luz, feitiços para ajudar a posicionar a enorme rocha no lugar.
Jace olhava de sua ilusão para a realidade, verificando constantemente para ver se o edro
estava no local correto. Nissa não tinha necessidade de ver a ilusão; ela sabia quando
estava certo. "Bem aí", ela sussurrou para Ashaya.
"Bem aí!" O grito de Jace ecoou suas palavras.
"E... parem aí!" Gideon gritou.
Esta parte do processo funcionava perfeitamente agora; a primeira vez que o tinham feito,
tinha tomado alguma persuasão e um monte de idas e vindas. Mas agora as três equipes
sabiam exatamente o que fazer. Puxavam e apertavam suas cordas em direções opostas,
retardando o edro até uma parada suave. Quando atingiu o alinhamento perfeito, ele
terminou o serviço, praticamente se encaixando em seu lugar.
Gideon olhou para Jace. "Como parece?"
"Perfeito", Nissa disse bem baixo.
Jace estudou sua ilusão um pouco mais. "Posicionamento está bom. Altitude está boa. Eu
diria que está bom assim."
"Eu disse", Nissa sorriu para Ashaya.
"Bom", disse Gideon. "Primeira equipe, preparar suas cordas para o movimento final." Ele
se virou para Nissa. "Nós só precisamos de mais um."
"E você vai tê-lo." Ela se estendeu para a terra, procurando pelo penhasco esburacada por
outro edro. Era possível que elas tivessem que ir até a próxima encosta...
"Temos movimento! Temos movimento!" A súbita explosão veio das árvores à frente.
Nissa se assustou, alcançando sua espada quando um dos sentinelas aéreos, uma pilota
elfa montada em uma raia, chegou voando.
"Seble!" Gideon chamou, seu sural já sacado. "O que é isso?"
"Movimento nas árvores daquele lado!" Seble gritou para baixo. "Meu palpite é alguns da
prole."
"Faça outra passagem", disse Gideon. "Eu preciso saber quantos e quão grandes." Ele
olhou para Nissa.
Ela assentiu com a cabeça, segurando o punho de sua espada. Ela estava pronta para
mover-se. Com a aproximação do titã, todos sabiam que haveria mais prole; era apenas
uma questão de tempo até que um penetrasse suas fronteiras. Nissa manteve os olhos
sobre a elfa que circulava no ar, observando a reação dela.
Seble deu a volta e retornou, balançando a cabeça. "Eu acho que foi um alarme falso", ela
gritou para baixo.
"Se você ouviu, então estava lá", disse Gideon. "Eu confio em você. Só mais uma
passagem." Ele fez um gesto com o dedo em um círculo.
Seble tomou mais uma volta, mas Nissa sabia o que a elfa diria quando ela voltou.
"Negativo", ela gritou para baixo. "Não há nada lá fora, exceto um monte de terra
queimada. Parece que poderia ter sido um acampamento antigo ou algo assim. Nenhum
sinal de prole ou corrupção."
"Tudo bem. Circule com os outros sentinelas. Eu quero uma checagem de perímetro
completa", Gideon gritou. "E adicione outro cavaleiro celeste."
"Vou fazer." Seble virou-se para ir embora, mas de repente ela gritou e freou sua raia de
volta.
Nissa instintivamente caiu em uma postura de batalha defensiva.
"O que você vê?" Gideon chamou. "Onde?"
Sem dizer nada, Seble apontou para frente.
Nissa seguiu o dedo da elfa. E foi então que ela viu o titã.
Ulamog, o portador da destruição.
O primeiro sinal de luz havia despontado no horizonte, iluminando a forma imponente do
Eldrazi.
Naquele momento, Nissa quase pulou para fora na rocha flutuante mais próxima, se
balnaçou na videira que pendia não muito além disso e lançou-se diretamente sobre o titã.
Ela tinha sua espada, ela tinha o poder de seu ódio, e agora ela tinha uma abertura.
Mas ela se conteve. Zendikar tinha pago o preço por sua imprudência uma vez antes. Este
titã estava aqui assolando a terra porque ela tinha liberado ele de sua prisão. Este mundo
e essas pessoas tinham sido massacrados porque ela agira por imprudência. Ela não iria
deixar isso acontecer novamente. Desta vez, ela iria fazer as coisas da maneira certa.
Prendê-lo primeiro e depois destruí-lo.
Ela firmou a respiração e forçou a espada para dentro da bainha. A hora chegaria. Ela
olhou para Ashaya. "Precisamos de outro edro."
Foi tão difícil para o elemental se afastar da titã como foi para Nissa, mas Ashaya se virou
e ela desceu a rocha escarpada. Nissa manteve o ritmo ao lado do elemental, se
estendendo para a terra conforme ia, procurando a peça final do quebra-cabeça de Jace.

ALINHAMENTO DE EDROS
Parte 4

Jace gostava de pensar que todo enigma tinha mais de uma solução. Era limitante
acreditar no contrário e ingênuo supor que o criador de um enigma poderia ter pensado em
todas as soluções possíveis e, então, eliminado todos os caminhos para cada uma dessas
soluções, exceto um. No entanto, ele não tinha encontrado sequer a sugestão de mais
uma possível solução para o enigma perante ele; até onde ele podia dizer, só havia uma
maneira de prender Ulamog. Jace não estava acostumado a trabalhar sem planos de
contingência. Isso o deixava inquieto.
Cada grito de uma sentinela deixava Jace no limite, procurando pela água por Kiora e seu
exército de criaturas marinhas – ainda outra variável que ele não tinha tido tempo de se
preparar adequadamente. Mas, felizmente, cada mensagem provou ser nada mais do que
um alerta para Tazri e seu esquadrão de defesa sobre uma nova onda de prole que se
aproximava. Jace meio que riu para si mesmo; ele tinha acabado de considerar uma onda
de prole uma ocorrência de sorte.
Ele brincava com o esquema de ilusão tridimensional que flutuava na frente dele,
mantendo a cabeça baixa, desviando o olhar da realidade. Ele sabia o que estava lá. Ele
tinha visto uma vez. E o ar abafado, as ondas quebrando e os sons de tentáculos
rangendo eram suficientes para confirmar que o titã não estava a mais que um lançamento
de pedra de distância de onde Jace estava em uma rocha flutuante. Não havia nenhuma
razão para olhar para cima.
Além disso, havia uma versão em miniatura de Ulamog bem ali em suas mãos. Ele tinha
feito uma ilusão do titã para combinar com a ilusão do anel de edros. Ele avançou seu
Ulamog para frente, com seus braços ilusórios bifurcadas, através da abertura no anel de
edros. Assim que o titã se posicionou lá dentro, Jace moveu os pequenos kor, humanos e
elfos para puxar as cordas e balançar os edros da porta até seus lugares. A porta era feita
de três edros ligados que foram eficazmente articulados para um dos lados da abertura no
anel. Tudo o que as minúsculas pessoas tinham que fazer era guiar a porta até o lugar
para que ela fechasse o anel. Quando eles fizeram isso – como ele as fez fazer agora – o
anel de edros brilhou com uma luz azul brilhante e o titã foi preso dentro.
Bom.
Mais uma vez.
Jace limpou a ilusão e a fez um novo. Desta vez, ele trouxe Ulamog para dentro em um
ângulo, criando um pequeno desafio. As pessoas em miniatura tiveram que girar o anel de
modo que a porta ficasse alinhada com a trajetória do titã.
Bom.
Mais uma vez.
Desta vez, ele aumentou a velocidade do titã, algo que não era uma ocorrência provável,
na realidade, mas ele tinha que se preparar para quaisquer variáveis que ele pudesse.
Bom.
Mais uma vez.
Ele sem entusiasmo dobrou o tamanho do titã. Eles teriam que alargar a porta.
Jace suspirou. Isto era um absurdo. Isso nunca iria acontecer na realidade. Seu exercício
estava se tornando inútil. Ele tinha o repetido uma dúzia de vezes, até mais. A alternativa?
Olhar para cima. Mas olhar para cima significava olhar para a versão muito real e muito
maior de sua ilusão. Olhar para cima significava ver as faces reais das pequenas figuras
brilhantes. Um dos elfos era Nissa. Um dos tritões era Jori En. E de pé sobre uma rocha
flutuando na frente do anel edro estaria outra figura, que Jace não tinha incorporado em
sua simulação porque essa figura não tinha influência sobre se ou não o anel seria
fechado com êxito. Essa figura estava lá apenas para, em suas próprias palavras, "ficar
entre Portão Marinho e o titã no caso de algo correr mal." Essa figura era Gideon.
Jace olhou para cima.
Lá estava ele, de pé sozinho na frente da última civilização de Zendikar, o mago de
combate em armadura que tinha ido a Ravnica perto da morte para suplicar pela ajuda de
Jace. Em outro momento, em outro lugar. Jace não poderia ter previsto este resultado
quando ele deixou cair a rosa de Liliana na rua e seguiu o homem que suava e sangrava.
Agora, aqui estavam eles, prestes a tentar um feito que anteriormente três extremamente
poderosos Planinautas tinham necessitado décadas para realizar.
E, no entanto, Jace achava que poderiam fazê-lo.
O titã estava lá, o anel estava montado e... Jace olhou de Gideon de volta para os edros
bem a tempo de ver os Zendikari fazerem alguns ajustes no último segundo para o
posicionamento da porta conforme Ulamog atravessava a abertura.
Um grito se ouviu das equipes das cordas estacionadas em torno dos edros.
Foi quase fácil demais – quase.
"Segurem firme!" A voz profunda de Gideon soou acima dos aplausos. Ele atacou com seu
sural em um dos tentáculos de Ulamog, enviando-o de volta para dentro do anel. A
totalidade da metade da frente do titã e a maioria dos seus tentáculos haviam se movido
para dentro da armadilha, mas as placas ósseas nas costas ainda não tinham atravessado
o limiar. Só mais um pouco.
Por toda a volta do titã havia grupos de rebentos e prole de sua ninhada. Eles moviam-se
mais rápidos do que o seu progenitor e tinham chegado a Portão Marinho primeiro. Mas o
exército de Gideon tinha estado lá para rechaçá-los e as forças Zendikari ainda estavam
firmemente lutando agora. A barragem fortificada permanecia intocada. Jace tinha que
admitir que ele estava impressionado com o exército que Gideon tinha montado. E ele
estava impressionado com os Zendikari em si. Nenhum deles tinha escolhido evacuar
mesmo depois de ver Ulamog no horizonte, nem um sequer.
Eles eram um exército capaz e Gideon era um líder adepto. O que não significava que ele
não era também um tolo. Nada além de uma noção imprudente poderia ter precipitado a
sua decisão de ficar ali naquela pedra a meros metros das placas ósseas do titã.
"Dentro! Ele está dentro!" O grito foi audível mesmo acima da cacofonia das ondas
quebrando, dos ossos se partindo e das armas se batendo.
Jace confirmou a afirmação; sim, o titã havia se mudado para o lugar.
"Vamos fechar isso!" Munda, o kor que muitas vezes lutara ao lado de Gideon, fora quem
tinha gritado a ordem. "Equipe da Porta, puxem!"
A equipe, que incluía Nissa e Jori, puxou suas cordas e lançou suas magias, levando a
porta de edros até seu lugar. Mas ela movia-se tão lentamente!
As mãos de Jace se agitaram em torno de sua ilusão, batendo a porta ilusória – fechando
e abrindo, fechando e abrindo. Em cada vez o anel se iluminava e o Ulamog em miniatura
estava preso. "Vamos! Vamos."
Ele olhou para Gideon, que agora estava cara a cara com o titã. O que o outro homem
esperava realizar lá em cima? Ele tinha que saber que ele não seria capaz de parar
Ulamog sozinho. Se o plano falhasse, se a armadilha não funcionasse, então Gideon seria
apenas o primeiro do exército a ser reduzido a pó.
Ulamog se arrastou mais para perto, os braços bifurcados se debatendo e atingindo em
direção a Gideon. Gideon exercia seu sural, chicotando um braço azul dobrado e depois
outro. Ele não de um passo sequer para trás; ao contrário, ele moveu-se para frente sobre
a rocha, mais para perto do titã. O que ele devia estar pensando agora, olhando
diretamente para a placa óssea vazia de Ulamog, vendo o monstro que não o via? Como
ele se sentia? Jace não estava nem um pouco tentado a realmente descobrir.
Incapaz de assistir por mais tempo, ele seguiu a linha de edros de volta até a porta. A
equipe tinha praticamente concluído o anel. Finalmente! Ele comparou-o a sua ilusão. Só
mais alguns centímetros...
"Sim! Aí!" Nissa gritou de sua posição pendurada em uma videira.
Sua declaração surpreendeu Jace. Ela estava certa? Ele olhou da ilusão para o anel real,
estudando os dois, comparando o posicionamento. Parecia que a elfa estava correta. Mas
sem o diagrama, como é que...
"Jace!" Gideon chamou. "Nós estamos prontos?" Sua voz não estava nada tensa, uma
contradição auditiva para a tensão em seu rosto enquanto ele empurrava contra o queixo
ossudo de Ulamog. "Eles podem prendê-lo lá dentro?"
Certo. Eles deveriam esperar por Jace para dizer-lhes que o conjunto estava de acordo
com o diagrama. "Sim! É isso aí. Prendam ele!"
"Prendam ele!" Munda repetiu o apelo de Jace.
Em resposta, três kor desceram em rapel para o lado do edro que tinha temporariamente
atuado como um marco da porta e fizeram a conexão final. Conforme os kor amarravam
suas cordas no lugar, Nissa fornecia um feitiço para cutucar o edro em um alinhamento
perfeito, e... Jace segurou a respiração. A luz. Onde estava a luz?
O anel não se iluminou com vida como deveria.
E o titã não foi contido dentro de seus limites.
Gideon se abaixou sob outro ataque dos tentáculos de Ulamog. "Já estamos prontos?"
"Por que não está brilhando?" Munda gritou.
Jace olhou para baixo para a simulação que ainda flutuava acima de sua palma. Ele abriu
e fechou a porta ilusória. Seu anel brilhava. Ele olhou da ilusão para o anel real. Por que
ele não estava brilhando? O que estava faltando?
"Alguma coisa está fora do lugar!" Nissa gritou para ele. Ela estava passando as mãos ao
longo do edro próximo dela. Ela encostou o rosto no lado da rocha maciça. "Há um
desalinhamento."
Ela estava certa? Com base em suas capacidades demonstradas, que Jace
reconhecidamente não entendia completamente, ele devia apenas assumir que ela estava
certa? No mínimo, ele devia eliminar a possibilidade antes de prosseguir. Ele não tinha
nada melhor para ir adiante. Seus olhos rastrearam seu diagrama e o anel, marcando um
edro de cada vez. Sim... sim... sim... Cada um estava onde deveria estar – e ainda assim...
"Eu acho que está vindo de lá!" Nissa apontou para os edros mais próximos de Portão
Marinho.
Como é que ela... – Jace girou a ilusão em 90 graus. O que ela via que ele não via? Ele
tinha feito todos os cálculos. Ele tinha medido o alinhamento.

Parte 5 (Final)

"Jace!" Gideon gritou. "O que você pode me dizer?" O homem enorme balançava abaixo
do braço de Ulamog e chicoteava a placa óssea do peito do titã.
Jace passou a mão pelo cabelo. Este era responsabilidade dele. A vida de Gideon. O
destino de Zendikar. Este era o enigma que ele tinha vindo até aqui para resolver, mas ele
não tinha a solução. Ele não tinha ideia de qual era o edro, ou mesmo se era um edro que
estava fora do lugar. Ele jogou ilusão para longe. E Nissa a pegou quando ela pousou na
rocha flutuante ao lado dele.
"O que..." Jace cambaleou para trás.
"Eu posso dizer que está vindo daquele lado", disse ela. Ela teve que gritar acima dos
sons de água e de guerra, embora eles estivessem bem ao lado um do outro. "Eu não
posso dizer qual é, porém, não a esta distância. Eu teria que ver todo o conjunto de uma
só vez, todas as conexões. Eu teria que ir lá para cima da costa, mas..."
"Não há tempo para isso", Jace terminou por ela.
"Correto." Os brilhantes olhos verdes de Nissa o perfuravam. "Mas eu acho que há outra
maneira. Uma maneira mais conveniente." Ela apontou para a ilusão. "Este diagrama de
energia sintética irá nos permitir ver."
"O que você quer dizer?"
"O quão confiante você está de que não existem imprecisões?"
"Na minha ilusão?"
"Eu posso ver?" Ela tocou a cabeça dele. "Daqui."
Ela estava convidando-o para entrar em sua mente?
Um grito por detrás dela e Jace olhou para cima a tempo de ver um kor ser atingido por um
dos tentáculos traseiros de Ulamog e ser jogado despencando.
Nissa não se virou. Ela descansou a mão no ombro de Jace, atraindo seu olhar de volta
para seus olhos magnéticos. "Se há uma maneira de identificar o desalinhamento, temos
de agir rapidamente. Se você não me permitir fazer isso, então eu não terei escolha senão
enfrentar o titã e tentar destruí-lo sem a armadilha. Eu não quero ter que fazer isso."
Jace balançou a cabeça. "E eu não quero que você tenha que fazer isso também."
"Então estamos de acordo", disse Nissa.
Tudo bem então. Para dentro da mente da elfa. Jace exalou e olhou nos selvagens olhos
verdes de Nissa... e então estava olhando pelos mesmo olhos.
Era como se o mundo inteiro estivesse em pegando fogo – se fogo fosse verde. No início
Jace pensou que o anel de edros tinha finalmente se iluminado, mas depois percebeu que
não era o próprio círculo que estava brilhando. Era a rede de linhas de força que corriam
entre cada par de edros. As linhas entrecruzadas em um intrincado padrão muito complexo
para reduzir a uma equação simples – ou a qualquer equação...
O padrão iluminava o espaço acima do mar, mas os edros não eram as únicas coisas que
brilhavam, muito longe disso. Tudo. Tudo estava ligado a algo mais por uma linha de força.
Os zendikari segurando as cordas, Gideon mantendo sua postura perante o titã, a raia do
patrulheiro batendo suas asas acima, a árvore à sua direita, a pedra sob seus pés. Havia
muito para processar, muito para analisar.
A mente de Jace girou. Ele perdeu o controle e começou a cair fora da mente de Nissa.
Ele tentou se segurar, mas como ele poderia saber no que deveria se segurar?
{Segure-se aqui}. Era a voz de Nissa e com ela veio o que parecia ser um berço de apoio.
Como ela estava fazendo isso? Jace agarrou a mão invisível e ele não caiu.
{Concentre-se}, disse ela. {Concentre-se em uma coisa de cada vez.} Ela dirigiu a atenção
dele para baixo, para o seu diagrama ilusório.
Jace respirou profundamente, concentrando-se naquela única coisa, apenas a ilusão. Ele
ainda podia ver o caos das linhas de força em sua visão periférica, mas ele a ignorou.
{Bom}, disse Nissa. Ela estendeu a mão para tocar a ilusão. {Posso?}
Por que não? Eles haviam chegado tão longe. {Sim.}
Nissa beliscou dois lados do círculo de edros e pegou a ilusão. Jace permitiu que a mente
dela o movesse enquanto a sua mantinha a forma. Ela puxou para fora, abrindo os braços
e esticando a ilusão, alargando o anel e aumentando os edros.
{Você fez todos os cálculos?}, ela disse. {Você está relativamente confiante de que está
correto?}
{Sim}, disse Jace. {Estou muito confiante de que tudo está onde deveria estar, mas...}
{Então isso vai funcionar.} Nissa lançou a ilusão sobre o mar, expandindo-o conforme o
fez, enviando-a para o anel real de edros.
Seu controle sobre a ilusão era instável e desajeitado, mas Jace compreendeu
imediatamente o que ela estava tentando fazer. Seu coração pulou. Brilhante! Ele assumiu
o controle, habilmente dirigindo a ilusão para o lugar, habilmente aumentando-a até que
ela estivesse em tamanho natural, fazendo com que cada um dos edros ilusórios fosse tão
grande quanto o seu homólogo de pedra. Nissa não sabia como alinhá-los, mas ele sabia.
Cada um deles encontrou o seu par real – exceto um.
{Lá.} Nissa disse, percebendo o problema ao mesmo tempo em que Jace o percebeu. O
edro estava inclinado; ele deve ter se movido em algum momento depois de ser
cuidadosamente travado no lugar.
{Temos de...} Jace começou, mas Nissa já tinha ido, saltando em direção ao edro fora de
lugar. Ela soltou a mente dele enquanto ela pulava para fora da rocha – ela lançou a
mente dele, e não o contrário. Ela não exatamente o expulsou de lá, mas ele não achava
que ele poderia ter ficado se ele quisesse. Isso era uma coisa poderosa. Esta elfa era
poderosa.
Jace cambaleou sobre seus próprios dois pés, olhando através de seus próprios olhos a
um mundo maçante. A rede tinha sumido, as conexões tinham desaparecido. O caos havia
desaparecido. Era tanto um alívio quanto uma decepção. Era uma sensação estranha
saber que havia tão pouco – das linhas de força, do mundo – que ele podia realmente ver.
_
A única coisa que Gideon podia ver era o branco irregular de osso: a grossa placa facial de
Ulamog. O titã estava muito perto; a armadilha devia tê-lo detido por agora, ele deveria ter
sido contido. Mas algo tinha dado errado.
Gideon tinha estado preparando-se para este momento desde a primeira vez que ele tinha
ouvido Jace explicar o plano. Ele acreditava que iria funcionar, ele havia confiado no mago
da mente – e ele ainda confiava – mas ele sempre soube que havia uma possibilidade de
que algo daria errado. Jace sabia disso também. É por isso que Gideon tinha se
posicionado aqui sobre esta pedra. Ele era a última linha de defesa. Ele ficou entre Portão
Marinho e Ulamog, e ele iria manter sua posição durante o tempo que levasse para
montarem a armadilha.
E se eles não pudessem montá-la, se chegasse a esse ponto, então Gideon ordenaria
uma evacuação. E ele iria segurar o titã até que seu exército pudesse chegar à segurança.
Mas não era tempo para isso ainda. Ele poderia aguentar um pouco mais. Eles só
precisavam de um pouco mais...
Um dos tentáculos de Ulamog subiu através do ar, mirado diretamente para Gideon.
Espirais de invulnerabilidade entraram em erupção sobre a pele dele em antecipação da
colisão.
Gideon absorveu o golpe, cerrando os dentes sob o peso. Um segundo tentáculo fez seu
caminho vindo do outro lado. Ele mudou o foco de sua proteção.
Quanto mais tempo ele deveria esperar? Ele atacou para afastar os dedos de Ulamog.
Apenas um pouco mais...
O titã se inclinou para frente, caindo em direção a Gideon. Gideon cravou os pés na rocha
e olhou direto para onde ele imaginava que os olhos do titã estariam. "Você não passar por
mim." Ele virou seu ombro para receber o peito de Ulamog, concentrando toda a sua
energia naquele único ponto, o ponto de impacto. Ele se aterrou, apertando todos os
músculos do seu corpo, empurrando para trás.
Era como se o peso de um mundo inteiro estivesse sendo dirigido contra ele.
Ele sentiu seus pés começarem a cair. Era a hora? Ele abriu a boca para dar a ordem,
mas depois a fechou. Ele poderia aguentar um pouco mais. Eles precisavam apenas de
um pouco mais...
Gideon fechou os olhos, exalando um rugido com o esforço.
Ele estava perdendo terreno.
Então, de repente, um flash azul iluminou o interior de suas pálpebras, e a pressão em seu
ombro desapareceu.
Gideon cambaleou para frente com o impulso armazenado da força que ele tinha exercido
sobre o titã. Ele se conteve antes que ele caísse para fora da parte dianteira da pedra
flutuante... o que significava que não havia mais nada na frente dele para parar a sua
queda. Ele já não estava mais cara a cara com o titã.
Ulamog tinha sido puxado para dentro dos limites da prisão de edros – e a prisão estava
brilhando, brilhando em um azul brilhante. O brilho inundou Portão Marinho, abafando a
sombra do grande Eldrazi.
"Ha!" Gideon jogou o sural no ar. Eles haviam conseguido. Ulamog estava preso.
Um grito de comemoração se levantou de trás dele enquanto Nissa aterrissava
graciosamente sobre a rocha ao lado dele, deixando uma vinha balançando atrás dela.
"Nós conseguimos", disse ela.
"Nós conseguimos", Gideon concordou, seus olhos se conectando com os de Jace do
outro lado do mar. "Nós conseguimos."

De sua estação no topo de um penhasco, Ebi gritou para comemorar. Eles haviam
conseguido. O titã. Ulamog. Preso. Ebi cambaleou para trás, lágrimas em seus olhos.
Ainda havia esperança. Havia ainda uma chance de salvar este mundo.
Um grito ecoou dos Zendikari abaixo e Ebi juntou sua voz às deles. "Por Zendikar!"
Quando ele levantou o punho no ar, uma sombra caiu sobre ele. Antes que ele pudesse
olhar para cima, um demônio aterrissou na rocha na frente dele.
Ebi balançou sua arma, mas o demônio pegou seu braço no ar. "É lamentável, mas parece
que você está no lugar errado na hora errada." O demônio empurrou Ebi contra a face da
rocha atrás dele, sua grossa mão negra em torno do pescoço de Ebi.
Ebi tentou gritar. Ele tinha que avisar os outros. Ele era um sentinela. Gideon estava
contando com ele.
"Shhh." O demônio apertou. Ebi podia sentir a sua vida se esvaindo. "Console-se por
saber que você não vai estar aqui para testemunhar a morte de Zendikar."
O mundo ficou preto.

A QUALQUER CUSTO
Parte 1

Ob Nixilis está tendo um dia ruim.


As coisas estavam indo tão bem. Ele tinha capturado o poder do Coração de Khalni que
ele havia realocado e com este poder ele tinha forjado uma conexão com a mana pura de
Zendikar. Ele estava finalmente pronto para utilizar a rede edros de Zendikar e restaurar
sua centelha Planinauta – e, de repente, veio o desastre na forma da elfa Planinauta Nissa
Revane.
Nissa tirou o Coração de Khalni do demônio quase Planinauta, reparou sua própria
conexão com Zendikar e derrubou toneladas de rocha e solo em cima dele.
Foi um revés. Mas Ob Nixilis não tinha chegado tão longe para desistir agora.
_
Dor.
Uma modesta melhora em relação ao vazio que eu estava esperando. Isso só podia
significar uma coisa.
Ela me deixou vivo.
Eu ri. Não havia mais nada para fazer, na verdade. Meu corpo fora quebrado em uma
dúzia de lugares pela queda da caverna e eu estava completamente preso nesse lugar. O
ato de rir disparou ondas de agonia por todo o meu corpo e eu usei a dor para diagnosticar
minhas lesões. Elas eram graves, mas eu iria me curar.
Eu estava respirando. O que era bom. Respirações superficiais, dolorosas, com pedra e
areia pressionando por cima de mim, mas eu estava claramente conseguindo ar fresco o
suficiente para me manter consciente. Isso significava que eu não estava muito longe da
superfície. Ou, talvez, que eu só estivesse perto o suficiente de um bolsão de ar que se
exauriria em breve. Nenhuma das opções era extremamente boa. Mas eu estava vivo.
Derrota, se você sobrevive a uma, deve significar tempo para reflexão. A incontida
arrogância causou a morte de inúmeros pretensos senhores da guerra. Afinal, quantos
destes eu mesmo não matei devido a sua arrogância ao longo dos milênios? Aqui,
enterrado vivo, aos pés de uma derrota humilhante, eu decidi que iria aproveitar a
oportunidade que me fora dada.
Tinha sido um plano muito bom. Sincronizar uma rede de edros com o Coração de Khalni
e usá-lo para canalizar energia planar suficiente através do meu corpo para reacender
minha centelha. Havia uma boa chance de me matar, sim, mas eu já tinha há muito parado
de me preocupar com isso agora. E sim, eu sabia que desde algumas décadas atrás, ser
um Planinauta não é como costumava ser. É bem melhor, na verdade. A ideia de que
havia inúmeros planos lá fora que tinham perdido seus protetores divinos e campeões!
Imagine o caos que a Emenda teria feito no Multiverso! Caos como esse precisa ser
reprimido. Caos como esse precisa ser escravizado e eu sou a pessoa perfeita para a
tarefa.
O plano era bom, mas o plano falhou. A ideia de que algum Planinauta, além de Nahiri,
teria algum interesse em salvar esse plano horrível realmente não foi algo considerado em
meu processo de planejamento. Eu tinha contingências planejadas para ela, mas eu
admito que eu não estava preparado para uma Joraga louca, capaz de manipular o poder
do coração de um mundo agonizante, aparecendo horas antes do meu ritual ser
completado, destruindo o valioso trabalho de um século e me enterrando vivo.
Eu estava irritado.
Havia um problema maior e era que todas as minhas tropas estavam em um vale, por
assim dizer. Eu não sabia quanto tempo Zendikar tinha antes dos Eldrazi destruírem o
plano e mesmo levando em conta o que eu tinha aprendido, eu não tinha outro meio
século para recriar o meu trabalho. No ritmo em que as coisas estavam progredindo,
Zendikar estaria irremediavelmente danificado dentro de um ano. Sem mencionar que não
havia outra fonte de energia como o Coração de Khalni deixado no plano. Bem, havia uma.
Mas mesmo eu não estava tão desesperado. Ainda não.
Então, listei as minhas opções. Opção um: tentar replicar o meu trabalho. Complicação: Os
Eldrazi quase certamente irão destruir o plano, e eu irei junto, muito antes de ter sucesso.
Talvez tivesse uma sorte extraordinária e topasse em cima de outra fonte de energia, mas
apenas os tolos contam com a sorte, e eu não tinha a intenção de começar agora.
Opção dois: eu ir atrás da elfa e traria o Coração de volta. Complicação: Enfrentar um
Planinauta no meu estado atual soa como uma batalha perdida, especialmente uma que
tenha o Coração de Khalni à sua disposição. Especialmente uma que já me derrotou
quando eu estava em plena força. Não há nenhuma honra ou dignidade em uma investida
inútil contra um inimigo superior, apesar do que eu possa ter dito a um general ou dois, em
momentos em que eu precisei que as coisas fossem resolvidas rapidamente.
Opção três: Me aliar a um poder maior. Essa nunca seria a minha primeira escolha, mas
às vezes, é a única maneira. Eu estudei os Eldrazi quase tão completamente quanto
estudei os edros. Embora não se possa negociar com eles, eles já haviam mostrado
disposição para trabalhar com aliados – o velho Kalitas aprendeu isso da pior maneira
possível – e eu, certamente, os ajudaria com gosto a reduzir este mundo a cinzas no final.
Mas o que aconteceria então? Eles não têm nenhum senso de gratidão, nenhum senso de
justiça. A ideia de que eles iriam me recompensar de alguma forma seria impossivelmente
alienígena para eles. Uma vitória sem lucros é apenas o tipo mais palatável de derrota.
Tempo. Eu precisava de mais tempo!
A solução veio até mim e eu ri novamente. Barulhento, alheio à dor. Eu ri até chorar
lágrimas fundidas. Depois de todos estes séculos, nada me diverte tanto quanto a ironia.
Havia exatamente uma única maneira de ganhar-me o tempo necessário para recriar o
meu trabalho.
Eu terei que salvar Zendikar.

Parte 2

Prioridades primeiro. Enterrado vivo. Eu não tinha certeza exatamente quanto tempo tinha
se passado. Eu estava longe de estar curado, mas quando você está em contagem
regressiva para o fim do mundo, você pode pegar um atalho às vezes. Eu me estendi para
a área em torno de mim e tentei extinguir qualquer vida nas proximidades, drenando sua
energia para mim. Uma magia simples e, pode-se dizer, uma especialidade. Mas quando
eu me estendi... nada. Eu estava enterrado em Bala Ged, um lugar despojado de toda a
vida por Ulamog. Não havia nem mesmo um inseto, um verme, uma folha de grama para
eu drenar sua força. Desta vez, eu achei menos graça da ironia. Eu lutei pelo que devem
ter sido horas antes de eu finalmente conseguir deslocar as pedras sobre mim. Enquanto
fazia isso, eu imaginava milhares de maneiras prazerosas de acabar com a miserável
existência da elfa. Todo o processo de fuga levou dias. Um punhado de ideias pareciam
viáveis.
A partir daí, o próximo passo era desenterrar o que eu pudesse da minha rede de edros.
Mesmo com um punhado deles, eu poderia efetivamente construir uma "bússola" de linhas
de força – algo que me apontaria uma ideia da distribuição de energia no que restava do
plano. Se houvesse uma defesa por Zendikar, a Joraga estaria no centro dela, drenando o
poder do Coração de Khalni, e isso era algo que eu poderia rastrear.
O trabalho foi lento, o que me deu muito tempo para pensar. Os rebentos de Ulamog eram
uma força implacável, incapaz de raciocinar, e as várias monstruosidades que os
comandavam possuíam um poder absoluto do tipo que eu raramente tinha visto. Ainda
assim, era o aspecto irracional da sua natureza que proporcionava a oportunidade. Tudo o
que eu precisaria era de uma força devidamente coordenada, de poder suficiente e de um
sentido de auto-preservação insuficiente que me desse a oportunidade de atacar. Eu tinha
certeza que os Zendikari estavam ocupados levantando tal força, mesmo que eu não
tivesse vontade de liderar ela. Os titãs tinham ficado presos por um longo tempo e eles
poderiam ser contidos de novo; Eu não precisava deles destruídos, ou mesmo
incapacitados permanentemente. Muito pelo contrário – seria um prazer dar aos monstros
o banquete que mereciam. Eu simplesmente não tinha a intenção de ser um dos pratos.
Eu passei algum tempo decifrando exatamente o que Nahiri tinha feito comigo. E agora eu
estava prestes a fazer o mesmo com Ulamog: usar um edro para prender uma ameaça
extraplanar e salvar Zendikar. Eu me perguntei se Nahiri ficaria satisfeita ou com nojo em
saber que era eu quem estaria fazendo seu trabalho por ela agora. Eu achei ambas as
opções hilárias.
Eu escavei a terra por mais de um dia antes de encontrar o que eu estava procurando: um
edro, não maior do que a minha cabeça, esculpido e vivo com poder. Era a chave da rede
de edros que eu tinha criado – exatamente a coisa certa para prender Ulamog e diminuir
seu poder. Eu olhei para ele com certa quantidade de admiração. Havia espaço no meu
ódio à Nahiri para admirar sua genialidade. Criar algo de tal poder e conter esse poder em
um objeto que poderia sobreviver por milênios ou mais! Se Nahiri não havia retornado para
ajudar a evitar a destruição de Zendikar, era quase certo que isso significava que ela
estava morta. Isso me deixou um pouco triste, realmente, imaginar que eu nunca teria a
chance de enfrentá-la novamente.
Bem. Isso era sentimento suficiente para durar mais uma década. Ou, mais
provavelmente, para o resto da minha vida.
Emiti um pulso de magia através de dois dos maiores edros em minha rede e eles
flutuaram acima da terra, girando lentamente, até se encontrarem alinhados. A partir daí,
eu ativei a pedra-chave, movendo-a lentamente em torno do par, sentindo-a empurrar e
puxar a energia das pedras. Litomancia era uma arte sutil e embora eu soubesse que tinha
apenas arranhado a superfície de seu todo, ela continuava a me oferecer uma
versatilidade de mágicas que eu não havia conhecido antes. A função básica de um edro é
redirecionar energia – mas essa função simples pode ser usada para reforçar, invocar,
aprisionar ou destruir.
Uma imagem de peso, de gravidade e de distância surgiu em minha mente e corpo, e eu
me esforcei para compreendê-la. A localização da elfa foi bastante fácil de obter;
fortalecida pelo Coração, ela se destacava como o sol. Mas havia algo mais, uma
canalização de mana que parecia tanto abominável quanto familiar. Eles estavam
próximos um do outro; o que quer que fosse era provavelmente onde os Zendikari
estavam, sua última linha de defesa. Tazeem. Portão Marinho, se a memória não me
falhava. Um belo lugar para um massacre.
Eu abri as minhas asas.
Coisas maravilhosas, realmente, e eu não fazia muito uso delas. Eles faziam as viagens
um pouco mais suportáveis e mover-se entre os continentes de Zendikar um sofrimento
menor. Os céus ofereciam um gosto de liberdade, mas também serviam como um
lembrete amargo do que eu havia perdido. A liberdade dos céus era nada perto da que o
Multiverso uma vez me ofereceu. Por outro lado, você não vê muitos demônios em barcos
e há algumas razões muito boas para isso.
Voei ao longo das costas, preferindo evitar voar acima do mar aberto, exceto quando
necessário para alcançar Tazeem. Os céus eram altamente desprovidos de vida. Com
olhos atentos, você poderia avistar algumas proles flutuantes de Ulamog, mas eles não
estavam interessados em mim e nem eu neles. Pássaros eram raros. Anjos, felizmente,
tinham desaparecido.
Quando os Eldrazi ascenderam, os anjos batalharam. Adorável, realmente. Não eram
guerreiros ruins, pra ser sincero, mas eles agiram sob a ilusão de que aquela era uma
batalha que poderiam ganhar. Os anjos batalharam e, em grande quantidade, morreram.
Muito raramente, se avistava uma prole solitária de Emrakul flutuando, fazendo o que quer
que fosse que uma prole dela fazia. Mas na maior parte do tempo, os céus eram meus.
Um céu aberto, um luminoso sol brilhando sob mim, nuvens pacíficas à deriva dos ventos.
E eu sentia isso tudo como um peso opressivo, um confinamento – aquele horizonte
distante era um pesadelo claustrofóbico. Mas em breve esse horizonte iria desaparecer. E
de uma forma ou de outra, eu também iria.

A QUALQUER CUSTO
Parte 3 (Final)

À medida que cobria os quilômetros em minha viagem a Portão Marinho, ficou claro que
eu estava indo para o lugar certo. De um lado, havia terras devastadas intermináveis – o
próprio Ulamog deixara uma trilha até este lugar, deixando silêncio e poeira em seu
caminho. Do outro lado, uma acabada caravana de abastecimento abria seu caminho
através de Tazeem. Refugiados e combatentes (embora não se pudesse realmente
apontar a diferença entre eles) indo para o muro; A última linha de frente de Zendikar já
estava a acontecendo.
Eu podia ouvir o rugido da batalha a quilômetros de distância. Uma coisa tão bonita. Mas
não foi nada comparado com o que eu vi quando cheguei ao muro.
Exércitos confrontando-se, proles e Zendikari abatidos aos milhares, e, elevando-se acima
de todos, Ulamog. Preso.
Em uma enorme rede de edros.
Eu precisei de um momento para absorver tudo. Eu não consegui conter o sorriso em meu
rosto. A rede era enorme. Os Zendikari tinham realizado com força bruta o que tinha me
levado décadas para concluir através de cuidado e sutileza. Ao utilizar os edros estruturais
gigantescos, eles foram capazes de captar a energia de todo o plano – meu trabalho com
o Coração de Khalni era essencialmente um modelo em miniatura do que eles haviam
feito. O alinhamento era cru e amador, mesmo para meu padrão amador, mas era estável.
Só um tolo conta com a sorte, mas é ainda mais tolo aquele não consegue tirar proveito
dela. A "opção um" estava de volta à ativa.
Eu encontrei um bom ponto de vantagem para estudar a rede, eliminando calmamente as
sentinelas kor que estavam usando o local como estação de vigia. A rede estava se
esforçando para conter Ulamog, mas o titã estava começando a enfraquecer também. Eu
estava impressionado. Os Zendikari até poderiam realmente ser capazes de matá-lo.
Estavam de parabéns pelo esforço e criatividade. Mas era hora de adicionar um pequeno
problema àquele plano.
Eu voei para cima, bem alto acima da batalha. Fui avistado pelos kor em seus
aeromveleiros, mas eles não me atacaram – sua atenção estava voltada a conter as proles
e veicular a informação para a batalha abaixo. O edro-chave seguiu atrás de mim e
começou a reagir à incrível energia da rede. Suas runas brilhavam com uma luz violenta,
sobrecarregado pelo fluxo das linhas de energia. Eu o coloquei no lugar, fixei-o em um
ponto harmônico, precisamente acima do centro do anel. Ele começou a girar, um vórtice
de energia que enviou uma carga elétrica entorpecendo todo o meu corpo. Eu vacilei no ar
por um momento – meu coração estava batendo fortemente e eu respirava com
dificuldade.
Eu tinha esperado tanto tempo por isso. Muito, muito tempo.
Eu falei três palavras.
Naquele momento, tudo começou novamente.
A energia oprimia meus sentidos: Minha visão queimava em branco e eu não podia sentir
meu corpo. O poder queimava através de mim, uma enchente de agonia e perfeição,
profundamente dentro do meu núcleo, primeiro como um lampejo, e, em seguida, como
uma chama ardente, minha centelha. Minha centelha retornou.
O Multiverso estendeu-se diante de mim mais uma vez! Eu podia sentir os mundos,
incontáveis mundos, familiares e novos, espalhados em infinitas telas de realidades. Eu os
sentia como pontos de luz, faróis de energia à distância. O sonho que eu tinha há milênios
estava finalmente em minhas mãos, eu poderia deixar este lugar terrível! Eu comecei a
desaparecer, para qualquer lugar que não fosse aqui...
Não. Ainda não. Eu não tinha terminado meu trabalho aqui. Não ainda.
Eu me desliguei do fluxo de mana, o poder correndo por mim. Um estalo de meus dedos e
um dos edros estruturais saiu do alinhamento. A pura força das linhas de energia segurou-
a no lugar por mais um momento, mas depois, dolorosamente devagar, ele caiu para o
mundo abaixo. Houve gritos de terror e incredulidade; Ulamog debateu-se e o resto da
rede desintegrou-se. E abaixo, tão longe abaixo de mim, eu a avistei. A pequena elfa. Ela
devia saber o que estava acontecendo, ela devia sentir em seus ossos. Sim. Lá. Ela olhou
para mim, um olhar composto de choque e absoluto e total desespero. Foi um bom
começo. Mas eu estava longe de estar satisfeito.
Uma por uma, eu senti minhas conexões com mundos conquistados por mim
reaparecendo. Nem todos eles, mas o suficiente. Fazia tanto tempo. Eu soltei um enorme
raio de aniquilação para o exército abaixo, cortando sua retirada e forçando-o de volta para
o caminho de Ulamog. Os Zendikari estavam morrendo, centenas a cada segundo, e eu
podia sentir o gosto de cada vida se apagando – crocantes, suculentas e doces.
Um grupo organizado estava se formando nas fileiras abaixo. Alguns Planinautas estavam
desesperadamente tentando organizar uma retirada, não que houvesse qualquer lugar
significativo para eles irem. Inundado com o poder, eu não queria nada mais do que
descer lá e acabar com todos eles – e eu iria – mas eu me contive. Ainda não. Ainda não.
Havia uma última coisa que eu precisava fazer antes.
Profundamente abaixo da superfície, ele já estava começando a se mexer. Eu sussurrei
para ele, independentemente da distância. Não me atrevi a focar minha mente diretamente
sobre ele – a realidade recuou e se fragmentou apenas por meus pensamentos se
direcionarem a ele. Mas o poder estava lá, e poder falava com poder. Ele não tinha uma
consciência, não em qualquer sentido que eu pudesse descrever, mas tinha uma vontade,
e essa vontade não queria nada mais do que um propósito.
Eu ri. Eu não havia sentido alegria assim antes, nunca. Nenhum triunfo, nenhuma glória
era maior do que isso. Seres de poder... Seres de poder querem ser chamados! Com a
minha centelha de volta, era a coisa mais fácil do mundo.
Só mais uma palavra. Uma pequena palavra foi o suficiente. O mundo tremeu quando eu a
disse. A destruição de Zendikar estava aqui, finalmente.
Estendi a mão para o sul e fechei-a. O despertei totalmente com a pura força da minha
vontade. A minha palavra seria a última desse plano miserável, e eu a gritei do centro de
minha alma.

"LEVANTE-SE!"

PROMESSAS A MANTER
Parte 1

Semanas atrás, Chandra Nalaar decidiu não se envolver com os problemas de Zendikar.
Ela permanece no plano Regatha, onde ela aceitou a posição de abade de um mosteiro de
monges piromantes. Seus pensamentos muitas vezes desviam para a batalha
acontecendo atualmente em Zendikar, a dor que seus amigos podem estar sofrendo lá – e
a ajuda que ela poderia estar fornecendo. Mas ela prometeu cumprir seus deveres em
Regatha e uma promessa é uma promessa.
_
O sono não vinha e não era uma opção de qualquer maneira.
Uma pilha de páginas de pergaminho estava no chão do dormitório de Chandra. Mesmo
com as costas contra o canto mais afastado do quarto, Chandra ainda podia ler as linhas
que tinha escrito na página superior:
MINHA ORAÇÃO DE INSPIRAÇÃO, pela abade Nalaar.
Isso era tudo.
A pena estava no mesmo lugar onde ela a havia deixado – enfiada na parede de alvenaria.
Chandra sentia seu cérebro tentando se contorcer para fora de seu crânio.
Amanhã ela iria dar o tradicional Discurso do Monte Keralia. Amanhã ela iria impressionar
Mãe Luti e todos os seus alunos com uma ladainha bem planejada de manifestações
piromânticas, algumas palavras estimulantes que provavelmente evocariam a amada Jaya
deles, e talvez algumas metáforas baseadas em fogo. Ela iria provar-se digna de ser a
abade de Fortaleza Keral, como cada abade tinha provado desde o começo dos tempos,
provavelmente.
Ela caiu para trás em sua cama vestindo suas vestes de abade, olhando para o teto de
seu dormitório.
Esta é a vida que você escolheu, ela se lembrou.
Ela tinha feito uma promessa. Não importava o que estava acontecendo em Zendikar, não
importava o quanto eles poderiam precisar dela, não importava o quão libertador poderia
ser fazer parte dessa batalha. Este era o seu papel agora.
Ela considerou a pena presa na parede e, lentamente, seus olhos se voltaram para a
porta. Ela se levantou e caminhou até a porta. Ela se inclinou para fora, olhando para trás
e para frente pelos corredores da Fortaleza. Sombras dançavam de braseiros acesos: as
lanternas da noite. A Fortaleza ficaria em silêncio por horas.
É assim que deve ser manter uma promessa, ela disse a si mesma. Você não é mais uma
criança. Isto é o que significa ter – ela se equilibrou no batente da porta com uma mão e
forçou-se a pensar na próxima palavra – responsabilidade.
Ela mordeu o lábio, de pé na porta, verificando os dois lados do corredor mais uma vez.
Então ela fechou a porta de seu quarto com firmeza.
Ela olhou para o discurso não escrito e o pote quase intocado de tinta.
Ela plantou seus pés, apertou o cinto de suas vestes de abade em torno de sua cintura e
olhou para frente para a parede oposta.
Apenas uma olhadinha, ela pensou.
Ela pressionou sua consciência contra a localidade em torno dela, forçando-a a mudar.
Zendikar.
Seu quarto se dissolveu. As paredes tornaram-se ar úmido da noite. O chão de pedra
tornou-se uma encosta cheia de pedras. O teto se tornou um céu escuro repleto de
massas de terra flutuantes e formas de diamante inclinadas.
Chandra agachou-se instintivamente. Fazia centenas de dias, talvez mil, desde que a
sujeira de Zendikar tinha borrado o seu rosto pela última vez. Ela ainda podia sentir o
cheiro da terra rica, a pureza sem entraves do lugar, a noção de advertência no ar. Mas
havia algo de novo – um cheiro de pó seco. Um cheiro de drenagem.
Seu coração batia forte. Ela enxugou as palmas das mãos em seu manto cerimonial. Ela
se sentiu de repente despreparada, mal equipada para os grandes perigos de Zendikar.
Isto lhe roubou o fôlego.
Ela estava cercada por árvores de troncos rodopiantes e rochedos pontiagudos. Ela correu
para terreno elevado para ter um vislumbre de onde estava. A terra caía diante dela,
dando lugar a um mar cintilante. Além do mar se elevava uma cidade de torres de pedras
brancas – Portão Marinho! Ela tinha conseguido transplanar para perto de seu objetivo,
perto de onde Gideon tinha dito para encontrá-lo. As torres brancas estavam ancoradas
por uma poderosa parede e sobre o mar flutuava uma coleção semicircular de edros, suas
runas brilhando na noite, refletindo nas pontas das ondas.
À distância, Chandra viu uma vasta silhueta estranha no horizonte que ela não
reconheceu. Era provavelmente uma das cordilheiras de Zendikar que desafiam a
gravidade, distorcida em enormidade pela luz fraca.
E logo abaixo dela, na base de um penhasco, havia pessoas. Alguns dos quais ela
conhecia. Gideon estava gritando ordens, parecendo tão natural em um papel de liderança
como em sua armadura.
"Cuidado agora – assim está bom" Gideon estava dizendo. "Tudo certo. Equipe do Portão,
puxem!"
Chandra seguiu a linha dos olhos de Gideon. Um dos maiores edros, pairando sobre a
água, estava se movendo. Na verdade, ela podia ver as equipes de figuras guiando-o ao
longo da superfície da água, transportando-o através do ar com cordas pesadas e feitiços.
Trabalhadores kor ao longo do paredão puxavam suas cordas, pastoreando o edro
gradualmente até seu lugar.
"E... parem aí!" Gideon gritou.
Uma segunda equipe puxou numa direção oposta. O edro em movimento desacelerou até
uma parada em seu lugar no círculo.
"O posicionamento este bom", disse Gideon. "A altitude está boa. Próxima equipe,
preparem suas cordas!"
Eles estão fazendo isso, ela pensou. Meus amigos estão fazendo isso. Eles vieram até
aqui e eles estão ajudando. Eles estão salvando este mundo.
Chandra deu um soco involuntário no ar de orgulho – fazendo-a tropeçar por vertigem na
beira do precipício. Ela se segurou, mas um aglomerado de pedras caiu pela trilha abaixo
atrás dela.
"Temos movimento! Temos movimento!", veio um grito de mulher de cima dela.
Chandra abaixou-se entre duas árvores curvas, dobrando a cabeça sobre um galho, e
olhou para cima. Acima dela voava uma batedora: o amplo corpo de uma raia celeste
deslizando através do ar, com uma elfa segurando as rédeas. A raia girou bruscamente e
a batedora olhou para baixo por toda a área onde Chandra se escondia.
"Movimento nas árvores daquele lado!", a elfa gritou para baixo.
Ela ouviu Gideon responder de baixo. "Faça outra passagem", ele gritou. "Eu preciso saber
quantos e quão grandes."
O piloto da raia começou uma grande virada para dobrar de volta para a posição de
Chandra. Chandra tinha apenas momentos antes que os olhos afiados da olheira a
descobrissem. Chandra não estava aqui para ficar. Apenas uma olhadinha.
Chandra correu pela trilha que ela tinha subido, meio que derrapando para baixo da
encosta. Ela começou a deslizar sobre as pedras soltas e conseguiu segurar-se em uma
pedra de formato estranho – apenas para dar de cara com outro tipo completamente
diferente de problema.
Quando ela parou, ela estava cara a placa facial com um trio de criaturas angulares de
carne com nervuras e cabeças ósseas. Eles tinham a impressão perturbadora de usar
suas entranhas pelo lado de fora.

Parte 2

Eldrazi. Estes eram os Eldrazi. As criaturas que afligiam este mundo, contra quem Gideon
e Jace tinham pedido sua ajuda para lutar.
O maior deles soltou um barulho, um silvo assobiado, e os outros responderam no mesmo
tom, se movendo em direção à Chandra.
"Não, não, não", ela sussurrou. Chandra olhou para cima. A batedora elfa estava voltando
em sua direção, mas ainda não tinha concluído a sua volta. Ela olhou de volta para seus
oponentes bem a tempo de ver um deles atacando o rosto dela com uma de suas pernas
laminadas.
Ela se esquivou, mas outro dos Eldrazi estava sobre ela, prendendo seu braço contra uma
pedra. Ela forçou o braço até ficar livre, mas o terceiro pulou em cima dela, agarrando seu
cabelo com pinças viscosas.
"Tenha modos!" ela murmurou, agarrando o osso esterno da criatura e a arremessando
para longe.
O maior deles desabou sobre ela, forçando o seu peso sobre os ombros dela, somando-se
ao peso do manto de abade. Ela sentiu os membros dianteiros serrilhados do Eldrazi
tentando imobilizá-la – ou esmagá-la de vez.
Ela resmungou sob o peso, tentando manter o equilíbrio. Sua espinha dobrou
dolorosamente e ela caiu sobre os joelhos. Ela empurrou para cima as pernas da criatura e
a espinha se quebrou sob a força de suas mãos. Ainda assim, o monstro pressionava para
baixo e a careta de esforço de Chandra tornou-se um grunhido. Ela convocou toda a sua
força, posicionou seus pés e empurrou de volta o Eldrazi.
"Rah-AGHH!"
A coisa caiu de cima dela e ela estava livre por um momento.
A raia celeste passou sobre ela. A batedora a havia visto? A elfa assobiou e a raia voadora
virou novamente, descendo mais no céu conforme se voltava para Chandra.
Não havia tempo. Chandra observou as criaturas Eldrazi e sentiu sua pele formigar com o
calor. Ela dobrou e girou seu corpo e o giro tornou-se raiva e a raiva tornou-se fogo.
Ela emitiu uma cúpula da chama, saindo de seu corpo em todas as direções. Por um
momento, tudo o que ela viu foi o flash de seu próprio fogo, mas então ela viu a noite em
volta dela novamente, e as criaturas estavam caídas de costas, mas ainda vivas. Seus
corpos e pernas chamuscados moviam-se para tentar ficar de pé.
Sem tempo, sem tempo, sem tempo.
Eles voltaram à posição vertical e vieram chiando até ela. Ela cruzou os braços na frente
dela, conjurou mana da montanha sob seus pés – e abriu os braços para os lados, criando
uma lâmina em X de fogo que atravessou cada um deles.
As criaturas ficaram imóveis, cada uma silenciosamente soltando fumaça de sua própria
cratera pessoal.
Ela apertou os punhos em triunfo. Ela meio que gritou, mas se conteve e bateu com a mão
sobre sua boca. Ela olhou para cima novamente, caminhando de volta para baixo da linha
das árvores. A batedora elfa passou sobre ela, olhos sobre os cadáveres Eldrazi
fumegantes.
Seu corpo tremia, uma batida de medo e alegria martelando dentro dela. Ela pressionou as
costas contra um tronco de árvore, cobrindo o vidro reflexivo de seus óculos com a manga
de seu manto, na esperança de ficar escondida.
É isso aí. É tudo o que vim fazer. Basta saber que estão a salvo. Basta saber que eles não
precisam de mim.
Ela começou a transplanar de volta para Regatha. A paisagem de Zendikar começou a
derreter em torno dela. Ela se permitiu mais uma olhada de volta para Gideon e os outros.
Foi quando ela viu aquela forma no horizonte – a coisa que ela tinha descartado como
uma massa de terra flutuante ou montanha irregular.
Nos primeiros raios do amanhecer, ela podia ver que a forma gigante no horizonte se
movia. Ela lentamente ondulava seus membros, o que significava que tinha membros.
Suas mandíbulas gêmeas brilhavam pálidas e irregulares no meio da noite.
Não estava apenas distante. Estava se aproximando. Ele estava indo em direção a Portão
Marinho, em direção a Gideon e os outros, esculpindo seu caminho de morte em todo o
mundo. Ela ameaçava destruir toda a vida em seu caminho.
As criaturas com que ela tinha lutado, aqueles eram insignificantes em comparação com
esta monstruosidade. Isto – Ulamog – isto era o verdadeiro desafio da batalha. Isto era o
que causara aquele cheiro de morte e poeira que era novo para o mundo e que seus
amigos estavam arriscando suas vidas para enfrentar.
Isto era o que ela tinha ajudado a libertar.
Mas a imagem de Ulamog se dissolveu, uma sombra ondulante em suas retinas. Ela já
estava transplanando para longe de lá. Regatha apareceu na existência ao redor dela,
substituindo o trecho de terra que levava aos edros, que levava aos seus amigos, que
levava ao titã Eldrazi. Seu quarto se iluminou conforme se formou ao seu redor, luz da
manhã entrando pelas janelas.
"Não", ela disse em voz alta.
O som de batidas urgentes à porta veio aos ouvidos de Chandra quando o mundo
ressurgiu. A porta escancarou e a cara irritada de Mãe Luti emergiu. Para Chandra,
parecia que ela estava brilhando através de uma pós-imagem ainda persistente de
Ulamog.
"Chandra?" Mãe Luti repreendeu. "Você está pronta? O Discurso! Os cânticos já
começaram!"
A boca de Chandra estava aberta.
"Você não vai fugir às suas responsabilidades aqui, Abade Nalaar", disse a Mãe Luti.
"Você não vai quebrar sua promessa." Com isso, Mãe Luti saiu para o corredor.
Chandra lentamente fechou a boca. Ela ainda estava vestindo o seu manto – o manto de
Serenok. O manto bordado tinha um pequeno rasgo na manga agora, de onde a pinça
serrilhada de um Eldrazi havia atacado seu bíceps.
Nadando em uma névoa surreal, ela deu dois passos, curvou-se e pegou o maço de
páginas de pergaminho: seu discurso.
MINHA ORAÇÃO INSPIRAÇÃO, dizia a página superior, rabiscada em sua própria letra.
Pela Abade Nalaar.
Ela olhou para a porta. Ele mostrava o caminho para o resto da Fortaleza, para os seus
alunos, para a Mãe Luti, para Regatha. Seus pés apenas não sabiam como se mover em
direção a ela.
De repente, ela amassou as páginas em uma bola em suas mãos. As páginas explodiram
em chamas, queimando-se em um instante. Ela as deixou cair como flocos de cinzas por
entre seus dedos.
É assim que deve ser manter uma promessa, ela pensou.
Ela saiu de seu quarto, a forma de Ulamog ainda impressa em sua mente.

Parte 3

A abade cumprimentou seus alunos com um aceno de cabeça. Tantos rostos olhavam
para ela através do grande salão da Fortaleza Keral. Mãe Luti a assistia de trás.
"Bom... hm, dia", disse ela. Ela agarrou-se ao obelisco de pedra que servia como seu
pódio, tentando lembrar como as palavras funcionavam. Ela tossiu na manga de seu
manto.
Ela franziu a testa, tentando lembrar alguns ditos do abade Serenok. "O fogo é um
símbolo", disse ela rigidamente. "Para o... bem, fogo. Em todos os nossos corações."
De alguma forma, aquilo tinha soado melhor quando Serenok o dissera.
Monges olharam uns para os outros. Alguém limpou sua garganta.
"Temos de ter certeza de..." ela parou, olhando para o pódio na frente dela. "Atiçar! Este
fogo. Para que ele... Uh."
Ela olhou para cima e viu o rosto de Mãe Luti. Isso foi um erro. Chandra esfregou as
têmporas com os dedos indicadores.
Ela tossiu. Ela respirou fundo.
"Vejam", disse ela. "Quando eu cheguei aqui como uma criança, eu era uma bagunça. Eu
não tinha ideia do que fazer com essa coisa, nenhuma." Ela levantou a mão e o fogo
floresceu. Ela abanou sua mão e o fogo se apagou. "As pessoas deste lugar – Abade
Serenok, Mãe Luti, todos vocês, me mostraram. Vocês não tentaram me controlar. Vocês
não tentaram me mudar. Vocês me ensinaram como expressar quem eu era do meu
próprio jeito."
Ela olhou para as dezenas de rostos individuais na frente dela. "Se há algo que eu possa
fazer para retribuir esse favor, é encorajá-los a fazer a mesma coisa. Cada um de vocês é
um indivíduo, um você próprio. Vocês não são os monges de fogo da Fortaleza Keral,
realmente não. Vocês não são os devotos dos ensinamentos de Jaya. Vocês não estão
aqui para me ouvir ou a qualquer outro abade. Você é uma pessoa única, com ideias
malucas sobre o que é verdadeiramente importante. Você só está aqui porque é um lugar
onde você pode descobrir quem você é."
Eu estou realmente dizer isso, ela pensou. Estou dizendo o que eu acho que eu estou
dizendo? Chandra olhou para o rosto da Mãe Luti, mas não conseguiu mais encontrá-la no
meio da multidão.
"Eu peço desculpas àqueles que eu estou decepcionando agora", continuou Chandra.
"Mas a melhor maneira que eu conheço de honrar a tradição do Discurso do Monte Keralia
é dizer-lhes para parar de ouvir este Discurso do Monte Keralia."
Os monges olharam uns para os outros novamente. Chandra desprendeu o cinto do manto
do abade, puxou os braços para fora das mangas e se despiu dele – ela usava sua
armadura habitual embaixo. Ela segurou o manto em suas mãos, delicadamente, da forma
como se segura um tesouro importante que deveria ser de outra pessoa.
"Cada um de vocês tem um dom que só você pode trazer para o mundo. Uma maneira que
você pode ajudar e que os outros não podem. E a maneira de expressar esse dom é ouvir
isto: Confie em si mesmo. Confie no seu dom. Não coloque toda a sua confiança em
discursos, de mim ou qualquer outra pessoa."
Alguns dos monges lentamente se levantaram. Cabeças assentiram. Ela viu o brilho de
alguns sorrisos.
"Há propósitos para vocês lá fora, mais importantes do que uma tradição ou um discurso",
ela prosseguiu. "Crises das quais vocês devem fazer parte agora, problemas que não
serão resolvidos sem vocês. Eu os ordeno que vão. Vão e descubram esses problemas."
Ela abaixou a cabeça, levantando a túnica de Serenok como uma espécie de saudação.
"Obrigado."
Muitos monges balançaram a cabeça, a boca curvada em decepção. Mas alguns outros
aplaudiram e levantaram seus punhos. Ela sentiu-os felizes, viu seus olhos despertarem,
de maneiras que ela não tinha visto em semanas de rotinas e metáforas.
"Obrigado", disse ela, piscando em meio a lágrimas, embalando o manto em seus braços.
"Muito obrigado por tudo que vocês fizeram por mim. Obrigado."
Chandra sorriu e afastou-se do pódio. Ela deu de cara com uma parede de Mãe Luti.
O sorriso de Chandra vacilou. "Eu sinto muito, Mãe Luti", disse ela. "Mas você sabe que eu
tenho que ir."
"É assim que você se sente?" Mãe Luti perguntou uniformemente. "Isto é o que você
quer?"
"Eu vou para Zendikar", disse Chandra. "Precisam de mim lá."
Chandra olhou nos olhos de Luti e imediatamente ela viu a dor que sua partida iria causar.
Ela viu como ela estaria abandonando este lugar, o lugar que a acolheu, o lugar que tinha
acreditado nela e a ajudado a tornar-se ela mesma.
O rosto de Mãe Luti estava ilegível. "Você não tem certeza", disse ela. "Esta é a verdade
no seu coração?"
Chandra viu o fantasma de Ulamog cintilando nos cantos de sua visão. "Sim, eu acho que
sim."
"Não é aceitável", Mãe Luti estalou. "Precisamos de você aqui!"
"Eu tenho que ir", disse Chandra. "Olha, eu sinto muito por ter que deixá-los – eu sei que
isso te deixa sem um abade e eu sou muito grata por tudo..."
Mãe Luti a cortou. "Eu sinto muito ter que fazer isso. Mas devo lembrá-la de sua promessa.
Você vai continuar como abade deste Fortaleza."
"O quê?"
"Você se comprometeu a este lugar. Você considerou partir, mas decidiu ficar. Chame os
alunos de volta. Você vai dar o seu discurso e você vai ensinar piromancia."
A testa de Chandra enrugou. "O que você está dizendo?"
Mãe Luti estava mortalmente séria. "Eu te proíbo de partir."
As mãos de Chandra se fecharam em punhos, mas ela os forçou a se abrirem novamente.
Ela balançou a cabeça, rindo. "Agora, olha só, eu..."
"Chandra, eu preciso lembrá-la? Mesmo que você seja abade, minha posição é mais
elevada do que a sua. E eu digo que você vai ficar."
Punhos. "Eu não vou ficar."
"Você vai."
"Não faça isso."
"Você tem uma responsabilidade!"
"Eu tenho uma responsabilidade!" Chandra gritou. Ela jogou um dedo no ar, apontando
para qualquer lugar. "Há pessoas que sofrem lá fora agora e eu posso ajudá-los. Eu posso
ajudar. Eu não posso ficar aqui e repetir exercícios sem parar, sabendo que eu poderia
sair e usar o que você me ensinou para evitar um desastre."
O rosto de Mãe Luti de repente brilhou com orgulho silencioso. "Agora você tem certeza",
disse ela baixinho. "Parabéns, Chandra."
Chandra respiraou. "Eu..."
"Agora você conhece a verdade nessa sua cabecinha."
"Isso é – isso é o que você precisava ouvir?"
"Isso é o que você precisava saber."
Os ombros de Chandra caíram. Ela limpou uma gota que estava se formando
espontaneamente no canto do olho. "Obrigada", disse ela.
Mãe Luti estendeu a mão para aceitar o manto do abade, mas Chandra se jogou nela para
um abraço. Chandra sentiu Luti hesitar e, em seguida, apertar os braços em volta dela.
"Vá, Chandra Nalaar", Luti sussurrou em seu cabelo. "Vá e salve mundos."
"Eu prometo", disse Chandra inaudível.
Chandra soltou. Ela recolheu a túnica de Serenok e dobrou-o cuidadosamente. Então ela
dobrou-a novamente de maneira diferente e, em seguida, redobrou-a novamente e franziu
a testa para a terceira confusão assimétrica ela havia criado. Ela começou a dobrá-la mais
uma vez e então sorriu quando Mãe Luti gentilmente tomou o manto dela.
"Está tudo bem," Mãe Luti a repreendeu. "Está tudo bem."
Chandra se virou e muitos dos estudantes aplaudiram.
"Adeus", disse ela. "Adeus. Espero ver todos vocês novamente um dia."

PROMESSAS A MANTER
Parte 4 (Final)

O ar cheirava a poeira em Zendikar. Mas ela tinha esperança – também cheiava a água
salgada, então ela não estava longe. Ela havia surgido em algum lugar na área florestada
junto à costa, mas ela podia ver as torres de Portão Marinho sobre as árvores.
Ela também via Ulamog. Ele já tinha atingido a cidade. Sua cabeça monstruosa subia mais
alta do que as torres, suas mandíbulas ósseas e braços bifurcados ameaçando a cidade.
Ela esperava que não fosse tarde demais.
A represa da cidade estava perto, apenas depois de uma encosta coberta de árvores. Um
pequeno esquadrão de criaturas Eldrazi caiu dos ramos na frente dela, assobiando e
brandindo seus membros espinhosos. Mas ela lançou um feitiço com um giro e um
balanço de seu braço e as criaturas se transformaram em cinzas em um borrão de magia
de fogo, e ela passou correndo por suas formas carbonizados.
Ela chegou a Portão Marinho. Chandra correu pela grande rua de pedra branca, a crista do
poderoso paredão. Dezenas ou centenas de pessoas Zendikari olhava por cima da parede
para Ulamog...
E eles estavam aplaudindo.
Chandra correu para a beira do paredão. Ela se esforçou para absorver o que ela estava
vendo.
Ulamog estava preso.
Chandra podia ver o titã se debatendo dentro de um anel de edros, incapaz de se mover
além deles. Por toda a volta dela, elfos, goblins e kor gritavam, zombando do titã
incapacitado. De forma alarmante, uma criatura do mar de oito braços estava emergindo
das águas, mas Chandra viu que ela estava usando seus membros para dar eliminar
vários retardatários Eldrazi. Ela estava ajudando, também! Ela mal podia ver uma maga
tritão comandar o polvo monstruoso com sua lança de duas pontas.
O coração de Chandra saltou. Ela correu pelo paredão, esquivando-se de pessoas
Zendikari que sorriam e se abraçavam, continuando a tentar olhar por cima do paredão.
Ela estava ansiosa para encontrar rostos que ela reconhecesse, mas ela não conseguia
localizar Jace ou Gideon.
No momento em que viu a sombra alada sobre a água, o tempo pareceu parar. Quando
ela levantou o olhar para ver o demônio de veias infernais, uma pontada de pavor surgiu
em seu intestino e inundou seu corpo inteiro. Ela viu o demônio se mover no ar com uma
batida de suas poderosas asas, parando sobre a prisão de Ulamog. Ela viu o demônio
estender as mãos com garras, como se atraindo o poder da prisão para ele. Ele falou
palavras ininteligíveis e ela sentiu o tremor da terra.
Em torno dela, os elogios se tornaram murmúrios de preocupação.
As pontas dos edros estavam voltadas para o demônio agora. A prisão de edros havia se
tornado uma nova forma de dispositivo, um vórtice de poder com o demônio em seu ápice.
Veias da energia negra dispararam dos edros, convergindo para o demônio. Seu corpo
arqueou, absorvendo o poder, e sua cabeça foi arremessada para trás. Ele deu uma risada
profunda e satisfatória, flutuando no ar lá em cima da cabeça de Ulamog.
Demônios rindo, ela pensou. Nunca é um bom sinal.
Chandra cuspiu em suas mãos, as esfregou e conjurou uma quantidade razoável de
chamas do nada. Três magias de fogo deveriam ser o suficiente. Ela torceu o corpo e girou
com um grunhido, lançando uma saraivada de piromancia de uma vez só para o demônio.
Mas, conforme seus feitiços aceleravam na direção das linhas de força negras, eles foram
envolvidos pelas linhas e as chamas se dispersaram sem atingir seu alvo.
O chão se moveu e por toda volta os murmúrios tornaram-se gritos. Ela olha para baixo
para ver os edros do anel de aprisionamento de Ulamog tremerem e enfraquecerem. O
chão tremeu com mais violência, balançando a represa e agitando ondas enormes.
Pessoas Zendikari correram ao longo do paredão em pânico estridente.
Ondas subiram e espirraram sobre o paredão do lado do Halimar. Uma onda
particularmente grande pairava alta, coroando quinze metros acima de alguns refugiados
que corriam. Chandra atacou a onda com um cone de calor, transformando-a em vapor
antes que pudesse esmagá-los e inundar o paredão. Ela correu com eles, afastando a
água do mar com ondas de ar piromântico.
Enquanto Chandra corria com a multidão para a terra, ela olhou para cima para ver os
topos das torres de Portão Marinho balançando para lá e para cá. Uma rachadura se
formou em uma das torres, fazendo chover pó branco e detritos sobre eles.
Quando o feitiço de fortalecimento do demônio terminou, a gravidade começou a tomar
conta dos edros no anel na superfície da água. Os edros caíram, afundando no mar revolto
um por um, arrebentando as cordas que os ligavam uns aos outros e à represa de Portão
Marinho. O círculo estava se quebrando. A estrutura da prisão de Ulamog estava se
rompendo.
Não mais contido, Ulamog desfraldou como uma flor apocalíptica. O titã atacou
humanoides em fuga nas proximidades, que se transformaram instantaneamente em pó.
Chandra gritou de raiva. Ela chicoteado mísseis de fogo contra Ulamog, mas eles
pareciam não fazer nada. Ela ainda não conseguia ver Gideon ou Jace no meio da
multidão. Ela não foi capaz de parar o demônio ou danificar o titã recém-libertado.
O que mais poderia dar errado hoje?
A península rochosa na extremidade de Portão Marinho estremeceu e então a terra se
partiu com um estalo. Rocha e terra caíram em ângulos estranhos, uma dolina que engolia
a si mesmo. A dolina se propagou de forma desnatural, as bordas do buraco se dobrando
e retraindo para dentro, o terreno formando bizarros padrões em ângulos retos com um
brilho iridescente.
Houve um movimento de algo enorme no subterrâneo profundo subindo para a superfície.
CLARO, ela pensou. POR QUE NÃO? POR QUE NÃO ISTO AGORA?
Fragmentos gigantescos e angulares de um cintilante material como obsidiana surgiu do
solo. Conforme o ser se elevou, Chandra viu que os fragmentos flutuavam em formação
acima de um grande globo giratório de uma cabeça, que era incorporada a um torso
blindado de braços divididos, que era apoiado por uma floresta de tentáculos. Quando ele
subiu, ele derramou terra como um manto, terreno caindo dele e chovendo sobre o mar.
Esta não era apenas mais uma criatura Eldrazi para se lutar. Este era o advento de outro
ser como um deus, como Ulamog – uma terrível divindade das Eternidades Cegas.
Um segundo titã Eldrazi havia entrado na batalha.