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Resumo “Ecos da Revolução” Muniz

Muniz Ferreira aponta que a Revolução Francesa e os episódios sócio-políticos


subsequentes a mesma delinearam o primeiro sistema internacional da época
contemporânea, o Sistema Internacional da Convenção de Viena (1815-1914). O novo
significado da ideia de “nação” representou também o protagonismo dos Estados
europeus nas relações de poder do continente, gerando um ordenamento interestatal.
O autor inicia seu texto afirmando que assim como na disciplina histórica no século
XIX, também as relações internacionais tiveram como protagonistas os estados nacionais.
Tal protagonismo tem relação direta com o movimento de legitimação das nações num
contexto de secularização política e colapso dos sistemas dinásticos que se seguiu após
as revoluções burguesas e a cristalização dos regimes liberais. Nesse sentido, a
institucionalização da historiografia se faz em contingências quais a elite burguessa
precisou delinear a esfera nacional e “consolidar sua hegemonia em contextos sociais
caracterizados pela urbanização, a dissolução da “sociedade de ordens” do Ancièn Régime
e consequente ascensão das reivindicações político-sociais das classes subalternas”.1
Caberia a escrita da história, portanto, atender a determinados pré-requisitos, e aqui o
autor cita Marilena Chauí:
1.território contínuo e demarcado por fronteiras legais reconhecidas; 2.
exercer a autoridade diretamente e não por meio de corporações e
estamentos autônomos, isto é, possuir unidade e centralização jurídica,
política e administrativa; 3. ser reconhecido como povo soberano, isto
é, uno, indiviso e autor de suas leis; 4. encontrar mecanismos de
legitimação pelos quais a população seja leal aos governantes, o melhor
instrumento para isto sendo a consulta periódica aos sujeitos, na
qualidade de cidadãos que escolhem representantes e emitem opiniões
em público.2
Tratava-se de buscar no passado as razões de pertencimento dos indivíduos à nação; tal
fato se apresentava como uma construção ideológica da identificação. O que significava,
em poucas palavras, na ressignificação dos antigos ideais indenitários para a nação.
Ressignificação esta que fundamentava-se em uma fundamentação prática, na qual o
conceito de nação passa a ocupar o centro do novo direito público – deslocado da
soberania real para a entidade pública. Contudo, para além do contexto político, a ideia
precisava também transmutar-se no campo intelectual, científico: cabendo a História o
desafio de aquietar essas ideias não mais legitimadas necessariamente pela autoridade
clerical baseada no divino. Essa tarefa seria exemplarmente cumprida por Leopold von
Ranke no século XIX, aponta M. Ferreira. O trabalho rankeano “estabelece os dois
grandes paradigmas da escrita da História daquele momento, a fundamentação teórica do
Estado-nação e a busca da cientificidade do fazer historiográfico”.3 A obra de Ranke
contribuiria significativamente não só para a cientifização da história, mas também para
os fundamentos de uma história política das relações internacionais. No sentido de que a
historiografia do autor prussiano expressaria três fundamentos: (1) o estabelecimento de
pré-condições históricas para o aparecimento de um Estado “legítimo” em oposição a um
“ilegítimo”; (2) elaboração de tipologias dos estados-nacionais, ligando sistemas políticos

1
Muniz, p. 210.
2
Idem.
3
Ibidem, p. 211.
a fatores culturais; (3) utilização de um enfoque historicizante de um evento
contemporâneo relativo, como o Sistema Internacional da Convenção de Viena.
As ciências humanas, para o autor, devem a Ranke também os principais conceitos
e métodos empregados na análise da política internacional. Pois, pertence ao mesmo a
interpretação de um estado de natureza global, antecipando em anos a tipologia
“hobbesiana” pós-guerras do século XX; a noção de todos contra todos: “a história
Universal reside nos crescentes conflitos e lutas entre as diversas tendências e os
diferentes caracteres nacionais, posto que lutar é da natureza do homem...”.4 A conclusão
mais natural dessa afirmativa estava implicada na ideia de que os Estados, assim como os
homens, desejavam impor seu poder sobre os outros. A transposição da individualidade
humana para o cosmo estatal é natural da individualização da sociedade liberal-burguesa
oitocentista. Muniz Ferreira explicita que a organização política se dava no sentido de
que:
Nas condições mencionadas, as relações internacionais concretizar-se-
iam necessariamente sob a forma de uma política de “potência”
(machtpolitik). Essa política de potência, emanação da “vontade de
poder” dos estados, conduziria a um estado de guerra permanente entre
as potências, caso a machtpolitik de uma delas não encontrasse
contenção na machtpolitik de sua oponente.5
Tais concepções que permitiriam o equilíbrio político internacional e a teorização
sobre a guerra e a paz. Constitui-se, por conseguinte, a “balança de poder” e a
possibilidade de realizar acontecimentos como os da Convenção de Viena.

4
Muniz, p. 213.
5
Ibidem, p. 214.