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De Positivismo e de Positivistas:

Interpretações do Positivismo Brasileiro*

Angela Alonso

Das teorias cientificistas que chegaram acepção ordinária, muitas vezes confundida com
ao Brasil nas últimas décadas do século XIX, a precedente, consiste em opor o preciso ao vago.
o positivismo é das que mais tinta mereceu dos [...] E preciso, enfim, observar especialmente
intérpretes. No entanto, parece também que uma quinta aplicação, menos usada que as ou­
angariou muita antipatia, tendo sido, desde tras, embora igualmente universal, quando se
seu aparecimento entre nós, objeto de contro­ emprega a palavra positivo como contrária a
vérsias. negativo” (Comte, 1990, p. 62).
Muitos foram os intelectuais que se con­ Assim Comte estabelecia o sentido do
verteram à doutrina de Comte; muitos tam­ termo “positivo”, donde derivaria um sistema
bém tomaram posição em face dela e de sua metodológico e doutrinário. O positivismo
influência no Brasil. O que me interessa aqui nascia definido, portanto, como uma atitude
é empreender um balanço das grandes linhas epistemológica que tinha por características a
de interpretação de que o positivismo brasilei­ realidade — no sentido de existência objetiva
ro foi objeto, procurando demonstrar a pro­ dos fenômenos— , a utilidade, a certeza e a
miscuidade que se estabeleceu entre algumas precisão do conhecimento. Além disso, o co­
delas e a própria história oficial do positivis­ nhecimento era estabelecido como processo
mo brasileiro, produzida pela Igreja Positivis­ cumulativo que visava “não destruir, mas or­
ta. Antes disso, porém, faz-se necessário re­ ganizar
construir brevemente a origem das dissidên­ O conhecimento científico vinha defini­
cias em série que são constitutivas da trajetó­ do por Comte como mais do que um método
ria do positivismo desde seu surgimento. de explicação da realidade. A constituição da
ciência seria produto do desenvolvimento da
O Positivismo em sua Gênese razão na história. Como, para Comte, a forma
de conhecimento é sempre relativa ao grau de
“Considerada de início em sua acepção mais desenvolvimento da organização social, a pre­
antiga e comum, a palavra positivo designa real, ponderância da ciência só se poderia concre­
em oposição a quimérico.[...] Num segundo sen­ tizar no momento em que se desse a união
tido, muito vizinho do precedente, embora dis­ espontânea e necessária da razão com a reali­
tinto, esse termo fundamental indica o contraste
entre útil e ocioso. [...] Segundo uma terceira dade. Comte explica, portanto, a constituição
significação usual, essa feliz expressão é fre­ da ciência por recurso à história do conheci­
qüentemente empregada para qualificar a oposi­ mento e, em última instância, à história da
ção entre a certezas a indecisão. [...] Umaquarta humanidade. Expressão dessa correspondên-

* Este texto constitui o segundo capítulo de minha dissertação de mestrado (Alonso, 1995a) e foi apresentado
para discussão no Grupo de Trabalho Teoria Política e História das Idéias, no XIX Encontro Anual da Anpocs,
a cujos membros agradeço os comentários e sugestões.

BEB, Rio de Janeiro, n. 42, 2.° semestre de 1996, pp. 109-134 109
cia lógica e histórica entre o real e o racional, cracia é então apresentada como uma das
a ciência seria, a um só tempo, o produto final ilusões metafísicas condenadas ao desapare­
da teologia e da metafísica e a sua antítese, o cimento; o regime político da humanidade
resultado de um processo que necessariamen­ futura deve ser uma ditadura positiva, coman­
te passa por uma evolução do pensamento, da dada por uma “classe de sábios”. O positivis­
revelação à demonstração, das conjecturas à mo tinha deixado de ser uma filosofia social
observação. Por outro lado, ela é também a estrito senso para apresentar-se como um pro­
negação da negação, ela se opõe à metafísica, jeto político-científico de civilização.
doutrina crítica destinada a destruir os dogmas Esta guinada teórica e doutrinária não
teológicos, abrindo campo para a construção será acompanhada por todos os seus discípu­
da ciência positiva. Tanto a teologia quanto a los. Ocorre, então, o primeiro de uma série de
metafísica seriam estados provisórios do de­ cismas que marcarão a trajetória do positivis­
senvolvimento humano, fadados a serem ine­ mo. O mais dileto discípulo de Comte, Émile
vitavelmente substituídos pela ciência positi­ Littré, descontente com o apoio de seu mentor
va. intelectual ao 18 Brumário de Luís Bonaparte,
Para Comte, os graus de desenvolvimen­ em 1851, e com o início das formulações que
to da natureza humana, da organização social desembocariam na religião da humanidade e
e do conhecimento estão normalmente rela­ na proposição de uma ditadura positivista,
cionados, de modo que uma transformação abre a primeira dissidência. Também John
em um deles implica a modificação dos de­ Stuart Mill se afasta. Littré permanecerá se­
mais. Na passagem da teologia à ciência, as guidor do Cours de Philosophie Positive, re­
leis invariáveis substituem as vontades direto­ negando o Système de Politique Positive. Fiel
ras, a previsão racional sucede a revelação a Comte resta Laffitte, que, após a morte do
divina, arazão predomina sobre a imaginação, chefe, assumirá ele próprio a “direção espiri­
a observação sobrepuja a especulação. Essa tual” do movimento.
transformação assegura a predominância da Foi a partir daí que se tornou lugar-co­
ciência como porta-voz do conhecimento vá­ mum dividir os positivistas segundo graus de
lido, ao mesmo tempo em que demarca o seu fidelidade à obra de Comte. Desde então, os
domínio, separando-a das formas de conheci­ dissidentes viraram “sofistas”, na língua dos
mento que a precederam. remanescentes, ou “científicos”, nos seus pró­
Como a lei dos três estados, verificada prios termos. Somente mais tarde, com a ne­
tanto empírica quanto racionalmente, é inelu­ cessidade de distinguir os dois grupos, é que
tável, o estado positivo haveria de efetivar-se se passou a chamá-los de ortodoxos e hetero­
independentemente da vontade humana. No doxos, classificação que certamente pegou,
entanto, já nos primeiros anos da década de mesmo não sendo a mais adequada, passando
1850, percebendo que o conhecimento racio­ a ser utilizada até por muitos positivistas.
nal por si só seria insuficiente para a consti­ Esta divisão, porém, é problemática.
tuição de uma nova sociedade, Comte propõe Tanto ortodoxos quanto heterodoxos são her­
a sua política positiva, instituindo a religião deiros de Comte; o que difere é de qual parte
da humanidade. Tratava-se, então, de buscar da obra se está falando. Para o grupo litreísta,
a adesão emocional dos homens ao novo re­ Comte teria enlouquecido ao final da vida e
gime. Daí o deslocamento da ênfase do siste­ seus últimos trabalhos deveriam ser conside­
ma da sociologia para a moral, que passa a rados obras de uma mente ensandecida, sem
ocupar o ápice da hierarquia das ciências. Esta que com isso fosse necessário abdicar aos seus
mudança o leva a reformular todo o seu siste­ primeiros ensinamentos, produzidos em fase
ma, investindo agora em processos de socia­ de lucidez. Já os lafitistas acusavam a traição
lização que têm na organização hierárquica e dos desertores e se proclamavam os únicos
autocrática da sociedade a sua base. A demo­ efetivos discípulos do mestre, seus seguidores

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em filosofia, em ciência, em política e, o mais pequenos núcleos com direção independente.
importante, em moral. Estava-lhe reservado, porém, o entusiasmo da
O fato é que, se logo após a cisão, e no América Latina, onde vários países receberam
período imediatamente posterior à morte de a boa nova positivista, seduzidos, talvez, por
Comte, é possível falar em apenas dois gru­ seu universalismo, que prometia a inserção de
pos, pouco depois aparecerão muitos herdei­ todas as nações na grande marcha da civiliza­
ros para um único espólio. Os discípulos in­ ção. Para países periféricos não era pouco;
gleses também se cindiram. John Stuart Mill encontravam no positivismo uma teoria capaz
rompeu com Comte no mesmo momento e de fornecer instrumentos para transformar
pelos mesmos motivos que Littré, mas os dois suas histórias nacionais e vinculá-las à histó­
não se associaram para criar uma variedade ria universal.
própria: seguiram, cada qual, sua própria in­ Desde sua origem, portanto, o positivis­
terpretação do Cours. Mill adequou o seu mo teve por característica constitutiva a cissi-
liberalismo às formulações comteanas de paridade, uma tendência cismática. É impos­
modo mais ou menos harmônico. Esta combi­ sível compreendê-lo sem ter em mente a guer­
nação alquímica entre positivismo e liberalis­ ra ideológica que se trava desde seus primór­
mo foi ter em Spencer o caso mais bem-suce­ dios. Os cismas se agravam à medida que sai
dido e também o mais exacerbado. Spencer da obra de Comte, à semelhança da de Marx,
radicaliza Comte — na medida em que adota um tipo de filiação teórica mas também um
um monismo naturalista, supressor da separa­ “movimento positivista” que ambiciona uni­
ção entre as ciências do homem e as da natu­ versalizar-se e que se embrenha na política em
reza que Comte mantivera — mas também o todos os países onde chega. O movimento
subverte a tal ponto que pode ser considerado positivista sofre, por sua vez, uma outra dife­
o criador de um sistema próprio, ainda que renciação, entre o seguimento e instrumenta­
tributário do positivismo.1 lização da idéia positivista na política e sua
Comte teve ainda muitos seguidores in­ sedimentação em dogma e em instituição.
dependentes na Inglaterra — G.H. Lewes, H. No caso brasileiro, tivemos ambas as
Martineau, A. Bain, Clifford, Maudsley, Tyn- ocorrências. Houve um grande movimento
dall, Sully, Romanes, Huxley, para citar os positivista não institucional, ao mesmo tempo
mais expressivos — , que mantiveram o méto­
do positivo para o estudo da natureza e da em que a solidificação da Igreja Positivista no
sociedade, embora não adotassem suas for­ Rio de Janeiro tentou justamente submeter os
mulações políticas. Não que estas não tenham positivistas fora de sua alçada e expandir a
repercutido; Richard Congrève fundou a So­ instituição. Para tanto, a Igreja investiu contra
ciedade Positivista de Londres — da qual os positivistas independentes, buscando de-
eram membros também Frederic Harrison, G. sautorizá-los, de tal modo que criou um crité­
Eliot, J.C. Morison — , vinculada a Laffitte e, rio de definição do que significava ser positi­
portanto, divulgadora da religião da humani­ vista. Obviamente, esta definição é ideológica
dade (Gruber, 1893). e serve como meio de controle de ingresso,
Fora da Inglaterra, o impacto do positi­ como um critério de inclusão/exclusão. Isto é,
vismo como sistema organizado foi relativa­ a Igreja Positivista buscou ter e obteve hege­
mente pequeno na Europa. A teoria das ciên­ monia no campo positivista. O modo pelo qual
cias de Comte alcançou grande notoriedade e isto se deu, assim como a resultante, eviden­
passou a influenciar intelectuais das mais va­ ciam-se nas disputas que ela travou e no modo
riadas origens, mas seu sistema político-reli- pelo qual construiu sua versão oficial das cor­
gioso encontrou poucos adeptos, mesmo no rentes positivistas brasileiras. O que, por sua
início. Nos Estados Unidos, na Hungria, na vez, reverberou nas interpretações posteriores
Itália, na Rússia e na Alemanha formaram-se de que o positivismo foi objeto.

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Interpretações do funde a sua biografia com a história do posi­
Positivismo Brasileiro tivismo brasileiro a ponto de, quando rompe
com Laffitte, incluir um novo estágio nesse
A avaliação da influência do positivismo percurso. Vejamos.
no Brasil divide-se em três momentos, que
configuram igualmente três tipos de leitura: A História Secreta do
(a) a que ocorreu no calor da hora, quando Positivismo Brasileiro
constitui-se uma espécie de guerra ideológica Data de 18372o interesse da intelectuali­
em torno da construção da interpretação canô­ dade brasileira pela obra de Auguste Comte.
nica do positivismo, movimento, portanto, de A partir daí começam a pulular as citações,
propaganda e contrapropaganda; (b) aquela ainda que de modo não orgânico nem sistemá­
que se produziu como explicação retrospecti­ tico, do Cours de Philosophie Positive em
va, ainda impactada negativamente pela in­ teses defendidas na Escola da Marinha, nas
fluência do movimento nos primeiros anos da Faculdades de Medicina da Bahia e do Rio de
República; (c) as explicações mais recentes e Janeiro e na Escola Politécnica, que vão se
também mais isentas, que procuram encontrar alongando por toda a década de 1850.3 O uso
o sentido e a funcionalidade do positivismo da obra de Comte nestes trabalhos, no entanto,
em seu contexto. Na impossibilidade de ana­ não guarda diferenças significativas e não tem
lisar todas as tentativas de explicação do po­ singularidade em face dos outros grandes au­
sitivismo, selecionei aqui alguns intérpretes tores do século. Comte é tomado como filóso­
representativos de cada uma das perspectivas. fo da história ou como matemático, sem que
daí decorra nenhuma posição propriamente
A Construção do Dogma (Fins do político-filosófica, no sentido que ganhará
Século XIX, Início do XX) mais tarde. Trata-se especificamente do Com­
te do Cours, propositor de uma nova hierar­
A primeira onda explicativa pode ser quia das ciências.
considerada uma espécie de auto-interpreta- O primeiro nome de peso a tomar simpa­
ção, realizada pelos próprios agentes históri­ tia pela obra de Comte é o reputado professor
cos que buscavam explicar o fenômeno que da Escola Militar Benjamin Constant Botelho
vivenciavam; data, portanto, da virada do sé­ de Magalhães que, em 1857, começa a estudar
culo XIX para o XX. Tratava-se de interpre­ os escritos matemáticos de Comte, passando
tações interessadas, seja dos que valorizavam depois à leitura do Cours.
a entrada do positivismo no Brasil, seja dos Pouco depois, em 1860, Luís Pereira
que a consideravam negativa para a vida na­ Barreto, Francisco Antonio Brandão Jr. e J. A.
cional. Ribeiro de Mendonça, todos filhos de fazen­
No momento mesmo de formação do deiros estudantes de Medicina em Bruxelas,
positivismo brasileiro, foi um de seus adeptos, são iniciados no positivismo lafitista. Ao con­
provavelmente o mais fervoroso, quem se lan­ trário, portanto, do que ocorrera no Brasil,
çou a expor a gênese do movimento no país. tiveram contato inicialmente com a religião da
Miguel Lemos, então já diretor do Centro humanidade, para somente mais tarde conhe­
Positivista Brasileiro, apresenta o positivismo cer os trabalhos científicos de Comte. Deste
no Brasil como tendo tido duas fases. Inicial­ pequeno grupo, Pereira Barreto era o mais
mente, teria havido uma adesão à obra mate­ entusiasta, assumindo a liderança, estabele­
mática de Comte, principalmente na Escola cendo contato direto com Laffitte e iniciando,
Politécnica, e, mais tarde, o reconhecimento ainda em Bruxelas, um trabalho de propagan­
da obra completa, incluindo-se a religião (Le­ da (Sampaio, 1899). De volta ao Brasil em
mos,! 882). Na verdade, esta adesão, primeiro meados de 1864, defendeu no ano seguinte
ao litreísmo, depois ao lafitismo, é a síntese tese de suficiência junto à Faculdade de Me­
da trajetória do próprio sacerdote: Lemos con­ dicina do Rio de Janeiro na qual constava um

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prefácio positivista estritamente religioso. É tífica de Comte, sem visar sua aplicação aos
esta a primeira obra a direta e publicamente problemas brasileiros, e, mesmo assim, teve
assumir o positivismo como sistema filosófi­ funcionamento irregular. Somente em 1876 é
co orientador (Sampaio,1899). que se funda uma sociedade para o estudo da
O fato é que, também em 1865, Brandão obra matemática de Comte e a formação da
Jr., ainda em Bruxelas, publica A Escravidão biblioteca positivista recomendada no Caté-
no Brasil, livro reputado o iniciador do lafitis- chisme.5 O grupo, dirigido por Oliveira Gui­
mo no Brasil, não só pelos críticos posteriores, marães, não atinge plenamente seus intuitos e
mas inclusive pela Igreja Positivista (Lemos, sofre duas baixas aindano mesmo ano: Lemos
1882). A importância do livro reside menos e Teixeira Mendes — que tomaram contato
no fato de ser ou não a primeira aplicação do com a obra matemática de Comte por influên-
lafitismo ao Brasil e mais no de ser efetiva­ ciade seu professor Benjamin Constant— são
mente uma aplicação; o positivismo nunca suspensos da Escola Politécnica, em conse­
antes comparecera para explicar uma questão qüência de um panfleto positivista, e viajam a
especificamente brasileira. Segundo Miguel Paris. Provavelmente por influência de Ribei­
Lemos, no entanto, muito embora o livro ro de Mendonça, que desde os tempos da
constitua “[...] o primeiro esforço em prol da Bélgica mantinha contato regular com Laffit-
emancipação definitiva, abertamente referido te, Oliveira Guimarães escreve ao chefe da Igre­
a inspirações positivistas” (Lemos,1934, p. ja Ocidental pedindo seu consentimento para
78), está ainda contaminado pelos “sofismas filiar a sociedade brasileira à sua direção.6
jurídicos”. Após este trabalho pioneiro, Bran­ É apenas no final de 1878, com a morte
dão Jr. será uma personagem apagada no ce­ de Oliveira Guimarães, que o grupo, ficando
nário político-intelectual. A avaliação de Le­ acéfalo e reduzido a apenas quatro membros,
mos aqui, contudo, já denota sua intenção de se reestrutura com novo nome — Sociedade
desqualificar qualquer trabalho anterior ao Positivista do Rio de Janeiro — , implemen­
seu como verdadeiramente positivista. tando de fato a nova orientação. Além dos
O positivismo ocupa, portanto, um espa­ remanescentes, ingressam oficialmente Perei­
ço mirrado na vida intelectual brasileira até a ra Barreto e França Leite que, radicados em
década de 70, quando se torna coqueluche São Paulo, se fazem representar na cerimônia
nacional. Somente em 1874 ganha notorieda­ de institucionalização do grupo por Ribeiro de
de, quando Pereira Barreto publica Aí Três Mendonça, novo líder do agrupamento. Le­
Filosofias: Filosofia Teológica e tem início mos irá aderir no ano seguinte.
sua atividade na imprensa, através da qual Segundo Lemos, somente neste momen­
procura construir uma explicação positivista to o lafitismo aparece no cenário brasileiro
dos grandes problemas nacionais. A partir de como movimento organizado. A formação da
então passa a escrever sobre economia, polí­ primeira sociedade, em 1876, teria cristaliza­
tica, cultura, enfim, sobre todos os assuntos do do uma divisão no positivismo brasileiro, com
dia, tendo por ênfase a crítica às instituições a formação de dois grupos: um “litreísta”,
monárquicas e à própria forma de governo. representado pela associação e que teria uma
Portanto, é evidentemente uma falta histórica participação ativa, e outro composto por sim­
situar o início da atividade positivista militan­ patizantes isolados do positivismo, sem preo­
te na Corte, como quer Lemos; é em São Paulo cupação política ou social: “[...] era o grupo
que o movimento, a princípio, tem mais força. dos que aceitavam ou diziam aceitar, sem
Enquanto isto, não se registra na Corte discrepância essencial, a totalidade da obra do
nenhuma manifestação pública relevante. É Mestre” (Lemos, 1881, p. 7). Esta desconfian­
certo que, em 1868, Benjamin Constant de ça de Lemos quanto aos que “diziam aceitar”
fato criara um grupo de estudos do positivis­ a versão lafitista do positivismo está eviden­
mo, o qual, porém, restringiu-se à obra cien­ temente endereçada a Pereira Barreto e seu

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grupo, com quem Lemos rompe em 1881. A quais a oratória de seu inseparável amigo Tei­
informação de Lemos não é, pois, confiável. xeira Mendes começa a atrair um público
Não somente o grupo paulista já era lafitista, crescente. Ainda neste ano o processo sofrerá
mas também, como a correspondência de Oli­ uma radicalização: Lemos centraliza em si a
veira Guimarães expressa de modo irrefutá­ gerência da Sociedade Positivista, inclusive a
vel, o grupo da Corte se tomara lafitista já em aceitação ou não de novos membros. A mu­
1876 (e não litreísta, como afirma). A inter­ dança estende-se à nomenclatura:
pretação de Lemos é visivelmente facciosa:
através dela ele tenciona autoproclamar-se o “O grupo fluminense não continha, porém, todos
introdutor da autêntica religião da humanida­ os positivistas brasileiros. Tínhamos confrades
espalhados por várias províncias do Brasil e
de no Brasil. Esta versão foi divulgada a partir cumpria abarcá-los na nova organização. Criei
de 1881 não somente pela Sociedade Positi­ então a denominação Centro Positivista Brasileiro ou
vista; foi também incorporada por grande par­ Igreja Positivista Brasileira, para designar a totalida­
te dos intérpretes posteriores do positivismo de dos crentes nesta parte da América, reunidos sob
brasileiro, cuja tônica recorrente é a de que o a minha direção” (Lemos, 1882, p. 21).
positivismo teria se iniciado litreísta para, so­
mente com o advento da Igreja, sob a direção Esta declaração explicita os interesses
de Lemos, desdobrar-se em duas correntes, doutrinários da Igreja. Lemos visava expandir
uma científica e outra religiosa. o positivismo para além da Corte e congregar
Como tenho procurado demonstrar, a todos os que fossem simpáticos ao movimento
corrente religiosa teve precedência como mo­ à sua direção. E com esse intuito que viaja a
vimento organizado e foi a primeira a aparecer São Paulo em fins de 1881, onde pronuncia
e intervir no debate nacional, representada conferências e consegue criar um “novo nú­
pelo grupo paulista, liderado por Pereira Bar­ cleo”, a Sociedade Positivista de São Paulo.8
reto7 — do qual faziam parte, entre outros, Ficava excluído o grupo paulista preexistente.
Mendonça Furtado, França Leite e Ribeiro de E que Lemos visava homogeneizar o movi­
Mendonça— , que só aderiu ao grupo da Corte mento, o que significava abafar as lideranças
no momento da filiação ao lafitismo. da geração anterior à sua, neutralizando prin­
Apenas neste momento a Sociedade Po­ cipalmente Benjamin Constant e Pereira Bar­
sitivista decide fazer propaganda nos jornais. reto, para tomar-se o porta-voz e o líder incon-
O ímpeto de divulgação, porém, será restrito teste do positivismo brasileiro. Sua viagem,
portanto, não erainocente. Desde que assumiu
a São Paulo, já que no Rio de Janeiro o grupo a direção espiritual do positivismo brasileiro,
permanece pouco coeso e carente de expres­ Miguel Lemos cuidava de não permitir que
sividade ou iniciativa. É somente na virada da seus comandados fossem muito opinativos,
década que a situação começará a mudar. nem que se manifestassem naimprensa. Cabia
Miguel Lemos chegara a Paris litreísta; lá, a Teixeira Mendes e a ele mesmo apresentar
porém, entrou em contato com Laffitte, a as posições positivistas a respeito dos temas
quem adere, tornando-se imediatamente um nacionais. Pereira Barreto nunca acatara esta
discípulo dedicado. Era 1879, ano em que é norma. A discórdia, porém, apenas se efetiva
fundado o Clube Acadêmice Positivista na com o envio à direção da Igrej a de seus artigos
Escola Militar. Lemos escreve a Ribeiro de coligidos em dois livros, Positivismo e Teolo­
Mendonça requerendo sua filiação à Socieda­ gia e Soluções Positivas da Política Brasilei­
de. O grupo, que se reunira apenas duas vezes ra, ambos lançados em 1880, onde aplicava
até 1881, sofre profunda transformação com as teorias de Comte ao caso brasileiro. Lemos
o retomo de Lemos, sagrado por Laffitte “as­ percebeu aí uma divergência perigosa na in­
pirante ao sacerdócio”. O entusiasmo do re- terpretação do positivismo e, entendendo que
cém-converso o conduz à direção da Socieda­ Pereira Barreto escapava à sua direção, reagiu
de, que passa a ter sessões semanais, para as indignado com a “heresia”, declarando sua

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discordância com a interpretação de Comte Lemos [...] aproveitou a ocasião para hones­
que Pereira Barreto vinha difundindo, che­ tamente intrigar-me com o Sr. Pierre Laffitte,
gando mesmo a não mais considerá-lo positi­ e preparar seguramente a sua candidatura ao
vista: pontificado positivista brasileiro” (Pereira
“[...] o Sr. Barreto, depois de ter aceitado, numa Barreto, 1901 apud Barros, 1967, p. 233).
certa época, a obra inteira de Augusto Comte, Esta fala de Pereira Barreto demonstra o quan­
afastou-se cada vez mais do ponto de vista reli­ to era facciosa a história do positivismo bra­
gioso para cair no vago cientismo de nossos sileiro que Lemos escrevera em 1881.
tempos. Provém isto, creio, da desastrada in­
fluência que exerce sobre os melhores espíritos “De fato, pouco depois, o Sr. Lemos rompia a
a preocupação exclusiva da política do dia-a-dia revolta, declarando P. Laffitte incompetente e
e uma colaboração demasiado assídua no jorna­ incapaz, e inaugurando a sua igrejinha, da qual
lismo militante” (Lemos, 1881, p. 149).9 se tornou papae papão. Não fui dobrar os joelhos
perante a sua púrpura pontifícia; fui distinguido
Incomodou a Lemos o posicionamento, por com a sua excomunhão [...] ” (Pereira Barreto,
ele não consentido, de Pereira Barreto em 1901 apud Barros, 1967, p. 234).
relação a questões políticas e sociais, não
apenas porque isso lhe diminuía a autoridade, Foi certamente a sua recusa em aceitar a lide­
mas principalmente porque havia discordân­ rança de Lemos que levou à formação da
cia efetiva sobre como deveria ser o estado sucursal paulista do Apostolado, visando ar­
positivo no Brasil e como alcançá-lo. rancar da sombra de Pereira Barreto os vários
O pomo da discórdia é, porém, a partici­positivistas dispersos que agregava. A história
pação de Pereira Barreto em A Província, mostrará o pouco ou nenhum sucesso da em­
jornal republicano, onde se vinha tomando, preitada. Não só PereiraBarreto permaneceria
segundo Lemos, um polemista mais preocu­ liderando o positivismo em São Paulo, como
pado com as questões nacionais do que com a também a Igreja paulista seria acometida por
fidelidade à letra de Comte. Lemos (1881, p. uma série de rixas internas que provocariam a
150) conclui que “[...] as opiniões sustentadas sua quase completa paralisia.
pelo Sr. Barreto não são de modo algum po­ Ainda no mesmo ano, Lemos indispõe-se
sitivistas”. O final do artigo é a excomunhão com Álvaro de Oliveira e Benjamin Constant,
branca de Pereira Barreto: que acabam por desligar-se da agremiação,
por não concordarem com o subsídio instituí­
“Sinceramente deploramos esta perda, e não é do por Lemos para sua manutenção e, princi­
sem um profundo sentimento de tristeza que sou palmente, com o modo pelo qual a propagan­
obrigado a constatar hoje o deplorável desvio de da positivista se estabelecia. A radicalização
um homem, cujo primeiro esforço para fazer de Lemos só se faz acentuar com o passar do
conhecer entre nós a doutrina regeneradora fui
eu o primeiro a saudar” (Lemos, 1881, p. 154). tempo.
Em 1883, um episódio, em princípio
Pioneiro e traidor, Pereira Barreto será suma­ miúdo, levará a uma guinada nos rumos da
riamente afastado da Igreja, constituindo o Igreja. Lemos, se não proibia, ao menos acon­
primeiro caso de expulsão e marcando o início selhava a seus subordinados que se abstives­
da radicalização que Lemos imprimiu ao mo­ sem da política partidária e do jornalismo,
vimento; esta é também a origem da pecha de abdicassem de possuir escravos e mantives­
“litreísta” que recaiu, daí em diante, sobre sem vida privada inatacável. De fato, somente
Pereira Barreto. ele próprio e Teixeira Mendes, seu fiel escu­
Somente anos mais tarde Pereira Barreto deiro, levavam à risca estas normas. E esta a
esclareceria os acontecimentos, afirmando razão da briga com Ribeiro de Mendonça, que
que Lemos tentara incompatibilizá-lo com se candidata a deputado provincial à revelia
Laffitte para tomar-se o único positivista dig­ da Igreja e, mais que isso, faz publicar no
no de chefiar o movimento brasileiro. “O Sr. Jornal do Comércio um anúncio à cata de um

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escravo fugido. Estes atos de desobediência positivismo brasileiro e aplicando aqui a divi­
desabrida impelem Lemos a advertir o “con­ são entre a ortodoxia — os “autênticos” posi­
frade”:10 apenas um erro de interpretação da tivistas — e os demais — alcunhados de li-
obra de Comte poderia levar a tal comporta­ treístas, sofistas, positivistas incompletos, he­
mento. Para o sacerdote, a escravidão moder­ terodoxos etc. Sua classificação veio a tomar-
na, ao contrário da antiga, não correspondia se canônica e foi a ela que, durante largo
ao estágio atual da civilização; era, por conse­ período, todos os que buscaram explicar o
guinte, uma “anomalia monstruosa” e inde­ positivismo se voltaram.
fensável. Toda a sua argumentação é no sen­ Os primeiros foram os membros da Es­
tido de reiterar a diferença entre oportunidade cola de Recife: Clóvis Beviláqua em 1883 e
e ação política, de um lado, e os princípios do Sílvio Romero em 1894. Beviláqua analisa o
positivismo “ortodoxo” de outro. Lemos pri­ “cisma” positivista colocando-se ao lado de
vilegia o segundo; Ribeiro de Mendonça, Littré e, como Romero fará pouco mais tarde,
Benjamin Constant e Pereira Barreto estarão percebe no spencerianismo um novo movi­
mais preocupados com a conjuntura. mento emergente capaz de substituir o positi­
Certo de que encontraria em Laffitte um vismo sem, no entanto, negar-lhe o mérito.
reforço de suas posições, Lemos escreve-lhe Beviláqua estabelece uma das primeiras clas­
expondo o problema. Ao contrário de suas sificações do positivismo brasileiro, combi­
expectativas, seu mestre aconselha a tolerân- nando aspectos doutrinários e geográficos.
riaem lugar da radicalização. Esta discordân­ Haveria, então, no Recife, um “positivismo
cia custará a Laffitte a pecha de sofista; Lemos dissidente”, e no Sul, um “positivismo orto­
recusa sua direção e declara independente a doxo”. O litreísmo “ficou sem representantes”
sucursal brasileira, passando a congregar-se (Beviláqua, 1975a, p. 39). Longe de negar a
com o “movimento ocidental” independente, influência do positivismo no Brasil, Bevilá­
0 qual já se compunha das dissidências de qua chega mesmo a atribuir-lhe o surgimento
Audiffrent e Congrève desde 1878. Este rom- vde uma “ciência brasileira”, enfatizando a
IMmento intempestivo causa prejuízos àlgre- atuação de Pereira Barreto. Porém, ressalva:
| m. que perde muitos adeptos, e conduz a uma “Uma certa propensão para o misticismo e um
1uiva radicalização. A partir deste momento os certo sainete esotérico foram sempre as notas
ilois líderes, Lemos e Teixeira Mendes, ado- antipáticas do positivism o” (Beviláqua,
liim uma política de pureza doutrinária: ape- 1975a, p. 49). •
irn.s aqueles que se submetessem ao seu co­ Estas “notas antipáticas” serão amplifi­
mando seriam considerados “positivistas cadas em 1892, quando Sílvio Romero resol­
completos”. Com isso, o movimento paulista ve acertar contas com seus antigos compa­
qm- estava sob a órbita de Pereira Barreto, nheiros de causa. Mesmo nunca tendo perten­
iv.mi como os oficiais da Escola Militar, se- cido oficialmente à Sociedade Positivista, Ro­
Ktmlores de Benjamin Constant, tornam-se mero foi dos primeiros entusiastas do sistema
"•iolislas” na linguagem de Lemos. Isto é, de Comte. Sua descoberta do spencerianismo,
ukImnase* mentes desviantes da Igreja deixam a exemplo de Beviláqua, levou-o ao campo
ili mt consideradas positivistas. adversário. No seu conhecido tom polêmico,
() propósito de Lemos parece ter sido Romero critica os positivistas brasileiros,
In ui sucedido em ao menos um aspecto: o de principalmente a ação da Igreja, pela influên­
tr,in:,lonimr a sua versão do positivismo, ba- cia “funesta” sobre os primeiros governos da
m .ul.i na lidelidade à letra de Comte, na his- República. Assim como a infiltração do posi­
idi ui ol ii ml do movimento no Brasil. Os mui­ tivismo no Exército, que teria sido comandada
tos iiiici pfctes posteriores do positivismo to­ por Benjamin Constant (Romero, 1969b, p.
maram a versão por fato, erigindo a Igreja 300). A eficácia política da propaganda posi­
Pos il iv isiu em representante paradigmática do tivista dever-se-ia, de acordo com Romero, ao

116
modo pelo qual conseguiu converter uma fi­ ria. Os adeptos do positivismo brigam entre si
losofia em prática social, em um dogma mo­ e com as correntes adversárias11 — como o
nolítico e inflexível que não encontrou uma spencerianismo e o darwinismo social — na
força contrastante à sua altura. Temeroso do tentativa de se estabelecerem como discurso
caráter ditatorial, antiliberal, das propostas hegemônico no período. É um momento no
positivistas, ele as ataca e as opõe o seu spen- qual aparecem mais posições políticas acerca
cerianismo. Doutrina contra Doutrina é um do positivismo, assim como tentativas de fir­
libelo, um livro de contrapropaganda, que visa mar sua história, do que análises frias do
substituir a influência do positivismo pela do fenômeno. O resultado é a vitória de Lemos.
spencerianismo. Este seu caráter não escapou Sua idéia da existência de um “verdadeiro
a José Veríssimo que, comentando a obra de positivismo” identificado com a Igreja inva­
Romero, percebe o equívoco da proposta. diu a bibliografia posterior de tal modo que,
Para Veríssimo (1901), o positivismo seria no período subseqüente, toda vez que se fala
uma “doutrina completa”, englobando uma de positivismo brasileiro, tem-se a Igreja por
filosofia, um dogma, uma política e, mais referência.
importante, uma religião; daí derivaria, “se­
não sua originalidade, a sua distinção e a sua Reação e Crítica (Décadas
força”. O evolucionismo de Spencer, não ten­ de 30, 40 e 50)
do esta amplitude, não poderia antepor-se a
ele. Passada a efervescência do fenômeno,
Segundo Veríssimo, o positivismo teria forma-se uma segunda onda interpretativa.
no Brasil uma “influência mais larga que pro­ Isto é, no momento em que o positivismo
funda”, por duas razões: uma geral, o declínio declina em influência, produz-se um balanço
do teologismo e da metafísica no mundo mo­ de sua atuação que é marcado, principalmen­
derno, dando lugar às ciências, e, no caso te, por um movimento de rechaço mais do que
brasileiro, a inépcia dos aderentes do evolu­ de análise. As interpretações construídas nes­
cionismo e do monismo em consolidarem te período enfatizam o deslocamento ou o
seus sistemas no país, já que seriam juristas caráter deletério do positivismo. Afirmam que
pouco afeitos à aridez científica. O positivis­ sua influência foi ou restrita ou negativa. O
mo, ao contrário, fascinou, pela sua base ma­ que ocorre aqui é a extrapolação de um juízo
temática, os “cientistas” e pôde encontrar, acerca da atuação da Igreja para todas as
correntes positivistas brasileiras.
assim, guarida nas escolas militares, o único Sérgio Buarque de Holanda foi provavel­
lugar onde havia “algum espírito de classe”. mente o primeiro a oferecer uma explicação,
Deste modo, num meio onde não grassava ainda que rápida, da influência do positivismo
nenhum pensamento ou ação organizados, o no Brasil. Ficou cristalizada sua caracteriza­
positivismo pôde vingar. Os positivistas eram ção dos positivistas como portadores de um
“[...] uma minoria, mas forte, unida, discipli­ “secreto horror à nossa realidade” (Holanda,
nada, hierarquizada, sabendo o que quer e 1990, p. 118). O autor enquadra o positivismo
sabendo querer” (Veríssimo, 1901, p. 63). Foi entre os movimentos intelectuais estrangeiros
deste modo que influíram na formação da que foram importados sem a consideração
República, sendo em seus primeiros anos uma suficiente de sua adequação. O personalismo
verdadeira “religião de estado”. Veríssimo brasileiro, tão bem expresso no bacharelismo,
concorda com Romero no ataque à doutrina, teria facultado também a entrada do positivis­
identificando no Apostolado uma postura di­ mo. O sistema de Auguste Comte seria ladea­
tatorial, um “elemento perturbador” da demo­ do pelo liberalismo e pelo romantismo, todos
cracia que seria preciso combater. eles “formas de evasão da realidade”, destina­
O que temos nesta primeira fase é, de dos mais ao ornato discursivo do que à prática
modo geral, uma espécie de guerra doutriná- política. O positivismo é aqui explicitamente

117
restrito à Corte. Para falar do movimento, o critérios seguros.” Mas, contrariando Holan­
autor se utiliza apenas dos textos de Teixeira da, conclui: “Possuindo, além disso, o positi­
Mendes, Lemos e Benjamin Constant, sem vismo um grande e acentuado poder constru­
levar em conta os positivistas independentes, tivo, falava muito de perto a tendências pro­
o que evidentemente imprime um caráter par­ fundas da alma brasileira [...]” (Oliveira Tor­
cial ao seu juízo. res, 1943, pp. 46-47). O livro de Oliveira
Anunciava-se, aqui, uma viainterpretati- Torres, além de ser prisioneiro da história
va que frisava a influência negativa ou pouco forjada por Lemos, é, fundamentalmente, uma
significativa do positivismo no Brasil, que tentativa de desqualificar o positivismo, o
teria mantido uma relação de distanciamento qual toma como inimigo perigoso a ser des­
com a realidade nacional, tendo graus de apro­ truído, sem, no entanto, conseguir furtar-se do
ximação, mas não aderência perfeita ao con­ vocabulário peculiar ao adversário. Verborrá-
texto. gico e impreciso, o autor condena mais que
Nesta linha, foi Oliveira Torres (1943) analisa.
quem escreveu a primeira análise mais detida, Ainda em 1943, Carpeaux comenta O
e também uma das mais parciais, do positivis­ Positivismo no Brasil. Sem discordar inteira­
mo brasileiro. O autor ensaia uma classifica­ mente de Oliveira Torres e elogiando seu le­
ção, dividindo os positivistas brasileiros em vantamento de fontes, apresenta uma coleção
críticos, aqueles que aderiram apenas à filoso­ de senões ao livro, a começar pela classifica­
fia positiva como orientação intelectual; orgâ­ ção dos positivismos: existem talvez
nicos, os que visaram uma aplicação do siste­ mais de 42 espécies, inclusive a variedade
ma de Comte; e religiosos, os que aceitavam brasileira, ou antes as variedades brasileiras”
integralmente a obra de Comte, representados (Carpeaux, 1943, p. 11). Além disso, repreen­
pelo Apostolado, oficiais do Exército e da de o autor por ter confundido comtismo e
Marinha, professores do Colégio Pedro II e positivismo, usados indistintamente: “[...]
das escolas cariocas de matemática. Aos crí­ essa atitude é perfeitamente positivista; revela
como o estudioso do positivismo no Brasil se
ticos pertenceriam Pereira Barreto, Tobias embrulhou nas redes do seu próprio assunto”
Barreto e Sílvio Romero, os quais teriam ido (idem, p. 14). Em alternativa à classificação
“cairno evolucionismo”. Os orgânicos seriam de Oliveira Torres, Carpeaux propõe outra:
basicamente políticos que buscaram no posi­
tivismo sua crítica à Monarquia — Benjamin “[...] podemos classificar os positivismos nova­
Constant, Júlio de Castilhos e Silva Jardim. mente em duas espécies: o positivismo puramen­
Muito embora Oliveira Torres inclua em sua te físico, que renuncia definitivam ente à
análise outros positivistas que não os repre­ dominação da realidade, limitando-se ao estudo
sentantes da Igreja, ao final de seu trabalho, de relações [...]; e, doutro lado, todos os outros
retoma a divisão divulgada por Lemos entre- positivismos, que pretendem dominar cientifica­
mente a realidade, o que leva, na teoria, ao dog­
as escolas de Littré e Laffitte (Oliveira Torres, matismo, e na prática, à ditadura” (Carpeaux,
1943, pp. 326 e 328) para, por fim, concluir 1943, p. 13).
que o positivismo no Brasil foi um fenômeno
basicamente religioso e que teve por causa Ao alertar para a existência de vários positi­
principal as deficiências de formação de nossa vismos, o autor escapa da divisão empreendi­
elite, notadamente em matemática, que não da por Lemos e propõe um outro critério de
teria condições intelectuais para discutir os avaliação da influência do positivismo.
pressupostos do sistema de Comte, aderindo Carpeaux lembra a importância de pen­
cegamente a ele. “O positivismo surgiu no sar o tema de variadas perspectivas. Segundo
Brasil para preencher uma lacuna, a que fora ele, é possível perceber o positivismo não
aberta em nossa cultura pela ausência de uma apenas como “ideologiâ burguesa”, mas tam­
filosofia elaborada racionalmente e segundo bém como gêmeo de um seu aparente adver­

118
sário, o espiritualismo — “um positivismo às Tendo se detido basicamente no positivismo
avessas”. Por outro lado, seria preciso levar fluminense e, mais especificamente, no Aposto­
em conta a ressonância dos contextos. Se na lado, Cruz Costa deriva, portanto, uma genera­
Europa o positivismo não foi mais que secta­ lização temerária.
rismo, na América Latina “os comtistas diri­ Por outro lado, Cruz Costa admite que
giram repúblicas”. Essa aderência distinta po­ houve um sentido na adesão brasileira ao po­
deria ser explicada pelo caráter (no sentido sitivismo: “Se o positivismo é ainda, como as
psicológico) das elites latino-americanas, que outras doutrinas, produto de importação, nele
persistem aristocráticas e têm por tarefa básica há, no entanto, traços que revelam a sua mais
perpetuar-se no poder. A explicação de Car- perfeita adequação às condições da nossa for­
peaux difere daquela apresentada por Oliveira mação, às realidades profundas do nosso es­
Torres em pelo menos dois aspectos: a consi­ pírito” (Cruz Costa, 1956c, p. 296). E apro­
deração de que o positivismo é um movimento funda o interesse de Carpeaux pela origem
que apresenta diversos matizes e que, no caso social dos positivistas. O positivismo teria
brasileiro, tem funcionalidade, fruto mais de encontrado terreno fértil em uma “nova bur­
interesses que de ignorância. Isto é, Carpeaux guesia” em emergência, da qual teria sido a
escapa ao embate ideológico com o positivis­ base ideológica. No entanto, a chegada do
mo para analisar sua adequação ao Brasil, o spencerianismo teria esmaecido a influência
que é uma novidade. Inaugura também a ten­ de Comte, vindo a desempenhar melhor, por
tativa de identificar a extração social dos po­ adequar-se ao liberalismo, seu papel ideológi­
sitivistas, o que será uma obsessão da bibliog­ co. Melhor documentado e mais erudito que
rafia daqui em diante. Oliveira Torres, Cruz Costa apresenta um pa­
Das classificações posteriores com res­ norama mais convincente do que teria sido o
peito às correntes positivistas brasileiras, a
mais difundida é certamente a de Cruz Costa. positivismo brasileiro. Porém, é econômico
Na sua Contribuição à História das Idéias no em conclusões e não avança substantivamente
Brasil (1956c), o autor estabelece a década de se tomado em relação ao artigo de Carpeaux.
1870 como momento de emergência de uma Seu mérito está em ter estabelecido uma aná­
“polifonia das novas correntes européias” no lise ampla e menos valorativa.
Brasil. O positivismo teria emigrado em com­ O que se percebe cotejando estas inter­
panhia do darwinismo, do spencerianismo e pretações é que são todas tributárias da histó­
do intelectualismo de Taine e Renan, para ria do positivismo brasileiro construída por
ressaltar apenas os mais famosos. Para terras Lemos em 1882, que enfatizou a vertente
brasileiras teria sido transplantada a divisão religiosa em detrimento das demais. A avalia­
entre as duas orientações francesas, a de Littré ção do positivismo no Brasil tendo o caso da
e a de Laffitte. Teríamos aqui, então, uma França por parâmetro e a afirmação da pureza
orientação ortodoxa, religiosa, e uma outra doutrinária como critério são também um le­
“científica”. O autor retoma, portanto, a clas­ gado de Lemos, o que levou a que a infideli­
sificação de Miguel Lemos e, a exemplo de dade à letra de Comte, a recusa do sectarismo,
Oliveira Torres e do próprio Lemos, enfatiza fosse também considerada uma renúncia da
a importância da Igreja em detrimento das doutrina positivista. Considerando bizarro o
outras tendências. dogmatismo de Lemos e Teixeira Mendes,
muitos depreenderam que todo o movimento
“O positivismo brasileiro, que foi principalmente positivista fosse igualmente esotérico e dog­
religioso — e que talvez, por isso mesmo, não mático e, por conseqüência, um desvairio que
encontrou maior ressonância entre nós — , tem
sido uma espécie de grande mito [...] Doutrina nenhuma relação teria com a realidade do
que não exerceu influência senão no limitado país. Isto é, utilizaram as categorias construí­
grupo dos aderentes do Apostolado [...]” (Cruz das pela Igreja para avaliar seus adversários e
Costa, 1956c, pp. 295-296). com isso consideraram todos os que não se

119
submeteram a Lemos ou como não positivis­ “fazer o levantamento, até aqui em grande
tas ou como portadores do mesmo “horror” à parte ignorado, do que haja sido, entre nós, a
realidade nacional. penetração do Positivismo, antecedente ou
Que esta classificação em ortodoxos/he­ paralela à ação do Apostolado [...]” (Lins,
terodoxos ou lafitistas/litreístas, além de fac­ 1964, p. 6). Em obra de cunho mais descritivo
ciosa, não dá conta das variedades brasileiras que sociológico, Lins raramente arrisca uma
foi o què perceberam os próximos intérpretes. análise, e quando o faz é sempre pautando-se
em Cruz Costa ou Barros. Além de rastrear a
Explicações Funcionais (1959 em Diante) influência de Comte entre intelectuais e polí­
ticos brasileiros, procura mostrar, ainda que
Em 1959 inicia-se uma nova guinada timidamente, a aderência e eficácia do positi­
interpretativa. O trabalho de Roque Spencer vismo na explicação da realidade nacional,
Barros sobre o que ele cunhou ser a “ilustra­ terminando por constatar a existência de
ção brasileira” visava reconstituir a importân­ “[...] uma atmosfera de Positivismo, difuso que
cia histórica do positivismo, procurando com­ impregna toda a nossa mentalidade. Tudo indica
preendê-lo em seu contexto. Sua obra conso­ que a evolução nacional se processa cada vez
lida a tese de que o positivismo foi influente mais no sentido de integrar o Brasil no quadro
no seu tempo e que teve importância e reper­ sociológico traçado por Augusto Comte [...]”
cussão maior que aquelas que até então lhe (Lins, 1964, p. 569).
tinham sido atribuídas. O êxito inicial do po­
sitivismo seria devido à clareza e facilidade O tom apologético impede o autor de consti­
com que “[...] atendia exatamente a, homens tuir uma interpretação isenta do fenômeno.
voltados para problemas reais e tangíveis” Seu mérito principal foi, no entanto, implodir
(Barros, 1986, p. 114). Além da consideração as explicações sobre o positivismo brasileiro.
das numerosas vertentes teóricas, atentava A partir de seu levantamento ficou patente
para a existência de variedades positivistas que, longe de restringir-se à ação da Igreja
regionais, distintas entre si, mas comungando Positivista, a influência de Comte tinha atin­
todas de um instinto transformador: “[...] in­ gido um largo espectro tanto ideológico quan­
sistimos nesse caráter prospectivo: a sua inter­ to territorial, não podendo ser compreendida
pretação histórica não termina em uma expli­ dentro do registro estreito das duas grandes
cação, mas em um programa a ser realizado.” vertentes — lafitismo e litreísmo. Lins apon­
(Barros, 1986, p.169). Nesse sentido, discor­ tou para as especificidades que regeram a
dava do “secreto horror à nossa realidade”; os adoção do positivismo pela intelectualidade
positivistas teriam um pendão específico para nacional, demonstrando que sua apropriação
a prática política e sua doutrina estava a ser­ foi ora intelectual, ora política, ora religiosa.
viço desta possibilidade de intervenção. Ainda que não conclua nesta perspectiva, seu
Ivan Lins, um positivista confesso, bus­ trabalho permite pensar o positivismo brasi­
cará seguir por esta trilha, apresentando uma leiro no plural.
verdadeira avalanche de documentos, muitos Até aqui prevaleceram o dogma e a filia­
dos quais inéditos ou desconhecidos até o ção doutrinária como critérios de avaliação do
aparecimento de seu trabalho. Seu livro tem positivismo brasileiro. A partir deste momen­
por intuito suprir uma lacuna da historiogra­ to acentua-se a tendência já emergente em
fia: depois de estabelecidas as análises de Carpeaux e Cruz Costa de avaliar o positivis­
Cruz Costa sobre o Apostolado e de Roque mo como ideologia de um certo grupo social;
Spencer Barros sobre Pereira Barreto, ficava isto é, o destino da doutrina positivista passa
faltando uma pesquisa de mesmo rigor a res­ a ser avaliado a partir da trajetória do grupo
peito dos “positivistas independentes”, das social que aderiu a ela.
tais vertentes regionais e heterodoxas às quais O ensaio de Tocary Bastos vai nesta di­
Barros se referira. Este é o objetivo de Lins: reção: procura demonstrar a efetividade e a

120
permanência do positivismo no Brasil e a O autor, no entanto, exclui de sua análise
expansão de seu campo de influência. O autor os positivistas “heterodoxos” — no que reto­
estabelece várias divisões para o positivismo12 ma as indicações e a classificação da própria
e aponta, ainda que de modo pouco sistemáti­ Igreja — , que não cabem nesta classificação,
co, a variedade de positivismos e a existência como Pereira Barreto, apresentado como
de vários critérios para avaliá-lo, não exclusi­ “plantador de café” e, portanto, externo à
vamente o doutrinário. Para tratar especifica­ pequena burguesia: “[...] não houve entre nós,
mente do positivismo brasileiro, empreende salvo as raras exceções de um Pereira Barreto
uma cronologia própria da obra de Comte. e mais recentemente de Vicente Licínio Car­
Assim, haveria uma “fase saint-simmoniana”, doso, o positivista fiel apenas ao ‘Cours’”
caracterizada pela cientificização da política, (Bastos, 1965, p. 81). Isto é, teria predominado
o que no Brasil teria levado à tentativa de no Brasil um positivismo de pequena burgue­
Benjamin Constant de criar uma elite dirigen­ sia, com orientação ortodoxa e progressista.
te positivista, e que teria inspirado Borges de Antônio Paim vem, pouco depois, endos­
Medeiros a proceder a “despolitização do po­ sar a tese da diversificação de correntes posi­
der legislativo e sua transformação em órgão tivistas — “A exemplo de outras doutrinas
técnico de elaboração orçamentária”. A se­ européias, também o sistema de Auguste
gunda fase seria o “positivismo revolucioná­ Comte experimentou, em terras brasileiras,
rio”, quando Comte volta sua obra para a um processo acentuado de diferenciação”
mulher e a classe operária; no Brasil teria sido (Paim, 1967, p. 179) — , elegendo a versão
adotada por Lemos, Teixeira Mendes, Casti­ política do movimento como objeto de análi­
lhos, Demétrio e Vargas. A terceira fase seria se. Sua interpretação retoma, no entanto, o
a do “positivismo conservador”, período no. mal-estar ante ao positivismo, acentuando o
qual Comte escreveu o Apelo aos Conserva­ “sentido conservador” e mesmo retrógrado
dores e o volume 4 da Politique, para a qual delineado natematização da reforma social. É
não haveria seguidores brasileiros (Bastos, diversa, porém, a postura que assume mais
1965, pp. 107, 109, 114 e 120). tarde. Ainda crítico do Apostolado, distingue-
Segundo Bastos, de modo geral, o posi­ o da vertente gaúcha, notando, contudo, que
tivismo teria emergido no Brasil no momento as duas correntes são próximas entre si, co­
em que aparecem “áreas de competição” no mungando uma tendência autoritária. Por ou­
sistema imperial, tendo servido como ideolo­ tro lado, descobre uma terceira via, não neces­
gia para militares e a pequena burguesia urba­ sariamente retrógrada, incluindo Pereira Bar­
na de formação educacional técnico-científi- reto, Alberto Sales, Pedro Lessa, Aarão Reis
ca. A Igreja teria tido influência nos primeiros e o próprio Ivan Lins:
anos da República, mas “a mensagem comtis-
ta, antiliberal, socialista e ditatorial” teria se “Enfatizando, cada vez mais, o papel eminente-
cristalizado apenas no Rio Grande do Sul, . mente cultural do positivismo, esse grupo acaba­
ria atribuindo à política uma posição subalterna
onde orientou um “pensamento político origi­ e privilegiando a mudança dos costumes e da
nal”, com economia intervencionista, filoso­ mentalidade como condição prévia à reforma
fia religiosa e política antiliberal, que chega social” (Paim, 1979, p. 3).
até Vargas.
“Em conclusão, o positivismo brasileiro tomado
Esta vertente teria principalmente feições so­
como um todo forneceu os elementos teóricos ciais, servindo como uma pedagogia política
para a ação revolucionária da pequena burguesia que visaria esclarecer as consciências e for­
socializante e nacionalista e, ainda que de manei­ mar novas forças dirigentes, tendo um tom
ra inadequada, procurou formular uma doutrina geral iluminista, donde a denominação de
para a ação do proletariado brasileiro [...]” (Bas­ “positivismo ilustrado” guardaria fidelidade a
tos,1965, pp. 43, 66,148 e 170-171). Comte, mas incorporando outros autores e

121
reinterpretando a sua obra à luz das questões se manifestaria inclusive na submissão dos
nacionais. direitos individuais ao bem público.
A tese de Bastos, no entanto, parece ter Também neste período, Sérgio Buarque
ganho mais continuadores. Em 1972, era a vez de Holanda revê sua interpretação, atentando
de Robert Nachman combinar elementos de para a tendência cismática do movimento po­
várias interpretações com o intuito de provar sitivista e sua disseminação como espírito de
que o positivismo brasileiro foi uma ideologia época.
de classe média, principalmente nos primeiros “O positivismo, tal como se generalizou entre
anos da República. Desta perspectiva, Nach­ nós, não era uma doutrina monolítica [...]. Em
man redivide os positivistas em “praticantes” muitos casos, o papel predominante, politica­
— religiosos ou não que visavam implemen­ mente, do positivismo não é tanto o da filosofia,
tar suas idéias mediante um envolvimento ou da seita, ou da religião, mas o estado de
político — e “confirmados” — os membros espírito e o clima de opinião que, a partir dele,
passou a contaminar vastas camadas, marcando
da Igreja Positivista — , criticando a divisão até alguns que se prezavam de combatê-lo” (Ho­
entre ortodoxos e heterodoxos, j á que todas as landa, 1984, p. 289).
correntes brasileiras desviaram-se do sentido
original da obra de Comte. Os praticantes e os Reforçava, portanto, a voga interpretativa que
confirmados diferenciar-se-iam quanto aos via oinfluência positivismo crivado em tendências e
meios de efetivação de seus programas, mas com José efetiva.
a finalidade era a mesma: uma ditadura repu­ çar o argumento de
Murilo
da
Carvalho (1990) irá refor­
funcionalidade do positi­
blicana modemizadora. Deste modo, Nach­ vismo brasileiro. Buscando entender a inter­
man, a exemplo de Roque Spencer Barros, venção do “positivismo ortodoxo” no proces­
Antônio Paim e Ivan Lins, encontra uma fun­ so de formação da República, defende, pela
cionalidade para o positivismo: ter informado primeira vez, a idéia de que a Igrej a Positivista
a crítica às instituições oligárquicas e possibi­ teria tido papel fundamental na tentativa
litado a constituição de um projeto de mod­ (aliás, frustrada em parte) de configuração de
ernização para o país, de cunho nacionalista, um novo imaginário social adequado ao regi­
autoritário e paternalista. me republicano. Na mesma pista que Bastos
Ricardo Veléz Rodrigues (1980) segue e Nachman, identifica os membros da Igreja
nesta mesma linha, tratando especificamente com um setor da classe média urbana, técnico
da linhagem gaúcha. O autor cotejou textos e e científico, formado por médicos, engenhei­
legislação — imposto territorial; isenções fis­ ros e matemáticos, em contraposição à elite
cais às manufaturas locais; socialização dos política do Império, composta por bacharéis.
serviços públicos; incorporação do proletaria­ Porém, faz uma importante diferenciação: o
do; educação pública e equilíbrio orçamentá­ termo “classe média” tem sentido diferente da
rio — para encontrar como fundamento co­ “pequena burguesia” que aparecera anterior­
mum dos governos de Júlio de Castilhos, Bor­ mente. A ênfase aqui é em que os positivistas
ges de Medeiros e do primeiro Vargas as devem ser entendidos como antagônicos à
normas de O Apelo aos Conservadores de elite política dirigente, da qual são críticos.
Comte — justamente o texto comteano que ‘Tratava-se de uma contra-elite que baseava
Tocary Bastos supunha não ter tido influência o seu poder no saber técnico, no cientificis-
no Brasil. Em todos eles teria prevalecido a mo” (Carvalho, 1990, p.l 38). Ao contrário de
concepção comteana da República como um muitos dos analistas anteriores, Carvalho de­
“regime de virtude”, no qual um Estado forte monstra a importância da ação da Igrej a, afas­
e centralizado deveria exercer uma tutela tando a pecha de sectarismo estéril que recaía
modemizadora sobre a sociedade. O traço sobre ela:
comum seria a reação ao governo repre­ “Os ortodoxos no Brasil mais pareciam um gru­
sentativo, um antiliberalismo exacerbado que po político com idéias muito precisas sobre a

122
tarefa a realizar e os meios a utilizar do que um ma, portanto, a tese do deslocamento do sis­
bando de fanáticos religiosos e loucos. Poder-se- tema de Comte em relação à realidade brasi­
ia mesmo dizer [...] que propunham um bolche- leira. *
vismo de classe média [...]” (Carvalho, 1990, p. Por outro lado, Alfredo Bosi (1992) de­
138). fende a tese de um positivismo modemizador
Isto é, atuavam como uma vanguarda infor­ bem-sucedido. O autor recai no ardil de Mi­
mada por uma filosofia da história — o com- guel Lemos, mantendo a divisão entre ortodo­
tismo, que lhes servia de guia moral e prático xos e heterodoxos e utilizando-se de seus
— que pretendia, por meio de reformas pau­ textos como se fossem uma fonte isenta, o que
latinas, encurtar o caminho entre o atraso bra­ o leva mesmo a cometer erros— porexemplo,
sileiro e o estado positivo da humanidade. nega que Pereira Barreto tenha sido uraposi-
Em contraste com a bibliografia mais ti vista religioso, apresentando-o como repre­
especializada de que venho tratando até aqui, sentante de um “spencerianismo paulista”.
pulula ao longo do tempo um certo ensaísmo Bosi propõe, no entanto, uma reinterpretação.
que normalmente tem por subsídio as análises A tese é a da proposição de um Estado-Provi-
específicas e que recai, portanto, em seus mes­ dência nascido da polaridade comtismo gaú­
mos problemas, principalmente na redução de cho/liberalismo paulista— o que é um desdo­
todos os positivismos a um único caso, toma­ bramento do argumento de Veléz Rodrigues.
do como exemplar. A idéia geral é de que o Chega mesmo a afirmar que o positivismo
positivismo é monolítico e de que a análise da seria um “ideal reformista de Estado-Provi-
obra de um positivista equivale à leitura de dência: um vasto e organizado aparelho públi­
todos. co que ao mesmo tempo estimula a produção
De modo geral, as interpretações mais e corrige as desigualdades do mercado” (Bosi,
recentes admitem a adequação ou funcionali­ 1992, p. 274). O positivismo, em sua interpreta­
dade do positivismo no Brasil, com diferentes ção, seria “um enxerto ideológico de longa du­
ênfases quanto àextração social dos positivis­ ração” que se teria enraizado entre nós.
tas. Por outro lado, háuma linha que interpreta As explicações se dividem ainda hoje,
o positivismo como ideologia burguesa ou portanto, basicamente em dois campos: os que
“cimento ideológico” notável pela persistên­ consideram que o positivismo teve influência
cia — reaparece sazonalmente sem que haja, negativa, perniciosa, como um fator que em­
porém, um aprofundamento da discussão. Em perrou o desenvolvimento nacional, ou que
artigos, teses e livros mais recentes, este gê­ esteve “deslocado” entre nós, e os que viram
nero de interpretação tem-se mantido. Seria aí uma alternativa de compreensão e de trans­
impossível discutir pormenorizadamente to­ formação do país, uma espécie de ideologia
das as tematizações ocasionais de que o posi­ da modernização brasileira.
tivismo brasileiro foi objeto. Remeto, porém,
o leitor à polêmica entre Castro Santos e Paulo Tentativa de Balanço
Arantes (Novos Estudos, ns. 21 e 22). Arantes,
ao tratar da aceitação do positivismo, toma Como vimos, há uma série de dificulda­
apenas o caso Pereira Barreto, a partir do qual des em definir as características que compõem
generaliza sua interpretação do positivismo um positivista. Parte dos intérpretes enfatiza
como uma epidemia — um “sarampão” —- a fidelidade doutrinária como critério, o que
cuja febre advinha de seu caráter ambivalente, significa endossar a propaganda de Lemos,
“nem especialidade acadêmica, nem ideolo­ isto é, assumir a versão construída por uma
gia em estado bruto” (Arantes, 1988a,p. 185). das muitas correntes positivistas como a ver­
Teria sido, no entanto, o propositor de uma dadeira. Outra parte vê os positivistas como a
modernização conservadora, explicada pela vanguarda de uma pequena burguesia em for­
via da “impropriedade do transplante” de uma mação, o que não lhes acentua a singularida­
ideologia francesa para o Brasil. Arantes reto­ de. Ambas as perspectivas insistem na cons-

123
tração de um critério único para tratar partes uma espécie de língua positivista: um vocabu­
distintas do movimento positivista. lário específico, composto por conceitos e
Creio que o positivismo não pode ser preconceitos de Comte, incluindo aí termos
tomado monolitícamente; para entender suas que criou para designar períodos ou grupos
divisões no Brasil, o mais relevante não é sociais específicos e que se cristalizaram —
estabelecer graus de fidelidade à matriz de por exemplo, “legismo”, “pedantocracia” — ,
pensamento européia que chegou ao país, até constituindo um tipo de código lingüístico que
porque ela já se encontrava dividida na pró­ os irmanava (cf. Nachman, 1972, p. 52).
pria França. Há, porém, uma série de caracte­ De uma perspectiva, digamos, ideológi­
rísticas que possibilita classificar um intelec­ ca, em consonância com as demais correntes
tual como parte do movimento positivista. cientificistas, o positivismo procura trazer o
Primeiro e obviamente, os positivistas discurso legitimador da nacionalidade do
fazem parte do cientificismo, isto é, comun­ campo da literatura romântica para o da ciên­
gam a crença na capacidade da ciência em cia, postando-se do lado dos cientistas contra
descobrir as leis que regem os fenômenos os bacharéis e literatos. No entanto, à diferen­
sociais e de fornecer instrumentos de explica­ ça delas, se apresenta como uma ideologia
ção e de intervenção na realidade. A ciência é modemizadora, moralmente orientada, que se
vista como a alavanca do progresso e da civi­ opõe ao liberalismo. Esses vários níveis de dis­
lização, como meio de informar e conformar puta apontam para a vocação modemizadora do
diagnósticos do atraso brasileiro e construir positivismo brasileiro, o que já o distingue do
projetos civilizatórios. Daí se deriva como positivismo francês ou latino-americano;13
regra comum a subsunção da política à ciência uma modernização monitorada por uma van­
e a proposição dos cientistas como uma espé­ guarda em que são privilegiadas as transfor­
cie de vanguarda da civilização. Porém, ao mações evolucionárias e graduais.
contrário dos que aderem a Spencer, todos os Todos os positivistas se unificavam poli­
positivistas mantêm fidelidade à teoria da ticamente por serem republicanos. Eram,
ciência de Comte, como também ao seu rela- pois, críticos do sistema imperial e, especifi­
tivismo e à unidade metodológica das ciên­ camente, dos bacharéis liberais (que alcunha­
cias. No que diz respeito ao corpo teórico da ram de “legistas”) que compunham a elite
obra de Comte, e das ilações daí derivadas, imperial. Isto é, o positivismo foi o molde
temos também concordância básica. Se é a discursivo para a crítica que setores ascenden­
ciência quem fomece as regras de inteligibili­ tes empreenderam à elite política.
dade do real, é também uma das ciências, a Talvez seja do ponto de vista da origem
Sociologia, quem explica e legisla sobre os social que se encontre a maior dificuldade
fenômenos da vida em sociedade; logo, ape­ classificatória. De modo geral, como vimos,
nas ela poderá compreendê-los. Ou seja, se­ as explicações incidem no tratamento de todos
guindo Comte, os positivistas brasileiros vão os positivistas como oriundos de umapequena
tratar todas as questões políticas, econômicas burguesia urbana. No que diz respeito ao gru­
e culturais como problemas sociais, que deve­ po carioca, parece-me irretorquível tratá-los,
riam ser solucionados cientificamente pela como faz Carvalho (1990), como membros da
physique sociale, a Sociologia. contra-elite imperial, uma vez que eram, em
O que distingue os positivistas dos outros sua maioria, profissionais técnicos, sobretudo
teóricos cientificistas é um exacerbado senso médicos e engenheiros. Este critério, porém,
dê missão social de que se consideravam por­ não se aplica a todos os grupos: há um positi­
tadores e que orientava suas ações visando vismo de corporação entre os militares; há os
sempre o bem-estar coletivo, muitas vezes em abastados — por exemplo, Pereira Barreto,
detrimento de seus próprios interesses pes­ filho de fazendeiros, e Ribeiro de Mendonça,
soais. E, ainda mais, todos comungavam de fazendeiro ele próprio — ; como há muitos

124
sem posses — é o caso de Lemos, Teixeira sobressaiu a face política em sentido pleno,
Mendes, que ascenderam socialmente pela via que objetivava o poder de Estado, a ditadura
da educação. Isto é, há vários grupos positi­ positiva e políticas públicas como meio mais
vistas e eles são diferenciados; é impossível, eficaz de civilizar o país. Embora partidário
pois, tratá-los como se constituíssem uma úni­ da religião da humanidade, Castilhos afastou-
ca modalidade. se cedo da órbita da Igreja, defendendo a
Para entender a naturalização do positi­ necessidade da intervenção política para que
vismo entre nós é preciso, portanto, trazer o progresso se instaurasse no país, buscando
para o primeiro plano sua diferenciação inter­ meios que permitissem apressar a “marcha da
na. As dissensões positivistas são, por um civilização”. Com o advento daRepública, ele
lado, produtos da discordância quanto ao conseguirá implementar muitas de suas idéias
modo de implementação do modelo civiliza- assumindo o governo do Rio Grande Sul, para
tório no Brasil. São também resultantes das o qual criou uma constituição estritamente
características de cada um dos grupos que positivista.15
conformaram as reinterpretações dos escritos Em São Paulo, justamente onde a bibli­
de Comte. Podemos dizer, então, que não há ografia afirma quase unanimemente o pouco
um, mas vários positivismos brasileiros. Estas ou nenhum sucesso do positivismo, floresceu
variedades resultam de imbricações entre op­ um movimento intenso, conformando três
ções doutrinárias, posições sociais e questões correntes: a sucursal paulista da Igreja; os
regionais. Apenas um equívoco de interpreta­ bacharéis da Faculdade de Direito de São
ção, portanto, permite reduzi-los a uma única Paulo com atividade política, como Silva Jar­
explicação. Uma análise mais fina teria de dim, José Leão, Pedro Lessa, Alberto Sales e
operar a diferenciação entre as várias tendên­ Aarão Reis;16e a via “sociológica” de Pereira
cias e explicar cada uma delas. Simplificando, Barreto, a corrente predominante, que teve
poderíamos dizer que há três grandes locus prática e obra positivistas e atuou doutrinaria-
para o positivismo no Brasil; a Corte, o Rio mente. Ao contrário dos demais, a adesão de
Grande do Sul e São Paulo.14 Pereira Barreto foi anterior à fundação da
Na Corte, imperou o Apostolado Positi­ Igreja, razão pela qual nunca se subordinou à
vista do Rio de Janeiro, movido por um dog­ autoridade de Lemos. Destoava de seus com­
matismo talvez superior ao do próprio mestre. panheiros de crença também por ser médico e
Sectários e coesos, negando e punindo todo o oriundo de uma família de fazendeiros. Como
mínimo desvio de interpretação da obra de os demais paulistas, Pereira Barreto dedicou-
Comte, seus membros desenvolveram uma se efetivamente à política partidária, còmo
versão marcadamente religiosa do positivis­ meio de atingir os ideais positivistas.
mo, baseada em uma propaganda fortemente Evidentemente, não é possível tratar aqui
doutrinária, que redundou num “bolchevis- os casos em minúcia. Este balanço sumário,
mo” (Carvalho, 1990). Mas houve também espero tenha servido para demonstrar a com­
um positivismo de corporação, o da elite da plexidade do positivismo brasileiro e para per­
Escola Militar, grupo liderado por Benjamin suadir o leitor de que sua história e suas dife­
Constant, decisivo na formulação do golpe renciações locais não se resumem às afirma­
que derrubou o Império e na consolidação da ções de Lemos, cuja tese só faz sentido quan­
República em seus primeiros anos, configu­ do se toma o positivismo como dogmático e
rando uma vertente modernizadora e jacobi­ avesso ao realismo político. A variedade de
na, na qual se enfatizava a ditadura republica­ correntes aponta justamente para a integração
na comandada por um grupo de eleitos, que do positivismo no Brasil, como norteador de
os militares identificaram consigo mesmos diagnósticos e projetos de civilização para o
(Costa, 1990). país. Os critérios para avaliá-lo devem ser,
No Rio Grande do Sul, com Castilhos, pois, as condições brasileiras de suaemergên-

125
cia e não a fidelidade doutrinária. O problema xar contaminar pelos tantos preconceitos que
das classificações doutrinárias é que elas men­ se forjaram ao longo de sua tão efetiva quanto
suram a adequação da obra dos positivistas controversa estadia entre nós.
nacionais à obra de Comte e não a capacidade
dc aplicá-la ao Brasil. É, no entanto, neste
segundo sentido que me parece mais profícuo (Recebido para publicação
analisar o positivismo brasileiro, sem se dei­ em maio de 1996)

Notas
1. Sobre a história das dissidências positivistas e da formação de vertentes distintas veja-se
Gruber (1893). A respeito das divergências de Spencer em relação à obra de Comte,
confira-se o capítulo III deA Classificação das Ciências— “Por que me Separo de Auguste
Comte”, onde o próprio autor especifica suas “semelhanças” e seus contrastes em relação
a Comte; veja-se ainda o capítulo XVI de sua Autobiografia.
2. As informações cronológicas referentes à primeira fase do positivismo no Brasil foram
obtidas pelo cotejamento dos dados apresentados por Lemos (1881), Sampaio (1899), Lins
(1964), Cruz Costa (1956c), Nachman (1972), Beviláqua (1975a) e Barros (1967).
3. Ivan Lins afirma ainda que o Système de Politique Positive era parte da biblioteca da
Assembléia Provincial do Rio à esta época. Cf. Lins (1964).
4. E o momento em que o positivismo inicia sua entrada naFaculdade de Direito de São Paulo,
a partir da qual se formaram os jornais A Luta, que congregava Alberto Sales, Campos
Sales, Rangel Pestana e Américo de Campos, e A Evolução de Júlio de Castilhos. Além
desses jornais especificamente doutrinários, os positivistas avançavam pelos periódicos já
existentes, por exemplo, o Jornal da Tarde, onde França Leite escrevia, além de proferir
conferências de divulgação das soluções positivistas para a educação, e A Província de São
Paulo, do qual Pereira Barreto foi colaborador constante.
5. Da qual faziam parte Benjamin Constant, Oliveira Guimarães, Álvaro de Oliveira, Ribeiro
de Mendonça, Oscar de Araújo, Miguel Lemos e Teixeira Mendes.
6. Confira-se no trabalho de Ivan Lins (1964) a correspondência entre Oliveira Guimarães e
Laffitte, anexada ao final do volume.
7. Quando de sua conversão à religião da humanidade, o futuro sacerdote Miguel Lemos
contava apenas seis anos de idade.
8. A direção do grupo fica a cargo de Godofredo Furtado, professor da Escola Normal,
contando ainda com José Leão, José Bento de Paula Souza, Carvalho de Mendonça, Oliveira
Marcondes e Silva Jardim. Posteriormente, ingressaram na sociedade Sílvio de Almeida,
Miguel Feitosa, José Feliciano de Oliveira e Basílio Magalhães.
9. O artigo foi publicado originalmente na Revue Occidentale e depois transcrito em circular
da Igreja.
10. As cartas de Ribeiro de Mendonça e de Lemos foram publicadas pela Igreja em 1884. Cf.
Lemos (1934).
11. São paradigmáticas as inúmeras polêmicas em que Lemos e Pereira Barreto tomaram parte.
12. Do ponto de vista de sua localização, haveria “positivismos ecológicos” ou regionais
(Bastos,1965, pp. 19 e 22). De uma perspectiva doutrinária, haveria três vertentes positi­
vistas: pedagógica, política e religiosa (Bastos,1965, p. 24). Como linhas derivadas da obra
de Comte, haveria um “positivismo de cátedra”, com a teoria educacional e das ciências do
Cours, e um “positivismo de púlpito”, donde teria surgido a religião da humanidade e um

126
“sacratismo proletarizante”, com a mulher e o proletário como figuras-chave (Bastos, 1965,
pp. 50 e 52-53). Politicamente, haveria dois positivismos: “um conservador e outro
revolucionário” (Bastos,1965, p. 106).
13. De modo geral, o positivismo foi adotado na América Latina pelos mesmos grupos sociais
que antes haviam incorporado o liberalismo; daí a possibilidade de adequação entre as duas
correntes. Tanto o positivismo quanto o liberalismo eram vistos como aptos a favorecer as
concepções de nacionalidade jáexistentes. Nesse sentido, o positivismo não apareceu como
elemento capaz de revolucionar a visão do país nem o projeto político-intelectual em curso;
apenas reforçou concepções prévias (exceção feita à vertente religiosa do Chile, mais
aparentada com o caso brasileiro). No Brasil, ao contrário, o positivismo foi marcadamente
um discurso antiliberal, no sentido que o liberalismo tinha aqui a esse tempo, associado ao
bacharelismo. A adoção política do positivismo serviu, pois, como um contradiscurso, e foi
como molde deste antibacharelismo que a contra-elite imperial o tomou. Portanto, diversa­
mente do que ocorria na América Latina, o positivismo brasileiro teve a especificidade de
apresentar-se como legitimador de uma nova camada em ascensão, opositora justamente
do grupo bacharelesco e aristocrático. Lá, o positivismo foi adotado pela tradição; aqui ele
se constituiu justamente como uma via antitradicional.
14. No Norte, embora tenha havido um pequeno núcleo de positivistas religiosos vinculados à
direção de Lemos, prevaleceu a versão científica do positivismo, rechaçando o Comte
posterior ao Système, mas resguardando seu método. Não tiveram Comte por guia moral
nem político — no que estavam mais próximos de Spencer — , mas apenas científico.
15. Para uma análise mais detida do castilhismo, veja-se Veléz Rodrigues (1980).
16. Todos estes intelectuais são tomados por Paim (1979) como compondo um “positivismo
ilustrado”, que teria optado por uma viapedagógica em alternativa à política como estratégia
civilizatória. O movimento positivista em São Paulo teve mesmo uma função pedagógica,
mas esta é uma característica geral do positivismo, não individua a corrente. Por outro lado,
a atuação política e não sua ausência foi a tônica paulista. Não se tratava, no entanto, de um
grupo organizado, mas de intelectuais independentes, que não agiam nem pensavam de
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Resumo
De Positivismo e de Positivistas: Interpretações do Positivismo Brasileiro
O artigo objetiva apresentar as principais linhas de interpretação a respeito do positivismo no
Brasil, desde seu aparecimento entrè nós até as análises mais recentes. Pretendo mostrar que a
bibliografia especializada se dividiu em três grandes ondas explicativas, sendo as duas primeiras
muito influenciadas pela história oficial do positivismo brasileiro, o que as levou a cometer
equívocos na avaliação do movimento no Brasil. As análises mais recentes, por outro lado, têm
atentado para a integração do positivismo brasileiro e percebido a impossibilidade de tratá-lo
de forma monolítica. Observa, ainda, o caráter cismático do movimento e a necessidade de
abordá-lo levando em conta sua inserção no contexto político, econômico e intelectual,
ressaltando seu ímpeto modemizador — muito embora seja, na origem, uma ideologia conser­
vadora.
Abstract
On Positivism and Positivists: Interpretations of Brazilian Positivism
The article describes the main lines of interpretation regarding positivism in Brazil, from its
initial emergence to more recent analyses. It intends to show that the specialized bibliography
can be divided into three mayor explanatory waves, the first two highy influenced by the official
history of Brazilian positivism and thus liable to errors in their evaluation of the movement in
Brazil. More recent analyses, on the other hand, have moved towards the integration of Brazilian
positivism, realizing it cannot be dealt with in monolithic fashion. Attention is also called to the
schismatic nature of this movement and the need to approach it.by taking into account its role
within the overall political, economic, and intellectual context, emphasizing its modernizing
momentum — much as in its origins it is a conservative ideology.

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