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Onde termina a vida e começa a morte

Maria Angélica Melendi

A história é lodosa e viscosa. Algo que é bom ter


sempre em mente, pois as catástrofes de amanhã
sempre estão maturando desde hoje, furtivamente.

Eco

Como dormía de espaldas, no lo sorprendió la


posición en que volvía a reconocerse, pero en cambio
el olor a humedad, a piedra rezumante de filtraciones,
le cerró la garganta y lo obligó a comprender. [...]
Quiso enderezarse y sintió las sogas en las muñecas y
los tobillos.1

Cortázar

Entendemos que é um mapa, mas não o reconhecemos à primeira vista:


vemos somente um território espesso de escritas e imagens que ocupa a maior parte
do papel; um espaço em branco, um possível mar, abre-se à direita. À esquerda, um
curso de água separa duas costas acidentadas. O título é Esboço para um mapa do
mundo. Parte 1(Américas, Pacífico), 1972. O desenho é um estudo para a obra
World Map, 1972, na qual o mapa-múndi está quase completo. O fragmento do
planisfério que está no Esboço se estende da América Central até o Paraguai, de
parte da China até a Micronésia e, entre os dois continentes, o Oceano Pacífico é
uma faixa estreita.
2
No mapa, Öyvind Fahlström modificou os limites dos países até tornar
irreconhecíveis as fronteiras e os acidentes geográficos; a massa densa de texto e

1 Como dormia de costas, não o surpreendeu a posição em que tornava a se reconhecer, mas o cheiro de
humidade, a pedra suarenta de infiltrações, fechou-lhe a garganta e o obrigou a compreender. [...] Quis se erguer
e sentiu as cordas nos pulsos e nos tornozelos. (tradução livre).

2 Öyvind Fahlström (1928-1976) artista, poeta, jornalista, dramaturgo, nasceu em São Paulo em 1928, filho de
imigrantes suecos e morou no Brasil até seus dez anos. Fahlström é pouco conhecido no Brasil e a literatura a
respeito de sua obra é bastante escassa. No Brasil, foi homenageado na quinta edição da Bienal de São Paulo em
imagens que configura parte de América do Sul perdeu seus contornos, já não é
aquele quase triangulo com seu vértice apontando para o sul (não existe vértice, pois
o mapa se interrompe à altura do Paraguai); não se distingue o estuário do Rio de la
Plata, Cuba não é uma ilha e não há rastros visíveis do Istmo de Panamá nem do
Golfo de México. As nações se distribuem como seções apertadas, algumas vezes
seguem o raciocínio de histórias em quadrinhos, à maneira de Robert Crumb, outras
parece que as linhas que os delimitam obedecem ao tamanho das inscrições e
imagens que o artista quis incluir dentro delas.
Detenho-me no sul: sob o título Brasil - breve historia, um general e um
homem de cartola – o poder militar e o poder financeiro –, empurram para o abismo
o Presidente Vargas (1954), o Presidente Quadros (1962)3 e o Presidente Goulart
(1964) e, finalmente, implantam um governo militar com apoio dos Estados Unidos.
A montanha de onde são jogados os presidentes transforma-se nas pernas com botas
dos ditadores que pisam sobre os manifestantes no “junho sangrento de 1968”. À
direita da multidão esmagada, Fahlström enumera e desenha diversos tipos de tortura
aplicados aos opositores do regime: “pau de arara”, eletrochoques e, finalmente,
“mesa de operações”. Nesta última, vemos um homem deitado de costas sobre uma
mesa com os pés e as mãos amarrados, outros dois estão prestes a torturá-lo. A cena
acontece num anfiteatro lotado, como se fosse uma lição de anatomia (ou uma aula
de tortura). A legenda, porém, apaga qualquer dúvida: Quartéis da Polícia, Belo
Horizonte, 90 jovens militares ensinam tortura sobre o corpo de 10 presos políticos
nus4.
******
Essa cena infame não é desconhecida: uma mulher ou um homem deitado de
costas sobre uma superfície plana – altar, maca, mesa, cama – às vezes com os
punhos e os tornozelos amarrados, às vezes não. À sua volta, atarefados, outros
homens. A reconhecemos de tanto vê-la em filmes, quadrinhos, novelas, histórias,
fotografias, quadros de artistas renomados.

1959. Participou também da 6a Bienal do Mercosul, em Porto Alegre, em 2007, e, em 2017, da 32a Bienal de São
Paulo.
3 A renúncia do Presidente Jânio Quadros está datada erroneamente, aconteceu em 1961.
4 Police HQ, Belo Horizonte, 90 junior military officers taught torture on 10 naked political prisoners (no

original)

2
No conto de Júlio Cortázar, La noche boca arriba, um jovem foge (ou sonha
que foge) dos seus perseguidores, guerreiros astecas que querem capturá-lo. Ele
corre através da floresta húmida, entre os pântanos dos arredores da cidade de
Tenochtitlán. Era o tempo da "guerra florida”, uma disputa ritual entre as nações do
lago de Texcoco para capturar as vítimas que seriam sacrificadas aos deuses. Acorda
estendido sobre uma pedra, amarrado, os olhos fechados entre as fogueiras. Sabe o
que vai acontecer.

[...]le subían en lo alto y le echaban de espaldas


sobre una piedra y le sacaban el corazón y el otro le
asía de los pies para que no se menease [...] y para
hacer esto se ataba la cabeza y los cabelos con una
manta blanca para sacar el corazón... 5.

O texto acima descreve uma das imagens do Codex Magliabechiano. Os


muros e as escadarias do teocali6 estão cobertos de sangue. No chão, à direita, um
grupo de homens observa o sacerdote. À esquerda, outros contemplam um corpo
caído ao pé da escada. A faca de obsidiana do oficiante abre o peito do desventurado
que está deitado sobre a pedra do altar, no topo do templo . Arrancado, o coração é
levantado em direção ao sol e depois apoiado, ainda latejante, sobre a laje do altar7.

A abertura de um corpo sempre se constituiu como um ato ritual, uma


performance encenada para audiências específicas, regulamentada através de
disposições legais e religiosas. Na Europa do século XVII, a dissecação do corpo
humano nunca foi uma maneira de ensinar, pesquisar ou fazer autopsias. Era uma
cerimônia solene, realizada em um “teatro anatômico” especialmente desenhado para
que todos os assistentes vissem o professor desempenhando uma coreografia
predeterminada. Assim, A lição de anatomia do Dr. Nicolaes Tulp, de Rembrandt

5 "[...] o colocavam no alto e o jogavam de costas sobre uma pedra e lhe extraiam o coração e o outro lhe
segurava os pés para que não se movesse [...] e para fazer isto se atava a cabeça e os cabelos com uma manta
branca para extrair o coração..." Texto do Codex Magliabechiano.
6 TEOCALI: Templo, centro cerimonial, geralmente erguido numa eminência artificial, em forma de pirâmide
truncada, entre os astecas.

7
ANÔNIMO Codex Magliabechiano7 (1529-1553) um manuscrito composto de seis seções; pelo menos dois
artistas diferentes produziram as imagens e outros tantos escribas redigiram as glosas em espanhol. A escrita
comenta cada desenho no verso do folio.

3
van Rijn, 1632, não é um exemplar isolado; pertence a um gênero – lição de
anatomia –, amplamente difundido na Holanda entre os séculos XVII e XVIII.

Em 1967, John Berger, destaca a extraordinária similitude entre a pintura de


Rembrandt e a fotografia do corpo do Che Guevara, exibido à imprensa
internacional, em Vallegrande, Bolívia:
El lugar del doctor Tulp lo ocupa un coronel
boliviano, impecablemente vestido. Las figuras a su
derecha observan el cadáver con el mismo interés,
intenso pero impersonal, que los doctores ubicados a
la derecha del profesor. La misma cantidad de figuras
hay en el Rembrandt que en el establo de
Vallegrande. El aire de quietud del cadáver y su
ubicación respecto a las figuras que se inclinan sobre
él, son asimismo muy similares8.

Assim como o quadro de Rembrandt, a fotografia é uma encenação, desta vez


para os jornalistas internacionais. Guevara tinha sido capturado na Quebrada del
Churo e, lá mesmo, executado. O corpo foi levado depois até Vallegrande e exposto
na lavanderia do Hospital de Nuestro Senhor de Malta, no vilarejo9.
Na foto, observa-se – em uma maca apoiada sobre um tanque – o cadáver de
um homem jovem, sem camisa, com os olhos entreabertos, sem marcas aparentes de
feridas. A jaqueta dobra-se em torno ao seu braço esquerdo, como que a ocultar
alguma coisa. Um dos militares parece estar lhe arrumando os cabelos; outro militar
aponta o indicador para o peito nu. O fotógrafo boliviano Freddie Alborta, autor da
imagem, relata que era evidente que o corpo de Guevara havia sido lavado e
penteado e que o seu posicionamento no recinto era intencional10.
******

A escrita se aperta na folha em branco, como se aquele que escreve soubesse


que o espaço disponível nunca será suficiente. Frente e verso: na frente, sob a pletora
de texto, uns desenhos pequenos e toscos. À esquerda, um homem de chapéu

8 BERGER, John. Che Guevara muerto. Outubro de 1967. Incluído por primeira vez em forma de livro em The
Moment of Cubism and Other Essays, Londres: Weidenfeld & Nicolson,1969. In: KATZ, Leandro. Los
fantasmas de Ñancahuazú. Buenos Aires: La lengua viperina, 1997.p.26. O lugar do professor está ocupado por
um coronel boliviano, impecavelmente vestido. As figuras à sua direita observam o cadáver com o mesmo
interesse, intenso mas impessoal, que os doutores à direta do professor. A mesma quantidade de figuras existe no
Rembrandt e no estábulo de Vallegrande. O ar de quietude do cadáver e sua posição relativamente às figuras que
se inclinam sobre ele são, da mesma forma, muito similares. (tradução livre)
9 Idem
10 KATZ, 1997. p.35 e seguintes.

4
empunhando uma câmara fotográfica ou filmadora. À sua frente, deitada de costas
numa cama, uma figura indefesa rodeada por homens. Dois deles seguram fios
elétricos. O texto que acompanha o desenho diz:

Este filmaba o sacaba fotos. Usaba ropa negra y tenía


barba recortada y bigotes ralos11.

O texto e as imagens, foram feitos por Júlio Jorge López12, Em 1976, durante
a última ditadura cívico-militar na Argentina, Júlio López foi sequestrado e
confinado em diferentes centros clandestinos de detenção. López sobreviveu a esta
experiência e, em 1998, apresentou-se como testemunha nos Juicios por la Verdad
13
. Depois que o Congresso Nacional e a Corte Suprema anularam as leis de
impunidade, em 2006, o aposentado depôs como vítima e testemunha no julgamento
por delitos de lesa humanidade no qual Miguel Osvaldo Etchecolatz, notório
torturador e diretor de Investigações da Polícia da Província de Buenos Aires, foi
condenado à prisão perpétua. Pouco depois de testemunhar e um dia antes de ditar-se
a sentença condenatória, Jorge Júlio López desapareceu. Até o dia de hoje, não se
sabe o que aconteceu com ele.

Em 2005, antes de prestar testemunho, López tinha entregue ao seu amigo,


Jorge Pastor Asuaje, sete folhas manuscritas que levam por título Archivo negro de
los años en que uno vivía adonde termina la vida y empieza la muerte14 , solicitando-
lhe que os custodiasse. Depois de deixar claro que testemunhou tudo o que relata,
López afirma: estos crímenes no vencen nunca15. Os documentos estão escritos com
esferográfica sobre o verso de formulários da Municipalidad de La Plata, sobre
folhas de caderno escolar, sobre uma folha do calendário de março de 2005 e no
verso de um folheto de publicidade de um supermercado popular.

11 CATERBETTI, 2012. p. 91. Este filmava ou tirava fotos. Usava roupa negra e tinha a barba aparada e bigodes
ralos.
12
Julio Jorge López (1929 - desaparecido em 2006) General Villegas, Provincia de Buenos Aires, Argentina,
pedreiro aposentado e militante peronista.
13 Chamaram-se Juicios por la Verdad procedimentos judiciais sem efeitos penais, que aconteceram na década de

1990, na Argentina ante a impossibilidade de perseguir penalmente aos responsáveis dos crimes de lesa
humanidade perpetrados durante a última ditadura cívico - militar (1976 - 1983), pela sanção das leis de Punto
Final (1986) e de Obediencia Debida (1987), e dos indultos dos integrantes das Juntas Militares condenados no
Juicio a las Juntas, 1985. Desde setembro de 1998 no Tribunal de La Plata, todas as quartas feiras, tinha
audiências públicas relacionadas a delitos de lesa humanidade.
14 CATERBETTI, Jorge (org.) Jorge Júlio López: Memória escrita. Buenos Aires: Marea, 2012. p.83.” Arquivo

negro dos anos em que vivia-se onde termina a vida e começa a morte."
15 CATERBETTI, 2012. p.7. esses crimes não prescrevem nunca

5
O homem de chapéu filma (ou fotografa) o irrepresentável. A pessoa
amarrada sobre a cama está por receber descargas elétricas – os torturadores chamam
esse procedimento de asador16, disse Júlio López –, e podemos imaginar, através das
palavras e dos desenhos, a orgia de dor e de sangue, os homens embrutecidos –
bêbados e drogados, continua Júlio López –, com os olhos desorbitados, cada vez
mais excitados com os sofrimentos da vítima. O desenho é impreciso, mas, através
das palavras, evocamos a imagem recorrente de Patrícia Dell’Orto, a jovem que,
antes de morrer, pede a López que se despida dos seus pais e que beije sua filhinha.

A escritura de Lopez é urgente: as frases saem em turbilhões, em


redemoinhos, e não respeitam o ritmo da fala nem a continuidade sintática da
escrita. As lembranças de Júlio López se amontoam e se sobrepõem, se repetem: tem
muito a dizer e pouco tempo para fazê-lo. Plantas arquitetônicas dos centros
clandestinos de detenção, sistemas de tortura, retratos dos torturadores, celas dos
companheiros: os desenhos acompanham a narrativa e a complementam. Júlio López
sabe que é necessário deixar registradas as mais infames memórias para que não se
diluam no comum olvido.17

******
Öyvind Fahlström, deixou o Brasil no ano de 1948 e nunca mais voltou ao
país. Apesar disso, em muitos de seus trabalhos, sobretudo nos mapas, destaca os
problemas dos países da América Latina. Fahlström acompanhava com obstinação o
que estava acontecendo no mundo, delineando também dinâmicas e conflitos locais,
a fim de trazer para o mapa a potencia das múltiplas formas de construção das lutas
sociais e de suas manifestações 18 . Como ativista, fez diversas tentativas para
distribuir seus desenhos fora do sistema de arte: em maio de 1972, inseriu a
impressão em preto e branco de Esboço para um mapa do mundo. Parte 1(Américas,

16 Grelha, churrasqueira.
17 Em 2016, a família de Jorge Júlio López, descobriu, escondidos no fundo falso de uma caixa de ferramentas,
por volta de trinta manuscritos. Sob pedaços de arame, chaves de fenda, alicates e prumos, guardados sobre uma
tábua que fazia às vezes de fundo duplo, ocultaram-se, por anos os relatos e os desenhos onde López denuncia as
torturas que sofreu e as de que foi testemunha no Pozo de Arana, seu passo pela Comisari 5ta. de La Plata,
diagramas do lugar, mais retratos dos repressores, suas impressões como testemunha contra Miguel Etchecolatz e
reflexões sobre a militância pelos direitos humanos. Os textos constituem uma segunda parte, mais profunda e
extensa, dos revelados em 2012 no livro Jorge Júlio López. Memoria escrita onde se publicaram páginas das que
falamos antes.
18
MESQUITA, André Luiz. Mapas dissidentes: proposições sobre um mundo em crise (1960-2010) Tese de
Doutorado Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas-História Social/ p.90 e ss.

6
Pacífico) num número do jornal de esquerda Liberated Guardian, depois fez uma
tiragem de 150 cópias da imagem e reverteu o lucro em apoio dos yippies19, e, mais
tarde, vendeu cópias a preços accessíveis.
Julio López ficou em silêncio durante mais de vinte anos, como tantos dos
que saíram vivos e humilhados dos campos clandestinos de detenção. A angústia
decorrente das leis de impunidade que permitiram que os assassinos andassem livres
pelas ruas do país obrigaram os sobreviventes a enterrar cada vez mais fundo suas
lembranças. Elas, porém, estavam bem protegidas e um dia iriam emergir. Trinta
anos depois de seu cativeiro, López consegue narrar e desenhar, de memória, o que
aconteceu a ele e aos seus companheiros. Os desenhos de Júlio López, arrancados de
antigas lembranças, confirmam, com a força do testemunho, os desenhos que
Fahlström esboçara em Nova York, na década de 1970, a partir de relatos de outros.

******

Este punhado de imagens – o detalhe do mapa de Öyvind Fahlström, o


desenho do Codex Magliabechiano, a Lição de anatomia de Rembrandt, a foto de
Guevara feita por Freddie Alborta em Vallegrande, os esboços de Júlio López –
repete uma forma expressiva única. Uma pesquisa mais extensa multiplicaria as
imagens e os autores: todos os Cristos jacentes, todos os santos martirizados, todos
os corpos atormentados e abandonados, – de Masaccio a Giuseppe Sanmartino até o
anónimo fotógrafo que registrou a autópsia de Vladimir Herzog e os que depois
registrarão os horrores contemporâneos. A memória de um gesto atravessa territórios
e séculos. O mesmo gesto de exibir um cadáver ou de martirizar um corpo: de costas,
deitado sobre uma pedra de altar, uma mesa ou uma cama. Em volta desse espaço de
abjeção orbitam corpos torturados, algozes e observadores.
Um público, visível ou não, está em todas as imagens e assiste à cena num
silêncio cúmplice. Os jovens oficiais brasileiros, a população asteca, os médicos
holandeses, os jornalistas bolivianos, o misterioso fotógrafo de chapéu. E nós, que
também olhamos entre o espanto, o terror e o medo.
Essas imagens estão atravessadas por um impulso que oscila entre o
testemunhal e o exemplar . São testemunhos porque enunciam e denunciam práticas

19 Membro do Youth International Party, grupo norte-americano revolucionário e contracultural dos anos 1960.

7
obscenas tanto do passado como do presente. São cenas exemplares porque, ao
mostrar a sina dos corpos atormentados, buscam advertir ou ameaçar. São também
lições de anatomia, de sacrifício, de tortura, de execução, de assassinato.

Em Belo Horizonte ou em La Plata, em Vallegrande, em Amsterdã ou em


Tenochtitlán, seus autores reiteram as formas expressivas de um passado que, ao que
parece, nunca acaba de passar.