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A terra, a fome e o teatro

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A história dos "condenados da terra", expressão que deu nome ao principal livro de
Frantz Fanon (1925-1961), não ocupa muito espaço na memória coletiva do país. História
e memória são seletivas. O massacre de Eldorado dos Carajás talvez fuja um pouco dessa
norma. Se ainda não há filmes ou peças de teatro à altura desse evento, reportagens,
livros, depoimentos, músicas e uma instalação com castanheiras queimadas na curva do
S, às margens da BR 155, vão resistindo ao apagamento, à invisibilidade e à distorção do
episódio que tirou a vida de 19 trabalhadores rurais sem terra e deixou dezenas de
feridos no longínquo ano de 1996. Esta memória não é insignificante, considerando que,
segundo alguns, a cada 20 anos o Brasil esquece os 20 anos precedentes.
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Este massacre foi um dos motivos que moveu nossa Companhia, a Kiwi Companhia de
Teatro, a montar "R" (1997), um trabalho cênico que, entre outros assuntos, denunciava
a chacina ocorrida no sudeste do Pará. Na ocasião, um dos sepultadores abriu um número
de covas maior do que o de corpos a serem enterrados. Observado por Juca Varella,
fotógrafo independente, ele afirmou: "É melhor sobrar do que faltar". Quando se pensa
em terra e camponeses pobres, esta é a única fartura de que temos notícia. Sobram
covas, falta terra.
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Mas a história que se contenta em narrar episódios tem o inconveniente de ofuscar os
mecanismos que os tornam possíveis. É como se o clarão dessas explosões de violência
impedisse a compreensão dos processos sociais que permitem a eclosão das brutalidades
com as quais temos nos habituado. A história, sabemos bem, vem de longe: o genocídio
indígena e a escravidão negra são o paradigma desse modelo de sociedade baseado na
violência, na exclusão, na exploração e no massacre ideológico.
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Por este motivo, o arquivo aberto da memória deveria ser também um inventário
político. Oscar Wilde identificou um dos nervos do problema: "É muito mais fácil sentir
simpatia pelos que sofrem do que sentir simpatia por uma ideia". E uma das ideias pelas
quais poderíamos ter simpatia é a de justiça social. Na formação histórica do Brasil, a
posse da terra tem sido uma forma de impedir que essa justiça se estabeleça. Das
capitanias hereditárias ao recente projeto que permite a venda de terras para
estrangeiros, passando pela Lei de Terras de 1850, a concentração fundiária foi sempre
uma regra de ouro. Pobre não pode ter terra. Por isso a reforma agrária foi e continua
sendo diabolizada e qualquer organização autônoma dos camponeses e camponesas vira
assunto de polícia.
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Em maio de 2000 eu presenciei outra manifestação da violência de Estado. Dela resultou
o curta-metragem "Êta, Brasil!", que eu roteirizei e co-dirigi a partir de imagens
captadas pelo MST – Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra e pela imprensa
local. Na época, o agricultor Antonio Tavares Pereira foi assassinado pela Polícia Militar
do Paraná, então governado por Jaime Lerner, que hoje assessora a prefeitura de São
Paulo na gestão de João Dória. Antônio e outros mil trabalhadores do campo
participavam de uma caravana em defesa da reforma agrária. Os 50 ônibus em que
estavam foram interceptados na BR 277, e uma perseguição violenta, com tiros e
munição real, teve lugar.
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O documentário, concluído em 24 de maio do mesmo ano, mostra a ofensiva da PM sobre
os trabalhadores e os danos causados pelas balas, bombas e cassetetes sobre pessoas já
rendidas, que se amontoavam na estrada, deitadas de barriga para baixo, com as mãos
na cabeça. Diante das imagens, as declarações dos políticos e das autoridades militares
nos programas de TV são inverossímeis, beirando o grotesco. O filme, pouco visto,
continua praticamente inédito como arquivo de um momento político vivido pela
Companhia no início da sua trajetória.
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Em 2010, fomos ao Pará com o projeto "Carne - Patriarcado e Capitalismo", que discutia
a opressão contra as mulheres. O MST e o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB)
foram parceiros locais nas apresentações, oficinas e exibições de filmes que realizamos
no assentamento Palmares, em Parauapebas e na cidade de Marabá. Fomos à curva do S
para registrar e guardar na memória a tragédia ocorrida em 1996 (foto).
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Passados sete anos, a situação mudou muito pouco. Ou nada. A esperança suscitada por
governos progressistas esbarrou mais uma vez nos compromissos, na conciliação por
cima e, por fim, no golpe. Nossa Companhia ainda existe, sobrevivemos à extinção e à
recriação do MinC, aos orçamentos ínfimos, à indiferença dos gestores, ao torcicolo
cultural imposto por novas formas de colonização.
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Agora apresentamos "Fome.doc", uma nova tentativa de diagnosticar este país de tantas
misérias e de algumas farturas indecentes. Do Paraná ao Pará, passando por São Paulo, a
fome e a luta pela terra vão indicando o caminho. Áspero, mas um caminho.
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Fernando Kinas. Diretor e pesquisador teatral. Professor do Instituto de Artes da
UNESP. Fundou e dirige desde 1996 a Kiwi Companhia de Teatro.

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