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FACULDADE DE DIREITO

DA
UNIVERSIDADE AGOSTINHO NETO

DIREITO DAS OBRIGAÇÕES


2013

I e III Capítulos do Programa da Disciplina

Itiandro Slovan Simões


Assist. Estag.

0
Índice

O conceito, a função e outras generalidades da obrigação 2

1.3. Estrutura da obrigação.


1.3.1. O crédito como direito sobre a pessoa do devedor.
1.3.2. O crédito como um direito à prestação (teoria clássica).
1.3.3. O crédito como um direito sobre os bens do devedor
1.3.4. O crédito como relação entre patrimónios.
1.3.5. O crédito como um direito à aquisição de bens do devedor.
1.3.6. O crédito como expectativa da prestação, acrescida de um direito real de garantia
sobre o património do devedor.
1.3.7. As doutrinas mistas.
1.3.8. As doutrinas que sustentam a complexidade do vínculo obrigacional.
1.3.9. A posição adoptada. 20

1
Índice

O conceito, a função e outras generalidades da obrigação 2

Resultados alcançados em 2012 10

Evolução e desafios futuros 20

2
A obrigação em sentido lato inclui o dever jurídico de prestar, bem, como correspectivos
estados de sujeição, ónus, poderes/deveres [deveres funcionais] e deveres acessórios. A
definição legal [art. 397º], ainda que insuficiente, é o ponto de partida…

Necessidade imposta pelo direito a uma pessoa de observar um determinado


Dever jurídico comportamento, obrigação, imposição de uma conduta (sanção – vai de acordo com o
grau de exigibilidade).
Leva-nos ao direito subjectivo, depende da vontade do titular, corresponde a um direito
conferido pela ordem jurídica a determinada pessoa de exigir um comportamento um
comportamento jurídico como meio de satisfazer um interesse próprio ou alheio.
Lado activo–vinculação de uma pessoa a uma conduta específica, como tb a
vinculação de uma pessoa a uma conduta genérica.
Lado passivo–vinculação de uma conduta a uma pessoa específica.

Situação inelutável de uma pessoa ter de suportar na sua esfera jurídica a modificação a
Ónus jurídico que tende o exercício do poder conferido a outra pessoa (contrário de direito potestativo –
poder conferido a uma pessoa de mediante um acto unilateral introduzir ou modificar a
esfera jurídica de outra pessoa).

Estado de Necessidade de observância de certo comportamento, não por imposição de lei mas como
sujeição meio de abstenção ou manutenção de uma vantagem para o próprio onerado. (ex. ónus de
alegar ou ónus de provar).

Direito conferido não pelo interesse do particular mas de outra pessoa e só é legitimamente
Direito/dever ou exercido quando se mantenha fiel à função a que se encontra adstrito. (ex. poder paternal
poder funcional ou poder tutelar).
3
… a prestação mais frequente é, efectivamente, a obrigação de facere. Ressalve-
se que a adstrição à não realização de uma prestação [obrigação de non facere]
constitui, ainda, uma obrigação: vg a não construção de um muro.

Obrigação em sentido técnico


Artigo 397.º

Relação jurídica por virtude da qual uma ou mais pessoas podem


exigir de outra(s) a realização de uma prestação.

Abrange não apenas o lado passivo, o dever de prestar, bem como o poder de
exigir a prestação conferido à outra parte.
Sendo que quando se quer distinguir entre os dois lados da relação, que são duas
faces da mesma realidade, chama-se crédito (direito de credito) ao seu lado activo
e débito (divida) ao lado oposto.
À pessoa que tem o poder de exigir a prestação dá-se o nome genérico de credor;
à outra, sobre a qual incide o correlativo dever de prestar, chama-se devedor.

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Se o dever de prestar não for realizado, por incumprimento, opera o poder de prestar, mediante
concessão de uma vantagem sucedânea à vantagem inicial, ao credor. A obrigação não deve,
todavia, ser reduzida à garantia do cumprimento, já que tem cariz pessoal e não real…

O primeiro ponto em debate sobre a estrutura da obrigação é uma discussão sobre o objecto da obrigação

A obrigação é um dto de crédito. O dto de crédito é um direito subjectivo. O seu objecto é a prestação?
O verdadeiro objecto da obrigação é realmente a prestação ou o património do devedor? (pois é este,
e não o próprio devedor que vai responder em tribunal).
Temos duas prestações possíveis: 1) Prestação–conduta do devedor; 2) Património–bens do devedor.

Teorias personalistas – é a prestação.

Existem 4 teses Teorias realistas – é o património do devedor


que tentam
definir qual o
objecto da Teorias mistas – é uma combinação da prestação e do património do devedor
obrigação

Doutrinas da complexidade obrigacional – consiste numa entidade complexa

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A responsabilidade pelo incumprimento não se inclui no crédito, na medida em que é uma
consequência da sua violação e gera outra obrigação. Por via de regra, a obrigação constitui-se
e extingue-se pelo cumprimento, sem necessidade de recorrer à responsabilidade por dívidas…

● As teorias personalistas

O crédito como um direito sobre a pessoa do devedor (Roma Antiga)


1
Direito de domínio sobre a pessoa do devedor, este que até podia ser sujeito à escravatura,
caso não pagasse as suas dívidas. Savigny era um defensor desta teoria.

2 O crédito como um direito à prestação (teoria clássica) – a posição adoptada.


Reflecte um dto do credor a uma conduta por parte do devedor – a prestação devida.

O artº 397 CC consagra a teoria clássica quando usa a palavra: “prestação”.


O credor tem um direito subjectivo à prestação mas não tem qualquer direito sobre os bens
do devedor, embora possa pedir a execução do património deste, em caso de
incumprimento.
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● As teorias realistas

O crédito como um direito sobre a pessoa do devedor: O crédito é, à semelhança dos


direitos reais, um dto sobre bens, só que não recai sobre bens determinados, mas sim, sobre
1 todo o património do devedor (universalidade). O acto do devedor cumprir ou não a obrigação
é sempre um acto livre (Brinz, Bekker e Brunetti).

O crédito como uma relação entre patrimónios: Não é o devedor que deve ao credor, mas
sim o património do devedor que deve ao património do credor.
2
É como um dto real, com a diferença que ñ incidiria sobre um bem em especial, mas sim sobre
a generalidade dos bens que constituem o património do devedor (Eugene Gaudemet, Bonelli)

O crédito como um direito à transmissão dos bens do devedor: É um processo de


aquisição de bens; por isso o objecto da obrigação não é a prestação, mas sim os bens
propriamente ditos (propriedade indirecta).
3
Algumas variantes: 1) tese da alienação da propriedade do devedor; 2) concepção de
Savatier; 3) concepção que qualifica o credor como sucessor do devedor, afirmando que o
fenómeno da sucessão estaria presente no direito de crédito.

O crédito como expectativa da prestação, acrescida de um direito real de garantia


sobre o património do devedor (Pacchioni). Duas relações fundamentais:
4 1) A relação de débito (um dever do devedor, e também a uma expectativa do credor); 2) A
relação de responsabilidade (um estado de sujeição por parte do devedor, e um direito
subjectivo por parte do credor). O dto de crédito seria assim um direito de garantia muito
especial sobre os bens do devedor. 7
● As teorias mistas (inclui-se a célebre concepção da “Schuld und Haftung” (dívida e
responsabilidade).

Estas teorias afirmam que o objecto da obrigação é constituído por:


1) Dívida (o direito à prestação) – Que é o dever de efectuar a prestação. É o direito à
prestação que o credor tem perante o devedor. Este direito é satisfeito mediante o
cumprimento voluntário do devedor.
1
2) Responsabilidade (o direito de execução do património) – Que é um vínculo de
garantia, traduzido num estado de sujeição do património do devedor perante o credor, em
caso de não cumprimento. O credor tem assim um direito sobre o património do devedor. É
satisfeito através dos tribunais, mediante processo de execução coactiva.

A obrigação é constituída por dois elementos fundamentais (a dívida e a


responsabilidade).
2
● Estas teorias defendem também, que como estes dois elementos são autónomos, uma
obrigação pode existir apenas com um deles. Dois exemplos:
● 1) A responsabilidade existiria sem dívida nos casos de penhor, fiança ou hipoteca.
● 2) A dívida existiria sem responsabilidade no caso das obrigações naturais.

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● As teorias realistas

O crédito como um direito sobre a pessoa do devedor: O crédito é, à semelhança dos


direitos reais, um dto sobre bens, só que não recai sobre bens determinados, mas sim, sobre
1 todo o património do devedor (universalidade). O acto do devedor cumprir ou não a obrigação
é sempre um acto livre (Brinz, Bekker e Brunetti).
O crédito como uma relação entre patrimónios: Não é o devedor que deve ao credor, mas
sim o património do devedor que deve ao património do credor.
2 É como um dto real, com a diferença que ñ incidiria sobre um bem em especial, mas sim sobre
a generalidade dos bens que constituem o património do devedor (Eugene Gaudemet e
Bonelli.
O crédito como um direito à transmissão dos bens do devedor: É um processo de
aquisição de bens; por isso o objecto da obrigação não é a prestação, mas sim os bens
propriamente ditos (propriedade indirecta).
3
Algumas variantes: 1) tese da alienação da propriedade do devedor; 2) concepção de
Savatier; 3) concepção que qualifica o credor como sucessor do devedor, afirmando que o
fenómeno da sucessão estaria presente no direito de crédito.

O crédito como expectativa da prestação, acrescida de um direito real de garantia


sobre o património do devedor (Pacchioni). Duas relações fundamentais:
4 1) A relação de débito (um dever do devedor, e também a uma expectativa do credor); 2) A
relação de responsabilidade (um estado de sujeição por parte do devedor, e um direito
subjectivo por parte do credor). O dto de crédito seria assim um direito de garantia muito
especial sobre os bens do devedor. 9
TEORIA “SCHULD
UND HAFTUNG”

O direito de
crédito é
constituído por:
Dívida Responsabilidade
(elemento (elemento
autónomo) autónomo)

Obrigações
Naturais

Existe a dívida Mas não existe a


responsabilidade

Isto só é possível porque tanto a dívida, como


a responsabilidade são elementos autónomos,
e a obrigação para existir, apenas precisa da
verificação de um deles.
Governo Provincial de Luanda 10
● As doutrinas da complexidade obrigacional

São a última corrente de pensamento jurídico que tenta definir qual o objecto da
obrigação; se a prestação, se o património do devedor.

A Obrig. é uma realidade complexa, abrangendo uma série de elementos, nos quais se
encontraria tanto a prestação, como a possibilidade de execução do património do
devedor.

Heinrich Siber é o primeiro autor a defender estas doutrinas, identificando um leque de


direitos principais e acessórios por parte do credor, e um leque de deveres e sujeições,
por parte do devedor.

Karl Larenz também formulou uma importante teoria, em que defendeu a complexidade
do vinculo obrigacional. Este autor vincou a estrutura temporal da obrigação como finita
(a obrigação tinha um começo, e tinha um fim).

Governo Provincial de Luanda 11


Índice

1.4- Características do direito de crédito.


1.4.1. A patrimonialidade.
1.4.2. A mediação ou colaboração devida.
1.4.3. A relatividade.
1.4.5. As obrigações autónomas e as heterónomas.
---------Limitações de conteúdo (sem numeração no programa da disciplina)
1.5. Distinção entre direitos de crédito e direitos reais.
1.5.1. Os direitos de crédito e os direitos reais.
1.5.2. A questão dos direitos pessoais de gozo.
20

Governo Provincial de Luanda 12


Índice

1.4- Características do direito de crédito. 2


1.4.1. A patrimonialidade.
1.4.2. A mediação ou colaboração devida.
1.4.3. A relatividade.
1.4.5. As obrigações autónomas e as heterónomas. 10

A patrimonialidade

A A mediação ou colaboração
doutrina aponta devida
como
características das A relatividade
obrigações
A autonomia

Governo Provincial de Luanda 13


Patrimonialidade Regra geral é a de que a prestação tem pode ser quantificada
pecuniariamente. É um passivo no património do devedor e a um
activo no património do credor.
Excepcionalmente podem ser constituídas prestações com
natureza não patrimonial, embora não possam ser relativas a outras
ordens normativas (ordem religiosa, ou ordem social).

A mediação ou •O credor não vê satisfeito o seu direito se o devedor adoptar uma


colaboração
devida
atitude de inércia, sem colaborar na realização da prestação.
•Excepções: art. 407º.

Autonomia •Mesmo quando integradas noutros ramos do direito [vg obrigações


de alimentos no Dto. Família], as obrigações ficam em princípio
sujeitas aos princípios e regras que constam do Livro II do CC.

Relatividade •Em termos de estrutura e em termos de eficácia jurídica…

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Em termos de estrutura
As obrigações são sempre relativas. E o facto de serem sempre relativas
prende-se com a relação que existe entre o credor e o devedor.

Relatividade Tese clássica

Em termos de eficácia jurídica


Tese intermédia
Será que a obrigação é oponível a
terceiros para além do devedor?
Tese do Prof.
Três teses tentam responder:
Santos Júnior (e do
Prof. Menezes
Cordeiro)

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EFEITO EXTERNO DAS OBRIGAÇÕES
Recusa-se mas admite-se a possibilidade de responsabilidade de 3.º, qdo a sua
conduta puder ser considerada ilícita por violação do princípio do abuso do direito
(334º C.C) por contrariedade aos “bons costumes”.

Recusamos o efeito externo de “iure condendo” porque:


• Por ser uma excessiva responsabilização de 3.ºs;
• Limitava em demasia o normal comercio jurídico;
• Os direitos de credito são relativos, dai serem atípicos, pelo que, se aceitássemos o
efeito externo, estar-se-ia a afirmar uma eficácia absoluta que nos levaria a
necessidade da tipicidade.
Recusamos o efeito externo de “iure constituto” porque:
• 406.º/2 CC – porque os contratos só produzem efeitos nos casos previstos na lei, ex.:
413.º 421.º Estes arts. provam que o legislador previu.
Mas, das três situações, há uma em que aceitamos o efeito externo:
(-) Caso de negligencia;
(-) Conhecimento efectivo;
(+) Conhecimento + particular censurabilidade o juiz aceita o efeito externo
com base no Art.334o (abuso de direito).

16
Índice

1.4- Características do direito de crédito.

1.5. Distinção entre direitos de crédito e direitos reais. 10

17
Índice

1.4- Características do direito de crédito.


1.5. Distinção entre direitos de crédito e direitos reais.
1.5.1. Os direitos de crédito e os direitos reais.
1.5.2. A questão dos direitos pessoais de gozo.

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Diferença DIREITOS DE CRÉDITO DIREITOS REAIS

1ª Dtos a prestações (de facto ou de Dtos sobre coisas certas e determinadas; não
Objecto
coisas indeterminadas). pode abrang mais q uma coisa (princ. especialid)

Assenta numa relação entre o É oponível a todos (erga omnes). Tem:


devedor e o credor, a sua
1) Dto. preferência – faculd. de sacrificar toda a
oponibilidade a terceiros é limitada
situação jurídica posteriormente constituída
(inter partes).
sobre a mesma coisa, sem o concurso da

Estrutura Ou seja, se o devedor aliena o vontade do titular daquele, na medida em que
objecto da prestação, o credor deixa uma e outra sejam incompatíveis entre si.
de a poder exigir, apenas lhe
2) Dto sequela – faculdade conferida ao titular de
restando a hipótese de pedir uma
fazer valer o seu direito sobre a coisa, onde
indemnização.
quer que esta se encontre.
3ª Os credores concorrem em pé de Se alguém vender o mesmo objecto duas vezes,
Prevalênc
ia igualdade sobre a mesma obrig. prevalecerá a primeira venda.
Validade da regra da atipicidade Vigora o princípio da tipicidade, a regra do
(numerus apertus). numerus clausus – Só valem os criados por lei.
4.º
Outras Extinguem-se por prescrição, qdo Só os dtos reais de gozo se podem adquirir, através
diferenças
não sejam exercidos durante o lapso da posse, por meio de usucapião.
de tempo fixado na lei.
Extinção pelo não uso (próxim da caducidade).
19
O CC alude aos dtos pessoais de gozo no art. 407.º Fazem parte destes o art. 1022.º;
1129.º; 1121.º; 1185.º A doutrina tem vindo a tentar definir onde encaixa-los.
Se entre os direitos de crédito, se entre os direitos reais…
1) A teoria clássica (Galvão Teles e Antunes Varela). Devem ser
considerados direitos de crédito.

2) Oliveira Ascensão e Dias Marques. Devem ser considerados direitos


reais
Teorias A principal razão que apresentam é a natureza real do direito do arrendatário (1057),
em que existe uma espécie de inerência à coisa, pois mesmo que haja mudança de
proprietário, o direito do arrendatário cola-se à coisa e persegue-a
independentemente do seu dono.

3) Manuel Mesquita e José Mesquita defenderam uma tese intermédia.

POSIÇÃO PREFERÍVEL
Os direitos pessoais de gozo são direitos de crédito, porque considera que foi essa a
intenção do legislador.
Aceita-se contudo, que algumas das características dos direitos pessoais de gozo os
aproxima por vezes dos direitos reais, como é o caso da inerência no direito pessoal de gozo
do arrendatário (1057). Assim, a tese intermédia deve ser rejeitada. 20
Índice

1.6. Objecto da obrigação: a prestação.


1.6.1. Conceito de prestação.
1.6.2. Os requisitos legais da prestação. 10
1.7. A complexidade intra-obrigacional.

21
OS REQUISITOS LEGAIS DA PRESTAÇÃO: limitações de conteúdo

O conteúdo das obrigações encontra-se limitado pelos factores seguintes:

Possibilidade
•A impossibilidade: originária [280º] ou superveniente [401.º e 790º].
(física ou legal)

Licitude •A vinculação tem que ser lícita, sob pena de nulidade (281.º e 294.º).
(de meios e de
•O artº 281 apenas considera o negócio nulo se o fim ilícito for comum a
resultado)
ambas as partes.

•Possibilidade de as partes prefigurarem o tipo, o conteúdo e a medida


Determinabilidade
(art.º 400.º) do seu compromisso.
•Ainda que a obrigação seja futura, deve ter um conteúdo previsível no
momento da estipulação [vg frutos].

Não contrariedade
•Incluem-se nestes “bons costumes”: regras de conduta familiar e
à ordem pública e sexual, e regras deontológicas estabelecidas para o exercício de certas
aos bons costumes profissões.

22
Índice

1.7. A complexidade intra-obrigacional.


1.7.1. A complexidade do vínculo obrigacional e as diferentes
situações jurídicas que pode abranger. 10

1.7.2. Os deveres acessórios de conduta.


1.7.3. A responsabilidade pré-contratual.
1.7.4. A culpa post pactum finitum.

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24
A COMPLEXIDADE INTRA-OBRIGACIONAL E OS DEVERES ACESSÓRIOS DE
CONDUTA

Para além do dever de prestação do devedor, e do direito de crédito do credor,


existe um leque alargado de outros direitos e deveres.
Em sentido restrito, até se pode falar unicamente de um dever de prestação. Mas
em sentido amplo, tem obrigatoriamente de se falar em mais direitos e deveres.

• 1) O dever de efectuar a prestação principal: elemento fundamental da obrigação.

• 2) Os deveres secundários de prestação: prestações que visam preparar ou


completar a prestação principal.

• 3) Os deveres acessórios de conduta: princípio da boa-fé (deveres acessórios de


informação, protecção e lealdade). Objectivo: assegurar a prestação principal (contin.)

• 4) Sujeições do devedor: artsº 805/1 e 801/2.º.

• 5) Poderes ou faculdade: artsº 777/1, 813, 539, 543/2.

• 6) Excepções: Artsº 303, 428, 638, 754.


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Índice

1.7. A complexidade intra-obrigacional.


1.7.1. A complexidade do vínculo obrigacional e as diferentes
situações jurídicas que pode abranger.
1.7.2. Os deveres acessórios de conduta.

1.7.3. A responsabilidade pré-contratual.


1.7.4. A culpa post pactum finitum. 10

26
A responsabilidade civil pré-contratual (culpa in contrahendo) – artigo 227.
º
Abrange duas fases: uma negociatória e outra decisória (proposta e a aceitação).

A — OS DEVERES DE CONDUTA DECORRENTES DO PRINCÍPIO DA BOA FÉ

1. Os deveres de protecção – não se inflijam danos à contraparte: danos directos


ou indirectos). Esta situação pode ser solucionada pelos esquemas da
responsabilid. civil.

2. Os deveres de informação – esclarecimentos necessários à conclusão


honesta do contrato. Limite do dever de informar: termina no ponto em que uma
parte não tem de se preocupar com os interesses da outra, portanto com o
respeito a circunstâncias que caiam inequivocamente na sua esfera de risco.

3. Os deveres de lealdade – vinculam os negociadores a não assumir


comportamentos que se desviem de uma negociação correcta e honesta.

• Abrange os deveres de sigilo, cuidado e de actuação consequente (não se


deve, de modo injustificado e arbitrário, interromper-se uma negociação em
curso).
27
B — CASOS ORIGINANDO A RESPONSABILIDADE PRÉ-CONTRATUAL…

1. Violação de deveres de conduta na celebração de um contrato

2. Ruptura ilegítima, arbitrária ou injustificada das negociações pré-contratuais


• Requisitos:
o Realização de negociações em que as partes;
o Ruptura unilateral e desleal dessas negociações;
o Existência de danos que tenham nexo de causalidade com o rompimento.

3. Casos em que uma das partes crie a convicção da celebração dum contrato
válido, convicção essa que venha a ser frustrada por subsequentes invalidades
• Exemplos:
o Incapacidade que uma das partes tenha ocultado à outra (v.g. o dolo de menor);
o Falta ou vícios da vontade (v.g. coacção absoluta, falta de consciência da
declaração, declarações não sérias, erro-vício, dolo, coacção moral);
o Falta ou abuso de poderes de representação;
o Impossibilidade ou ilicitude do objecto.

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V — A REPARAÇÃO DO “DANO DE CONFIANÇA”
Diferentes correntes doutrinárias…
1. O ressarcimento do interesse negativo (dano da confiança) – Antunes Varela
• Incluir-se tanto o dano emergente (as despesas efectuadas por causa das negociações) como o
lucro cessante (os benefícios que o lesado teria auferido em virtude de oportunidades negociais
falhadas se não se tivessem iniciado as negociações).

2. Tese de Menezes Cordeiro e Brandão Proença


3. O credor poderá optar pelo interesse contratual positivo ou negativo consoante lhe seja
mais favorável.
4. O ressarcimento do interesse positivo
5. Uma segunda corrente admite a indemnização do interesse positivo, ou de cumprimento,
nos casos em que, não fora a culpa in contrahendo, o contrato se teria aperfeiçoado,
assim como naqueles em que a conduta culposa consista na violação de um dever de
conclusão do negócio, por analogia com o art. 275.º, n.º 2.
6. Relativamente à questão da ressarcibilidade do interesse positivo, em caso de ruptura
das negociações, SOARES DO NASCIMENTO sublinha o facto de que a indemnização do
interesse positivo implicaria conhecer de todo o conteúdo ―prestacional‖ do contrato. O
lesado teria direito à indemnização correspondente ao interesse do cumprimento, menos
a prestação que ele próprio teria de realizar. Ora, como não é possível conhecer as
prestações a que as partes se vinculariam, não é igualmente possível conhecer o
interesse positivo. Logo, a limitação destes casos – ruptura das negociações – ao
interesse negativo impõe-se, também (mas não só) por estes motivos pragmáticos142. 29
30
Índice

Tema III – Modalidades de Obrigações (15 tempos)


Objectivo geral do tema: - Identificar, explicar, descrever, ordenar e
ilustrar a disciplina jurídica concernente às modalidades das
obrigações.
3.1. Modalidades de obrigações em função dos tipos de prestações.
3.2. Modalidades de obrigações quanto ao vínculo
3.3. Modalidades de obrigações quanto aos sujeitos
3.4. Modalidades de obrigações quanto ao objecto
3.5. Avaliar os conhecimentos, habilidades e valores alcançados no
tema.

31
Índice

3.1. Modalidades de obrigações em função dos tipos de prestações.


3.2. Modalidades de obrigações quanto ao vínculo
3.3. Modalidades de obrigações quanto aos sujeitos

32
Índice

3.1. Modalidades de obrigações em função dos tipos de prestações.


3.1.1. Obrigações de prestação de coisa e de prestação de facto.
3.1.2. Obrigações de prestação fungível e de prestação infungível.
3.1.3. Obrigações de prestações instantâneas e de prestações
duradouras.
3.1.4. Obrigações de prestação de resultado e de prestação de
meios.

33
Obrigações com prestação de coisa

• Nas obrigações com prestação de coisa, o objecto da prestação é a entrega


de uma coisa (art.º 879/b).

• O credor, contudo, nunca tem um direito directo sobre a coisa, como


acontece nos direitos reais, mas sempre, tem apenas um direito à prestação, e à
conduta do devedor de entrega da prestação.

• Mesmo no caso da execução específica, continua sempre a existir apenas um


direito sobre a prestação, que nesse caso é prestada pelo tribunal, através do
referido mecanismo jurídico que é a execução específica.

• O artº408/1 expressa que a transmissão da propriedade sobre a coisa dá-se


por mero efeito do contrato.

• O artº408/2 estabelece o regime para a prestação de coisa futura.

34
PRESTAÇÃO DE FACTO:
Nas obrigações com prestação de facto, o objecto da prestação é a realização de
uma conduta ou serviço (artigos 1154.º a 1156.º)

Prestação de Prestações de facere – uma acção por parte do devedor.


facto positivo

Prestações de non facere – a não realização de determinada


conduta por parte do devedor.
Prestação de facto Exemplos: um concorrente não fazer concorrência; ou alguém
negativo não adquirir um direito.
As (Estas prestações
prestações são mais raras de Prestações de pati – tolerar a realização de uma conduta por
de facto, suceder do que as outrem.
podem ter prestações de facto Exemplo: quando o proprietário de um prédio se obriga a
diferentes positivo) deixar que um vizinho passe sobre ele, sem contudo se
modalidades constituir uma verdadeira servidão com eficácia real.

Prestações de facto material – conduta puramente material do devedor, não destinada à


produção de efeitos jurídicos. Exemplo: realizar ou não realizar determinada obra.

Prestações de facto jurídico – conduta do devedor destinada à produção de efeitos


jurídicos, sendo assim esse resultado jurídico incluído na prestação. Exemplo: celebrar ou
não celebrar determinado contrato.
35
Obrigações com prestação fungível Obrigações com prestação infungível

A prestação pode ser realizada por Só o devedor pode realizar a prestação, não
pessoa diferente do devedor, sendo assim sendo assim permitido que terceiro realiza a
permitido que terceiro realize a prestação prestação (artº767/2).
(artº767/1).
A infungibilidade pode ser:
• Convencional: “Quando se tenha acordado
expressamente em que esta deve ser feita pelo
devedor” – artº767/2-2ºparte;
• Natural: “ou quando a substituição o
prejudique” – artº767/2-3ªparte.

A regra geral é as prestações serem As prestações infungíveis são as excepções.


fungíveis.

Exemplo: Um pintor de interiores que Exemplos: o pintor famoso contratado para pintar
celebra um contrato para a pintura de um quadro; ou a costureira famosa contratada
uma casa. para fazer um vestido.

Artigos relacionados: Artigos relacionados:


● Artº828 – Relativo à execução ● Artº791 – A infungibilidade da prestação pode
específica de facto fungível. mesmo ser a causa da extinção da obrigação.
36
OBRIGAÇÕES COM PRESTAÇÃO INSTANTÂNEA E OBRIGAÇÕES COM PRESTAÇÃO
DURADOURA

Obrigações com prestação instantânea integral


Obrigações com prestação instantânea
Exemplos: a entrega da coisa pelo vendedor (artº882); ou a
O cumprimento ocorre pela entrega da realização da obra pelo empreiteiro (artº1208).
prestação num único momento.
Exemplo: a entrega da coisa num contrato Obrigações com prestação instantânea fraccionada
de compra e venda (artº879/b).
Exemplo: o pagamento do preço na venda a prestações
(artº934).

Obrigações com prestação duradoura Obrigações com prestação duradoura continuada


O cumprimento se prolonga no tempo,
Exemplos: os contratos de fornecimento de água, luz ou
devido às prestações serem entregues de
gás.
acordo com um período de tempo
previamente acordado.
Exemplos: as prestações relativas ao Obrigações com prestação duradoura periódica
contrato de arrendamento, ao contrato de
Exemplo: o pagamento da renda pelo locatário (artº1038/a).
trabalho, ao contrato de fornecimento de
água, luz ou gás, etc. 37
Obrigações com prestação de resultado Obrigações com prestação de meios

Nestas obrigações, o devedor vincular-se-ia Nestas obrigações, o devedor não estaria obrigado a
efectivamente a fazer com que o credor obtivesse um proporcionar a obtenção do resultado ao credor, mas
determinado resultado, respondendo por incumprimento apenas a actuar com a diligência necessária para que
se esse resultado não fosse obtido. esse resultado fosse obtido.
Exemplo: o transportador que estaria obrigado a Exemplo: o médico que apenas estaria obrigado a
entregar uma coisa. prestar os seus melhores esforços para curar o doente.

• O interesse em estabelecer esta distinção estaria na forma de fazer o ónus da prova.


• Nas obrigações com prestação de resultado, bastaria o credor demonstrar que o resultado não fora atingido.
Contudo, nas obrigações com prestação de meios, não bastaria o credor demonstrar que o resultado não fora
atingido, também teria que demonstrar que a conduta do devedor não correspondeu à que se tinha obrigado a
prestar.
• Esta teoria foi desenvolvida por Demogue, e na doutrina francesa tem tido bastante sucesso. Entre nós esta
teoria não tem aplicação prática.
• Gomes da Silva rebate-a com sucesso, dizendo que: o devedor vincula-se sempre a uma conduta (a
prestação), que corresponde a um interesse do credor, ou seja, à obtenção de um resultado (artº398/2).
Quanto ao ónus, esse pertence sempre ao devedor, que deve provar que efectivamente realizou a prestação
devida (artº342/2), ou que não actuou com culpa (799/1).
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OBRIGAÇÕES COM PRESTAÇÃO DETERMINADA E OBRIGAÇÕES COM
PRESTAÇÃO INDETERMINADA

Obrigações com prestação determinada


A prestação encontra-se totalmente determinada no momento da constituição da
referida obrigação.
Quanto à
determinação
da prestação, Obrigações
existem os genéricas
seguintes tipos Obrigações com
de obrigações: prestação indeterminada
No momento da
constituição, a prestação
ainda não se encontra
determinada, tendo esta
determinação de ser feita
até ao momento do Obrigações
cumprimento. alternativas

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Razões para que exista uma indeterminação da prestação no momento da
conclusão do negócio jurídico:

As partes não determinaram a prestação porque existe uma regra supletiva


aplicável, que fará essa determinação por elas (as partes).
1
Exemplos: artº883/1 e 939.º; artº 1158/2.

As partes não determinaram a prestação porque decidiram aplicar as condições


2 normais de mercado.

A indeterminação da prestação resulta de acordo das partes, porque estas


3 preferem conferir a uma delas ou a terceiro a faculdade de determinação da
prestação.

A determinação da prestação (em obrigações indeterminadas) vem prevista no artº400.


O poder de determinar a prestação não é absoluto, devendo pelo menos respeitar-se a
equidade. A determinação da prestação não obriga a forma legal especial, mesmo que o
contrato tenha natureza formal (artº221/2).
Pelo nº2 do artº400, se as partes não determinarem a prestação até à data do
cumprimento, então será o tribunal a faze-lo. 40
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Índice

3.2. Modalidades de obrigações quanto ao vínculo


3.2.1. As obrigações naturais e as obrigações civis.

3.3. Modalidades de obrigações quanto aos sujeitos


3.3.1. A indeterminação do credor na relação obrigacional.
3.3.2. A pluralidade de partes na relação obrigacional.
3.3.2.1. As obrigações conjuntas ou parciárias.
3.3.2.2. As obrigações solidárias.
3.3.2.3. As obrigações plurais indivisíveis.
3.3.2.4. Outras modalidades de obrigações plurais.

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Índice

3.4. Modalidades de obrigações quanto ao objecto


3.4.1. As obrigações genéricas.
3.4.2. As obrigações alternativas. Distinção das obrigações com faculdade
alternativa.
3.4.3. As obrigações pecuniárias.
3.4.3.1. As obrigações de soma ou quantidade.
3.4.3.2. As obrigações em moeda específica.
3.4.3.3. As obrigações em moeda estrangeira.
3.4.3.4. As obrigações de juros.
3.4.3.4.1. Noção, modalidades, autonomia, taxas de juro, juros usurários e
proibição do anatocismo.

3.5. Avaliar os conhecimentos, habilidades e valores alcançados no tema.

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