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MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DO PIAUÍ NÚCLEO DAS PROMOTORIAS DE JUSTIÇA DA FAZENDA PÚBLICA 44ª

MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DO PIAUÍ NÚCLEO DAS PROMOTORIAS DE JUSTIÇA DA FAZENDA PÚBLICA 44ª PROMOTORIA DE JUSTIÇA

Ofício Nº 567/2018

Teresina, 20 de novembro de 2018.

Ao Exmº. Sr.

Mansueto Facundo de Almeida Jr

Secretário do Tesouro Nacional

Esplanada dos Ministérios, Ed. Sede do Ministério da Fazenda, Bloco P -

CEP 70.048-900 Brasília - DF

Assunto: Solicitação de Auditoria (Inquérito Civil nº 95/2017 - SIMP 002127-019/2017)

Sr. Secretário do Tesouro Nacional,

Face à publicação do Boletim de Finanças dos Entes Subnacionais 2018, a constante

preocupação com os níveis de endividamento do Estado do Piauí e a consequente dificuldade em

honrar com futuras obrigações, vimos, por meio desta, e para fiel cumprimento da Portaria nº 306,

de 10 de setembro de 2012, do Ministério da Fazenda, explanar os fatos a seguir:

O Tribunal de Contas do Estado do Piauí, nos autos do Processo de Auditoria de

Conformidade n.º TC/002777/2018, constatou que o Governo do Estado, por meio da Secretaria de

Fazenda, no final do exercício de 2017, cancelou irregularmente despesas liquidadas no equivalente

a R$ 324.828.166,45 (trezentos e vinte e quatro milhões, oitocentos e vinte e oito mil, cento e

sessenta e seis reais e quarenta e cinco centavos), referentes a despesas com pessoal que continham

uma ou mais consignações retidas.

Diante dessa conclusão, e atendendo a requerimento do Ministério Público Estadual,

por intermédio da 44ª Promotoria de Justiça, o TCE/PI realizou, no âmbito da Secretaria de Fazenda

do Estado, levantamento do total de cancelamentos de liquidações ao final do exercício de

2017.

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No novo levantamento, o Tribunal de Contas do Estado constatou que “levando em

consideração apenas os cancelamentos realizados no mês de dezembro, período de encerramento

do exercício, foi constatado o valor cancelado de R$ 329.143.001,59, sendo que, desse valor, R$

50.558.594,43 referem-se a retenções. No caso das anulações por NL, foi constatado, com menção

ao encerramento do exercício, o valor anulado de R$ 331.447.439,07, sendo que, desse valor, R$

56.143.548,57 referem-se a retenções”. Os dados seguem expostos no quadro abaixo:

Exercício 2017

Cancelamentos

Anulações

Total Geral

Total Liquidações

967.293.281,57

899.203.601,79

1.866.496.883,36

Total Retenções

114.662.614,99

545.157.055,80

659.819.670,79

Encerramento

329.143.001,59

331.447.439,07

660.590.440,66

exercício

Retenções

50.558.594,43

56.143.548,57

106.702.143,00

encerramento

Em resumo, no final do exercício de 2017, houve o cancelamento de despesas

liquidadas na ordem de R$ 660.590.440,66 (seiscentos e sessenta milhões, quinhentos e noventa

mil, quatrocentos e quarenta reais, sessenta e seis centavos).

Ressalte-se que, ainda segundo relatórios elaborados pela Diretoria de Fiscalização da

Administração Estadual do Tribunal de Contas do Estado do Piauí, é prática reiterada no Estado do

Piauí, por meio de Portarias da Secretaria de Fazenda que disciplinam os procedimentos contábeis

para encerramento do exercício, o cancelamento de despesas liquidadas e não pagas, além do

cancelamento de restos a pagar processados, diminuindo, indevidamente, o montante de DEA

(Despesas de Exercícios Anteriores) e do Passivo no Balanço Patrimonial.

Desnecessário dizer que o cancelamento de restos a pagar processados só poderia

ocorrer caso fosse cancelada também a obrigação correspondente junto ao credor. Tal como

realizado pela Secretaria de Fazenda do Estado do Piauí, é como se o débito simplesmente

“desaparecesse” do balanço contábil, implicando, assim, em omissão do passivo, redução do nível

de endividamento estatal e maquiagem das respectivas informações contábeis, violando os artigos

62 e 85 da Lei nº 4.320/64.

Ademais, por meio do Relatório do Tribunal de Contas do Piauí, referente às contas do

Governo Estadual 2017 (Processo TCE/PI nº 006008/2017), foram constatadas graves

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irregularidades que distorceram sobremaneira os demonstrativos contábeis e índices da Lei de

Responsabilidade Fiscal. Destaca-se, nesse particular, o grande volume de despesas com folha de

pagamento de pessoal pagas sem o respectivo empenho, distorcendo, dessa forma, o índice de

pessoal, causado provavelmente pela utilização de recursos vinculados de outras fontes para custeio

de folha.

Adiciona-se a isso o fato constatado do cancelamento indevido de OB´s (Ordens

Bancárias de Pagamento), no montante de R$ 274.808.093,28, fazendo constar, dessa forma, falsa

disponibilidade de caixa, com o intuito comprovado, através de técnica de entrevista constante na

peça nº 16 do Processo TCE/PI nº 002777/2018, de fazer acrescer a nota do Estado na análise da

STN - CAPAG 2018.

Cabe ressaltar a constante dificuldade do Estado do Piauí, nos últimos exercícios, de

cobertura do déficit previdenciário estadual, hoje em cerca de R$ 1.000.000.000,00 (hum bilhão de

reais) por ano. Essa constante dificuldade em honrar a folha de ativos e inativos no Estado já foi,

inclusive, objeto de desvios de finalidade na aplicação de recursos de operações de crédito

contraídas junto a instituições financeiras nacionais e internacionais, e devidamente apontadas em

auditorias do Tribunal de Contas do Piauí, conforme processos nº TC 003321/2016, 006008/2017 e

025611/2017.

Em face de todo o exposto, e com fundamento no art. 37, I, letra “b”, da Lei

Complementar nº 12, de 18 de dezembro de 1993, em virtude das relevantes suspeitas nos

procedimentos contábeis realizados em âmbito estadual, utilizo-me do presente para solicitar a V.

Exª a realização de auditoria nas contas do Estado, bem como avalie a suspensão dos efeitos

advindos da última análise da Capacidade de Pagamento (CAPAG 2018) do Estado do Piauí

Sem mais para o momento, renovamos protestos de estima e consideração.

Atenciosamente,

   

Fernando Ferreira dos Santos

Promotor de Justiça da 44ª Promotoria da Fazenda Pública