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Carlos Caixeta de Queiroz

Leonardo Turchi Pacheco

2ª edição atualizada por


Carlos Caixeta de Queiroz

Antropologia iii

2ª EDIÇÃO

Montes Claros/MG - 2014


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2014
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Carlos Caixeta de Queiroz
Autores
Carlos Caixeta de Queiroz
Bacharel em Ciências Sociais – Antropologia. Mestre em Sociologia e Antropologia pela
Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG.

Leonardo Turchi Pacheco


Bacharel em Ciências Sociais.Doutor em História pela Universidade Federal de Minas Gerais –
UFMG.
Sumário
Apresentação . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 9

Unidade 1 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 11
A antropologia social inglesa: Radcliffe-Brown e Evans-Pritchard . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 11

1.1 Introdução . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 11

1.2 O movimento teórico-metodológico na Antropologia: um sobrevoo ao debate


crítico entre as escolas do pensamento antropológico para contextualizarmos a
perspectiva estrutural-funcionalista . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 11

1.3 Alguns pontos centrais constituintes da abordagem funcionalista . . . . . . . . . . . . . . . . 13

1.4 Função e estrutura social em Radcliffe-Brown . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 16

1.5 Evans-Pritchard: estrutura social, ordem, conflito . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 18

Referências . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 22

Unidade 2 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 23
O estruturalismo de Lévi-Strauss . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 23

2.1 Introdução . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 23

2.2 Lévi-Strauss: o homem e suas ideias . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 23

2.3 A noção de estrutura . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 26

2.4 Trocas simbólicas, alianças e proibições: de colares a mulheres . . . . . . . . . . . . . . . . . . 29

2.5 Totemismo e a lógica do concreto . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 32

Referências . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 36

Resumo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 37

Referências básicas, complementares e suplementares . . . . . 39

Atividades de Aprendizagem – AA . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 41
Ciências Sociais - Antropologia III

Apresentação
A disciplina Antropologia III é parte constituinte da estrutura do Curso de Ciências Sociais
Licenciatura da Universidade Aberta do Brasil – UAB –, da Universidade Estadual de Montes Cla-
ros – Unimontes.
Nesta disciplina abordaremos duas “tradições” ou “perspectivas” da Antropologia: o estrutu-
ral-funcionalismo, a partir de dois fundadores, Radcliffe-Brown e Evans-Pritchard; e o estrutura-
lismo francês a partir de Lévi-Strauss. Privilegiaremos os métodos, alguns conceitos e categorias
cunhados pela tradição britânica e pela tradição francesa para a investigação dos processos so-
cioculturais. Procuraremos, assim, situar as discussões e as temáticas dessas duas escolas do pen-
samento antropológico.
A disciplina tem como objetivos:
• Aprofundar o conhecimento sobre as principais vertentes da teoria antropológica;
• Propiciar a reflexão teórica e metodológica sobre conceitos fundamentais da Antropologia
clássica, especificamente da Antropologia social inglesa e do estruturalismo de Lévi-Strauss;
• Possibilitar o estudo de temas e conceitos das perspectivas estrutural-funcional e estrutura-
lista da Antropologia;
• Possibilitar ao aluno uma incursão na constituição histórico-teórica da Antropologia.

A disciplina estará organizada a partir de duas Unidades temáticas:


Unidade 1 – A Antropologia social inglesa: Radcliffe-Brown, Evans-Pritchard
Abordaremos a perspectiva estrutural-funcionalista na Antropologia a partir de temas e dos
conceitos de função e estrutura que fundaram essa tradição antropológica. Pontuaremos, tam-
bém, a crítica ao evolucionismo e a ênfase no trabalho de campo e na abordagem sincrônica dos
processos sociais.
Unidade 2 – O estruturalismo de Claude Lévi-Strauss
Será dedicada primeiramente uma centralidade aos aspectos biográficos de Lévi-Strauss,
cruzando com o contexto para se entender o estruturalismo. Em seguida, discutiremos a análi-
se estrutural em Linguística e Antropologia, focalizando a noção de estrutura. Enfim, apresenta-
remos de maneira esquemática o método estruturalista, os estudos sobre parentesco, as trocas
simbólicas, o totemismo e a lógica do concreto.

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Ciências Sociais - Antropologia III

Unidade 1
A antropologia social inglesa:
Radcliffe-Brown e Evans-Pritchard
Carlos Caixeta de Queiroz

1.1 Introdução
Apresentaremos nesta unidade a tradição britânica ou a escola estrutural-funcionlista, na
Antropologia, a partir de dois autores: Radcliffe-Brown e Evans-Pritchard. Será dedicada uma
centralidade no método e conceitos cunhados por esses autores para a investigação de pro- Dica
cessos socioculturais. Portanto, não se pretende abarcar a totalidade da tradição britânica na A história da Antropo-
Antropologia. logia para o antropó-
Vale ressaltar que outros autores, que não estaremos tratando aqui, fazem parte da chama- logo não é apenas um
da Antropologia inglesa, ou do estrutural-funcionalismo, e que tiveram uma importância crucial passado, mas fonte de
inspiração para solucio-
na formação do pensamento antropológico, sendo, portanto, centrais para se entender a consti- nar as novas questões
tuição histórica da Antropologia. Podemos mencionar, por exemplo, Mary Douglas, Victor Turner, que se colocam no pre-
Max Gluckman, Raymond Firth, Edmund Leach, entre outros. sente (PEIRANO,1995,
p. 48).

1.2 O movimento teórico-


metodológico na Antropologia:
um sobrevoo ao debate
crítico entre as escolas do
pensamento antropológico para
contextualizarmos a perspectiva
estrutural-funcionalista
Vamos retomar inicialmente algumas questões já apontadas no Caderno Didático da disci-
plina Antropologia II para contextualizarmos o surgimento da perspectiva estrutural-funcionalis-
ta na Antropologia.
Como vocês puderam observar, a partir das discussões que fizemos no Caderno Didático
da disciplina Antropologia I, a perspectiva evolucionista foi a primeira grande síntese teórica na
Antropologia. A tradição evolucionista foi dominante durante quase toda a segunda metade do
século XIX.
Como vimos, os principais autores fundadores da escola evolucionista, Morgan, Frazer, Tylor,
cada qual a sua maneira, procuraram mostrar que a humanidade era percebida como um todo,
mas com estágios evolutivos diferentes. Toda sociedade deveria passar pela mesma sucessão de

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UAB/Unimontes - 3º Período

fases de desenvolvimento na sua marcha evolutiva. Nesse esquema, a Antropologia evolucionis-


ta procurou abordar a história da humanidade como única, mas dividida em estágios evolutivos,
que iam do “primitivo” ao “civilizado”.
Os autores evolucionistas procuraram reconstruir historicamente os estágios evolutivos da
evolução social. Entendiam que todas as sociedades passariam pelos mesmos estágios evoluti-
vos, numa sequência contínua e necessária. Postulavam, assim, uma História linear ou unilinear,
ou seja, a evolução seguia em uma única direção: do simples ao complexo, da magia à ciência,
por exemplo. Para justificar essa teoria, os evolucionistas postularam a existência de leis unifor-
mes que regeriam o comportamento humano. Assim, as semelhanças entre fenômenos sociais
encontrados em várias sociedades e situados em espaços diferentes foram interpretadas como
resultado da uniformidade da experiência humana.
Para os evolucionistas, o progresso tecnológico representaria uma prova contundente do
desenvolvimento e, portanto, da melhoria das sociedades humanas.
Mas é importante ressaltar que os evolucionistas, como Morgan, centraram suas análises
não apenas no desenvolvimento tecnológico para explicar a evolução social. Morgam, importan-
te autor para o pensamento antropológico, dedicou uma centralidade à análise das instituições
sociais. O parentesco para Morgan, por exemplo, era principalmente uma porta de entrada para
o estudo da evolução social. Morgan sustentava que as sociedades primitivas organizavam-se
sobre a base do parentesco. As variações terminológicas entre sistemas de parentesco tinham
correlação com variações na estrutura social. “Mas ele também supunha que a terminologia do
parentesco mudava lentamente e que, portanto, continha indicações para uma compreensão de
estágios anteriores da evolução social” (ERIKSEN, 2007, p. 30).
É necessário lembrar que essas questões são importantes princípios elaborados pelos evo-
lucionistas na Antropologia, como já discutimos na disciplina Antropologia II, pois as abordagens
que se seguiram na Antropologia se consolidaram e se posicionaram de forma crítica ao evolu-
cionismo.
Assim, a perspectiva difusionista se opôs ao evolucionismo, elaborando uma nova com-
preensão dos processos socioculturais. O chamado difusionismo na Antropologia centralizou-se
não no estudo linear da evolução das sociedades, mas nos processos de difusão cultural, de tro-
cas entre as sociedades. “Os difusionistas procuraram estudar a distribuição geográfica e a migra-
ção de traços culturais e postulavam que culturas eram mosaicos de traços com várias origens e
histórias” (ERIKSEN, 2007, p. 39).
No entanto, o primeiro a formular uma crítica mais radical aos evolucionistas foi Franz Boas,
como já vimos na disciplina Antropologia II. Boas, que ocupou um lugar central no desenvol-
vimento da Antropologia, criticou as noções de origem e de reconstrução de estágios propos-
tas pelos autores evolucionistas, e mostrou que “um costume só tem significado se for relacio-
nado ao contexto particular no qual se inscreve” (LAPLANTINE, 2000, p. 77-78). Em substituição
à reconstrução de uma história linear universal, formulada pelos evolucionistas, Boas propôs o
princípio do particularismo histórico. Para esse autor, cada cultura continha em si seus próprios
valores e sua própria história. Defendeu que a tarefa da Antropologia seria primeiramente a com-
preensão das culturas em suas particularidades. Assim, Boas procurou estabelecer que em vez de
ir diretamente a conclusões gerais, como fizeram os evolucionistas, seria necessário identificar as
circunstâncias únicas que haviam gerado culturais particulares.
Pelo exposto acima, como vocês já devem ter percebido, podemos identificar o evolucionis-
mo como a primeira síntese teórica metodológica na Antropologia e o particularismo histórico
de Franz Boas como uma segunda grande perspectiva. Outra perspectiva que dominou as dis-
cussões na Antropologia foi conhecida como estrutural-funcionalismo, a qual abordaremos da-
qui em diante.

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Ciências Sociais - Antropologia III

1.3 Alguns pontos centrais


constituintes da abordagem
funcionalista
Vamos situar minimante algumas questões constituintes da abordagem estrutural-funcional
na Antropologia antes de comentarmos a centralidade do pensamento de Radcliffe-Brown na
história teórica da Antropologia.
O termo “funcionalismo” tem sido associado à obra de Malinowski e Radcliffe-Brown e seu
sentido pode ser entendido como uma reação às teorias evolucionistas (DA MATTA, 1990, p. 101).
Como já discutimos a perspectiva apresentada por Malinowski na disciplina Antropologia I, va-
mos retomar rapidamente algumas proposições formuladas por esse autor para percebermos
como o funcionalismo reagiu ao evolucionismo. Em seguida, trataremos mais detalhadamente
algumas questões teóricas formuladas por Radcliffe-Brown.
Primeiramente, é importante destacar a importância atribuída ao trabalho de campo. Como
comenta:

A observação participante de Malinowski estabeleceu um novo padrão para a


pesquisa etnográfica. Todo fato, mesmo o mais insignificante, devia ser regis-
trado. Na medida em que fosse praticamente possível, o etnógrafo devia par-
ticipar do fluxo contínuo da vida do dia-a-dia, evitando questões específicas
que pudessem desviar o curso dos eventos e sem restringir a atenção a partes
específicas da cena. (ERIKSEN, 2007, p. 57)

◄ Figura 1: Malinowski em
“trabalho de campo”
nas Ilhas Trobriand,
pacífico sul.
Fonte: Disponível em
http://pt.wikipedia.org/
wiki/Bronis%C5%82aw_
Malinowski. Acesso em 20
mai. 2014.

Percebemos, assim, que Malinowski chamava a atenção para o fato de que seria extrema-
mente importante que os antropólogos colhessem seus próprios dados. Seria, portanto, cienti-
ficamente necessário a pesquisa de campo como requisito para se contextualizar os processos
socioculturais tomados para investigação antropológica. Trata-se, ainda, de formular um conhe-
cimento das culturas vivas, em sua realidade empírica.

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UAB/Unimontes - 3º Período

Figura 2: Malinowski em ►
“trabalho de campo”
nas Ilhas Trabriand,
Pacífico Sul.
Fonte: Disponível em
http://pt.wikipedia.org/
wiki/Bronis%C5%82aw_
Malinowski. Acesso em 20
mai. 2014.

Figura 3: Malinowski em ►
“trabalho de campo”
nas Ilhas Trabriand,
Pacífico Sul.
Fonte: Disponível em
http://pt.wikipedia.org/
wiki/Bronis%C5%82aw_
Malinowski. Acesso em 20
mai. 2014.

As figuras 1, 2 e 3 têm um significado importante, que o próprio Malinowski procurou


transmitir: o realismo etnográfico que marcou a Antropologia estrutural-funcionalista. Malino-
wski sempre procurou penetrar na mentalidade dos outros, em compreender o que sentem os
homens e mulheres que pertencem a uma cultura que não é nossa (LAPLANTINE, 2000, p. 80).
Como afirma Kuper (1978, p. 51), “Malinowski trouxe um novo realismo para a Antropologia So-
cial, com sua percepção aguda dos interesses reais subentendidos no costume e suas técnicas
radicalmente novas de observação”.
Em segundo lugar, com o funcionalismo há um deslocamento da preocupação em recons-
truir uma história linear universal da evolução das sociedades, para focalizar a estrutura e o fun-
cionamento da cultura. Tratava-se de interpretar como as culturas funcionam.
Assim, pode-se dizer que o funcionalismo instaura uma preocupação teórica de explicar as
formas pelas quais as instituições e estruturas de uma sociedade se interligam, para formar um
todo complexo. Desloca-se sua ênfase para o funcionamento da cultura, numa perspectiva sin-
crônica de estudo e pesquisa.
As culturas, e observem-se culturas e não cultura como no evolucionismo, passam a ser pen-
sadas como um sistema composto de elementos ou unidades que se interagem uns com os ou-
tros, formando sínteses. A preocupação central dos funcionalistas passa a ser como interpretar o
funcionamento dos sistemas culturais.
Já temos condições de perceber algumas características da abordagem funcionalista. Pri-
meiro, podemos dizer que as sociedades humanas e suas respectivas culturas existem como to-
dos orgânicos, constituídos de partes interdependentes. Em segundo lugar, as partes não podem
ser plenamente compreendidas separadamente do todo, e o todo deve ser compreendido em
termos de suas partes, suas relações uma com as outras e com o sistema sociocultural em con-
junto (WHITE, 1948).

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Ciências Sociais - Antropologia III

Na abordagem funcionalista, a cultura passa a ser concebida como um todo cujos traços es-
tão funcionalmente relacionados. Assim, a cultura não pode ser entendida mais como um aglo-
merado de partes ou traços desconectados. Cada elemento da cultura é entendido como tendo ATIVIDADE
uma função específica no esquema integral. Reflita criticamente
Procurando entender como funcionam os sistemas culturais, Malinowski elabora a teoria sobre a ideia de que a
funcionalista da cultura. Para esse autor, os indivíduos em qualquer tempo e lugar sentem de- cultura é uma respos-
terminadas necessidades. Então, coletivamente, elaboram suas respostas a essas necessidades. ta às necessidades
biológicas proposta por
Cada cultura tem como função satisfazer as necessidades biológicas individuais. Segundo Mali- Malinowski, e procure
nowski, a certas necessidades biológicas correspondem certas respostas culturais. pensar nas limitações
Assim, Malinowski desenvolve o conceito de cultura numa tentativa de desvendar o funcio- da perspectiva teórica
namento das culturas. Esse autor argumenta que cada sociedade desenvolve suas próprias res- funcionalista. Discutire-
postas culturais, e é esse fato que torna as sociedades diferenciadas. mos sobre o assunto no
fórum.
Vale lembrar que para Malinowski:

Todas as práticas e instituições sociais eram funcionais no sentido de que se


ajustavam num todo operante, ajudando a mantê-lo [...] o objetivo último do
sistema eram os indivíduos, não a sociedade. As instituições existiam para as
pessoas [...] e eram as necessidades das pessoas, em última análise suas neces-
sidades biológicas, que constituíam o motor primeiro da estabilidade social e
da mudança (ERIKSEN, 2007, p. 59).

Podemos perceber, então, que o programa funcionalista de Malinowski se opôs ao projeto


de reconstrução de estágios evolutivos. Esse autor argumenta e defende que a explicação antro-
pológica deveria estar centrada no contexto e nas inter-relações, pois as sociedades são sistemas
coerentemente integrados de relações sociais. Rompendo com a história conjetural dos evolu-
cionistas, Malinowski considera que uma sociedade deve ser estudada como uma totalidade, tal
como funciona no momento mesmo em que a observamos (LAPLANTINE, 2000, p. 80).
Laplantine (2000, p. 98) situa a perspectiva estrutural-funcional, da qual Malinowski é um
expoente máximo, bem como Radcliffe-Brown, do qual falaremos mais adiante:
DICA
• É uma Antropologia antievolucionista, que se constitui desde Malinowski
em oposição a uma compreensão histórica do social [...]; dedica-se prefe- Reflita sobre a principal
rencialmente à investigação do presente a partir de métodos funcionais crítica que os funciona-
(Malinowski) e, em seguida, estruturais (Radcliffe-Brown); listas elaboraram sobre
• É uma Antropologia antidifusionista, o que a opõe à Antropologia ameri- o evolucionismo.
cana, a qual se preocupa em compreender o processo de transmissão dos
elementos de uma cultura para outra;
• É uma Antropologia de campo, que se desenvolve muito rapidamente, a
partir do início do século, com Malinowski e, antes, com Radcliffe-Brown,
o qual é, mais ainda que Malinowski, um dos pais fundadores, de quem a
maioria dos antropólogos britânicos contemporâneos se considera suces-
sora;
• É uma Antropologia social que, ao contrário da Antropologia americana,
privilegia o estudo da organização dos sistemas sociais em detrimento do
estudo dos comportamentos culturais dos indivíduos.

Recapitulamos algumas questões elaboradas por Malinowski, por ser esse um autor impor-
tante na história do desenvolvimento da Antropologia, constituindo um dos principais expoen-
tes da Antropologia funcionalista britânica. A seguir, passaremos a enfocar a perspectiva de
outro autor, que junto com Malinowski, tem sido considerado um dos pais fundadores do estru-
tural-funcionalismo: Radcliffe-Brown. Não tencionamos comentar a totalidade do pensamento
de Radcliffe-Brown e de sua contribuição para o pensamento antropológico e para a própria his-
tória teórica da Antropologia. Vamos apenas tecer alguns comentários sobre a concepção desse
autor a respeito do que deveria ser a Antropologia Social e suas elaborações conceituais sobre
função e estrutura social e sua preocupação sobre ordem social.

15
UAB/Unimontes - 3º Período

1.4 Função e estrutura social em


Radcliffe-Brown
Alfred Reginald Radcliffe-Brown nasceu em Sparkbrook, Birminghan, em 1881. Pertencia à
geração de Malinowski, mas seu contexto familiar era da classe operária inglesa. “Três anos mais
ATIVIDADE velho que Malinowski, sobreviveu-lhe onze anos e dele tomou a liderança da Antropologia Social
Procure elaborar um britânica no final da década de 1930” (KUPER, 1978, p. 51).
pequeno texto argu- Radcliffe-Brown iniciou seus estudos em medicina em Oxford, mas foi orientado por incentivo,
mentando sobre a re- principalmente de Rivers, a mudar-se para os estudos antropológicos em Cambridge. Rivers foi pro-
lação entre indivíduo e fessor de Cambridge, psicólogo-médico que participou da expedição aos Estreitos de Torres, o em-
sociedade, tendo como
preendimento pioneiro de Cambridge na área da pesquisa antropológica de campo (ibidem, p. 53).
referência Malinowski
e Radcfliffe-Brown.
Ressalte as divergên- Malinowski e Radcliffe-Brown são considerados importantes expoentes da An-
cias entre esses dois tropologia britânica ou da perspectiva estrutural-funcionalista na Antropolo-
autores. Haverá no gia. No entanto, esses antropólogos fundaram duas linhagens na Antropologia
Ambiente Virtual de social britânica. Malinowski trouxe um novo realismo para a Antropologia So-
Aprendizagem um link cial, com sua percepção aguda dos interesses reais subentendidos no costume
para a sua postagem. e suas técnicas radicalmente novas de observação. Radcliffe-Brown, por sua
vez, introduziu a disciplina teórica da Sociologia Francesa e veio em ajuda dos
novos pesquisadores de campo com uma bateria mais rigorosa de conceitos.
(KUPER, 1978, p. 51).

Pode-se, então, dizer que Malinowski estabeleceu um método de trabalho de campo espe-
cífico, que ficou conhecido como “observação participante”. Radcliffe-Brown se empenhou por
estabelecer categorias e conceitos numa preocupação em transformar a Antropologia em uma
verdadeira ciência. No entanto, as divergências entre esses autores podem ser entendidas em
outro ponto crucial: Malinowski interessava-se pelos indivíduos, buscava compreender as moti-
vações humanas e a lógica da ação. Radcliffe-Brown buscou compreender e explicar princípios
estruturais abstratos e mecanismos de integração social (ERIKSEN, 2007, p. 59). A obra de Rad-
cliffe-Brown refletia a sua preocupação com a situação formal, as regras e os rituais. “Faltava-lhe
completamente a simpatia de Malinowski pelos indivíduos...” (KUPER, 1978, p. 56).
Radcliffe-Brown foi responsável pelo desenvolvimento
e aperfeiçoamento de centros antropológicos impor-
tantes na Cidade do Cabo, Sydney e Chicago. Diferente-
Figura 4: Foto de ► mente de Malinowski, foi seguidor de Durkeim, por
Radcliffe-Brown considerar o indivíduo como produto da sociedade, e,
Fonte: Disponível em principalmente, por se voltar para o estudo de mecanis-
Antropologia.forumcom- mos de integração social, de coesão social nas socieda-
munity.net/?t=12849910.
Acesso em 20 mai. 2014.
des ditas primitivas. Seu primeiro trabalho de campo,
em que procurou interpretar os dados etnográficos a
partir da teoria durkheimina, foi nas Ilhas Andaman, a
leste da Índia. Publicou sua monografia Andaman Islan-
ders em 1922.
Pois bem, vamos a partir de agora procurar enten-
der a concepção de Antropologia de Radcliffe-Brown e
os conceitos de função e estrutura social, conceitos cen-
trais forjados por esse autor e que refletem sua conver-
gência à sociologia durkheimiana.
A posição teórica de Radcliffe-Brown aparece, em-
bora de forma tímida, em seu último livro A Natural
Science of Society (baseado numa série de palestras proferidas pelo autor em Chicago em 1937
e publicado postumamente em 1957) e nos ensaios intitulados sobre o conceito de função nas
Ciências Sociais (1935) e Sobre a Estrutura Social (1940). Esses dois ensaios foram publicados no
livro Structure and Function in Primitive Society de 1952. Esse livro foi traduzido no Brasil pela Edi-
tora Vozes Ltda, em 1973, sob o título Estrutura e Função na Sociedade Primitiva.
Nos ensaios de 1935 e 1952, Radcliffi-Brown expressa de forma categórica sua posição sobre
o que é ou o que deveria ser a Antropologia. A Antropologia social foi encarada por ele como

16
Ciências Sociais - Antropologia III

uma “ciência natural da sociedade”. Como o próprio autor afirma: “concebo a Antropologia social
como a ciência teórico-natural da sociedade humana, isto é, a investigação dos fenômenos so-
ciais por métodos essencialmente semelhantes aos empregados nas ciências físicas e biológicas”
(RADCLIFFE-BROWN, 1973, p. 233).
Pode-se dizer que essa ideia de encarar a Antropologia social como uma ciência natural da
sociedade reflete a preocupação de Radcliffe-Brown em transformar a Antropologia em uma
“ciência real”. Ou seja, uma preocupação em dar um status de ciência à Antropologia através de
métodos análogos aos das ciências naturais. Para esse autor, então, a Antropologia não estuda a
cultura, mas a sociedade. O objeto de estudo que Radcliffe-Brown reivindicava para a Antropolo-
gia era o sistema social ou processo social. Eram as “relações de associação entre os organismos
individuais”. Radcliffe-Brown (1973, p. 234) afirma que, “em Antropologia interessamo-nos apenas
por seres humanos, e na Antropologia social, conforme a defini, o que temos de investigar são as
formas de associação que se encontram entre os seres humanos”.
O objeto de estudo eram as estruturas sociais, ou mais precisamente as formas de estruturas
sociais. Antes, no entanto, de entendermos mais precisamente a noção de estrutura social em
Radcliffe-Brown, vamos discutir sobre o conceito de função para esse autor.

1.4.1 Sobre o conceito de função

Radcliffe-Brown elabora a noção de função recorrendo à analogia entre vida social e vida
orgânica. Segundo esse autor, a analogia entre sistemas biológicos e organismos sociais foi re-
corrente entre sociólogos como Spencer e Durkheim. Assim, esse autor diz que, para Durkheim,
a função de uma determinada instituição é a correspondência entre ela e as necessidades da or-
ganização social. Mas Radcliffe-Brown adverte que ele não usa o termo “necessidades”, mas “con-
dições necessárias de existência”. Assim, na vida orgânica, a função de um processo fisiológico é
uma correspondência entre ele e as condições necessárias de existência do organismo. “A vida
do organismo é concebida como o funcionamento de sua estrutura. É mediante a continuida-
de do funcionamento que a continuidade da estrutura se mantém” (RADCLIFFE-BROWN, 1973,
p. 221). Esse autor conclui que, na vida social, “função é a contribuição que determinada ativi-
dade proporciona à atividade total da qual é parte. A função de determinado costume social é a
contribuição que este oferece à vida social total como o funcionamento do sistema social total”
(Idem, p. 224).
Assim, Radcliffe-Brown afirma que “a função de qualquer atividade periódica, tal como a
punição de um crime, ou uma cerimônia fúnebre, é a parte que ela desempenha na vida social
como um todo, e, portanto, a contribuição que faz para a manutenção da continuidade estru-
tural” (Idem, p. 223). Tal como na vida do organismo, uma célula ou órgão tem atividade e essa
atividade tem uma função para que o organismo continue funcionando em sua totalidade.
Ao elaborar a definição de função, Radcliffe-Brown tencionava estabelecer o objeto de es-
tudo da Antropologia, que eram os sistemas sociais ou as formas de estruturas sociais. Passemos
então a comentar sobre a noção de estrutura para esse autor.

1.4.2 Sobre estrutura social

Como já notamos, Radcliffe-Brown concebe a Antropologia como uma ciência que estuda
os sistemas sociais ou processos sociais. Para esse autor, o que a Antropologia investiga “são as
formas de associações que se encontram entre os seres humanos” (RADCLIFFE-BROWN, 1973,
p. 234). Então, o objeto de estudo da Antropologia eram sistemas de relações reais de encadea-
mento entre indivíduos ou entre indivíduos que ocupam papéis sociais. Isso constitui a estrutura
social (KUPER, 1978, p. 68). Segundo Radcliffe-Brown, o termo estrutura social designa uma rede
de relações sociais. A estrutura social é uma realidade concreta, pois é uma série de relações real-
mente existente que agrupa seres humanos, que podem ser observadas diretamente.
Percebemos, portanto, que Radcliffe-Brown encara a estrutura social como uma rede de re-
lações entre os indivíduos, são relações constituintes de uma determinada estrutura real. São as
relações entre uma associação de indivíduos. Não obstante, essas relações são circunscritas ou
prescritas por força de uma estrutura de regras jurídicas e normas morais que regulam o com-
portamento. Ou seja, é possível dizer que Radcliffe-Brown concebe uma estrutura real, a relação

17
UAB/Unimontes - 3º Período

entre indivíduos que ocupam papéis sociais, e uma estrutura formal, ou seja, uma “forma estru-
DICA tural, que está explícita em usos sociais, ou normas sociais, as quais se reconhecem geralmente
como obrigatórias e são largamente observadas” (KUPER, 1978, p. 68). A forma estrutural existe
Para aprofundar o independentemente dos atores individuais que a reproduzem (ERIKSEN, 2007, p. 60).
entendimento sobre os
conceitos de função e Enquanto a estrutura real muda, indivíduos morrem, outros nascem, o velho chefe morre e é
estrutura social, leiam substituído, pessoas se divorciam e voltam a se casar, as formas sociais continuam estáveis, pois
os capítulo IX (Sobre o persistem os “usos sociais”.
Conceito de Função nas É importante observar que, para Radcliffe-Brown (1973), as sociedades são vistas como sis-
Ciências Sociais) e o X temas, cujos elementos internos estão funcionalmente integrados. Assim, o papel das institui-
(Sobre a Estrutura So-
cial) do livro: RADCLIF- ções é garantir o funcionamento do sistema social. Temos assim uma preocupação com a ordem
FE-BROWN, Alfred R. dos sistemas sociais sem levar em conta os conflitos inerentes aos próprios sistemas sociais. O
Estrutura e Função na suporte básico para se compreender ou explicar os sistemas sociais está no conceito de estrutura
Sociedade Primitiva. social.
Rio de Janeiro: Editora Assim, os fundamentos estruturantes das sociedades são buscados no sistema de relações
Vozes, 1973.
sociais. Radcliffe-Brown propõe estudar a estrutura e a função das instituições sociais com o
objetivo de desvendar as normas e valores que as regem para estabelecer leis de integração
social. Para esse autor, as sociedades contam com normas que regulam as relações sociais. Es-
sas normas se expressam como sistemas de deveres e direitos entre os indivíduos, necessários
para criar certa harmonia e manter a integração social. A estrutura, em última instância, refere-
se às relações reais que se produzem dentro dos grupos sociais. A estrutura é vista como uma
regularidade.
Podemos dizer que Radcliffe-Brown, ao situar a noção de estrutura, ressalta a importância
da coesão social para a estabilidade dos sistemas sociais desconsiderando o conflito inerente às
relações sociais. Subjacente às explicações ou ao conhecimento sobre os sistemas sociais, encon-
tra-se uma preocupação com o problema da ordem. Os sistemas sociais estão em equilíbrio e
tendem ao equilíbrio na medida em que as instituições cumprem suas funções. Pode-se dizer
que o problema fundamental reside na tentativa de se explicar as sociedades como se fossem
uma totalidade articulada e integrada, o que acabou levando a uma negligência das mudanças
dos sistemas sociais.

1.5 Evans-Pritchard: estrutura


social, ordem, conflito
Edward Evans-Pritchard foi
um importante antropólogo da
Antropologia britânica. Estudou
com Malinowski na London School
of Economics em Londres. Realizou
Figura 5: E. E. Evans- ►
Pritchard with Zande suas pesquisas de campo no Sudão
boys in Southern durante os anos de 1930, principal-
Sudan, Unknown mente entre o povo azande o os
photographer, 1927- nuer. Seu primeiro livro, publicado
1930. em 1937, foi Witchcraft, Oracles and
Fonte: Disponível em
http://southernsudan.
Magic among the Azande. Sua se-
prm.ox.ac.uk/de- gunda obra importante foi The Nuer,
tails/1998.341.576/. Aces- de 1940. O primeiro livro foi publi-
so em 20 mai. 2014.
cado no Brasil com o título Bruxaria,
Oráculos e Magia entre os Azande; e
o segundo, com o título Os Nuer. Em
Os Nuer, Evans-Pritchard faz um es-
tudo da organização política de um
povo pastoril patrilinear que vivia ao
norte dos Azandes, próximo ao rio
Nilo, hoje Sudão.
Adam Kuper escreve:

18
Ciências Sociais - Antropologia III

Quando Evans-Pritchard estudou os Nuer, numa série de visitas relativamente


breves ao campo na década de 1930, o seu número totalizava umas 200.000
pessoas espalhadas numa área de 78.000 Km2 no Sudão Meridional. Os Nuer
estavam justamente se recuperando de um brutal programa de “pacificação”,
o qual incluíra o bombardeio de seus rebanhos e o enforcamento dos seus
profetas – e não estavam por isso no melhor dos ânimos para propiciar uma
acolhida hospitaleira a visitantes brancos. Nessas circunstâncias nada auspicio-
sas, Evans-Pritchard descobriu e demonstrou pela primeira vez como um siste-
ma político pode existir sem governantes num estado que ele denominou de
“anarquia ordeira”, sendo as relações entre grupos territoriais conceptualiza-
das num idioma de relações lineares e regidas por processos de fissão e fusão.
(ADAM KUPER, 1978, p. 107)

Passemos a comentar, sumariamen-


te, a obra de Evans-Pritchard, focalizando
◄ Figura 6: Garota
o tema ordem e conflito e a noção de es- nuer. Foto de Evans-
trutura social. Pritchard.
Os Nuer marcaram uma forma es- Fonte: Disponível em fa-
pecífica de produção do conhecimento culty.dwc.edu/wellman/
cattle.htm. Acesso em 02
antropológico, tanto do ponto de vista abr. 2014.
teórico quanto metodológico. Teórico na
medida em que se propõe um conheci-
mento da sociedade a partir da noção
de estrutura social, buscando um refina-
mento dessa noção; portanto, indo além
do realismo simplista de Radcliffe-Brown,
para quem a noção de estrutura social se
confunde com as realidades empíricas,
observáveis a partir das relações sociais.
Metodológico, pois é um experimento de
análise sincrônica, significativo para a his-
tória da Antropologia na medida em que
Evans-Pritchard produziu uma descrição
etnográfica mais consistente e rigorosa e,
nesse sentido, o autor reforça uma preo-
cupação central relacionada à forma de
se produzir o conhecimento na Antropo-
logia: o trabalho de campo, que requer o
contato íntimo com os povos que se quer
estudar, uma preocupação recorrente desde Boas, que se intensificou a partir de Malinowski.
No entanto, o mais fascinante na pesquisa de Evans-Pritchard sobre os Nuer está na descri-
ção da ordem social de uma sociedade a partir de uma relação à primeira vista quase enigmática:
ordem e conflito, fissão e fusão. Como o autor mostra, a ordem social entre os Nuer resulta de um
jogo envolvente entre fusão e oposição de acordo com as relações entre os vários segmentos
grupais dessa sociedade. Assim, é possível dizer que Evans-Pritchard ultrapassa os modelos de
sociedade que pressupunham equilíbrio entre as partes, em que os indivíduos consensualmente
obedecem involuntariamente normas e regras impostas pela sociedade, vigentes na perspectiva
funcionalista na Antropologia.
Os Nuer constituem em uma descrição de um povo que vivia ao longo do rio Nilo, que não
contavam com uma autoridade política centralizada e que se ordenavam socialmente a partir
de valores comunitários e pelo sistema de linhagem e segmentação tribal. Segundo Evans-Prit-
chard, os Nuers não tinham governo e seu estado pode ser descrito como uma “anarquia ordena-
da”. O ordenamento político Nuer era garantido através das relações de fusão e oposição entre os
sistemas de linhagens e por relações de parentesco.
Segundo Evans-Pritchard (1993, p. 7), “os Nuer, que chamam a si mesmos de Nath, são apro-
ximadamente duzentas mil almas e vivem nos pântanos e savanas planas que se estendem em
ambos os lados do Nilo”. Eles formavam, juntamente com os Dinka, uma subdivisão de um gru-
po nilota que ocupava parte da África oriental. Os Nuer se dividem em tribos, maior segmen-
to político, que por sua vez dividem-se em uma série de segmentos “territoriais, e estes consti-
tuem mais do que meras divisões geográficas, pois os membros de cada um consideram-se a si
mesmos como comunidades distintas e algumas vezes agem como tais”, que se segmentam em

19
UAB/Unimontes - 3º Período

outras seções: secundária e terciária. A seção terciária consiste de uma série de aldeias, as quais
constituem as menores unidades políticas da terra Nuer (Idem, 1993, p. 10).
Evans-Pritchard mostrou, então, como um sistema político pode existir sem governantes,
sendo as relações entre os grupos territoriais conceitualizadas num idioma de relações lineares e
regidas por processos de fissão e fusão (KUPER, 1978, p. 107).
Dois objetivos centrais marcam o livro Os Nuer. Por um lado, nos primeiros capítulos, Evans
-Pritchard descreve o meio ambiente e o valor supremo que os Nuer atribuem ao gado e os limi-
tes que o meio ambiente impõe à organização social Nuer. Por outro lado, o autor apresenta, nos
últimos capítulos do livro, uma organização Nuer calcada no sistema político e que não depende
simplesmente da ecologia.
Os Nuer suprem suas necessidades a partir da criação de gado e da agricultura, principal-
mente de milho e sorgo. Assim, têm que ajustar suas vidas às necessidades de seus rebanhos e às
estações do ano, divididas em chuvosa e estiagem. Na estação chuvosa, os Nuer se concentram
nas aldeias e, na época da estiagem, em acampamentos construídos próximos a ribeirões devido
à escassez de água. Assim, Evans-Pritchard atribuiu uma importância fundamental às limitações
que o meio ambiente cria para a organização social Nuer.
Mas, por outro lado, como o autor observou, essas limitações ecológicas não podem expli-
car as relações estruturais entre grupos Nuer. Assim, o autor oscila entre a importância da ecolo-
gia e das relações humanas para explicar a organização Nuer.
De fato, Evans-Pritchard atribui uma importância fundamental do meio ambiente físico para
entender a vida Nuer. Mas, se Evans-Pritchard dá ênfase ao meio ambiente físico e ao gado, ele
o faz em respeito à importância que o gado tem para os Nuer. Nesse sentido, observa-se que o
autor não fala de uma determinação ecológica sobre a sociedade. O meio ambiente apenas dá
condições para a vida social, pois as relações estruturais entre os grupos Nuer não podem ser en-
tendidas simplesmente a partir das limitações que o meio ambiente impõe aos Nuer.

Foto 7: Garotas nuers. ►


Foto recente.
Fonte: Disponível em
http://www.dhushara.
com/paradoxhtm/culture.
htm.Acesso em 02 mai.
2014.

Dessa forma, as explicações estruturais entre grupos nuer são formuladas em função de
“princípios estruturais”. O argumento de Evans-Pritchard se desloca da importância das “condi-
ções materiais de existência” para o plano dos “valores sociais”. A partir daí, o autor observa que a
ordem social Nuer é mantida por valores comunitários e pelo sistema de linhagem e segmenta-
ção tribal. O ordenamento político é garantido através das relações de fusão e oposição entre os
sistemas de linhagens e por relações de parentesco.
No capítulo três, Evans-Pritchard explorou as noções de tempo e espaço argumentando
que, entre os Nuer, essas noções não são abstratas. O autor introduz aí a ideia de “relatividade

20
Ciências Sociais - Antropologia III

social”. As categorias tempo e espaço são construções sociais. Evans-Pritchard mostra que as no-
ções de tempo e espaço Nuer são construídas de acordo com a ecologia, mas principalmente de
acordo com a estrutura social. Os tempos mais longos são estruturais e os tempos mais breves
são ecológicos.
Assim, Evans-Pritchard mostra que o ano Nuer é dividido em duas estações – tot e mai –
sendo que a primeira corresponde ao período das chuvas e a segunda ao período da estiagem.
Mas, a noção de tempo não deriva simplesmente das mudanças climáticas, mas das atividades a
elas relacionadas. Para o Nuer, o tempo se divide em períodos de residência na aldeia e outros no
acampamento. Portanto, o tempo é percebido pelos Nuer em termos de mudanças físicas e das
relações sociais.
Evans-Pritchard (1993) cunhou a noção de tempo estrutural devido ao fato de que é mais
fácil pensar o modelo Nuer em função das atividades da estrutura social, pois entre os Nuer não
existe um termo ou um vocábulo equivalente a tempo.
Evans-Pritchard (1993, p.123) procura mostrar também, que entre os Nuer, a noção de espa-
ço não está apenas relacionada à ecologia, mas também à estrutura social. O autor fala, então, de
distância estrutural, que seria o espaço estabelecido entre grupos de pessoas dentro de um siste-
ma social, expressos em termos de valores. Assim:

Uma tribo Nuer que está separada de outra tribo Nuer por quarenta quilôme-
tros está, estruturalmente, mais próxima desta do que de uma tribo dinka da
qual está separada por apenas vinte quilômetros. Quando abandonamos os
valores territoriais e falamos de linhagens e conjuntos etários, o espaço é me-
nos determinado pelas condições do meio ambiente (Idem, p. 123).

A discussão que Evans-Pritchard fez sobre o tempo e espaço Nuer serviu como uma liga-
ção entre os capítulos iniciais do livro e os finais. Nas últimas partes do livro, capítulos 4 (O sis-
tema político), 5 (O sistema de linhagens) e 6 (O sistema de conjuntos etários), Evans-Pritchard
demonstra o modo como as relações de grupo eram conceituadas em termos territoriais e em
termos de relações de linhagens, construídas na genealogia que se estendia pelo menos a três
gerações passadas.
Evans-Pritchard observa, ainda, que as relações políticas na terra Nuer são relações territo-
riais. A estrutura política dos Nuer consiste em um ordenamento e reordenamento dos sistemas
de linhagens, articulados num processo de fusão e oposição. Ou seja, as tribos Nuers se segmen-
tam em seções que se estruturam a partir do parentesco e das oposições ocupadas no território.
Os vários segmentos da tribo Nuer ora se fundem ora se opõem de acordo com relacionamentos
para estabelecerem a guerra ou disputas. As tribos Nuer dividem-se em segmentos primário, se-
cundário e terciário. As seções tribais primárias constituem os maiores segmentos da tribo Nuer
que, por sua vez, dividem-se em seções secundárias e terciárias (Evans-Pritchard,1993, p. 152). A
menor seção tribal, denominada terciária, “compreende várias comunidades de aldeias, que são
compostas por grupos domésticos e de parentesco” (Idem, p. 152). Evans-Pritchard mostra que
os segmentos operam a partir da fusão e da oposição a outros segmentos.
Dessa forma, o sistema político Nuer é explicado a partir das relações territoriais e políticas
que se expressam em termos de linhagens. Assim, uma tribo Nuer tinha um clã dominante que
se segmentava em unidades menores: linhagens máximas, linhagens menores e linhagens míni-
mas. Essas linhagens mantinham relações de fusão e oposição umas com as outras.
Evans-Pritchard (1993, p. 224) mostra, então, que a estrutura tribal era dividida em várias se-
ções, e os sistemas de linhagens, com suas tendências para a fusão e oposição, mantêm o equilí-
brio estrutural da sociedade Nuer, garantindo assim uma ordem em que não existe nenhum tipo
de poder centralizado. Especificamente, com relação ao sistema de linhagens, ele seria “o princí-
pio organizador da estrutura”.
Pode-se dizer que em Os Nuer, Evans-Pritchard está preocupado com o problema da ordem
social, um problema recorrente na Antropologia social britânica. Porém, não está interessado
simplesmente em mostrar como as sociedades atingem a integração social. Um ponto central
que o autor procura desvendar é como se mantém um equilíbrio estrutural. Assim, observa que,
entre os Nuer, a ordem é resultado do princípio estrutural, das relações entre grupos que man-
têm relações de fissão e fusão, cunhados a partir da ideia que Evans-Pritchard denominou de “re-
latividade social”. Assim, pode-se dizer que o conflito, expressos nas relações de oposição entre
grupos nuer, torna-se importante para o equilíbrio estrutural dessa sociedade. O conflito assume
um ponto estratégico na análise que Evans-Pritchard fez sobre os nuer, pois ele promove a or-
dem social, e consequentemente, a estrutura social.

21
UAB/Unimontes - 3º Período

É nesse sentido que se pode entender a importância que as “vendetas” têm para os Nuer. As
DICA “vendetas”, uma instituição tribal, que ocorre quanto houver uma infração à lei, e como um modo
Para uma melhor com- aprovado e regulado de comportamento entre comunidades dentro de uma tribo, mantêm a
preensão da etnografia oposição equilibrada entre segmentos tribais e suas tendências complementares de fundir-se e
de Evans-Pritchard, e dividir-se, princípio básico da estrutura política nuer.
para um entendimen-
to mais aprofundado O livro de Evans-Pritchard, embora tenha sido considerado um produto da estrutura colo-
de como é possível nial, o que provocou reações contra o conhecimento antropológico por ser conveniente com o
a manutenção dos colonialismo, contribuiu para o conhecimento dos povos situados na África. Evans-Pritchard, a
sistemas políticos em partir de intenso trabalho de campo, pode mostrar como um grande grupo se estrutura sem um
sociedades sem Estado, poder centralizado, sem uma autoridade política. O trabalho de campo começa assim a ter um
leia os capítulos 3
(“Tempo e Espaço”) e novo status ou um novo reconhecimento. Assim, a Antropologia passa a se preocupar não com
4 (“O Sistema Político”) a busca do exótico em outras sociedades. O trabalho de campo possibilitou também novas mu-
do livro Os Nuer de danças teóricas na Antropologia. Em Os Nuer, pode-se apreender que a estrutura social não se
Evans-Pritchard. confunde com a estrutura concreta. O autor desloca-se da estrutura social como uma realidade
empírica para entendê-la como relações conceitualizadas pelo antropólogo. Assim, o autor con-
cebe a estrutura social como um modelo que não se confunde com a realidade, aproximando-se
da noção de estrutura que Lévi-Strausss desenvolveria posteriormente.
Vimos, então, nesta Unidade, que a perspectiva estrutural-funcionalista na Antropologia
pode ser entendida como uma reação ao evolucionismo. Como ressalta Da Matta (1990, p. 101),
os funcionalistas reagiram, sobretudo, ao conceito de “sobrevivência” dos evolucionistas. Pu-
demos ver que Malinowski foi o fundador do “programa funcionalista”. Da perspectiva fundada
ATIVIDADE por Malinowski, as sociedades eram consideradas como sistemas integralmente funcionais. Para
entender como as sociedades funcionam, Malinowski desenvolveu o conceito de cultura como
Faça uma reflexão uma resposta às necessidades biológicas. Para esse autor, as instituições existem para os indiví-
sobre a relação entre
ordem e conflito, to- duos. Por outro lado, vimos como Radcliffe-Brown, outro importante antropólogo da Antropo-
mando como referên- logia britânica, assimilou a perspectiva teórica durkheimiana ao incorporar em sua análise o en-
cia Radcliffe-Brown e tendimento dos princípios abstratos e mecanismos de integração social. Esse autor, ao elaborar
Evans-Pritchard. a ideia de função e estrutura social, interessou-se em compreender como as sociedades se man-
têm coesas. Finalmente, analisamos a etnografia de Evans-Pritchard, buscando entender como
relaciona ordem e conflito como um momento empírico, mas, sobretudo, como um problema da
teoria antropológica.

Referências
DA MATTA, Roberto. Relativizando: uma introdução à Antropologia social. Rio de Janeiro:
Rocco, 1990.

ERIKSEN, Thomas Hylland. História da Antropologia. Petrópolis, RJ: Vozes, 2007.

EVANS-PRITCHARD, Edward Evans. Os Nuer. São Paulo: Perspectiva, 1993.

LAPLANTINE, François. Aprender Antropologia. São Paulo: Brasiliense, 2000.

KUPER, Adam. Antropólogos e Antropologia. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1978.

MALINOWSKI, Bronislaw. Uma Teoria Científica da Cultura. Rio de Janeiro: Zahar, 1975.

PEIRANO, Mariza. A favor da etnografia. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1995.

RADCLIFFE-BROWN, Alfred R. Estrutura e Função na Sociedade Primitiva. Rio de Janeiro: Vo-


zes, 1973.

WHITE, Lesly. Evolucionismo e Anti-Evolucionismo na Teoria Etnológica Americana. In: Sociolo-


gia, São Paulo, vol. 10, nº 1, 1948.

22
Ciências Sociais - Antropologia III

Unidade 2
O estruturalismo de Lévi-Strauss
Leonardo Turchi Pacheco
Carlos Caixeta de Queiroz

2.1 Introdução
O pensamento de Claude Lévi-Strauss é complexo. Não é possível abarcá-lo em poucas pá-
ginas. Nesse sentido, esta Unidade tem como proposta introduzir as ideias básicas da teoria des- DICA
se grande pensador. As subseções seguintes podem ser entendidas a partir de uma imagem: as Para se familiarizar com
ideias expostas são gotículas na imensidão oceânica do pensamento lévi-straussiano. o homem Lévi-Strauss,
Tendo essa imagem em mente, escolhemos, no primeiro momento, apresentar a trajetória leia uma entrevista
do homem Lévi-Strauss, suas influências intelectuais. Em seguida, apresentaremos de maneira realizada com ele pela
professora Beatriz
esquemática e sintética o método estruturalista, os estudos sobre parentesco, as trocas simbóli- Perrone Moises, da
cas, o totemismo e a lógica do concreto. universidade de São
Será uma grande vitória se vocês, acadêmicos, ao conhecerem as ideias de Lévi-Strauss, sen- Paulo. Essa entrevista
tirem-se estimulados a submergirem nos meandros mais complexos de sua lógica e de sua teo- se encontra na revista
ria. E se vocês, por acaso, tomarem essa decisão, será imprescindível a leitura dos livros desse de antropologia da USP
no sítio: http://www.
autor. scielo.br/scielo.php?pi-
d=s0034-77011999000
100002&script=sci_

2.2 Lévi-Strauss: o homem e suas


arttext

ideias DICA
Leiam “Tristes Trópicos”,
e preste atenção aos
Claude Lévi-Strauss nasceu em Bruxelas, na Bélgica, em 1908. Pouco depois, sua família se capítulos 6, 28 e 38 que
mudou para a França, onde ele foi criado. É bem possível que o pequeno Lévi-Strauss, através da são intitulados “Como
presença de seu pai, que era pintor, e da lembrança de seu bisavô, que era violinista e maestro, se faz um etnógrafo”,
tenha tido seu primeiro contato com as artes. Como morava no distrito XVI região boêmia da “Lição de escrita” e
“Um copinho de rum”,
cidade das luzes, Paris, é também bem provável que tenha tido contato desde muito cedo com a respectivamente. Se
poesia e os artifícios da linguagem. preferirem, leiam esses
Pois bem, pintura, música, poesia e linguagem, além de um galinheiro no fundo da casa, três capítulos e depois
faziam parte da vivência da infância de Lévi-Strauss. Como veremos, exceto pelo galinheiro, o se aventurem pelo
contato com as artes foram pri- resto do livro.
mordiais para a construção de
suas ideias e da Antropologia es-
truturalista. ◄ Figura 8: foto de Lévi-
Quando eclodiu a I Guerra Strauss no Brasil em
Mundial, seu pai foi recrutado e 1934.
então o pequeno Lévi-Strauss, de Fonte: Disponível em
http://i.telegraph.co.uk/
sete anos, foi morar com sua mãe multimedia/archive/01515/
e suas irmãs na casa de seu avô levi_strauss1_1515787c.
materno, que era um rabino em jpg. Acesso em 02 jun.
2014.
Versailles. Essa associação com o
judaísmo faria Lévi-Strauss fugir
para Martinica e refugiar-se em
Nova York, devido à invasão a Paris
na II Guerra Mundial.

23
UAB/Unimontes - 3º Período

Mas antes da II Guerra Mundial e antes de reinventar a Antropologia moderna e ter seu
nome associado ao movimento estruturalista, Lévi-Strauss estudou Direito, Filosofia em Sorbon-
ne e veio duas vezes ao Brasil.
Em “Tristes Trópicos” (1996), seu livro mais acessível, mas ainda assim um tratado etnológi-
co disfarçado de biografia, Lévi-Strauss conta como, desiludido com o Direito e a Filosofia, tor-
nou-se um etnógrafo. No capítulo intitulado “Como se faz um Etnógrafo”, o autor compartilha
suas percepções sobre o Direito e a Filosofia com os leitores e, de maneira mágica, descreve sua
vocação antropológica.
Lévi-Strauss conta:

Sem dúvida, desde a tenra infância eu me dedicara a uma coleção de curiosi-


dades exóticas. Mas era uma atividade de antiquário, voltada para as áreas em
que nem tudo era inacessível às minhas posses. Na adolescência, minha orien-
tação ainda continuava tão indecisa, que o primeiro que tentou formular um
diagnóstico, meu professor de Filosofia do último ano, chamado André Cres-
son, indicou-me os estudos jurídicos como os que melhor correspondiam a
meu temperamento; conservo profunda gratidão por sua memória devido à
semiverdade que esse erro encobria. Desisti, portanto, da Escola Normal e ins-
crevi-me em Direito ao mesmo tempo em que fiz o curso de Filosofia; simples-
mente porque era muito fácil. Uma curiosa fatalidade pesa sobre o ensino de
Direito. Preso entre a teologia da qual, nessa época, seu espírito o aproximava,
e o jornalismo, para o qual a recente reforma está fazendo pender, parece que
lhe é impossível situar-se num plano a um só tempo sólido e objetivo: perde
uma das virtudes quando tenta conquistar ou conservar a outra. Objeto de es-
tudo para o homem de ciência, o jurista fazia-me pensar num animal que pre-
tendesse mostrar a lanterna mágica ao zoólogo. [...] Mais ainda do que sua es-
terilidade repelia-me a clientela do Direito (LEVI-STRAUSS, 1996, p. 51-52).

Figura 9: Foto de ►
Claude Lévi-Strauss.
Fonte: Disponível
em http://www.ugr.
es/~pwlac/G26_01Pedro_
Gomez_Garcia.html.
Acesso em 02 jun. 2014.

Se o Direito se distanciava do autor, a Filosofia, por sua parte, também não contribuía para
torná-lo empolgado pelas experiências científicas. O modo como era ensinado o ofício filosófico
na Sorbonne de então fazia Lévi-Strauss um constante indignado. E, para piorar a situação, quan-
do deu aula no Liceu, uma espécie de ensino médio para os franceses, descobriu que sua vida
seria uma eterna repetição dos conteúdos apreendidos na escola de Sorbonne.
Lévi-Strauss lembra que:

Ali comecei a aprender que todo problema, grave ou fútil, pode ser liquidado
pela aplicação de um método, sempre idêntico, que consiste em contrapor
duas visões tradicionais da questão; em introduzir a primeira pelas justifica-

24
Ciências Sociais - Antropologia III

ções do sentido comum, depois em destruí-las por meio da segunda; por úl-
timo, opô-las mutuamente graças a uma terceira que revela o caráter também
parcial das outras duas, reduzidas pelos artifícios do vocabulário aos aspectos
complementares de uma mesma realidade: forma e fundo, continente e con-
teúdo, ser e parecer, contínuo e descontínuo, essência e existência etc. Tais DICA
exercícios logo se tornam verbais baseados numa arte de trocadilho que ocupa
o lugar da reflexão; as assonâncias entre os termos, as homofonias e as ambi- Para entenderem e ou-
guidades fornecem progressivamente a matéria dessas piruetas especulativas virem uma aula sobre
por cuja engenhosidade se reconhecem os bons trabalhos filosóficos. [...] A Fi- Lévi-Strauss, consulte
losofia não era ancilla scientiarum, a serva e a auxiliar da exploração científica, o site do estado de São
mas uma espécie de contemplação estética da consciência em si mesma. Viam- Paulo e ouça os comen-
na, através dos séculos, elaborando construções cada vez mais leves e audacio- tários de Luiz Zanir.
sas, resolvendo problemas de equilíbrio ou de alcance, inventando requintes Fonte: http://www.
lógicos, e tudo isso era tanto mais meritório quanto maior fosse a perfeição estadao.com.br/espe-
técnica e a coerência interna; o ensino filosófico tornava-se comparável ao de ciais/100-anos-de-levi
uma história da arte que proclamaria o gótico como necessariamente superior -strauss,38179.htm
ao românico, e no âmbito do primeiro, o flamboyante mais perfeito que o pri-
mitivo, mas em que ninguém indagaria o que é belo e o que não o é. O signifi-
cante não se reportava a nenhum significado, já não havia referente. O savoir-
faire substituía o gosto pela verdade (LEVI-STRAUSS, 1996, p. 49-50).

Essas inquietações apontam para o desapontamento com as ferramentas para atingir o co-
nhecimento proporcionado pela Filosofia. Se Levi-Strauss percebeu o Direito como algo estéril, a
Filosofia foi entendida como uma repetição esquemática para os problemas científicos. Ao que
parece, segundo o relato do autor, o caminho para o encontro com a etnografia era uma questão
de tempo, uma atração inevitável e uma vocação sempre presente no inconsciente.
E, assim, mais do que de repente um grito: Eureka! Como exclamariam os filósofos gregos ao ATIVIDADE
descobrirem e se encantarem com uma nova ideia. A Antropologia foi o grito vocacional Levi-s- Façam uma pesquisa na
traussiano, a descoberta de seu lugar no mundo das ideias, a descoberta de seu lugar no mundo internet sobre a vida de
Lévi-Strauss. Identi-
concreto.
fiquem a correlação
É assim que, de maneira poética, com uma sensibilidade ímpar, daquelas que o leitor menos entre matemática,
atento derrama lágrimas de emoção e o mais compenetrado decide mudar de vida, ele descreve linguística, música
sua descoberta. E como se não bastasse mostrar ao leitor a sua descoberta, ele ainda descreve os e pintura para o seu
meandros de sua vocação no espírito do pesquisador, do etnógrafo, aquela “profissão-vocação pensamento.
-refúgio-missão” que ele inconscientemente se viu atraído:

Nessa antinomia que opõe, de um lado, a profissão, e de outro, um projeto


ambíguo que oscila entre a missão e o refúgio, e que sempre participa de uma
ou de outro, sendo ora um ora outro, a etnografia ocupa decerto um lugar pri-
vilegiado. É a forma mais extrema que se possa conceber do segundo termo.
Sempre se considerando o humano, o etnógrafo procura conhecer e julgar o
homem de um ponto de vista elevado e distante o suficiente para abstraí-lo
das contingências próprias a esta sociedade ou àquela civilização. Suas condi-
ções de vida e de trabalho o isolam fisicamente de seu grupo por longos perío-
dos; pela brutalidade das mudanças a que se expõe, ele adquire uma espécie
de desarraigamento crônico: nunca mais se sentirá em casa, em nenhum lugar,
permanecerá psicologicamente mutilado. Como a matemática ou a música, a
etnografia é uma das raras vocações autênticas. Podemos descobri-la em nós,
ainda que não tenha sido ensinada por ninguém (LEVI-STRAUSS, 1996, p. 53).
◄ Figura 10: Desenhos
Descoberta a vocação, Lévi-Strauss em- minuciosos e
barcou para o Brasil em uma expedição onde simétricos, traçados
viveu vários meses entre os índios Nambikwa- com tinta obtida da
ra. Voltaria ao Brasil em outra expedição para mistura do suco do
jenipapo com pó de
estudar a organização social e a expressão ar- carvão, marcam, até
tística dos índios Bororo e Cadiweu. Todos es- hoje, a pintura corporal
ses encontros foram relatados em “Tristes Tró- dos Kadiwéu. Foto:
picos”. Claude Lévi-Strauss,
Entre uma e outra viagem ao Brasil, Lévi-S- 1935.
trauss se refugiou nos Estados Unidos, escre- Fonte: Disponível em
http://img.socioambien-
veu sua obra mais famosa, que revolucionou o tal.org/v/publico/institu-
conhecimento antropológico sobre os sistemas cional/. Acesso em 02 jun.
de parentesco, e o tornou uma referência entre os antropólogos, intitulada “As estruturas ele- 2014.
mentares do parentesco”, colecionou obras de arte “primitiva” e conheceu Roman Jakobson.
Roman Jakobson era professor de Linguística na Escola de Praga. Foi através dos ensina-

25
UAB/Unimontes - 3º Período

mentos de Jakobson que Lévi-Strauss entrou em con-


Figura 11: Foto de Lévi- ► tato com os métodos, os princípios e a ideias que o
Strauss jovem no Brasil. ajudaram a formular suas próprias ideias sobre o estru-
Fonte: Disponível turalismo. Essas ideias resultaram no nascimento da An-
em http://www.ugr. tropologia estrutural.
es/~pwlac/G26_01Pedro_
Gomez_Garcia.html Vocês perceberam a trajetória de Lévi-Strauss? No-
Acesso em 02 jun. 2014. taram com as expressões artísticas, como a música e a
pintura são importantes para pensar a Antropologia?
Notaram que a Filosofia, Linguística e a Matemática são
elementos fundamentais de sua formação?
Pois bem, agora nós iremos tratar nas próximas
subseções das ideias, categorias e conceitos formulados
por Lévi-Strauss sobre o método estruturalista, o paren-
tesco, o simbólico, a linguagem, o totemismo e a lógica do concreto.
Peguem um caderno, uma caneta ou lápis e prestem muita atenção. O pensamento de Lévi
-Strauss é complexo e cheio de nuances. Não é possível entendê-lo sem estruturá-lo e sistemati-
zá-lo em uma folha de papel.
Ordem, aqui, é tudo!

2.3 A noção de estrutura


Ao construir a noção de estrutura em Antropo-
logia, a abordagem de Lévi-Strauss privilegiou os
modelos constituídos a partir da realidade. Modelos,
criados a partir do método de linguística fonológi-
Figura 12: Estrutura de ►
cano e aço vista de cima.
ca, que têm um caráter de sistema que, por sua vez,
Fonte: Disponível em
formam estruturas inconscientes aos seres humanos,
www.fotosearch.com.br. mas presentes no modo como esses comunicam suas
Acesso em 02 jun. 2014. ações.
Confuso? Então vamos por partes.
Em 1952, numa comunicação proferida em Nova
York, Lévi-Strauss se propõe a definir o que é estrutu-
ra. A sua noção de estrutura se distancia da noção de
estrutura da escola britânica que tinha como princi-
pal figura Radcliffe Brown. O problema da escola bri-
tânica residia no fato dela confundir a estrutura social
com as relações sociais. Ora, para Lévi-Strauss, Rad-
cliffe Brown reduzia a estrutura social às relações ob-
serváveis na sociedade. A realidade era revelada pela
simples observação do sensível, perceptível esponta-
neamente através de fatos sociais, isolados, dos quais
os homens têm plena consciência.
Lévi-Strauss discorda de Radcliffe Brown na me-
Figura 13: Estrutura de ►
uma folha.
dida em que entende que: “O princípio fundamental
Fonte: Disponível em
é que a noção de estrutura social não diz respeito à
www.fotosearch.com.br. realidade empírica, mas aos modelos construídos em
Acesso em 02 jun. 2014. conformidade com esta” (LÉVI-STRAUSS, 1967, p. 315).
Assim, para Lévi-Strauss, as observações do sen-
sível e das percepções espontâneas não dão conta de
explicar as relações sociais. É preciso mergulhar no nível do sistema inconsciente. É preciso des-
cortinar as categorias que os homens utilizam sem saber Direito o porquê. É preciso fazer isso
através de modelos das percepções inconscientes dos seres humanos. Dessa forma, as relações
sociais se constituiriam em material para se alcançar as estruturas das lógicas de pensamento e
ações.
Em relação aos modelos e sua natureza, o autor aponta que,

26
Ciências Sociais - Antropologia III

Um modelo qualquer pode ser consciente ou inconsciente, esta condição não


afeta sua natureza. Pode-se apenas dizer que uma estrutura superficialmente
enterrada no inconsciente torna mais provável a existência de um modelo que DICA
a mascare, com um écran, para a consciência coletiva. Com efeito, os modelos Atenção! Quando
conscientes – que chamamos comumente de “normas” – contam-se entre os Lévi-Strauss se refere à
mais pobres que há, em virtude de sua função que é perpetuar as crenças e lógica binária, devemos
usos. Mais do que revelar-lhes a força motora. Assim a análise estrutural se de- entender que as clas-
para com a situação paradoxal, bem conhecida do linguista: quanto mais níti- sificações da realidade
da a estrutura aparente, mas difícil se torna aprender a estrutura profunda, por são feitas a partir de
causa de modelos conscientes e deformados que se interpõem entre o obser- oposições de pares de
vador e seu objeto. O etnólogo deverá, portanto, distinguir entre as duas situa- opostos. A realidade,
ções em que está sujeito a ser colocado. Ele pode ter de construir um modelo para adquirir sentido,
correspondente a fenômenos cujo sistema não foi percebido pela sociedade. geralmente, é ordenada
[...] Em outros casos, entretanto, o etnólogo tem de se haver, não somente com e classificada tomando
materiais brutos, mas também com modelos já construídos pela cultura consi- pares de coisas seme-
derada, sob a forma de interpretações (LÉVI-STRAUSS, 1980, p. 9). lhantes e diferentes.
Assim temos: dia/noite,
Mas como são construídos esses modelos que são o objeto da análise estrutural? Quais são casa/rua, cru/cozido,
masculino/feminino,
as condições necessárias para que um modelo possa ser entendido como uma estrutura?
público/privado, sagra-
Para o modelo se tornar uma estrutura é necessário que ele satisfaça quatro condições (LEVI do/profano e assim por
-STRAUSS, 1967, p. 316 e 1980, p. 7): diante.

a. O modelo deve oferecer um caráter de sistema. Isso implica que a modifica-


ção de um elemento dentro do sistema acarreta a transformação de todos os
outros.
b. Todo modelo deve pertencer a um grupo de transformações. Cada transfor-
mação corresponderá a um modelo da mesma família. Por sua vez, o conjunto
das transformações deve resultar num grupo de modelos.
c. Previsibilidade da reação do modelo se os elementos forem modificados.
d. O modelo deve ser construído de forma que seu funcionamento explique to-
dos os fatos observados.

Esses modelos se constituem como regras, leis univer-


sais das ordenações possíveis das relações sociais observá- ◄ Figura 14: A estrutura
cromática do
veis. Ou seja, os modelos analisados pelo viés estruturalista, caleidoscópio pode
devido às regras e leis, são de número limitado, assim como tomar diversas formas,
suas variações. dentro de um limite
Além disso, os modelos possuem uma lógica binária pré-estabelecido.
de classificação e seus elementos não podem ser entendi- O mesmo acontece
com a estrutura dos
dos de forma isolada, mas sim em relação um com o outro. fenômenos sociais
Portanto, os modelos são sistemas de relações que dotam a dentro de uma
realidade de significado. determinada cultura.
Vejamos dois exemplos desses sistemas: o primeiro se Fonte: Disponível em
refere à alimentação e o segundo ao jogo de cartas. Para www.fotosearch.com.br.
Acesso em 02 jun. 2014.
Lévi-Strauss, os alimentos são bons tanto para comer como
para pensar as lógicas de significados de cada sociedade.
Os vocábulos queijo, cheese, frommage, isoladamente e
fora do contexto estrutural em que cada um está inserido,
podem dar a impressão de que se trata do mesmo alimen-
to. No entanto, se pensados dentro de um esquema cultural ◄ Figura 15: Queijo,
das sociedades brasileira, americana e francesa, esses ali- cheese, frommage.
mentos adquirem conotações completamente diferentes. Fonte: Disponível em
Para os brasileiros, o queijo é um alimento de gosto www.fotosearch.com.br.
salgado. O queijo é associado a outros alimentos de sabo- Acesso em 02 jun. 2014.
res salgados como o pão e pode ser consumido com uma
boa xícara de café. Também pode ser consumido com do-
ces como a goiabada, a banana, o doce de figo, o que o torna saboroso devido ao contraste entre
doce e salgado.
Para os americanos, o cheese é um alimento de gosto insosso. Não tem sabor. Não é nem
salgado, nem amargo, nem ácido. É um completo sem sabor para ser consumido nos sanduíches
e demais fast food.
Para os franceses o frommage é um alimento de gosto picante. Ao contrário da culinária bra-
sileira, o frommage na culinária francesa não é consumido com doces, mas sim com vinhos e pão.

27
UAB/Unimontes - 3º Período

Queijo = Brasil = Salgado


Frommage = França = Picante
Figura 16: As cartas e ► Cheese = Estados Unidos = Insosso (sem gosto/bor-
suas estruturas rachudo)
Fonte: Disponível em
www.fotosearch.com.br. Temos aqui um sistema que opera por contrastes,
Acesso em 02 jun. 2014.
não podendo ser pensado isoladamente. O queijo to-
mado em relação com a culinária de cada país adquire
sentidos múltiplos. O objeto que parecia o mesmo em
todos os lugares ganha sua peculiaridade quando pen-
sado numa estrutura relacional.
O baralho também pode ser pensado como uma
estrutura pré-determinada e com variações limitadas
dentro do jogo que os participantes escolheram jogar.
Os baralhos de língua portuguesa possuem 52 cartas
distribuídas em 4 naipes, com 13 cartas cada de valores diferentes.
Pode-se perceber que a estrutura das cartas permite uma série de combinações, dependen-
do do jogo. O truco, por exemplo, é uma disputa em três rodadas onde os indivíduos se organi-
zam em duplas. Cada indivíduo deve possuir três cartas nas mãos. Os valores dessas cartas vão
desde a mais alta o 4 de paus, 7 de copas, Ás de espada (espadilha), 7 de ouro, todos os 3, todos
os 2, todos os ases, até a mais baixa de todas: os reis, valetes e damas. No poker, o jogo é indivi-
dual, a sequência e os valores das cartas se modificam. A maior sequência é chamada “Straight
Flush”, são cinco cartas em sequência do mesmo naipe. Logo após, a quadra “four of a kind” que
DICA
são quatro cartas do mesmo valor de naipes diferentes. A seguinte é a “full house”, ou seja, uma
A regra de ouro do sequência de três cartas de mesmo valor de naipes diferentes e duas cartas de mesmo valor e
estruturalismo é a se-
naipes diferentes. E assim por diante até chegar à combinação menos valiosa, o par.
guinte: as inter-relações
dos elementos são mais Vejamos as semelhanças entre o jogo e o matrimônio. Ambos os fenômenos estão pré-es-
importantes do que os tabelecidos pelos sistemas em que se inserem. O casamento, se visto como um baralho, pode
elementos sozinhos. tomar várias formas; se nas cartas temos o jogo de truco, no casamento temos a monogamia; se
nas cartas temos o jogo de poker, no casamento temos a poligamia. Os jogos e os matrimônios
são pouco variáveis e universais. Em outras palavras, existe em cada cultura um número limitado
de jogos possíveis de se jogar dentro de um sistema organizado. O mesmo ocorre com as formas
de matrimônio.
Ao construir a noção de estrutura na Antropologia, Lévi-Strauss precisou romper com uma
série de preceitos filosóficos, históricos, atomísticos e empíricos (LAPLANTINE, 1996, p. 134-139).
ATIVIDADE O autor rompeu, no primeiro momento, com a Filosofia. O rompimento se deu na medida
Pesquisar o que Lévi em que ele inverteu as ordens dos termos para se pensar o sujeito do conhecimento. A racionali-
-Strauss entende por dade consciente inserida na famosa frase de Descartes, “penso, logo, existo” é rejeitada. O incons-
sociedades quentes e ciente toma seu lugar como uma forma de se conhecer os sujeitos e a realidade mais profunda
frias. Pesquisar o que de suas relações.
Lévi-Strauss entende Rompeu com o historicismo e com o evolucionismo na medida em que entendeu que a his-
por história.
tória linear e preocupada com o progresso e com as mudanças é um modelo ocidental. Existem
outras formas de se conceber a história que não implica em uma cultura ser superior a outra. As
lógicas de pensamento histórico são alinhadas a percepção do tempo e espaço de cada cultura.
Rompeu com o atomismo e com o empirismo. Como o modelo estruturalista provém da
Linguística, ele só pode ser entendido a partir da relação entre seus elementos e nunca a partir
de um fato isolado. Além do mais, os sistemas não são fatos observáveis pela impressão espon-
tânea. Os sistemas não são conscientes, mas sim inconsciente. Assim, como a língua tem uma
gramática que não pensamos para utilizar suas regras, nas relações culturais acontece o mesmo.
Não é preciso se perguntar os motivos de todos nós em um momento ou em outros contrairmos
casamento para casarmos e entender que as pessoas simplesmente casam. Na nossa cultura, diz-
se que uma pessoa se casa porque está intimamente envolvida, afetiva e sexualmente com outra,
porque está amando, porque encontrou sua outra metade, sua parte que faltava. Mas, por detrás
dessas afirmações e categorias como amor, completude e envolvimento se escondem outras as
quais os indivíduos não têm plena consciência. Existem regras, normas e leis – um sistema estru-
turado – que regem todo esse processo chamado casamento.
Enfim, o programa estruturalista se baseia nas seguintes abordagens:

28
Ciências Sociais - Antropologia III

a. Existe certo número de materiais culturais sempre idênticos e invariáveis.


b. As diferentes estruturações são limitadas: “leis universais que regem as ativi-
dades inconscientes universais do espírito”.
c. Leis culturais semelhantes às leis gramaticais. (LAPLANTINE, 1996, p. 139):

2.4 Trocas simbólicas, alianças e


proibições: de colares a mulheres
A teoria do parentesco proposta por Lévi-Strauss é influenciada pelos estudos sobre o pa-
rentesco de dois antropólogos clássicos: Bronislaw Malinowski e Marcel Mauss.
Malinowski, apesar de pertencer à escola britânica de tradição empirista, a mesma que Rad-
cliffe Brown, foi fundamental para as ideias de Lévi-Strauss na medida em que mostrou como as
alianças são forjadas por bens simbólicos. Em seu tratado etnográfico intitulado “Os argonautas
do pacífico ocidental”, Malinowski estudou uma cerimônia chamada Kula. O Kula era um sistema
cerimonial baseado na troca de presentes entre as tribos do Pacífico ocidental. Essa troca era es-
tabelecida por regras muito bem estruturadas. Os presentes, ora conchas, ora colares, eram tro-
cados em direções opostas de forma a circularem entre uma quantidade X de ilhas. Então, como
um ponteiro de relógio, os colares e outros adornos circulam para um lado e as conchas para o
outro.

◄ Figura 17: Malinowski e


os Trobriandeses
Fonte: Disponível em
http://ant1mcc.blogspot.
com.br/2010/09/o-kula-
-no-argonautas-do-pa-
cifico.html Acesso em 02
jun. 2014.

ATIVIDADE
Pesquisem objetos na
sua localidade; objetos
que, apesar de não
possuírem valor eco-
nômico, são valiosos
simbolicamente.

Essa circulação possuía regras definidas de modo que determinados grupos recebiam co-
lares e determinadas famílias recebiam colares mais elaborados, dependendo da aliança que o DICA
grupo visitante almejasse estabelecer. Ao receber o presente, o sujeito deveria retribuir com uma Para entender a lógica
concha ou um colar de forma que um grupo nunca permanecesse definitivamente com o objeto das trocas e alianças e
recebido. O interessante é que esses objetos – conchas e colares – não possuíam valor econômi- a teoria da reciprocida-
co, de mercado. No entanto, possuíam valores simbólicos, pois permitiam que os grupos pudes- de, leiam os capítulos
sem se aliar e prestar favores. Além disso, essas trocas estabeleciam uma memória coletiva. Era iniciais dos Argonautas
do Pacífico ocidental e,
possível, através das trocas, contar a história dos grupos e de seus antepassados envolvidos na em sequência, o ensaio
cerimônia. sobre a dádiva. Depois,
Marcel Mauss, impressionado com os relatos de Malinowski, elaborou uma teoria para en- leiam os primeiros
tender o papel das trocas de presentes nas sociedades humanas. Essa teoria foi explicada em capítulos das Estruturas
seu estudo clássico intitulado “O ensaio sobre a Dádiva”. Nesse ensaio, Mauss dialoga com a eco- elementares do paren-
tesco.
nomia, assim como havia feito Malinowski, para mostrar que existem objetos que têm um valor

29
UAB/Unimontes - 3º Período

simbólico maior que o valor econômico do que ele pressupõe. Ainda, existem objetos/dádivas/
presentes que se obrigam a estabelecer relações de trocas e movimentam vários elementos da
sociedade.
A teoria da reciprocidade se relacionada com a dádiva em uma obrigação tripla: dar, receber
e retribuir. Assim como o Kula, diversas outras cerimônias implicam que os indivíduos engaja-
dos devem dar e esperam receber mais do que deram, para depois retribuir ainda mais. É assim
que se constituem as alianças, se demonstram os afetos, e fazem das pessoas amigas umas das
outras, de maneira a estabelecer uma rede social. O nascimento da cultura pode ser pensado a
partir desse modelo social total.
E preste atenção, esse modelo regula as relações humanas de maneira universal. Na cerimô-
▲ nia ocidental conhecida como Natal, ou mesmo em outra cerimônia conhecida como Páscoa, são
Figura 18: Foto de celebradas nossas crenças religiosas e reforçados nossos mitos através de troca de dádivas. No
Marcel Mauss, o Natal são presentes que se trocam e na Páscoa são os ovos de Páscoa. É uma obrigação dar esses
homem da dádiva. presentes e se espera receber, para que numa próxima data se dê outro presente.
Fonte: Disponível em: Quem nunca ficou constrangido em receber um presente e não poder retribuir a gentileza?
http://editora.cosacnaify.
com.br/Autor/283/Marcel-
Quem nunca ficou encabulado ao receber um presente de grande valor que impossibilita a sua
-Mauss.aspx Acesso em 02 retribuição?
jun. 2014. E é importante ressaltar que a troca de presentes movimenta a esfera econômica, mas tam-
bém movimenta a esfera simbólica, de parentesco, religiosa e política da nossa cultura.
Pois bem, Lévi-Strauss ao ler o ensaio sobre a dádiva encontrou a solução para pensar o sis-
tema de parentesco. As alianças matrimonias, assim como os presentes, se estabeleciam a partir
de regras de troca. Mas, no sistema de parentesco, os grupos não trocam braceletes e nem cola-
res, muito menos presentes de Natal e ovos de Páscoa. Aqui, o que é trocado para estabelecer as
GLOSSÁRIO alianças são as mulheres. É a troca de mulheres que assegura a continuidade das relações entre
Proibição do incesto: os grupos. Trocam-se mulheres porque é assim que se estabelece a continuidade biológica do
regra que determina grupo social. E, ademais, se trocam as mulheres de um grupo pelas de um outro grupo pelo sim-
que em todas as socie- ples fato de que homens e mulheres do mesmo grupo são proibidos de se relacionarem sexual-
dades é proibido o ca- mente sem que se estabeleça uma relação incestuosa.
samento, e as relações
O tabu do incesto força um grupo a estabelecer relações com um grupo estranho e, con-
sexuais de parentes
consanguíneos mais ou sequentemente, estabelecer laços sociais. A proibição do incesto é um fenômeno que permite
menos próximos. Então, entender como o homem é um ser ao mesmo tempo biológico e social. É um fenômeno que faz
pai e filha, irmão e irmã, a oposição binária cultura e natureza se misturar. Isso porque o ser humano, como ser biológico,
mãe e filho, primos apresenta a universalidade dos instintos: todos os seres humanos se alimentam, dormem, eva-
de primeiro grau não
cuam, sorriem, choram. Mas, ao mesmo tempo, esses seres humanos não satisfazem seus instin-
podem se envolver em
relações íntimas e de tos de forma indiscriminada. Existem normas coercitivas que regulam essas funções fisiológicas,
cunho sexual. E, segun- regras que são criadas pelas culturas, regras particulares a cada uma delas. Em um lugar não se
do Lévi-Strauss, essa pode misturar alimentos e nem comer animais domésticos, em outros lugares essas normas po-
proibição não visa so- dem ser subvertidas e outras existem.
mente à continuidade
Na sociedade brasileira, o cachorro é um animal não comestível, é um animal considerado
biológica, manutenção
de filhos saudáveis, mas da família. Não existe uma regra escrita que não se pode comer o cachorro, no entanto é um
também a continuida- tabu na cultura brasileira a ingestão desse animal. Os brasileiros preferem comer vaca, em luga-
de da comunicação de res e ocasiões específicas. Assim, vão à churrascaria para se alimentar desse animal ou agrupam
alianças entre famílias seus amigos para fazer um churrasco. Na Índia, as vacas são consideradas animais sagrados e
distintas.
existe uma proibição de comê-las. Lá, a sopa de cobra é que faz sucesso. Os cachorros são igua-
rias na China e na Indonésia, mas nós, brasileiros, ficaríamos chocados se o churrasco do domin-
go fosse feito a base de carne de cachorro, da mesma forma que os judeus ficam horrorizados
GLOSSÁRIO com o nosso hábito de comer carne de porco. Na Tailândia, são as baratas fritas que nos causa-
Exogamia: casamen- riam asco. Veja bem, não falei batata frita e sim BARATA!
to entre pessoas de O ser humano é um ser universal marcado por regras coercitivas particulares. Mas, a proibi-
fora do seu círculo de ção do incesto possui ao mesmo tempo essas duas qualidades. É uma proibição universal que se
parentesco. estabelece através de regras particulares entre as culturas. Nesse sentido, a proibição do incesto
Endogamia: casa- faz parte da natureza e instaura a própria cultura.
mento entre pessoas
do mesmo círculo de Dessa forma, o autor explica a relação entre universal/particular e natureza/cultura estabele-
parentesco. cida na proibição do incesto:

O problema da proibição do incesto não consiste tanto em procurar que con-


figurações históricas, diferentes segundo os grupos, explicam as modalidades
da instituição em tal ou qual sociedade particular, mas em procurar que cau-
sas profundas e onipresentes fazem com que, em todas as sociedades e em
todas as épocas, exista uma regulamentação entre os sexos (LÉVI-STRAUSS,
1982, p. 61).

30
Ciências Sociais - Antropologia III

E complementa:

É verdade que, pelo caráter de universalidade, a proibição do inces-


to toca a natureza, isto é a biologia ou a psicologia, ou ainda uma
e outra, mas não é menos certo que, enquanto regra, constitui um
fenômeno social e pertence ao universo das regras, isto é da cultu-
ra, e, por conseguinte à sociologia que tem por objeto o estudo da
cultura (LÉVI-STRAUSS, 1982, p. 62).

Na teoria Lévi-straussiana, a regra da proibição do incesto está intimamente co-


nectada com a disseminação do matrimônio exogâmico. Para se entender o matrimô-
nio exogâmico é preciso retomar a ideia das trocas de mulheres e distinguir as rela-
ções matrimoniais entre primos paralelos e primos cruzados.
Como vimos, as mulheres são bens valiosos que devem circular entre os grupos
que se propõem estabelecer aliança. Essa circulação para não ser inserida na proibição

do incesto tem que seguir regras. Regras que promovem a exogâmia e evitam a endogamia.
É aqui que entra a proibição do casamento entre primos paralelos, que são filhos de irmãos Figura 19: Foto de Lévi-
Strauss nos seus 101
do mesmo sexo, e a permissão do casamento de primos cruzados, que são filhos de irmãos de anos
sexo diferente. Isso porque a relação entre primos paralelos resulta na endogamia, que contraria Fonte: Disponível em
a regra de troca/aliança entre grupos e não traz nenhum benefício social; ao passo que a relação www.picsearch.com. Aces-
entre primos cruzados estabelece a troca e as alianças entre grupos distintos, o que traz benefí- so em 02 jun. 2014.
cios para a vida coletiva.
O esquema a seguir, representando uma relação matrimonial patrilinear, servirá de exemplo
para demonstrar a relação entre proibição do incesto e exogamia:

◄ Figura 20: Relação


matrimonial patrilinear
Fonte: Elaboração própria.

DICA
Na relação matrimonial
patrilinear, a filiação
está alocada no lado
paterno. O filho/a
quando nasce per-
tence ao grupo a que
Na figura 20 temos que o homem A que pertence ao grupo A teve um filho com uma mu- pertence seu pai. Na
relação matrilinear, a
lher do grupo B. Como as relações matrimoniais são do tipo patrilinear, o filho de Pai A e Mãe B filiação está alocada no
pertencerá ao grupo A. O irmão do Pai A também pertence ao grupo A. Sua filha com uma mãe lado materno. O filho/a
de um grupo qualquer também vai pertencer ao grupo A. Isso porque as relações matrimoniais quando nasce pertence
são patrilineares e o/a filho/a vai sempre pertencer ao grupo de origem do pai. Nesse sentido, o ao grupo que pertence
modelo, chamado de primos paralelos, vai se constituir em um problema. Afinal, tanto o filho de a sua mãe.
Pai A quanto a filha de irmão de Pai A pertencem ao mesmo grupo social, ficando assim proibi-
dos de contraírem matrimônio. A relação nesse exemplo seria incestuosa, o casamento endogâ-
mico e não desejado pela sociedade.

◄ Figura 21: Relação


matrimonial patrilinear
Fonte: Elaboração própria.

31
UAB/Unimontes - 3º Período

Na figura 21 temos que o Pai que pertence ao grupo A teve um filho com mulher do grupo
B. Como as relações matrimoniais são do tipo patrilinear, o filho de Pai A e Mãe B pertencerá ao
grupo A. Mas, temos também que a irmã A de pai A casou com um homem do grupo B. A filha
DICA dessa união pertence ao grupo do homem B. Portanto, temos primos cruzados, em que o filho
de Pai A é pertencente ao grupo A e a filha de irmã A de pai A é pertencente ao grupo B. O casa-
Para uma crítica dos mento entre A e B é permitido e desejável. Portanto, nesse caso não há problema, pois a relação
antropólogos ingleses
ao pensamento de Lé- não é incestuosa e o casamento é exogâmico, reforçando as alianças e as trocas entre dois gru-
vi-Strauss, leiam o livro pos diferentes.
de Edmund Leach: As Nesse modelo de casamento patrilinear é possível perceber um modelo de troca restrita en-
ideias de Lévi-Strauss. tre um grupo e outro. E também é possível perceber que a célula elementar das relações de pa-
rentesco não são famílias isoladas, mas sim as relações entre as diversas alianças matrimoniais.
Lévi-Strauss, ao pensar o parentesco, aplicou um dos pontos fundamentais da Linguística de
Ferdinand de Saussure: a relação entre os sons que comunicam e dotam as frases de sentido. É
possível fazer uma analogia entre parentesco e linguagem: o parentesco é uma linguagem.
Lévi-Strauss aponta que[...]

considerar as regras do casamento e os sistemas de parentesco como uma es-


pécie de linguagem, isto é, um conjunto de operações destinadas a assegurar,
entre os indivíduos e os grupos, um certo tipo de comunicação. Que a ‘mensa-
gem’ seja aqui constituída pelas mulheres do grupo que circulam entre os clãs,
linhagens ou famílias (e não, como na própria linguagem, pelas palavras do
grupo que circulam os indivíduos), em nada altera a identidade do fenômeno
considerado nos dois casos (LÉVI-STRAUSS, 1967, p. 77).

Assim como a língua falada e a economia, o parentesco comunica algo. Essa forma de co-
municação é que faz a cultura emergir da natureza, pois, ao comunicar algo através de trocas de
bens, da linguagem e de mulheres, a ordem transforma a natureza em cultura. A cultura é feita
de sons e símbolos.
DICA
Querem saber um
pouco mais e se apro-
fundarem no pensa-
mento durkheimiano?
2.5 Totemismo e a lógica do
Querem saber sobre
a relação entre totem
e religião? Então se
concreto
debrucem sobre o livro
“As formas elementares
da vida religiosa”. Leiam
O totemismo é uma prática que consiste em associar um clã ou uma linhagem a uma forma
primeiro a introdução e simbólica, geralmente, um animal ou uma planta.
a conclusão, depois de Os antropólogos sempre foram fascinados e ficaram intrigados por essas formas associa-
lidas essas partes deem tivas. No totemismo era como se os indivíduos e seus respectivos grupos ficassem conectados
sequência ao livro com os animais e plantas totêmicas. Os animais e as plantas se assemelhavam a um membro da
como um todo.
família desse grupo. Eram ancestrais irmãos para os clãs que os escolhiam como representativos,
pensavam os antropólogos. Os animais e plantas relacionados com o clã não podiam ser comi-
dos. Havia uma série de interdições sobre o seu uso, só algumas pessoas podiam tocá-los em
momentos pré-determinados.
O antropólogo Émile Durkheim, ao escrever as “Formas elementares da vida religiosa”, pen-
sou o totemismo como uma forma primitiva de religião. Os totens eram adorados porque a so-
ciedade se representava a partir deles. Os totens eram animais sagrados com poderes divinos.
A teoria sobre o totemismo é antiga. Além de Durkheim, outros pensadores se debruça-
ram sobre seus mistérios. Desde o século XIX em diante, pensadores como Sir. James Frazer, Sig-
mund Freud e Arnold Van Gennep, só para ficar com os mais conhecidos, elaboraram teorias
sobre o totemismo. O desafio de todos eles era o mesmo: definir o que era e no que consistia o
totemismo.

32
Ciências Sociais - Antropologia III

◄ Figura 22: Detalhe


de um totem em
Vancouver, Canadá.
Fonte: Disponível em
http://www.bugbog.com/
gallery/canada_pictures/
canada_pictures_1.html.
Acesso em 02 jun. 2014.

DICA
Querem saber um
pouco mais sobre a
relação entre totemis-
mo e histeria? Leiam,
então, “Totem e tabu”
de Sigmund Freud.

DICA
Pensem como nossa
cultura também se
utiliza de totens para
pensar as semelhanças
Lévi-Strauss, ao abordar o totemismo, retoma as primeiras teorias sobre o que era o fenô- e diferenças. Um exem-
plo na nossa sociedade
meno para mostrar como elas eram percepções arbitrárias de seus formuladores. Os autores que pode ser dado pelos
estudaram o totemismo antes de Lévi-Strauss conectavam arbitrariamente diferentes elementos mascotes dos times de
que não tinham relação um com o outro. Essa arbitrariedade distorcia o papel do totem para o futebol. Os mascotes
homem dito “primitivo” e tornava sua lógica de pensamento como inferior ao do homem dito podem ser pensados
moderno. como totens. Em Minas
Gerais, nós temos
Para Lévi-Strauss, o totemismo era uma fantasia criada pelos antropólogos para explicar as Atlético=galo, Cruzei-
diferenças entre o pensamento primitivo e o civilizado. ro=raposa, América=-
Lévi-Strauss determina: o totemismo não existe. O que existe são ilusões totêmicas. Os sig- coelho, Vila Nova=leão,
nos totêmicos associados aos “primitivos” fazem deles diferentes dos homens civilizados. Ao se Funorte=formiga. No
atribuir ao “pensamento selvagem” um sistema de classificação e identificação da realidade vi- nível nacional, nós
temos: Flamengo=uru-
vida a partir de plantas e animais, tenta-se operar diferenciações hierárquicas entre eles e nós. bu, Palmeiras=porco,
Eles são selvagens e, portanto, pensam através da natureza; e nós somos civilizados e, portanto, Goiás=periquito,
pensamos através da cultura. Santa Cruz=cobra, São
Lévi-Strauss contesta essa percepção da lógica “primitiva”, “selvagem”. Para esse autor tanto Paulo=veado, e assim
os ditos homens “selvagens” como os homens ditos “modernos” classificam e entendem a realida- por diante. E todos eles
podem ser represen-
de que os cerca de maneira semelhante. tados simbolicamente
Na concepção Lévi-straussiana, o totemismo é um instrumento de classificação. É um códi- como tendo caracte-
go, uma linguagem simbólica. É um sistema metafórico em que as sociedades descrevem e pen- rísticas que os definem
sam em si mesmas, suas estruturas e instituições. É um sistema que permite que as sociedades enquanto tal.
se pensem através de associações. Portanto, a lógica do totemismo se faz por associações. Essa Por exemplo: Atlético=-
galo=guerra=masculi-
lógica opera tomando os objetos a partir de suas semelhanças e diferenças. Dessa forma, certos no, Cruzeiro=raposa=-
elementos concretos retirados e observados da natureza se apresentam como parâmetro para se dissimulado=feminino,
classificar um grupo, um clã, uma linhagem. Fluminense=pó de
arroz=delicado=femi-
Por exemplo: nino, Flamengo=uru-
bu=rapina=masculino,
Clã A = jaguar = caçador / Clã B =urso = caçador (relação de aliança e não rivalidade). América=coelho=es-
Clã C = urubu = ave de rapina/ Clã D = falcão =ave de rapina (relação de aliança e não rivali- perto=masculino.
dade).
Clã A + Clã C = relação de conflito, rivalidade.

33
UAB/Unimontes - 3º Período

Outro exemplo:
Dois pássaros podem se diferir pelas cores,
pela forma de cantar e de atrair as fêmeas. Dois pre-
Figura 23: Os totens ►
dadores se assemelham porque caçam a noite, ou
modernos são os
mascotes de times de se diferenciam porque um caça de noite e outro de
futebol? dia.
Fonte: Disponível em O totemismo, apesar de parecer exótico, é um
http://umavezsemprefla. sistema complexo que oculta uma lógica refinada. É
blogspot.com. Acesso em
02 jun. 2014. isso que afirma Lévi-Strauss. O totemismo esconde
um sistema simbólico perfeitamente coerente. Um
sistema que é universal. Todas as formas estruturais
de pensamento são universais, independentemente
de quem pense. No pensamento do homem primi-
tivo e no pensamento do homem moderno, o que
modificou não foi a maneira de pensar, mas sim as
classes de coisas utilizadas para aplicar esse pensa-
mento. Não existe um pensamento pré-lógico e ou-
tro lógico. Um que por ser pré-lógico seria irracio-
nal e outro que por ser lógico seria racional. Um que
seria momentâneo e interessado, e outro que seria
duradouro e desinteressado.
O homem primitivo, assim como o homem mo-
Figura 24: Os totens ► derno, pensa além do momento. O homem primiti-
modernos são os vo não pensa somente nas satisfações básicas ime-
mascotes de times de diatas. Não é porque precisa caçar sem que sua vida
futebol? seja ameaçada que divide os animais entre comestí-
Fonte: Disponível em veis e não comestíveis e as plantas entre venenosas
galodoidomoc.zip.net.
Acesso em 02 jun. 2014. e não venenosas.
O homem primitivo vai além. Seu pensamen-
to também é desinteressado. O pensamento sel-
vagem, como definiu Lévi-Strauss, é impulsionado
por uma “vontade de conhecimento”. Assim, como
o pensamento dito civilizado, o pensamento selva-
gem opera a partir de ações associativas e classifi-
catórias. É um pensamento que tem como lógica as
coisas concretas. E a partir das coisas observáveis,
vividas e, portanto, concretas, ordena a realidade
social. A organização, a ordem é a base do pensa-
mento primitivo.
A lógica do concreto funciona da seguinte ma-
neira: o homem primitivo utiliza os objetos de sua
experiência vivida, utiliza da sua percepção senso-
rial, odores, sabores, sons, para construir as percep-
ções sobre a natureza e construir sistemas simbóli-
cos de classificação da realidade que o cerca. Todo o
universo pode ser equacionado através da associa-
ção entre tempo, espaço e seus símbolos. O pensa-
mento concreto opera pela lógica das relações asso-
▲ ciativas.
Figura 25: Os totens Por exemplo:
modernos são os
mascotes de times de
futebol?
Fonte: Disponível em
www.atletico.com.br.
Acesso em 02 jun.2014.

Cavalo – branco – sudoeste – sul – verão


Boi – roxo – sudeste – sul – verão
Corvo – negro – nordeste –norte – inverno
Canário – amarelo – noroeste – norte – inverno

34
Ciências Sociais - Antropologia III

Como se percebe, a lógica do concreto se faz por analogias. Por outro lado, a lógica mo-
derna se faz por abstrações. Na lógica concreta, o gorjear de um pássaro pode ser associado ao
crepitar de uma brasa no fogo. Assim, quando uma ave gorjeia pode ser um sinal do momento
ideal para realizar queimadas e iniciar o cultivo. O grito de um pássaro por recordar o gemido de
um animal agonizante, abatido em caçadas, pode indicar um presságio para o início das caçadas.
Lévi-Strauss associa a lógica do concreto com a atividade do bricoleur e a diferencia da ló-
gica moderna que é associada com o trabalho do engenheiro. O bricoleur trabalha com signos
e o engenheiro com conceitos. Outra diferença é que o engenheiro cria materiais novos e utiliza
instrumentos especiais para produzir objetos, enquanto o bricoleur utiliza materiais, que têm um
passado e que serviam a outra utilidade.
Lévi-Strauss diferencia, assim, a atividade do Bricoleur e do Engenheiro no livro “O Pensa-
mento Selvagem”:

O bricoleur está apto a executar grande número de tarefas diferentes; mas, di-
ferentemente do engenheiro, ele não subordina cada uma delas a obtenção
de matérias primas e de ferramentas, concebidas e procuradas na medida do
seu projeto: seu universo instrumental é fechado e a regra de seu jogo é a de
arranjar-se sempre com meio-limites, isto é, um conjunto, continuamente res-
trito de utensílios e materiais, heteróclitos, além do mais, porque a composição
do conjunto não está em relação com o projeto do momento, nem, aliás, com
qualquer projeto particular, mas ao resultado contingente de todas as ocasiões
que se apresentaram para renovar e enriquecer o estoque, ou para conservá
-lo, com resíduos de construções e de destruições anteriores. O conjunto dos
meios do bricoleur não se pode definir por um projeto (o que suporia, aliás,
como o engenheiro, a existência de tantos conjuntos materiais quantos os gê-
neros do projeto, pelo menos em teoria); defini-se somente por sua instrumen-
talidade, para dizer de maneira diferente e para empregar a própria linguagem
do bricoleur, porque os elementos são recolhidos ou conservados, em virtude
do princípio de que “isso sempre pode servir” (LÉVI-STRAUSS, 1970, p. 38-39).

Para criar um instrumento musical, como uma bateria, o engenheiro cortaria as árvores para
manufaturar e dar formas aos tambores. Depois utilizaria o ferro, carbono, acrílico, alumínio para
as ferragens e outros elementos, como o bronze, o cobre, a prata, o ouro e diversos tipos de me-
tais para os pratos. E tudo isso seria construído com um maquinário adequado, especialmente
pensado com o intuito de manufaturar a matéria-prima bruta e transformá-la em instrumento
musical.

◄ Figura 26: Foto de


uma bateria feita por
processos que não
utilizam a bricolagem.
Fonte: Disponível em
http://www.musicaetudo.
com.br/conheca-sobre-o-
-surgimento-da-bateria/.
Acesso em 02 jun. 2014.

O bricoleur, para fazer o mesmo produto, utilizaria latas de lixo, tábua de passar roupa, pa-
nelas, baldes para construir os tambores que são amarrados num varal, cabo de vassouras para
construir as estantes de pratos e assim por diante. Na figura que segue é possível perceber que
todos os objetos utilizados já haviam sido manufaturados e pensados para serem utilizados em

35
UAB/Unimontes - 3º Período

outra função que não a de instrumento musical. No entanto, nas mãos de um bricoleur , esses ob-
jetos foram reordenados e consequentemente ressignificados.
GLOSSÁRIO
Bricolagem: trabalhos
ou conjunto de traba-
lhos manuais feitos em
casa, para distração ou
economia.

Figura 27: Foto de uma ►


bateria montada tendo
ATIVIDADE em mente o processo
de bricolagem.
Leiam o artigo “De lixo Fonte: Arquivo pessoal de
e bricolagem” de Ivete Leonardo Turchi Pacheco.
Walty, professora da
PUC Minas no sítio:
http://publique.rdc.
puc-rio.br/revistaalceu/
media/alceu_n9_walty.
pdf e pensem sobre
como, a partir do lixo,
outros objetos são
construídos, desde
casas até obras de arte.
Discutiremos no fórum.

A conclusão a que se chega é que a lógica do concreto e o pensamento simbólico dos povos
DICA primitivos não são melhores nem piores do que o pensamento abstrato científico utilizado pelos
povos modernos. Eles são apenas diferentes, pois utilizam estratégias diferentes para classificar e
Se você tem mais de 20
anos, deve se lembrar
ordenar a realidade. A lógica dita primitiva pode ser tão sofisticada quanto a mais sofistica lógi-
de um seriado norte ca da mais sofisticada sociedade que já existiu. A grande descoberta de Lévi-Strauss reside aí. E
-americano chamado mais, para conhecer a profundidade da lógica primitiva é necessário se ater a sua arte. É a partir
MacGyver. Nele um dos elementos artísticos, como a pinturas corporais, ou em objetos como as máscaras, a cerâmi-
agente secreto, Angus ca, a música, os mitos, que se torna possível desvendar a estrutura do pensamento e as estrutu-
MacGyver, resolvia
todos os problemas
ras organizacionais das culturas, ditas primitivas.
com seu inseparável ca-
nivete suíço. MacGyver

Referências
pode ser considerado
o símbolo máximo do
bricoleur.

LABURTHE-TOLRA, Phillipe e WARNIER Jean-Pierre. Etnologia-Antropologia. Petropólis, RJ: Vo-


zes, 1997.

LAPLANTINE, François. Aprender Antropologia. São Paulo: Brasiliense, 1996.

LEACH, Edmund. As ideias de Lévi-Strauss. São Paulo: Cultrix, 1970.

LÉVI-STRAUSS, Claude. Antropologia Estrutural. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1967.

_________. O Pensamento Selvagem. São Paulo: Ed. Universidade de São Paulo, 1970.

_________. Claude Lévi-Strauss, Coleção Os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1980.

_________. As Estruturas Elementares do Parentesco. Petropólis, RJ: Vozes, 1982.

_________. O Totemismo Hoje. Lisboa, Portugal: Edições 70, 1986.

_________. Tristes Trópicos. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.

_________. O Cru e o Cozido (mitológicas 1). São Paulo: Cosac & Naify, 2004.

WISERMAN, Boris. Lévi-Strauss Para Principiantes. Buenos Aires, Arg: Era Naciente SRL, 2002.

36
Ciências Sociais - Antropologia III

Resumo
UNIDADE I
Na unidade sobre a Antropologia britânica foram abordadas, de forma introdutória, as
questões:

• A abordagem estrutural funcionalista, associada à obra de Malinowski e Radcliffe-Brown, foi


uma reação positiva às teorias evolucionistas.
• Malinowski estabeleceu um novo padrão para a pesquisa etnográfica, a “observação partici-
pante”.
• A preocupação central dos funcionalistas passa a ser como interpretar o funcionamento dos
sistemas culturais.
• Para entender como funcionam os sistemas culturais, Malinowski mostrou que a cultura é
uma resposta às necessidades biológicas dos indivíduos.
• Malinowski procurou indagar sobre as motivações humanas, a lógica da ação humana, dis-
cordou de Dukheim no que se refere à teoria de que os indivíduos são, principalmente, pro-
duto da sociedade.
• O estrutural-funcionalismo privilegiou o estudo da organização dos sistemas sociais.
• Radcliffe-Brown procurou argumentar que a Antropologia social é uma ciência natural da
sociedade. Para esse autor, a Antropologia estuda sistemas sociais ou processos sociais.
• Radcliffe-Brown retomou a noção de função de Durkheim, definindo-a como “as condições
necessárias” para a manutenção equilibrada dos sistemas sociais.
• Radcliffe-Brown argumentou que estrutura social são as redes de associação entre os indiví-
duos.
• Incorporando a teoria durkheimina, Radcliffe-Brown interessou-se pela compreensão de
mecanismos de integração social.
• Para Radcliffe-Brown, as sociedades se mantêm coesas por força de uma estrutura de regras
jurídicas, estatutos sociais e normas morais que regulam o comportamento (ERIKSEN, 2007,
p. 60).
• Para Radcliffe-Brown as estruturas reais mudam, mas a forma estrutural continua estável por
força dos usos sociais.
• Evans-Pritchard, importante clássico da Antropologia britânica, intensificou os trabalhos de
campo na África e buscou compreender como se mantém uma sociedade sem poder políti-
co centralizado.

UNIDADE II
Na unidade sobre o pensamento de Lévi-Strauss, foram introduzidas as seguintes questões:

• A trajetória de vida do pensador, sua descoberta da Antropologia como vocação e o rompi-


mento com a Filosofia, a história, o empirismo e o atomismo.
• A noção de estrutura associada aos modelos construídos para compreender a realidade em-
pírica. Modelos que possuem uma lógica de oposição binária e não podem ser entendidos
de maneira isolada, mas sim de forma relacional.
• Os sistemas inconscientes que ajudam os homens a construir categorias de entendimento
da realidade.
• A teoria do parentesco influenciada pelos trabalhos de Malinowski (Kula e as trocas ordena-
das) e Mauss (a teoria da reciprocidade: dar, receber e retribuir).
• As mulheres são trocadas. Assim como a linguagem e os bens econômicos, elas estabele-
cem uma forma de comunicação.
• A troca de mulheres comunica algo sobre a sociedade, elas são o meio pelo qual as alianças
são constituídas entre os grupos. Mas as trocas não são indiscriminadas, pois devem obede-
cer a regra fundamental da proibição do incesto.
• A proibição do incesto é uma regra que está entre o nível de natureza e de cultura. É uma
regra universal, mas toma formas diversas dependendo das regras particulares de determi-
nada sociedade e cultura.
• A célula elementar do parentesco são as relações de parentesco e não a familiar nuclear
como se pensava antes de Lévi-Strauss.
37
UAB/Unimontes - 3º Período

• O totemismo é um instrumento de classificação, um código, uma linguagem simbólica esta-


belecida através de associações.
• O totemismo é um sistema simbólico universal, ordenado de maneira semelhante ao pen-
samento moderno. O que os diferencia são os objetos elegíveis para se pensar a realidade.
• O pensamento concreto e a relações associativas: essa é a lógica do pensamento selvagem.

38
Ciências Sociais - Antropologia III

Referências
Básicas

EVANS-PRITCHARD, E. E. Os Nuer. São Paulo: Perspectiva, 1978. (“Introdução”, cap. 3 – “Tempo e


Espaço” e cap. 4 – “O Sistema Político”).

LÉVI-STRAUSS, C. As Estruturas Elementares do Parentesco. São Paulo: Vozes/EDUSP, 1976.


(capítulos 1, 2, 29).

LÉVI-STRAUSS, C. Antropologia Estrutural. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1970. (cap. 2 – “A


Análise Estrutural em Linguística e Antropologia”, cap. 4 – “Linguística e Antropologia”, cap. 15 “A
noção de Estrutura em Etnologia”).

LÉVI-STRAUSS, C. O Pensamento Selvagem. Petrópolis: Vozes, 1997. (cap. 1 e 2).

RADCLIFFE-BROWN, A. Estrutura e Função na Sociedade Primitiva. Petrópolis: Vozes, 1973.


(cap. IX e X).

Complementares

EVANS-PRITCHARD, E. Bruxaria, Oráculos e Magia entre os Azande. Rio de Janeiro: Zahar.


(Cap. "A noção de bruxaria como explicação de infortúnios". )

FREUD, S. Totem e Tabu. Rio de Janeiro: Imago, 1974. (Cap. 1 – “O horror ao incesto”).

LÉVI-STRAUSS, C. A Oleira Ciumenta. São Paulo: Brasiliense, 1986. (Cap. 14 – «Totem e Tabu, ver-
são jivaro»)

LÉVI-STRAUSS, C. Antropologia Estrutural II. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1975. (Capítulos
II - “Jean-Jacques Rousseau, fundador das Ciências do Homem”; Cap. IX – “A Gesta de Asdiwal”;
Cap. X – “Quatro Mitos Winnebago”; Cap. XIII – Relações de Simetria entre Ritos e Mitos de Povos
Vizinhos”; Cap. XVIII – “Raça e História”).

LÉVI-STRAUSS, C. Antropologia Estrutural. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1970. (Cap. 9 – "O
feitiçeiro e sua magia"; Cap. 10 – "A eficácia simbólica").

LÉVI-STRAUSS, C. Totemismo hoje. São Paulo: Abril Cultural, Coleção Os Pensadores, 1976.

MERLEAU-PONTY, M. “De Mauss a Claude Lévi-Strauss”. São Paulo: Abril Cultural, Coleção Os
Pensadores, 1980.

RADCLIFFE-BROWN, A. Sistemas Políticos Africanos de Parentesco e Casamento. In: Radcliffe-Bro-


wn. Coleção Grandes Cientistas Sociais. São Paulo: Átiva, 1978.

RADCLIFFE-BROWN, A. Estrutura e Função na Sociedade Primitiva. Petrópolis: Vozes, 1973.


(Cap. 1 - O irmão da mãe na África do Sul).

Suplementares

CAIXETA DE QUEIROZ, Rubem. & NOBRE, Renarde F. (orgs.). Lévi-Strauss: leituras brasileiras.
Belo Horizonte: UFMG, 2008.

39
UAB/Unimontes - 3º Período

LÉVI-STRAUSS, Claude. Tristes trópicos. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

MALINOWSKI, B. K. Argonautas do Pacífico Ocidental: um relato do empreendimento e da


aventura dos nativos nos arquipélagos da Nova Guiné melanésia. 2. ed. São Paulo: Abril Cultural,
1978.

RADCLIFFE-BROWN, A. R. “O método comparativo na Antropologia Social”. In: MELATTI, Júlio


Cezar (org.) Radcliffe-Brown. Rio de Janeiro: Ática, 1978.

RADCLIFFE-BROWN, A. R. “Sistemas Africanos de Parentesco e Casamento”. In: MELATTI, Júlio


Cezar (org.) Radcliffe-Brown. Rio de Janeiro: Ática, 1978.

40
Ciências Sociais - Antropologia III

Atividades de
Aprendizagem – AA
1) Discorra sobre as linhas gerais da abordagem estrutural-funcionalista na Antropologia.

2) As questões se referem à perspectiva funcionalista na Antropologia, analise-as e assinale a IN-


CORRETA.
a) ( ) O funcionalismo pode ser entendido como uma reação positiva às teorias evolucionistas.
b) ( ) A abordagem funcionalista está associada a um novo padrão para a pesquisa etnográfica.
c) ( ) Com o funcionalismo há uma preocupação de estabelecer a pesquisa de campo como
requisito para se contextualizar os processos socioculturais tomados para investigação antropo-
lógica.
d) A abordagem funcionalista se configura pela preocupação em reconstruir a história da huma-
nidade como um todo.

3) Analise as questões e assinale (V) para as alternativas verdadeiras ou (F) para as falsas.
a) ( ) Com o funcionalismo há um deslocamento da preocupação em reconstruir uma história li-
near universal da evolução das sociedades para focalizar a estrutura e o funcionamento da cultura.
b) ( ) Na abordagem funcionalista, a ênfase é colocada no funcionamento da cultura, numa pers-
pectiva sincrônica de estudo e pesquisa.
c) ( ) Para os funcionalistas, as sociedades humanas e suas respectivas culturas não podem ser
analisadas como um todo orgânico, constituídos de partes interdependentes.
d) ( ) Os funcionalista formularam a seguinte proposição: a cultura não pode ser entendida
como um aglomerado de partes ou traços desconectados. Cada elemento da cultura é entendi-
do como tendo uma função específica no esquema integral.

4) Analise as questões e assinale a que melhor caracteriza a perspectiva estrutural-funcional na


Antropologia.
a) ( ) É uma perspectiva que busca a compreensão histórica social.
b) ( ) Preocupa-se em compreender o processo de transmissão dos elementos de uma cultura
para a outra.
c) ( ) É uma perspectiva que não valoriza o trabalho de campo, mas a pesquisa de gabinete.
d) ( ) Privilegia o estudo das organizações sociais e não dos comportamentos culturais dos
indivíduos.

5) As afirmações referem-se às contribuições de Radcliffe-Brown para a Antropologia, EXCETO


a) ( ) Preocupou-se em estabelecer uma bateria mais rigorosa de conceitos.
b) ( ) A obra de Radcliffe-Brown refletia a sua preocupação com a situação formal, as regras e os
rituais.
c) ( ) Foi responsável pelo desenvolvimento e aperfeiçoamento de centros antropológicos im-
portantes.
d) ( ) Não se preocupou com o estudo de mecanismos de integração social, de coesão social.

6) Discorra sobre a noção de estrutura para Lévi-Strauss.

7) As afirmações se referem às condições que conduziram Lévi-Strauss para a Antropologia, EX-


CETO
a) ( ) Desde a infância, o contato com a música, a pintura, a poesia foi primordial para a constru-
ção da Antropologia estruturalista de Lévi-Strauss.
b) ( ) Desiludido com o Direito e a Filosofia, Lévi-Strauss se tornou um etnógrafo.
c) ( ) A experiência de Lévi-Strauss no Brasil acabou consolidando a sua vocação para a Antropo-
logia.
d) ( ) A Linguística não teve nenhum implicação na formação do pensamento estruturalista de
Lévi-Strauss.

41
UAB/Unimontes - 3º Período

8) Assinale a afirmação que não se refere adequadamente à formação do pensamento estrutura-


lista de Lévi-Strauss.
a) ( ) A geologia, o marxismo e a psicanálise foram as três ciências mestras para Lévi-Strauss.
b) ( ) A Filosofia e o Direito foram ciências inspiradoras para Lévi-Strauss.
c) ( ) A Linguística foi uma das Ciências cruciais para a formação do pensamento de Lévi-Strauss.
d) ( ) Lévi-Strauss descobriu a etnografia como a verdadeira ciência para se aproximar do real.

9) Sobre a noção de estrutura em Lévi-Strauss é INCORRETO afirmar:


a) ( ) Ao construir a noção de estrutura em Antropologia, a abordagem de Lévi-Strauss não privi-
legiou os modelos constituídos a partir da realidade.
b) ( ) Lévi-Strauss partiu do método criado pela Linguística fonológica.
c) ( ) Lévi-Strauss propôs as estruturas inconscientes, aquilo que fazemos no dia a dia, mas não
temos consciência.
d) ( ) A sua noção de estrutura proposta por Lévi-Strauss se distancia da noção de estrutura da
escola britânica que tinha como principal figura Radcliffe Brown.

10) Analise as afirmações e assinale ( V ) para as alternativas verdadeiras ou ( F ) para as falsas.


a) ( ) Para Lévi-Strauss, o princípio fundamental é que a noção de estrutura social não diz respei-
to à realidade empírica, mas aos modelos construídos em conformidade com esta.
b) ( ) Lévi-Strauss reduziu a estrutura social às relações observáveis na sociedade.
c) ( ) Lévi-Strauss propõe que para se explicar as relações sociais seria necessário mergulhar no
nível do sistema inconsciente.
d) ( ) Para Lévi-Strauss, as relações sociais se constituiriam em material para se alcançar as estru-
turas das lógicas de pensamento e ações.

42