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28/09/2018 Folha de S.

Paulo - 'E a Vida Continua' conta drama da Aids - 14/7/1994

São Paulo, quinta-feira, 14 de julho de 1994

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'E a Vida Continua' conta drama da Aids


CÁSSIO STARLING CARLOS
EDITOR-ADJUNTO DA "ILUSTRADA"

A controvérsia em torno da descoberta do vírus HIV, voltou à tona


nos últimos dias depois que o governo americano reconheceu a
primazia do cientista francês Luc Montagnier do Instituto Pasteur de
Paris na identificação do retrovírus causador da Aids. Mas, antes da
decisão oficial, o filme "E a Vida Continua" já se dedicava à tarefa de
denunciar o comportamento antiético do pesquisador norte-americano
Robert Gallo, que disputava com os franceses a patente da descoberta.
A pesquisa em torno dessa questão delicada, reconstituindo o
processo de aparição de uma estranha doença detectada entre
homossexuais nos EUA no fim dos anos 70, sua expansão sob a
forma de epidemia ao longo dos anos 80 e a denúncia do desleixo das
autoridades dos EUA frente ao avanço do mal, foi realizada pelo
jornalista e escritor Randy Shilts e publicada em 1987,
transformando-se logo em best seller.
"E a Vida Continua", o filme produzido pela TV americana e dirigido
pelo competente Roger Spottiswoode, é um filme político, de acordo
com a letra e o espírito de "And the Band Played On: People, Politics
and the Aids Epidemic" –o livro de Shilts.
O projeto audacioso de "E a Vida Continua" contou com a
colaboração de um exército de estrelas, primeiro time de figuras
públicas a se engajar na luta por maior atenção à gravidade da
epidemia. Pela tela desfilam, em papéis de destaque ou em simples
pontas, nomes como Richard Gere, Anjelica Huston, Lily Tomlin,
Alan Alda, Steve Martin, Phil Collins e, no front francês, Nathalie
Baye, Tcheky Karyo e Patrick Bauchau.
Com imagens ficcionais e documentais o filme ataca com coragem o
descaso das autoridades, a insuficiência de verbas dedicadas à
pesquisa, a resistência do governo Reagan em reconhecer a existência
do perigo fora do "grupo de risco" (eufemismo que à época serviu
para associar o mal às práticas homossexuais).
"Câncer gay" era o termo que então se utilizava para identificar uma
síndrome transmitida por contatos sexuais, o que equivalia a uma
espécie de condenação moral por práticas tidas como "contra a
natureza". Até que os casos começassem a atacar pessoas que haviam
se submetido a transfusões de sangue –como os hemofílicos–, tudo
era considerado apenas "castigo de Deus".
É ao focalizar o acúmulo de dramas individuais antes de se
transformarem em tragédia coletiva que "E a Vida Continua" ganha
força. O enigma que desperta a curiosidade do dr. Don Francis
(interpretado por Matthew Modine), um médico do Centro de
Controle de Doenças de Atlanta, serve como o fio condutor da trama.
Em torno dela gira o jogo de interesses: a comunidade gay de San
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Francisco lutando pela preservação das conquistas de liberdade


sexual, os bancos de sangue defendendo seus lucros às custas da
segurança da população, e os pesquisadores Luc Montagnier, na
França, e Robert Gallo, nos EUA, disputando a glória e os royalties
da descoberta do HIV.
Além do mérito da reconstituição esclarecedora "E a Vida Continua"
também reformula o sentido viciado que a palavra engajamento
adquiriu no tempo em que os filmes políticos foram moda.
Na época em que o politicamente correto corre o mesmo perigo, a
militância pedagógica que acompanha cada sequência do filme
poderia ser algo maçante, não fosse o fato de a Aids ter deixado de
ser uma ameaça restrita a um grupo e ter passado a determinar a
necessidade coletiva de sobreviver.
Infelizmente, "E a Vida Continua" não é um filme comum, daqueles
que o espectador, incomodado diante do que assiste, pode encontrar
alívio ao imaginar que tudo aquilo é apenas ficção.

Filme: E a Vida Continua


Direção: Roger Spottiswoode
Elenco: Matthew Modine, Lily Tomlim, Richard Gere, Alan Alda
Distribuição: Odessa Home Vídeo (tel. 011/825-5766)

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