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is teriam sido os momentos mais ntes da infancia de alguém que viveu © espaco, em outra época e com costumes? No texto a seguir, um do livro Transplante de menina: da s Navios a Rua JSaguaribe, a escritora Belinky conta como passava com irmaos 0 rigoroso inverno em Riga da Leténia). oO & & fri o # AG hb om ij gay 0 frio que fazia em Riga, no inverno, nao era brincadeira. A tem- peratura chegava a cair abaixo dos trinta graus centigrados, e nesses dias nés, criangas, ficavamos presas em casa, no apartamento, como passari- nhos na gaiola. A gente sé podia ficar espiando o lado de fora pelas vi- dragas enfeitadas por caprichosos desenhos de cristais de geada, que a gente esfregava para formar uma claraboia transparente. As vidracas eram duplas, uma do lado de fora, outra dentro, com um espaco entre as duas, e ainda uma beirada que dava para a rua, um “aparador” que a neve acol- choava de branco fofo e festivo. Nessa espécie de prateleira, mamae colo- cava magas para assar no frio. Sim, porque o frio ali nao era sequer como 0 de uma geladeira — coisa que, alias, nds nem tinhamos em casa: era mais para freezer, e durante a noite gélida as macas encolhiam, ficavam mur- chas e escurinhas, “assadas” naquela friagem. Ai, mamée tirava as macas de 1a e as colocava sobre os radiadores do aquecimento central, onde elas se descongelavam e se transformavam em deliciosa sobremesa. i z 4 i i Quando o frio nao era tanto, s6 uns suportaveis oito ou dez graus negativos, a gente podia sair para passear durante uma horinha. Era gostoso sair para a neve, acompanhados pela nossa Fraulein, a governanta alema, respirar o ar geladi- nho, passear no parque puxando o nosso trenozinho, descer com ele as rampas suaves do jardim puiblico. Ou patinar na lagoa do parque, dura de gelo, deslizando na sola das pr6- prias botas. S6 que o nosso prazer era um pouco prejudicado pelo excesso de agasalhos que éramos forgados a usar. Na- quele tempo nao tinhamos — e nem havia — agasalhos le- ves e quentes, de tecidos sintéticos, como agora. O que nos faziam vestir eram camadas e camadas de roupas grossas de la, malhas sobre malhas, tweeds pesados, botas forradas de feltro, casacos impermeaveis acolchoados de algodao, gorros de pele cobrindo as orelhas, xales e cachecéis enrolados no pescoco, luvas “de dedao” que tolhiam o uso dos quatro de- dos restantes, e sei 14 0 que mais. Dai, s6 com os olhos e a ponta do nariz livres, a gente ficava mais durinho de movi- mento do que boneca de pano recheada de macela, feito a Emilia, de Lobato, antes de virar quase-gente. Mesmo assim dava para brincar de batalha de bolas de neve ou de construir Riga é a capital da Let6nia, um dos pequenos paises do mar Baltico, “conhecida principalmente pela madeira que exportava para 0 mundo inteiro, o famoso pinho-de- tiga’. E uma cidade antiga, com muitos parques, alamedas e jardins puiblicos cheios de arvores, arbustos € plantas de todas as espécies, conservados pelas autoridades e pela populacao. Fonte de pesquisa: Tatiana Belinky. Transplante de menina: da Rua dos ‘Navios & Rua _Jaguaribe. Sie Paulo: Moclera, 1995, um homem de neve com olhos de carvao, boca de graveto e nariz de cenoura. Mas de vez em quando acontecia que a ponta do nosso proprio nariz comegava a ficar congela- da, e dai a gente pegava um punhado de neve e esfregava com forga o nariz branco, duro e amortecido, até arder e ele ficar vermelhinho e sensivel de novo — uma dorzinha até bem-vinda. Também era gostoso quebrar as estalac- tites de gelo que se formavam em calhas e beiradas, para chupé-las feito pirulito, para horror da Fraulein. Certa vez ela me flagrou fazendo isto, e me admoestou solenemen- te, em alemfo: “Como é que vocé, uma menina deste ta- manho, que logo vai fazer seis anos, pode se comportar assim!” E eu fiquei deveras envergonhada desse pecado, na minha avangada idade de cinco anos e meio... Jé em casa, no apartamento aquecido pelos radiado- res onde circulava a 4gua muito quente da caldeira central, fazia as vezes até calor demais, e nds, criangas, podiamos brincar a vontade. E como brincavamos! As horas do dia nao eram su- ficientes para tanta brincadeira, e o comando de ir para a cama era invariavelmente saudado pelos mais veementes protestos, s6 mitigados pela perspectiva das histérias que papai nos contava sempre na hora de dormir. Ele era um A boneca Emilia, personagem que tema capacidade de incendiar a imaginacao de todos 05 leitores, adultos € criancas, protagoniza a maioria das obras infantis de José Bento Monteiro Lobato (1882- 1948). Natural de Taubaté (SP), Monteiro Lobato deixou uma galeria de personagens que ficarao para sempre na memoria daqueles que se familiarizaram com suas histérias: 0 Jeca Tatu, o Saci, a Cuca, 0 Visconde de Sabugosa, a Narizinho, 0 Pedrinho, a Tia Nastacia e a Emilia. Emilia, a boneca de pano feita pela Tia Nastacia, com olhos de retros preto e sobrancelhas la em cima, era muda, E sé comecou a falar depois que tomou a pilula falante inventada pelo Doutor Caramujo. A partir dal, nao para mais, revelando-se uma boneca muito independente, com sentimentos e ideias proprias. Fonte de pesquisa: www.projetomemoria.art.br/ MonteiroLobato