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284. O testamento filosófico de Ravaisson (cont.

)
Na leitura do Testamento Filosófico de Ravaisson, tínhamos ficado no ponto em que este cita
Schelling, que dizia que o “coração forte deseja o ser”, não se contentando com “sombras, ídolos
ou fantasmas” [283].
Recuando um pouco, Platão encontrou o mundo das ideias na sua busca da realidade suprema
por trás das aparências mutáveis da Natureza, que seria composto de esquemas fixos dos quais
as coisas moventes da Natureza são imitações imperfeitas. Aristóteles diria depois que estas
ideias são obtidas por abstracção das similaridades entre os entes individuais, reflectindo, então,
a definição das espécies, que apenas tem realidade mental.
Do avançado anteriormente no texto, Ravaisson extrai toda uma filosofia da Natureza,
entendida como campo simbólico, em que o ser se manifesta numa variedade de formas para
escalas distintas. No final, ainda consegue extrair alguns princípios do conhecimento.
Aristóteles queria voltar do artificial ao natural, do campo seco e insuficiente do racional para a
“riqueza fecunda da experiência”. É dele que data o início, segundo Ravaisson, da filosofia
positiva (não no sentido do positivismo de Comte), que em vez de procurar a “noção abstracta e
vaga” vai atrás de “noção precisa”. Para isso, não servia-se da “faculdade e abstracção e de
generalização” mas de uma faculdade prática que compreende o “coração”. O ser central, ao qual
todas as outras categorias de ser respondem é, para Aristóteles, a acção, e esta explica a
Natureza. Sendo observador do mundo natural, viu que nele tudo é movimento, e que este é
uma espécie de vida, e que esta só pode vir de outra vida. As ideias platónicas, como esquemas
das espécies, não têm vida por si mesmas, apenas a adquirem por meio dos indivíduos que as
manifestam de algum modo.
O movimento, enquanto fenómeno, pode nascer do movimento, mas a sua origem primeira é
acção, que é como um instante que durasse sem sucessão. Sendo a sucessão a negação do
“positivo da duração”, então, o que se busca é conceber o eterno. Mais tarde, no cristianismo, o
caminho da acção para o eterno será feito por via da vontade, que é fundamento da acção, e esta
tem por fundo o amor, que é a essência de Deus. A única realidade é a eternidade, e o tempo é
apenas um seu aspecto ou aparência. Melhoramos a nossa memória quando acreditamos na
eternidade do ser, isto é, tendo a noção de que aquilo que aconteceu não foi para o nada. Leibniz
dizia que o espaço era símbolo vivente e sensível da eternidade, por isso funcionam as técnicas
de memória que associam recordações a localizações espaciais nossas conhecidas.
Já dizia Cícero que aquilo que não faz nada parece ser um nada, e até uma pedra tem nela algo
activo e movente. Assim, ser é agir, e “a acção é a existência mesma”. Além disso, aquilo que é
não só age como naturalmente se comunica. A consciência tende a se reconhecer a si mesma no
pensamento, sendo como todo o ser vivente que busca uma posse mais plena do seu ser. Nada
pensa sem pensar-se mas apenas em Deus a “consciência perfeita do objecto é inteiramente
idêntica ao sujeito”. Todas as espécies tendem a imitar isto, cada uma num diferente grau. Por
exemplo, um mineral tem um grau de unidade inferior ao de um vegetal, e este é menos íntegro
que um animal, que facilmente perece se amputado de uma das suas partes. Também o
pensamento se reconhece nos seus objectos, disperso pelas ideias até encontrar a sua unidade. A
Natureza aparece como diferenciação até ser finalmente integrada, mas pode sê-lo porque é um
esboço mais ou menos bem-sucedido da suprema 343
perfeição, que ocorre em Deus, o pensamento que é, na fórmula de Aristóteles, “pensamento do
pensamento”.
No platonismo, entendido em sentido estrito, é feita uma abstracção incompleta – a abstracção
em si é incontornável como forma de nos erguermos a esferas mais altas da realidade –, que
para nas definições e não busca a realidade efectiva por trás delas, precisamente aquilo que se
manifesta de algum modo na experiência. Falta no esquema platónico, então, o Deus que pensa
as ideias. Na realidade, com a reconstrução do ensino oral de Platão, sabemos hoje que ele
admitia que acima do mundo das ideias havia o chamado mundo dos princípios. α94