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ISSN: 1517-9257

Papéis : rev. Letras Campo Grande, MS v. 7 n. 14 p. 1-52 jul./dez. 2003

1
UNIVERSIDADE FEDERAL DE
MATO GROSSO DO SUL
Reitor
Manoel Catarino Paes - Peró

Vice-Reitor
Mauro Polizer

CÂMARA EDITORIAL
Alda Maria Quadros do Couto
Ana Maria Souza Lima Fargoni
Dercir Pedro de Oliveira
José Batista de Sales
Maria Adélia Menegazzo
Paulo Sérgio Nolasco dos Santos
Rita Maria Baltar Van Der Laan
Ronaldo Assunção
Vânia Maria Lescano Guerra

Ficha Catalográfica preparada pela


Coordenadoria de Biblioteca Central/UFMS

Papéis : rev. Letras / Universidade Federal de Mato


Grosso do Sul. – v. 1, n. 1 (1997)- . Campo
Grande, MS : A Universidade, 1997- .
v. : il. ; 27 cm.

Semestral.
Numeração de vols. irregular: v. 5 omitido
ISSN 1517-9257

1. Literatura - Periódicos. I. Universidade Federal


de Mato Grosso do Sul.
CDD-805

2
APRESENTAÇÃO
Papéis – Revista de Letras da UFMS dá continuidade à orientação dos números anteriores
optando pela abertura dos artigos quanto à temática, desde que relacionados às áreas de
Literatura, Língua e Lingüística.
Abrindo esse número 14, Eliane Cunha Ferreira entrevista John Gledson para falar de seu
percurso crítico pelas obras dos escritores brasileiros Carlos Drummond de Andrade e
Machado de Assis.
Maria Leda Pinto analisa poemas de Manoel de Barros na perspectiva da Análise do
discurso de linha francesa, evidenciando o trabalho poético voltado para a
intertextualidade, a polifonia e a heterogeneidade discursiva.
A análise literária tem lugar com o artigo de Luiz Gonzaga Marchezan que investiga a
metáfora do labirinto em Borges e Cartázar, comparando minuciosamente o processo de
construção, os recursos e o resultado estético nos contos O jardim dos caminhos que se
bifurcam e Casa tomada. O ensaio de Paulo César Thomaz volta-se para a prática poética
de Juan José Saer, no romance El antenado, ressaltando o uso dos recursos próprios do
poema no texto narrativo do escritor argentino.
A organização de um inventário crítico/bibliográfico da obra de Manoel de Barros é
descrita e apresentada por Walquíria Gonçalves Béda, indicando lacunas e excessos.
A área de Língua Inglesa é contemplada nesse número com o artigo de Nadir de Assis
Boralli voltado para os fenômenos de hesitação presentes nas falas de um grupo de
estudantes brasileiros, sugerindo sua transitoriedade e dinamismo.
O leitor encontrará, ainda, resenha do livro de poemas de Douglas Diegues - Dá gusto
andar desnudo por estas selvas, por Rosana Zanelatto Santos e resumo de dissetações
do Programa de Mestrado em Letras da UFMS – Três Lagoas: Sexo e poder em Navalha
na carne de Raquel de Oliveira Fonseca e Um olhar sobre os caminhos do pantanal
sul-mato-grossense, de Marlene Schneider.

Profª Drª Maria Adélia Menegazzo


Coordenadora da Papéis

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Projeto Gráfico, Editoração Eletrônica,
Impressão e Acabamento
Editora UFMS
Revisão
A revisão lingüística e ortográfica é de responsabilidade dos autores

Distribuição
Livraria UFMS

Publicação da

UNIVERSIDADE FEDERAL
DE MATO GROSSO DO SUL
Portão 14 - Estádio Morenão - Campus da UFMS
Fone: (67) 345.7200 - Campo Grande - MS
e-mail:editora@editora.ufms.br

HUMBERTO ESPÍNDOLA
‘‘Brinquedo Kadiwéu’’
gravura digital
18 x 14,5 cm

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SUMÁRIO

7 O CRÍTICO E AS PAIXÕES DURADOURAS - DRUMMOND E MACHADO DE ASSIS


ENTREVISTA COM JOHN GLEDSON
Por Eliane Fernanda Cunha Ferreira

10 O "EU" E O "OUTRO" EM MANOEL DE BARROS


Maria Leda Pinto

18 BORGES, CORTÁZAR E A METÁFORA DO LABIRINTO


Luiz Gonzaga Marchezan

24 EL ENTENADO, A PRÁXIS POÉTICO-NARRATIVA DE JUAN JOSÉ SAER


Paulo César Thomaz

30 ALGUNS ASPECTOS DO INVENTÁRIO BIBLIOGRÁFICO SOBRE MANOEL DE BARROS


Walquíria Gonçalves Béda

36 PHENOMENA OF HESITATION IN INTERLANGUAGE SPEECH PRODUCTION


Nadir de Assis Boralli

46 RESENHA
DÁ GOSTO DE PERAMBULAR POR ESTAS PALAVRAGENS DE DOUGLAS DIEGUES
Rosana Cristina Zanelatto Santos

5
49 DISSERTAÇÃO
SEXO E PODER EM "NAVALHA NA CARNE"
Raquel de Oliveira Fonseca

DISSERTAÇÃO

51 UM OLHAR SOBRE OS CAMINHOS DO PANTANAL SUL-MATO-GROSSENSE:


A TOPONÍMIA DOS ACIDENTES FÍSICOS
Marlene Schneider

6
Entrevista com
JOHN GLEDSON*

O CRÍTICO E AS
PAIXÕES DURADOURAS
Drummond e Machado de Assis
Por Eliane Fernanda Cunha Ferreira*

Autor do ensaio sobre Drummond – Poesia e Eliane Ferreira - Em 2002, comemorou-se, na maio-
poética de Carlos Drummond de Andrade (Livra- ria das Universidades públicas e privadas brasileiras,
ria Duas Cidades, 1981), Gledson iniciou suas o centenário de nascimento de C.D.A. Gostaria que
pesquisas sobre a literatura brasileira com a obra você comentasse esse tipo de manifestação.
do poeta itabirano. O livro foi, na sua origem, a John Gledson - Claro que estas datas, por mais que
maior parte de uma tese escrita para o Departa- tenham algo de arbitrário, são importantes. No caso
mento de Literatura Comparada da Princeton deste centenário, pode servir para explicar, e até re-
University, Estados Unidos. mediar, uma situação curiosa. Drummond talvez seja
o poeta erudito mais lido e amado no Brasil. Mas o
Em entrevista exclusiva para a Profa. Eliane que se tem publicado sobre sua poesia, sobretudo nos
Fernanda Cunha Ferreira, John Gledson, “con- últimos vinte anos, é muito pouco. Não sei explicar
siderado um dos mais respeitados especialistas porquê. Pode ser um pouco a conseqüência da qua-
contemporâneos na obra de Machado de Assis”, lidade e abrangência do que se escreveu antes, e penso
falou um pouco de sua experiência com a leitura nos livros de Affonso Romano, Silviano Santiago, José
e análise da poética de Carlos Drummond de Guilherme Merquior, ou do ensaio “Inquietudes na
Andrade. poesia de Drummond”, de Antonio Candido. Mas não
acredito que as gerações novas não tenham algo a
acrescentar. A grande exceção é o livro de Vagner
Camilo, Da Rosa do Povo à Rosa das Trevas, que
saiu em 2001, e é um estudo excelente em todos os
sentidos da transição entre A Rosa do Povo e Claro
Enigma.

E.F. - Como ocorreu o seu interesse pela poesia


drummondiana? Foi Drummond que o fez conhecer
o Brasil e apaixonar-se pelo país? Por que você mes-
*
Eliane Fernanda Cunha Ferreira é doutora em Literatura mo traduziu seu livro sobre Drummond e os posteri-
Comparada pela UFMG e professora visitante no Curso de
ores sobre Machado, com exceção de Confrades
Pós-Graduação em Estudos Literários da UFMS –
Departamento de Comunicação e Expressão/Campus de de versos, foram traduzidos por Fernando Py e Sonia
Dourados. Coutinho?

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J.G. - O interesse foi se desper- Quando li Casa velha, perfeccionismo, e devia constar
tando lentamente: Drummond, a não só nos agradecimentos: foi
e vi lá a repetição,
meu ver, não é poeta que suscite co-tradutor. Mas aprendi a lição,
paixões súbitas, como, por exem- em forma mais mordaz, e nunca mais fiz a mesma boba-
plo (pelo menos no meu caso), dos romances dos gem. O necessário, para mim,
Fernando Pessoa: mas uma vez anos 1870, vi que tinha pelo menos, é uma colaboração
despertada, é uma paixão dura- entre o autor e um brasileiro de
doura. Comecei o trabalho em
alguma coisa a confiança.
1970, e a tese só foi completada dizer sobre Machado,
em 1979: visitei o Brasil três ou e aí não parei mais. E.F. - Você, atualmente, é pro-
quatro vezes nesse ínterim, e pas- fessor aposentado pela Univer-
sei um ano entre Rio de Janeiro e sidade de Liverpool. O desliga-
Minas em 1971 e 72. O conheci- mento da Instituição possibilitou-
mento do país foi crescendo ao longo desses anos, e lhe dedicar mais intensamente aos estudos
foi em parte por isso que ao terminar a tese, fui atra- machadianos. Você traduziu Dom Casmurro para
ído pelo lado “brasileiro” de Machado de Assis, e a inauguração da biblioteca latino-americana da
pela crítica de Roberto Schwarz, que se baseia justa- Oxford University Press, além das traduções de
mente nos problemas da “nacionalidade” brasileira. ensaios de Roberto Schwarz (“As idéias fora do
Quanto à tradução, quando me propuseram a pu- lugar”, “Nacional por subtração”, entre outros, e
blicação da tese na editora Duas Cidades, fiquei tão Um mestre na periferia do capitalismo, publica-
entusiasmado que me candidatei à tradução. Logo do pela Duke University Press). Drummond pare-
fui percebendo que um não-nativo não pode tradu- ce que não foi retomado por você ao longo desses
zir com a naturalidade que quero que meus escritos 20 anos que se passaram desde a publicação do
tenham. Tive a sorte realmente imensa de ter em seu livro. Como você explicaria seu “distancia-
Liverpool um amigo, Elmar Pereira de Mello, que mento” da poesia drummondiana? Apenas 3 anos
repassou tudo comigo, com muita paciência e após essa publicação, você publicaria em 1984, The
deceptive realism of Machado de Assis : a
dissenting interpretation of Dom Casmurro. (Ma-
chado de Assis - impostura e realismo: uma
reinterpretação de Dom Casmurro). Como ocor-
reu essa transição do modernismo brasileiro para
o “realismo” machadiano?
J.G. - Creio que acontece freqüentemente essa mu-
dança de um autor para outro na vida dos críticos
acadêmicos. Tenho visto vários casos. Não diria que
seja um distanciamento propriamente dito: Poesia e
poética de Carlos Drummond de Andrade tinha
algo de auto-suficiente, de completo para mim, com
seu argumento próprio. A poesia faz parte do meu
mundo mental, é claro: não seria possível abandoná-
la. Na verdade, depois de uma tentativa malograda
de escrever sobre os anos 30, tive que ler Machado
por motivos de ensino, e li Ao vencedor as batatas,
livro que de início me fascinou. Quando li Casa ve-
lha, e vi lá a repetição, em forma mais mordaz, dos
romances dos anos 1870, vi que tinha alguma coisa a
dizer sobre Machado, e aí não parei mais.

E.F. - Depois da publicação do seu livro, você conti-


nuou a acompanhar a produção literária de Drummond
Grafite de Drummond/2002 por João Batista F. Chagas e da fortuna crítica? Como você analisa a publicação

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póstuma dos poemas eróticos de Drummond? “Como primeiras obras de Drummond, guiado pelas infor-
define Affonso Romano de Sant´Anna, “as palavras mações fornecidas pelo Fernando, numa época em
às vezes copulam semanticamente, e o que encon- que xerox era coisa rara. Ainda hoje tenho essas pre-
tramos nestas páginas é o êxtase poético de um au- ciosidades, e foi lá que aprendi a pesquisar: não te-
tor que, ao mergulhar fundo em suas próprias sensa- nho feito outra coisa com Machado, por exemplo no
ções, desnuda também o leitor, que se vê frente a trabalho que faço sobre as crônicas.
frente com suas próprias contradições ao pensar nos
limites entre o erótico e o pornográfico, o sexo e o E.F. - Agradeço a sua colaboração.
amor.” Você concorda com Affonso, poeta também
mineiro?
J.G. - Como disse, é estranho que se tenha publi- OBRAS DE JOHN GLEDSON
cado tão pouco desde, mais ou menos, 1980: o mais Poesia e poética de Carlos Drummond de Andrade (Duas Cida-
interessante, fora o livro de Vagner Camilo menci- des, 1981)
The deceptive realism of Machado de Assis: a dissenting interpretation
onado acima, creio que são alguns textos do pró- of Dom Casmurro. (Francis Cairns, 1984 ).
prio poeta, os trechos do diário, entrevistas conce- Machado de Assis: ficção e história. Trad. Sonia Coutinho. (Paz
didas no fim da vida, etc. Os poemas eróticos já e Terra, 1986).
conhecia na época em que pesquisava, porque cir- Machado de Assis - impostura e realismo: uma reinterpretação
de Dom Casmurro. Trad. Fernando Py. (Companhia das Letras,
culavam em cópias datilografadas – na época, lem-
1991).
bro que os via como extensões dos poemas amo- Machado de Assis: Bons Dias! Introdução e notas de John
rosos e quase eróticos de Claro enigma etc.: po- Gledson. (Editora da Unicamp, Hucitec, 1990).
emas dos mais lindos (e corajosos) do poeta, como Dom Casmurro (Oxford University Press, 1998).
“Campo de flores”, “O quarto em desordem”, Machado de Assis e confrades de versos. (Minden, 1998).
Machado de Assis: contos (antologia). Seleção, introdução e notas de
“Rapto”, etc. Continuo achando que fazem parte John Gledson. (Companhia das Letras, 1998).
integr ante da obr a do poeta, e é só pelo “Uma lição de história: ‘Conto de escola’ de Machado de Assis”
frissonzinho, hoje talvez superado, de serem eró- em A Biblioteca de Machado de Assis (2001).
ticos que se podem considerar à parte. De fato,
como diz Affonso, nos põem frente a frente com
as nossas contradições: mas os outros poemas,
amorosos ou não, não fazem a mesma coisa?

E.F. - Você, como pesquisador estrangeiro, teve to-


das as portas abertas para desenvolver suas pesqui-
sas. Os nossos saudosos Plínio Doyle, que foi home-
nageado no simpósio sobre Machado de Assis na
ABRALIC (2002), e Antonio Houaiss contribuíram
para isso, além de Affonso Romano de Sant´Anna.
O fato de você ser um pesquisador estrangeiro impli-
ca em uma maior acessibilidade a arquivos menos
visitados pelos pesquisadores brasileiros?
J.G . - Sem dúvida tive muita sorte, e não sei se
gozei de privilégios por ser estrangeiro: é bem prová-
vel que sim, em Princeton e depois Liverpool me de-
ram apoio financeiro. Direi duas coisas a este res-
peito: devo muitíssimo a certos indivíduos, e posso
salientar Fernando Py, Plínio Doyle, e o próprio poe-
ta, que me acolheram com muita generosidade. Em
relação aos arquivos onde trabalhei, principalmente
o Arquivo Público Mineiro e a Biblioteca Nacional,
não creio que tenha gozado de privilégio nenhum: mas
tenho saudades das horas e horas a fio em que fiquei Além de Machado de Assis, John Gledson também
sentado lá, copiando à mão dos jornais e revistas as estudou Drummond

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Este trabalho tem o objetivo de apresentar os resultados da análise de
quatro poemas de Manoel de Barros, em que procuramos dar desta-
que para a intertextualidade, a polifonia e a heterogeneidade
discursiva.Tendo como perspectiva teórica a Análise do Discurso de
linha francesa, procuramos conhecer as representações que o sujeito
faz de si e do mundo, por meio de seu discurso. Recorremos à contri-
buição da AD porque entendemos ser esta a abordagem que — fun-
damentada no princípio dialógico da linguagem defendido por Bakhtin
— amplia as noções lingüísticas existentes, ao mesmo tempo em que
propõe novas noções que explicitam o caráter histórico e social da
linguagem. Por uma questão de espaço e tempo, os poemas serão
abordados a partir dos enfoques propostos, no entanto outros aspectos
poderão estar no bojo dessa análise.
Palavras-chave: dialogismo – discurso –sujeito

This work has the objective to present the results of the analysis
of four poems of Manoel de Barros, in which we tried to focus on
the intertextuality, poliphony and discoursive heterogeneity. As
theoretical perspective the Analysis of the French line discouse,
we tried to know the representations that the subject does of itself
and of the world, through his discourse. We appeal to the
contribution from the AD because we understand this is the
approach that — based on the dialogical principle of language
defended by Bakhtin — expand the existing linguistic notions, at
*
the same time that purpouse new notions that explicit the social Maria Leda Pinto é
and historical character of the language. For a question of space Doutoranda da
and time, the poems will be looked from the purpoused approaches, Universidade de São
however others aspects will be into he bulge of that analysis. Paulo, Professora da
UEMS e da
Keywords: dialogism, discourse, subject UNIDERP.

10
O ‘‘EU’’ E O ‘‘OUTRO’’
EM MANOEL DE BARROS
Maria Leda Pinto*

As últimas décadas, entretanto, têm se voltado para


1. Introdução uma Lingüística do discurso, que surge, mais forte-
Os estudos lingüísticos têm avançado muito nos úl- mente, a partir dos estudos fundamentados nas idéias
timos anos. Embora saibamos que a linguagem sempre do teórico russo M. Bakhtin (1986). Num contraponto
chamou a atenção dos estudiosos, um trabalho de pes- à Lingüística Estrutural, Bakhtin compreende a lín-
quisa sobre os fenômenos lingüísticos aconteceu – com gua como algo concreto, vivo, capaz de dar conta das
maior intensidade – em grande parte dos países euro- situações cotidianas de uso, de modo que a lingua-
peus, nas últimas décadas. No Brasil, o ponto alto das gem, nesta perspectiva, é uma atividade histórica e
discussões se deu a partir da década de oitenta. Muitas social. Esses estudos, que colocam o dialogismo como
foram as investigações que resultaram em descobertas fundamento principal dentro de um processo de
de novas teorias que têm dado maior consistência a interação verbal, rompem com o modelo estruturalis-
esses estudos, possibilitando a retomada de concep- ta e dão um novo enfoque às pesquisas lingüísticas e
ções anteriores e de suas contribuições para o desen- ao ensino de línguas.
volvimento da lingüística, como ciência da linguagem. Com Bakhtin e todos os outros estudiosos que,
Essas reflexões nos permitem afirmar que a lin- antes dele, com ele e depois dele, defenderam/defen-
güística, atualmente, possui duas vertentes principais: dem o desenvolvimento dos estudos da linguagem a
de um lado, a chamada lingüística do sistema ou partir da análise do todo do texto, a lingüística conse-
estrutural e, de outro, a lingüística do discurso. A guiu romper as barreiras que limitavam seu objeto de
primeira tem em Saussure (2000), um dos seus prin- estudo à frase fora do contexto lingüístico e
cipais estudiosos. Como sabemos, o pensamento extralingüístico. Esse, com certeza, se constitui em
saussureano — e de todos os estruturalistas que vie- um dos maiores avanços da lingüística ocorridos nas
ram depois dele — sempre concebeu a língua como últimas décadas: mover-se da linguagem do sistema
um sistema lingüístico abstrato e estável. Essa foi a para a linguagem de uso.
fundamentação teórica que pautou os estudos e o en-
sino de línguas por muito tempo. Uma breve olhada
no processo histórico dos estudos lingüísticos e cons- 2. Pragmática:
tataremos que os maiores avanços, até um tempo
atrás, ocorreram em aspectos da língua isolados e
a linguagem em uso
“A língua penetra na vida através dos enunciados
dissociados do uso, sendo os aspectos fonéticos e concretos que a realizam, e é também através dos
fonológicos, os morfológicos e os sintáticos os que enunciados que a vida penetra na língua.”
mais avançaram. (BAKHTIN, 1997)

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A ciência que realiza o estudo dos usos da lingua- ao contrário, como pensavam inadequadamen-
gem é a Pragmática, compreendida e aplicada, pelos te alguns, a existência de “uma única lingua-
estudiosos, a partir de dois enfoques. O primeiro com- gem para todos” Assim, uma FD não deve ser
preende-a como a ciência que perpassa toda essa lin- entendida como um bloco compacto e coeso
guagem; o segundo apresenta-a, de forma mais restri- que se opõe a outras FDs.
ta, como a teoria que estuda os atos de fala. No (BRANDÃO, 1994, P.72)
enfoque mais amplo pode ser comparada a um guar- Não há, dessa forma, possibilidade de se determi-
da-chuva que abriga/estuda as teorias e/ou aborda- nar um limite entre o “interior” e o “exterior” de uma
gens que se propõem pensar as questões lingüísticas FD, tendo em vista que ela se limita com outras FDs
segundo a perspectiva do uso. e suas fronteiras são demarcadas pelos embates ideo-
Cada uma dessas abordagens, progressivamente, lógicos. Para Brandão (1994, p.72),“é assim que se
possibilitou à reflexão lingüística o surgimento de no- pode afirmar que uma FD é atravessada por várias
vos conceitos e novas leituras dos já existentes. A FDs e, conseqüentemente, que toda FD é definida a
questão da subjetividade em Benveniste, os atos de partir de seu interdiscurso.”
fala, com Austin e Searle, as máximas conversacionais Maingueneau (apud BRANDÃO, 1994) conceben-
e a noção de implicatura de Grice, a questão das ati- do o discurso a partir de uma heterogeneidade
vidades lingüístico-cognitivas e de composição textu- constitutiva, defende o primado do interdiscurso so-
al dos psicólogos e psicolingüistas soviéticos, os ope- bre o discurso. Defende que a unidade de análise per-
radores argumentativos e a intertextualidade na Lin- tinente se constitui em um espaço de trocas entre dis-
güística Textual, os implícitos e a polifonia de Ducrot. cursos intencionalmente selecionados, determinando
Entretanto, é com a Análise do Discurso, dita de linha “o que pode e deve ser dito” e aquilo que “não pode e
francesa, que vamos saindo, mais claramente, da es- não deve ser dito”em dado enunciado. Considerando
trutura fechada da língua, para pensá-la em um con- o dialogismo, de acordo com Bakhtin, como o princí-
texto extralingüístico. pio constitutivo da linguagem, podemos afirmar que
Os analistas do discurso, fundamentados no prin- o discurso se constitui das/nas muitas vozes já ditas.
cípio dialógico da linguagem defendido por Bakhtin, É na relação, muitas vezes conflituosa, com o Outro
ampliam noções lingüísticas existentes, ao mesmo tem- que o interdiscurso se constitui como “... o conjunto
po em que propõem novas noções que explicitam o das unidades discursivas com as quais ele entra em
caráter histórico e social da linguagem. Linguagem relação”(MAINGUENEAU, 1998, p.86).
que passa, nessa perspectiva teórica, a ser entendida Essas vozes que falam e/ou polemizam no texto,
como uma atividade de falantes concretos, históricos, numa relação do discurso com seu Outro, trazem-nos
reais e, por isso uma atividade histórica e social, uma o conceito de intertextualidade que, para Maingueneau
representação da realidade. (apud BRANDÃO, 1994, p.75-6) diz respeito às re-
Outras noções importantes como a de sujeito e a lações intertextuais entendidas como legítimas que uma
de discurso vão ser ampliadas pela AD. O primeiro, FD mantém com outras.
sendo essencialmente histórico, deixa de ser visto Essa intertextualidade pode ser compreendida em
como único na instância discursiva, para deixar evi- dois níveis: uma intertextualidade “interna” em que
dente seu caráter contraditório que, segundo Brandão um discurso se define, em concordância e/ou
(1994, p.46), é , “...marcado pela incompletude, an- contraponto, com outros discursos do mesmo cam-
seia pela completude, pela vontade de ‘querer ser po; uma intertextualidade “externa” em que um dis-
inteiro’. Assim, numa relação dinâmica entre iden- curso se define a partir de uma certa relação com
tidade e alteridade, o sujeito é ele mais a comple- discursos de outros campos. Segundo Brandão (Op.
mentação do Outro.” cit., p. 76) é a compreensão desses níveis que vai nos
O discurso, por sua vez, é efeito de sentido mostrar que um campo discursivo não é solitário, iso-
construído em um processo de interação verbal. É lado, pelo contrário, o universo discursivo é determi-
histórico; é concreto; é social. É o lugar em que o nado nesse tecer dos campos do saber.
sujeito se constitui pela atividade de linguagem. Essa Outro aspecto relevante postulado pela AD, a par-
forma de pensar o discurso vai afetar um conceito tir de Bakhtin, se refere aos gêneros do discurso. O
fundante da AD: o de formação discursiva (FD) uso da língua, nas mais diversas atividades dos falan-
[...] em que se deve reconhecer a coexistência tes, se constitui de enunciados que, segundo Bakhtin
de “várias linguagens em uma única” e não (1997, p.317) refletem as condições específicas e as

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finalidades de cada uma dessas esferas, não só únicos, que emanam de sujeitos, histórica e social-
por seu conteúdo (temático) e por seu estilo ver- mente constituídos.
bal (...) mas também, e sobretudo, por sua cons- O enunciado concreto é definido pelo autor como
trução composicional.” Essas diversas formas, re- a unidade real da comunicação verbal que tem
lativamente estáveis, dos enunciados são, para o au- no diálogo, por sua clareza e simplicidade, a forma
tor, denominadas gêneros do discurso. clássica de comunicação, já que ele evidencia, de for-
Há também a heterogeneidade mostrada e a ma mais direta, a alternância entre os sujeitos falan-
heterogeneidade constituída que, através do princí- tes e a possibilidade de réplica. Além da alternância
pio da alteridade, mostram como o discurso se relaci- entre os sujeitos falantes, temos como proprieda-
ona com o seu “exterior”. Nessa relação, tem papel des desse enunciado:
fundamental a memória discursiva, que vai possibili- a) o acabamento específico do enunciado, que se
tar, na tessitura que faz emergir o interdiscurso de constitui de três fatores os quais, de forma articu-
uma FD, a evidência da concordância, da rejeição ou lada, determinam, segundo Bakhtin, a possibilida-
da transformação de enunciados de outras FDs histo- de de responder:
ricamente relacionadas. a.1. ao tratamento exaustivo do tema;
Podemos afirmar, portanto, que a AD aqui focali- a.2. à intenção, ao querer-dizer do locutor;
zada apresenta, como seu postulado de base, que o a.3. às formas típicas de estruturação do gênero
estudo da linguagem não pode estar dissociado de do acabamento.
suas condições de produção. Segundo Barros (1994, b) à relação do enunciado com o próprio locutor
p.5), a resolução dialógica entre uma lingüística in- e com os interlocutores da comunicação verbal.
terna e uma lingüística externa, proposta por Essas propriedades do enunciado concreto nos re-
Bakhtin, encontra-se, por conseguinte, no centro de metem a um aspecto que julgamos muito importante
suas investigações”. para a nossa análise, ou seja, a questão dos gêneros
A análise do discurso oportuniza uma discussão que do discurso. O fato de nos dirigirmos a alguém, a
trata o texto como um todo e, diferentemente de uma nossa relação com esse alguém, o intuito de dizer
postura abstrata e fragmentada, possibilita uma refle- sobre determinado tema, nos leva à escolha da(s)
xão sobre enunciados concretos construídos por sujei- forma(s) típica(s) de dizer, ou seja, à estruturação do
tos ideologicamente constituídos, pois é através do uso gênero discursivo mais pertinente ao contexto
da língua dentro do contexto social em que vive e atua, enunciativo.
que o homem se constitui e estabelece vínculos soci- Definindo os gêneros do discurso como tipos rela-
ais com outros sujeitos e outras culturas. tivamente estáveis de enunciados, o teórico russo clas-
A partir dessa perspectiva, que nos possibilita co- sifica-os em gêneros do discurso primários (sim-
nhecer as representações que o sujeito faz de si e do ples, como por exemplo a réplica do diálogo cotidia-
mundo através de seu discurso, ousamos conhecer no), e gêneros do discurso secundários (comple-
um pouco do poeta Manoel de Barros, através da xos) que se constituem em contextos de comunicação
análise de alguns de seus poemas. cultural mais ampla, mais complexa, principalmente
na escrita: artística e/ou científica, por exemplo.
Os gêneros secundários, no seu processo de for-
3 Quatro poemas: mação, podem se valer dos gêneros primários, que,
o ‘‘Eu’’ e o ‘‘Outro’’ nessa condição, transformam-se e “perdem sua rela-
ção imediata com a realidade existente e com a rea-
em Manoel de Barros lidade dos enunciados alheios” (BAKTHIN, 1997,
“Os outros: o melhor de mim sou Eles” p.281). Entretanto, estabelecer a distinção entre gê-
Manoel de Barros neros primários e secundários é relevante teoricamen-
O texto, na perspectiva bakhtiniana, é tecido te, pois a análise desses dois gêneros é que vai elucidar
polifonicamente através de “vozes” que se cruzam e e definir a natureza do enunciado:
estão presentes nos enunciados que se constituem no A inter-relação entre os gêneros primários e
espaço discursivo entre o “eu” e o “outro”, em uma secundários de um lado, o processo histórico
relação de identidade/alteridade, em situações con- de formação dos gêneros secundários do ou-
cretas de interação. Para Bakhtin, o uso da língua se tro, eis o que esclarece a natureza do enunci-
efetiva em enunciados orais e escritos, concretos e ado (e, acima de tudo, o difícil problema da

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correlação entre língua, ideologias e visões de Essa é a perspectiva que escolhemos para analisar
mundo) (BAKHTIN, 1997, p.282) quatro poemas de Manoel de Barros, em que preten-
Refletindo a respeito dessas considerações de demos dar destaque para a intertextualidade, a
Bakhtin sobre os gêneros do Discurso, Brandão polifonia e a heterogeneidade discursiva, se é que se
(2002,p.4) aponta dois aspectos que julga importan- pode pensar separadamente desse ponto de vista, a
tes: não ser didaticamente. Portanto, por uma questão de
1. mesmo sendo cada gênero marcado pela regu- espaço e tempo, os textos serão olhados a partir dos
laridade e pela repetibilidade, por isso definido como enfoques propostos, no entanto, outros aspectos po-
relativamente “estável”, não é um modelo a ser se- derão estar no bojo dessa análise.
guido literalmente, tendo em vista que essa estabilida- Os poemas que serão analisados pertencem ao
de é constantemente ameaçada por forças sociais, cul- gênero poético, com circulação dentro de uma comu-
turais, de restrição genérica e individuais (estilística) nicação cultural mais complexa tendo, assim, seu lu-
que determinam mudanças, apagamento ou gar nos gêneros do discurso secundário.
revivescência num gênero. Esse movimento marca Entendendo, com Brandão, por intertextualidade as
singularmente os diferentes gêneros; uns mais está- relações que uma formação discursiva mantém com
veis, outros mais susceptíveis à variabilidade. outras formações discursivas, podemos olhar os poe-
2. a dimensão intragenérica e intergenérica que um mas nº 5 e nº 12, de Manoel de Barros em uma rela-
gênero estabelece com outro no espaço do texto. A ção com o Salmo 23, da Bíblia, como uma intertextua-
primeira corresponde ao diálogo interdiscursivo que lidade externa, tendo em vista que um discurso do cam-
se estabelece entre as diferentes manifestações textu- po literário/poético estabelece uma relação com um
ais de um mesmo gênero. A segunda considera que, discurso do campo religioso: bíblico e, também, mais
na prática, os discursos/textos não se apresentam ho- específico da igreja católica através das expressões
mogêneos, ao contrário, na sua produção se “monge”, “um convento”, “oratórios” (poema nº 5),
intercruzam vários tipos de texto e de seqüências tex- “beato” e “galardão” (poema nº 12); este último é usa-
tuais. São os gêneros, portanto, na prática, marcados do também pelos evangélicos. Trata-se de uma rela-
pela heterogeneidade e pela interdiscursividade/ ção interdiscursiva em que se privilegia um discurso
intertextualidade. citado e de outro campo discursivo1 ao qual o poeta se

1
Campos discursivos são espaços onde um conjunto de formações discursivas estão em relação de concorrência no sentido amplo,
delimitam-se reciprocamente: assim as diferentes escolas filosóficas ou as correntes políticas que se afrontam, explicitamente ou não,
numa certa conjuntura. Cf. Maingueneau (1998:19).

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contrapõe. Podemos dizer que esse contraponto é à natureza: “Pedra ser, inseto ser era seu galardão.
centrado no “motivo”: enquanto o salmo exalta/louva Sua casa era guardada por aves do que ferro-
a Deus, o poeta exalta/louva a natureza, o Pantanal, o lhos.”/”Dava aos andrajos grandeza.”, por outro
seu espaço de vivências. Ele “endeuza” as coisas: lado, destaca as mazelas da natureza e tudo aquilo
“Pote-cru” e os seres: “Passo-triste”. que é rejeitado, abominado pela sociedade, pobre e
Considerando o espaço escolhido para os poemas: triste: “De rato podre, vísceras de piranhas, ba-
o livro Retrato do Artista quando Coisa – que já ratas /albinas, dálias secas, vergalhos de lagar-
no título apresenta uma intertextualidade em relação tos,/Lingüetas de sapatos, aranhas dependura-
ao livro de James Joyce Um retrato do artista quan- das em/Gotas de orvalho etc.etc./ Passo-triste ti-
do jovem – podemos compreender o discurso do nha um gosto entre beato e bêbado/Pote-cru, ele
poeta, já que nessa sua obra, ele se coloca como o dormia nas ruínas de um convento, colocando-se
próprio espaço, o próprio contexto, como sendo ele ao lado dos não favorecidos, a parte destruída da na-
aquele concerto de “vozes”, de “sons”, de “seres”. É tureza pela insensatez humana.
o próprio Manoel de Barros que afirma estar o Panta- Nesses discursos, o autor constrói a própria iden-
nal dentro dele: “Não me seduz ver as paisagens do tidade discursiva, a partir dos espaços discursivos es-
pantanal porque elas estão dentro de mim. O que colhidos, numa relação de alteridade entre o seu dis-
preciso é de transfazê-las” (Apud VIÉGAS, 1994, curso e discurso(s) de campos diferentes, principal-
p.19) Esse transfazer é tornar-se “coisa”, ver-se como mente tendo como fundante o discurso religioso. Po-
outro ser, como nos aponta quando escolhe como demos dizer então que os poemas nº 5 e nº 12, em
epígrafe do livro: “ Não ser é outro ser”, do Livro sua relação com o “outro”, com o seu exterior se
do desassossego, de Fernando Pessoa. E quando afir- constitui de uma heterogeneidade mostrada, já que a
ma em outros espaços (p. 17) do mesmo livro que o alteridade se manifesta de forma explícita.
artista Não terá mais o condão de refletir sobre as Já o poema a seguir, intitulado Comparamento,
coisas. Mas terá o condão de sê-las (grifos nossos). apresenta uma intertextualidade interna, em relação a
Na trajetória histórica de Manoel de Barros estão outro discurso do mesmo campo: o poema Catar fei-
presentes, entre outros, dois campos discursivos jão, de J.Cabral de Melo Neto. Podemos afirmar isso,
conflitantes: a formação educacional no Colégio dos tendo em vista que os dois textos estabelecem uma
Irmãos Maristas e a sua militância no Partido Comu- comparação entre o ato de escrever poesias e um
nista. Ao mesmo tempo que ele quer ser “coisa”, numa aspecto da vida cotidiana, do contexto social de seus
demonstração, possivelmente, de humildade que nos autores: para J. Cabral de Melo Neto o “catar feijão”,
lembra São Francisco de Assis e também de exaltação para Manoel de Barros o “percurso de um rio”. En-

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tretanto, não há citações explícitas, nem imitação na Com esta doença de grandezas:
forma de apresentação do poema, embora pertençam Hei de monumentar os insetos!
os dois a um mesmo gênero do discurso. Temos, nes- (Cristo monumentou a Humildade quando
se caso, uma heterogeneidade mostrada, não marcada. beijou os pés de seus discípulos.
Manoel de Barros, com certeza, leitor da obra de São Francisco monumentou as aves.
João Cabral de Melo Neto, deixa-nos ver aquilo que Vieira, os peixes.
Maingueneau (Apud BRANDÃO, 1998, p.126) afir- Shakespeare, o Amor, A Dúvida, os tolos.
ma: um discurso não se constitui sobre uma página Charles Chaplin monumentou os vagabundos.)
em branco “...o novo não pode se enunciar senão Com esta mania de grandeza:
por um reagenciamento do que já está lá”. Temos Hei de monumentar as pobres coisas do
aqui a voz do outro recuperada através do cruzamen- chão mijadas de orvalho.
to da formação discursiva manoelina com outra for- (BARROS, Manoel. Livro sobre nada.
mação discursiva: a de J. Cabral de Melo Neto. Rio de Janeiro: Record, 1996, p. 61.)
Dentro de um movimento dialógico, podemos per- Numa relação interdiscursiva com discursos de
ceber outras ”vozes” constituindo o poema: o conhe- campos diferentes, o poema nº13 apresenta uma
cimento de mundo/do seu mundo, nos versos: “Os intertextualidade externa, já que o autor vai buscar
rios recebem, no seu percurso, pedaços de pau,/fo- nesses discursos, podemos dizer que uma sustenta-
lhas secas, penas de urubu/E demais trombolhos. O ção/justificativa para o seu discurso. Quando cita Cris-
conhecimento literário, no que se refere à construção to, São Francisco e Vieira, está se respaldando nos
do texto poético: “As palavras, na viagem para o grandes feitos de alguns sujeitos que fizeram a histó-
poema, recebem/nossas torpezas, nossas demências, ria do discurso religioso. Quando cita Shakespeare e
nossas vaidades/ E demais escorralhas/ (...) Mas de- Chaplin, nomes do teatro e do cinema, se respalda na
sembarcam no poema escorreitas: como que/filtra- história do discurso artístico. Além desses discursos,
das. E, finalmente, o conhecimento da relação leitor/ outras formações discursivas atravessam o poema: a
texto: “E livres das tripas do nosso espírito”. O meu vida dos nobres, seus fracassos e sua soberbia,
texto, nem é só a minha voz, como também, nas ins- explicitada no texto como uma doença.
tâncias públicas produz efeitos de sentido e tem no Dessa maneira, o poema apresenta duas possibili-
leitor — com sua história e sua caminhada — um co- dades de interpretação/efeito de sentido, nessa
autor, um construtor de sentidos. tessitura polifônica de “vozes”. Numa perspectiva
polifônica da ironia, podemos entender que o “locu-
Poema Nº 13 tor” coloca em cena um “enunciador” que adota uma
Venho de nobres que empobreceram. posição crítica em relação ao discurso religioso e ar-
Restou-me por fortuna a soberbia. tístico que não pode assumir socialmente, tendo em
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vista que os feitos já são consagrados no contexto alguns aspectos importantes merecem ser destaca-
histórico e social da humanidade. Esse “enunciador” dos. O primeiro deles foi poder constatar, através de
coloca esses feitos no mesmo patamar de uma das uma análise prática de textos, as representações que
piores características humanas: a soberba, que quali- o sujeito faz de si e do mundo e como isso fica
fica como doentia, valendo-se do discurso citado para evidente nos enunciados que profere. Mesmo em
refutá-lo. um texto poético — tanto tempo compreendido por
A outra possibilidade de efeito de sentido tem re- nós como uma “linguagem figurada” — está lá o
lação com o discurso do poeta no seu desejo de ser sujeito, seus possíveis interlocutores e o discurso
“coisa”, “outro ser”. Se o poeta quer ter “...o con- poético que se construiu/constrói nesse espaço
dão de sê-las”( as coisas), que é preciso transfazer a discursivo que se constitui entre o poeta e seu “ou-
sua realidade (o Pantanal), embora isso possa parecer tro”, a cada leitura, a cada leitor.
ao outro uma “soberbia”, uma “doença”, ele equipa- Vale ressaltar também que o momento em que
ra todo o destaque reservado à “Humildade”, às “aves”, adentramos os textos para analisá-los, posicionando-
aos “peixes”, ao “amor”, aos “tolos”, aos “vagabun- nos como sujeito/leitor, a construção de sentido foi
dos” também ao que para ele tem essa mesma impor- gradativamente construída, fazendo-nos interagir
tância: “...as pobres coisas do chão mijadas de orva- com os poemas, num processo de escolhas e de
lho”, a quem sente-se capaz de monumentar. mobilização do universo de conhecimentos que já
tínhamos e de outros que tivemos de ir buscar —
através da pesquisa e de muitas leituras — a fim de
4. Considerações finais chegarmos aos efeitos de sentido possíveis para nós
Ao colocarmos em prática um trabalho de análi- neste momento e que constituem as análises reali-
se de textos na perspectiva da linguagem em uso, zadas.

5. Referências
ALMEIDA, João Ferreira de. A Bíblia Vida Nova. 7. ed. São Paulo: Edições Vida Nova, 1985.
BAKHTIN, Mikhail. Marxismo e Filosofia da Linguagem. São Paulo: HUCITEC, 1986.
––––––––. “Os gêneros do discurso” In.: Estética da Criação Verbal. São Paulo: Martins Fontes, 1997.
BARROS, Diana L. P. de. & FIORIN, J. Luiz (Orgs.) Dialogismo, Polifonia, Intertextualidade. Ensaios de Cultura, n. 7. São Paulo:
Editora da Universidade de São Paulo, 1994.
BARROS, Manoel. Livro sobre nada. Rio de Janeiro: Record, 1996.
––––––––. Gramática Expositiva do Chão.. Rio de Janeiro: Record, 1999.
––––––––. Ensaios Fotográficos. Rio de Janeiro: Record, 2000.
––––––––. Retrato do Artista quando coisa. Rio de Janeiro: Record, 2001.
BÉDA, Walquíria Gonçalves. O inventário bibliográfico sobre Manoel de Barros ou “Me encontrei no azul de sua tarde”.
(Dissertação de Mestrado). ASSIS, UNESP, 2002.
BRANDÃO, Helena H. Nagamine. Introdução à análise do discurso. 3. ed.. Campinas-SP: Editora da UNICAMP, 1994.
––––––––. Subjetividade, Argumentação, Polifonia. A propaganda da Petrobrás. São Paulo: Fundação Editora da UNESP, 1998.
––––––––. A articulação: gêneros do Discurso e Ensino. São Paulo: USP, 2002, no prelo.
MAINGUENEAU, Dominique. Termos-chave da análise do discurso. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 1998.
MELO NETO, João Cabral. Antologia Poética, obras completas. 19??, p. 21-2
MENEGAZZO, Maria Adélia. Alquimia do verbo e das tintas nas poéticas de vanguarda. Campo Grande-MS: UFMS, 1991.
MENZES, Cynara. O Artista quando coisa. Disponível em: <http://www.secrel.com.br/jpoesia/1cynara.html> Acessado em <13 nov.
2002>.
PENTEADO, Márcia A. de Oliveira. Breve olhar sobre a criação lexical em Manoel de Barros. (Monografia para conclusão do
Curso de Especialização em Letras). Aquidauana: UFMS, 2002
VIÉGAS, Maranhão. O azul do quintal de Rodin (Entrevista). In: Onati. Revista Técnico-Científica e Cultural do CESUP. Campo
Grande, MS. Nº 1, p. 19-21, set.1994.
SAUSSURE, Fedinand. Curso de Lingüística Geral. São Paulo: Cultrix, 2000.

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O labirinto é uma metáfora sem referente que pode ser atualizada
com propósitos estéticos diversos. Borges, em ‘‘O jardim dos cami-
nhos que se bifurcam’’, conto de 1941, utiliza-se do labirinto para
confabular, tramar com parábolas intemporais. Cortazar, em ‘‘Casa
tomada’’, conto de 1951, constrói uma alegoria existencial, traman-
do-a no espaço labiríntico, compartimentado, de uma casa. Para isso,
ambos trabalham com a memória – intemporal, infinita, no conto de
Borges; obsessiva, no conto de Cortazar e ambos elaboram uma nar-
rativa sustentada pela retórica composicional do paradoxo. Compará-
los, para este trabalho, será identificá-los com alguns dos seus proce-
dimentos discursivos e diferenciá-los mediante a estratégia da sua
poética.
Palavras-chave: conto-semiótica-retórica-espaço

The labyrinth is a metaphor without reference that might be updated


for several aesthetic purposes. Borges, in ‘‘O jardim dos caminhos
que se bifurcam’’, (The Gardens of Forking Paths), a short story
from 1941, makes use of the labyrinth to confabulate, plot with
intemporal paraboles. Cortazar, in Casa tomada (House Taken Over),
a 1951-short story, makes an existential allegory, planting it in the
divided, labyrinthine setting of a house. In order to do so, both writers
*
work with memory – intemporal, endless, in Borges short story; Luiz Gonzaga
obsessive, in Cortazar’s short story. Also, both of them elaborate a Marchezan é professor
narrative supported by the compositional rhetoric of paradox. For de Literatura Brasileira
this study, comparing them will mean identifying them with some of no Curso de
their discursive proceedings and differing them according to the Pós-graduação em
strategy of their poetic. Estudos Literários da
FCL da UNESP -
Keywords: short story, semiotic, rhetoric.
Araraquara.

18
BORGES, CORTÁZAR
E A METÁFORA DO LABIRINTO
Luiz Gonzaga Marchezan*

O labirinto é uma metáfora sem referente que pode abaixo, que o autor elaborou para uma palestra proferida
ser atualizada com propósitos estéticos diversos. na Universidade de Belgrano:
Borges, em O jardim dos caminhos que se bifurcam, 1-“...podemos prescindir do espaço, mas não do tem-
conto de 1941, utiliza-se do labiríntico para confabular, po” (1996b: 41).
tramar com parábolas intemporais. Cortázar, em Casa 2-“...o tempo é um problema essencial (...) Nossa
tomada, conto de 1951, constrói uma alegoria exis- consciência está continuamente passando de um
tencial, tramando-a no espaço labiríntico, compar- estado a outro, e isto é o tempo: uma sucessão”
timentado, de uma casa. Para isso, ambos trabalham (1996b: .42).
com a memória – intemporal, infinita, no conto de 3-“...o tempo é uma dádiva da eternidade” (1996b:
Borges; obsessiva, no conto de Cortázar e ambos ela- 43).
boram uma narrativa fantástica sustentada pela retó- 4-“...o problema do tempo nos afeta mais que os
rica composicional do paradoxo. Compará-los, para outros problemas metafísicos” (1996b: 49).
este trabalho, será identificá-los com alguns dos seus Diante disso, para Borges, a presença das coisas do
procedimentos discursivos e diferenciá-los mediante mundo nada valem; tem valor o que é eterno e o “eterno é
a estratégia da sua poética. o mundo dos arquétipos ...” (1971: 115), conforme já
Segundo Borges, “Imaginar un cuento es como en- apregoara em Perfis, um ensaio autobiográfico.
trever una isla. Veo las dos puntas, sé el principio y el Borges metaforiza arquétipos: “...cada um de nós
fin. Lo que sucede entre ambos extremos tengo que ir pode ser uma cópia temporal e mortal do arquétipo do
inventándolo, descubriéndolo” (Barone, 1996a: 50). homem...” (1996b: 47), tornou a apregoar em Belgrano.
Cortázar, por sua vez, prefere, para a narrativa do con- E a sua predileção por metáforas é confessa: “Sempre
to, dar ao tema “forma visual, auditiva”; fixá-las no tem- fui atraído para a metáfora ...” (1971: 115), de acordo
po; eliminar, da sua trama, as “situações intermédias” com Perfis.
(1974: 157). O jardim dos caminhos que se bifurcam é o oitavo
Para Borges, “el cuento es un breve sueño, una cor- conto de Ficções. Um conto policial, segundo o prólogo
ta alucinación” (Barone, 1996a: 50). Cortázar tem pelo do autor. Acerca do gênero policial Borges também con-
gênero uma “...predileção por tudo o que no conto é ferenciou: “Falar do conto policial é falar de Edgar
excepcional...” (1974: 149) e com isso objetiva “...en- Allan Poe” (1996b: 31).
curralar o fantástico no real ...” (1974: 176). Acontece que Poe determina os procedimentos nar-
Borges trabalha o tempo transcendente, pela via rativos do conto borgiano. A maneira como Jorge Luis
metafísica. A sua literatura inventa tempos, cria uma va- Borges divisa a narrativa do conto conforme entrevê uma
riedade temporal, conforme leremos no conto que ora ilha, remete-nos diretamente à Filosofia da composição
vamos analisar ou se atentarmos para algumas passagens de Edgar Allan Poe, em que o autor norte-americano pro-
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põe, para todo o ficcionista, a construção de uma uni- O jardim dos caminhos que se bifurcam tem início
dade de impressão no âmbito da narrativa, responsável por meio de um documento em que faltam, de acordo
pela organização do percurso do sentido da história. com o seu narrador, duas páginas. O dado, por um lado,
Nada é mais claro do que deverem todas as intri- tem precisão, é datado e, por outro, está incompleto. Ins-
gas, dignas deste nome, ser elaboradas em relação tala-se assim, a visível contradição do paradoxo. Poste-
ao epílogo antes que se tente qualquer coisa com a rior à leitura do documento, lemos um depoimento, o de
pena. Só tendo o epílogo constantemente em vista, Dr. Yu Tsun, chinês, agente do Império Alemão e antigo
poderemos dar a um enredo seu aspecto indispen- catedrático inglês, outra figura, convenhamos, paradoxal.
sável de conseqüência, ou causalidade, fazendo com Esse depoimento enreda o conto, a fuga de Tsun, desven-
que os incidentes e, especialmente, o tom da obra cilhando-se de Madden, espião inglês. Yu Tsun precisa
tendam para o desenvolvimento de sua intenção despistar Madden e decifrar o nome de uma cidade in-
(Poe, 1987: 109). glesa, alvo de um bombardeio do Império Alemão. No
O Borges atraído por metáforas elabora um conto de decorrer da fuga, Yu Tsun depara-se com Stephen Albert,
maneira como avista uma ilha; delimita-o pelos seus ex- depositário de dois segredos:
tremos e forja seus paradoxos quando, também pelos 1 - mora no local de um labirinto, na forma de um
extremos, explora uma narrativa ilhada entre duas se- jardim, construído pelo bisavô de Yu Tsun, mas des-
qüências abertas, contíguas. conhecido da família e
O jardim dos caminhos que se bifurcam encerra uma 2 - tem o nome da cidade inglesa que o Império Ale-
parábola paradoxal. Parábola, primeiramente, porque o mão quer bombardear: Albert.
conto encerra uma imagem do Universo, dos tempos que No entrecruzar dos acontecimentos Yu Tsun reco-
se bifurcam “convergentes, divergentes, paralelos” nhece o labirinto construído pelo bisavô e mata Albert. A
(Borges, 1970: 82), e, paradoxal, porque o tempo apro- notícia da morte de Stephen nos jornais e do seu assassi-
xima, simultaneamente, situações opostas. De acordo no, leva o serviço secreto alemão a decifrar uma chara-
com as palavras de Stephen num diálogo com Yu Tsun, da: Albert seria o nome da cidade a ser bombardeada. No
ambos, protagonistas do conto: “O tempo se bifurca per- processo da fuga, o acaso, resultado, como quer Jorge
petuamente para inumeráveis futuros. Num deles sou Luis Borges, dos tempos que se aproximam, leva o Im-
seu inimigo” (Borges, 1970: 82). pério Alemão a bombardear com acerto, assim como le-
Na ficção de Borges, portanto, o mundo é um labirin- vou Yu Tsun a reconhecer o labirinto edificado pelo avô,
to que “envolve o passado e o futuro” (1970: 76). O uni- Ts’ui Pen. Yu Tsun sempre soube dos planos de Ts’ui, o
verso é um labirinto em que os tempos bifurcam-se e de construir “...um labirinto em que todos os homens
também as opções. O labirinto, para Borges, figurativizado se perdessem...” (1970: 75).
num jardim, é a referência para a sua metáfora temporal. Yu, Tsun no entanto, contraria os prognósticos do avô:
Borges é um seguidor de Heráclito, de acordo, ainda, não só encontra o labirinto, mas decifra-o, como se de-
com trecho da sua palestra na Universidade de Belgrano: cifrasse a própria existência, sentindo-se “...por um tem-
“Em nossa experiência, o tempo corresponde sempre po determinado, conhecedor abstrato do mundo”
ao rio de Heráclito – continuamos a usar essa antiga (1970: 76).
parábola. É como se não tivéssemos avançado em tan- Dessa maneira, o acaso faz acontecer o que Ts’ui não
tos séculos. Somos sempre Heráclito, vendo-se refle- previa, assim como leva o próprio Yu Tsun a abstrair o
tido no rio e pensando que ele não é Heráclito por sentido do mundo no momento em que, perseguido e
que ele foi outras pessoas entre aquele último mo- prestes a morrer, visualiza o labirinto do avô.
mento em que viu o rio e este” (1996b: 48). Lemos assim, sem dúvida, uma parábola paradoxal.
Na ficção de Borges, a verdade será a perpétua con- Como podemos perceber, o tempo na narrativa de Borges
tradição dos seres em mudança contínua e o labirinto a não tem limites e a ausência deles marca a trama do pró-
referência que representará metaforicamente um tempo prio conto. O tempo bifurca-se, assim como o labirinto.
que se duplica, prolifera, numa realidade vasta em que a Borges, através da metáfora do labirinto, espacializa um
identidade humana é cambiante. A ficção borgiana ex- tempo metafísico; dá sustentação para vários tempos que
plora o mundo. Borges confabula e faz das suas persona- avizinha. Um paralelismo, paradoxal, combina várias si-
gens testemunhas das suas parábolas, testemunhas de um tuações através da metáfora do labirinto, que instala no
mundo de palavras, palavras que não acreditam na sínte- conto a memória borgiana, intemporal, infinita.
se do tempo. Na impossibilidade da síntese, a sua esco- O conto, para Borges, “es um breve sueño, una cor-
lha é pelo discurso paradoxal, parabólico. A parábola é ta alucinación” (1996a: 50). Jorge Luis Borges trans-
uma alegoria aberta para definições infinitas, envolvidas porta da manifestação dos sonhos para a sua narrativa, as
com acréscimos, simulações diversas e se adequa sobre- seqüências de ações sem lógica do onírico que, por sua
maneira com o fluxo do tempo. vez, valoriza a memória. E o paradoxo constrói a intriga

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do conto borgiano, dividida entre Borges e Cortázar se relato dessa invasão, um relato de
dois acontecimentos em que o pri- lembranças “embalsamadas”, julga-
meiro encontra-se imbricado no se-
assemelham na opção mos nós, em que seu personagem-
gundo, de acordo com as lições de pelo paradoxo, a fim narrador está todo voltado para os
Edgar Allan Poe. de superarem o acontecimentos narrados apresenta-
Prosseguimos, agora, comparan- dos, numa única voz, sem sobrepor
do Borges com Cortázar. Os contos
efeito de sentido no tempo impressões ou emoções.
O jardim dos caminhos que se bi- da hesitação, Aliás, um fama “nunca falará se não
furcam e Casa tomada trabalham tão marcante souber que suas palavras são as
com a memória e com o fantástico, convenientes” (s/d: 104), conta-nos
de forma paradoxal. A memória em
na narrativa do o Cortázar de Histórias de
Borges, como vimos, inscreve-se fantástico tradicional. cronópios e famas.
dentro de uma totalidade espacial De acordo com a narração, Irene
arquetípica, a do labirinto, o espaço e seu irmão, a partir de um determi-
de um tempo eterno. A memória em Cortázar, como ve- nado momento, suspeitam que a casa está sendo invadi-
remos, também rompe com a linearidade do tempo, po- da, porém, não reagem; silentes, acuados, preferem
rém, na maneira como opõe o verossímil ao inverossímil. abandoná-la, saindo ambos pela porta da rua afora.
Cortázar, conforme já citamos, trabalha o seu tema dan- A ficção é uma construção. Cortázar é um construtor
do-lhe “forma visual, auditiva”, com uma “certa predile- preciso de narrativas e delineou muito bem os seus obje-
ção por tudo o que no conto é excepcional”. O dois con- tivos com o artefato do fantástico num livro seu, de críti-
tistas, contudo, assemelham-se na opção pelo paradoxo, ca, Valise de cronópio: “...encurralar o fantástico no
a fim de superarem o efeito de sentido da hesitação, tão real, realizá-lo” (Cortázar, 1974: 176).
marcante na narrativa do fantástico tradicional. O para- Com a intenção de realizar o fantástico e de intensi-
doxo, para Borges e Cortázar, contraria as expectativas ficar o seu efeito de estranhamento, o contista atrofia
de leitores sequiosos por histórias com desenlaces na narrativa as relações intersubjetivas. O contorno que
ambígüos, e, da mesma forma, parece-nos, sustenta uma o autor dá aos seus protagonistas é tênue; chega a não
burla, outro procedimento que aproxima os dois contis- existir descompasso entre os comportamentos de Irene
tas. O jardim dos caminhos que se bifurcam parte de e de seu irmão; não há diferença entre eles. Eles se
uma suposta base documental. Casa tomada compõe o bastam; sequer pensam. “Pode-se viver sem pensar”
volume de contos intitulado Bestiário, que, conforme di- (1977: 14), chega a afirmar o narrador. De acordo com
cionário, designa um tipo de manuscrito medieval com a a poética cortazariana, o obsessivo se defende, esfor-
finalidade de desenvolver lições morais, por meio de his- ça-se para ignorar os fatos. A invasão anunciada é a
tórias animais ou imaginárias. Chama-nos da mesma for- simulação de uma intervenção na vida obsessivamente
ma a atenção o fato de, em 1952, um ano após a publica- acomodada de dois irmãos aristocratas, com o objeti-
ção de Bestiário, Cortázar iniciar outro livro, História vo de provocar-lhes uma transformação, uma tentati-
de cronópios e famas, que, para nós, delimitou os perfis va de removê-los da situação de defesa em que se pos-
dos protagonistas de Casa tomada. Nas Histórias de tam diante dos fatos que os rodeiam. Assim, ambos
cronópios e famas, os cronópios são sempre agitados e ficam à mercê de uma mudança, planejada por Cortázar
os famas, acomodados. Cortázar, como diz gostar, nesse com a mediação do fantástico, que o contista, estrate-
livro “dá forma visual, auditiva” às suas personagens ima- gicamente, busca construir, sem provocar uma
ginárias. “Capítulos das lembranças” evidenciou-nos o descontinuidade na narrativa, “encurralando o fantás-
modo como o contista associa as lembranças dos tico no real”. Júlio Cortázar não quer uma racionaliza-
cronópios e dos famas às suas casas. Os cronópios ção acerca da ocorrência de uma invasão; não quer
“são seres desordenados e frouxos, deixam as lem- confirmá-la, nem refutá-la. Arquiteta, sim, um parado-
branças soltas pela casa, entre gritos alegres, e an- xo que se distribui na totalidade da narrativa, susten-
dam no meio delas (...) as casas dos famas são ar- tando uma oposição que tensiona a substituição da es-
rumadas e silenciosas, enquanto nas dos cronópios tabilidade dos famas por uma crescente instabilidade
há uma grande agitação e portas que batem ...” (s/ que os cronópios lhes provocam. Dessa maneira, tra-
d: 110).. balha a forma argumentativa do paradoxo para a cons-
Sobre as lembranças dos famas, diz esse mesmo ca- trução de um desenlace fantástico. Assim, nas seqüên-
pítulo, eles as “embalsamam” (s/d: 110). cias finais da história, em detrimento das seqüências
Casa tomada é um conto compacto. Seus protago- iniciais, acirra as obsessões de suas personagens que,
nistas – o narrador, sem nome, e sua irmã Irene, dois fa- cada vez mais inseguras, passam a afirmar e negar, ao
mas – têm a sua casa invadida. A história do conto é o mesmo tempo, a existência de uma invasão no interior

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da casa. A invasão anunciada ins- A narrativa irmãos famas refreia a vitalidade
tala no comportamento dos prota- possível da sua existência. A casa
gonistas uma espera, uma espera
fantástica cria desses famas representa o centro
que, passo-a-passo, impõe-lhes uma incongruência da sua segurança, da sua defesa.
perdas e interdições, diante do ce- entre os fatos, Os famas encontram-se imóveis,
nário de uma casa, organizado protegidos, incorporados a uma
numa seqüência de tempo para en-
a fim de criar um minúscula parte dos cômodos da
cenar uma despossessão. Vamos impasse entre casa; encontram-se estagnados:
primeiro à cena, ao seu cenário, es- sujeitos e evoluir é desincorporarem-se da
tabelecido pelas lembranças embal- casa, é saírem da estagnação em
samadas do narrador:
objetos. que se encontram, é abandonarem
Lembro-me bem da divisão da a casa.
casa. A sala de jantar, uma peça O fantástico trunca o deter-
com gobelinos, a biblioteca em minismo de uma narrativa e resiste a
três quartos grandes ficavam na parte mais afasta- uma explicação racional. Ele é uma experiência inveros-
da, a que dá frente para Rodrigues Pena. Só um símil, uma fratura na racionalidade. O fantástico, num
corredor, com sua maciça porta de carvalho, sepa- arranjo de probabilidades internas da narrativa, traba-
rava essa parte da ala dianteira, onde havia um lha com certos vazios, certas indeterminações, que
banheiro, a cozinha, nossos quartos de dormir e o caminham entre a razão e a desrazão. Ele é construído
living central, ao qual se comunicavam os quartos pelo discurso e aceito pelo leitor. Rompe, assim, com a
e o corredor. Entrava-se na casa por um sagüão convenção realista da ficção – a congruência entre os
com os azulejos de majólica, e a porta-persiana fatos, em que o conhecimento que envolve a história é
dava para o living. De maneira que se entrava pelo compartilhado sem estranhamento com o leitor. A nar-
sagüão, abria-se a porta-persiana e chegava-se ao rativa fantástica cria uma incongruência entre os fa-
living; tinha-se, dos lados, as portas dos nossos tos, a fim de criar um impasse entre sujeitos e objetos.
quartos, e à frente o corredor que levava à parte Se, por um lado, lemos na narrativa realista uma
mais afastada; seguindo pelo corredor chegava-se certa simetria entre as partes, por outro lado, lemos
à porta de carvalho, e mais adiante iniciava-se o entre as partes de uma narrativa fantástica uma
outro lado da casa, ou então se podia virar à es- assimetria: em Casa tomada, a ação da invasão é tensa
querda, justamente antes da porta, e seguir por um e enfática, nas seqüências finais da história, em detri-
corredor mais estreito, que levava à cozinha e ao mento das suas seqüências iniciais.
banheiro. Quando a porta estava aberta, percebia- Em vista disso e de seus objetivos com o fantástico,
se que a casa era muito grande; caso contrário, Cortázar, como já dissemos, utiliza-se do argumento do
dava a impressão de um apartamento dos que se paradoxo. Em todo discurso é no argumento que se en-
constroem agora, apenas para que a gente se mexa. contram as suas provas de veredicção. O argumento do
Irene e eu vivíamos sempre nesta parte da casa, conto fantástico prescinde de provas para a sanção da
quase nunca íamos além da porta de carvalho, sal- sua história; prescinde de provas que confirmem ou re-
vo para fazer a limpeza ... (1977: 12). futem a veracidade da sua história. Nesse conto, o para-
A casa não é vivenciada pelos famas, explorada doxo tem o objetivo de relacionar duas situações opos-
nos seus espaços. Os irmãos, rigorosamente, arru- tas e manter entre elas uma coerência interna. O para-
mam-na, limpam-na. A sua espacialidade, porém, que doxo é uma forma argumentativa breve que consegue
oferece um pluralidade de opções para ser vivenciada, quebrar uma continuidade entre seqüências narrativas.
não sensibiliza a existência de Irene e do narrador. A Nesse conto, o paradoxo contrasta dois segmentos da
casa, seus caminhos, sua trama labiríntica, é uma narrativa. Ao primeiro, em que os protagonistas bus-
metáfora que representa a impossibilidade de interação cam, de maneira obsessiva, uma estabilidade nas suas
dos protagonistas com o mundo. Dessa maneira, no- emoções do dia-a-dia, opõe-se o segundo segmento,
tamos que, no bojo do paradoxo, na exata substitui- em que os protagonistas perdem essa estabilidade na
ção de uma seqüência por outra, nasce uma alegoria. sua vivência do cotidiano e mergulham numa insegu-
A casa, suas repartições, substituem a interioridade, rança obsessiva.
os sonhos dos famas. Na amplidão da casa ressoa a Cortázar instala o paradoxo entre esses dois segmen-
diminuta interioridade dos irmãos famas. Dominar tos para enfatizar o segundo comportamento obsessivo
espaços é encontrar saídas, outros sentidos, e pro- das suas personagens. O comportamento desses dois fa-
mover interações. Exatamente o que eles não conse- mas configura, no conto, as obsessões do insconsciente
guem realizar. A obsessão pelo enclausuramento dos humano.

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Dessa maneira, trabalhando sua narrativa dentro de flexão teórica. A principal, denominou-a Teoria do tú-
uma ausência de limites entre o real e o irreal, Júlio nel, a que “destrói para construir” (1998: 49), que re-
Cortázar dilui, em Casa tomada, a relação de bela-se com a tradição,
inteligibilidade entre o sujeito e o mundo. O sujeito pas- ...põe em crise a validade da literatura como modo
sa a se relacionar com o mundo sem reconhecê-lo e sem verbal do ser do homem, e esse avanço em túnel,
se reconhecer nele. O sujeito olha e não vê. O seu olhar que se volta contra o verbal a partir do próprio
não identifica diferenças naquilo que vê, não faz sentido. verbo (...) denuncia a literatura como condicionante
Assim, Irene e seu irmão desumanizam-se. O fantástico da realidade e avança na instauração de uma ati-
trabalhado por Júlio Cortázar mostra-nos uma história vidade em que o estético é substituído pelo poéti-
em que não existe mediações entre o sujeito e o mundo, co, a formulação mediatizadora pela formulação
entre o sólito e o insólito. aderente, a representação pela apresentação.
O paradoxo fundamenta, no conto, o diálogo insólito (Cortázar, 1998: 50).
entre os protagonistas. A força centrípeda das suas ob- Cortázar, ficcionista e teórico de vanguarda, justifi-
sessões leva-os ao encantonamento na parte frontal da ca-se: “Surrealista é o homem para quem certa reali-
casa e à diluição de suas realidades individuais. Irene e dade existe, e sua missão consiste em encontrá-la ...”
seu irmão perdem os limites do ego – eis a alegoria mon- (Cortázar, 1998: 78). Assim, justifica o seu texto: “A
tada pelo paradoxo. Em Casa tomada, os cronópios, pro- rigor, não existe nenhum texto surrealista discursivo;
tegidos no âmbito do fantástico, põem fim à estabilidade os discursos surrealistas são imagens amplificadas ...
obsessiva dos famas. A invasão que os cronópios reali- “(Cortázar, 1998: 80).
zam na casa dos famas compõem uma alegoria. Num já O Surrealismo de Cortázar amplifica as imagens do
anunciado ambiente de demolições por que passam casa- fantástico na sua obra. Diante de um arranjo interno de
rões de Buenos Aires, os ocupantes de uma ampla casa, probabilidades, de forma pertinente, o labirinto, em Casa
de tradicional família portenha, também são demolidos: tomada, é espacializado dentro de uma residência e tra-
perdem a sua identidade e os seus objetos. balhado como uma metáfora do auto-conhecimento, que
O argumento do discurso de Borges confunde-se com interroga as certezas das personagens, e desmantela o seu
sua própria forma de narrar; agumentar, para o autor de O comportamento compulsivo. As imagens amplificadas
jardim dos caminhos que se bifurcam, é tramar com o de Júlio Cortázar são alegóricas.
tempo e nessa trama estão previstas suas variantes A metáfora de Jorge Luis Borges é explícita. O
paródicas, que simulam uma ligação das suas histórias labirinto, em O jardim dos caminhos que se bifurcam,
com a tradição, com a memória cultural da humanidade. espacializa o tempo e o tempo desdobra-se eterna-
Jorge Luis Borges, na verdade, filtra suas variantes mente em acasos. O tempo, para Borges, é fantástico
paródicas pelo tempo (em diferentes épocas, com dife- e a realidade ficcional tem o alcance da palavra, nas-
rentes autores) e mantém com elas uma ligação sem ten- ce da força ontológica da palavra, que institui o uni-
sões ou angústias. verso borgiano. A palavra, enfim, para Jorge Luis
Cortázar é visceral, de vanguarda, adepto do Borges, atua sobre a imaginação e supera a finitude
Surrealismo. A sua ficção passa por uma dedicada re- do homem.

Bibliografia
BARONE, O. (Org.) Diálogos Borges Sabato. Buenos Aires: Emecé Editores S.A, 1996.
BORGES, JL. Cinco visões pessoais. Brasília: Editora UnB, 1996b.
––––––––. Perfis. Porto Alegre: Globo/MEC, 1971.
––––––––. Ficções. Porto Alegre: Globo, 1970.
CORTÁZAR, J. Alguns aspectos do conto. In: Valise de cronópio. São Paulo: Perspectiva, 1974.
––––––––. Do sentimento do fantástico. In: Valise de cronópio. São Paulo: Perspectiva, 1974.
––––––––. Bestiário. São Paulo: Edibolso, 1977.
––––––––. História de cronópios e famas. São Paulo: Círculo do Livro, s/d.
––––––––. Obra crítica 1. Org. Saúl Yurkievich. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1998.
POE, E.A. A filosofia da composição. In: Poemas e ensaios. Porto Alegre: Globo, 1987.

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Neste texto, trataremos do cruzamento entre narrativa e poesia no romance El
entenado, do escritor argentino Juan José Saer. Pretendemos, com isso, analisar os
procedimentos poéticos encontrados no texto e observar como eles se relacionam,
por exemplo, com um dos núcleos da narrativa de Saer, o questionamento do
estatuto do real e da escrita. Procuraremos, ainda, detalhar em que medida a
transfiguração poética da narrativa, levada a cabo pelo estilo inquisitivo da personagem
central do relato, debate as aporias dos processos significantes da linguagem. Cumpre
assinalar que a composição poética do romance põe em cena o questionamento da
narrativa enquanto modo de linguagem que age à distância e na ausência do objeto.
Partindo do pressuposto que a proliferação de procedimentos poéticos na estrutura do
texto expressa uma procura em representar discursivamente, ainda que de modo
problemático, aspectos, qualidades e valores da experiência que a narrativa diretamente
descritiva e referencial não abarca, buscaremos abordar os efeitos de sentido alcançados
por Saer com esses procedimentos.

Palavras-chave: literatura hispano-americana;


romance; narrativa poética.

In this text we will deal with the intersection of narrative and poetry in the novel
El entenado, of the Argentinean writer Juan José Saer. We intend, with this, to
analyze the poetic procedures found in the text and observe how they relate, for
instance, to one of Saer’s narrative nuclei, the questioning of the real and writing
codes. We will also try to show in what measure the Saer narrative, put into
practice by the inquisitive stvle of the main character of the narrative, debates the
ambivalence of significant language processes. It is also important to state that
the poetic composition of the novel puts into scene the narrative questions as form
of language which acts at a distance and in the absence of the object. Starting
*
from the understanding that the proliferation of poetic procedures in the structure Paulo César Thomaz
of the text expresses a desire to represent discursively, even if it be in the problem é mestre em literatura
mode, aspects, qualities and values of the experience which the directly descriptive hispano-americana
and differential narrative do not cover, we will try to cover the effects of sense
achieved by Saer with these same procedures. pela Universidade
de São Paulo.
Keywords: Atualmente leciona
Spanish-American Literature, Novel, Narrative Poem na Universidade São
Judas Tadeu - SP.

24
EL ENTENADO,
A PRÁXIS POÉTICO-NARRATIVA
DE JUAN JOSÉ SAER
Paulo César Thomaz*

Neste trabalho, trataremos do cruzamento entre nar- liberada pela suspensão do valor descritivo dos enun-
rativa e poesia no romance El entenado, do escritor ar- ciados. É desse modo que o discurso poético traz à
gentino Juan José Saer. Pretendemos, com isso, analisar linguagem significados, atributos e sentidos da realida-
brevemente os procedimentos poéticos encontrados no de que não emergem do discurso diretamente descriti-
texto e observar como eles se relacionam com um dos vo. Esses valores só podem ser expressos por meio
núcleos da narrativa de Saer, o questionamento do esta- dos intrincados vaivéns entre a enunciação metafórica
tuto do real e da escrita. Procuraremos, ainda, detalhar e a transgressão regrada das resistentes significações
em que medida a transfiguração poética da narrativa, le- usuais de nossas palavras e de seu ordenamento.
vada a cabo pelo estilo inquisitivo da personagem central Apesar de entender a linguagem como um obstáculo
do relato, debate as aporias dos processos significantes no interior do discurso narrativo e reconhecer o impasse
da linguagem. que governa a relação entre os objetos que compõem a
Cumpre consignar que a composição poética do ro- experiência humana e o contínuo verbal que usualmente
mance põe em cena o questionamento da narrativa en- denominamos narrativa, a personagem protagonista do
quanto modo de linguagem que age à distância e na au- romance não apaga em definitivo o conteúdo dos signos
sência do objeto. Partindo do pressuposto que a prolife- lingüísticos que utiliza. Sem negar a complexidade e as
ração de procedimentos poéticos na estrutura do texto particularidades do modo de ser da narrativa, que é com-
expressa uma procura em representar discursivamente, posta de palavras e somente de palavras, ela explora pre-
ainda que de modo problemático, aspectos, qualidades e cisamente esse caráter aporético da narrativa, incorpo-
valores da experiência que a narrativa diretamente des- rando esse conflito no relato.
critiva e referencial não abarca, buscaremos abordar os Isso posto, a reformulação especulativa e irônica de
efeitos de sentido alcançados por Saer com esses proce- formas discursivas, o intenso debate sobre a representa-
dimentos. Precisamente por essa perspectiva, Paul ção da conquista espanhola da América e da origem da
Ricouer assinala em A metáfora viva (RICOUER, 1983) América hispânica, o aprofundamento da reflexão sobre
que a função poética da linguagem não se limita apenas a o estatuto da memória e da realidade, a argumentação
recriar e resignificar as palavras por si mesmas; não con- cética acerca da construção de identidades, e a antropo-
siste apenas em um trabalho sobre a linguagem. Ela con- fagia se fazem presentes no romance juntamente com pro-
forma, além disso, um vínculo referencial com o objeto cedimentos poéticos que sublinham continuamente na su-
que a linguagem meramente descritiva deixa escapar ou perfície textual do relato a entranhável, complexa e pro-
não pode abarcar. A interrupção da função referencial blemática relação existente entre linguagem e experiên-
direta e descritiva seria apenas o avesso de uma função cia de mundo que o universo narrativo saeriano procura
referencial mais oculta do discurso, que é de certo modo incorporar.

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Não obstante o reconhecimen- (...) a narrativa saeriana bre a ação (GRAMUGLIO, 1984),
to das indeterminações dos proces- constitui uma escrita em constitui um dos principais elemen-
sos significantes da narrativa que tudo o que é referência tos da práxis literária de Saer, como
transpasse todo o romance, nota- ele mesmo assinala: “A partir de
mos em El entenado uma profu-
permanece numa 1960, mi trabajo literario ha con-
são de procedimentos poéticos que incessante e sistido principalmente en tratar de
deslocam a situação discursiva do problemática tensão borrar las fronteras entre narración
grumete espanhol, desde certa entre determinadas y poesía. (...) Mi objetivo es com-
perspectiva comprometida com as matrizes de significação binar el rigor formal de la narración
circunstâncias históricas às quais moderna con la intensidad de la
se remete, dessa esfera de
e a dissolubilidade percepción poética del mundo”
causticidade absoluta, em que qual- negativa do nada. (SAER, 1981, p. 72).
quer significado ou representação Nos esforços por desdobrar essa
do campo do visível e do observá- retórica ficcional, Saer submeteu
vel não pode sobreviver como instante, ainda que fu- muitos textos, ao longo de sua práxis narrativa, a um
gaz e problemático, de significação. Na passagem do agressivo processo de experimentação, trabalhando in-
romance transcrita abaixo, a personagem protagonista tensamente sobre a sintaxe e as estruturas do relato.
assinala a acentuada arbitrariedade e ambivalência da Em alguns momentos, o grau de dilaceramento do dis-
linguagem indígena: curso narrativo alcançou tal magnitude que deu origem
Era una lengua imprevisible, contradictoria, sin for- a textos ficcionais que podem ser caracterizados como
ma aparente. Cuando creía haber entendido el sig- poesia e não-narração. Ao exacerbar a reiteração de
nificado de una palabra, un poco más tarde me estruturas narrativas e interromper, quase por comple-
daba cuenta de que esa misma palabra significaba to, o encadeamento episódico, por exemplo, o escritor
también lo contrario, y después de haber sabido santafesino ultrapassa as raias que balizam os terrenos
esos dos significados, otros nuevos se me hacían da lírica e da prosa, vizinhança bastante discutida du-
evidentes, sin que yo comprendiese muy bien por rante os anos cinqüenta e sessenta na argentina (SAER,
qué razón el mismo vocablo designaba al mismo 2000, p. 5.)
tiempo cosas tan dispares (SAER, 1983. p. 21). Ricardo Piglia, escritor em permanente diálogo com
Apesar do narrador expressar e reconhecer a ex- a produção literária de Saer, assinala, por exemplo, que
trema heterogeneidade e problematicidade de toda arti- “su obsesión por captar el instante y describir el espacio
culação discursiva significante, podemos reconhecer lo llevó en su mejor libro (La mayor, 1975) a la
em meio ao estatuto ambivalente da linguagem e a essa construcción de narrativas que se destruyen para vol-
presença de mundo obscura e quase irrepresentável ver a armar como si fuesen réplicas microscópicas de
alguns procedimentos poético-narrativos que procu- las máquinas polifacéticas con que siempre soñó
ram dar forma ao relato, não obstante os obstáculos Roberto Arlt” (PIGLIA; SAER, 1995, p. 39). A persis-
lingüísticos que envolvem sua empresa. tência em observar e descrever minuciosamente aquilo
No espaço narrativo do romance, ao passo que a sub- que é narrado, sublinhando as propriedades, formas e
jetividade da personagem se debate exaustivamente con- cores dos objetos que ocupam o espaço ficcional, apon-
tra um emaranhado de imagens mnemônicas hipotéticas tada por Piglia, aproximam os textos de Saer, segundo
e ambíguas, construídas por uma linguagem igualmente alguns críticos, do estilo “objetivista” extremo do
aproximativa e imprecisa, uma complexa experiência de nouveau roman francês. Por meio de descrições cir-
mundo emerge, reivindicando firmemente um caráter culares que incorporam uma multiplicidade de pers-
aporético. Nesse exaustivo conflito entre as faculdades pectivas narrativas, e do obsessivo rebaixamento da
cognitivas da consciência e a linguagem, impresso em ação, a narrativa saeriana constitui uma escrita em que
tecido textual que se auto-avalia continuamente, há uma tudo o que é referência permanece numa incessante e
reelaboração intensa das estruturas e dos ritmos da nar- problemática tensão entre determinadas matrizes de sig-
rativa, na tentativa de incorporar a essa malha textual a nificação e a dissolubilidade negativa do nada.
intensidade da percepção poética de mundo. No entanto, embora essa escrita invista contra o contar
O correr poético do discurso em El entenado, que se ininterrupto e orgânico, que outorga unidade ao que é
configura por meio de diferentes procedimentos, como narrado, e incorpore construções rítmicas e sintaxes da
a pontuação que organiza as unidades rítmicas e regula o poesia, ela procura não renunciar ao sentido denotativo
som das palavras, e o uso de formas predicativas, que re- das frases, além de partir sempre de uma zona narrativa
têm o deslizar das frases e, ao mesmo tempo, as dilatam, definida espacialmente, cunhando uma espécie de saga
entornando a conotação do adjetivo sobre o sujeito e so- narrativa. Nesse sentido, o próprio Saer adverte:

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Creo haber tratado de incorpo- de elementos, que observam um
rar relaciones más complejas No empurrão da mesmo ritmo, conferindo certa
entre un sistema de elaboración musicalidade à narrativa, que refor-
poética (poética en el sentido de linguagem para além da çam a ausência de luz naquele mo-
la poesía como género), y las esfera do referente, mento em torno da personagem,
leyes de organización de la pro- (...) desvela-se para não obstante apontar a presença de
sa, repeticiones, construcción estrelas. Em seguida, a conforma-
rítmica y producción de versos o leitor uma ção da paisagem ganha outros ele-
en los textos de prosa, búsqueda experiência do mentos que acentuam a particula-
(por momentos) de nudos en los campo do visível. ridade dos dados referenciais exte-
cuales el nivel denotativo per- riores: as planícies que rodeavam a
siste (PIGLIA; SAER, 1995, personagem permitiam que o rio
pp. 12-13). duplicasse com a mesma intensi-
A desconfiança com respeito às dade a profunda escuridão da co-
regras de estruturação da narrativa, que fez em dife- bertura celeste, além de produzir um achatamento, um
rentes momentos com que a escrita saeriana se tornas- adensamento do espaço narrativo. O próximo momen-
se destacadamente precavida, “como si sólo a través to é de ruptura, de subversão da ordem denotativa da
de múltiples asedios indirectos la realidad finalmente se narrativa: a canoa parece, ao menos no plano das im-
rindiera; como si sólo una paciente textura de visiones pressões do narrador, deslizar através do “firmamento
repetidas y cambiantes pudiera delinear en su reverso negro”. Irrompe então a imagem poética: desse ponto
la figura que captura el evanescente acaecer” em diante o toque do remo na água transubstancia-se
(CORBATTA, 1992, pp. 564), marca igualmente os em movimento textual que se liberta do referente, ain-
conflitos do narrador de El entenado, não obstante o da que não o afaste definitivamente. É importante assi-
romance não reproduzir esses “múltiples asedios” com nalar que o sentido denotativo não desaparece em ne-
a mesma intensidade que outros textos saerianos. nhum momento desse trecho do texto.
Apesar de não encontrarmos no romance, com a No empurrão da linguagem para além da esfera do
mesma intensidade, as repetições, o fracionamento e a referente, que incorpora uma súbita distensão do tempo
dilatação da percepção do tempo em contrapartida ao mediante a transposição da narrativa para o espaço anímico
estreitamento da história narrada que distinguem grande da personagem narradora, desvela-se para o leitor uma
parte da referida práxis literária saeriana, podemos ob- experiência do campo do visível. A correlação entre o
servar, igualmente, uma elaboração textual rigorosa que espaço-tempo da personagem e os diferentes estratos das
entrelaça uma narrativa acentuadamente vertical, que não coisas sensíveis surge apenas por meio de um firme in-
se detém em partes nem capítulos e que encerra uma su- tuito discursivo que quer explorar as regiões subterrâne-
cessão de acontecimentos romanescos, com uma lingua- as dessa circunstância individual. O esmiuçamento, por
gem de exacerbada intensidade simbólica e poética, que meio do tratamento poético das estruturas do texto, dos
assedia e interroga os sucessos obsessivamente com in- atributos que compõem esse curto instante de tempo per-
quietações de ordem filosófica, como no trecho abaixo mite ao leitor transitar por complexas associações me-
reproduzido: tafóricas, por novos predicados do discurso – as estrelas
Llegó la noche. Era una noche sin luna, muy oscura, que se diluem no elemento que as origina – que tornam a
llena de estrellas; como en esa tierra llana el hori- experiência individual um degrau para outra, coletiva e
zonte es bajo y el río duplicaba el cielo yo tuve, mítica.
durante un buen rato, la impresión de ir avanzando, Além disso, podemos observar no trecho um claro
no por el agua, sino por el firmamento negro. Cada intuito narrativo de reforçar determinadas correspondên-
vez que el remo tocaba el agua, muchas estrellas, cias semânticas e regularidades de sinonímia, recorren-
reflejadas en la superficie, parecían estallar, tes e importantes em todo o texto, como o questiona-
pulverizarse, desaparecer en el elemento que les daba mento da origem e a ausência de luz como metáfora de
origen y las mantenía en su lugar, transformándose, uma aflitiva existência.
de puntos firmes y luminosos, en manchas informes Devemos assinalar ainda outro recurso narrativo que
o líneas caprichosas de modo tal que parecía que, acentua o vínculo entre El entenado e o conjunto de obras
a mi paso, el elemento por el que derivaba iba siendo que lhe antecede e que apresenta da mesma maneira o
aniquilado o reabsorbido por la oscuridad (SAER, mencionado caráter poético: a dilatação e intensificação
1983, p. 90). do espaço circundante por meio da descrição pormeno-
Nessa passagem, a personagem avança pelo rio rizada e reiterada da luz, de cores e dos elementos na-
sobre uma canoa indígena. Há no texto uma reiteração turais que o conformam, além da distensão do tempo

Papéis : rev. Letras, Campo Grande, MS, v. 7, n. 14, p. 24-29, jul./dez. 2003
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por meio da introspecção da per- Isso considerado, a perspecti-
sonagem em seu mundo anímico. va gnosiológica e polêmica que
Não obstante a impressão de flui-
O mundo quer decompor o espaço da expe-
dez, naturalidade e inteligibilidade torna-se, então, riência e que atravessa toda a
do relato de certo modo linear do um conjunto de tessitura do relato da personagem
grumete, podemos notar a presen- ganha corpo precisamente no mo-
ça de uma configuração narrativa
impressões vazias, mento em que se duplicam os elos
em que os dados sensíveis referen- em que a intermediários entre a linguagem
tes às cores e luzes ganham relevo coisa-em-si está poética e a linguagem narrativa. O
e conformam um espaço ficcional correr do discurso que quer pas-
pleno de imagens-impressões que
ausente. sar da ignorância ao conhecimen-
sublinham sobretudo o caráter sen- to, que se torna mais contundente
sível dos objetos do mundo: ao final do relato, desemboca numa
En la luz tenue y uniforme, que linguagem que precisa incorporar
se adelgazaba todavía más contra el follaje continuamente a poesia à narrativa, como uma força
amarillo, bajo un cielo celeste, incluso blanquecino, em luta com o tumulto insondável da realidade contin-
entre el pasto descolorido y la arena blanqueada, gente, sobre a qual paira a dúvida parodiante do signi-
seca y sedosa, cuando el sol, recalentándome la ficado. Cito o romance:
cabeza, parecía derretir el molde limitador de la Desde hace años, noche tras noche me pregunto,
costumbre, cuando ni afecto, ni memoria, ni siquiera con los ojos perdidos en la pared blanca en la que
extrañeza, le daban un orden y un sentido a mi vida, bailotean los reflejos de la vela, cómo esos indios,
el mundo entero, al que ahora llamo, en ese estadio, cerca como estaban, igual que todos, de la
el otoño, subía nítido, desde su reverso negro, ante aceptación animal, podían perderse en esa negación
mis sentidos, y se mostraba parte de mí o todo que de lo que a primera vista parece irrefutable. Entre
me abarcaba, tan irrefutable y natural que nada tantas cosa extrañas, el sol periódico, las estrellas
como no fuese la pertenencia mutua nos ligaba, sin puntuales y numerosas, los árboles que repiten, obs-
esos obstáculos que pueden llegar a ser la emoción, tinados, el mismo esplendor verde cuando vuelve,
el pavor, la razón o la locura. (SAER, 1983, p. 71) misteriosa, su estación, el río que crece y se retira,
Nesse trecho, o desdobramento do espaço la arena amarilla y el aire de verano que cabrillean,
circundante e o cruzamento de temporalidades que se el cuerpo que nace, cambia, y muere, palpitante, la
remetem à natureza e à psique da personagem introdu- distancia y los días, enigmas que cada uno cree, en
zem e modificam, por meio do ritmo e do conteúdo sus años de inocencia, familiares, entre todas esas
adjetivo que contêm, o modo de ser e o caráter das presencias que parecen ignorar la nuestra, no es
especulações de ordem filosófica e metafísica da per- difícil que algún día, ante la evidencia de lo
sonagem protagonista que despontam em seguida. inexplicable, se instale en nosotros el sentimiento,
Além dessa conformação narrativa, o aparente en- no muy agradable, por cierto, de atravesar una
cadeamento linear do relato, que se torna a cada mo- fantasmagoría, un sentimiento semejante al que me
mento mais denso em razão da complexidade dos pro- asaltaba, a veces, en el escenario del teatro cuando,
cessos significantes em jogo, tem o curso entre telones pintados, ante una muchedumbre de
reconfigurado pelo alvoroço resultante do uso exces- sombras adormecidas, veía a mis compañeros y a
sivo da lucidez e da palavra argumentativa – muitas mí mismo repetir gestos y palabras de las que estaba
vezes cética – por parte da personagem protagonista, ausente lo verdadero (SAER, 1983, pp. 126-127).
no esforço hermenêutico de decifrar a si mesma e a Guiada por uma interrogação que a acossou duran-
cosmovisão indígena. As interrogações acerca do sen- te longos anos e desde uma temporalidade distante, a
tido da experiência e realidade humana emergem en- personagem percebe diante de si o abismo cambiante
tão em meio a esses espaços e temporalidades, que a separa do mundo exterior, a cisão entre sua sub-
construídos discursivamente, de forte poder simbóli- jetividade, consciência, e os objetos que o compõem.
co e poético, que as matizam e contaminam. Porém, O mundo torna-se, então, um conjunto de impressões
as distendidas ações discursivo-especulativas da per- vazias, em que a coisa-em-si está ausente. Diante des-
sonagem protagonista que buscam atingir uma ses fenômenos indeterminados e vacilantes, que ape-
positividade não deixam de questionar concomi- nas o olhar do sujeito vivifica, da inconsistência da re-
tantemente o que as palavras designam e o processo alidade, a personagem declara a radical exterioridade
mesmo de significação, seu sistema de significantes e das coisas do mundo, culminando na suspeita da vida
significados. como representação, espectro ou sombra parodiante.

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Por outra parte, a desconfiança em relação aos pro- mentação cética são elementos que neste texto confor-
cessos de representação do real, corrente em todo o mam e contribuem para que o universo narrativo do
texto, está da mesma forma presente nas diferentes romance incorpore a percepção poética de mundo men-
figurações da história de El entenado que se constitu- cionada anteriormente. Dessa maneira, através da voz
em no interior mesmo do texto. A título de exemplo, narrativa inquisitiva e inconclusiva do grumete, alojada
citamos a Relación de abandonado escrita pelo Padre em um centro de solidão concentrado (BACHELARD,
Quesada e a comedia teatral baseada em sua experiên- 1998), que percorre a narrativa do romance desarticu-
cia com os índios colastinés (MONTELEONE, 1985). lando o tecer da intriga e vivenciando com uma aguçada
Há ainda outros núcleos narrativos medulares em percepção a experiência do tempo, Saer reivindica cer-
Saer que estão presentes de forma destacada em El ta postulação especulativa da narrativa. Filosofia do co-
entenado e dizem respeito ao caráter poético de sua nhecimento, antropologia especulativa, são suas pala-
práxis literária. A interdição deliberada do sentimento vras preferidas para caracterizar um discurso literário
constitui um deles, e pode ser observada, por exem- que propõe um estatuto de realidade destacadamente
plo, no absoluto não envolvimento da personagem com mais próximo dos fluxos e vacilações da consciência
as demandas indígenas. Apesar do discurso poético se que das convenções da escrita (CHEJFEC, 1994,
caracterizar por um transbordamento dos atributos p. 115 ).
retóricos que fazem referência a diferentes sentimen- Assim sendo, a apresentação especulativa do mun-
tos presentes no ser humano, o exercício programático do ficcional, em que tempo e espaço são abordados
da ascese e da lucidez em El entenado conformam com ceticismo, a experiência discursiva adensada e
uma ordem narrativa em que a sentimentalidade não esclarecida pela inteligência percorre de forma acentu-
constitui o único eixo para alcançar a tensão poética. ada a sintaxe textual de El entenado. Em seu sistema
As figuras poéticas que aparecem no contínuo sim- narrativo nos deparamos com uma série de procedimen-
bólico verbal elaborado pelo grumete existem sobretudo tos poéticos que conformam uma linguagem que explora
enquanto instrumentos que procuram dar conta desse pre- precisamente os novos modos da presença (re-
cipitar-se sobre a mundividência indígena e sobre a pró- presentação) dos objetos do mundo. Ante a consci-
pria existência da personagem. Na busca por decifrar olha- ência de que o ser da linguagem é o não ser do objeto,
res e comportamentos, a linguagem poética torna-se im- resta somente a Saer se esquivar das categorias lógi-
prescindível visto que apenas por meio dela a complexa, cas da escrita narrativa para abrir uma fenda no logos
fragmentária e ambivalente experiência dos índios e da da leitura a fim de expressar o conjunto de relações
personagem pode emergir. simbólicas em que consiste nossa percepção da reali-
Assim, a subsistência do sujeito atrelada ao discur- dade. A disposição seqüencial dos fatos não esconde
so que o constitui, a desconfiança na possibilidade de a feição dubitativa e ao mesmo tempo lírica do ro-
perceber a realidade, o desvelamento da deficiência mance, que arranca o presente dilatado da persona-
ontológica característica do tempo humano, a consci- gem protagonista da experiência imediata, de um es-
ência como fluxo incessante de impressões e a argu- tar no mundo orgânico e abarcável.

Bibliografia
BACHELARD, Gaston. “A casa. Do porão ao sótão. O sentido da cabana.” In: A poética do espaço. São Paulo, Martins Fontes,
1998, p. 50.
CHEJFEC, Sergio. “La organización de las apariencias.” In: Hispamérica. Abril, 1994, pp.109-116.
CORBATTA, Jorgelina. “En la Zona, germen de la praxis poética de Juan José Saer.” In: Actas del X Congreso de la Asociación de
Hispanistas. Barcelona, Promociones y Publicaciones Universitarias, 1992.
GRAMUGLIO, María Teresa. “La filosofía en el relato.” In: Punto de Vista. Buenos Aires, nº 20, 1984, pp. 35-36.
MONTELEONE, Jorge. “Eclipse de sentido: de Nadie nada nunca a El entenado de Juan José Saer.” In: Sitio. Buenos Aires, mayo,
n° 4-5, 1985, pp. 153-175.
RICOUER, Paul. A metáfora viva. Porto, Res, 1983.
SAER, Juan José. El entenado, Buenos Aires, Alianza, 1983
SAER, Juan José, Paris, 1981. In: Historia de la literatura Argentina. Buenos Aires, Cedal, capítulo nº 26.
SAER, Juan José. “Sobre Literatura.” In: Cuadernos de Recienvenido. São Paulo, Humanitas, 2000.
SAER, Juan José; PIGLIA, Ricardo. Diálogo. Santa Fé, Universidad Nacional del Litoral, 1995.

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Este trabalho apresenta uma visão geral dos resultados de nossa pes-
quisa realizada como Dissertação de Mestrado (2002), que também
reúne uma lista de referências resenhadas, visando tornar conhecida
a bibliografia crítica sobre Manoel de Barros. Buscando oferecer sub-
sídios a outros pesquisadores interessados na poesia do autor.
Palavras-chave:
Crítica Literária, Bibliografia, Manoel de Barros.

This paper presents a general view of the results of our master


dissertation (2002), that brings together a list of commented
references intending to make known the Manoel de Barros´
discussed bibliography, offering subsidies to others researchers
which are interested in the poetry of this author.
Keywords:
Literary Critique, Bibliography, Manoel de Barros.

*
Walquíria Gonçalves
Béda é doutoranda em
Teoria Literária e
Literatura Comparada
na FCL da UNESP -
Campus de Assis.

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ALGUNS ASPECTOS DO
INVENTÁRIO BIBLIOGRÁFICO
SOBRE MANOEL DE BARROS
Walquíria Gonçalves Béda*

No Brasil, ainda há muito a ser feito no campo da (89); B-II: teses e livros (24); C-I: correspondência
documentação bibliográfica, pois podemos constatar passiva (02); D: textos da internet; E: homenagens ao
facilmente a precariedade de fontes de pesquisa. Por poeta (35).
conseguinte, realizamos um estudo que reúne uma Quanto aos autores, os textos recolhidos têm a
lista de referências resenhadas, visando tornar conhe- presença de alguns nomes ilustres da nossa literatura,
cida a bibliografia crítica sobre Manoel de Barros e como os de Alfredo Bosi, Wilson Martins e Antonio
oferecer subsídios a outros pesquisadores interessa- Houaiss. Outros nomes interessantes que também fa-
dos na poesia do autor. Essa história das opiniões zem parte do rol daqueles que escreveram sobre
sobre Barros está acompanhada por uma síntese dos Manoel de Barros são Arnaldo Jabor, Carlos Emílio
caminhos adotados pela crítica literária brasileira du- Correa Lima, Michel Riaudel e Ênio Silveira.
rante os seus sessenta anos de produção poética. Passando à análise dos títulos recolhidos, consta-
Para complementarmos nosso estudo, fizemos a tamos que os textos classificados como reportagens e
descrição e tecemos alguns comentários sobre os tex- incluídos na categoria A-III representam o maior nú-
tos, que foram organizados e arquivados de acordo mero de artigos encontrados. São matérias escritas na
com a classificação dada por nós. Realizamos uma época de lançamento e relançamento de livros, de
entrevista com o poeta acerca da crítica sobre sua recebimentos de prêmios, ou de concessão de home-
obra, sobre a opinião e o interesse de seus leitores. nagens. Elas abordam muito mais o lado pessoal e
Elaboramos um índice dos periódicos pesquisados e social do poeta. Nesses textos, o enfoque dado à sua
dos autores que escreveram sobre o poeta. Fizemos o poética é geralmente feito de maneira muito
levantamento numérico dos textos arquivados e o le- simplificada, não justificando uma atenção mais deti-
vantamento numérico dos textos por classificação, bem da de nossa parte. Quase sempre, são citadas idéias
como verificamos a incidência desses textos década a já apresentadas anteriormente por alguns estudiosos,
década (1942-2002). e que foram ouvidas ou lidas por jornalistas.
Dessa forma, conseguimos reunir ao todo 549 tex- Nesse conjunto de textos, e em alguns outros do-
tos sobre Manoel de Barros. Todo esse material está cumentos, é comum lermos certas frases que se tor-
organizado alfabetica e cronologicamente. O esque- naram uma espécie de clichê ao se falar de Manoel de
ma de classificação e o número de textos arquivados Barros. Vários colunistas, jornalistas e críticos o cha-
são os seguintes: maram de “o poeta do Pantanal”, o “Guimarães Rosa
A-I: resenhas (58 textos); A-II: entrevistas (47); da poesia”, “o poeta das coisas ínfimas”, “o poeta do
A-III:reportagens (294); B-I: ensaios ou monografias chão”.

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A comparação com outros es- A projeção de para assobio, de 1982, e que
critores também é de praxe. João Manoel de Barros na aguardou a mídia se manifestar,
Cabral de Melo Neto, Fernando mídia aconteceu em mas saíram apenas duas “notinhas”
Pessoa e Clarice Lispector são al- elogiando o livro. Para ilustrar seu
guns dos nomes mais citados, sen- 03/out/1984, quando texto, transcreve versos do poe-
do o mais freqüente e discutido Millôr Fernandes, ma “Sabiá com trevas”, e defende
deles o do mineiro João Guima- em sua coluna para a a poesia de Manoel de Barros:
rães Rosa. Tal comparação será Estou apresentando hoje, a vocês,
revista Istoé, apresenta
objeto de comentário posterior. um poeta, Manoel de Barros, de
Passando para uma outra ca- o poeta e transcreve um Mato Grosso do Sul. Não é um
tegoria, podemos afirmar que, ao de seus poemas. novato. De vida tem mais de 60
examinarmos as resenhas, verifi- anos. De poesia, o dobro. Há dois
camos que é comum encontrar- anos fiz a capa de um livrinho seu,
mos os nomes de Berta Waldman, José Maria admirável: Arranjos para assobio. Dois anos! Fi-
Cançado, José Castello, Anna Regina Accioly, Lúcia quei esperando que a mídia se manifestasse. Que
Castello Branco, Douglas Diegues, Maria Adélia escritores especializados se manifestassem. O Su-
Menegazzo, e Sérgio Rubens Sossélla, os quais reve- plemento Literário Minas Gerais (honra ao jor-
lam um interesse assíduo pelas publicações barrianas. nal!) deu duas notas, elogiando. Foi só. “Não é
Como trabalhos acadêmicos, podemos citar: A um país sério” – já dizia o narigudo francês.
poética alquímica de Manoel de Barros. Dissertação (Millor, Istoé, 1982)
(Mestrado em Letras), 1988 e A poética do fragmen- Os comentários do humorista serviram de apoio
tário: Uma leitura da poesia de Manoel de Barros. para alguns outros, como o de Otto Lara Resende, O
Tese (Doutorado em Letras), 1996, ambos de Globo, 18/ago/1985, e o do Jornal Moda Guaicurus,
Goiandira de F. Ortiz de Camargo; A poética de de 01/nov/1986. O texto de Millôr Fernandes foi um
Manoel de Barros: a linguagem e a volta à infância. dos primeiros a ter repercussão, sendo que a partir de
1992, de Afonso Castro; além de A poética de Manoel então o poeta começou a ser mais notado. Mas a
de Barros: Um jeito de olhar o mundo. Dissertação fama só começaria a alcançá-lo quatro anos depois,
(Mestrado em Letras), 1998, de Kelcilene Grácia da em 1988.
Silva. Tudo começou com a entrevista intitulada “Escri-
As entrevistas concedidas por Manoel de Barros tos para el conocimiento del suelo”, publicada na re-
são documentos informativos sobre sua vida e sua vista espanhola El Paseante, n.º11, e escrita por Carlos
obra; no entanto, vão além: apresentam–se impreg- Emilio Correa Lima em dezembro de 1988. Esse foi
nadas pela linguagem poética de seu autor. São fontes um grande passo para Manoel de Barros finalmente
importantes de pesquisa, visto que possibilitam a com- abandonar o anonimato.
preensão do poeta, de suas origens, de onde provém A revista espanhola situa Manoel de Barros como
a sua matéria-prima, seu modo de criar e as influênci- “Poeta do Pantanal” e traz a tradução de sete de seus
as que sofreu sua formação poética. poemas, feita por Mário Merlino. O escritor responde
Dos textos classificados como biobibliográficos, o a perguntas sobre ter o chão como seu cosmos, sobre
mais antigo de que temos notícia data de 28/out/1942, os detritos que servem para a poesia, sobre as árvo-
publicado no jornal O Diário, em Belo Horizonte, e res e os animais em extinção e sobre a função do
fala do lançamento do livro Face Imóvel. Uma outra poeta no mundo de hoje:
matéria publicada em 28/nov./1942, no jornal Cario- Manoel de Barros aparece nessa publicação ao lado
ca do Rio de Janeiro, também trata do lançamento de de estrelas da Literatura Brasileira. Depois dessa en-
Face Imóvel e classifica o poeta como “moderno, trevista, começa a ser considerado também no Brasil
criador de ritmos, liberto da tirania da métrica”. como um dos melhores poetas da atualidade. São es-
A projeção de Manoel de Barros na mídia aconte- critas várias reportagens sobre a entrevista concedida
ceu em 03/out/1984, quando Millôr Fernandes, em a El Paseante, e sobre o valor que Barros passa a
sua coluna para a revista Istoé, apresenta o poeta e representar para a Literatura Brasileira, dentro e fora
transcreve um de seus poemas. No texto, Millôr ques- do país.
tiona o silêncio da mídia e dos críticos literários a Um texto que ilustra bem a propagação que teve a
respeito de Barros, fala que fez a capa de Arranjos publicação de “Escritos para el conocimiento del suelo”

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é o do francês Michel Riaudel: Podemos verificar, como pano de fundo os textos de
“L’exercice poétique de analisando Manoel de Barros. Várias referên-
l’innocence”, publicado na Infos as publicações cias a elas podem ser encontradas
Brésil nº 44, na França, em janei- nos textos recolhidos.
ro de 1989. Para o francês, os citadas, que o Ainda sobre os textos arranja-
poemas seduzem à primeira leitu- curta-metragem de dos na categoria A-III, verifica-
ra por seu modo inovador, onde Pizzini rendeu ao mos a existência de um outro fa-
há algo de simples e de muito in- tor que teve suma importância no
poeta destaque na
fantil. Escolhe o todo de coisas lançamento do poeta no Brasil e
inocentes e coisas do mundo. mídia por pelo no exterior: a amizade e a admira-
Outro fator que auxiliou na di- menos dois anos. ção travada pelo filólogo Antonio
fusão da poesia de Barros nos Houaiss. Ele não escondia que era
grandes centros e em seu próprio um dos “fãs-famosos” do poeta e
estado foi a produção do curta-metragem de Joel foi o responsável por mais de duas orelhas de livros
Pizzini, Caramujo-Flor. A primeira notícia que se tem lançados por Barros.
sobre o filme data de 21/abr/1987, publicada no jor- O nome de Houaiss aparece em vários textos, ci-
nal Diário da Serra, de Campo Grande. tado como um dos apreciadores da poética barriana,
Na matéria, Barros é apontado por nomes reco- assim batizada por ele. No texto publicado na Folha
nhecidos no mundo literário e jornalístico como um da Tarde, de Corumbá-MS, em 18/set/1974, encon-
dos maiores escritores e poetas do Brasil. O filme, tramos:
segundo a reportagem, é uma das primeiras atitudes Mestre Antonio Houaiss, observando a pouca re-
no sentido de propagar a poesia do sul-mato-grossense percussão dos livros do poeta, escreveu: ‘É incrí-
no âmbito nacional e internacional. vel que quem tenha atingido o seu nível de
Outros textos enfocam a produção do curta- mentação e formalação poética, não seja um nome
metragem. Na matéria publicada no jornal O Globo, trombeteado’.
em 06/jul/1987, Gualter Mathias Neto afirma que O (Folha da Tarde, 18/set/1974)
inviável anonimato do Caramujo-Flor é o resgate de Sobre os admiradores célebres de Manoel de Bar-
uma dívida nacional que começa a ser filmado por ros, não deixaríamos de falar do também poeta Carlos
Joel Pizzini. Drummond de Andrade que, certa vez, ao ser questi-
Na matéria publicada por Luca Miranda no Jor- onado sobre qual o melhor poeta do Brasil, respon-
nal do Brasil Central, em Campo Grande, em 12/ deu que era Barros, cujos versos apreciava muito.
nov/1988, lemos que o filme primeiramente recebeu Drummond é presença constante nas resenhas e re-
o título de O inviável anonimato do Caramujo-Flor portagens sobre o poeta pantaneiro, certamente por
para simplesmente estimular o interesse de patrocina- se tratar da opinião de um escritor que tem um valor
dores pela produção. O elenco final foi composto por indiscutível na poesia brasileira.
Ney Matogrosso, nascido em Bela Vista-MS, que fez Abordaremos agora a aproximação de Barros com
o papel principal; Rubens Correa, de Aquidauana-MS, um grande prosador da literatura brasileira. Facilmen-
e Aracy Balabanian, de Campo Grande, estrearam no te podemos constatar que a ligação de Guimarães Rosa
cinema; Tetê Espíndola e Almir Sater cederam voz e e Manoel de Barros também é muito comentada nos
imagem à produção do curta-metragem. periódicos e trabalhos realizados sobre o poeta. Liga-
No texto “Manoel de Barros, ‘O Caramujo-Flor’, ção e semelhanças na deturpação lingüística. O poeta
que saiu do anonimato”, publicado no Jornal do Bra- escreveu alguns textos contando da sua amizade com
sil Central em 27/ago/1989, é noticiado que o filme Rosa e de uma viagem que fizeram ao Pantanal (Bric-
já foi premiado três vezes, e é citado como um dos A-Brac, 1989; Veja Centro-Oeste, out/1991; Veja, 05/
melhores curtas do Festival de Cinema de Gramado jan/1994; Bravo, jun/1998). Conta a história que Bar-
(RS). ros serviu de guia pantaneiro do prosador durante a
Podemos verificar, analisando as publicações cita- sua viagem ao Pantanal de Mato Grosso.
das acima, que o curta-metragem de Pizzini rendeu No texto intitulado “Uma alma com espaço aberto
ao poeta destaque na mídia por pelo menos dois anos. estimula o prazer de ler”, escrito por Márcio Vassalo
Temos notícia de que, nos últimos dez anos, pelo e publicado na revista Lector em 1997, aparece uma
menos doze peças de teatro foram encenadas tendo entrevista realizada por Pedro Bial, na qual se diz que

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as conversas entre Manoel de Analisando alguns contos de
Barros e Guimarães Rosa são fic- Rosa, mais especificamente “Ave
tícias, que Manoel é poeta, prega
Sabemos Palavra”, e poemas de Concerto
peças. Que o poeta foi apresen- que as entrevistas a céu aberto para solos de ave,
tado a Rosa pelo embaixador concedidas pelo de Barros, Goiandira Camargo
Mário Callado, muito amigo dos poeta apresentam afirma que o poema “Caderno de
dois. Afirma que Barros talvez andarilho” dialoga visivelmente
seja o único sucessor de Rosa. linguagem poética; com o prosador. São transcritos e
Apesar de ser repetidamente são, portanto, comparados versos das duas
comparado ao prosador, Barros já ficcionais. obras.
provou que tem seu estilo próprio Ao finalizar seu trabalho, a au-
e que não merece o título de “o tora afirma que:
Guimarães Rosa da poesia”, pois A obra barreana cria uma sime-
rotulá-lo dessa forma seria como se olhássemos um tria com a de Rosa, mas como a simetria tam-
prisma somente por um lado: perderíamos parte de bém passa pela absoluta confiança na liberdade
sua beleza e encanto. de inventar, Barros, em momento algum, repete
Em se tratando de Rosa e Barros, não podería- Rosa. Pelo contrário, Barros na historicidade li-
mos deixar de mencionar o estudo realizado pela Dra. terária, reinventa Rosa, com tal força poética e
Profa. Goiandira Ortiz de Camargo, da UFG. O tra- originalidade que instaura o lugar da consciência
balho leva o título “Guimarães Rosa e Manoel de de leitura no espaço da poesia.(Camargo, 1999:
Barros: confluências de poética”, e foi publicado na 51-2).
revista Vintém de Cobre, editada na Cidade de Goiás Entendemos, depois das leituras e considerações
– GO. feitas até o presente momento, que o resultado de
Neste ensaio, Goiandira Camargo faz uma aproxi- nossa coleta bibliográfica indica um número baixo de
mação desses dois autores situando Barros como lei- textos realmente críticos da obra de Manoel de Bar-
tor do autor mineiro, e considerando, assim, a ros. Constatamos que os que enfocam a vida do poe-
historicidade literária: a tradição influenciando os tex- ta, os chamados textos jornalísticos, são numerica-
tos novos. Segundo a professora, mente superiores aos estudos realizados sobre sua
Rosa, diferente de Oswald de Andrade que é uma poética.
influência explícita nos seus primeiros livros, e de É também lamentável constatar que em certos es-
Raul Bopp, Murilo Mendes e Jorge de Lima, au- tudos deparamos com reproduções de algumas ob-
tores que, junto com a linhagem dos românticos, servações totalmente enganosas sobre a biografia do
esboçam a genealogia poética de Barros, confi- autor como, por exemplo, dados sobre o local de seu
gurando a “casualidade interna”, de que fala An- nascimento e de sua moradia, além da troca (habitual
tonio Candido, representa a afinidade eletiva. no início) de Manoel para Manuel, o que acredita-
(Camargo, 1999:46). mos ser uma herança de Manuel Bandeira. Ressalta-
A autora faz menção às entrevistas que reuniu, mos que os textos foram resenhados sem buscar rea-
publicadas em jornais e revistas, e diz que, na maioria lizar correções. Todas as informações equivocadas
delas, Barros narra o encontro que teve com Rosa no sobre o poeta podem ser verificadas com uma leitura
Pantanal, no ano de 1956. De acordo com a análise atenta das sinopses.
de Camargo, o tom dessa narrativa é de admiração e Há também algumas observações simplificadas a
humildade, e as considerações sobre a conversa que respeito da obra barriana, com pouca presença de
travou com o mineiro são incomuns, prova de que estudos e análises que se baseiem em teorias bem
estão muito mais para a criação, do que para uma fundamentadas, e que tentem explicar ou demonstrar
conversa normal. essas observações.
Sabemos que as entrevistas concedidas pelo poeta Há trabalhos que, no entanto, abordam a poética
apresentam linguagem poética; são, portanto, barriana com muita precisão e qualidade. No capítulo
ficcionais. E, como nos diz Camargo (1999:47), “esse quatro de nossa dissertação, tratamos dos estudos de
encontro pode ter tido data e local, pode fazer parte Mestrado e Doutorado de forma separada, com o in-
da história, mas quando Barros o conta, faz parte da tuito de auxiliar o pesquisador que esteja interessado
estória”. especificamente nesse tipo de estudo.

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Vale lembrar que nosso estu- ra realizados pelo país afora; a não-
do não previa uma análise deta- O resultado de nossa realização de autopromoção no lan-
lhada e profunda dos textos que çamento dos primeiros livros e, en-
conseguíssemos arquivar, mas coleta bibliográfica fim, a própria poética barriana, que
somente servir de apoio para a indica um número para muitos é incompreensível
pesquisa dos estudiosos de Manoel baixo de textos (apesar de Barros alertar: poesia
de Barros. não é para compreender, mas para
Também tínhamos como um de
realmente críticos incorporar).
nossos objetivos pesquisar e veri- da obra de Apesar desses fatores que pre-
ficar a razão para a demora no Manoel de Barros. judicaram e prejudicam muito, ou
reconhecimento literário do poe- em parte, a expansão dos admi-
ta, e o porquê de esse reconheci- radores da obra barriana encon-
mento ainda se fazer tímido em tramos hoje, no início do século
estudos mais críticos. XXI, um Manoel de Barros com oitenta e seis anos,
Com a leitura dos textos arquivados, em conversas com a autoridade de quase vinte livros publicados e
com Manoel de Barros e com professores que acom- detentor do título de melhor poeta brasileiro em ativi-
panham a poesia barriana, pudemos concluir que vári- dade.
as são as causas para a lentidão do alcance da fama e Esperamos que nosso estudo auxilie os pesquisa-
do prestígio devidamente merecidos por Barros. dores da poética de Barros, no sentido de mostrar o
Podemos apontar como principais motivos o fato que se tem estudado sobre o poeta, e orientar sobre
de o poeta residir em uma cidade que não faz parte do o que ainda falta ser analisado, para que Manoel de
eixo cultural Rio-São Paulo; a timidez excessiva do Barros possa ser devidamente reconhecido pelos lei-
escritor, que se recusa a participar de programas de tores de Poesia Brasileira, por críticos e acadêmicos
TV e a proferir palestras em Congressos de Literatu- de todo o país.

Referências Bibliográficas
CAMARGO, G. Guimarães Rosa e Manoel de Barros: confluências de poética. Vintém de Cobre. Goiás: UFGO, 1999.
CARPEAUX, O M.. Pequena Bibliografia Crítica da literatura Brasileira. Ministério da Educação e Saúde, Serviço de Documen-
tação. Rio de Janeiro, 1951.
FERNANDES, M. IstoÉ. Rio de Janeiro, 18/set/1982.
FIGUEIREDO, F. Aristarchos. Livraria H. Antunes. Rio de Janeiro, 1941.
FOLHA da Tarde. Corumbá, 18/set/1974.
NUNES, B. Crítica Literária no Brasil, ontem e hoje. In: MARTINS, M. H. (Org.). Rumos da Crítica. São Paulo: Editora SENAC SP:
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OLIVEIRA, A. M. D. de O. Estudo Crítico da Bibliografia sobre Cecília Meireles. Universidade Estadual de Campinas. São Paulo,
1988.

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The main objective of this paper is to identify, define and analyze the signals of
hesitation present in the speech of a group of adult Brazilian English as foreign
language students. The relationship between the group linguistic proficiency level
and the presence of the phenomena of hesitation is discussed as well. The data for
the study was obtained from students of three different proficiency levels who were
evaluated in three different activities. The students’ mental speech production
processes were inferred from perfonnance and introspection data. The taxonomy
employed to identify the signals of hesitation was based on the existing types,
specifically those of Faerch and Kasper (1983) and Goldman-Eisler (1972). The
general results of this study indicated that although speakers basically use the same
signals of hesitation during the speech planning and execution process, their
frequency varies according to the student’s proficiency level, suggesting that the
phenomenon of hesitation in terms of types, frequency and use, is transitory and
dynamic.

Keywords:
English, Phenomenon, Hesitation, Strategy, Communication.

Este estudo tem como principal objetivo identificar, definir e analisar os signos
de hesitação presentes nas falas de um grupo de estudantes brasileiros, adultos,
aprendizes de inglês. Adicionalmente, a relação entre o nível de proficiência
lingüística do grupo e a presença do fenômeno de hesitação é discutida. Os dados
para o estudo foram obtidos de alunos de três diferentes níveis de proficiência
que foram testados em três diferentes atividades. Os processos mentais de produção
de fala dos alunos foram inferidos a partir de dados de desempenho e introspecção.
A taxonomia empregada para a identificação dos signos de hesitação foi baseada
em tipologias existentes, mais especificamente a de Faerch and Kasper (1983) e
Goldman-Eisler (1972). Os resultados gerais deste estudo indicaram que apesar
*
dos falantes basicamente empregarem os mesmos signos de hesitação durante o Nadir de Assis
processo de planejamento e execução de fala, sua freqüência varia de acordo com Boralli é mestra em
os níveis de proficiência do aluno, sugerindo que o fenômeno de hesitação em Língua Inglesa pela
termos de tipos, freqüência e uso, é transitório e dinâmico. UFSC e professora
Palavras-chave:
no Curso de Letras
inglês, fenômeno, hesitação, estratégia, comunicação. da UFMS - campus
de Dourados.

36
PHENOMENA OF HESITATION
IN INTERLANGUAGE
SPEECH PRODUCTION
Nadir de Assis Boralli*

Research in the area of speech production proces- of which will result in an action which will lead to the
ses suggests that there are two major processing stages actional goal” (p.23)
in speech: planning and execution. The former includes Clark and Clark (1977) call attention to the fact
the syntactic morphological structuring of an utterance that the two processes are not always clearly separated
and the lexical selection, while the latter comprises in time. At any moment planning and execution may
the execution of the utterance under observance of have been processed simultaneously. Speakers may
phonological rules (cf. Clark and Clark, 1977 and have been “planning what to say next while executing
Keller, 1979.) what they have planned moments before” (p.224). In
In the following sample of a learner’s speech face of this it is hard to say where planning leaves off
production we can observe the phenomena of planning and execution begins. However, as Clark and Clark
and execution taking place: assert, “despite this problem, planning and execution
“This story is about – (uh) a guy – that liked to – are convenient labels for the two ends of speech
to go, to:- (uh) – to:, to: - /lægou/ - and to swim – production. The considerations that go into planning
(mhm) and the take off, took off his clothes – and an utterance can generally be distinguished from those
swim. But after (uh) few minutes – he, he:: looked, that go into its execution” (p.224).
looked that clothes and:, and: don’t find and (uh) Faerch and Kasper (1983) point out that two
think, thought: where i:s my clothes?” situations can be established for the occurrence of
As can be observed, problems may appear both in speech phenomena depending on whether the problem
the planning and execution of speech. This little is in the planning phase or is in the execution phase.
passage is full of signals of hesitation such as drawls, Problems within the planning phase may occur
fillers, repetitions and pauses, showing that speech either because the linguistic knowledge is felt to
planning is taking place. be insufficient by the language user, relative to a
In order to fill a gap in the vocabulary, the speaker given goal, or because the language user predicts
created an ‘ad hoc’ form based on his L1. The use of that he will have problems in executing a given
the word /lægou/ (lago in Portuguese) shows his plan. Problems within the execution phase have to
uncertainty about using the word ‘lake’. Observe how do with retrieving the items or rules, which are
the item is preceded by a series of hesitations, showing contained in the plan. The difference between
that he is having difficulties in executing his plan. anticipating fluency or correctness problems and
According to Faerch and Kasper (1983), “the aim experiencing retrieval problems in execution is that
of the planning phase is to develop a plan, the execution in the former case, it is possible to avoid getting

Papéis : rev. Letras, Campo Grande, MS, v. 7, n. 14, p. 36-45, jul./dez. 2003
37
into a problem by developing ...one of the best ways language. The students were all
an alternative plan, whereas in to learn about learners’ adults, their age ranging from 18
the execution phase problems interlanguage behaviour to 30, and were all speakers of the
are there, and have to be solved same L1, Portuguese. Twenty-four
(p.34-35) and to discover about students were selected for the
Speaking, therefore, seems to the mental processes experiment. They were divided into
be divided into two types of underlying such three groups and each group
activities – planning and execution composed of eight subjects,
and there are at least two pheno-
behaviour is to analyse according to their level of
mena that can be clearly observed their deviant proficiency: low proficiency
in the speakers’ communicative utterances... speakers (LPSs), intermediate
behaviour. One is the pheno- proficiency speakers (IPSs) and
menon of hesitation or signals of high-proficiency speakers (HPSs).
hesitation (SHs) pauses, repetitions, fillers,
drawls, which is the subject of this study and the Collection of data
other is the use of communication strategies (foreigni- Students took part in three oral production tasks
zing, approximation, paraphrase). resulting in a total of 72 speech production samples.
Maybe because little is still known about the specific The data were audio-taped and collected in a nor-
occurrence of signals of hesitation in interlanguage (IL) mal language classroom. Students were told to
speech production, no accepted definitions or typologies produce the best they could and as much language
of these variables were found in the literature. The as possible. Each task lesson lasted from 20 to 40
taxonomy of SHs, for the purpose of this study, was minutes.
based on some descriptions provided by Faerch and
Kasper (1983), Sinderman and Horsella (1989),
Goldman-Eisler (1961 and 1972). The commonest types
Instruments
of SHs mentioned by these researchers are: unfilled The subjects in all three groups performed three
(=silent) pauses, filled pauses, lengthening and syllables, production tasks: a) an oral description of the sequence
repetitions, self-corrections, etc. of pictures (CP); b) the retelling of a story told by the
This study was undertaken under the assumption experimenter in L1 (RS) and c) the explanation of
that one of the best ways to learn about learners’ four concrete and four abstract concepts (EC). These
interlanguage behaviour and to discover about the tasks were selected because they have been mentioned
mental processes underlying such behaviour is to in the literature as involving a variety of oral speech
analyse their deviant utterances and to analyse the styles and being frequently performed in real life
phenomena involved in the planning and execution situations (cf. Morrow, 1979; Pint, 1981; Shohamy,
phases of their speech production. 1983; Fulcher, 1987)

Procedures
Methodology The approach followed to detect CSs was the
phenomena of hesitation reflected in the interlanguage
Objectives performance as an index of ‘how’ and ‘where’
The present study has as its main objectives to problems in planning execution are taking place (cf.
identify and to analyse the signals of hesitation Beattie and Bradbury, 1979; Dechert and Raupach,
commonly found in the speech of a group of adult 1983; Faerch and Kasper, 1983).
Brazilian learners while trying to communicate in As in Faerch and Kasper (1983), the phenomena
English; to discuss the possible function of these signals of hesitation such as filled and unfilled pauses,
in their performance and to observe if there is a repetitions and stretching of syllables used as “time-
difference in terms of the use of SHs according to gaining devices for the planning of a subsequent speech
their proficiency level in the target language. unit”(Faerch and Kasper, 1983:215) or the selection
of the nest lexical item (cf. Goldman-Eisler, 1972;
Subjects Seliger, 1980; Decher and Raupach, 1983; Raupach,
The data for the study came from a group of 1983; Bongaerts and Poulisse, 1989; Poulisse and
Brazilian students studying English as a foreign Schils, 1989) was considered a useful tool to understand
Papéis : rev. Letras, Campo Grande, MS, v. 7, n. 14, p. 36-45, jul./dez. 2003
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what goes on while learners are In order to obtain further the subjects. A tape-recorder with
trying to communicate in a second insights on the learners’ the students’ language taped was
language (SL). mental activities involved used as a stimulus for the students
Many researchers (Seliger, to reconstruct what was going on
1980; Raupach, 1983; Dechert and
in the process, a third in their minds at given moments.
Raupach, 1983; Crookes, 1989; research tool used in Thus, the analysis of hesitation
Poulisse and Schils, 1989) assert this study was phenomena in the learners’ speech
the contributions made by this self-observation: data and an introspective analysis
methodological approach, but they reflecting both immediate retros-
delayed retrospection
do not accept it as the only and pection: based on indirect ques-
definitive way of understanding the
based on interviews. tions (questionnaire), and delayed
learner ’s mental processes of retrospection: based on direct
producing oral communication. questions (interviews) were
Poulisse and Schils (1989) assert that a satisfactory considered promising approaches for understanding
interpretation of learner ’s speech performance mental activities involved in language processing.
requires some introspective comments (self-
observational methods) that the subjects themselves Analysis of data
must give on their performance after having completed Each session was tape-recorded and later
the task. Speakers’ intuition may provide valuable transcribed following the transcription symbols
information regarding their cognitive processes of suggested by Marchuschi (1986), and Heritage and
speech production in the TL (tarjet language). Atkinson (1987).
Because of considerable evidence that learners Although the subjects were free to make the
can be used as informants to offer a better introspective comments in their own language or in
understanding of the internal mechanisms of their the TL, when transcribed to this study, the comments
speech production, a second research tool used in which were offered in L1 were translated into English.
this study was self-observation: immediate In order to reduce the data to manageable proportions,
retrospection based on a questionnaire. a simple count frequency was translated into
The methodological framework for reaching the percentages, the latter being considered sufficient for
learners’ mental processes in the production of speech the purposes of this study.
was based on suggestions provided by Hosenfeld
(1977) (1979) Cohen and Aphek, (1981) Cohen and Results And Discussion
Hosenfeld (1981) and Cohen (1984). The first section presents a description, definition
In order to obtain further insights on the learners’ and exemplifications of SHs, and based on the
mental activities involved in the process, a third learners’ introspection it examines the possible
research tool used in this study was self-observation: function of the SHs. Finally, the relation between
delayed retrospection based on interviews. language proficiency and SHs is examined.
As in Cohen and Aphek (1981) an external The second presents the general conclusions of
elicitation format – namely questions on the type: “Why the study, offers suggestions for the future research
did you say X?”, “Why is the type of signal of hesitation and relates the implications for the findings for
present in your speech?”, was used in this study. The teaching and learning.
elicitation and response were oral in the subject’s Below is an illustration of each of the signals of
mother tongue or in the target language, depending on hesitation found in the speech of the three groups
the speaker’s proficiency level. In order to capture (HPSs, IPSs and LPSs) when performing the three
some of the processes/strategies used by the speakers, oral activities (CP, RS and EC).
they were asked individually by the experimenter in a Short Pauses: These are small interruptions
retrospective session a day after and in some cases (0:2 to 0:5 seconds) occurring before lexical items
two or three days later, to discuss and comment on the or function words. They seem to be used by the
problems they had faced while performing the task. speakers as time-gaining strategies so that they
The reason why this retrospective session was can remember, search for specific linguistic items
discussed only a day after or some days later was the to be used or substituted in the speech chain.
need to have the data transcribed before interviewing Example:
Papéis : rev. Letras, Campo Grande, MS, v. 7, n. 14, p. 36-45, jul./dez. 2003
39
(1) “Alligator (0:6) it’s an ani- Subjects may have Laughter: The use of
mal who – have a – big
hesitated for any of the ‘laughter’ is another characteristic
mouth (laugher) – a:nd – feature of the learners’ perfor-
you can (you can) meet him, following reasons: they mance data. It is hard to analyse
them, you can meet it – (uh) were thinking about the the function of laughter in verbal
at Pantanal” (IPSs) correct pronunciation, planning. It seems the subjects
Long Pauses: Pauses occurring spontaneously laugh because they
in the middle of sentences, they are
selecting the most are in trouble. They perceive they
longer than short pauses (ranging appropriate lexical item, are going to employ or have just
from 0:5 to 0:15 seconds) and fulfill trying to remember misused or mispronounced a
basically the same functions of words. lexical item and the laughter could
short pauses, namely, to solve have the special function of
problems and gain time to find diminishing the discomfort in a
solutions to linguistic problems. Example: troublesome situation. In example below, the speaker
(2) “Flag is something that represents – a country, did not know or did not remember the verb ‘get
an state – or (uh) (0:10) an ideal” (IPS) down’. After some hesitation she employed a verb
Boundary Pauses: These are pauses occurring based on L1 producing /descer/.
at sentence boundaries (more than 0:5 seconds). It (9) “... and he: (he) had to : (to) (pause) he
seems this kind of strategy can give the speaker time had to /descer/ (laughter) ...” Dn (IPS)
to formulate the next sentence. Example:
(3) “Jim was a very intelligent – man (pause) He Functions of Signals of Hesitation
worked – very hard, but he didn’t earn much Considering the above examples it can be observed
money with his work. (IPS) that the subjects are struggling to express a message.
Drawls: These consist of the stretching of sounds This could suggest that they are having serious
(: :) which can give the speakers time to organize problems in their verbal planning due to lack of
what will be said next. Example: knowledge of the TL. However, the performance data
(4) “Patience – is : : - to be calm – to : : (0:5) and the results obtained from the introspective
(to : :) able to support – (eh)...” (HPS) analysis indicate that the SHs do not just represent
Repetitions: These consist of repeating a word or insufficient command of the TL but can also be
several words or even a whole sentence, and they interpreted as significant aspects of the learners’ speech
may also be used as a device to gain time in selecting behaviour. Subjects may have hesitated for any of
the next lexical item or the next sentence. Example: the following reasons: they were thinking about the
(5) “Pride is a feeling (is a feeling) (a feeling) correct pronunciation, selecting the most appropriate
you have about something. You may be pride – lexical item, trying to remember words not readily
(you may be pride) – you may be proud – your available at the time of speaking, trying to substitute
qualities” (IPS) items they do not know by other ones available in
Fillers: These are gaps occurring in the speaker’s their repertoire, trying to remember grammatical rules,
speech filled by expressions such as (eh) (mhm), (er)... organizing ideas in their minds or having trouble with
Example: the specific task of retelling the story, interpreting the
(6) “This story goes like – (eh) – (ah) kids (ah) pictures and looking for definitions or examples for
there sound seems to be five kids playing hide, the concrete and abstract concepts.
and (ah) – one of (ah) (one of) the kids (eh) close It is important to point out that the data do not
his eyes...” (HPS) provide definite or sufficient evidence why the SHs
Gambits: The learner overtly shows that s/he is occurred and neither were the speakers able to provide
having troubles by means of a signal like this: “I don’t answers or satisfactory explanations about the kind of
know how to say this”. Example: problems they were experiencing while planning their
(7) “Bachelor – (I don´t know) (pause) bachelor messages. But the data can offer important insights
is a – man that didn’t marry” Mr (HPS) about the second language learners’ behaviour. If on
(8) “Honesty – well (laugher) How can I explain the one hand they are useful indicators that the TL
honesty? Well honesty is a (is a) quality (is a learner is having difficulties to execute his/her plan, on
quality)” Gr (HPS). Pm the other hand they are strategies used by the TL

Papéis : rev. Letras, Campo Grande, MS, v. 7, n. 14, p. 36-45, jul./dez. 2003
40
learners to gain time in their search The learner is selecting be the same that a native
for lexical, grammatical or speaker would use in some
rules and vocabulary
phonological items they do not situations. I always try a men-
remember or have not learned yet. items s/he considers tal organization before
Although no attempt was made to more appropriate to speaking.”
verify the problems of express what s/he
consciousness and un- C) Low-proficiency Speakers
consciousness in this study, it was
needs to communicate “I am not sure, but perhaps I
found that there are at least three in that situation. use them to organize the
different groups of speakers in this subsequent structures. I did not
study: a) the speakers who are know there were so many
conscious of their processes of hesitations in my speech, but it
speech production and are able to is probably because I do not
give some important information about CSs and SHs; have automatized the new language yet.”
b) the speakers who are not conscious of these pro-
“I know they’re present in my speech and this
cesses and refused to talk about them and c) the
causes me embarassment. I try to avoid the pau-
speakers who, in some specific points, are aware of
ses but it is very difficult because of lack of
what happened but in other points do not know or
vocabulary”. (LPS)
remember the kind of problems they were having,
providing confusing and ambiguous explanation about “I make a great effort to communicate in English,
their performance. because I have problems with grammar,
I shall now present some of the introspective vocabulary and specially with the pronunciation.
information provided by: a) the high-proficiency speakers I’m aware of these signals. I can perceive them in
(HPSs); b) the intermediate-proficiency speakers (IPSs) my English speech, but I can not perceive them
and c) the low-proficiency speakers (LPSs). while I’m speaking in Portuguese. I think this
happens because I do not have a good command
A) High-proficiency Speakers of the language”. (LPS)
“Actually I didn’t know these signs were present “My problem is pronunciation. I’m afraid of
in my speech and I don’t think it’s important to making mistakes and to sound ridiculous and thus
talk about them.” I think a lot before deciding”.
“I don’t know. I have never thought about this.” “I have never thought about these signals in my
“When I am having trouble in expressing my ideas speech, but it is probably because I’m very afraid
because of lack of vocabulary, I repeat the words of making mistakes.”
or group of words until I can express my thought. From these and other statements made by the learners,
Repetitions are better than pauses.” I will summarize below the functions of the SHs
“These signs are present even when I am speaking present in the verbal planning of the learners:
Portuguese. I don’t know why. I was not nervous 1. The learner is selecting rules and vocabulary items
and I didn’t feel I was insecure while talking.” s/he considers more appropriate to express what s/
he needs to communicate in that situation.
B) Intermediate-proficiency Speakers 2. The learner is trying to remember or to substitute
“I know they’re present in my speech but that is grammatical rules, searching for the correct
because I could not remember certain words or pronunciation, the appropriate lexical item, clause or
expressions such as ‘esconde-esconde’.” even a whole sentence.
3. The learner is producing language in a rather tense
“I don’t know why. It is spontaneous I suppose,
situation where the concern for producing the best
but perhaps it is because of lack of vocabulary.
language possibly causes anxiety which causes the
Vocabulary is my problem.”
learner to take more time to produce speech.
“I pause to think. I repeat the words in an attempt 4. The learner is having difficulties in recalling the
of organizing the ideas and the structures. It takes story, in interpreting the pictures, in organizing the
me a long time before deciding if the items would ideas or to find definitions for the concepts, all of

Papéis : rev. Letras, Campo Grande, MS, v. 7, n. 14, p. 36-45, jul./dez. 2003
41
which could take a long time even Short Pauses are the higher-proficiency speakers such
in the first language. as fillers and gambits.
most common SHs that
The following is a summary of
Language Proficiency and the were found in the the results presented in Tables 1
Use of Signals of Hesitation speakers’ textual data, and 2. Short Pauses are the most
It was expected that the type implying that this common SHs that were found in
and frequency of use of SHs the speakers’ textual data,
employed by the subjects would
phenomenon plays a implying that this phenomenon
vary according to their proficiency significant role in their plays a significant role in their
level. The results of the analysis communication. communication. In a total of 3.903
offered somewhat limited SHs found in the data, 2.249 are
confirmation of this hypothesis. short pauses distributed among
The data revealed the three the groups in the following way:
groups basically employ the same type of SHs, i.e., 40% of the short pauses were employed by LPSs,
the proficiency level does not determine a 32% by IPSs and 28% by HPSs. Long Pauses play
considerable difference in terms of types of SHs a less significant role, specially among HPSs.
employed by the subjects (see Table 1). Boundary Pauses are the least frequent SHs
employed by the groups and are almost entirely absent
Table 1 - Signals of Hesitation: Frequency of Employment
in the HPSs textual data (see Tables 1 and 2). Other
of each SH Type by each Proficiency Group.
important SHS were drawls, repetitions and fillers
while laughter and gambits were not very common.
A very small difference is the employment of drawls
among the groups was observed (see the Tables).
LPSs stretched the sound (193 times) 21% more often
than IPSs and only (159 times) 6% more than HPSs
(183 times). Of a total of 535 repetitions, 54% were
employed by the LPSs, 26% by IPSs and 20% by
HPSs. One interesting SH employed by the subjects
in this study was fillers whose presence in the
speakers performance data plays a very important
role. In this case, there was an inversion of influence
The frequency of use of SHs shows some on the proficiency level. Of a total of 280 fillers found
differences between the groups. Some hesitations in the data, 51% were employed by HPSs, 24% by
such as long pauses, boundary pauses and IPSs and 25% by the LPSs. Expressing the total SH
repetitions are more used by LPSs (see Table 2). use in percentages, 41% percent of the SHs were
Others show a certain equilibrium between the groups found in the LPSs performance data, 30% in the IPSs
(short pauses, drawls and gambits), but there are data and 29% in the HPSs data (see Table 2), showing
also hesitations that are more frequently used by the that there are no remarkable differences between
the groups when we refer to the general results.
Table 2 - Signals of Hesitation: Percentage of Total A probable reason to be given for the fact that
Employment of each SH Type Accounted for by each
Proficiency Group.
there is no considerable differences in terms of type
of SHs among the three groups is that they may not
be a phenomenon specific to IL. According to
Fillmore (1979), Faerch and Kasper (1983), typically
the learner’s L1 or even another language exert strong
influence on the learner’s communicative behaviour.
The learner may be transferring SHs from L1 to TL.
There are in the literature some studies reporting that
certain SHs such as drawls and unfilled pauses are
transferred from L1 to TL (cf. Raupach (1983) and
Sajavaara and Lehtonen (1980)). Although, if TL
Obs: These values are based on the data of Table 1.

Papéis : rev. Letras, Campo Grande, MS, v. 7, n. 14, p. 36-45, jul./dez. 2003
42
speakers employ the same type of SHs may not 2) Speakers’ communicative
SHs used in L1, they probably use behaviour may be related not only
necessarily be
them with a greater frequency in to interlanguage problems, but also
the TL because their lower degree related specifically to to the activity they have to
of TL automatization obliges them problem solving in IL, perform (cf. Raupach, 1983)
to improvise much more (cf. they can also be Poulisse and Schills, 1989)
Wagner 1981; Sajavaara and 3) The use of SHs may also
Lehtonen 1980; Faerch and
described as be motivated by anxiety. This is in
Kasper, 1983). constituting part conformity with Goldman-Eisler
Summarizing, we can say that of the subjects’ (1961) and Butterworth (1980).
there are, at least, four probable speech style. Some higher-proficiency speakers
reasons for the fact that there could be more worried of losing
are no remarkable differences face and producing ungrammatical
between the groups regarding the frequency of use utterances or mispronunciations than lower-
of SHs: proficiency ones and when uncertainty arises, they
1) While the lower-proficiency speakers prefer to think a lot before executing the plan. See
communicated by means of a less complex and more statements below provided by two HPSs:
reduced language system, the higher-proficiency
“I am in an advanced group, thus, I have a
speakers produced significantly more complex
greater responsibility in producing good English.
language, and thus proportionally may have spent more
I am always afraid of making mistakes and to
time planning. Consequently their use of SHs was
sound incompetent by my teacher. If I am not sure
still high. Observe below how much language HPSs
about the correct grammar or pronunciation, I
used in relation to LPSs to explain what alligator
waste some time thinking before speaking. That’s
means in English.
probably the reason why there are so many pau-
Alligator – is a – a an animal – very big (0:5) ses, repetitions and signals of hesitation in my
and strong (pause). It: - it’s – like a /krokodilo. speech.” (HPS)
(LPs)
“I still have some troubles with grammar,
Alligator is: a big animal. It is – green a:nd – pronunciation and vocabulary. I prefer thinking
very – (uh) voras. (LPs) before speaking ‘cause I’m afraid of making
mistakes. I always feel a little nervous and anxious
How to say this Alligator: well, alligator – I’m
when I have to communicate orally.” (HPS)
very afraid of Alli... Alligators, because
4) SHs may not necessarily be related specifically
alligators is a very ugly animal. It’s (it’s) very
to problem solving in IL, they can also be described
big. It’s: it has a: (a) big mouth and big teeth –
as constituting part of the subjects’ speech style. See
ani... (eh) alligators is the most important ani-
the two statements (below) provided by an IPS and
mal we have in Pantanal. In Mato Grosso we
HPS.
have a lot of alligators and: - (eh) (eh)
alligators are being comercialized? (I don’t “I have never thought about this, but perhaps it is
know), but people are very interested in killing my way of speaking. I have to observe if I also
alligators in order to sell their skin, because use these signals in Portuguese.” (IPS)
it’s a very good article, of – (of) high quality
“It’s my way of speaking. It happens even when
to make (eh) belts and: ba:gs for elegant
I’m speaking in Portuguese, specially when I’m
people. (HPs)
embarrassed or nervous.” (HPS)
Alligators is an animal (ah) you have them in Two probable explanations why there are
pantanal (ah) lot of people are killing meaningful differences between the groups in the
alligators now to: - sell this the (this) skin you frequency of use of Long Pauses, Boundary Pauses,
know. The, they make shoes and they make Repetitions, Fillers and Laughters are:
purses of (ah) out of this skin (ah) alligators 1) It seems obvious that the presence of long pau-
skins. There is a campaign now to keep this ses, boundary pauses and repetition in the lower-
alligators from killing. (HPs) proficiency speakers’ speech is greater than in the

Papéis : rev. Letras, Campo Grande, MS, v. 7, n. 14, p. 36-45, jul./dez. 2003
43
higher-proficiency speakers due to important factors such as task,
their inadequate command of the The main findings style of speech, anxiety and the
TL. No attempts were made to of this study amount of language produced by
verify why only these SHs and not reveal that from the speakers.
all of the others were more used
by the LPSs.
lower to higher Concluding/Summary
2) It is hard to explain why the proficiency the Statements
higher-proficiency speakers used occurrence of This study has its limitations
more fillers and laughters than SHs is and further research is still needed
the lower-proficiency ones. On of before drawing any definitive
the explanations could be that very high. conclusions. However, if we as-
HPSs have automatized the fillers sume the learners of this study are
used by native speakers and typical of adult learners of a
learned that this strategy is a good resource to gain foreign language, the findings obtained allow us to
time, thus avoiding other types of hesitations. It is venture the following concluding/summary
also hard to explain why the higher-proficiency statements:
speakers laughed more than the LPSs. A possible From lower to higher-proficiency, the presence
explanation is that the higher-proficiency are more of SHs in L2 speakers’ performance is very high.
aware of the mistakes they produce while They constitute part of the learners’ process of
communicating in the TL, and laughter, as mentioned communication and seem to be highly spontaneous
previously, could have the special function of devices employed for some learners. Other learners
diminishing the discomfort in a troublesome situation. use them consciously as devices to prepare what
However, no attempts were made by the researcher comes next. A third class of learners seems to use
to try to find evidence for such an explanation. SHs consciously in some situations and unconsciously
The main findings of this study reveal that from in others.
lower to higher proficiency the occurrence of SHs It seems that the SHs are present in the learners’
is very high. A detailed analysis of the data led us to speech behaviour because cognitive operations are
the following conclusions: a) In general, the types necessary for speech production. Speakers may be
of SH that occur in the LPSs data do not differ having difficulties with the conceptual, lexical,
markedly from those of IPSs and HPSs. This may grammatical and phonological levels or with all of them
indicate that speakers of different proficiency levels simultaneously.
do not have very different means of planning their SHs do not seem to be a phenomenon specific to
speech and consequently there are no considerable IL, and neither do they appear to be the result of lack
differences in terms of types of SH use. b) With of knowledge of the TL. The information collected
regard to the frequency of SHs employed by the from the performance data and introspective
three groups, it can be observed that there are analysis suggest that the frequency of use of SHs
meaningful differences in the use of long and may also be related to other important factors such
boundary pauses, repetitions, fillers and as: influence of task, speech style, level of anxiety
laughters. Although it was expected that frequency and the amount and complexity of language produced
of use of SHs among the groups would vary by the speakers.
according to the TL speakers’ proficiency, the Finally, in spite of the fact that all subjects adopt
results of the analysis offered somewhat limited basically the same types of SHs to produce the TL,
confirmation of this hypothesis. The information the results of this study indicate that Brazilian learners
collected fr om the performance data and of English pass through phases in terms of types
introspective analysis suggests that the frequency (small range) and frequency (large range) in the use
of the use of SHs is related not only to the of SHs, and thus, that TL learners’ communicative
proficiency level of the TL speakers, but to other behaviour is transitional and dynamic.

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Resenha

DÁ GOSTO DE PERAMBULAR
POR ESTAS PALAVRAGENS *

de Douglas Diegues
Rosana Cristina Zanelatto Santos**

Dentre os objetivos implícitos de uma resenha, está


a capacidade de o analista trazer à tona os valores
estéticos do objeto artístico, que podem ser ou não
oriundos do próprio objeto. Há, no entanto, inalienável
e sempre passível de (des) encontros, a perspectiva
fundante de cada nova leitura, afinal, o analista não
deixa de ser um leitor, um leitor munido de recursos
técnicos adequados (?) à sua tarefa, contribuindo para
a (de) formação de uma infinidade de possibilidades
de leitura, o que, grosso modo, garantiria a perma-
nência das obras de arte. Residem, pois, nessa tal
infinidade de possibilidades: o enaltecer encomiástico,
espécie de “colunismo social-literário”, do artista e
de seu rol de admiradores, não necessariamente lei-
tores; a validação político-ideológica ou não da pos-
tura do artista e um (quase conseqüente) esqueci-
mento da obra – jogam-se água e criança fora, con-
tudo, salva-se a bacia ...; a validação estética da obra
per si, na tentativa de detectar os movimentos de
rotação e de translação do universo artístico, e por aí
segue. Sigamos então “resenhando” / lendo o livro
de poemas de Douglas Diegues, Dá gusto andar
desnudo por estas selvas – Sonetos Salvajes.
De modo didático, enveredemos pelo mundo da
forma. Douglas Diegues elegeu o soneto à maneira
*
Dá gusto andar desnudo por estas selvas – Sonetos inglesa, ou soneto de Shakespeare, como forma de
Salvajes. Curitiba: Travessa dos Editores; Imprensa Oficial expressão de seus versos, preferindo-o ao tipo italia-
do Estado do Paraná, 2002. 43p. no: no soneto inglês os 14 versos estão dispostos em
**
Professora de Literatura Portuguesa no Departamento de três quadras, cada qual com rima própria, e em dois
Comunicação da UFMS - Campus de Dourados. Doutora em versos finais, emparelhados, enquanto o modelo itali-
Literatura Portuguesa pela USP. ano se faz com duas quadras e dois tercetos. Pode-
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rão dizer alguns analistas: por que, No bilingüismo lar-se artisticamente agradável ou
para obra com título tão (aparen- lingüisticamente necessário; & en-
poético de Diegues,
temente) experimentalista, forma tão ele só é obsoleto de nome.
tão decantada? O soneto pode ser estão expostos não Trouxeram-no de volta à vida as
uma forma poética “lugar-co- somente temas naturais exigências de um estilo
mum”, mas pensemos no tempo recorrentes da lírica vigoroso ou sutil. Não é um cadá-
que nos separa dos “outros” so- ver desenterrado (como no caso
netos: o renascentista, o barroco,
ocidental, mas também de escritores menos capazes) mas
o árcade ... Não somente a lin- as “feridas abertas” um belo corpo despertado de um
guagem é dinâmica como os ho- na América Latina. sono longo & reparador (KA-
mens-leitores o são, num indício VÁFIS, 1998, p. 59).
de que “a tradição [é] sempre Douglas Diegues “traz de vol-
nova”1 e não “o resultado passi- ta” o soneto inglês, lançando mão
vo de (...) um conglomerado de antigos tesouros cul- de temas também não tão novos, como nas quadras
turais que fortuitamente nos foram entregues pelo iniciais do soneto 25, que nos falam da efemeridade
passado” (RÉE, 2000, p. 20). Lembremo-nos, por da carne e das doenças da alma:
exemplo, do soneto (à italiana e com versos
melhor no saber cuantos años bocê tem / esque-
decassílabos) O Peixe-Cachorro, de Manoel de Bar-
cer la data de su aniversário / livrar-se de los ca-
ros, posto em seu Livro de Pré-Coisas:
prichos otários / un dia todos terão de ir além
Era um peixe esquisito pra cachorro: / Cruza de
vanidades de la carne perecible / doenças invisíbles
lobisomem com tapera? / Filho de jacaré com co-
de la alma / praticar el arte de la calma / el imposible
bra dágua? Ou / Simplesmente cachorro de
sempre foi posible (DIEGUES, 2002, p. 32).
indumentos?
No bilingüismo poético de Diegues, estão expos-
Era muito esquisito para peixe / E pra cachorro
tos não somente temas recorrentes da lírica ociden-
lhe faltava andaime. / Uma feição com boca de
tal, mas também as “feridas abertas” na América
curimba / E o traseiro arrumado para entrega.
Latina pelas crises econômicas, pelos conflitos
Se peixe, o rabo empresta ao liso campo / Um identitários, por uma moral a um só tempo cristã e
andar de moréia atravancada. / Sendo cachorro colonizadora, pelo erotismo latente, presente, por
não arranca a espada? exemplo, na paradoxal e bela “homenagem” à
“ciudade morena” (Campo Grande, capital de Mato
Difícil aceitar esse estrupício / Como um peixe;
Grosso do Sul):
ainda que nade. / Pra cachorro não cabe no pos-
sível (BARROS, 1985, p. 61). burguesa patusca light ciudade morena/ el fuego
Em anotações feitas entre 1902 e 1911 pelo poeta de la palavra vá a incendiar tua frieza / ninguém
grego Konstantinos Kaváfis, traduzidas para o por- consigue comprar sabedoria alegria belleza / vas
tuguês por José Paulo Paes e reunidas no pequeno a aprender agora con cuanto esperma se hace
volume Reflexões sobre poesia e ética, encontra- um buen poema
mos a anotação 2b, esclarecedora referência ao la-
esnobe perua arrogante ciudade morena / tua in-
bor poético entre o velho e o novo:
teligência burra – oficial – acadêmica – pedante /
Um dos talentos dos grandes estilistas é fazer com
y tu hipocondríaca hipocrisia brochante / son como
que, pelo seu modo de empregá-las, palavras ob-
un porre de whisk con cibalena (DIEGUES, 2002,
soletas deixem de parecer obsoletas. Elas ocor-
p. 8).
rem com a maior naturalidade nos textos deles, ao
passo que nos de outros parecem afetas ou fora do Voltemos ao bilingüismo. Há, inicialmente, que
lugar. Isso se deve ao tato & discernimento de tais considerarmos uma série de dados estruturais que
escritores, que sabem quando - & somente quando acabam cumprindo uma função social: imigração,
– o termo em desuso pode ser empregado & reve- minorias lingüísticas, isolamento socioeconômico e

1
Alusão explícita ao imprescindível ensaio do Prof. Roberto de Oliveira Brandão sobre as relações entre Retórica e Poética, com belo
prefácio de Alfredo Bosi. Cf. A tradição sempre nova. São Paulo: Ática, 1976. (Ensaios; 21)

Papéis : rev. Letras, Campo Grande, MS, v. 7, n. 14, p. 46-48, jul./dez. 2003
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cultural, dentre outras, levando O bilingüísmo Stuart HALL observa que
mesmo a pensar o bilingüis-
possibilita a As palavras são ‘multimodula-
mo como um fenômeno nocivo,
(re) ocorrência de das’. Elas sempre carregam ecos
por exemplo, às crianças de
de outros significados que elas co-
uma comunidade bilíngüe que um fenômeno locam em movimento, apesar de
padeceriam fora do universo lingüístico-literário nossos melhores esforços para
extrafamiliar. Graças aos estudos
sociolingüísticos, essa concepção
presente nas trovas cerrar o significado. Nossas pre-
galego-portuguesas missas das quais nós não temos
está sendo revista, passando-se
consciência, mas que são, por as-
a valorizar as manifestações bi- do medievo. sim dizer, conduzidas na corrente
língües.
sangüínea de nossa língua. Tudo
Numa perspectiva variacio-
que dizemos tem um ‘antes’ e um
nista, a melhor situação para
‘depois’- uma ‘margem’ na qual
estudá-lo verifica-se no caso de pessoas que falem –
outras pessoas [e outras línguas] podem escrever
portanto, em estado de oralidade – duas línguas em
(2002, p. 41).
família, na rua, no trabalho, enfim, em contextos so-
ciais estáveis. A condição da estabilidade é de im- Em tempo: Dá gusto andar desnudo por estas
portância capital para estudos dessa natureza. Por selvas – Sonetos Salvajes é o primeiro livro publi-
outro lado, o bilingüismo intrasituacional, isto é, aque- cado por Diegues. É necessário que acompanhemos
le marcado pela ocasionalidade, merece, no caso de sua produção literária, a fim de observar se ele con-
sua utilização na obra literária, ser interpelado como tinua a perambular por paragens bilíngües, para ga-
uma estratégia intencional e estilística do artista. nhar mais orquídeas:
Caso consideremos o bilingüismo como um traço nunca había, / em uma cidade idiota y fria / como
ocasional e experimentalista da obra de Douglas esta, imaginado que un dia/ alguém me daria uma
Diegues, veremo-nos numa via de mão dupla: a da orquídea
(re) ocorrência de um fenômeno lingüístico-literário
presente nas trovas galego-portuguesas do medievo, mi amigo chinês sabe hacer orquídeas / pero dice
quando se buscava, dentre outras coisas, fixar uma que ainda no chegou a la perfeiçon / percebe-se
língua nacional como um índice de composição e de que no es um charlaton / domina la arte antiga
confirmação de uma identidade nacional, e a da op- (DIEGUES, 2002, p. 34).
ção pelo “portunhol” como recurso estilístico para Ao cabo desta “resenha” / leitura, sabemos
escapar da mesmice e, num movimento mais profun- que o livro de poemas de Douglas Diegues vale uma
do, reclamar por uma identidade cultural que se “des- orquídea, afinal, “entre un cata y un clismo [o poeta
loque” em relação às “metrópoles contemporâneas”, cria] vida nueva [que] germina dentro de la
aceitando-se como descentrada, fragmentada e, a um podredumbre del capitalismo [salvaje]” (DIEGUES,
só tempo, fundante de um pertencimento. 2002, p. 28).

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Cultura de Mato Grosso do Sul, 1985.
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Janeiro: DP&A, 2002.
KAVÁFIS, Konstantinos. Reflexões sobre poesia e ética. Tradução José Paulo Paes. São Paulo: Ática, 1998.
RÉE, Jonathan. Heidegger. História e verdade em Ser e Tempo. Tradução José Oscar de Almeida Marques, Karen Volobuef. São
Paulo: Editora UNESP, 2000. (Coleção Grandes Filósofos)

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Dissertação

SEXO E PODER
*

EM NAVALHA NA CARNE
Raquel de Oliveira Fonseca**

Parece-nos imediato o estranhamento que Nava-


lha na Carne provoca no seu leitor/ seu espectador; a
primeira atitude despertada é a de não-aceitação de
que qualquer tipo de semelhança ou de relação que
possa ser estabelecida entre o universo criado na obra
e a idéia que temos de civilização. Temos a impres-
são de que a obra nos apresenta seres totalmente es-
tranhos e desconhecidos, por vezes inimagináveis no
mundo da realidade. Entretanto, esta pesquisa aponta
como tema desta obra o eterno desencontro do ser
humano como o seu mundo e consigo mesmo.
O erotismo foi escolhido como linha mestra que
nos abre as portas para a obra de Plínio Marcos por-
que nos pareceu bastante clara a importância atribuí-
da a este elemento e suas relações com a violência
que perpassa todo o texto.
Esta pesquisa iniciou-se com o estudo do erotis-
mo a partir de obras extraliterárias das áreas da Filo-
sofia e da Sociologia, na busca pela compreensão do
fenômeno erótico que se desenvolve ininterruptamente
na sociedade ocidental e no universo de Navalha na
Carne.
Na pretensão de traçarmos o percurso trilhado
por Eros na sociedade ocidental, lembremo-nos do
questionamento de Clement Rosset, a respeito da-
quilo que acreditamos ser o que de fato acontece.
*
Dissertação defendida junto ao Programa de Mestrado O filósofo nos apresenta a possibilidade de que o
em Letras da UFMS (área de concentração: Estudos Literários)
duplo deste real venha a ser uma realidade por nós
em 25 de setembro de 2003. Orientadora: Profª. Drª. Rosana
Cristina Zanelatto Santos. ignorada.
**
Professora de Literaturas de Língua Portuguesa na As considerações de Pierre Bourdieu de que as
UEMS – Unidade de Cassilândia. pessoas, as ações e os objetos são representações pro-

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49
duzidas e direcionadas pelo poder Verificamos pela to ao seu valor literário, conco-
simbólico e que se concretizam no mitantemente ao desenvolvimen-
análise da obra
contexto social, levam-nos a con- to da dramaturgia brasileira. Se-
siderar a sexualidade enquanto re- dramática de gundo Silviano Santiago, a temática
sultante da conjugação de elemen- Plínio Marcos, que o da literatura esteve impregnada por
tos histórico-culturais, revestidos elemento erótico é uma racionalidade dentro da qual
de valores e de sentidos de cono- o indivíduo perdia seu valor pes-
tação simbólica, a elementos ine-
usado como recurso soal em face da contemplação do
rentes à própria natureza huma- na construção do social.
na. seu texto. Observamos em Navalha na
Estudiosos como Herbert Mar- Carne, enquanto obra nascida nes-
cuse e Michel Foucault objeti- te contexto, a presença imperiosa
varam as transformações a que a de Eros, que caminha lado a lado
sexualidade humana é submetida em face da civiliza- a uma racionalidade que a tudo abarca.
ção, da sistematização da vida social. O comporta- Pela observação e análise das formações fônico-
mento, a postura sexual encontra-se vinculada a uma linguísticas e do diálogo que se estabelece no texto,
função específica e temporária que visa a alcançar propusemo-nos a nos deter particularmente em cada
um fim socialmente pré-determinado. personagem, conforme nos orienta Veltruski, consi-
Por outro lado, Georges Bataille aponta uma ou- derando-as individualmente, como sujeitos parciais que
tra face do erotismo, que é o poder de fazer manifes- se manifestam numa totalidade contextual e que ao se
tar-se como uma força irrompedora que busca atingir revesarem e interpenetrarem, dão origem a uma cons-
um plano mais completo no qual o ser humano possa trução semântica.
saciar a sua necessidade de continuidade e o seu de- Verificamos pela análise da obra dramática de Plínio
sejo da imortalidade. Marcos, que o elemento erótico é usado como recur-
Otacvio Paz, por sua vez, aponta o ano de 1968 so na construção do seu texto; as personagens nos
como o momento em que, na sociedade ocidental, o são apresentadas como seres sexuais; a vida sexual
erotismo teria usado o seu poder de explosão e de das personagens tem relação direta com o curso das
destruição na chamada “explosão da sexualidade”. Este ações vivenciadas. Os aspectos eróticos presentes na
poderia teria sido um acontecimento propício, favo- obra são poderosas revelações dos mais diferentes
rável para que mudanças definitivas ocorressem na aspectos da vida humana.
estrutura social; entretanto, pela carga simbólica que A racionalidade castradora do afetivo, do emocio-
revestia os processos eróticos e pela preocupação com nal toma dimensão relevante dentro da obra porque
os regimes ditatoriais que assolavam o mundo pela permeia todos os espaços, sistematizando as ações e
época, as chamas levantadas pela explosão foram apa- impedindo que qualquer manifestação da alma ou do
gadas e mesmo adaptadas aos interesses dos poderes espírito se desenvolva.
instituídos. Segundo Paz, em conseqüência, Eros te- As relações que se estabelecem em Navalha na
ria sofrido sua descaracterização maior, perdendo a Carne são resultantes de um processo em que todas
noção de alma e dos valores morais e espirituais, em as situações, pensamentos e palavras são antecipada-
detrimento da supervalorização do corpo, da matéria mente planejados. No universo construído em Nava-
e do lucro. lha na Carne não há liberdade de ação, não há dis-
Observando o contexto brasileiro das décadas de curso que não seja comprometido com a poderosa
1960 e 1970, notamos a proliferação de obras de cu- sistemática que acaba por comportar todas as possi-
nho social, às vezes passivas de questionamento quan- bilidades de inovação, inclusive as sugeridas por Eros.

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Dissertação

UM OLHAR SOBRE OS
CAMINHOS DO PANTANAL
SUL-MATO-GROSSENSE:
A TOPONÍMIA DOS ACIDENTES FÍSICOS*
Marlene Schneider**

O estudo da Toponímia1 é de suma importância


para o conhecimento da realidade social, histórica,
econômica, política e geográfica de uma região, uma
vez que através do estudo das designações atribuídas
aos lugares podem-se recuperar aspectos subjacentes
à realidade nomeada. Este trabalho apresenta resulta-
dos da pesquisa realizada sobre a toponímia dos aci-
dentes físicos do Pantanal2 sul-mato-grossense que
objetivou realizar o levantamento, a catalogação e o
estudo dos topônimos coletados. Tomamos como hi-
pótese de estudo o pressuposto de que devido à imen-
sa riqueza ambiental, como a fauna, a flora e os aci-
dentes hidrográficos, a realidade local seria retrata-
da nas denominações dos acidentes físicos da região
pantaneira.
As designações toponímicas foram classificadas,
segundo o modelo teórico de Dick3 (1992), que abran-
ge vinte e sete categorias de natureza antropo-cultural
e física. Além disso, foram adotadas as subdivisões
de Lima (1997)4 e Isquerdo5 (1996). Discutiram-se
também questões lingüísticas, que envolvem os cam-
pos etno-dialetológico (língua de origem dos topônimos
*
Dissertação defendida, em 25-09-2002, no Programa de – indígena, portuguesa, outras origens, origem con-
Pós-graduação em Letras na UFMS, área de concentração
em Estudos Lingüísticos, como parte dos requisitos para a
troversa, obscura ou controvertida) e histórico-cultu-
obtenção do título de Mestre em Lingüística. ral. A análise dos signos toponímicos procurou iden-
Orientadora: Profa. Dra. Aparecida Negri Isquerdo. tificar manifestações da relação entre língua, cultura
**
Professora da rede pública estadual e municipal de e ambiente no processo de nomeação de acidentes
ensino e docente da UCDBIESPAN, em Corumbá – MS. físicos da região, como as baías, os corixos, os

Papéis : rev. Letras, Campo Grande, MS, v. 7, n. 14, p. 51-52, jul./dez. 2003
51
córregos, os morros, as morrarias, os rios e as Corixo Baía das Amoreiras e Vazante Riozinho. Ve-
vazantes das oito sub-regiões do Pantanal de Mato rificou-se também grande incidência de topônimos
Grosso do Sul. Para tanto, a análise dos topônimos de origem Tupi entre os zootopônimos e os fitotopô-
procurou relacionar os designativos dos acidentes fí- nimos, como Córrego Caetetu, Rio Piquiri, Córrego
sicos com aspectos culturais da região pantaneira, Buriti e Rio Itiquira.
considerando-se, pois, não somente os fatores Assim, o exame das designações toponímicas per-
lingüísticos, mas também os elementos extralingüís- mitiu-nos confirmar que a língua sofre influências do
ticos. ambiente físico em que se vivem os falantes, ao mes-
Orientou o estudo a definição de Toponímia propos- mo tempo em que reforça a tese de que tal influência
ta por Dick6 (1990: 36): “um imenso complexo línguo- só acontece no momento em que o grupo valoriza
cultural, em que dados das demais ciências se intersec- um elemento e o reporta à língua, dando nome a um
cionam necessariamente e não exclusivamente”. acidente físico.
Os dados analisados foram obtidos por meio de Já entre os designativos de natureza antropo-cul-
consulta a doze folhas cartográficas pertencentes ao tural (41,83 %) predominaram os hagiotopônimos
Mapa da Bacia do Alto Paraguai e do Pantanal do (8,23%), os antropotopônimos (6,96%) e os
Brasil, elaboradas pelo Ministério do Exército, no ano animotopônimos (6,33%), o que denota a importân-
de 1982. Para subsidiar o estudo foram consultados cia atribuída pelo denominador às crenças, à valori-
livros que focalizam aspectos geográficos e históri- zação do ser humano que busca dentro de si as forças
cos do Pantanal, obras de cunho teórico sobre necessárias para vencer os obstáculos advindos do
Toponímia e obras lexicográficas da língua portugue- tipo de vida próprio do ambiente pantaneiro. Assim, a
sa (gerais e etimológicas) e de línguas indígenas. riqueza cultural da região aparece representada na
No conjunto dos topônimos examinados (310 toponímia local, em topônimos que remetem a no-
topônimos), predominaram os de natureza física mes de santos e santas, como Corixo São Domingos,
(52,22%), dentre esses, os zootopônimos (17,41%), Vazante Santana, Córrego Santa Maria; a nomes de
os fitotopônimos (14,24%) e os hidrotopônimos pessoas, como Corixo João Leme, Córrego Benja-
(7,28%), o que confirma a hipótese inicial e é justifi- min, Ilha Florinda; e a estados de ânimo do denomi-
cável em função da enorme riqueza ambiental da re- nador, como Córrego Triunfo, Rio Formoso e Vazan-
gião, em termos de variedades de espécies da fauna te Alegria.
e da flora, além da diversidade de acidentes A pesquisa comprovou, enfim, que as marcas
hidrográficos típicos da região pantaneira. A riqueza extralingüísticas da toponímia foram relevantes para
física do Pantanal aparece representada com nomes se chegar ao motivo subjacente nas denominações
de animais, como Córrego Piranha, Corixo Jacaré, dos acidentes físicos do Pantanal, tornando o ato de
Vazante do Baio; nomes de plantas, como Córrego nomeação motivado, pois a realidade física e cultural
da Piúva, Corixo Mandioca Brava, Vazante da região pantaneira está representada na toponímia
Aguaçu; nomes de acidentes hidrográficos, como local de forma significativa.

1
A Toponímia é a disciplina que se ocupa do estudo dos nomes de lugares e faz parte da Onomástica. Além da Toponímia, a
Onomástica também envolve em seus estudos a Antroponímia, disciplina que estuda o nome de pessoas (SALAZAR-QUIJADA,
1985, p.15).
2
O Pantanal sul-mato-grossense situa-se aproximadamente entre os paralelos 18 e 21 e os meridianos de 55 e 58, à Noroeste do
estado de Mato Grosso do Sul, limitando-se com a Bolívia e o Paraguai, Mato Grosso e o Planalto Central Brasileiro. A área do
Pantanal é plana, com altitudes que não ultrapassam os 200 metros acima do nível do mar com declives entre os extremos norte e sul
de 3 centímetros por quilômetro. Devido a essa característica, dois terços de seu território se transformam periodicamente em imensas
lagoas que impõem os hábitos da população e da fauna local.
3
DICK, Maria Vicentina do Amaral, Toponímia e Antroponímia no Brasil. Coletânea de Estudos. São Paulo:Gráfica da FFLCHUSP,
1992.
4
LIMA, Ivonne Alves de. A motivação religiosa dos topônimos paranaenses. In: Estudos Lingüísticos XLV Seminário do GEL.
Campinas: UNICAMP, 1997, p.422-428.
5
ISQUERDO, Aparecida Negri. O Fato Lingüístico como Recorte da Realidade Sócio-Cultural. 1996, 409 p. Tese (Doutorado).
Faculdade de Ciências e Letras, UNESP, Araraquara, 1996.
6
DICK, Maria Vicentina do Amaral. A motivação toponímica e a realidade brasileira. São Paulo: Edições Arquivo do Estado, 1990.

Papéis : rev. Letras, Campo Grande, MS, v. 7, n. 14, p. 51-52, jul./dez. 2003
52