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UNIVERSIDADE DO ESTADO DA BAHIA – UNEB

DEPARTAMENTO DE TECNOLOGIA E CIÊNCIAS SOCIAIS – DTCS

COLEGIADO DO CURSO DE DIREITO

UELTON DIAS DA SILVA

A ATUALIZAÇÃO DO CDC E A (DES)NECESSIDADE DE TUTELA


JURÍDICA DO SUPERENDIVIDAMENTO DO CONSUMIDOR DE
CRÉDITO

JUAZEIRO-BA
2015
UELTON DIAS DA SILVA

A ATUALIZAÇÃO DO CDC E A (DES)NECESSIDADE DE TUTELA


JURÍDICA DO SUPERENDIVIDAMENTO DO CONSUMIDOR DE
CRÉDITO

Trabalho de conclusão de curso apresentado


ao Colegiado de Graduação em Direito da
Universidade do Estado da Bahia, como
requisito para a obtenção do grau de Bacharel
em Direito, sob a orientação da Professora
M.Sc. Juliana Cavalcanti Santiago.

JUAZEIRO-BA
2015
TERMO DE APROVAÇÃO

UELTON DIAS DA SILVA

A ATUALIZAÇÃO DO CDC E A (DES)NECESSIDADE DE TUTELA JURÍDICA DO


SUPERENDIVIDAMENTO DO CONSUMIDOR DE CRÉDITO

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Colegiado de Direito da


Universidade do Estado da Bahia (UNEB) como requisito para a obtenção do grau de
Bacharel em Direito.

Trabalho de Conclusão de Curso ________________ em 13 de Janeiro de 2015.

BANCA EXAMINADORA

Profa. M.Sc. Juliana Cavalcanti Santiago (orientadora)

Universidade do Estado da Bahia

Profª. Gabriela Barretto de Sá

Universidade do Estado da Bahia

Prof. Júlio José Torres dos Santos

Universidade do Estado da Bahia


DA SILVA, Uelton Dias. A atualização do CDC e a (des)necessidade de tutela
jurídica do superendividamento do consumidor de crédito, 2015. 85f. Trabalho de
Conclusão de Curso (Graduação em Direito), Colegiado de Direito, Universidade
Estado da Bahia, Juazeiro, 2015.

RESUMO

O endividamento das pessoas, fato corriqueiro e pertencente à vida moderna,


caracteriza-se como um problema quando, ao se tornar excessivo, prejudica a
sobrevivência digna de indivíduos e famílias e causa desequilíbrios ao mercado. O
superendividamento, como tal fenômeno é chamado, vem sendo objeto de discussões
pelo mundo e decorre da ampla disponibilização de crédito como forma de aquecer a
economia de um país e da falta de planejamento econômico dos indivíduos. No direito
estrangeiro, vários países já passaram a tratar o problema, por meio de leis
específicas de prevenção e tratamento. No Brasil, não existe leis específicas sobre o
endividamento excessivo. Entretanto, tramita no Senado Federal projeto de lei que
visa a alteração do Código de Defesa do Consumidor (CDC), com a inserção de
dispositivos que disponham sobre a regulação da oferta de crédito, prevenção e
tratamento do problema. Nesse sentido, o presente trabalho se propõe a analisar o
superendividamento do consumidor sob a ótica doutrinária, legislativa e
jurisprudencial, em conjunto com o projeto de lei apresentado, a fim de averiguar a
real necessidade de alteração do CDC para dispor sobre o problema apresentado. É
apresentado um panorama do surgimento e evolução dos contratos de crédito, bem
como o aparecimento do superendividamento, suas características, causas e
consequências negativas para a sociedade. Ademais, analisou-se os dispositivos
propostos no projeto em conjunto aos positivados no CDC. Diante do verificado,
vislumbra-se a desnecessidade de alteração do código consumerista brasileiro, tendo
em vista a sua não fragmentação e a preservação de seu caráter principiológico sem,
no entanto, dispensar a instituição de disposições específicas sobre o tema por meio
de lei em apartado.

Palavras-chave: Superendividamento; consumidor; crédito; sociedade de consumo;


projeto de lei.
DA SILVA, Uelton Dias. The update of Consumer Protection Code and the
unnecessity of the legal protection of the consumer credit indebtedness, 2015.
Juazeiro, 2015. 85p. Final paper (Law degree), Law Collegiate, Universidade do
Estado da Bahia, Juazeiro, 2015.

ABSTRACT

The indebtedness of people, unexceptional fact and belonging to modern life, is


characterized as a problem when, by becoming excessive, affect the dignified survival
of individuals and families and cause unbalances in the market. The over-
indebtedness, as such phenomenon is called, has been the subject of discussions by
the world and accrue from the wide availability of credit as a way to boost the economy
of a country and the lack of economic planning of individuals. In foreign law, many
countries has started to manage the problem through specific laws for prevention and
treatment. In Brazil, there is no specific laws about excessive debt. However, pending
in the Senate bill that aims to modify the Código de Defesa do Consumidor (CDC) -
Consumer Protection Code -, with the insertion of devices providing for the regulation
of credit supply, prevention and treatment of the problem. In this sense, this study aims
to analyze consumer indebtedness from the perspective doctrinal, legislative and
jurisprudential, together with the submitted bill, in order to ascertain the real need to
change the Código de Defesa do Consumidor (CDC) - Consumer Protection Code - to
provide for the problem presented. An overview of the emergence and evolution of the
credit agreements is displayed, as well as the appearance of indebtedness, its
characteristics, causes and negative consequences for society. In addition, we
analyzed the devices proposed in the project together to positivized in the CDC.
Moreover, it was analyzed the devices proposed in the project together to the
positivized in the Código de Defesa do Consumidor (CDC) - Consumer Protection
Code. Accordingly to the verified, is seen the unnecessity to change the brasilian
Consumer Protection Code, with a view to its non-fragmentation and the preservation
of its underlying principle character without, however, waive the imposition of specific
provisions on the subject by law apart.

Keywords: over-indebtedness; consumer; credit; consumer society; bill.


AGRADECIMENTOS

À Deus por iluminar meus caminhos e minha mente, conceder-me força, saúde
e me permitir chegar até o final de mais esta jornada.

À minha família, em especial, meus pais Wilson e Sileide e meu irmão Junior,
pelo incondicional amor, incentivo e pela compreensão diante dos momentos de
ausência.

À minha namorada, Olivia Farias, por todo amor, apoio e motivação sempre que
precisei, e por me acompanhar durante toda caminhada.

À minha orientadora, Profa. M.Sc. Juliana Santiago, por todo o conhecimento


compartilhado e por conduzir a orientação deste trabalho com brilhantismo,
profissionalismo e dedicação.

Aos amigos de trabalho, pela colaboração e por me proporcionarem melhores


condições de tempo para a realização deste trabalho.

Finalmente, à funcionária Wilma, da biblioteca da Justiça Federal de Petrolina-


PE, pela paciência e prestatividade em me conceder materiais de suma importância
para minha pesquisa.
SUMÁRIO

1. INTRODUÇÃO 7

2. SUPERENDIVIDAMENTO E CRÉDITO: A RELAÇÃO ENTRE O ACESSO AO 9


CRÉDITO E O ENDIVIDAMENTO DO CONSUMIDOR

2.1. Contratos de Crédito: Considerações históricas, doutrinárias e legislativas 9

2.2. Superendividamento: fenômeno econômico-social 15

3. O PROJETO DE LEI 283/2012: PERSPECTIVAS E CRÍTICAS 25

3.1. Regulamentação da oferta de crédito ao consumo 25

3.2. Conciliação e judicialização no tratamento do superendividamento 31

4. A DEFESA DO CONSUMIDOR BRASILEIRO ENDIVIDADO E A 40


ATUALIZAÇÃO DO CDC

4.1. Proteção contratual do consumidor brasileiro endividado 40

4.1.1. Princípio da boa-fé contratual 41

4.1.2. Princípio da dignidade humana 43

4.1.3. Direito de revisão dos contratos 44

4.1.4. Direito de informação 46

4.1.5. Banco de dados positivos 47

4.2. (Des)necessidade de atualização do CDC e o superendividamento 48

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS 54

REFERÊNCIAS 57

ANEXOS 63
7

1 INTRODUÇÃO

Endividar-se é fato corriqueiro e intrínseco à vida em sociedade. Vivemos em


uma sociedade predominantemente de consumo em que, constantemente, as
pessoas estão contraindo dívidas para adquirir produtos e serviços. Nesse cenário,
estão inseridos os contratos de fornecimento de crédito, como fomento ao consumo,
possibilitando aos consumidores a compra imediata daquilo que desejam, sem
necessitar desembolsar de imediato a quantia necessária para tal.
Ocorre que, muitas vezes, o consumidor, atrelando imediatismo à
irresponsabilidade, compra por meio do crédito, através de empréstimos,
financiamentos e afins sem, no entanto, analisar se possuirá, no futuro, condições
economicamente favoráveis de quitar os débitos assumidos. Aliada a este cenário, a
prática no mercado de consumo é a oferta facilitada de crédito, cada vez mais
expandida que, muitas vezes, não leva em consideração a capacidade de
solvabilidade do consumidor.
Ademais, somada a expansão do crédito fácil, encontramo-nos em uma cultura
consumista em que comprar, além de satisfazer as necessidades, é sinônimo de
status e forma de inclusão/exclusão social. Neste contexto, a publicidade tem papel
vital ao criar “necessidades” e estimular o consumidor a comprar cada vez mais,
mesmo que de maneira irrefletida.
Acontece que muitos consumidores, ao recorrerem ao crédito, veem sua
situação financeira restar comprometida a ponto de não conseguirem mais fazer frente
às suas dívidas e prejudicar a sua sobrevivência com o mínimo de dignidade. Este
fato ultrapassa o mero endividamento, comum na nossa sociedade de consumo, e se
trata de um problema social grave que atinge muitas famílias em todo o mundo: o
superendividamento.
O problema do superendividamento atinge tanto a esfera jurídica, como a
econômica e social e já encontra tratamento legislativo no Direito estrangeiro,
principalmente na Europa e nos EUA.
No Brasil, o tema encontra-se no âmbito das discussões doutrinárias sem, no
entanto, possuir legislação específica a seu respeito. Nesse sentido, tramita no
Senado Federal desde agosto de 2012 o projeto de lei nº 283, propondo aperfeiçoar
a regulação da oferta de crédito no país, bem como estabelecer mecanismos de
prevenção e tratamento do superendividamento através da alteração e inserção de
8

dispositivos no Código de Defesa do Consumidor - CDC vigente. A proposta é alvo de


intensos debates entre juristas e causa divergência de opiniões quanto à necessidade
de alteração do referido código, considerado uma das legislações mais avançadas do
mundo na seara consumerista.
Assim sendo, objetiva-se, através do presente trabalho, compreender o
fenômeno econômico-social do superendividamento e analisar seus mais variados
aspectos em conjunto ao projeto de lei supracitado, a fim de verificar a
(des)necessidade de alteração do texto do CDC como forma de proteção ao
consumidor endividado.
Para tanto, utilizou-se, metodologicamente, de pesquisa bibliográfica com a
leitura de material relacionado ao tema na doutrina, legislações e jurisprudência.
Considerando o grau de importância do crédito no endividamento excessivo
dos consumidores, tornou-se necessária a abordagem do surgimento e evolução dos
contratos de crédito ao longo do tempo, feita no primeiro capítulo. Ainda neste, tratou-
se de conceituar o superendividamento, trazendo classificações e especificações
sobre o tema, objetivando a sua evidenciação como grave problema econômico,
jurídico e social. Ademais, o referido capítulo trata do cenário do endividamento
excessivo em relação ao consumidor brasileiro.
O segundo capítulo destina-se a analisar, minuciosamente, os dispositivos
propostos no projeto de lei nº 283, iniciativa do Legislativo brasileiro que visa tratar
sobre a temática do trabalho.
Por fim, o terceiro capítulo apresenta os princípios atinentes ao
superendividamento trazidos na Constituição Federal, CDC e legislação esparsa, bem
como as divergentes opiniões a respeito da proposta de atualização do código
consumerista, com vistas a estabelecer um comparativo entre os mecanismos que
estão positivados e aqueles propostos no projeto, a fim de avaliar a necessidade ou
não deste último.
Diante da grande relevância social que o tema possui, haja vista, o expansivo
aumento de consumidores em situação de exclusão social devido ao endividamento
excessivo, o trabalho adentra o seio das discussões sobre o tema e propõe reflexões
quanto à prevenção e tratamento do problema.
9

2 SUPERENDIVIDAMENTO E CRÉDITO: A RELAÇÃO ENTRE O ACESSO AO


CRÉDITO E O ENDIVIDAMENTO DO CONSUMIDOR

A sociedade moderna é caracterizada pelo hiperconsumismo, em que as


pessoas são influenciadas a comprar de maneira desenfreada e valoradas por aquilo
que possuem. Nesse diapasão, o consumidor é induzido, através da publicidade, a
adquirir bens e serviços além das suas possibilidades, o que acaba ocasionando uma
situação de superendividamento, problema econômico-social que passa diretamente
pela facilitação do acesso ao crédito.

2.1 CONTRATOS DE CRÉDITO: CONSIDERAÇÕES HISTÓRICAS,


DOUTRINÁRIAS E LEGISLATIVAS

O contrato é uma espécie de negócio jurídico firmado entre dois ou mais


sujeitos que gera efeitos entre si. Elemento integrante da realidade social, trata-se o
contrato da mais comum e importante fonte de obrigação, em decorrência de suas
mais variadas formas e repercussões no mundo jurídico.
Dentre as suas espécies, está a do contrato de crédito, que trata do negócio
jurídico através do qual um credor concede ou promete conceder a um consumidor
um crédito, sob forma de deferimento de pagamento, mútuo, utilização de cartões de
crédito ou qualquer outro acordo de financiamento semelhante.
Na definição de Jean Calais-Auloy, o crédito:

É uma operação que permite ao consumidor obter imediatamente uma


prestação cujo valor será pago somente mais tarde. Pouco importa o objeto
da prestação: pode ser uma soma de dinheiro, uma coisa ou um serviço.
Pouco importa que a prestação seja obtida por meio de um empréstimo, uma
venda, uma locação ou outro contrato. O que é essencial e distingue a
operação a crédito de uma operação à vista é o fracionamento (diferimento)
do tempo. O fornecedor de crédito aceita esperar um certo prazo para exigir
o pagamento de seu crédito. (apud LIMA, 2010, p. 21-22)

Em suma, o contrato de crédito é o instrumento que permite ao consumidor


obter imediatamente uma prestação, um bem ou um serviço, enquanto que o
fornecedor do crédito se submete a esperar o tempo aprazado, para só então exigir o
seu pagamento. É o ato pelo qual uma pessoa, agindo a título oneroso, coloca fundos
10

à disposição de outra pessoa (MARQUES, 1996, p. 67). Tal contrato, além de escalar
a prestação no tempo, permite a estipulação de garantias por parte do fornecedor.
Na atualidade, o fornecimento de crédito é elemento integrante e essencial da
sociedade de consumo em massa. O crédito funciona como elemento de energização
da economia ao tempo em que, com sua maior oferta no mercado, aumenta-se o
consumo e, consequentemente, a geração de empregos e a circulação de
mercadorias.
A oferta de crédito na sociedade, entretanto, não é algo novo. O crédito
representa um dos pilares da evolução da vida em sociedade e foi uma das primeiras
manifestações econômicas de que se tem notícia. A origem do crédito é anterior à
indústria, aos bancos e ao empréstimo de moedas, e remonta à fase da sedimentação
da agricultura no neolítico1 (VENTURA, 2000, p. 69).
Na Mesopotâmia, no século VI a. C., já se praticava o empréstimo feito em uma
de suas moedas, dinheiro ou açúcar, sendo os contratos redigidos em pequenas
tábuas (GIANCOLI, 2008, p. 15). No Código de Hamurabi (1792 a 1750 a. C.), os
empréstimos, seja de dinheiro, seja in natura, eram formalizados por meio de
contratos escritos. O referido código regulamentou pela primeira vez a usura
(cobrança de juros abusivos diante da utilização do capital), punindo com a perda da
própria vida aqueles que ultrapassassem o valor dos juros (COSTA, 1998, p. 103).
As bases do crédito, todavia, só foram sedimentadas em Roma, com as leis de
Justiniano. Entre os romanos, o empréstimo constituía prática muito comum e era
realizado por banqueiros denominados “banqueiros argenti”, que pesavam o dinheiro,
objeto do mútuo, na presença do cliente e de mais cinco testemunhas (VENTURA,
2000, p. 13). O sistema de crédito instituído pelos romanos é muito semelhante ao
praticado na atualidade e são eles os responsáveis por estabelecer o costume de usar
o crédito para suprir a necessidade de capitais.
Na Idade Média, apesar das proibições advindas da Igreja Católica, que
entendia por usura2 todo contrato que implicasse o pagamento de algum juro, as
atividades envolvendo crédito se intensificaram, em consequência das Cruzadas e
das feiras de mercadores, que geraram uma grande expansão nas relações

1
O Neolítico ou Idade da Pedra Polida foi um período da pré-história correspondente ao início da agricultura, de
10.000 a 5.000 a.C. (COSTA, 1998, p.102)
2
Toda atividade que objetivasse obter lucro em cima de uma transação era considerada pela Igreja Católica como
usura. O usurário era tratado pela Igreja como pecador e merecia o inferno. Assim, as atividades de mercador e
banqueiro eram consideradas condenáveis (LE GOFF apud SOUZA, 2008, p.186).
11

comerciais entre os povos. A postura da Igreja, entretanto, foi se modificando ao longo


do tempo, com a compreensão de que os mercadores poderiam funcionar como um
elemento de apoio para os interesses de poder (VENTURA, 2000, p. 30).
A partir do século XIX, o crédito, outrora visto como sinônimo de pobreza, passa
a ser visto pela sociedade como elemento íntegro para aquisição de bens essenciais
ao cotidiano das pessoas (MALUCELLI, 2008, p. 15). Nos Estados Unidos, em 1850,
Issac Singer inventara um método revolucionário que representa um marco na história
da democratização do crédito. Ao criar uma máquina de costura que levaria seu nome,
Singer instituiu um método de compra do produto no qual o cliente pagava um valor
de entrada e o restante em prestações, sendo a propriedade da máquina somente
conferida ao cliente após o pagamento de todas as parcelas. Tal método foi bastante
exitoso e passou a ser difundido para aquisição de outros produtos (ALPA apud
COSTA, 1998, p. 104)
Mais tarde, em 1923, Henry Ford também se utilizaria de um plano de
pagamento a prazo, no qual o cliente, após preencher uma proposta de adesão,
passava a pagar parcelas semanais para aquisição do veículo Ford T, somente
podendo retirá-lo ao final do pagamento da totalidade das parcelas. Tais propostas
foram bastante inovadoras para a época e são utilizadas até hoje, sendo possível
identificar a similaridade do primeiro caso com o instituto da alienação fiduciária e do
segundo caso, com o instituto do consórcio, práticas amplamente adotadas na
atualidade (VENTURA, 2000, p. 76-77).
Com o transcorrer do tempo, o acesso ao crédito foi sendo facilitado e a
sociedade passou a consumir cada vez mais. As empresas também potencializaram
o consumo ao investir em estratégias de publicidade que despertassem nas pessoas
a vontade de comprar, o que gerou uma sociedade altamente consumista, movida,
muitas vezes, por interesses que ultrapassam a real necessidade e adentram o
supérfluo.
Assim, passa-se a discutir no meio jurídico uma nova proteção à vontade do
consumidor, ou seja, a garantir uma autonomia real da sua vontade, por ser parte mais
fraca na relação contratual, que se vê, de certa maneira, coagido pelas pressões e
desejos impostos pela publicidade e os métodos agressivos de venda.
No que atine especificamente ao Brasil, surge, no ano de 1991, o Código de
Defesa do Consumidor – CDC (Lei nº 8.078, de 11 de setembro de 1990), trazendo
12

profundas modificações no regime de contratos de consumo, inclusive nos de


concessão de crédito, e especial proteção aos consumidores.
O CDC tratou de estabelecer, logo no primeiro artigo, que as normas de
proteção e defesa do consumidor trazidas no código são de caráter público e de
interesse social3. Assim, tal legislação consumerista defere ao contrato um caráter
social, uma verdadeira função social que viria a ser corroborada no Código Civil de
20024.
O princípio da função social dos contratos decorre de uma visão mais
humanista do Estado Democrático de Direito, relativizando a autonomia da vontade
em prol da coletividade, mesmo estando em jogo a livre iniciativa. Esta concepção
social do contrato apresenta-se, modernamente, como um dos pilares da teoria
contratual (GONÇALVES, 2012, p. 25).
A origem das modificações trazidas pelo código consumerista em relação aos
contratos de consumo está na imposição do princípio da boa-fé (objetiva) para as
obrigações envolvendo consumidores e fornecedores (MARQUES, 1996, p. 56). Tal
princípio veio para relativizar a força, até então absoluta, da autonomia da vontade,
princípio basilar do direito privado.
Segundo Carlos Roberto Gonçalves,

o princípio da autonomia da vontade se alicerça exatamente na ampla


liberdade contratual, no poder dos contratantes de disciplinar os seus
interesses mediante acordo de vontades (...). Tem as partes a faculdade de
celebrar ou não contratos, sem qualquer interferência do Estado. (2012, p.
41).

Tal princípio teve o seu auge na Revolução Francesa, com a predominância do


individualismo e a pregação da liberdade em todas as esferas, inclusive na dos
contratos.
Entretanto, não se pode permitir que os consumidores, detentores de uma
vontade aprisionada pela indústria do consumismo, não tenham qualquer proteção
como parte vulnerável da relação de consumo. Desta feita, o CDC trouxe os institutos
da boa-fé objetiva e da função social do contrato como limitadores dessa autonomia

3
“Art. 1º O presente Código estabelece normas de proteção e defesa do consumidor, de ordem pública e
interesse social, nos termos dos arts. 5º, inciso XXXII, 170, inciso V, da Constituição Federal e art. 48 de suas
Disposições Transitórias.” (BRASIL, CDC, 1990)
4
Dispõe o art. 421 do Código Civil: “A liberdade de contratar será exercida em razão e nos limites da função social
do contrato.”
13

da vontade em contratar, como forma de estabelecer obrigações aos fornecedores,


inclusive os de crédito, e proteger o consumidor, contratante mais fraco.
A boa-fé significa a atuação das partes com honestidade, retidão e lealdade em
relação ao outro contratante. No caso dos contratos de crédito, a aplicação da boa-fé
gera no fornecedor de crédito a obrigação de atuar com transparência,
proporcionando ao consumidor clareza nas informações quanto às condições do
crédito e sobre o contrato. Tal princípio impõe uma atuação refletida por parte do
contratante em situação de superioridade, a fim de permitir ao contratante mais fraco
(consumidor vulnerável) as condições necessárias para a formação de uma vontade
racional (vontade rationnelle) (MARQUES, 1996, p. 57).
No que atine aos contratos de crédito, o CDC, em seu art. 52, trouxe algumas
normas de regularização da outorga de crédito, com o intuito de possibilitar ao
consumidor uma decisão refletida, uma manifestação de vontade que seja consciente,
livre e racional. O artigo é basicamente preventivo, elencando requisitos básicos que
o contrato de concessão de crédito deve possuir. Nesse dispositivo, a lei ratifica os
termos do art. 3º, §2º, que define o serviço como objeto da relação de consumo,
incluindo nesse conceito os serviços de natureza creditícia e financeira.

Art. 52. No fornecimento de produtos ou serviços que envolva outorga de


crédito ou concessão de financiamento ao consumidor, o fornecedor deverá,
entre outros requisitos, informa-lo prévia e adequadamente sobre:
I – preço do produto ou serviço em moeda corrente nacional;
II – montante dos juros de mora e da taxa efetiva anual de juros;
III – acréscimos legalmente previstos;
IV – número e periodicidade das prestações;
V – soma total a pagar, com ou sem financiamento.

Faz-se mister a ressalva de que a aplicação do CDC aos bancos, financeiras,


seguradoras e administradoras de cartões de crédito é constitucional. São contratos
considerados como relação de consumo, por força da Súmula 297 do Superior
Tribunal de Justiça, sendo o usuário de crédito admitido como consumidor
irrefutavelmente5.
Desta forma, estão abarcados pelo supracitado artigo todos os contratos que
se refiram à concessão de crédito. Apesar das várias formas de outorga creditícia, as
instituições financeiras ganham maior destaque, haja vista as características destas

5
BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. Súmula nº 297: “O Código de Defesa do Consumidor é aplicável às
instituições financeiras.”
14

operações. A título de exemplos destes tipos de contratos, cite-se os contratos de


mútuo, de abertura de crédito rotativo (popularmente conhecido como cheque
especial), de cartão de crédito, de financiamento de aquisição de produto durável por
alienação fiduciária ou reserva de domínio, de empréstimo para aquisição de imóvel,
dentre outros, desde que se configurem como relação de consumo, ou seja, haja a
relação jurídica de bilateralidade estabelecida entre consumidor e fornecedor, tendo
como objeto a aquisição de produtos e serviços pelo primeiro.
Por outro lado, o código consumerista traz um rol de situações consideradas
abusivas nos contratos de consumo. Quanto aos contratos de crédito, em sua maioria
contratos de adesão (redigidos unilateralmente pelos fornecedores de crédito), tais
proibições também funcionam como um limitador da liberdade contratual, ao tempo
em que reduzem o alvedrio do fornecedor de estabelecer livremente o texto do
contrato. Esta limitação também decorre da aplicação do princípio da boa-fé, ao
objetivar evitar vantagens ou abusos por parte do contratante em situação mais
confortável na relação. Tal princípio, em conjunto com a aplicação da função social
aos contratos, tem como escopo promover o equilíbrio entre as partes nas relações
contratuais, sempre em prol da coletividade.
De acordo com a natureza, os contratos de outorga de crédito podem ser
classificados em específicos ou mistos. Serão de natureza específica, quando
considerados isoladamente. Serão de natureza mista, quando considerados em
conjunto com outros negócios. São os chamados contratos de crédito afetado
(CALAIS-AULOY apud MARQUES, 1996, p. 69), muito comuns na atualidade, assim
denominados pois a vontade do consumidor destina-se a financiar um produto ou
serviço determinado como, por exemplo, o financiamento para fins de compra de um
automóvel. Ou, inicialmente, poderá o contrato afetado ser indeterminado, como no
caso dos cartões de crédito, mas após a sua utilização, haverá a vinculação a
determinado ato de consumo.
Dos conceitos exarados até então, é possível extrair que o crédito é composto
dos elementos confiança, prazo, interesse ou juro e risco (VENTURA, 2000, p.68-69).
A confiança faz parte de tal relação contratual. A própria palavra crédito tem
sua origem na palavra latina creditum derivada do verbo credere, que significa crer,
confiar (MARQUES, 1996, p. 56). Consumidor e fornecedor de crédito precisam de
atos que demonstrem retidão, que resguardem idoneidade e honestidade recíproca,
sem as quais a relação não poderá ser iniciada. Os contratos de crédito geralmente
15

são de longa duração e podem originar graves prejuízos às partes. Por isso, a
confiança, elemento decorrente da boa-fé, subentende-se presente neste tipo de
relação.
O prazo, conforme se extrai do conceito de crédito, consiste no tempo que
medeia a concessão e o lapso para sua restituição. Trata-se do intervalo entre a
entrega do bem e o seu pagamento.
O interesse ou juro é o preço estipulado para cada unidade de tempo pelo
transcorrer do pagamento de um crédito de coisas fungíveis. É a remuneração dos
recursos emprestados. Caso não respeitado o prazo estipulado para a restituição,
poderá ser agravado com a aplicação pelo credor de uma penalidade, conhecida
como multa moratória (VENTURA, 2000, p. 68-69).
Risco é um elemento inerente ao crédito e deste inseparável. Trata-se da
possibilidade de não receber o montante negociado em virtude da inadimplência do
consumidor-tomador. O descumprimento do contrato de crédito pode decorrer da má-
fé do tomador ou mesmo de circunstâncias alheias a sua atuação que lhe impedem
de cumprir com o convencionado. Ao realizar uma operação de crédito, o consumidor
também está sujeito a riscos, dentre eles, o risco de endividamento (VENTURA, 2000,
p. 68-69).

2.2 SUPERENDIVIDAMENTO: FENÔMENO ECONÔMICO-SOCIAL

A análise do cenário atual nos leva a inconteste conclusão de que vivemos em


uma sociedade predominantemente de consumo. É verdade que o consumo faz parte
da sociedade desde os primórdios, consumir faz parte da nossa sobrevivência,
entretanto, a denominação “sociedade de consumo” só veio aparecer após a
Revolução Industrial, onde a palavra “consumir” ganhou uma acepção muito mais
ampla do que garantir a subsistência.
No século XVIII, a Revolução Industrial, ocorrida na Europa, alterou os meios
de produção, fazendo com que as manufaturas dessem lugar à tecnologia e à
mecanização da indústria e da agricultura. Com isso, as pessoas começaram a deixar
o campo em busca de trabalho nas indústrias, o que resultou em um grande aumento
populacional nos centros urbanos. O contingente populacional resultou num aumento
da demanda de consumo, fato que fez as empresas vislumbrarem uma possibilidade
de aumentar a oferta e, consequentemente, os lucros. A maior demanda que havia se
16

instaurado exigia que a produção fosse o mais célere possível, o que resultou na
adoção, por parte das empresas, do modelo de produção em série, o qual
proporcionou aos empresários significativa diminuição dos custos e maiores vendas.
Assim, tais empresários assimilaram que seria possível obter cada vez mais lucro se
o consumidor fosse incitado a consumir cada vez mais (KADRI, 2013, p. 36).
Aqui tem início a sociedade de consumo. Por meio da publicidade e do
marketing, as empresas começam a moldar as necessidades da população, buscando
inculcar nas pessoas o impulso de comprar cada vez mais. O ato de consumir virou
sinônimo de inclusão social. As pessoas passaram a ver no consumo uma forma de
exteriorizar um estilo de vida, de se alçar a uma determinada classe social, ainda que
aparentemente, conferindo-lhe status e demarcando relações sociais.
Neste contexto, a concessão de crédito passou a ser cada vez mais
democratizada, com o intuito de energizar a economia e viabilizar o ingresso e a
participação de cada vez mais indivíduos na sociedade de consumo. Funciona o
crédito como elemento propulsor da economia, haja vista que quanto maior o capital
injetado na sociedade, maior será o seu crescimento, ao tempo em que possibilita ao
consumidor a aquisição de bens e serviços das mais diversas espécies, a fim de
suprir-lhe suas necessidades, sejam elas reais (verdadeiras utilidades) ou aparentes
(frutos da pressão advinda da publicidade) (GUSMÃO, 2009, p. 23).
Ocorre que a sociedade moderna passou a ser dependente da concessão de
crédito, ao ponto de sua ausência significar, muitas vezes, a impossibilidade de
cumprir com obrigações financeiras básicas, essenciais à manutenção das pessoas.
Os indivíduos passaram a consumir cada vez mais sem levar em consideração as
responsabilidades, custos e riscos que uma operação de tomada de crédito exige. O
crédito por si só não é um elemento nocivo, e possibilita uma forma de inclusão social
ao permitir a muitos acesso a determinados bens cuja aquisição, às vezes, não seria
possível por outra maneira. Entretanto, a expansão exacerbada de crédito, por muitas
vezes irresponsável, aliada à cultura de consumo que se instalou, acabou gerando
uma situação social patológica na qual o consumidor resta impossibilitado de cumprir
com as obrigações assumidas. Trata-se do fenômeno do superendividamento.
Nas palavras de Claudia Lima Marques, o superendividamento é

a impossibilidade global do devedor-pessoa física, consumidor, leigo e de


boa-fé, de pagar todas as suas dívidas atuais e futuras de consumo
(excluídas as dívidas com o Fisco, oriundas de delitos e de alimentos) em um
17

tempo razoável com sua capacidade atual de rendas e patrimônio (2005, p.


12).

Trata-se da impossibilidade do devedor de pagar todas as suas dívidas, atuais


e futuras, com o seu patrimônio e seu rendimento. No mesmo entendimento, Heloisa
Carpena leciona que o superendividado é aquele que viu comprometida a sua
sobrevivência com dignidade em razão das dívidas contraídas para consumo próprio
ou de sua família (apud PEREIRA; CALGARO; VARELA, 2014, p.191).
Por sua vez, a legislação francesa descreve o superendividamento das
pessoas físicas pela impossibilidade manifesta, do devedor de boa-fé, de enfrentar o
conjunto de suas dívidas não profissionais, exigíveis e vincendas6. Também
denominado de sobreendividamento ou falência da pessoa física, tal fenômeno
diferencia-se do endividamento comum. O endividamento por si só é a prática de
contrair dívidas ao adquirir produtos e serviços para suprir necessidades atuais, sem
que se disponha de recursos financeiros para tanto. Trata-se de um fato inerente à
vida na sociedade de consumo e que não se confunde com o superendividamento.
Este se configura quando o montante devido supera o orçamento, quando há uma
impossibilidade, por parte do devedor, “durável ou estrutural, de pagar o conjunto das
suas dívidas, ou mesmo quando existe uma ameaça séria de que não possa fazê-lo
no momento em que elas se tornarem exigíveis” (MARQUES apud LIMA, 2014, p. 34).
Não há uma quantia que sirva de parâmetro para determinar se o devedor está
em situação de superendividamento. Essa aferição se dá mediante comparação entre
o ativo e o passivo do indivíduo e sua família, atentando para as particularidades do
caso, como as necessidades básicas destes (COSTA apud SCHMIDT NETO, 2009,
p. 169)
A doutrina europeia distingue o superendividamento em duas categorias: o
passivo e o ativo. A primeira categoria diz respeito aos consumidores que não
contribuíram ativamente para o aparecimento da crise de solvência. O
superendividamento passivo é aquele que ocorre por circunstâncias alheias à vontade
do consumidor, que age de boa-fé. Como exemplos dessa categoria, aponta-se o
desemprego, a morte de um familiar que provia a família, acometimento de doenças
e também a abusividade contratual praticada pelo fornecedor de crédito (MARQUES
apud LIMA, 2014, p. 34).

6
Code de la Consommation, Art. L 330-1 apud MARQUES; LIMA; BERTONCELLO, 2010, p. 21
18

Já na segunda categoria, relativa ao superendividamento ativo, estão os


consumidores que abusaram do crédito e consumiram além do que suas rendas
permitiam. Ocorre quando resta configurada a participação direta do devedor para a
situação de inadimplência. Por sua vez, os superendividados ativos podem ser
inconscientes ou conscientes. Os inconscientes são aqueles que não souberam
calcular o impacto da dívida em seu orçamento, ou por falta de informação quanto aos
encargos inerentes à contratação, ou em virtude da concessão irresponsável pelo
fornecedor de crédito. Enfim, consumidores de boa-fé que acreditam poder honrar
seus débitos. Já os superendividados ativos conscientes são aqueles que contrataram
de má-fé, ou seja, já com a intenção de não reembolsar a dívida no momento de seu
vencimento. A ausência da boa-fé, desde que comprovada, impede o auxílio do
Estado ao superendividado (MARQUES apud LIMA, 2014, p. 34).
A base de tais conceitos e categorias do superendividamento vem do direito
estrangeiro. Ante a ausência de legislação específica no Brasil sobre o tema, a
doutrina se socorre das legislações, jurisprudência e doutrina estrangeira para
estabelecer critérios de identificação do endividamento excessivo. Em países como
Dinamarca, França, Estados Unidos e Alemanha, já existe uma tutela legislativa
completa das situações de superendividamento. A Dinamarca foi o primeiro país a
regulamentar especificamente o tema em 1984, seguida da França, em 1989, com a
Lei de Neiertz.
A caracterização do superendividamento demanda alguns pressupostos. O
pressuposto objetivo é tratar-se de pessoa física, cujas dívidas não sejam decorrentes
de sua atividade profissional. O CDC traz um conceito amplo de consumidor,
definindo-o como a pessoa física ou jurídica que adquire ou utiliza produto ou serviço.
Entretanto, no tocante a endividamento excessivo, fala-se somente do devedor
pessoa física, pois, do contrário, estaríamos tratando da recuperação de empresas e
falência, matéria já tutelada no direito brasileiro7. Por isso mesmo que o
superendividamento é também chamado de falência do consumidor.
Outro pressuposto é o da manifesta incapacidade de pagar dívidas, ou
impossibilidade global, conforme conceitua Cláudia Lima Marques (2005, p. 12). Para
que se manifeste o endividamento excessivo, é necessário que seja realizado um

7
Lei nº 11.101, de 9 de fevereiro de 2005, que regula a recuperação judicial, a extrajudicial e a falência do
empresário e da sociedade empresária.
19

estudo que leve em conta todo o ativo patrimonial (mobiliário, imobiliário e renda
familiar mensal) e subtraído todo o passivo acumulado, levando em conta os encargos
e os gastos a serem feitos para garantir o mínimo de subsistência. Se o resultado for
negativo e evidenciar a impossibilidade de cumprimento, restará caracterizado o
superendividamento (CARPENA; CAVALLAZI, 2006, p. 172).
Outro pressuposto para a caracterização do endividamento excessivo é o da
boa-fé do consumidor, a qual é, todavia, presumida. Conforme supracitado, o Estado
não socorre os endividados conscientes, ou seja, aqueles que contraíram dívidas,
convictos da não possibilidade de poder honrá-las, visando a lesar o credor ao deixar
de cumprir sua obrigação, ciente de que não poderá ser executado. Embora a boa-fé
possa ser presumida, naturalmente, admite-se prova em contrário. A doutrina francesa
construiu entendimento de que determinados comportamentos do consumidor
superendividado denotam a má-fé, como prestar declarações falsas, ocultar ou tentar
ocultar ativos no todo ou em parte ou continuar comprando e agravando a sua situação
de endividado.
No que atine às causas do fenômeno do superendividamento, conforme supra
exposto, o crédito é a principal delas. O endividamento excessivo só existe quando o
crédito é usado pelos consumidores. Entretanto, outras causas podem ser apontadas
para a compreensão de tal fenômeno. Uma delas é a desregulamentação dos
mercados de crédito. Os bancos centrais tiveram seus mecanismos de controle
reduzidos e o teto de juros foi exageradamente ampliado. Some-se a isso o fato dos
bancos concederem de maneira irresponsável o crédito, fornecendo-o a clientes sem
condições financeiras de reembolsá-lo (LIMA, 2014, p. 35-39).
Aponta-se ainda, como causa do endividamento excessivo, a redução do
estado de bem-estar social. Os países não oferecem educação pública de qualidade,
assistência médica satisfatória, ou, muitas vezes, não amparam o trabalhador em
situações de desemprego, o que faz com que este, diante da redução de sua renda,
tenha que recorrer ao crédito para despesas imprevistas, surgindo, assim, as
dificuldades em adimplir seus débitos (ob. cit.).
Existem ainda outros fatores que podem ser atribuídos aos próprios
consumidores para o superendividamento, como a tendência a consumir
impulsivamente, sem planejamento. Além disso, segundo a teoria da heurística
20

incompleta8, os consumidores tendem a subestimar os riscos da tomada de crédito e


superestimar as chances de sucesso ou de reembolso do crédito no futuro. Ao
acreditarem que tendem a permanecer no emprego, com salário garantido e que a
economia permanecerá estável, tendem a gastar mais (ob. cit.).
A falta de informação e educação financeira também contribui
significativamente para o aumento de risco de endividamento. O déficit de educação
financeira torna os consumidores mais suscetíveis a se endividar de maneira
excessiva, uma vez que dificulta a compreensão e o bom uso do crédito de forma
racional e planejada (ob. cit.).
Analisado o cenário atual dos países e as causas que levaram ao
superendividamento, resta inconteste que tal fenômeno representa um grave
problema de ordem econômica, jurídica e social. Tão grave que vários países
passaram a aprofundar nesta problemática, buscando alternativas que fossem
capazes de solucionar/atenuar o problema.
Do ponto de vista econômico, o superendividamento acaba gerando um grande
desequilíbrio e estagnação na economia de um país. Isso porque a concessão
desenfreada de crédito sem o devido controle, somada à cultura de consumo da
sociedade, resultou em uma tomada de crédito por parte dos consumidores sem a
observação das devidas cautelas, o que aumentou significativamente o endividamento
excessivo e fez com que várias pessoas deixassem de integrar o mercado. A crise de
solvência instaurada prejudica a economia ao tempo em que reduz a circulação de
mercadorias e serviços e atinge a confiança no país.
Do ponto de vista social, o superendividamento representa um fator de
exclusão das pessoas do seio da sociedade. Mais que um problema econômico e
jurídico, o endividamento excessivo atenta contra a própria dignidade, afetando a vida
das pessoas falidas e privando-as de uma existência digna. O endividamento
excessivo também é causador de desestruturação no seio familiar. A situação de
inadimplemento costuma configurar uma situação estressante e psicologicamente
dramática na vida dos devedores e suas famílias. O fenômeno afeta a autoestima e
gera insegurança econômica na gestão da vida familiar, provocando nas pessoas
quadros de depressão que podem levar até mesmo ao suicídio.

8
Segundo a teoria da heurística incompleta, o consumidor tende a tomar decisões subestimando os riscos e
superestimando as chances de sucesso do reembolso do crédito no futuro. (JACKSON, Thomas H. The logic and
limits of bankrupcty law. Cambridge: Harvard University, 1986. P. 236 apud LIMA, 2014, p. 36)
21

O periódico digital “Público” da Espanha, veiculou em notícia publicada no dia


18/02/2013, que as tentativas de suicídio têm aumentado expressivamente no país
em virtude das condições sofridas por vítimas da crise econômica, em especial,
aquelas ameaçadas de serem despejadas de suas casas por conta de dívidas
hipotecárias. O jornal afirma ainda que todos os dias nove pessoas cometem suicídio
na Espanha. Destas, três em virtude da crise financeira9.
A título de exemplo, vale citar o caso de Alvarez Juan M.P., de 45 anos de
idade. O espanhol enforcou-se na rua em novembro de 2010 e tomou esta decisão
depois de pedir ao Conselho da Cidade para atrasar o seu despejo porque estava
“muito frio para estar com a família na rua” (LIMA, 2014, p. 42).
Quanto aos impactos sociais causados pelo superendividamento:

Sob uma ou outra forma, o superendividamento é gerador de situações


nefastas que não se pode deixar prosperar. Constitui, com efeito, fonte de
tensões no seio da célula familiar que muitas vezes acarretam um divórcio,
agravando a situação de endividamento. Ele pode conduzir as pessoas
superendividadas a evitar despesas de tratamentos, mesmo essenciais, ou
ainda a negligenciar a educação dos filhos. E, na medida em que a situação
é tal, que a moradia não pode ser assegurada, é dado um passo na direção
da exclusão social. O superendividamento é fonte de isolamento, de
marginalização; ele contribui para o aniquilamento social do indivíduo.
(MARQUES; LIMA; BERTONCELLO, 2010, p.10)

Dessa forma, é incontroverso que o superendividamento, mais que uma


questão econômica, é um problema de ordem social, ao tempo em que ocasiona
situações graves que afetam diretamente a dignidade do devedor e de sua família.

2.3 O CENÁRIO DO ENDIVIDAMENTO EXCESSIVO NO BRASIL

Assim como em outros países, no Brasil a questão do superendividamento


passa pelo aumento da oferta de crédito aos consumidores em uma sociedade
hedonista, onde o indivíduo adquire status na medida em que consome.
A inserção do crédito ao consumo no Brasil teve início por volta dos anos 50,
com o surgimento dos bancos de dados de proteção ao crédito e com a expansão do
sistema de concessão direta de crédito por parte dos comerciantes. Esta concessão

9
Periódico digital espanhol Público.es: “Alarma social ante la oleada de intentos de suicídio por la crisis” Notícia
veiculada no dia 18/02/2013. Acesso em 23/09/14 em <http://www.publico.es/450904/alarma-social-ante-la-
oleada-de-intentos-de-suicidio-por-la-crisis>
22

era lenta e complexa e o consumidor, candidato ao crédito, deveria preencher um


longo cadastro de informações. As lojas, por sua vez, empregavam pessoas como
informantes para averiguar as informações fornecidas pelos consumidores.
Daí que surgiu a ideia de que a instituição de um órgão somente para a coleta
de tais informações daria agilidade e seria mais rentável aos comerciantes, e assim
foi fundado o Serviço de Proteção ao Crédito – SPC, no ano de 1955.
Em 1965, a reforma do Sistema Financeiro representou a modernização do
crédito brasileiro e institui o crédito direto ao consumidor (CDC), obrigando as
instituições financeiras a destinar 40% dos seus recursos para este tipo de crédito.
Esta política gerou imediatamente um aumento no movimento dos negócios e
expandiu a demanda pelos bens de consumo em 20% durante o período de 1965 a
1975.
Em 1994, o Brasil passou a oferecer mais crédito com a estabilização da moeda
a partir da instituição do Plano Real. Tal plano tinha o objetivo de estabilizar a
economia, reduzindo a inflação que, no ano anterior, atingira o (incrível) percentual de
2477%. O plano foi visto como uma oportunidade de renovar os ativos dos
consumidores e lhes dar qualidade de vida. O crédito tornou-se um dos mecanismos
de gestão do orçamento familiar e componente das economias de mercado. (LIMA,
2006, p.35)
Ademais, a expansão da classe C no Brasil, a chamada classe média, também
representou um fator de potencialização do consumo de crédito no país. Desde 2003,
quase 30 milhões de brasileiros foram alçados das classes “D” e “E” em virtude dos
programas sociais de transferência de renda, além do aumento do salário mínimo.
Somado a isso, o governo implantou políticas públicas que propiciassem a inclusão
bancária e o crédito popular, como forma de inclusão social, de resgate da cidadania
e dignidade, incentivando o consumo e a circulação de bens.
Nesse sentido, o crédito ao consumo cumpriu sua função, sendo um fator de
inclusão social, ao permitir o acesso de muitas famílias a bens indispensáveis ao bem-
estar mínimo e à qualidade de vida, além de aquecer e desenvolver a economia do
país. Entretanto, este ambiente propício ao consumo, com uma maior oferta de
crédito, teve reflexo nos padrões de consumo e acabou favorecendo o
superendividamento das famílias brasileiras.
Tais famílias não foram preparadas para consumir de maneira responsável,
sem antes analisar os prós e contras de um contrato de crédito. O déficit de informação
23

e de educação financeira do consumidor brasileiro, aliado ao imediatismo e à


publicidade, faz com que tais famílias recorram cada vez mais ao crédito de forma
temerária e se endividem progressivamente.
Exemplo disso é o uso do cartão de crédito no Brasil, que cresceu
demasiadamente nos últimos anos. De acordo com a Associação Brasileira das
Empresas de Cartões de Crédito e Serviços (ABECS), somente no primeiro semestre
do ano de 2014, o cartão de crédito respondeu por R$ 291 bilhões das transações no
período, valor que representa uma alta de 13,5% em relação ao ano anterior.10 O valor
aumenta ano após ano, entretanto, o mercado de cartões pratica altas taxas de juros,
o que contribui para o aumento do nível de inadimplência entre os consumidores
brasileiros.
Mensalmente, a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e
Turismo (CNC) realiza levantamento a fim de averiguar o número de consumidores
endividados no Brasil. Trata-se da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do
Consumidor (PEIC), que serve de orientação para os empresários do ramo comercial
de bens, serviços e turismo que utilizam o crédito como ferramenta estratégica. A
pesquisa traça um perfil do brasileiro endividado, trazendo, dentre outras informações,
a própria percepção do consumidor endividado em relação a sua capacidade de
pagamento. Na pesquisa realizada em setembro de 2014, o percentual de famílias
que relataram ter dívidas entre cheque pré-datado, cartão de crédito, cheque especial,
carnês de lojas, empréstimo pessoal, prestação de carro e seguro alcançou a marca
de 63,1%. Destes, 19,2% afirmaram ter dívidas em atraso e, o mais alarmante, 7,0%
das famílias endividadas afirmaram não ter condições de pagar as contas em atraso
e, portanto, permanecerão inadimplentes.11
Estes números refletem a problemática do endividamento brasileiro, que está
totalmente atrelado ao aumento do acesso ao crédito. As instituições financeiras
passaram a conferir mais crédito à população, entretanto, a facilitação do acesso veio
acompanhada de elevadas taxas de juros, como forma de mitigar os riscos da
operação e passa-los à parte mais vulnerável da relação de consumo, o consumidor.

10
“Brasileiro está usando mais o cartão”, notícia veiculada no website Diário do Comércio em 19/08/2014.
Acesso em 21/09/2014 em <http://www.dcomercio.com.br/2014/08/19/brasileiro-esta-usando-mais-o-cartao>
11
PEIC – Pesquisa Nacional de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (setembro/2014) Acesso em
21/09/2014 em <http://www.cnc.org.br/central-do-conhecimento/pesquisas/economia/pesquisa-nacional-de-
endividamento-e-inadimplencia-do-con>
24

Nesse diapasão, a doutrina brasileira passou a tratar da problemática do


endividamento excessivo da pessoa física, buscando, no direito comparado e nas
políticas traçadas em outros países, alternativas que se amoldassem à situação do
consumidor brasileiro. Como já mencionado, países como França, Estados Unidos e
Dinamarca já possuem regulação acerca do tema. A legislação brasileira, entretanto,
ainda não traz tratamento específico ao problema do superendividamento.
25

3 O PROJETO DE LEI 283/2012: PERSPECTIVAS E CRÍTICAS

Tramita no Senado Federal brasileiro o projeto de lei nº 283 (Anexo A), proposto
em 2012 e presidido por reconhecida comissão de juristas12, objetivando a alteração
do Código de Defesa do Consumidor no tocante ao problema social do
superendividamento. O referido projeto propõe a inserção de onze artigos e a
alteração no texto de outros já presentes no código, e tem como temas centrais a
garantia de práticas de crédito responsável, de educação financeira e a instituição de
dispositivos de prevenção e tratamento do superendividamento, tanto na esfera
judicial como na extrajudicial.13
Ao dispor sobre tais temas, o projeto propõe a regulação da oferta de crédito e
da publicidade, a instituição do prazo de reflexão, da conciliação entre o devedor e
seus credores e do conceito de mínimo existencial como forma de salvaguardar a
dignidade humana. Ademais, a referida iniciativa legislativa visa a suprir a inexistência
de regulamentação sobre o tema no Brasil.
O projeto é objeto de intenso debate entre a sociedade e estudiosos e desde a
sua edição já foram apresentadas 42 emendas. O trabalho da comissão nesses
últimos dois anos resultou na aprovação de um substitutivo (Anexo B) após aceitação
de parte das emendas propostas. Nesse sentido, os próximos tópicos serão
destinados à análise dos dispositivos propostos no referido projeto e no seu
substitutivo, a fim de analisar o alcance e o grau de eficácia de cada um deles na
solução do superendividamento em nosso país.

3.1 REGULAMENTAÇÃO DA OFERTA DE CRÉDITO AO CONSUMO

O problema do superendividamento passa pela facilitação da oferta de crédito


e pelo aumento gigantesco do consumo, incentivado pelos meios de publicidade. A
expansão do crédito, base da maior parte das economias no mundo, aliada à cultura

12
A Comissão de Juristas, presidida pelo Min. Herman Benjamin, é integrada por cinco dos maiores especialistas
em Direito do Consumidor no Brasil: Cláudia Lima Marques, Ada Pellegrini Grinover, Kazuo Watanabe, Leonardo
Roscoe Bessa e Roberto Pfeiffer.
13
Art. 5º Para a execução da Política Nacional das Relações de Consumo, contará o poder público com os
seguintes instrumentos, entre outros:
[...] VI – instituição de mecanismos de prevenção e tratamento extrajudicial e judicial do superendividamento e
de proteção do consumidor pessoa natural;
VII – instituição de núcleos de conciliação e mediação de conflitos oriundos de superendividamento.
26

de consumismo, acabou desencadeando o endividamento excessivo de várias


famílias14.
O projeto de lei nº 283/2012, apresentado pelo Senado Federal, propõe, dentre
outros temas, a regulação da oferta de crédito, tratada atualmente no CDC somente
no art. 52. Desta forma, o referido projeto propôs a criação de uma seção específica,
intitulada “Da prevenção do superendividamento”, cuja finalidade é trazer mecanismos
que, além de protegerem o consumidor, estabeleçam deveres às instituições quanto
ao fornecimento de crédito. A minuta inicial do projeto sofreu alterações, e a seção,
anteriormente inserida no Capítulo VI, tornou-se, no projeto substitutivo, o Capítulo
VII, composto de oito artigos a seguir analisados e intitulado “Da Prevenção e do
Tratamento ao Superendividamento”.
O art. 54-A, que introduz o capítulo supracitado, evidencia a sua finalidade de
prevenção e traz nos parágrafos inseridos posteriormente o conceito de
superendividamento. Tal conceito, na minuta inicial do projeto, era trazido no capítulo
que trata da proposta de conciliação, atrelando o superendividamento àqueles
consumidores que comprometessem mais de trinta por cento da sua renda líquida
mensal. O princípio da boa-fé resta evidenciado no referido artigo ao dispor sobre a
sua não aplicação aos consumidores que agirem de má-fé, ou seja, que celebram
contrato de consumo com a intenção de não efetuar o pagamento.
Ao longo do projeto, é possível perceber a intensa preocupação do legislador
em fazer cumprir um dos direitos básicos do consumidor, qual seja, o direito à
informação15. O proposto art. 54-B elenca uma série de deveres de informação a
serem cumpridos quando na oferta de crédito ou na realização do contrato, conforme
se vê abaixo:
Art. 54-B. Além das informações obrigatórias previstas no art. 52 e na
legislação aplicável a matéria, no fornecimento de crédito e na venda a prazo,
o fornecedor ou o intermediário deverá informar o consumidor, prévia e
adequadamente, na oferta e por meio do contrato ou na fatura, sobre:
I – o custo efetivo total e a descrição dos elementos que o compõem;
II – a taxa efetiva mensal de juros, a taxa dos juros de mora e o total de
encargos, de qualquer natureza, previstos para o atraso no pagamento;
III – o montante das prestações e o prazo de validade da oferta, que deve ser
no mínimo de dois dias;
IV – o nome e o endereço, inclusive o eletrônico, do fornecedor;
V – o direito do consumidor à liquidação antecipada e não onerosa do débito.

14
SENADO FEDERAL, PL 283/2012, p.10
15
Art. 6º São direitos básicos do consumidor:
[...] III – a informação adequada e clara sobre os diferentes produtos e serviços, com especificação correta de
quantidade, características, composição, qualidade e preço, bem como sobre os riscos que apresentem;
27

Conforme se verifica, o artigo proposto visa a dar ênfase ao dever de


informação, como instrumento de defesa do consumidor nos contratos de crédito,
servindo como elemento de prevenção ao superendividamento (EL KADRI, 2013,
p.160). Sinaliza ainda o caput do artigo supracitado que tais deveres elencados devem
ser prestados em conjunto com os já positivados no art. 52 do Código de Defesa do
Consumidor.
Importantes previsões foram trazidas, como o dever de informar os reais juros
e encargos, seja qual for a natureza, que o consumidor deverá pagar em caso de
atraso. Acrescentou-se a figura do intermediário nas operações de crédito, que
também possuirá o dever de informar detalhadamente todos os elementos do
contrato, riscos e o grau de comprometimento que este pode causar ao cliente (ob.
cit.).
Ademais, fora proposta a questão da validade da oferta, que de acordo com o
projeto, seria de dois dias. Tal dispositivo é de grande importância, ao tempo em que
permite ao consumidor comparar a oferta com tantas outras oferecidas no mercado,
e poder refletir sobre a que melhor se encaixa em suas condições financeiras. Este
prazo de reflexão proposto visa a proporcionar ao consumidor uma decisão consciente
e responsável, que só tem espaço ao se disponibilizar tempo para análise da oferta.
O artigo propõe também, no inciso V, o dever de informar o consumidor quanto
ao seu direito de liquidar antecipadamente o débito, com redução proporcional dos
juros e demais acréscimos, sem ônus, assegurado pelo CDC no §2º do art. 52, e
muitas vezes não devidamente cumprido pelas instituições fornecedoras de crédito.
Apesar dos relevantes deveres propostos pelo projeto aos fornecedores de
crédito, o inciso I do art. 54-B se mostra repetitivo quando analisado em conjunto ao
art. 52 do CDC.
Ao propor a obrigação de informar ao consumidor o Custo Efetivo Total (CET)
da operação de crédito, realizada com todos os elementos que o compõem, o inciso I
do art. 54-B acaba reafirmando deveres já elencados nos incisos II e III do art. 52. De
acordo com o site do Banco Central do Brasil16, o CET é a taxa que corresponde a
todos os encargos e despesas incidentes nas operações de crédito e de arrendamento

16
“Perguntas frequentes, cartilhas e notícias”. Disponível em <www.bcb.gov.br/?CETFAQ>. Acesso em
31/10/2014.
28

mercantil financeiro, contratadas ou ofertadas a pessoas físicas, microempresas ou


empresas de pequeno porte. Em suma, trata-se da soma dos encargos a serem pagos
pelo cliente em uma operação de empréstimo ou financiamento.
Os incisos II e III do art. 52 impõem ao fornecedor de crédito o dever de informar
ao consumidor o montante de juros de mora e da taxa efetiva anual de juros, bem
como os acréscimos legalmente previstos. O primeiro diz respeito ao valor total dos
juros, e o segundo refere-se ao conjunto de impostos a cargo do consumidor (IPI,
ICMS, etc) e outros eventuais encargos previstos em lei. Outras despesas, como taxas
de expediente, comissão de permanência, taxa de cadastro e tudo mais que
representar aumento no custo do crédito ou financiamento do consumidor deve ser
informado (GRINOVER; VASCONCELOS E BENJAMIN; FINK;FILOMENO;NERY
JUNIOR; DENARI, 2011, p. 618-619). Assim sendo, o inciso proposto no art. 54-B
prevê um dever já exarado nos incisos II e III do art. 52 e, por isso, deveria ser
suprimido.
No restante, o art. 54-B traz dispositivos úteis que alargam os deveres de
informação e conselho, regulamentando a publicidade na oferta de crédito ao
consumo (EL KADRI, 2013, p.188).
Nesse sentido, a preocupação do legislador em regular a publicidade é algo
que pode ser visto em boa parte da seção destinada à prevenção do
superendividamento. Busca a referida iniciativa instituir mecanismos que garantam os
direitos básicos do consumidor, em especial os de informação e de proteção contra a
publicidade enganosa ou abusiva17.
Prevê o §1º a obrigação do fornecedor de apresentar, de maneira clara e
resumida, no contrato ou em instrumento apartado, todas as informações previstas no
art. 52 e propostas no art. 54-B, visando a facilitar a compreensão do consumidor
quanto aos valores que por ele deverão ser pagos.
O mínimo que uma propaganda de oferta de crédito deverá apresentar, de
acordo com a proposta, é o custo efetivo total, o agente financiador e o montante total
a ser pago, com e sem financiamento, sem prejuízo daquilo que já fora disposto
quanto à publicidade no art. 37 do CDC18.

17
Art. 6º São direitos básicos do consumidor:
[...] IV – a proteção contra a publicidade enganosa ou abusiva, métodos comerciais coercitivos ou desleais, bem
como contra práticas e cláusulas abusivas ou impostas no fornecimento de produtos e serviços;
18
Art. 37. É proibida toda publicidade enganosa ou abusiva.
29

Ainda no tocante à publicidade, o art. 54-C elenca situações que deverão ser
vedadas, caso o projeto seja aprovado. Neste rol, está prevista a proibição às
expressões como “sem juros”, “taxa zero” ou outras que indiquem que o crédito pode
ser adquirido sem consulta ao cadastro de devedores ou sem avaliar a situação
financeira do consumidor, tão comuns no mercado. Proíbe-se também qualquer tipo
de assédio ou pressão exercida em relação ao consumidor. Principalmente os que se
encontrem em estado de vulnerabilidade agravada, como idosos, enfermos ou
analfabetos (LISBOA; CISNEIROS, 2014, p. 90). Inicialmente, o projeto trazia vedação
às formas de apresentação de acesso ao crédito com preços para pagamento a prazo
iguais ao pagamento à vista, entretanto, o texto foi suprimido neste ponto a fim de
garantir a livre iniciativa do fornecedor.
Desta forma, ao vedar tais condutas, a iniciativa legislativa visa a proteger o
consumidor da publicidade que gera o consumo por impulso, e salvaguardar aquele
que seja induzido a tomar crédito por meio de técnicas de marketing agressivas e que
não levam em conta a sua real capacidade de adimplir. Como será visto adiante, o
projeto de lei analisado responsabiliza as instituições que forneçam crédito sem a
observância da situação financeira do cliente.
O art. 54-D, do PL 283/12, reforça os deveres de informação e prevê deveres
conjuntos aos fornecedores e intermediários de crédito. Estes devem informar e
esclarecer adequadamente o consumidor, principalmente quanto aos riscos da
operação, levando em conta sua idade, saúde, conhecimento e condição social.
Inicialmente, o projeto previa que a prova de tais deveres caberia ao próprio
fornecedor ou intermediário; entretanto, foi acolhida emenda no sentido de suprimir tal
ponto, a fim de preservar a regra atual acerca da inversão do ônus da prova.
O descumprimento dos deveres poderá acarretar a imposição de sanções
como a inexigibilidade dos juros ou a sua redução, conforme prevê o parágrafo único
do art. 54-D, in verbis:

Parágrafo único. O descumprimento de qualquer dos deveres previstos no


caput deste artigo, no art. 52 e no art. 54-C, poderá acarretar judicialmente a
inexigibilidade ou a redução dos juros, encargos, ou qualquer acréscimo ao
principal, a dilação do prazo de pagamento previsto no contrato original,
conforme a gravidade da conduta do fornecedor e as possibilidades
financeiras do consumidor, sem prejuízo de outras sanções e da indenização
por perdas e danos, patrimoniais e morais, ao consumidor.
30

Infere-se do texto proposto, que as sanções previstas serão aplicadas de


acordo com os critérios da autoridade julgadora, que deverá ponderar a gravidade da
conduta e a situação econômica do consumidor (EL KADRI, 2013, p.162).
O art. 54-E prevê que nos contratos de crédito em que o pagamento é feito por
meio do débito em folha de pagamento, o popular “consignado”, a soma das parcelas
reservadas para o pagamento de dívidas não pode ultrapassar trinta por cento da
remuneração mensal líquida do consumidor. Tal artigo foi claramente inspirado na Lei
10.820, de 17 de dezembro de 2003, que dispõe sobre a autorização para desconto
de prestações em folha de pagamento, e prevê no art. 6º, §5º, que os descontos nos
valores de titulares de benefícios de aposentadoria e pensão do Regime Geral de
Previdência Social não poderão ultrapassar o limite de 30%. O descumprimento de tal
limite enseja o dever de revisão do contrato ou sua renegociação.
O referido artigo inova ao propor, em seu §2º, o prazo de arrependimento.
Estabelece-se a possibilidade do consumidor desistir da contratação do crédito
consignado no prazo de sete dias, sem precisar indicar o motivo que ensejou sua
desistência. Os requisitos para exercício desse direito de desistência estão previstos
no §3º, e são, em suma, a notificação do fornecedor ou intermediário do crédito por
meio de formulário próprio da instituição, no prazo de sete dias e a devolução dos
valores recebidos acrescidos de eventuais juros incidentes até a data de devolução,
também sete dias após a referida notificação. O fornecedor de crédito deve, por sua
vez, facilitar o exercício desse direito através da disponibilização de formulário próprio.
Tal direito não abrange os consumidores que prestarem informações incorretas.
O art. 54-F propõe a inserção do instituto da conexão contratual, ou seja, a
interdependência entre os contratos principais de fornecimento de produtos e serviços
e o contrato acessório de fornecimento de crédito.
Comumente, o que se vê no mercado é o contrato de crédito sendo firmado
diretamente no estabelecimento comercial onde se adquire o produto ou serviço, sem
a necessidade do consumidor se dirigir a uma instituição financeira. Com a evolução
do direito dos contratos, as relações jurídicas, antes singulares, passaram a dar
espaço a novas figuras contratuais, em que as contratações grupais ganharam força
em detrimento do individualismo. Trata-se de um imperativo do mundo globalizado,
conforme preceitua Claudia Lima Marques: “A visão da conexidade contratual das
operações econômicas intermediárias e anexas ao consumo complexo de produtos e
serviços nos dias de hoje é uma necessidade.” (apud EL KADRI, 2013, p. 165). A
31

compra da casa própria é um exemplo desta prática. Geralmente, na própria


construtora responsável pela venda do imóvel, são concretizados os dois contratos: o
de compra do imóvel e o de financiamento com o banco.
Assim, ao coligar os supracitados contratos, pretende o projeto estender o
direito de arrependimento exercido em um dos contratos ao outro que lhe seja conexo,
bem como permitir que o consumidor possa demandar em juízo o fornecedor de
crédito quando o fornecedor de produtos ou serviços não cumprir com suas
obrigações (ob. cit., p. 169).
O art. 54-G traz novas situações de práticas abusivas que se somam as já
positivadas no art. 39 do Código de Defesa do Consumidor, mas que buscam ser
específicas ao problema do superendividamento. Em caso de aprovação, fica vedada,
por exemplo, a cobrança ou o débito em conta de quantia contestada pelo consumidor,
em operações realizadas com cartão de crédito ou similares, enquanto não sanada a
controvérsia e desde que o consumidor tenha notificado a administradora do cartão
com sete dias de antecedência. A medida visa a não cumulação de juros sobre valores
indevidos e que muitas vezes ganham tamanha dimensão a ponto de tornar-se
inviável o pagamento pelo devedor.
O referido artigo era composto de incisos que vedavam determinadas
cláusulas, consideradas abusivas. Entretanto, com a finalidade de melhorar a técnica
legislativa, tais vedações foram migradas para o rol do art. 51, que trata das
supracitadas cláusulas, em atendimento às emendas propostas pelos senadores
Francisco Dornelles e Romero Jucá.

3.2 CONCILIAÇÃO E JUDICIALIZAÇÃO NO TRATAMENTO DO


SUPERENDIVIDAMENTO

A proposta de atualização do CDC, no tocante ao superendividamento, prevê


a inserção do Capítulo V ao Título III, chamado “Da conciliação no
superendividamento”. Inicialmente, o referido capítulo proposto era composto
somente do art. 104-A. Entretanto, o projeto vem sofrendo, ao longo de sua discussão,
inúmeras alterações, dado o grande número de emendas propostas, conforme acima
relatado.
32

Atualmente, com base no projeto de lei substitutivo, apresentado por meio do


parecer nº 243/2014, o capítulo proposto, referente à conciliação, conta também com
os arts. 104-B e 104-C, que, em conjunto com o art. 104-A, buscam instaurar um
procedimento conciliatório de repactuação de dívidas e, na falta de êxito na execução
deste, um processo de superendividamento por meio de um plano judicial
compulsório.
O artigo 104-A propõe, em seu caput, a instauração de um processo de
repactuação da dívida, a pedido do consumidor, em que este terá a oportunidade de
apresentar uma proposta de plano de pagamento a todos os seus credores, por meio
de uma audiência de conciliação. Por força do §1º, do Art.104-A, ficariam excluídas
da conciliação as dívidas de caráter alimentar, as fiscais e parafiscais, os contratos de
financiamento imobiliário, os de crédito rural e as dívidas oriundas de contratos
celebrados dolosamente, sem o propósito de realizar o pagamento.
A conciliação tem como intuito construir um plano de pagamento das dívidas
do consumidor inadimplente, de maneira conjunta e que seja adequado ao seu
orçamento. Durante o prazo do plano de pagamento, o consumidor restará obrigado
a destinar parte de seus rendimentos ao pagamento dos credores. A audiência
conciliatória global, com todos os credores, tem o objetivo de oportunizar as melhores
condições a cada um deles, e viabilizar ao consumidor o mínimo necessário ao
pagamento das suas despesas de subsistência, como água, luz, gás, saúde,
educação, dentre outras. A reunião com cada credor em apartado acaba favorecendo
aqueles que primeiro realizaram acordo, restando comprometido o pagamento aos
demais (LIMA, 2014, p.138-140).
No plano de pagamento apresentado, de acordo com o art.104-A, §4º, deverá
constar medidas que facilitem o pagamento por parte do consumidor, como a
prorrogação dos prazos, a redução de encargos ou quaisquer outras com a mesma
finalidade. O referido plano deverá conter, também, referência à suspensão ou
extinção de eventuais demandas judiciais em trâmite, a data para retirada do nome
do consumidor dos registros de inadimplência, bem como mencionar o dever do
consumidor de se abster de praticar condutas que possam agravar sua situação de
endividamento excessivo. Realizada a conciliação, com parte ou todos os credores, o
plano de pagamento será homologado por sentença com eficácia de título executivo.
Àqueles credores que não comparecerem a audiência conciliatória, o projeto prevê a
33

suspensão da exigibilidade do débito e a interrupção dos encargos da mora (EL


KADRI, 2013, p.151).
Este modelo de tratamento global da situação do consumidor superendividado
é adotado em muitos países, como Estados Unidos, Austrália e Noruega, e em alguns
deles a conciliação funciona como primeira fase de um procedimento de falência,
como ocorre na França, onde a fase judicial tem início somente após o fracasso na
tentativa de conciliação (LIMA, 2014, p. 140). No Brasil, o Brasilcon 19 (Instituto
Brasileiro de Política e Direito do Consumidor) sugeriu ao Senador-Relator do projeto
de reforma do CDC, no tocante ao superendividamento, uma emenda aditiva para
inclusão de uma fase judicial, a qual foi aceita e inserida no projeto de lei na forma do
art. 104-B, o qual será analisado mais adiante.
No Brasil, alguns Estados já realizam este tipo de conciliação, como Rio de
Janeiro, Pernambuco e Rio Grande do Sul. Neste último, o projeto desenvolvido foi
pioneiro, e serviu de grande inspiração para a inserção de uma audiência coletiva de
conciliação na iniciativa legislativa em comento. Trata-se do Projeto de Tratamento do
Superendividamento no Poder Judiciário do Rio Grande do Sul, implantado no final de
2006, e atualmente institucionalizado na Consolidação Normativa Judicial do Rio
Grande do Sul, no art. 1040-A20 (ob. cit., p.139).
Tal projeto assiste o consumidor sem a cobrança de custas, devendo ele
prestar informações sobre seus débitos por meio de um formulário-padrão. Em
seguida, os credores do consumidor são comunicados por meio de carta-convite sobre
a audiência de conciliação. Realizada a audiência entre o consumidor
superendividado e seus credores, em caso de acordo exitoso, este será homologado
judicialmente. Caso contrário, o consumidor deverá buscar a resolução de seu

19
O Brasilcon (Instituto Brasileiro de Política e Direito do Consumidor) é uma associação civil, constituída pelos
autores do anteprojeto de lei que originou o Código de Defesa do Consumidor (CDC) e que preza pelo
desenvolvimento da Política Pública e do Direito do Consumidor em harmonia com o progresso econômico-
social. Disponível em: <http://brasilcon.org.br/institucional/Quem+Somos> Acesso em: 09/11/2014.
20
Art. 1040-A. Nas hipóteses de superendividamento, resta possibilitada a promoção da fase de conciliação
prévia ao processo judicial, instaurando-se situação de concurso de credores, mediante remessa de carta-convite
aos credores declarados, por interesse da parte devedora, para composição das dívidas civis.
§1º A decisão judicial de homologação da conciliação obtida em audiência designada para esta finalidade terá
força de título judicial executivo independentemente da representação das partes por advogados.
§2º A ausência de conciliação no feito não importará em reconhecimento judicial de uma declaração de
insolvência por parte do devedor (art. 753, II, CPC), havendo arquivamento do expediente por simples ausência
de acordo entre os interessados e registro de informações com mero caráter estatístico. (RIO GRANDE DO SUL.
Consolidação Normativa Judicial. Corregedoria-Geral da Justiça. Porto Alegre, 2006. Disponível em:
<http://abojeris.com.br/site/arquivos/biblioteca/CNJCGJ-outubro-2006-prov-27-2006.pdf>. Acesso em
10/11/2014.
34

problema pela via judicial. Os acordos feitos igualmente devem garantir ao consumidor
as condições econômicas para arcar com suas despesas básicas, como alimentação,
moradia, educação, saúde, dentre outros (EL KADRI, 2013, p.132).
Em Pernambuco, sob a coordenação da ESMAPE (Escola Superior da
Magistratura de Pernambuco), foi instituído o PROENDIVIDADOS, Programa de
Tratamento de Consumidores Superendividados, destinado a auxiliar os
consumidores na renegociação de suas dívidas com todos os seus credores, além de
oferecer assistência e acompanhamento psicológico àqueles consumidores em
situação de endividamento excessivo21.
No tocante ao projeto de lei de reforma do CDC, este prevê ainda, no §5º do
art. 104-A, que a solicitação de repactuação de dívidas feita pelo consumidor não
implicará em declaração de insolvência civil, e somente pode ser repetida dois anos
após a liquidação das obrigações assumidas no plano de pagamento homologado
judicialmente.
Os arts. 104-B e 104-C representam novidade em relação ao anteprojeto
redigido inicialmente e são fruto das inúmeras emendas sofridas pelo projeto. O
primeiro, inspirado no código consumerista francês, pretende trazer o consumidor
superendividado de volta ao mercado de consumo, através do plano de pagamento
compulsório. Não tendo logrado êxito a fase de conciliação, o juiz procederá a citação
de todos os credores para que se instaure um processo de superendividamento, que
tenha como finalidade revisar os contratos e repactuar as dívidas do consumidor com
aqueles credores que não participaram da fase conciliatória, só que agora por meio
de um plano de pagamento compulsório.
De acordo com Clarissa Costa de Lima,

a tutela diferenciada para a proteção das condições mínimas de


sobrevivência do consumidor concretizará o objetivo fundamental da
República de “erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as
desigualdades sociais e regionais”, contido no artigo 3º, inciso III, da
Constituição Federal. Da mesma forma, a fase judicial de tratamento do
superendividamento implementará o direito fundamental de acesso à justiça,
com a preservação da dignidade da pessoa humana, na forma do art. 5º,
inciso XXXV e promoção pelo Estado-juiz, a defesa do consumidor, conforme
o art. 5º XXXII, da Constituição Federal. (2014, p.124)

21
Disponível em: <http://www.tjpe.jus.br/concilia/ProEndividados/index.asp>. Acesso em 10/11/2014.
35

Não obstante a observação da nomeada autora, a proposta de inserção de uma


fase judicial e de um plano de pagamento compulsório gera posicionamentos
contrários. Fernando Henrique Rossi, em seu artigo “Edição legislativa não é
suficiente para corrigir superendividamento22”, critica com veemência a reforma do
CDC, principalmente no tocante à inserção de uma fase judicial. Segundo o autor, a
criação de um processo específico de superendividamento vai contra a tendência
moderna de desjudicialização dos conflitos, podendo aumentar significativamente o
número de demandas judiciais em nosso país.

Quando a tendência é tentar afastar demandas do Poder Judiciário, ou, ainda,


de uma maneira ou de outra, propiciar a célere finalização das demandas em
curso (lembra-se, inclusive, do Projeto do Novo Código de Processo Civil que
vai bem neste sentido), o PLS 283/2012 parece ir contra este movimento, ao
passo que, ao invés da submissão do crivo judicial, poderiam ver-se criadas
câmaras extrajudiciais de conciliação, que ainda que subsidiadas pelo Poder
Público (Procon e Ministério Público), se veriam capazes de satisfazer muito
bem a demanda, desde que houvesse o investimento e planejamento
adequados, palavras estas, infelizmente, tão raras no cotidiano político-
governamental brasileiro.

Diante da negativa de anuir com o plano proposto em conciliação, ou do não


comparecimento na audiência, todos os credores deverão ser citados para a
instauração do plano judicial de pagamento compulsório. Ademais, prevê o proposto
§1º do art.104-B que os credores deverão, ao serem citados, expor os motivos que os
levaram a não anuir com o plano proposto em conciliação no prazo de 15 dias.
O referido artigo propõe ainda, em seu §2º, que o magistrado poderá nomear
um administrador para a elaboração do plano de pagamento compulsório. O artigo
explicita que tal administrador não deverá onerar as partes, entretanto não deixa claro
quem o remunerará.
O plano de pagamento compulsório também deverá, de acordo com o §3º do
art. 104-B, assegurar ao(s) credor(es), no mínimo, o valor do principal acrescido da
correção monetária, e deve conter previsão de pagamento de, no máximo, cinco anos.
A partir da homologação judicial do plano, a primeira parcela deve ser paga em cento
e oitenta dias e o remanescente da dívida, pago mês a mês, obedecido o prazo
máximo.
O art. 104-C foi incluído com o intuito de possibilitar a atuação concorrente de
órgãos públicos do Sistema Nacional de Defesa do Consumidor (SNDC). O SNDC

22
Artigo publicado no site Consultor Jurídico em 12/10/2014. Disponível em: <http://www.conjur.com.br/2014-
out-12/fernando-rossi-lei-nao-suficiente-corrigir-supereendividamento>. Acesso em 10/11/2014.
36

congrega Procons, Defensoria Pública e Ministério Público (órgãos públicos) além de


entidades civis de defesa do consumidor, que atuam integradamente com a Secretaria
Nacional do Consumidor (Senacon), para a formulação de estratégias de ação e
elaboração de políticas públicas de defesa do consumidor23.
O referido parágrafo vem corroborar práticas já realizadas nestes órgãos em
alguns Estados do país, e busca a expansão dos métodos extrajudiciais de solução
dos conflitos no tocante ao superendividamento para todo o Brasil. Nesse ponto, o
legislador caminhou bem ao valorizar a atuação de tais órgãos, que, assim como
asseverou Rossi, devem receber mais investimentos e serem mais fortalecidos.

3.3 O MÍNIMO EXISTENCIAL COMO ELEMENTO DE PROTEÇÃO DA DIGNIDADE


DA PESSOA HUMANA

A noção de mínimo existencial está ligada à ideia de um conjunto mínimo de


garantias que devem ser protegidas. O mínimo existencial é o direito às condições
básicas de experiência humana digna, uma vez que a dignidade humana e as
condições mínimas de existência não podem retroceder aquém de um mínimo para a
sobrevivência (GRINOVER apud PETRY, 2013, p.16-19).
Conforme leciona Ricardo Lobo Torres, o mínimo existencial não é qualquer
direito mínimo:

Exige-se que seja um direito a situações existenciais dignas, que deve ser
procurado nas ideias de liberdade, nos princípios constitucionais da dignidade
humana, da igualdade, do devido processo legal e da livre iniciativa, na
Declaração dos Direitos Humanos e nas imunidades e privilégios do cidadão
(apud LIMA, 2014, p.161).

A análise do projeto de lei nº 283/2012 nos leva à inconteste conclusão de que


uma das suas finalidades principais é evitar o comprometimento desse mínimo
existencial de cada consumidor, preservando a dignidade da pessoa humana. É
possível inclusive dizer que a teoria do superendividamento foi desenvolvida tomando
como base a teoria do mínimo existencial, uma vez que o combate àquele passa pela
garantia e preservação deste (GRINOVER apud PETRY, 2013, p.16-19).

23
BRASIL. Decreto nº 2.181, de 20 de março de 1997. Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/d2181.htm> Acesso em 10/11/2014.
37

Com o abandono do liberalismo em prol da proclamação dos direitos sociais


pelos Estados, iniciou-se um período de reconhecimento do mínimo para uma
existência digna como um direito, e o conceito de mínimo existencial começou a ser
positivado nas declarações internacionais.
Na Declaração Universal dos Direitos Humanos, de 1948, já há previsão no
sentido de assegurar um núcleo mínimo para uma existência digna, constando que
toda pessoa tem direito a um nível de vida suficiente para assegurar a sua saúde, o
seu bem-estar e o de sua família24. Outros textos internacionais ampliam a noção de
mínimo existencial, sempre o relacionando aos direitos sociais. São exemplos a
Convenção Americana sobre Direitos Humanos (San Jose da Costa Rica – 1960), o
Pacto Internacional sobre Direitos Econômicos, Sociais e Culturais (ONU – 1966), a
Carta Europeia de Direitos Humanos e a Declaração do Milênio das Nações Unidas
(ONU – 2000) (PETRY, 2013, p.17).
Em relação ao Brasil, não há menção específica ao mínimo existencial na Carta
Magna; entretanto, ao consagrar a dignidade da pessoa humana como fundamento
da República (art. 1º, III, da CF/1988) e como objetivos fundamentais a construção de
uma sociedade livre, justa e solidária e a erradicação da pobreza e da marginalização,
o texto constitucional conferiu proteção à garantia do mínimo necessário à existência
(LIMA, 2014, p.160).
A justificação do Projeto de Lei nº 283/2012, relativo ao superendividamento,
traz em seu bojo que a finalidade da medida é “prevenir o superendividamento da
pessoa física, promover o acesso ao crédito responsável e à educação financeira do
consumidor, de forma a evitar a sua exclusão social e o comprometimento de seu
mínimo existencial” (SENADO FEDERAL, PL nº 283, 2012).
Ocorre que estabelecer um patamar de mínimo existencial é algo bastante
difícil, principalmente em um país como o Brasil, de dimensão geográfica continental
e com tantas diferenças regionais.
A primeira minuta do PL 283 definiu, no §1º do Art.104-A (atualmente
emendado) que:

24
Declaração Universal dos Direitos Humanos – Artigo 25. “Todo ser humano tem direito a um padrão de vida
capaz de assegurar a si e a sua família saúde e bem estar, inclusive alimentação, vestuário, habitação, cuidados
médicos e os serviços sociais indispensáveis, e direito à segurança em caso de desemprego, doença, invalidez,
viuvez, velhice ou outros casos de perda dos meios de subsistência fora de seu controle.” Disponível em: <
http://www.dudh.org.br/wp-content/uploads/2014/12/dudh.pdf> Acesso em: 10/11/2014.
38

Entende-se por superendividamento o comprometimento de mais de trinta por


cento da renda líquida mensal do consumidor com o pagamento do conjunto
de suas dívidas não profissionais, exigíveis e vincendas, excluído o
financiamento para a aquisição de casa para a moradia, e desde que
inexistentes bens livres e suficientes para liquidação do total do passivo.

Tal percentual sugere que o mínimo existencial seria setenta por cento (70%)
da renda mensal do consumidor. Entretanto, um valor uniforme para todos os
consumidores pode ser insuficiente para a garantia de uma vida em condições dignas,
especialmente se tomarmos como base o consumidor de baixa renda (LIMA, 2014,
p.164).
Tomando como parâmetro alguém que receba um salário
mínimo25mensalmente, apenas R$506,80 (70%) ficará destinado a custear todas as
despesas de subsistência, como aluguel, alimentação, saúde, educação, vestuário,
água, luz, entre outros. De acordo com o previsto na Constituição, no capítulo dos
Direitos Sociais, o salário mínimo deve ser capaz de atender as necessidades básicas
do trabalhador e sua família, como moradia, alimentação, educação, saúde, lazer,
vestuário, higiene, transporte e previdência social. Levando em consideração tal
previsão constitucional, o DIEESE (Departamento Intersindical de Estatística e
Estudos Socioeconômicos), realiza mensalmente estudo a fim de avaliar qual o valor
do salário mínimo necessário para cumprir com todas as necessidades previstas. Em
outubro, o valor do salário mínimo necessário, calculado com base na cesta básica
nacional, foi de R$ 2.967,0726.
Com base nisso, vê-se que o piso salarial brasileiro, por si só, é insuficiente
para, de forma global, manter uma pessoa com o mínimo de garantias dignas, e que
consumidores com salários reduzidos costumam usar praticamente toda a sua renda
mensal para arcar com as despesas de subsistência. Destarte, fixar o mínimo
existencial em 70% acabaria por excluir da proteção legal os consumidores de baixa
renda, pois o comprometimento de 10% de sua renda já pode caracterizar uma
situação de superendividamento27.
Ademais, conceituar o superendividamento por meio deste critério de atribuição
de porcentagem resultaria em inserir grande parte da população em situação de
endividamento excessivo e, por consequência, necessitária do processo de

25
O valor do salário mínimo em vigor na data de edição deste trabalho é de R$724,00.
26
Estudo sobre o valor do salário mínimo necessário feito pelo DIEESE. Disponível em:
<http://www.dieese.org.br/analisecestabasica/salarioMinimo.html> Acesso em 13/11/2014.
27
Sugestão dada pelo Instituto Brasilcon ao Senado Federal para modificação do PL 283/2012.
39

repactuação de dívidas, o que poderia acarretar uma imensa demanda de novos


processos, abarrotando o judiciário.
Nesse diapasão, em atenção à sugestão do Instituto Brasilcon e da Febraban
– Federação Brasileira de Bancos, o senador Rodrigo Rollemberg propôs a emenda
nº 41, acolhida pelo Senado Federal, e que tornou aberta a definição de
superendividamento, sem atrelar a um percentual fixo. Desta forma, o mínimo
existencial restou também sem determinação fixa. A justificação da emenda acolhida,
apresentada no projeto substitutivo, afirma que

o percentual fixo de trinta por cento da renda líquida mensal como patamar
para se determinar o superendividamento pode engessar o tratamento das
repactuações, causando preocupações e misturando-se com a noção de
mínimo existencial. Isso porque, dependendo da renda percebida pelo
consumidor, o comprometimento, por si só, de mais de trinta por cento da
renda líquida mensal, pode não caracterizar uma situação de
superendividamento. Neste caso, e com a utilização da noção de
impossibilidade “manifesta”, a definição será deixada para a análise pelo juiz
ou conciliador.

Países como Bélgica e França, esta última citada na justificação da emenda


supracitada, apresentam conceitos abertos de superendividamento. Entretanto, tais
países estabeleceram standards, parâmetros que servem de baliza para que o juiz
calcule o mínimo de recursos que deve ser garantido ao devedor para sua
subsistência, o mínimo existencial em questão (LIMA, 2014, p.163). No Brasil, o
projeto analisado não oferece parâmetros para o cálculo deste mínimo vital, definindo-
o como “a quantia mínima destinada à manutenção das despesas mensais razoáveis
de sobrevivência, assim entendidas as referentes a água, luz, alimentação, saúde,
moradia e educação”. Desta forma, a definição genérica de mínimo existencial acaba
destinando aos juízes ou as autoridades administrativas a difícil tarefa de determinar
o valor correspondente ao mínimo (ob. cit., p.161).
40

4 A DEFESA DO CONSUMIDOR BRASILEIRO ENDIVIDADO E A ATUALIZAÇÃO


DO CDC

É incontestável que o Código Brasileiro de Defesa do Consumidor é o


microssistema normativo mais importante editado após a Constituição Federal de
1988. Lei de ordem pública e de interesse social, norma geral e principiológica, o CDC
trouxe importantes mecanismos de proteção ao consumidor.
Dado o caráter principiológico e interdisciplinar, intrínseco ao aludido código,
alguns juristas apontam ser imprópria a proposta que visa a atualizar a lei
consumerista, inserindo normas específicas que tratem o problema do
superendividamento. Defendem que o dispositivo continua atual e apto a solucionar a
referida temática, e que, portanto, não merece ser alterado.
Nesse diapasão, analisar-se-á os dispositivos trazidos no CDC e demais
legislações atinentes à proteção contratual do consumidor, e a possibilidade de
aplicação dos mesmos aos casos de superendividamento, traçando um paralelo com
a (des)necessidade de modificação do código.

4.1 PROTEÇÃO CONTRATUAL DO CONSUMIDOR BRASILEIRO ENDIVIDADO

Em um cenário de evolução das relações sociais e do surgimento do consumo


em massa, surgiu o código consumerista brasileiro, com a finalidade de estabelecer
normas de proteção e defesa do consumidor e reestabelecer o equilíbrio contratual
entre este e o fornecedor nas relações de consumo.
O referido código representou, quanto à proteção contratual, grande inovação
ao romper com o Direito Privado, cujas bases estão assentadas no liberalismo, para
relativizar o princípio da intangibilidade do conteúdo do contrato, em detrimento do
princípio da força obrigatória dos contratos, expresso pelo brocardo milenar pacta sunt
servanda28. Ademais, instituiu a boa-fé como princípio basilar norteador das relações
de consumo, além de impor uma série de regras, em que se sobressai não mais a
igualdade formal das partes, mas a vulnerabilidade do consumidor, que deve ser
protegido (GONÇALVES, 2012, p.30). Assim, a boa-fé e o equilíbrio nas relações
entre os consumidores e fornecedores figuram como princípios fundamentais.

28
Pacta sunt servanda = os acordos devem ser cumpridos.
41

Não obstante a falta de regulamentação específica quanto ao


superendividamento, a doutrina brasileira elenca algumas regras e princípios,
extraídos do CDC e legislação esparsa, que podem ser aplicados aos casos de
endividamento excessivo e que serão a seguir analisados.

4.1.1 PRINCÍPIO DA BOA-FÉ CONTRATUAL

No sistema brasileiro que regula as relações de consumo, o legislador adotou


de maneira expressa a aplicação da boa-fé. Nas palavras de Claúdia Lima Marques,
a boa-fé

é um princípio de repersonalização da relação contratual, porque significa


uma atuação “refletida”, uma atuação refletindo, pensando no outro, no
parceiro contratual, respeitando-o, respeitando seus interesses legítimos,
suas expectativas razoáveis, seus direitos, agindo com lealdade, sem abuso,
sem obstrução, informando-o, aconselhando-o, cuidando, sem causar lesão
ou desvantagem excessiva, cooperando para atingir o bom fim das
obrigações: o cumprimento do objetivo contratual e a realização dos
interesses das partes (apud ROCHA, 2005, p.230).

A boa-fé, no Código de Defesa do Consumidor, além de princípio geral29, é


cláusula geral30. Como princípio, exposto no art. 4º, tem como função viabilizar os
preceitos constitucionais de ordem econômica, compatibilizando a proteção do
consumidor e o desenvolvimento tecnológico e econômico. Como cláusula geral,
refere-se ao tipo de comportamento exigido (MARQUES, 2005, p. 19).
O cumprimento do dever de boa-fé exige que as partes colaborem para que o
contrato seja cumprido da maneira como fora convencionado, a fim de proporcionar o
proveito objetivado por ambas as partes (PEREIRA apud GARDINO, 2011, p.19).

29
Art. 4º A Política Nacional das Relações de Consumo tem por objetivo o atendimento das necessidades dos
consumidores, o respeito à sua dignidade, saúde e segurança, a proteção de seus interesses econômicos, a
melhoria da sua qualidade de vida, bem como a transparência e harmonia das relações de consumo, atendidos
os seguintes princípios:
(...) III — harmonização dos interesses dos participantes das relações de consumo e compatibilização da proteção
do consumidor com a necessidade de desenvolvimento econômico e tecnológico, de modo a viabilizar os
princípios nos quais se funda a ordem econômica (art. 170 da Constituição Federal), sempre com base na boa-fé
e equilíbrio nas relações entre consumidores e fornecedores.
30
Art. 51 São nulas de pleno direito, entre outras, as cláusulas contratuais relativas ao fornecimento de produtos
e serviços que:
[...] IV – estabeleçam obrigações consideradas iníquas, abusivas, que coloquem o consumidor em desvantagem
exagerada, ou seja, incompatíveis com a boa-fé ou a equidade.
42

No tocante às relações de crédito, a observância da boa-fé é uma imposição,


denotando aos fornecedores a existência de um dever de cooperar para evitar a ruína
dos consumidores (MARQUES, 2005, p.19).
A boa-fé expressa no Código de Defesa do Consumidor é objetiva, ou seja,
aquela que representa uma regra de conduta, um dever das partes de agir com
honestidade e lealdade, a fim de estabelecer o equilíbrio nas relações de consumo.
Trata-se de princípio que visa a assegurar a atuação sem abusos, sem obstrução ao
interesse da outra parte (NUNES, 2012, p.667-669).
Nesse contexto, os contratos de concessão de crédito devem se submeter ao
princípio da boa-fé objetiva como forma de reação à sociedade de contratação em
massa (PEREIRA apud GARDINO, 2011, p.20). Trata-se de uma pré-condição
abstrata de uma relação justa, a qual o caso concreto deve se amoldar. Um verdadeiro
modelo principiológico que tem como finalidade garantir uma atitude cooperativa de
ambas as partes envolvidas (NUNES, 2012, p.667-669).
Ademais, a observação do dever de agir com retidão e lealdade não deve
prevalecer apenas no momento da contratação ou na ocasião do adimplemento
contratual. Trata-se de obrigação ínsita à relação jurídico-contratual desde sua fase
de negociações até o final, quando se extinguir o vínculo31 (GARDINO, 2011, p.19).
Assim, deve o fornecedor de crédito agir com transparência, informando e
aconselhando o consumidor quanto aos riscos deste tipo de contrato, assumindo uma
conduta de cooperação, bem como analisando a sua capacidade de adimplemento.
Pela aplicação da boa-fé, as instituições que fornecem crédito sem observar as
condições econômicas do cliente, ou tendo conhecimento de que sua renda é
insuficiente para quitação do contrato, são, assim como o consumidor, responsáveis
por sua situação de superendividamento. Nesse sentido:

Diante dos novos princípios do direito contratual, aquele que pretende vender
a crédito tem a responsabilidade de verificar a capacidade de reembolso do
tomador, pois os contratantes não são mais encarados como partes
antagônicas, mas sim, como parceiros que buscam um fim comum: o
adimplemento do contrato e não apenas a sua celebração. Por isso, o
vendedor também deve preocupar-se em atingir este objetivo, pois é do seu
interesse que a outra parte cumpra aquilo com que se comprometeu. É seu,
portanto, o dever de analisar o risco da concessão de crédito, e por isso o

31
“O não cumprimento da obrigação contrária à probidade e a boa-fé que se exige dos contratantes não só no
momento da contratação, mas também no decorrer do vínculo jurídico que os une, o que enseja o ressarcimento
dos danos porventura ocasionados”. (TJ-SP, Apelação com Revisão nº 1176713000, 35ª CDPriv, Rel. Des. Arthur
Marques, J 11.08.2008 Disponível em: www.tj.sp.jus.br).
43

inadimplemento pode demonstrar também uma falha no trabalho realizado


pelo cedente de crédito (SCHMIDT NETO, 2012, p. 38).

Marcio Casado (apud BERTONCELLO, 2006. p. 92) defende ser possível


classificar a responsabilidade do fornecedor de crédito, em especial os bancos, como
objetiva, com base no art. 12 do Código de Defesa do Consumidor, sob a justificativa
de que a concessão desmedida de crédito é um produto defeituoso, gerador de danos
ao seu consumidor. Contudo, destaca-se que a natureza desta responsabilidade não
é objeto de atuação deste trabalho, sendo a opinião do autor trazida apenas a título
exemplificativo.
A observação da boa-fé exige também a vedação às cláusulas consideradas
abusivas, sejam as que confiram vantagens em excesso a uma das partes, ou as que
limitam direitos básicos do consumidor vulnerável, com o intuito de garantir um mínimo
de equilíbrio contratual entre os direitos e deveres dos parceiros contratuais (MATIAS,
2009, p. 129).
Apesar da inexistência de regulação para o superendividamento do consumidor
no Brasil, a jurisprudência pátria tem caminhado, ainda que timidamente, no sentido
de adoção da boa-fé como princípio ao qual estão subordinados os contratos de
concessão de crédito, para fins de apreciação e interpretação de casos de
consumidores superendividados (GARDINO, 2011, p.19).

4.1.2 PRINCÍPIO DA DIGNIDADE HUMANA

O art. 4º do CDC, que trata dos objetivos da Política Nacional das Relações de
Consumo, preocupa-se com o atendimento das necessidades básicas dos
consumidores, dentre elas o “respeito à sua dignidade”.32 A dignidade da pessoa
humana representa um dos principais direitos constitucionalmente garantidos e se
constitui no fundamento do Estado Democrático de Direito, conforme o art. 1º, inciso
III33.

32
Art. 4º A Política Nacional das Relações de Consumo tem por objetivo o atendimento das necessidades dos
consumidores, o respeito à sua dignidade, saúde e segurança, a proteção de seus interesses econômicos, a
melhoria da sua qualidade de vida, bem como a transparência e harmonia das relações de consumo [...].
33
Art. 1º A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito
Federal, constitui-se em Estado Democrático de Direito e tem como fundamentos:
[...] III – a dignidade da pessoa humana;
44

Nosso sistema jurídico elencou a pessoa como valor maior em nossa


sociedade, de forma que a sua dignidade merece total proteção. A proteção à vida, à
saúde e à segurança são direitos que nascem atrelados ao valor da dignidade. Desta
forma, a não preservação desses direitos constitui violação ao preceito constitucional
de dignidade da pessoa humana.
Nesse diapasão, o consumidor superendividado, que se vê privado de crédito
em virtude do acúmulo de dívidas, que tem seu nome inscrito em cadastro negativo e
resulta impossibilitado de exercer atividades que necessitem da análise de crédito,
que carrega consigo o sentimento de culpa e vergonha pelo estigma de mau pagador,
tem sua dignidade afetada de várias maneiras, social e moralmente. Desta forma, o
superendividamento do consumidor é situação incompatível com a dignidade humana,
fundamento de todo o sistema constitucional (FOSSÁ, 2012, p.16).
Nesse sentido:

Questionamentos não se admitem, ainda, sobre o fundamento constitucional


das normas de ordem pública e interesse social instituídas pelo CDC, haja
vista o disposto nos arts. 5º, XXXII e 170, V, ambos da CF/88, bem como no
art. 48, ADCT. Considerando-se as premissas anotadas, tanto a Constituição
Federal como o Código do Consumidor exigem a proteção do consumidor
que esteja experimentando ou que tenha possibilidades concretas de vir a
experimentar violação à sua dignidade. E a situação de superendividamento
é incompatível com o respeito à dignidade (OLIBONI, 2005, p.169).

4.1.3 DIREITO DE REVISÃO DOS CONTRATOS

Dentre os direitos básicos elencados pelo CDC, está assegurada a


possibilidade de modificar cláusulas contratuais que estabeleçam prestações
desproporcionais ou de revê-las sempre que fatos supervenientes à celebração do
contrato tornarem seu adimplemento excessivamente oneroso ao consumidor 34. Tal
previsão está fundamentada no desequilíbrio de forças (vulnerabilidade do
consumidor), antecessor à própria formação da relação jurídica contratual entre
fornecedor e consumidor (ROCHA, 2008, p.79).
Rizatto Nunes classifica o direito à revisão dos contratos como princípio, ao
preceituar que

34
Art. 6º São direitos básicos do consumidor:
[...]V – a modificação das cláusulas contratuais que estabeleçam prestações desproporcionais ou sua revisão em
razão de fatos supervenientes que as tornem excessivamente onerosas;
45

esse princípio, que é fundamental, tem por base as características da relação


de consumo, fruto da proposta do fornecedor, que assume integralmente o
risco de seu negócio e que detém o conhecimento técnico para implementá-
lo e oferece-lo no mercado (2012, p. 666).

Sustenta o supracitado autor que a revisão contratual apresentada na


legislação consumerista difere da teoria da imprevisão, trazida no Código Civil, pois
se trata de uma revisão decorrente de fatos posteriores ao pacto, independentemente
de ter havido previsão ou possibilidade de previsão dos acontecimentos, enquanto
esta última exige como requisito a imprevisibilidade do fato extraordinário.
Consoante o previsto no CDC, exige-se para a revisão do contrato tão somente
que, após sua consolidação, surjam fatos que o tornem demasiadamente oneroso, ou
seja, a alteração substancial do contrato que o torne excessivo para o consumidor e
que descumpra com sua função social. Baseia-se o referido código na teoria da
onerosidade excessiva, pela qual é suficiente a quebra da base do negócio jurídico
por fatos não previstos, ainda que previsíveis, para que seja possível a revisão do
contrato (ob. cit.). Assim, impossibilidades pessoais do consumidor, como
desemprego, doença ou circunstâncias familiares que o impedissem de honrar com
suas obrigações, poderiam ensejar eventual revisão contratual.
A doutrina diverge quanto à possibilidade de revisão contratual por
impossibilidade subjetiva do devedor. Salienta Paulo Roque Khouri que

a modificação de uma cláusula que resulte na imposição pura e simples de


prejuízos ao fornecedor é incompatível com qualquer ideia de harmonia e
equilíbrio. O fato superveniente tem de repercutir gravemente sobre a
contratação em si. O desemprego do consumidor não poderia justificar a
intervenção judicial para modificar o contrato, porque, a par de impor uma
dificuldade ao consumidor para cumprir o avençado, não implica repercussão
alguma no âmbito contratual, com a majoração da prestação (apud LIMA,
2014, p.133).

Em sentido contrário, Ruben S. Stiglitz (ob. cit., p. 135) defende que o princípio
da força obrigatória dos contratos não pode permitir o enriquecimento ilícito de uma
das partes contratantes às custas do sacrifício extremo da outra, desvirtuando-se da
função social do contrato.
Analisando a jurisprudência brasileira, vê-se que as decisões dos tribunais
ainda tomam como base o princípio da obrigatoriedade dos contratos e a teoria da
46

imprevisão, para afastar a revisão dos contratos de concessão de crédito diante de


impossibilidades subjetivas surgidas após sua formação35.

4.1.4 DIREITO DE INFORMAÇÃO

Explicita o art. 6º, III, do CDC que é direito básico do consumidor brasileiro
receber do fornecedor a informação clara e adequada sobre todas as características
importantes de produtos e serviços, como quantidade, qualidade, composição e preço,
bem como os riscos que apresentem, com a finalidade de proporcionar ao consumidor
total consciência daquilo que está adquirindo ou contratando.
Trata-se de um dever ínsito ao fornecedor antes mesmo da celebração do
contrato, na chamada fase pré-contratual, onde o consumidor está formando a sua
convicção quanto ao produto ou serviço oferecido. Somente diante de uma informação
clara e precisa o consumidor poderá formar uma vontade livre e consciente.
O art. 46 do CDC vai além e dispõe que

os contratos que regulam as relações de consumo não obrigarão os


consumidores, se não lhes for dada a oportunidade de tomar conhecimento
prévio de seu conteúdo, ou se os respectivos instrumentos forem redigidos
de modo a dificultar a compreensão de seu sentido e alcance (GRINOVER
[et al], 2011, p.554).

Oportunizar o conhecimento do conteúdo do contrato não significa somente


permitir a leitura deste ao consumidor. O sentido da norma é dar efetivo e adequado
conhecimento ao consumidor de todos os seus direitos e deveres decorrentes da
relação jurídica contratual a ser avençada. E a adequabilidade depende do tipo de
contrato de consumo, do nível econômico, social e intelectual do consumidor, bem
como de outros fatores peculiares ao negócio, com as bases de mercado e os usos e
costumes.

35
“ARRENDAMENTO MERCANTIL. REVISÃO CONTRATUAL.REFINANCIAMENTO. DESEMPREGO COMO CAUSA
SUPERVENIENTE. NÃO CABIMENTO. RECURSO IMPROVIDO. O pactuado pelas partes, mesmo em contrato de
adesão, é válido desde que não configure em violação de preceito constitucional ou de normas que regem a
defesa do consumidor. A perda do emprego não é motivo para rever um contrato que foi firmando por mera
liberalidade das partes. No mais, a possibilidade ou não de refinanciar o valor devido fica a cargo das partes
contratantes. Prevalece, neste caso, a natureza jurídica do direito privado, que é a autonomia de vontade. Em
respeito à máxima ‘pacta sunt servanda’, o Estado Juiz não deve interferir na liberalidade das partes, exceto
provado vício de consentimento, que não é o caso em análise. [...]”
(TJ-SP - APL: 990103077989 SP , Relator: Adilson de Araujo, Data de Julgamento: 16/11/2010, 31ª Câmara de
Direito Privado, Data de Publicação: 02/12/2010)
47

Ao se tratar de consumidores de nível intelectual e social não muito elevado, a


exigência de adequabilidade da informação é ainda maior, já que na maioria das vezes
tal consumidor não está devidamente preparado para compreender o alcance dos
termos técnicos trazidos nas cláusulas dos contratos.
Tais cláusulas devem ainda, de acordo com o art. 46, trazer redação de
linguagem direta e que propicie uma fácil compreensão. Caso contrário, a cláusula
torna-se inexigível, desonerando o consumidor da obrigação que dela emerge. Insta
salientar que, por força do art. 47 do CDC, as cláusulas contratuais de uma relação
de consumo, que permitirem diferentes compreensões, serão interpretadas da forma
mais favorável ao consumidor.
O art. 52 do CDC complementa o supracitado art. 46 do referido código,
trazendo deveres específicos de informação quando do fornecimento de produtos ou
serviços que envolva outorga de crédito. As especificidades têm a finalidade de
propiciar, de igual forma, uma contratação consciente, e já foram tratadas
anteriormente neste trabalho (GRINOVER [et al], 2011, p.617-618).

4.1.5 BANCO DE DADOS POSITIVOS

Criado pela Lei Federal nº 12.414/11, o banco de dados positivos é uma


ferramenta que reúne as informações dos consumidores quanto ao pagamento de
empréstimos, indicando os bons pagadores na ocasião de negociações de concessão
de crédito. O cadastro positivo reúne informações sobre financiamentos celebrados e
adimplidos, pagamentos em dia e atrasos quitados, retratando o histórico de
informações de crédito e de relações comerciais. A iniciativa acompanha a legislação
do G20, grupo dos vinte países em acelerado desenvolvimento, e tem como fim, em
conjunto com o já existente cadastro negativo, permitir ao fornecedor de crédito a
realização de uma análise criteriosa quanto à real capacidade de endividamento do
consumidor candidato a crédito, bem como propiciar a este último, se constatado um
bom perfil de adimplência, melhores condições ao contrair empréstimos e
financiamentos (DE MELLO, 2011, p.33).
A medida, se executada conforme prevista, pode servir de incentivo ao
consumidor para que honre com suas obrigações e, desta forma, seja beneficiado em
contratações posteriores. Ademais, os bancos de dados, positivos ou negativos, em
conjunto, são os únicos que permitem uma visão global quanto à situação financeira
48

do consumidor, possibilitando verificar se este celebrou outros contratos de crédito,


cujo encargo total impediria a concessão de outros créditos adicionais (LIMA;
BERTONCELLO, 2010, p. 119).

4.2 (DES)NECESSIDADE DE ATUALIZAÇÃO DO CDC E O


SUPERENDIVIDAMENTO

A proposta de mudança do Código de Defesa do Consumidor em tramitação


no Congresso brasileiro abriu uma série de discussões entre doutrinadores e juristas
quanto à necessidade ou não de atualizá-lo. Muitos consideram o referido código,
apesar de ultrapassados mais de vinte anos da data de sua criação, atual e capaz de
resolver os problemas que não lhe são contemporâneos, como o superendividamento
dos consumidores.
Nesse sentido, defende Rizatto Nunes que o código não deve ser modificado:

A lei 8.078/90 funciona muito bem e não precisa de alterações ou


atualizações. Necessita sim de apoio para ser mais ainda compreendida e
bem aplicada. Ela é de ordem pública e de interesse social, norma geral e
principiológica, o que significa dizer que é prevalente sobre todas as demais
normas especiais ou gerais que com ela colidirem. Ela inaugurou no sistema
jurídico nacional um outro modo de produção legislativa: ingressou de modo
a não necessariamente revogar leis anteriores. O que ela faz é tangenciar as
relações jurídicas envolvendo consumidores e fornecedores, estabelecidas
com base em outras normas que continuam em vigor, tornando-as nulas ou
inválidas no todo ou na parte que desrespeite seus princípios e regras 36.

José Geraldo Brito Filomeno também se mostra contrário à proposta de reforma


do CDC. O referido autor também enfatiza o caráter principiológico do código,
preceituando que, ao invés de alterações no texto, deve haver uma atuação mais
incisiva e uma melhor aplicação do dispositivo, por ser este multi e interdisciplinar,
capaz de contemplar, desta forma, vários institutos (2012, p. 88).
Ademais, há um temor de que aqueles que tenham interesses contrários à
proteção do consumidor possam se aproveitar da reforma para suprimir direitos
arduamente conquistados.
Destaca o referido autor, nesse sentido:

36
Trecho extraído do artigo “A proposta de ‘atualização’ do Código de Defesa do Consumidor: quem ganha com
isso?”. Disponível em: <http://www.migalhas.com.br/ABCdoCDC/92,MI129908,71043-
A+proposta+de+atualizacao+do+Codigo+de+Defesa+do+Consumidor+quem>. Acesso em: 20/11/2014.
49

Sabendo-se que neste país, embora bafejado pelo processo legislativo


democrático, há mais de vinte e seis anos, até esta parte, os interesses e
loobies são dos mais variados matizes, nem sempre condizentes com os
anseios consumeristas, não se verão tentados, por intermédio de
congressistas, a se aproveitarem da ocasião e subtraírem conquistas tão dura
e custosamente conseguidas? Vide o caso, por exemplo, do Código Florestal
que, no enfoque dos ecologistas, estaria a implicar perigoso retrocesso ao
vigente, ainda que concebido na década de 60 do século passado (2012, p.
89).

No entanto, sob a ótica de outros autores, como Antonio Herman Benjamin,


Cláudia Lima Marques, Ada Pellegrini Grinover, Kazuo Watanabe, urge a necessidade
de atualização do CDC. De acordo com estes autores, o código consumerista em
vigência no Brasil é insuficiente em resolver os problemas atinentes a oferta de crédito
e ao superendividamento e que é necessária a criação de uma legislação que trate
especificamente deste tema.
Nesse diapasão, Claudia Lima Marques sustenta doutrinariamente, desde
1995, a necessidade de uma inovação legislativa que permitisse o tratamento da
situação de superendividamento. A referida autora aponta que o movimento de
massificação do acesso ao crédito, crescente nos últimos anos, somado à publicidade
agressiva, à nova força dos meios de comunicação de massa e à tendência de abuso
do crédito facilitado, podem levar o consumidor e sua família a uma situação de
endividamento, fato este que demanda uma resposta do direito brasileiro a tal
realidade (2005, p. 14-15).
Na visão da autora, a ausência de uma legislação que acompanhasse esta
massificação de crédito criou uma crise de solvência, multiplicando as ações
revisionais de crédito, aumentando os riscos e abusos nas relações de crédito e
multiplicando as reclamações nos órgãos de defesa do consumidor (2005, p. 17).
Clarissa Costa de Lima, em sua obra “O tratamento do superendividamento e
o direito de recomeçar dos consumidores”, vai além e defende a implantação de um
sistema específico de falência para os consumidores. Na visão da autora, tal sistema
representaria o reconhecimento de que o superendividamento não se trata de um
problema de ordem privada.

A adoção de um sistema de falência para os consumidores (pessoas físicas)


é o reconhecimento de que o acúmulo de dívidas e as dificuldades financeiras
não são atribuíveis exclusivamente à culpa do devedor, mas representam um
risco normal nas sociedades que promovem o consumo e incentivam o
crédito” (2014, p. 177)
50

Antonio Herman Benjamim, presidente da Comissão de Juristas de Atualização


do Código de Defesa do Consumidor, sustenta que

esta nova realidade de democratização do crédito coloca a necessidade,


inclusive no Brasil, de aperfeiçoar os mecanismos existentes de apoio aos
consumidores, com o intuito de reduzir conflitos no terreno do
superendividamento (2014, p. 18).

Entretanto, mesmo defensor da reforma, Herman Benjamim acredita que deve


haver prudência ao se atualizar o CDC, buscando sempre manter a integridade do
referido código e restringindo as alterações àquelas que somente adicionem direitos37.
Com base nos argumentos e considerações apresentadas pelos adeptos e não
adeptos à reforma do CDC, analisando especificamente o projeto de lei nº 283/2012,
comunga-se do posicionamento de que alterações no texto do código, pelo menos no
tocante à oferta de crédito e ao problema do superendividamento, não deveriam ser
realizadas. Tal posicionamento não despreza a relevância que tem o supracitado
problema em sociedade. Visa, entretanto, a preservar o caráter generalista
característico do código consumerista brasileiro.
O teor do projeto de lei prevê uma série de mecanismos de prevenção do
superendividamento, buscando, principalmente, fortalecer a execução dos deveres de
informação e publicidade por parte dos fornecedores de crédito. Entretanto, muitos
dos dispositivos propostos se apresentam repetitivos quando analisados em
comparação àqueles positivados no art. 52 do CDC, que trata do fornecimento de
produtos ou serviços que abarquem a outorga de crédito.
Inspirado em programas de conciliação instituídos por alguns tribunais de
justiça do país, o projeto de lei também prevê a positivação de uma fase conciliatória
em conjunto com todos os credores do consumidor-devedor e a inserção de uma fase
judicial, caso reste inexitosa a primeira.
Quanto ao instituto da conciliação, insta salientar a sua grande importância para
a prestação jurisdicional, sempre que executado com a finalidade de agilizar a
resolução dos conflitos que emanam da sociedade, em fuga à burocracia e
morosidade, infelizmente tão comuns no Judiciário. Entretanto, ao buscar instituir uma
fase judicial de resolução do superendividamento, o projeto certamente aumentará

37
Extraído do Discurso do Presidente da Comissão de Juristas, por ocasião da instalação da referida comissão.
Disponível em: <http://www.senado.gov.br/senado/codconsumidor/pdf/extrato_relatorio_final.pdf> Acesso
em: 26/11/2014.
51

ainda mais a demanda judicial, o que pode ocasionar ainda mais lentidão em dirimir
os litígios.
Uma pesquisa realizada pela SPC Brasil apontou que 28% dos consumidores
negativados, ou seja, que estão com contas atrasadas há mais de 90 dias, declaram
não ter condições para quitar suas dívidas. Considerando a estimativa do próprio SPC
de que 55 milhões de CPFs estão negativados no Brasil, teríamos um universo imenso
de pessoas que poderiam buscar o judiciário diante da criação de uma espécie de
processo de superendividamento.
Insta salientar que a contrariedade à reforma do código consumerista não
significa o abandono do problema da outorga de crédito e do endividamento excessivo
do consumidor. Entretanto, tal problema demanda mais soluções de prevenção e
educação que remédios legislativos e judiciais.
Pesquisas indicam que a falta de controle financeiro e de planejamento no
orçamento aparece como principal motivo apontado para impossibilitar o pagamento
entre os inadimplentes. O desemprego e a diminuição de renda aparecem em
segundo e terceiro lugar, respectivamente38. Tais dados sugerem que uma política
que vise à prevenção do endividamento, através da educação financeira das famílias
brasileiras, seria muito mais eficaz no tratamento do problema do que a sua
judicialização em si.
O CDC, com sua atual redação, dispõe de mecanismos para realização de tal
política. O capítulo II, por exemplo, trata da Política Nacional das Relações de
Consumo, que tem como objetivo precípuo promover ações que atendam às
necessidades dos consumidores e que respeitem os seus direitos a uma vida digna,
com saúde e segurança. A formulação e execução desta política, com ações do
Estado no mercado de consumo, educando e informando os consumidores,
estimulando a criação e o desenvolvimento de associações que tenham como
finalidade defender o consumidor, e que possam, juntamente com o governo, exercer
este papel de instruí-lo quanto ao consumo consciente, pode contribuir de maneira
eficaz no tratamento do superendividamento.

38
Dados com base no levantamento “Perfil do adimplente e inadimplente”, realizado pelo SPC Brasil entre os
dias 15 e 20 de julho de 2014 em 57 cidades do Brasil. Disponível em:
<http://extra.globo.com/noticias/economia/pesquisas-mostram-perfil-dos-endividados-brasileiros-que-nao-
estao-conseguindo-quitar-seus-debitos-13502421.html> Acesso em: 27/11/2014.
52

Conforme Adalberto Pasqualotto (2011, p. 13), há uma necessidade de


formulação da Política Nacional de Relações de Consumo e de fortalecimento
funcional e estrutural do Sistema Nacional de Defesa do Consumidor, permitindo-lhe
uma atuação mais eficaz, compatível com os ditames previstos constitucionalmente e
no próprio CDC.
Ademais, prevê ainda o CDC que o Estado, através da Política Nacional de
Relações de Consumo, tem como princípio a coibição de quaisquer abusos praticados
no mercado consumerista. Tal princípio faz surgir ao Estado a obrigação de coibir os
abusos praticados no mercado de concessão de crédito, visualizados diariamente.
Urge a necessidade do Estado, por meio dos diferentes órgãos que compõem o
Sistema Nacional de Defesa do Consumidor - SNDC39, de regular a oferta de crédito,
pondo em prática os preceitos trazidos no art. 52 do CDC e penalizando aqueles que
concedam crédito sem a observância da capacidade do consumidor de adimplir.
No que tange à resolução dos conflitos oriundos de casos de
superendividamento, é também dever do Estado, em observância à execução da
Política Nacional das Relações de Consumo, fortalecer Procon, Ministério Público e
Defensoria Pública, para que possam atuar de maneira mais eficiente na solução de
casos de endividamento excessivo, incentivando a conciliação nestes órgãos, sem
forçar, entretanto, a uma fase judicial compulsória.
Inovações como a instituição do prazo de validade da oferta, vedação de
expressões que incentivam o consumo de crédito, a exemplo do “sem juros” ou “taxa
zero”, propostas no projeto de lei, ou demais iniciativas contidas no projeto que visem
a alargar os deveres de informação e responsabilizar aqueles que fornecem crédito
sem observar as condições de adimplência do cliente, podem ser reguladas sem a
necessidade de alteração do CDC, bastando uma atuação do Banco Central, nos
casos das entidades financeiras, ou disposições específicas numa lei em apartado,
preservando assim o caráter abrangente do código, sem dispor especificamente sobre
nenhum tema. Conforme dispôs Pasqualotto, reformar o CDC, cedendo a
particularismos, pode ocasionar a fragmentação da lei, instituindo formas de proteção
diferentes, conforme a relação jurídica estabelecida (2011, p. 13).

39
“Art. 105 – Integram o Sistema Nacional de Defesa do Consumidor – SNDC, os órgãos federais, estaduais, do
Distrito Federal e municipais e as entidades privadas de defesa do consumidor.”
53

Diante de todas as considerações apresentadas, este trabalho compartilha da


ideia de que o código consumerista brasileiro revela-se abrangente, dado o seu
caráter generalista, e possui dispositivos aptos a tratar da problemática do
superendividamento. Entretanto, é preciso uma atuação incisiva do Estado no sentido
de promover políticas públicas que executem os princípios trazidos no referido código,
a fim de promover a Política Nacional das Relações de Consumo e fortalecer os
órgãos integrantes do Sistema Nacional de Defesa do Consumidor, regulando a oferta
de crédito e implementando medidas de educação voltadas ao consumidor, no sentido
de incentivá-lo ao consumo consciente e responsável.
54

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Infelizmente, o problema do superendividamento faz parte do cenário de boa


parte das sociedades do mundo contemporâneo. Trata-se de um fenômeno
generalizado, de grande relevância social, que atinge a todas as classes sociais
indistintamente, prejudicando não somente o consumidor, mas as empresas, os
Estados e suas economias.
O crédito, base das economias de mercado dos Estados, tornou-se o elemento
fundamental de aquisição de bens e serviços por parte dos consumidores que,
impulsionados pela cultura do consumismo, em que comprar é sinônimo de status
social e satisfação pessoal, acabam adquirindo produtos e serviços, muitas vezes
desnecessários, e adentrando em uma situação de endividamento. Aliado a isso, as
facilidades de obtenção de tal crédito, postas ao consumidor pelos fornecedores,
geram contratações em sua maioria irrefletidas, que também resultam em
consumidores endividados.
Endividar-se é prática comum do ser humano e fato inerente à vida em
sociedade; entretanto, o superendividamento vai muito além disso e se configura
quando a assunção de dívidas assume proporção demasiada, ocasionando grandes
dificuldades na vida do consumidor, a ponto de prejudicar a sua sobrevivência com
dignidade. Configura-se como a situação em que o consumidor-devedor se vê
impossibilitado de pagar o conjunto de suas dívidas, seja por assumir mais dívidas do
que podia pagar, seja pelo acontecimento de circunstâncias alheias à compra que não
lhe permitem honrar suas dívidas.
Apesar da prática de se endividar ser um ato individual, tal ato provoca
consequências de caráter social. Por isso, o superendividamento é fator prejudicial,
pois afeta o equilíbrio da economia e gera insegurança no mercado de consumo.
Ademais, o endividamento excessivo ocasiona problemas nas mais diferentes
esferas, extrapolando o âmbito econômico e gerando situações estressantes que
afetam o devedor psicologicamente, irradiando efeitos no seio familiar e contribuindo
para a sua exclusão social.
Nesse diapasão, muitos países passaram a editar leis que tratassem
especificamente acerca da temática do superendividamento, no intuito de evitar os
supracitados efeitos negativos que a sua ocorrência gera na sociedade. No Brasil,
editou-se em 2012 projeto de lei que prevê o tratamento específico do tema, por meio
55

de alterações no Código de Defesa do Consumidor que regulem a oferta de crédito,


grande responsável pelas situações de endividamento excessivo. A edição do referido
projeto, entretanto, gerou as mais diferentes interpretações sobre a real necessidade
de se alterar o texto do CDC.
Esta pesquisa, adentrando o seio das discussões sobre o tema, analisou a
capacidade do código consumerista do Brasil de resolver o problema em comento.
Considerando que o CDC possui caráter predominantemente principiológico, verifica-
se a desnecessidade de alteração de seu texto, no tocante à inserção de normas
reguladoras da oferta de crédito e que tratem especificamente do superendividamento
do consumidor.
Tal posicionamento não significa relegar a segundo plano este grave problema
social, que acomete tantos consumidores em nosso país. Entretanto, verificou-se que
o superendividamento pode ser melhor combatido com medidas que visem a sua
prevenção através da educação financeira dos consumidores e, nesse sentido, o CDC
já dispõe de meios que, se corretamente executados, podem cumprir com êxito tal
papel preventivo.
O CDC apresenta importantes meios de implantação e execução de uma
política nacional que vise a resolver os problemas dos consumidores das mais
variadas espécies, relacionados à defesa de seus interesses, incluindo nesse âmbito
a proteção de sua saúde e dignidade, principais direitos afetados pelo
superendividamento. Nesse cenário, urge a necessidade de melhor compreensão e
aplicação dos preceitos trazidos no código consumerista vigente, ao invés de uma
alteração no texto que possa retirar seu caráter geral de se amoldar aos reclames dos
sujeitos das relações de consumo sem especificidades.
Verifica-se ser plenamente possível, através do referido código, a formulação
de políticas que fortaleçam os órgãos e entidades integrantes do Sistema Nacional de
Defesa do Consumidor, como Procon, Ministério Público, Defensoria Pública e
entidades civis de defesa do consumidor, no sentido de fomentar ações de educação
dos consumidores quanto ao consumo de crédito. Ademais, os mesmos órgãos
podem também ser aparelhados para propiciar aos consumidores e fornecedores de
crédito um ambiente propício à conciliação como meio alternativo à Justiça,
representando forma mais célere de resolução dos conflitos. O projeto de lei objeto de
estudo propõe a judicialização do problema, fato que caminha na contramão da
56

tendência moderna de desjudicialização dos conflitos como forma de promover a


célere e eficaz prestação jurisdicional.
Importante ressaltar que o projeto traz em seu bojo dispositivos importantes,
que alargam os deveres de informação e aconselhamento dos fornecedores de
crédito, entretanto tal expansão não demanda necessariamente uma alteração no
texto do CDC, podendo ser realizada por lei em apartado ou até mesmo por órgãos
reguladores, como o Banco Central em relação às instituições financeiras, maiores
fornecedoras de crédito.
Ademais, justifica-se o posicionamento quanto à desnecessidade do projeto de
lei apresentado, uma vez que este traz dispositivos que já contêm aparato jurídico no
CDC, a exemplo do art. 54-B, que propõe a obrigação de informar ao consumidor a
soma dos encargos e despesas da operação de crédito, já consubstanciada no art. 52
do código consumerista vigente.
Assim sendo, este pesquisador considera desnecessária a proposta de
atualização do Código de Defesa do Consumidor vigente em nosso país, defendendo
a sua manutenção no tocante aos contratos de fornecimento de crédito. Em
contrapartida, comunga-se da opinião de que o superendividamento é um problema
grave e que merece tratamento. Nesse sentido, o referido código, por si só, revela-se
capaz de atender ao problema debatido, devendo ser melhor compreendido e
aplicado, tendo em vista que, dado o seu caráter geral, dispõe de ferramentas capazes
de fomentar a promoção da educação financeira dos consumidores brasileiros.
Resta evidente que o problema do superendividamento em nosso país tem
como causas a facilitada oferta de crédito e a falta de planejamento e habilidade com
as operações creditícias dos consumidores. Nesse sentido, a aplicação dos
instrumentos trazidos no CDC que visam à prestação da informação, bem como o
fortalecimento das entidades de proteção ao consumidor e a formulação da política,
mostram-se aptos a tratar o supracitado problema objeto de estudo.
57

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______. TRIBUNAL DE JUSTIÇA DE SÃO PAULO. Apelação Cível nº


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63

ANEXO A – PROJETO DE LEI Nº 283/2012 (PRIMEIRA MINUTA)


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66
67
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ANEXO B – PROJETO DE LEI Nº 283/2012 (SUBSTITUTIVO)


76

EMENDA Nº – CTMCDC (SUBSTITUTIVO) PROJETO DE LEI


DO SENADO Nº 283, DE 2012

Altera a Lei nº 8.078, de 11 de setembro de 1990


(Código de Defesa do Consumidor), para aperfeiçoar a
disciplina do crédito ao consumidor e dispor sobre a
prevenção e tratamento do superendividamento.

O CONGRESSO NACIONAL decreta:

Art. 1º A Lei nº 8.078, de 11 de setembro de 1990 (Código de Defesa do


Consumidor), passa a vigorar com as seguintes alterações:

“Art. 4º ..........................................................................
I – o fomento de ações visando à educação financeira e ambiental
dos consumidores;
II – prevenção e tratamento do superendividamento como forma
de evitar a exclusão social do consumidor. (NR)”

“Art. 5º. ...........................................................................


.........................................................................................
VI – instituição de mecanismos de prevenção e tratamento
extrajudicial e judicial do superendividamento e de proteção do
consumidor pessoa natural;
VII – instituição de núcleos de conciliação e mediação de conflitos
oriundos de superendividamento.
.............................................................................. (NR)”
“Art. 6º ...........................................................................
.........................................................................................
III – a garantia de práticas de crédito responsável, de educação
financeira, de prevenção e tratamento das situações de
77

superendividamento, preservando o mínimo existencial, por meio da


revisão e repactuação da dívida, entre outras medidas;
IV – na repactuação de dívidas e na concessão de crédito, a
preservação do mínimo existencial, compreendido como a quantia
mínima destinada à manutenção das despesas mensais razoáveis de
sobrevivência, assim entendidas as referentes a água, luz, alimentação,
saúde, moradia e educação;
V ‐ a informação acerca dos preços dos produtos por unidade de
medida, tais como o calculado por quilo, litro, metro ou outra unidade
conforme o caso. (NR)”

“Art. 37. .........................................................................


.........................................................................................
§ 2° É abusiva, dentre outras:
I ‐ a publicidade discriminatória de qualquer natureza, a que
incite à violência, explore o medo ou a superstição, se aproveite da
deficiência de julgamento e experiência da criança, desrespeite valores
ambientais, ou que seja capaz de induzir o consumidor a se comportar
de forma prejudicial ou perigosa à sua saúde ou segurança;
II ‐ a publicidade que, dentre outras, contenha apelo imperativo
de consumo à criança, que seja capaz de promover qualquer forma de
discriminação ou sentimento de inferioridade entre o público de crianças
e adolescentes ou que empregue crianças ou adolescentes na condição
de porta voz direto da mensagem de consumo.
.............................................................................. (NR)”

“Art. 51. ..............................................................................


.............................................................................................
XVII – de qualquer forma condicionem ou limitem o acesso
aos órgãos do Poder Judiciário;
XVIII – imponham ou tenham como efeito a renúncia à
impenhorabilidade do bem de família do consumidor ou do fiador;
XIX – estabeleçam prazos de carência na prestação ou
fornecimento de serviços ou produtos, em caso de impontualidade das
prestações mensais, ou impeçam o restabelecimento integral dos
direitos do consumidor e seus meios de pagamento, a partir da purgação
da mora ou do acordo com os credores;
XX – considerem o simples silêncio do consumidor como aceitação
dos valores cobrados, em especial nos contratos bancários, financeiros,
securitários, de cartões de crédito ou de crédito em geral, das
78

informações prestadas nos extratos, de modificação de índice ou de


alteração contratual;
XXI – prevejam a aplicação de lei estrangeira que limite, total
ou parcialmente, a proteção assegurada por este Código ao consumidor
domiciliado no Brasil. (NR)”

“CAPÍTULO VII
Da Prevenção e do Tratamento ao Superendividamento

Art. 54‐A. Este Capítulo tem a finalidade de prevenir o


superendividamento da pessoa natural, dispor sobre o crédito
responsável e a educação financeira do consumidor.
§ 1º Entende‐se por superendividamento a impossibilidade
manifesta do consumidor, pessoa natural, de boa‐fé, de pagar o
conjunto de suas dívidas de consumo, exigíveis e vincendas, que
comprometa seu mínimo existencial.
§ 2º As dívidas de que trata o § 1º englobam quaisquer
compromissos financeiros assumidos, inclusive operações de crédito, de
compras a prazo e serviços de prestação continuados.
§ 3º Não se aplica o disposto neste Capítulo ao consumidor cujas
dividas tenham sido contraídas mediante fraude ou má‐fé ou oriundas
de contratos celebrados dolosamente com o propósito de não realizar o
pagamento.

Art. 54‐B. Além das informações obrigatórias previstas no art. 52 e na


legislação aplicável à matéria, no fornecimento de crédito e na venda a
prazo, o fornecedor ou o intermediário deverá informar o consumidor,
prévia e adequadamente, na oferta e por meio do contrato ou na
fatura, sobre:
I – o custo efetivo total e a descrição dos elementos que o
compõem;
II – a taxa efetiva mensal de juros, a taxa dos juros de mora e o
total de encargos, de qualquer natureza, previstos para o atraso no
pagamento;
III – o montante das prestações e o prazo de validade da oferta,
que deve ser no mínimo de dois dias;
IV – o nome e o endereço, inclusive o eletrônico, do fornecedor;
V – o direito do consumidor à liquidação antecipada e não
onerosa do débito.
79

§ 1º As informações referidas no art. 52 e no caput deste artigo


devem constar de forma clara e resumida no próprio contrato ou em
instrumento apartado, de fácil acesso ao consumidor.
§ 2º O custo efetivo total da operação de crédito ao consumidor,
para efeitos deste Código, sem prejuízo do cálculo padronizado pela
autoridade reguladora do sistema financeiro, consistirá em taxa
percentual anual e compreenderá todos os valores cobrados do
consumidor.
§ 3º Sem prejuízo do disposto no art. 37, a oferta de crédito ao
consumidor e de vendas a prazo, ou fatura mensal, a depender do caso,
deve indicar, no mínimo, o custo efetivo total, o agente financiador e a
soma total a pagar, com e sem financiamento.

Art. 54‐C. É vedado, expressa ou implicitamente, na oferta de


crédito ao consumidor, publicitária ou não:
I – fazer referência a crédito “sem juros”, “gratuito”, “sem
acréscimo”, com “taxa zero” ou expressão de sentido ou entendimento
semelhante;
II – indicar que a operação de crédito poderá ser concluída sem
consulta a serviços de proteção ao crédito ou sem avaliação da situação
financeira do consumidor;
III – ocultar ou dificultar a compreensão sobre os ônus e riscos da
contratação do crédito ou da venda a prazo;
IV – assediar ou pressionar o consumidor, principalmente se idoso,
analfabeto, doente ou em estado de vulnerabilidade agravada, para
contratar o fornecimento de produto, serviço ou crédito, inclusive à
distância, por meio eletrônico ou por telefone, ou se envolver prêmio;
V – condicionar o atendimento de pretensões do consumidor, ou
início de tratativas, à renúncia ou à desistência relativas a demandas
judiciais, ao pagamento de honorários advocatícios ou a depósitos
judiciais.
Parágrafo único. O disposto no inciso I deste artigo não se aplica
ao fornecimento de produtos ou serviços para pagamento do preço no
cartão de crédito.

Art. 54‐D. Na oferta de crédito, previamente à contratação, o


fornecedor ou intermediário deve, entre outras condutas:
I – informar e esclarecer adequadamente o consumidor
considerando sua idade, saúde, conhecimento e condição social, sobre a
natureza e a modalidade do crédito oferecido, informando todos os
80

custos incidentes, observado o disposto no art. 52 e no art. 54‐B, e sobre


as consequências genéricas e específicas do inadimplemento;
II – avaliar a capacidade e as condições do consumidor de pagar a
dívida contratada, mediante solicitação da documentação necessária e
das informações disponíveis em bancos de dados de proteção ao crédito,
observado o disposto neste Código e na legislação sobre proteção de
dados;
III – informar a identidade do agente financiador e entregar ao
consumidor, ao garante e a outros coobrigados uma cópia do contrato
de crédito.
Parágrafo único. O descumprimento de qualquer dos deveres
previstos no caput deste artigo, no art. 52 e no art. 54‐C, poderá
acarretar judicialmente a inexigibilidade ou a redução dos juros,
encargos, ou qualquer acréscimo ao principal, a dilação do prazo de
pagamento previsto no contrato original, conforme a gravidade da
conduta do fornecedor e as possibilidades financeiras do consumidor,
sem prejuízo de outras sanções e da indenização por perdas e danos,
patrimoniais e morais, ao consumidor.

Art. 54‐E. Nos contratos em que o modo de pagamento da dívida


envolva autorização prévia do consumidor pessoa natural para
consignação em folha de pagamento, a soma das parcelas reservadas
para pagamento de dívidas não poderá ser superior a trinta por cento
da sua remuneração mensal líquida.
§ 1º O descumprimento do disposto neste artigo dá causa
imediata ao dever de revisão do contrato ou sua renegociação, hipótese
em que o juiz poderá adotar, entre outras, de forma cumulada ou
alternada, as seguintes medidas:
I – dilação do prazo de pagamento previsto no contrato original,
de modo a adequá‐lo ao disposto no caput deste artigo, sem acréscimo
nas obrigações do consumidor;
II – redução dos encargos da dívida e da remuneração do
fornecedor;
III – constituição, consolidação ou substituição de garantias.
§ 2º O consumidor poderá, em sete dias, desistir da contratação
de crédito consignado de que trata o caput deste artigo, a contar da
data da celebração ou do recebimento de cópia do contrato, sem
necessidade de indicar o motivo.
§ 3º Para o exercício do direito a que se refere o § 2º deste artigo,
o consumidor deve:
81

I – remeter, no prazo do § 2º deste artigo, o formulário ao


fornecedor ou intermediário do crédito, por carta ou qualquer outro
meio de comunicação, inclusive eletrônico, com registro de envio e
recebimento;
II – devolver ao fornecedor o valor que lhe foi entregue, acrescido
dos eventuais juros incidentes até a data da efetiva devolução, no prazo
de sete dias após ter notificado o fornecedor do arrependimento, caso o
consumidor tenha sido informado, previamente, sobre a forma de
devolução dos valores.
§ 4º O fornecedor facilitará o exercício do direito previsto no § 2º
deste artigo, mediante disponibilização de formulário de fácil
preenchimento pelo consumidor, em meio físico ou eletrônico, anexo
ao contrato e com todos os dados relativos à identificação do
fornecedor e do contrato, assim como a forma para a devolução das
quantias em caso de arrependimento.
§ 5º Para efeito do disposto neste artigo, o nível de
endividamento do consumidor poderá ser aferido, entre outros meios,
mediante informações fornecidas por ele, consulta a cadastros de
consumo e bancos de dados de proteção ao crédito, observado o
disposto neste Código e na legislação sobre proteção de dados.
§ 6º O disposto no § 1º deste artigo não se aplica quando o
consumidor houver apresentado informações incorretas.
§ 7º O limite previsto no caput não se refere a dívidas do
consumidor, oriundas do crédito consignado, com cada credor
isoladamente considerado, abrangendo o somatório das dívidas com
todos os credores.

Art. 54‐F. São conexos, coligados ou interdependentes, entre


outros, o contrato principal de fornecimento de produtos e serviços e
os acessórios de crédito que lhe garantam o financiamento, quando o
fornecedor de crédito:
I – recorre aos serviços do fornecedor de produto ou serviço para
a conclusão ou a preparação do contrato de crédito;
II – oferece o crédito no local da atividade empresarial do
fornecedor do produto ou serviço financiado ou onde o contrato
principal foi celebrado.
§ 1º O exercício dos direitos de arrependimento previstos neste
Código, seja no contrato principal ou no de crédito, implica a resolução
de pleno direito do contrato que lhe seja conexo.
§ 2º Nos casos dos incisos I e II do caput, havendo a inexecução de
qualquer das obrigações e deveres do fornecedor de produtos ou
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serviços, o consumidor poderá requerer a rescisão do contrato não


cumprido contra o fornecedor do crédito.
§ 3º O direito previsto no § 2º deste artigo caberá igualmente ao
consumidor:
I – contra o portador de cheque pós‐datado, emitido para
aquisição de produto ou serviço a prazo;
II – contra o administrador ou emitente de cartão de crédito ou
similar, quando a contratação tiver ocorrido nas hipóteses previstas no
caput deste artigo.
§ 4º A invalidade ou a ineficácia do contrato principal implicará,
de pleno direito, a do contrato de crédito que lhe seja conexo, nos
termos do caput deste artigo, ressalvado ao fornecedor do crédito o
direito de obter do fornecedor do produto ou serviço a devolução dos
valores pagos, inclusive relativamente a tributos.
§ 5º Nos casos dos incisos I e II do caput, havendo vício do
produto ou serviço manifestado em noventa dias a contar da data do
fornecimento, e desde que o contrato de crédito não esteja
integralmente quitado, a responsabilidade do fornecedor de crédito
será subsidiária, no limite do valor do financiamento, sem prejuízo do
direito de regresso.

Art. 54‐G. Sem prejuízo do disposto no art. 39 deste Código e da


legislação aplicável à matéria, é vedado ao fornecedor de produtos e
serviços que envolvam crédito, entre outras condutas:
I – realizar ou proceder à cobrança ou ao débito em conta de
qualquer quantia que houver sido contestada pelo consumidor em
compras realizadas com cartão de crédito ou meio similar, enquanto não
for adequadamente solucionada a controvérsia, desde que o consumidor
haja notificado a administradora do cartão com antecedência de pelo
menos sete dias da data de vencimento da fatura, vedada a manutenção
do valor na fatura seguinte e assegurado ao consumidor o direito de
deduzir do total da fatura o valor em disputa e efetuar o pagamento da
parte não contestada;
II – recusar ou não entregar ao consumidor, ao garante e aos
outros coobrigados, cópia da minuta do contrato principal de consumo
ou do de crédito, em papel ou outro suporte duradouro, disponível e
acessível e, após a conclusão, cópia do contrato;
III – impedir ou dificultar, em caso de utilização fraudulenta do
cartão de crédito ou meio similar, que o consumidor peça e obtenha,
quando aplicável, a anulação ou o imediato bloqueio do pagamento ou
ainda a restituição dos valores indevidamente recebidos.
83

§ 1º Sem prejuízo do dever de informação e esclarecimento do


consumidor e de entrega da minuta do contrato, no empréstimo cuja
liquidação seja feita mediante consignação em folha de pagamento, a
formalização e a entrega da cópia do contrato ou do instrumento de
contratação ocorrerão após o fornecedor do crédito obter da fonte
pagadora a indicação sobre a existência de margem consignável.
§ 2º Em se tratando de contratos de adesão deve o fornecedor
prestar previamente ao consumidor as informações de que tratam o
art. 52 e o caput do art. 54‐B desta Lei, além de outras porventura
determinadas na legislação em vigor, ficando o fornecedor obrigado a,
após a conclusão do contrato, entregar ao consumidor cópia deste.
§ 3º Caso o consumidor realize o pagamento da dívida do cartão
por meio de débito em conta, a administradora do cartão ou o emissor
do cartão não deve debitar qualquer quantia que houver sido
contestada pelo consumidor ou estiver em disputa com o fornecedor,
inclusive tarifas de financiamento ou outras relacionadas, caso a
informação acerca da existência da disputa ou da contestação tenha
sido notificado com antecedência de pelo menos sete dias da data de
vencimento da fatura. (NR)”

“CAPÍTULO VII
Das Sanções

.........................................................................................(NR)”

“CAPÍTULO V
Da Conciliação no Superendividamento

Art. 104‐A. A requerimento do consumidor superendividado


pessoa natural, o juiz poderá instaurar processo de repactuação de
dívidas, visando à realização de audiência conciliatória, presidida por
ele ou por conciliador credenciado no juízo, com a presença de todos os
credores, em que o consumidor apresentará proposta de plano de
pagamento com prazo máximo de cinco anos, preservado o mínimo
existencial e as garantias originalmente pactuadas.
§ 1º Ficam excluídas do processo de repactuação as dívidas de
caráter alimentar, fiscais e parafiscais e as oriundas de contratos
celebrados dolosamente sem o propósito de realizar o pagamento, bem
como os contratos de financiamento imobiliário e os contratos de
crédito rural.
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§ 2º O não comparecimento injustificado de qualquer credor, ou


de seu procurador com poderes especiais e plenos para transigir, à
audiência de conciliação de que trata o caput deste artigo, acarretará a
suspensão da exigibilidade do débito e a interrupção dos encargos da
mora.
§ 3º No caso de conciliação, com qualquer credor, a sentença
judicial que homologar o acordo descreverá o plano de pagamento da
dívida, tendo eficácia de título executivo e força de coisa julgada.
§ 4º Constará do plano de pagamento:
I – medidas de dilação dos prazos de pagamento, da redução dos
encargos da dívida ou da remuneração do fornecedor, dentre outras
medidas destinadas a facilitar o pagamento das dívidas;
II – referência quanto à suspensão ou extinção das ações judiciais
em curso;
III – data a partir da qual será providenciada exclusão do
consumidor de bancos de dados e cadastros de inadimplentes;
IV – condicionamento de seus efeitos à abstenção, pelo
consumidor, de condutas que importem no agravamento de sua situação
de superendividamento.
§ 5º O pedido do consumidor a que se refere o caput deste artigo
não importa em declaração de insolvência civil e poderá ser repetido
somente após decorrido o prazo de dois anos, contados da liquidação
das obrigações previstas no plano de pagamento homologado, sem
prejuízo de eventual repactuação.

Art. 104‐B. Inexitosa a conciliação, a pedido do consumidor, o juiz


instaurará o processo de superendividamento para revisão e integração
dos contratos e repactuação das dívidas remanescentes através de um
plano judicial compulsório, procedendo à citação de todos os credores
cujos créditos não integraram o acordo celebrado.
§ 1º Serão considerados, se for o caso, os documentos e as
informações prestadas em audiência e, no prazo de 15 (quinze) dias, os
credores citados juntarão documentos e as razões da negativa de
aceder ao plano voluntário ou de renegociar.
§ 2º O juiz poderá nomear administrador, desde que não onere as
partes, que apresentará plano de pagamento, no prazo de até 30
(trinta) dias, após cumpridas as diligências eventualmente necessárias,
contemplando medidas de temporização ou atenuação dos encargos.
§ 3º O plano judicial compulsório assegurará aos credores, no
mínimo, o valor do principal devido corrigido monetariamente por
índices oficiais de preço, e preverá a liquidação total da dívida em, no
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máximo, cinco anos, sendo a primeira parcela devida no prazo máximo


de cento e oitenta dias, contados da sua homologação judicial, e o
restante do saldo devido mensalmente em parcelas iguais e sucessivas.

Art. 104‐C. Compete concorrentemente aos órgãos públicos


integrantes do Sistema Nacional de Defesa do Consumidor a fase
conciliatória e preventiva do processo de repactuação de dívidas.
§ 1º Em caso de conciliação administrativa para prevenir o
superendividamento do consumidor pessoa natural, os órgãos públicos
poderão promover, nas reclamações individuais, uma audiência global
de conciliação com todos os credores e, em todos os casos, facilitar a
elaboração de um plano de pagamento, preservando o mínimo
existencial sob a supervisão destes órgãos, sem prejuízo das demais
atividades de reeducação financeira cabíveis.
§ 2º O acordo firmado perante os órgãos públicos de defesa do
consumidor, em caso de superendividamento do consumidor pessoa
natural, deverá incluir a data a partir da qual será providenciada
exclusão do consumidor de bancos de dados e cadastros de
inadimplentes, assim como o condicionamento de seus efeitos à
abstenção, pelo consumidor, de condutas que importem no
agravamento de sua situação de
superendividamento, especialmente contrair novas dívidas. (NR)”

Art. 2º O art. 96 da Lei nº 10.741, de 1º de outubro de 2003 (Estatuto do Idoso),


passa a vigorar acrescido do § 3º, com a seguinte redação:

“Art. 96. .........................................................................


.........................................................................................
§ 3º Não constitui crime a negativa de crédito motivada por
superendividamento do idoso. (NR)”

Art. 3º Esta Lei entra em vigor na data da sua publicação.

Parágrafo único. A validade dos negócios e demais atos


jurídicos de crédito em curso, constituídos antes da entrada em vigor desta Lei, obedece ao disposto
na Lei anterior, mas os seus efeitos produzidos após a sua vigência aos preceitos dela se
subordinam.

Sala da Comissão,

, Presidente

Senador RICARDO FERRAÇO, Relator