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SIMPÓSIO ABRALIC:

57 - LITERATURA E MÚSICA:
TEORIA, HISTÓRIA E CRÍTICA

INSCRIÇÕES ABERTAS ATÉ 15 DE MARÇO

SITE DO EVENTO:
http://www.abralic.org.br/inscricao/comunicacao/

57 - LITERATURA E MÚSICA: TEORIA, HISTÓRIA E CRÍTICA

Coordenação: Dennys Silva-Reis (UnB/POSLIT); Daniel Padilha Pacheco da Costa (UFU)

RESUMO

As diferentes relações entre a literatura e a música são, de modo geral, constituídas por um
gigantesco campo de diálogos e convergências. Algumas dessas convergências são estudadas
pela disciplina que, surgida no século XVIII, permitiu reuni-las sob o nome de Estética. No
entanto, essas duas artes também nutriram as mais distintas rivalidades e divergências, baseadas
em hierarquias de valor econômico e simbólico e disputas por prestígio social e artístico. Esses
movimentos de aproximação e afastamento, que sempre existiram em todos os tempos e
lugares, por mais antigos e distantes que possam ser, podem ser considerados segundo as mais
distintas modalidades, dependendo de sua inscrição na história e na geografia (CAZNAK,
2003).
No ocidente, as primeiras manifestações dessa confluência entre Literatura e Música foram as
epopeias homéricas (PARRY, 1987). Essa indissociabilidade originária entre a poesia e a
música fez com que as primeiras definições de poesia tivessem sido realizadas com base em
noções musicais. Concepção hegemônica durante a chamada Idade Média, Platão (2002)
definiu a harmonia e o ritmo como os elementos distintivos da poesia, antes de Aristóteles
(2015) circunscrever à imitação o domínio do poético. Desde o início da modernidade até as
vanguardas do século XX, o lirismo desenvolveu uma nova relação entre a poesia e a
música (DARBEAU, 2004, MORAES, 1983), fortemente baseada em uma concepção musical
da própria linguagem poética. Em sentido próprio ou figurado, a literatura talvez nunca tenha
se emancipado totalmente da música. O romancista francês Louis-Ferdinand Céline, por
exemplo, definiu seu estilo coloquial e emotivo como uma pequena música (DONLEY, 2000).
Aqui, a noção de literatura não deve ser entendida apenas, em sentido estrito, como uma
modalidade prestigiada de escrita surgida na modernidade europeia, mas também, em sentido
amplo, em sua relação intrínseca com as formas da linguagem, inclusive aquelas próprias de
culturas inteira ou fortemente marcadas pela oralidade. Dessa perspectiva, a própria distinção
entre a literatura e a música pode se mostrar problemática, dada a necessária importância – que
pode ser maior ou menor, mas jamais inexistente – da dimensão sonora da linguagem.
Os Estudos Performáticos e os Estudos Orais mostraram sobremaneira a importância de
outra ramificação da interseção entre Literatura e Música: as literaturas orais, as narrativas
folclóricas, o sujeito cancioneiro e a contação de histórias (FERNANDES, 2007; ZUMTHOR,
2014). Todas essas linhas de estudos eram, até pouco tempo, ainda subalternizadas, e hoje são
matéria bruta de um campo híbrido que traz para a Academia textos pouco conhecidos como,
por exemplo, as chamadas textualidades indígenas (MATOS, 2007).
Com a Narratologia (REIS, LOPES, 1988), uma parte significativa da literatura pôde ser vista
como narração. Por outro lado, a música também buscou métodos de narrativizar os sons, as
melodias e o próprio silêncio, como evidencia a existência de uma área inteira dedicada a esta
arte: a sonoplastia (CHION, 2010). Elos entre teatro, radionovela, telenovela, cinema, dança,
ópera, dentre outras artes foram essenciais para as múltiplas reciprocidades, ainda pouco
discutidas, entre Literatura e Música (KAYE & LEBRECHT, 2009; SILVA-REIS, 2018).
A Tematologia, ou estudo dos temas (BRUNEL, PICHOIS, ROUSSEAU, 1995), é uma das
linhas teóricas mais discutidas e estudadas no Brasil. Com efeito, essa área oferece
contribuições singulares para a compreensão e apreciação de temas, conteúdos, personagens,
ações e arquétipos artísticos partilhados por músicos e escritores (OLIVEIRA, JOST, 2016).
Somado a isso, a repetição ou a permanência de um tema pode contribuir significativamente
para a reflexão das artes ou da própria sociedade.
Da comunicação, a vertente da Intermedialidade traz à tona o modo pelo qual a materialidade
de uma arte pode ser transfigurada em outra (DINIZ, VIEIRA, 2012; DINIZ, 2012). Este
campo, além de trabalhar as influências, as intertextualidades, interdiscursividades, bem como
as questões semióticas, coloca em jogo as relações entre a corporeidade da Música e a
Literatura. As questões sentimentais e as oriundas da percepção recebem particular destaque
neste tipo de estudo (MOSER, 2006).
Cabe mencionar também que a perspectiva da Melopoética ganhou grande impulso nas últimas
décadas (OLIVEIRA, 2002, 2012). O estudo semântico dos sentidos, somado aos recursos
musicais (progressão, pausas, ritmo, intensidade, etc.), também constitui uma metodologia de
estudo híbrida entre música e literatura, em que letra e melodia são indissociáveis, formando
um só texto ou obra artística a ser analisada (BARBE, 2011; LYRA, 2010; REIS, 2001). Nesta
direção, surgem os estudos da canção, da tradução musical e da associação da melopoética a
outras poéticas artísticas (OLIVEIRA, RENNÓ, FREIRE, AMORIM, ROCHA, 2003). Por
vezes, a melopoética é entendida como recurso mnemônico ou memorialístico, viés ainda pouco
estudado.
A partir do exposto, este simpósio pretende reunir pesquisas voltadas para a compreensão das
múltiplas relações entre a literatura e a música, segundo diferentes perspectivas teóricas,
históricas e críticas. São esperados trabalhos que (1) relacionem, singularizem ou
circunscrevam as relações entre as duas artes; (2) apresentem agentes artísticos que transitem
entre a música e a literatura; (3) proponham formas de otimizar essa relação no ensino de
literatura; (4) salientem determinados gêneros (musicais ou textuais) propícios ao hibridismo
das duas artes; (5) tragam novas propostas teóricas e metodológicas para este domínio; (6)
discutam ou revisem a história e a crítica musical-literária brasileira ou estrangeira; e (7)
investiguem o potencial musical-literário de obras nos âmbitos político, social ou cultural.
REFERÊNCIAS

ARISTÓTELES. Poética. Trad. Paulo Pinheiro. São Paulo: Editora 34, 2015.
BARBE, Michèle (org.). Musique et arts plastiques: la traduction d’un art par l’autre. Paris:
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BRUNEL, P.; PICHOIS, C.; ROUSSEAU, A. M. Que é literatura comparada? São Paulo:
Perspectiva, 1995.
CAZNAK, Yara Borges. Música: entre o audível e o visível. São Paulo: UNESP, 2003.
CHION, Michel. Le son. Traité d’acoulogie. 2ª ed. Paris: Armand Colin, 2010.
DARBEAU, Bertrand. Poésie et Lyrisme. Paris : Flammarion, 2004.
DINIZ, Thaïs F.; VIEIRA, André S. (orgs.). Intermidialidade e estudos interartes. Desafios
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Literários/Faculdade de Letras da UFMG, 2012.
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DONLEY, Michael. Céline musicien: la vrai grandeur de sa ‘petite musique’. Librairie Nizet:
Saint-Genouph, 2000.
FERNANDES, Frederico. A voz e o sentido: poesia oral em sincronia. São Paulo: UNESP,
2007.
KAYE, Deena; LEBRECHT, James. Sound and Music for the Theatre: The Art &
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MATOS, Cláudia N.. Textualidades Indígenas no Brasil. In: FIGUEIREDO, Eurídice
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MORAES, J. Jota. O que é música? São Paulo: Brasiliense, 1983.
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https://ipotesi.ufjf.emnuvens.com.br/ipotesi/article/view/1247.
OLIVEIRA, Solange R. Literatura e música. São Paulo: Perspectiva, 2002.
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