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FACULDADE DAMAS DA INSTRUÇÃO CRISTÃ

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM DIREITO

CAMILA LUSTOSA

LORENA FLORÊNCIO

MIGUEL MEDEIROS

ROBERVAL BURGOS

FAGUNDES RODRIGUES

PRINCÍPIOS JURÍDICOS E ÉTICOS EM SÃO TOMÁS DE AQUINO

Disciplina: ?Alguem sabe o nome da disciplina??????

Linha de pesquisa: Historicidade dos Direitos Fundamentais

Prof. Dom Rafael

RECIFE-PE

2018
CAPÍTULO III
O CONCEITO DE INJUSTIÇA NO PENSAMENTO TOMASIANO

Inicialmente cumpre destacar que a obra tomasiana, Suma teológica, não trata
somente das virtudes, mas também dos vícios. E, por ter dado uma grande importância à
virtude da justiça, justifica-se o estudo do vício oposto, a injustiça1.
S. Tomás de Aquino afirma que a injustiça é um vício especial (uma
ilegalidade) porque despreza o bem comum, o qual é o objeto especial da justiça legal.
Entretanto, a contrário senso, afirma que, se a injustiça engloba todos os vícios (todas as
ilegalidades), e, nesse sentido é tida como um vício geral.
Ao considerarmos injustiça “certa desigualdade em relação a outrem”, temos
que se trata de “um vício particular oposto à justiça particular”, e pode ser exemplificada da
seguinte maneira: “alguém que quer ter mais riquezas e honras e menos sofrimentos e danos”.
Nesse sentido, a injustiça é tida como um vício particular.
Santo Tomás de Aquino distingue a justiça legal da divina, esta o bem divino
que se refere a todo pecado, e aquela uma relação com o bem comum do homem, pecado
especial. “Além disso, não se pode esquecer que a obra de S. Tomás é, antes de tudo,
teológica: por isso faz referência ao conceito especificamente teológico do pecado”2.
Para Alasdair MacIntyre 3 é importante compreender a filosofia no contexto
histórico da tradição, da ordem social e do conflito do qual emergiu. Desta feita, continua o
referido Autor a dizer que S. Tomás nos deixou uma lição importante, acerca da temática, que
serve, inclusive para os dias atuais, todo ser humano deve justiça ao outro, dando-lhe o que é
devido como padrão de retidão exigido de cada um de nós.
E, não poderia ser de outra forma, isso, pois, a justiça é a virtude que trata
particularmente das relações com os outros, de modo que a injustiça para Aquino é “uma
desigualdade pela qual damos mais ou menos do que lhe compete”.
Ultrapassado o artigo 1, no qual, S. Tomás aborda se a injustiça é um vício
especial, vamos ao artigo 2 no qual é respondido se se considera injusto quem comete
injustiça.

1
A injustiça é abordada por S. Tomás de Aquino na sua principal obra, Suma teológica, mais precisamente, na
Secunda Secundae, questão 59: “Da injustiça”.
2
RAMPAZZO, Lino e NAHUR, Március Tadeu Maciel. Princípios Jurídicos e éticos em Tomás de Aquino.
São Paulo: Paulus, 2015, p.63.
3
MACINTYRE, Aldair. Justiça de quem? Qual nacionalidade? São Paulo: Loyola, 1991 in: RAMPAZZO, Lino
e NAHUR, Március Tadeu Maciel. Princípios Jurídicos e éticos em Tomás de Aquino. São Paulo: Paulus,
2015, p.63.
E, para o Santo existem duas situações que a injustiça poderia ser considerada
materialmente existente, mas não formalmente. Pois, há o agente que comete uma injustiça
por ignorância, sem intenção daquele determinado efeito. Por outro lado, também não poderia
ser considerado injusto aquele que por paixão (ato humano da natureza e não de uma ação de
vontade propriamente dita) cometesse uma injustiça, pois nesse último caso a pessoa não tem
o hábito da injustiça.
S. Tomás afirma que “não é fácil a ninguém cometer injustiça de propósito
deliberado, mas somente quando alguém tem o hábito dela”4. Portanto, a injustiça provém de
um ato voluntário.
Outra importante observação encontra-se estampada no artigo 4 da Suma,
quando se questiona se a injustiça é genericamente um pecado mortal 5. E, sendo certo que a
injustiça é caracterizada por causar dano a outrem, logo é pecado genericamente mortal.
Quando trata das objeções, S. Tomás explica o termo genericamente, pois,
quando alguém comete uma injustiça por acidente merece o perdão. E, ainda, complementa
que diferentemente seria a ignorância de direito6, a qual vai depender se se trataria de uma
matéria grave ou leve, exemplificamos esse último, através de um princípio bem difundido,
atualmente, o Princípio da Insignificância.
John Mitchell Finnis7, filósofo australiano, tomista, um dos principais teóricos
jusnaturalistas contemporâneos, traz um exemplo dessa aplicação das reflexões de São Tomás
de Aquino da injustiça como um vício. Deste modo, afirma que a atividade ética é uma
questão de decisão livre e inteligente.
Assinala o mencionado filósofo que ao falar do vício é preciso remontar à
questão do mal e do proporcionalismo e todas as suas formas. De modo que a pessoa deve
orientar suas escolhas pela busca do que promete um bem maior total e o mal menor no seu
todo e em longo prazo.
Explica: a perda de um braço é uma coisa ruim, um mal; a falta de um braço é
uma imperfeição; mas os atos de amputação que salvam vidas não são imperfeitos.
Outro aspecto relevante trazido por Finnis, acerca das normas morais
tradicionais é a punição de criminosos. Pois, defende que a punição tem um objetivo

4
RAMPAZZO, Lino e NAHUR, Március Tadeu Maciel. Princípios Jurídicos e éticos em Tomás de Aquino.
São Paulo: Paulus, 2015, p.64
5
Pecado mortal, para S. Tomás, é aquele que contraria a caridade.
6
O termo ignorância de direito remonta ao direito romano. E, os jurisconsultos romanos não admitiam tal
instituto. Distinguindo a ignorância entre o direito e o fato, e, somente a essa última mereceria razoáveis perdões.
7
In: https://pt.wikipedia.org/wiki/John_Finnis
restaurativo, no sentido de que serve para “restaurar uma ordem de equidade que foi quebrada
pela ação ilícita do criminoso”8.
Assim, importante ponderar que a punição se justifica, pois, tem a função de
reestabelecer a ordem de justiça.
A questão 67 da Suma Teológica, na parte da Secunda Secundae, trata acerca
da temática “da injustiça do juiz no julgar”, discutindo quatro artigos:
 Art. I – se podemos julgar justamente quem não depende de nós;
 Art. II – se é lícito ao juiz, baseado no que lhe expõem, julgar contra a
verdade que conhece;
 Art. III – se o juiz pode condenar justamente quem não é acusado;
 Art. IV – se pode licitamente relaxar a pena.

Para Tomás de Aquino a sentença é uma “lei particular aplicada a um fato


particular” e, portanto, tem força coativa. E, nesse sentido, em resposta ao art. 1, cumpre
asseverar que quem não está investido de autoridade pública não pode julgar. Dentre as
objeções que Aquino responde destacamos a seguinte: “quando o delinquente é de outra
diocese ou é isento”.
E, exemplifica quando o delito é cometido na administração dos bens de um
mosteiro isento, ou seja, que não depende da jurisdição do bispo, mas da jurisdição interna do
mosteiro. Aqui se delineia o princípio fundamental da jurisdição: o juízo natural.
No segundo artigo S. Tomás afirma que é função específica do juiz julgar
“enquanto investido de autoridade pública”. E, deste modo, o juiz julga pelo que ele conhece
como pessoa pública, e não, como pessoa privada. O juiz deve se valer, portanto, de
instrumentos, testemunhas e outros documentos legítimos.
Nesse sentido, podemos notar a enorme preocupação tomasiana em analisar
a licitude de o juiz julgar com base nos fatos e provas, indo de encontro até mesmo a verdade
que pudesse conhecer como pessoa privada. O que nos remete de imediato à máxima do que
não está nos autos do processo inexiste para fundamentar aquele julgamento.
Em resposta ao terceiro artigo, S. Tomás cita texto de Aristóteles, Ética à
Nicômaco, “os homens buscam proteção junto do juiz, como se fosse a justiça viva”. De
modo que o juiz deve decidir entre duas partes, o autor da acusação e o réu. Assim, caso falte
o acusador, o juiz não pode condenar.

8
RAMPAZZO, Lino e NAHUR, Március Tadeu Maciel. Princípios Jurídicos e éticos em Tomás de Aquino.
São Paulo: Paulus, 2015, p.71
A objeção que merece destaque ao referido artigo é a de que Deus julga o
pecador sem que ninguém o acuse, e, por conseguinte, o juiz poderia fazer o mesmo. Ocorre
que, explica Aquino, Deus, ao julgar se serve da consciência do pecador que o acusa,
conforme afirma o apóstolo Paulo em Romanos 2, 15: “os pensamentos de dentro, que umas
vezes os acusam e outras os defendem”; ou quando se vale de conhecimento evidente do fato,
e cita a condenação de Caim em Gêneses 4,10:“A voz do sangue de teu irmão clama desde a
terra para mim”.
O artigo quarto, por sua vez, ao indagar se o juiz pode licitamente relaxar a
pena. E, justifica de duas formas que o juiz não poderia relaxar a pena, a primeira, em
referência ao acusador que pode ter sido a vítima de uma injúria, e, portanto, teria o direito de
que o réu seja punido. E, a segunda se refere à república, pois o juiz exerce sua função em
nome dela e ela exige a punição dos malfeitores.
Por fim, nesse capítulo a questão 68 “Do pertinente à acusação injusta” é
tratada em seus quatro artigos. Em resposta ao primeiro artigo. S. Tomás distingue denúncia
de acusação, pois, esta visa à punição do crime, enquanto que aquela à correção fraterna. Ou
seja, o objetivo da correção é a emenda da pessoa do pecador; enquanto que o da acusação é a
tranquilidade da república.
Uma das objeções que merece destaque é a se a acusação se torna injusta
especificamente pela calúnia, pela prevaricação e pela tergiversação. E, antes mesmo de
responder, Tomás de Aquino define caluniar “imputar crimes falsos”; prevaricar “esconder
crimes verdadeiros”; tergiversar “desistir universalmente da acusação”. Sendo que aos dois
últimos se prejudica a república e o primeiro a pessoa do acusado.
Desta feita, S. Tomás destaca mais uma vez que a acusação tem como
objetivo o bem comum.

CAPÍTULO V

A ESSÊNCIA DA LEI, A DIVERSIDADE DAS LEIS E OS EFEITOS DA LEI NO


PENSAMENTO TOMASIANO

Tomás de Aquino, na primeira da Segunda Parte da Summa theologiae realiza


uma série de questões sobre a lei: a essência da lei, as espécies de lei, os efeitos da lei, a lei
eterna, a lei natural, a lei humana, o poder da lei humana e as mudanças da lei humana.
Como teólogo que foi, de forma especulativa particular, afirmamos que
certamente o Santo teve nessa parte da obra a influência direta da questão da lei constante na
Bíblia Sagrada.
Observa-se que na referida Escritura a lei foi dada a Moisés, no Monte Sinai,
em forma de mandamentos, conforme escrito em Ex 20. A pergunta que provavelmente
conduziu o Aquinense foi “por que e para que Deus entregou uma lei ao povo?”.
Inicialmente, temos que perceber que o citado povo (povo conhecido como
israelita – descendentes de Israel/Jacó) terminava de ser liberto da escravidão dos egípcios.
Apesar de livres, juntos e sobre a liderança do profeta Moisés, não possuíam quaisquer
orientações ou limites de como viver em comunidade. As ações de cada um ficava ao próprio
alvedrio.
Montesquieu analisando as implicações do ajuntamento de pessoas considera
que “Logo que os homens se reúnem em sociedade, perdem o sentimento da própria
fraqueza; a igualdade que entre eles existia desaparece, e principia o estado de guerra”9.
Oportunamente com essa afirmação à mente, a resposta àquela pergunta foi
providenciada por Tomás a partir das questões anteriormente registradas.
De início, São Tomás procura entender a lei, enquanto uma delimitação do
próprio direito. A lei é certa regra de medida dos atos, essa regra é a razão – a causa material
da existência das leis. Nesses termos o Doutor distingue a razão especulativa da razão prática.
Tal assunto é posteriormente objeto específico do filósofo Kant, em duas obras
chamadas de Crítica da Razão Pura e Crítica da Razão Prática. Para Kant razão especulativa,
pura, se faz necessária porque “a razão humana possui o singular destino de se ver
atormentada por questões, que não pode evitar, pois lhe são impostas pela sua natureza, mas
às quais também não pode dar resposta por ultrapassarem completamente as suas
possibilidades”10.
São Tomás de Aquino resume o pensamento do futuro filósofo notado que na
razão especulativa tem-se a definição, a enunciação e a argumentação. O Santo distingue a
razão prática da especulativa no sentido de proposições universais para agir corretamente – a
lei.
Posteriormente Kant esclarece que a lei é “... sempre um produto da razão,
porque prescreve a ação como meio para o efeito, considerado como intenção [Absincht] 11”.

9
MONTESQUIEU, Charles-Louis de Secondat. Do Espírito das Leis. São Paulo: Martin Claret, 2005, p. 20.
10
KANT, Immanuel. Crítica da Razão Pura. São Paulo: Martin Claret, 2005, p. 15.
11
______. Crítica da Razão Prática. São Paulo: Martin Claret, 2005, p. 28.
S. Tomás afirma que as leis são proposições imperativas universais da razão
prática e o bem comum é o fim da lei, pois, o fim último da vida humana é a felicidade, e, por
isso, não podem ter como objeto direto fins ou bens meramente particulares.
Esse pensamento é corroborado por Rousseau ao sustentar que:
“... a lei pode bem estatuir que há de haver privilégios, mas não dá-los a este ou àquele
pessoalmente; a lei pode fazer muitas classes de cidadãos, especificar mesmo as qualidades
que a essas classes darão direito, mas não pode nomear tais e tais para nelas se admitirem;
pode estabelecer um governo real e uma sucessão hereditária, mas não pode eleger um rei
nem nomear uma família real...”12.
Santo Tomás apresenta seis espécies de lei: a lei eterna, natural, humana,
divina, divina antiga e nova e do pecado.
Na ordem do universo, existe uma razão e, por isso, uma lei. Mas, como essa
razão concebeu o mundo desde a eternidade, tal lei é eterna.
A lei natural encontra-se na razão prática pela qual o ser humano distingue o
bem e o mal. A lei natural é apenas uma participação da segunda.
Quando se esmiúça a lei natural encontra-se a lei humana. Esse processo se dá
mediante a razão especulativa – parte-se de princípios evidentes e indemonstráveis para tirar
as conclusões das diversas ciências; e a razão prática – parte-se dos preceitos da lei natural
para chegar a certas disposições mais particulares. As leis humanas não possuem a qualidade
da infalibilidade.
Em relação à lei divina, o Santo apresenta quatro motivos de sua existência:
primeiro porque o fim último do homem é a sua beatitude eterna; segundo, porque os juízos
humanos são incertos; terceiro em razão da lei humana apenas ordenar os atos externos e não
os internos, que são ocultos e, por fim, pelo fato de que a lei humana não pode punir todos os
atos errados.
O Aquinense distingue a lei divina em antiga e nova por motivo de existirem
três funções da lei: um, ordenar para o bem comum; dois, dirigir os atos humanos conforme a
ordem da justiça; três, levar os homens à observância dos mandamentos. Assim, Deus formula
uma lei para os homens que ainda vivem na imperfeição (uma lei preparatória) e outra aos que
chegaram à capacidade maior das coisas divinas (após o advento de Cristo).
Ao final, afirma São Tomás que existe uma lei constituída pelo estímulo da
sensualidade – do pecado. Deus formou criaturas diversas com inclinações diversas. A lei do
homem consiste em agir de conformidade com a razão. Mas quando o homem se afasta da

12
ROUSSEAU, Jean-Jacques. Do Contrato Social. São Paulo: Martin Claret, 2003, p. 48.
razão de certo modo assemelha-se àqueles com inclinação diversa, então, há um desvio da lei
da razão. O pecado tem natureza de lei, mas penal.
Sobre os efeitos da lei, primeiro, o Santo redige que a virtude nasce do hábito.
Nesse sentido, a lei visa esse hábito, consequentemente, a virtude. O segundo efeito é que as
leis devem regular os atos humanos: estes podem ser atos bons, maus ou indiferentes. Nos
primeiros, a lei ordena; nos segundos, a lei proíbe e, nos terceiros, permite. Por último, para se
fazer obedecer, a lei se serve do temor da pena. É também efeito da lei punir. Mesmo
punindo, leva os homens a se tornarem bons.
Relativamente ao bem comum, pode-se dizer que a concepção tomasiana
contém três pontos fundamentais. O bem comum é uma espécie de paz social, porquanto
traduz um mínimo de harmonia, tranquilidade e segurança. Segundo, pois há necessidade de
um suporte razoável de bens materiais indispensáveis para uma existência digna.
Terceiro, porque garante às pessoas uma boa qualidade de vida.
Com referência à ordenação dos atos humanos, o pensamento tomasiano
continua bastante atual e coerente. Afirma Tomás que ao se perderem essas noções
fundamentais, pelo inflacionado e desordenado ímpeto legiferante, a própria essencialidade da
lei ficará comprometida. Isso porque, primeiro, haverá a perda de sua autoridade. Segundo, os
textos não apresentarão mais características importantes como generalidade, rigor e
permanência. Terceiro, há apenas uma falsa sensação de controle social. Então conclui-se que
a suficiência das leis não está na quantidade, mas na qualidade racional.
Em suma, as elaborações tomasianas possuem cinco aspectos. Primeiro, a lei é
um apelo à razão. Segundo, instituídas para o bem comum de uma comunidade. Terceiro, o
aspecto de um governo da lei e não de pessoas. Quarto, a forma positivada na lei (no sentido
comteano de realidade, utilidade e precisão). Quinto, o aspecto da coercitividade.
Coercitividade é o temor criado pela possibilidade de aplicação da perda do
prêmio ou da punição. A coercitividade se distingue da expressão sanção, porque esta é uma
conseqüência, uma punição pela violação do preceito ou uma recompensa pelo cumprimento
da conduta prevista. De mesma forma a coercitividade se desassemelha da coação, pois a
coação equivale ao próprio ato, à efetivação ou realização da possibilidade.