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ENZO TRAVERSO
A melancolia de esquerda
Marxismo, História e Memória

tradução _ André Bezamat


preparação _ Ligia Azevedo
revisão _ Silvia Massimini Felix, Fernanda Alvares
edição _ Maria Emilia Bender
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A MELANCOLIA DE ESQUERDA
Marxismo, História e Memória

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IITKPLJÇÃO:
Passados assombrados desprovidos de utopias

Na luta secular entre o socialismo e a barbárie, a barbárie


ganha de longe. Entramos no século xxi com bem menos es-
perança do que nossos ancestrais no início do século passado.
Daniel Bensaiddeanne, de guerre lasse (1991)

VIRADA HISTÓRICA

Errl 1967,
reconstruindo a longa trajetória das recorrentes men-
«historia magistra vitae» [história, mestra
ções à sentença de Cícero
da vida], Reinhart Koselleck demonstrou seu esgotamento no fim
do século xvin, quando a idéia moderna de progresso tomou o lu-
gar da antiga visão da história cíclica. O passado deixou de ser visto
como um enorme reserv.atório de onde os seres humanos podiam
ele
resgatar lições morais e políticas. Desde a Revolução Francesa,
teve que ser reinventado, em vez de reconstituído. A mente hu-
mana, observou Koselleck, citando Tocqueville, vagava na escu-
ridão, e as lições da história se tornavam misteriosas e inúteis) O


Rmhirc Koselleck. s, Hisloria itin,;istra Vifile: Th e Dissolution of the
Topos 16to the Perspective of a Modernized Historica1 Process» (1967).
Fir6;rc., Par: On tile Sematnics Hisioricai Time. Or.-. de Keith Tribe.
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final do século xx, no entanto, parecia ter reabilitado a máxima tilhada do fim de um ciclo, de uma época e, afinal, clt um sécu-
de Cícero. A democracia liberal tomou a forma de urna teodiceia lo.' Por causa de seu caráter inesperado e disrupcivo, a queda do
secular que, no epílogo de um século de violência, incorporou Muro de Berlim logo ganhou uma dimensão de evento, de virada
as lições do totalitarismo. De um lado, historiadores apontavam de época que excedia suas causas, escancarando novos cenários,
as inúmeras mudanças ocorridas numa era turbulenta; de outro, de súbito projetando o planeta em uma constelação imprevisível.
filósofos anunciavam o «fim da história». O hegelismo otimista Como todo grande evento político, alterou a percepção do passa-
de Fukuyama foi criticado a corto e a direito,2 mas o mundo que do e gerou uma nova imaginação histórica. O colapso do socia-
emergiu do final da Guerra Fria e do colapso do comunismo era lismo de Estado promoveu uma onda de entusiasmo e, por pouco
assustadoramente uniforme. O neoliberalismo assumiu o protago- tempo, grandes expectativas de uma possível democracia socialis-
nismo; nunca, desde a Reforma, uma única ideologia havia esta- ta. Muito rapidamente, porém, as pessoas foram percebendo que
belecido hegemonia tão completa, de alcance tão global.' o que havia de fato ocorrido fora o desaparecimento absoluto de
O ano de 1989 representa uma ruptura, um montentum que toda uma representação do século xx. A esquerda — essa imen-
encerra uma época e introduz outra. O sucesso internacional da sidão de correntes que incluía várias tendências antistalinistas —
obra de Eric Hobsbawm, A era dos extremos (1994), reside, antes • foi se sentindo cada vez mais desconfortável. Christa Wolf, a es-
de mais nada, em sua capacidade de inserir dentro de uma pers- critora dissidente mais famosa da antiga República Democrática
pectiva histórica mais ampla a percepção cada vez mais compar- Alemã, descreveu essa estranha sensação no texto autobiográfico
Stadt der Engel [A cidade dos anjos]: ela se sentia uma órfã espiri-
tual, exilada de um país que já não existia.' Junto à história oficial,
Nova York: Columb;,-, 1.1 niversity Press. 2o-42. [Ed. bras.: humo
Coniribruc,io 3 IILIU1U 1. Trad. de Wilma P. «monumental>, mas já desacreditada, do comunismo, havia uma
Ma.s: e Carlos A. Pereira. P.io de Janeiro:
2_ Frâncis Fnktiyama. •Thc End of verão

r. pp. 3- I Id.. Tin &rd' ei Hisrmy ,n!,/ !h, . FrC2
1992. 1ES. ()/;,,, ("thiN.,, h;1•?,, de- Elic Higory [)/ - thr II 5cM 19 / 4 -199/.
'_••• Rio cle jat..eiro: Ro;:eo, 1992]. Sobr;- :" Nova York: Vi 995. [Ed. bras.: Ura c.vnenws: /;i ui sjril ,› XX,
Anderson. The Ends of Hisrorv, . cLiceni.a951. 41,,;931
/9. v/. Trad. Marcos Sur:rarrira. São Paulo: Companhiar, d
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, I.., mdres: Verse. 1992). pp. 279 -375: e jo:ep Fontan:i,
fil hiswria (Barcelona: D_ Cli risca WoIII c¡ /), d,, ou< Freud. Nova York:
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narrativa histórica diferente, criada pela Revolução de Outubro, Antigo Regime e a Restauração. Nessa era cataclísmica de tran-
na qual outros eventos haviam sido inseridos, da Guerra Civil sição, urna nova forma de soberania baseada na ideia de nação
Espanhola à Revolução Cubana e a Maio de 68. Segundo essa veio à tona e, por um breve momento, acabou com os regimes
visão, o século xx experimentara uma ligação simbiótica entre dinásticos europeus, em que urna sociedade de estamentos fora
barbárie e revolução. Passado o choque de novembro de 1989, substituída por uma sociedade de indivíduos. Palavras trocaram
no entanto, essa narrativa desmoronou, varrida pelos escombros de significado, urna nova concepção da história como um «co-
do Muro de Berlim. A dialética do século xx foi enterrada. Em letivo único», incluindo tanto um «conjunto de eventos» quan-
vez de liberar mais energias revolucionárias, o fim do socialis- to urna narrativa significativa (um tipo de «ciência histórica»),
mo de Estado acabou por frear a trajetória histórica do próprio enfim ganhou forma.6 O conceito de Sattelzeit nos ajuda a en-
socialismo. A inteira história do comunismo foi reduzida a sua tender as transformações do mundo contemporâneo? Podemos
dimensão totalitária, que por sua vez parecia ser uma memória supor que, uardadas as devidas proporções, os anos que vão cio
coletiva, passível de ser transmitida. É lógico que tal narrativa não final da década de 70 até o Onze de Setembro de 2001 testemu-
foi inventada em 1989; ela existia desde 1917, mas agora se tor- nharam uma transição cujo resultado foi urna mudança radical
nara uma consciência histórica compartilhada, uma representação de nossos paradigmas, de nossa paisagem política e intelectual.
dominante e inconteste do passado. Após ter adentrado o século Em outras palavras, a queda do Muro de Berlim simboliza uma
xx corno urna promessa de libertação, o comunismo dele saiu transição na qual velhas e novas formas emergiram juntas. Não
corno um símbolo de alienação e opressão. As imagens da de- foi o mero reaparecimento -da velha retórica anticomunista. Ao
molição do Muro de Berlim, à posteriori, parecem a antítese de longo desse quarto de século, mercado e concorrência — os pi-
Outubro, de Eisenstein: o filme da revolução fora definitivamente
«rebobinado». Na verdade, quando o socialismo de Estado ruiu, a
esperança no comunismo já havia se extinguido. Em 1939, a su- 6_ Reinharr KoselJeck. ,,Einl&rung-. 13RUNNEH, Orco; CON7F..
KosEu.r.ck , IteinbArr (Orgs.). Gruiulkg;VL"..- Fk.,,< ;riscfics
perposição do socialismo de Estado e do comunismo gerou urna zut .Sp11e Denrcirl,ind. Srurrgalt 1:leu-Com. 1972. p.
narrativa que subsumia a história da revolução na categoria de v.. v. 1. Ver também Gnbriel Morzkin, ,, On the Norion of Hisrorical
totalitarismo. (llis)cooriouiry: Reinhart Kose.lieck's Construcrion o rhe Sarrelzeir em
Contribbrions h> //k ,>1. Gintepis 1 (o. 2. 21))5), pp. 1-15-5N• Sobre a
Reinhart Koselleck definiu como Sattelzeit — «um tempo
emergricia de um novo cjmceito hi:róri,>.. cf. Kosefleck. -Geschichce.
suspenso», tempo de passagem — o período entre a crise do Historie-, em Ceschiclairdie Grinullit,ic. Op. civ.. 2.)). 593-717. v. 2.
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speranças. Mas isso não se deu nas chamadas revoluções de


lares do vocabulário neoliberal — se tornaram os fundamentos ee
veludo. Pelo contrário: elas frustraram os sonhos e paralisaram a
«naturais» das sociedades pós-totalitárias. Colonizaram nossa t,
produção cultural. Tão logo foi eleito presidente da República
imaginação e moldaram um novo habitus antropológico, fazen-
Tcheca, um brilhante ensaísta e escritor como Vaclav Havei se
do com que os novos valores de uma emergente «conduta de
tornou a cópia pálida, triste, de um estadista ocidental qualquer.
vida» [Lebensfiihrung], se comparados ao velho ascetismo pro-
Os escritores da Alemanha Oriental eram extremamente cria-
testante de uma burguesia eticamente orientada — conforme a
tivos e perspicazes quando, mesmo sufocados pelo aparato de
clássica descrição feita por Max Weber pareçam um vestígio
controle da Stasi, criavam romances alegóricos que estimulavam
arqueológico.' Essa é a moldura política e epistêmica do novo
a arte de ler nas entrelinhas. Nada comparável a isso surgiu após
século que o fim da Guerra Fria iniciou.
Em 1989, as revoluções de veludo pareciam remontar a a guinada, o Wende. Na Polônia, a virada de 1989 engendrou ,
uma onda nacionalista, e as mortes de Jack Kuron e Kriztof
1789, passando por cima de dois séculos de luta por socialismo.
Kieslowski puseram fim a um período de criação e crítica cultu-
Liberdade e representação política eram seus únicos horizon-
tes, em consonância com um modelo de liberalismo clássico: ral. Em vez de se projetarem no futuro, essas revoluções criaram
sociedades obcecadas pelo passado. Por toda a Europa Central
1789 em oposição a 1793 e a 1917, ou mesmo 1776 em opo-
museus e instituições públicas foram erigidos para resgatar o
sição a 1789 (liberdade contra igualdade)." Historicamente, re-
voluções sempre foram usinas de utopias; elas não só forjavam
1 passado nacional sequestrado pelo comunismo soviético.
Mais recentemente, as revoluções árabes de 2011 logo atin-
novos imaginários e novas ideias, como afloravam expectativas
giram o mesmo impasse. Antes que as guerras civis fratricidas na
Líbia e na Síria as interrompessem, elas depuseram dois ditado-
res odiados na Tunísia e no Egito, porém não souberam como
7_ Para a :Inalisedecria cles•sa mudança hmórica. Pierrc: 1.):,rdor.
Ct...ri,dar, I avftl. ern Thc 11.?). /.1,» 11 .0).0. O )!; n'Ec 1), lidar com a falta deles. Suas memórias eram constituídas de fra-
(.1._011.dreS: Vt'Z'Ss".. 2(1 ; 4), cassos: socialismo, pan-arabismo, terceiro mundismo, além de
S C.S debate. iniciado ix1r Fur- enhiwrib.cinw rht
'ire
fundatnentalismo islâmico (o que não inspirava as gerações mais
(N,wa York: C hrkIt. lJniver:r) Press, 1v81) [Ed.
br.: 12 r4“çsio 1 r;;J. de Luiz N,L:r, c Marcha
novas). Com uma auto-organização admirável, tais revoluções
Paz e Terra. 19N9). Ste'V;.`11 mostraram completa falta de liderança e pareciam desorientadas
Ferid in(x. 171.)- 1989 Cornell
ein termos estratégicos, mas seus limites não estavam em seus

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líderes ou mesmo nas forças sociais: eram limites de nossa épo- elas reivindicavam reconhecimento das diferenças de gênero e
ca. Essas revoluções e movimentos de massas carregam o fardo igualdade de direitos; no ãmbito da esquerda, houve urna crítica
dos fracassos das revoluções do século xx, um enorme peso que ao paradigma de virilidade que moldou uma concepção militar
de revolução herdada do socialismo do século xix e reforçada
paralisou qualquer imaginação utópica.
Essa transformação histórica inevitavelmente afetou o femi- pelos bolcheviques durante a guerra civil russa; entre as mulhe-
nismo. Não obstante o feminismo revolucionário ter questiona- res, criou-se uma nova consciência subjetiva. É esse ensemble de
do vários pressupostos do socialismo clássico — em especial sua e
xperiências e práticas que faz falta desde o fim da revolução fe-
identificação implícita do universalismo com uma visão e urna minista. O colapso comunista foi acompanhado — ou melhor,
precedido — do esgotamento das lutas feministas e dás utopias,
capacidade de agir (agency) masculina —, tais pressupostos com-
partilhavam a ideia de urna emancipação projetada para o futuro. do qual derivou uma peculiar espécie de melancolia. Como a
O feminismo enfatizava um conceito de revolução calcado na esquerda, e dentro dela, o feminismo lamentou sua perda, uma
liberação global que transcendia qualquer luta de classe, visando perda que combina o fim do sonho de um futuro liberado e as
urna total reconfiguração das relações entre os gêneros. Ele rede- experiências já encerradas de urna transformação prática. Na
finiu o comunismo como uma sociedade de iguais em que não era pós-Guerra Fria, as democracias liberais e as sociedades de
apenas as classes seriam abolidas, mas também os privilégios de mercado proclamam a vitória do feminismo com a realização da
gênero, de modo que a igualdade implicava o reconhecimento igualdade jurídica e a conquista da autodeterminação individual
de diferenças. Seu imaginário utópico anunciava um mundo em (a saga da business women). O fim das utopias feministas engen-
que o parentesco, a divisão sexual de trabalho e a relação públi- drou uma variedade de «políticas de identidade» regressivas e, na
co e privado seriam reconfigurados por completo. No alvorecer universidade, o recrudescimento do estudo de gênero. Não obs-
do feminismo, revolução socialista também significava revolução tante suas evidentes conquistas acadêmicas, sexo e raça já não são
sexual, fim da alienação corporal e realização de desejos repri- vistos como marcas de urna opressão histórica (contra a qual o
midos. O socialismo não representava apenas a mudança radi- feminismo havia lutado) e se tornaram categorias atemporais, hi-
cal na estrutura social, mas também a criação de novas maneiras postáticas — Rosi Braidotti as define «metafísicas» —,9 adaptadas
de viver. As lutas feministas eram muitas vezes experimentadas
como práticas emancipatórias que antecipavam o futuro e' pre- c; ,11,1 fli (Ronu-Bari: Ldt.-2rza,
9— Ç:itado por Atm:1 13;-avo. em .1
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figuravam uma comunidade libertada. Na sociedade capitalista, 2no), 220.


a um reconhecimento «comoditizado» da alteridade do gênero. 6yico evento que, durante uma sangrenta guerra civil, criou uma
ditadura autoritária logo transformada numa forma de totalitaris-
Como diz Wendy Brown, o gênero se tornou «algo que se pode
mo. Ao mesmo tempo, ao acender uma chama de esperança de
moldar, multiplicar, problematizar, ressignificar, metamorfosear,
ridicularizar, resistir, imitar, regular... mas não emancipar». '° e mancipação, a Revolução Russa mobilizou milhões de homens e
mullieres ao redor do mundo. A trajetória do comunismo soviéti-
co — sua ascensão, seu apogeu ao fim da Segunda Guerra Mundial
e seu declínio — moldou profundamente a história do século xx.
O FIM DAS UTOPIAS
O século xxi, por sua vez, começa com o colapso dessa utopia.'2
François Furet elaborou essa conclusão no final de O pas-
Portanto, o século xxi nasce como um tempo moldado por um
sado de unia ilusão, com uma «resignação» ao capitalismo que
eclipse geral das utopias. Essa é urna diferença profunda em relação
muitós observadores se regozijaram em enfatizar: «A ideia de
aos dois séculos anteriores. Na entrada do século xix, a Revolução
outra sociedade se tornou quase impossível de ser concebida,
Francesa definiu o horizonte de uma nova era em que política,
e hoje ninguém oferece qualquer pista ou consegue formular
cultura e sociedade foram profundamente transformadas. O ano
minimamente um novo conceito. E aqui estamos, condenados
de 1789 criou um novo conceito de revolução — não mais uma
a viver no mundo como ele é»." Embora não compartilhasse a
rotação, conforme seu conceito astronômico original, e sim uma
satisfação do teórico gaulês, o filósofo marxista Frederic Jameson
ruptura e uma inovação radical —" e lançou as bases para o adven-
formulou um diagnóstico semelhante, observando que é mais
to do socialismo, que se desenvolveu com o avanço da sociedade
fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo."
industrial. Ao demolir a ordem dinástica europeia — o «persisten-
te» Antigo Regime —, a Primeira Guerra Mundial inaugurou b
século x.x, mas de seu cataclismo também se originou a Revolução;
Russa. Outubro de 1917 foi logo recebido como um grande e trá- 12_ Marciii Locomotir:•. Rcrohtius and !hl . AlAing aj. the
Modern Nxv Haven: Yale Unk,rrsirv
13_ François Furer. 1//. Passin:2 an Inoswn: Th, Idea ii 0.,nnunnisni in
the Twentitah CumniT. ellicaszo: Úni\ rivoi:C.:hicgo Pres. 1999. p. 502.
Wend) Bro‘vn. .Worr.&-n's Revoluciov, Moulning,
[Ed. bras.: O pu,sado mi/o ihisdo: s::/nv
. P:i ... . : ''' ... . IX &). ti. 2i ii.3p. XX. Trad. d obrw Le31 Frriia. çtc.) Siciliano• 1995.1.
1<!-%Selk:Ck. H kr,+rical (riteriá ot. NINA:21.n Con‘r of 14_ Frederick janiesou. -Future Cr\ 21. 2 i3. p. 70.
'1)(19). Fn;ue. iii op. c pp.

A utopia de um modelo diferente de sociedade é vista como uni O filósofo alemão Ernst Bloch distinguia os quiméricos so-
perigoso desejo de totalitarismo. Resumindo, a virada do século nhos prorneteicos que assombram a imaginação de sociedades
coincidiu com uma transição do «princípio esperança» para o históricas impossibilitadas de realizá-los (as utopias abstratas e
«princípio responsabilidade»» O «princípio esperança» inspirou mpensatórias, como as máquinas voadoras imaginadas duran-
co
as lutas do século passado, de Petrogrado em 1917 a Manágua t o Renascimento) das esperanças antecipatórias que inspiram
e
em 1979, passando por Barcelona em 1936 e Paris e Praga em uma transformação revolucionária do presente (as utopias con-
1968. Também assombrou momentos terríveis e encorajou mo- cretas, como o socialismo do século xx)." Hoje constatamos o
vimentos de resistência ao nazismo. O «princípio responsabili- desaparecimento daqueles e a metamorfose destas. De um lado,
dade» surgiu quando o futuro ficou turvo, quando. nos demos sob diferentes formatos, da ficção científica aos estudos ecoló-
conta de que as revoluções geraram monstros terríveis, quando a gicos, as distopias de um futuro de pesadelo, feito de catástrofe
ecologia nos conscientizou dos perigos que ameaçam o planeta e ambiental, substituíram o sonho de uma humanidade livre —
começamos a pensar que tipo de mundo queremos deixar para as visto como uma perigosa miragem da era do totalitarismo — e
gerações futuras. Com base no mesmo par conceitual elaborado confinaram a imaginação social dentro dos limites estreitos do
por Reinhart Koselleck, poderíamos formular esse diagnóstico presente. De outro, as utopias concretas de urna emancipação
da seguinte maneira: o comunismo não é mais um ponto de coletiva se transformaram em pulsões individuais prisioneiras
interseção entre «um espaço de experiência» e um «horizonte de do mercado. Após ter dispensado «a corrente quente» da eman-
expectativas»." A expectativa desapareceu, enquanto a experiên- cipação coletiva, o neoliberalismo introduziu a «corrente fria»
cia tomou a forma de um monte de ruínas. da razão econômica; as utopias são destruídas por sua privatiza-
ção em um mundo reificado."

1 E;.nr Bioch. Th, Principie :,f1-lo1 ,. NII r Pre. :


17_ Bloch. op. cIr. Ver rambéÉn Rurb Levitas. oEduçared Rope: Ernst
{Ed. ( )p,inrípio1.,perdir.ra. frad. de Néb‹,SchneIder. Rir; da Ja11e:
Bloch em Abstracr and Concrete Snfdief (fl. 2,
ContrapemrsVErIlk-r.I. 2 iflr<]: blansiona:. 1 fir iovh•nuir, Re,pw,..i1H)¡;)••
.W1.1bU'S /'r 1//1 Icclunils):»c,ri.?‹ Chica:L): UnIvers:.ty 1990). pp. I3-2(.
Press. I 9:s5. :Ed. bras.: (..) Trul. de Marilane /8_ Peter Thomp:on. • introducrk,11: Privarization o 1-1:1pe and
The
e Luiz RIt, JariL•iro: Coritrap:Nnw. 2k III! Il. rue Crisis or. Neation In: Titomt,SON. Z.:z.rK. Sia \ oi (Org:.).
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ercado de capitais, urna época de permanente aceleração —
Segundo Koselleck, é o presente que confere significado ao do m
tomando emprestado as palavras de Koselleck — sem urna «es-
passado. Ao mesmo tempo, é o passado que oferece aos atores Há vinte anos, a queda do socialismo real
da história um arsenal de experiências com as quais eles podem trutura p rognóstica».2°
paralisou e censurou a imaginação utópica, e por um momento
formular as próprias expectativas. Em outras palavras, passado e
suscitou novas visões escatológicas do capitalismo como «ho-
futuro interagem, unidos por um liame simbiótico. Em vez de
rizonte insuperável» das sociedades humanas. Essa fase acabou,
dois continentes rigorosamente separados, estão conectados por
mas não surgiram novas utopias. Assim, «presentisrno» se torna
urna relação dinâmica e criativa.. No início do século xxi, essa
um tempo suspenso entre um passado que não se pode superar
dialética do tempo histórico parece estar com os dias contados. As
e um futuro negado, entre um «passado que não quer passar»2'
utopias do século passado sumiram, deixando um presente carre-
e um futuro que não pode ser inventado ou previsto (exceto em
gado de memórias, mas incapaz de se projetar no futuro. Não há
terrnos de catástrofe).
um «horizonte de expectativa» visível. A utopia parece ser urna
Efil tempos recentes, «presentismo» se tornou, longe de um
categoria do passado — um futuro imaginado em um tempo que
diagnóstico histórico, uma espécie de manifesto para alguns
já se foi — porque já não pertence ao presente de nossas socieda-
pensadores de esquerda. Um deles é o historiador da arre (antigo
des assombradas pelo passado. A própria história parece ser uma
situacionista) T. J. Clark, que, alegando certo nietzscheanismo
paisagem de ruínas, um legado vivo de dor e sofrimento.
ou reformismo desiludido, propõe uma política realista que re-
Alguns historiadores, como François Hartog, caracterizam o.
nunciaria a qualquer utopia. «Não haverá futuro», ele asseve-
regime de historicidade que emergiu nos anos 1990 como pre-
ra, «apenas um presente em que a esquerda (sempre aguerrida e
sentismo: um presente diluído e expandido que absorve e dissol- marginalizada, sempre — orgulhosamente — algo do passado) se
ve em si tanto o passado quanto o futuro)» O «preseritismo» tém
esforça para juntar 'o material para a sociedade' que Nietzsche
urna .dupla dimensão. Por um lado, é o passado reificado pOr
pensava haver desaparecido da face da Terra. E isso não é quie-
urna indústria cultural que destrói toda experiência transmitida;
por outro, é o futuro abolido pela era do neoliberalismo: não a
«tirania dos relógios» descrita por Nobert Elias, mas a ditadura Fornaai. TinwSrnkccures ,..
1<c, eLc.',.
1',74, op. cit.. p. ')3.
21_ 1.):2 (ón, rab cu,, h2Ja Enw: olre zhuarur
Iliswrifa.:,ireir akmã (ios; ar:,)s
-2,

42
43

cismo, mas instruções para a política — urna esquerda que pode seja, o modelo do capitalismo industrial que havia dominado o
encarar o mundo de frerite».22 Diante de tal assertiva, quase de- século xx. A introdução de um trabalho flexível, móvel e instá-
saparece a fronteira entre o reconhecimento da situação objetiva vel, assim como a difusão de modelos individuais de competição
e a resignação à derrota como destino inexorável da esquerda. entre assalariados, minou formas tradicionais de sociabilidade
O século xxl engendrou um novo tipo de desilusão. Após o e solidariedade. O advento de novas formas de produção e a
«desencanto com o mundo» anunciado por Max Weber há mais mudança do antigo sistema de grandes fábricas com enorme
de um século, quando ele de-finiu a modernidade como uma concentração de força de trabalho teve importantes consequên-
Ng-
*
N272
.
era desumanizada pela razão instrumental, testemunhamos um cias: por um lado, afetou intensamente a esquerda tradicional,
novo desencanto trazido pelo fracasso de suas alternativas. Esse colocando em xeque sua identidade política e social; por outro,
4 impasse histórico resulta de uma dialética paralisada: em vez da dearticulou o sistema de memória da esquerda, cuja continui-
negação da negação — a transcendência socialista do capitalis- dade fora irremediavelmente rompida. A esquerda europeia
mo conforme a ideia hegeliana (e marxiana) de Aiilizebung abandonou o palco e se retirou para os bastidores.
assistimos à intensificação e à extensão do capitalismo por meio Ao mesmo tempo., a década de 1990 foi marcada pela crise do
do extermínio de seus inimigos. A esperança blochiana do por- tradicional «sistema de partidos». Partidos políticos de massa —
vir do ser humano — o «ainda não» [noch nicht] — é abandonada que sempre foram o modelo dominante da vida política após a
em favor de um eterno presente.23 Como se sabe, o fracasso do Segunda Guerra Mundial e cujo paradigma era justamente os par-
socialismo real não é a única fonte dessa mudança histórica. A tidos de esquerda (tanto comunistas quanto social-democratas) —
utopia socialista era indissociável da memória dos trabalhado- desapareceram ou entraram em declínio. Compreendendo cen-
res, uma memória que desapareceu ao longo da última década. tenas de milhares, algumas vezes até mesmo milhões de membros
A queda do comunismo coincidiu com o fim do fordismo, ou profundamente arraigados nas sociedades civis, eles haviam sido
um vetor fundamental na formação e na transmissão de uma
memória política coletiva. Os novos «partidos-ônibus» que os
22_ T. j. Clark. For .1 1 r,1-;: kN., irh no Furure , .
NewLei, Reriew substituíram são máquinas eleitorais sem fortes identidades polí-
74 (24.51.2. p. 75. seguido p:12 indkpenszivel crírica cie Susan . Warkift;.
A Reply ro T. J. CLirL. em. Xur 1,1! kel'ieW 74 (21312), pp. ticas. Socialmente em frangalhos, a memória de classe desapare-
77-12. ceu num contexto onde os trabalhadores haviam perdido qual-
23_ 1 bompon, c‘p cir.. p. 15.
quer visibilidade pública; ela se tornou uma espécie de memória
«marrana», ou seja, uma memória velada (assim como a memória um capítulo reservado à memória do continente, ao qual deu
do Holocausto no pós-Segunda Guerra), e a esquerda europeia um título emblemático: «A casa dos mortos»."
perdeu tanto sua base social quanto sua cultura. Ao fracasso do Essa empada com as vítimas ilumina o século xx com uma
socialismo real seguiu-se uma ofensiva ideológica de conserva- luz nova, introduzindo na história um personagem que, não
dorismo, não um balanço estratégico da esquerda. obstante sua onipresença, sempre permaneceu nas sombras.
A obsessão pelo passado que vem moldando nosso tempo re- Consequentemente, o passado se assemelha à paisagem con-
sulta do eclipse das utopias: é inevitável que um mundo sem templada pelo Anjo da História de I3enjamin: um amontoado
utopias acabe olhando para trás. A emergência da memória no de ruínas que cresce até o céu. Porém, o novo Zeitgeist é o exato
espaço público das sociedades ocidentais é consequência des- oposto do messianismo judaico-alemão do filósofo: não existe
sa mudança. Entramos no século xxi sem nenhuma revolução, um «tempo-agora» Vetztzeit] ressoando no passado para realizar
sem a tomada da Bastillha ou do Palácio de Inverno, mas tive- as esperanças dos derrotados e garantir sua redenção.26 A memó-
mos um choque, um horrendo ersatz no Onze de Setembro, ria do gulag apagou a da revolução; a memória do Holocausto
com os ataques às Torres Gêmeas e ao Pentágono, disseminan- suplantou a do antifascismo; a memória da escravidão eclipsou
do o horror, não a esperança. Desprovido de seu horizonte de a do anticolonialismo: a recordação das vítimas parece não po-
expectativa, o século xxl nos aparece em retrospecto corno uma der coexistir com a lembrança de suas esperanças, de suas lu-
período de guerras e genocídios. Uma figura outrora discreta tas passadas, de suas conquistas e derrotas. Vários observadores
e modesta agora está sob os holofotes: a vítima?' Na maioria escreveram, antes mesmo da década de 1990, que, mais uma
das vezes de forma anônima e silenciosa, as vítimas invadem o vez, vivíamos «a meia-noite do século». Segundo o historiador
pódio e dominam nossa visão da história. Graças ã influência é à
qualidade de suas obras literárias, as vítimas dos campos de con-
centração nazistas e dos gulags stalinistas se transformaram nos 25_ -Fon)
2005. pp. • c- S,L'
grandes ícones deste século de vítimas. Captando esse Zeitgeist, Trad. dz' Robcw
Tony judt concluiu seu afresco da Europa do pós-guerra com 26_ Walter
HowAr:..1:
Harvard Unix r' ;
_ An••_•cze -1-4< C.orn(r.11 ,Tesi.s; sobr.2 ,
Lnivr Sérgi Pnti11)12ou:tne.:,
mexicano Adolfo Gilly, a ofensiva neoliberal tentou «erradicar a Em sua obra póstuma History: The Last Things Before the Last
ideia do socialismo da mente e dos sonhos dos seres humanos»." [História: As penúltimas coisas] (1969), Sigfried Kracauer pro-
A virada de 1989 produziu um embate entre história e me- pôs a metáfora do exílio para descrever a trajetória do historia-
mória, fundindo dois conceitos que os estudiosos, de Maurice dor. Para ele, o historiador é, assim como um exilado ou um
Halbwachs a Paul Ricoeur e Aleida Assmann, separaram rigo- «estranho» [Fremde], urna figura extraterritoria1.25 Ele se encon-
rosamente ao longo do século xx. «Memória histórica» existe: é tra dividido entre dois mundos: aquele em que vive e aquele
a memória de um passado que parece encerrado em definitivo e que tenta explorar. Isso porque, apesar de seus esforços para ter
que já entrou para a história. Em outras palavras, ela resulta do acesso ao universo mental dos atores do passado, suas ferramen-
choque entre memória e história que molda nossa existência, uma tas analíticas e categorias hermenêuticas são formuladas em seu
bifurcação entre diferentes temporalidades, o espelho de um pas- próprio tempo. Esse hiato temporal possibilita tanto armadilhas
sado que, enquanto continua a viver em nossa mente, já está ar- — em primeiro lugar, o anacronismo — quanto vantagens, uma
quivado. A história escrita do século xx se equilibra entre as duas vez que permite uma explicação retrospectiva livre das amarras
temporalidades. Por um lado, seus atores lograram — na condição culturais, políticas e também psicológicas pertencentes ao con-
de testemunhas — um status de fonte para os historiadores; por texto em que os sujeitos da história agem. É justo desse hiato que
outro, os estudiosos se debruçaram sobre questões que vira e mexe as narrativas e representações históricas do passado se originam.
interrogam as experiências que as testemunhas viveram, desesta- A metáfora do exílio é sem sombra de dúvida frutífera — o exílio
bilizando o status que lhes foi conferido. Livros corno A era dos continua sendo uma das experiências mais fascinantes da história
extremos, do marxista Eric Hobsbawm, e O passado de uma ilusão, intelectual moderna porém, hoje é preciso que seja nuançada.
do conservador François Furet, são em muitos aspectos antípodas, Historiadores do século xx — em especial os historiadores de es-
mas suas interpretações do século xx são eivadas de recordações querda que investigam a história do comunismo e da revolução
que muitas vezes conferem à obra um tom autobiográfico. — são «exilados» e «testemunhas», uma vez que é profundo seu

_.
27_ Adolfo Gilly. -Mil Novecit-nriç Ochentav Ntn:-‘-;.• lu: Ei Siegfried kracatier. Hiyiory: The 1..,ut 13(fori ihr Lasi. Org.
vianipai.:a. Siete Easdras de Paul Oskar Kri:r.eller. Princeton: Markus Wiener. 1995. pp. Ver
Jornada. 2í1,12. p. I Ele se ref-ena imp!iciamente ao nmiance de Vic-,Jr também Georg Sjmmel, ,TI e Stranger-, em Tia - Sacio/Lig), (/ •Geol:,2,Siniatei
-Ser::e..lhirilo ia tioe Crain, y
(Lomire,.: 1,X/rjr..•rs aud Readers. I9.42). (Org. de K. H. Woll-ï. Neva York: Pre.., I 95;. ). pp. 4)2-8.
as revoltas antiburocráticas nos países que «na verdade viviam
envolvimento com o objeto de seus estudos. Eles não exploram e
cialismo de fato», e as revoluções anti-imperialistas que se
um passado remoto e desconhecido, e o desafio está justo em se o so
3° Entre a Revolução Cubana
distanciar dos eventos recentes de seu passado, uma experiência espalharam n pelo Terceiro Mundo.
(1959) e o fim da guerra no Vietnã (1975), essa visão parecia
que muitos deles viveram e que ainda lhes assombra a vida. Sua
ser, mais que um esquema abstrato ou doutrinador, uma descri-
relação empática com os atores do passado corre o permanente
risco de ser perturbada por inesperados momentos de (<transfe- ção objetiva da realidade. O Maio de 68 foi o clímax de uma
rência» — no sentido psicanalffico do termo — que extrapolam onda de movimentos radicais que chacoalhou muitos países na
Europa Ocidental, desde o «outono quente» italiano, em 1969,
os limites do trabalho, despertando experiências e a subjetivida-
até a Revolução dos Cravos em Portugal, em 1974, e o fim do
de do pesquisador.29 Em outras palavras, vivemos num tempo
franquismo na Espanha, em 1975. Na Tchecoslováquia, a pri-
que os historiadores escrevem a história da memória, enquanto
mavera de Praga (1968) criou uma fissura visível no interior do
as sociedades civis seguem com a memória ainda viva de um
passado histórico. Portanto, a exploração do multiforme planeta .poder soviético, ameaçando contagiar outros países «realmente
da cultura de esquerda leva a um exercício de crítica melancóli- socialistas». Na América Latina, muitos movimentos de guerri-
ca, num precário equilíbrio entre história e memória. lhas se seguiram — a maioria com consequências trágicas — à ex-
periência cubana, porém, até o golpe do general chileno Augusto
Pinochet, em 1973, o socialismo era uma opção para o amanhã,
não se projetava num futuro vago e remoto. Na Ásia, os viet-
TRÊS SETORES DA REVOLUÇÃO
congues infligiwri uma derrota histórica ao domínio imperial
Urna visão corrente da esquerda radical das décadas de 1960 e americano. Um sentimento de crescente convergência entre es-
1970 descrevia a revolução mundial como um processo espraiado sas experiências de revolta, algo como unia sintonia entre os «três
em três «setores» distintos mas correlatos. Um pensador marxista setores da revolução mundial», plasmou a fundo a juventude de
de então, o economista belga Ernst Mandei, examinou as liga- então, transformando a ideia e a prática de revolução. Talvez pela
ções dialéticas entre os movimentos anticapitalistas do Ocidente,
30 Ernsr Mandei R(1.01wi,,n,uj• Tç>day. Londres: New Leir
T:ad. de Walteusir
ErietWintler, “Trauma, Transrerence and Work ing-Through ,. Books. 1979.1Ed. bras.: O ripaxismo reroimimr:ino
1, n. 4. 1992. pp. 39-55. Dutra. Rio de janeiro: Za'uar,
byhir)

rt.
5:44 •
50 51

primeira vez na história tenha surgido urna cultura popular global ino norte-americano era corriqueira no movimento antiguer-
que, muito além de ideologias e textos políticos, moldou roman- Mobilizou-se a memória para lutar contra os verdugos do
ra.-'2
ces, músicas, filmes, penteados e roupas. Na Itália, uma canção presente, não para homenagear as vítimas do passado. Em sua
do movimento Lotta Continua, escrita em 1971 por Pino Masi, intervenção, Sartre qualificou as táticas antiguerrilha como um
chamava «L'ora dei fucile» [A hora do fuzil]. Baseada na melodia «genocídio total», e Günther Anders, um filósofo judeu que ha-
de «Eve of Destmction», de P. F. Sloan e Barry Mcguire (1965), via se exilado nos Estados Unidos, propôs que os julgamentos de
essa famosa canção pacifista conclamava à insurreição e descrevia Nuremberg fossem transferidos para a Cracóvia, local carregado
um mundo revolucionário que estava «explodindo, de Angola à de simbolismo?" No Ocidente, assim como no Terceiro Mundo,
Palestina». Após enumerar os países que estavam testemunhando memórias de guerra seriam então integradas ao engajamento
revoltas — as guerrilhas na América Latina, as greves na Polônia político do presente. Bem observou Michael Rothberg, citan-
e as insurreições nos guetos americanos —, a canção finalizava do Airné Césaire: ocorreu uma espécie de «efeito bumerangue»
com uma pergunta retórica: «E então: do que mais você precisa, (un choc eu retow).34 Na Europa, a luta contra o imperialismo se
companheiro, para entender que já soou a hora do fuzil?».3' alinhou à continuidade dos movimentos de resistência; no Sul, o
Durantes esses «anos de briga de rua» de verniz utópico, a me-
mória não era um objeto de culto — ela era incorporada a essas
lutas. Auschwitz desempenhou um papel significativo no enga- 32_ Jean-Paul Same: Arlecte Eikkairn-Sartre. Ou Ccoodilc• Snoundry
jamento anticolonial de muitos ativistas e intelectuais franceses. of lhe Evidewe ditar the Ind.,,tnem the Isnerttatioual r,l'ar Crimes Tribunal.
Durante a Guerra do Vietnã, os julgamentos de Nuremberg se Boston: BCaCOn. 1968: John DurYer Agsunsi du- Crime of Silente:
Proceedins o; the 1::!sse! Imcrmittonal frar Criwes Ncw;-i York:
converteram em modelo para o Tribunal Russel, que em 1967 Bertrand Russel Peace Foundation. 190.
reuniu em Estocolmo muitos intelectuais proeminentes —7 de 33_ Ver 131-rhol Moldei]. ,Genozid in Vietnam: 190 als Schtisselereignis
jean-Paul Sartre a Isaac Deutcher, de Noam Chomslcy a Peter in der Glabalisierung des Holocnusr-diskurse, m I Ieluvende 19(58? Eh;
Jahr O 1!10/Mkr›.!•1 nch I I icher .Persiwklive (Org. de Jens Kastner e Dav1d
Weiss — no intuito de denunciar os crimes de guerra ameri-
Mayer. Viena: Mandelbauni. pp. 83-97.
canos. A comparação entre a violência nazista e o imperialis- 34_ Michael AlnItidinvion,il Memory: RernembtTim; time
Holocanst m im the of SranFord: Stanford University Press
. 2009. ca p. 3: Anné C:ésaire. Di.:r<iursc Colmialo. Nova York: Monrhl y
- - - - - - - Review Pres!,:. f,F d. bras. Discorso .,:ohrc o ioloitiali,,n+O. Trad. Anisio
1)isponive1 em: <www.rnu,icaemeinoria.comiloracielf-ucik.hrm>. Garcez Homem. Florianópolis: Lemb Contemporâneas. 197q.

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nazismo era visto — desde o Discurso sobre o colonialismo, de Aimé [Juventude hitlerista]." A repressão dos
sa época à Hitlerjugend
Césaire (1950) — como urna forma de imperialismo radical. anos de «briga de rua» também foi uma maneira de expiação
Entretanto, aconteceu urna mudança considerável nos anos perpetrada por uma geração que repudiava sua experiência e
1980. A onda revolucionária teve seu epílogo em Manágua, em preferia abraçar carreiras públicas ou em outras instituições po-
julho de 1979, quando também ocorreu a traumática desco- derosas. Após o naufrágio da revolução mundial, os «três seto-
bem dos campos de extermínio no Camboja. Na Europa, o res» se tornaram campos de três diferentes memórias de vítimas,
Holocausto cristalizara a essência da memória coletiva. O an- três lugares distintos de luto.
tifascismo havia sido marginalizado em rememorações públicas
e suas vítimas começaram a ocupar o palco de uma nova paisa-
gem da memória. O legado do passado já não seria interpretado TRÊS MEMÓRIAS
como uma coleção de experiências de lutas, tornando-se mais
um sentimento de dever na defesa dos direitos humanos. De re- -Como disse Dan Diner, observar a comemoração da vitória
pente, três décadas de Guerra Fria foram removidas da memória de Oito de Maio de 1945 é um instrumento interessante para
coletiva. Na França, o Maio de 68 acabou sendo mera mudança explorar a transformação da paisagem da memória no começo
cultural, um tipo de carnaval em que, ao disputarem um jogo do século xxi." Promulgado feriado nacional em muitos países,
revolucionário, os jovens desbancaram o gaullismo para dar es- a efeméride não tem o mesmo significado para o Ocidente,
paço às modernas formas de liberalismo e individualismo.'" Na a Europa Oriental e o norte da África. A Europa Ocidental
Itália e na Alemanha, os anos 1970 são considerados os anos celebra a rendição incondicional do Terceiro Reich diante das
de chumbo (anui di piombo), durante os quais a revolta de Urna Forças Aliadas como um evento de libertação, o início de uma
geração foi reduzida a uma única dimensão de terrorismo.36 Na

Alemanha, passou a ser trivial comparar a esquerda radical des- 131k1: t:rück
37_ Encre -, A KIi!!:?:( 1 Yó.‘,, 1111cri.ef
(Franktiusc: Fi,
38- Dali (;e1trul.„, int,1 II
35_ Ver KrimrIn.: .., : 'Cl .igo:l.:II;ver- ot des 11,docansf. V.w.dz.:1110 2. 1; un Rupreeln... YXI7. Sobrr a co-
Chit.:Igo Pr..,“..-: Inemoraçõe> do (..)[:-;de NLio de 945. er Rudoli'N.on Sueffi-n
.30_ Ver I •: •.. , )(-.• Lima. i.., ,:.. : • di /In duccunio, )909-p.,i7y: Kudelka ,.., e I : i ;•r tir ki , .11 C • (V, f.11.c lern 113i
memori:i (Nii:io: Foirriiwni. 2(.110). 1945 (Wictin.,;m: Wal.krein.
era de paz, liberdade, democracia e reconciliação do conti- rno (um de seus traços mais definidores até os anos 1940). Todos
nente que se envolvera em tantos conflitos fratricidas. Com os países da Europa continental estavam envolvidos nessa mu-
o passar do tempo, os próprios alemães aderiram a essa visão danca, não só a França, país que concentra a maior comunidade
do passado, abandonando suas antigas percepções, que viam na judaica fora da Rússia, mas também a Alemanha, onde a inte-
derrota do Terceiro Reich uma vergonha nacional, seguida da ração com a comunidade judaica dos anos pré-guerra foi rom-
privação da s.oberania nacional e, depois, da divisão do país em pida radicalmente. De forma um tanto paradoxal, o lugar do
dois Estados inimigos. Em 1985,.ao fazer um discurso, Richard Holocausto em nossas representações da história parece avultar
von Weizãcker, antigo presidente da República Federal da à medida que o passado se torna cada vez mais remoto. Claro,
Alemanha, definiu o Oito de Maio como um «dia de libera- essa tendência não é irreversível, e as coisas podem mudar com
ção»; vinte anos mais tarde, o chanceler Gerhard Schôder par- inortg do último sobrevivente dos campos de concentração
ticipou, ao lado de Jacques Chirac, Tony Blair, George Bush e nazistas. Até agora, no entanto, pode-se dizer que domina a
Vladimir Putin, das homenagens ao desembarque dos Aliados memória do Ocidente — na Europa e nos Estados Unidos —,
nas praias da . Normandia em 6 de junho de 1944. A adoção, por cnii.dç o Holocausto se transformou em algo como uma «religião
parte da Alemanha, de um «patriotismo constitucional» enrai- çivil» (ou seja, uma crença secular que, segundo Rousseau, ser-
zado fortemente na narrativa ocidental fora ratificada de uma ve para unificar uma comunidade)." O Holocausto permite a
vez por todas. sacralização dos valores fundamentais das democracias liberais
Nesse contexto, a memória do Holocausto desempenha o pa- pluralismo, tolerância. e direitos humanos —, cuja defesa se
pel de uma narrativa unificadora. Esse fenômeno mais ou menos reveste de uma liturgia secular de recordação.
recente — podemos datá-lo no início dos anos 1980— concluiu Seria equivocado confundir memória coletiva e a religião ci-
um processo de recordação que passou por diferentes etapas. vil do genocídio dos judeus: a primeira é a presença do passado
Primeiro, houve o silêncio dos anos do pós-guerra; depois, a
_ .
amnésia dos anos 1960 e 1970 — provocada pelo surgimento 39_ Peter Noviek. Th(
1-lotw;hron
, . -r ELuilo
da memória dos judeus e pelo advento de unta nova geração—, MiHiii. 1 999. rp. (1. I 9N-9. !..01:›te o
(Pr'1111.-e'r0;.:: 2006).
e finalmente a obsessão pela memória dos últimos vinte anos. Gentile,
.!NO dzy, direi-
Sobre A merwi.1 do 1-1.21k,c..,tisto <
Após um longo período de repressão, o Holocausto retornou à tos bunt:tnos. yk., r 1 )atile] L.: riu .001.11unittry
superfície em uma cultura europeia enfim livre do antissemitis- in rins (ftlob:t1.-1.,,t 1-)rt'ss.
no mundo de hoje; a segunda, uma política de representaçã o, do Terceiro Reich. A memória da RDA (assim como a do anti-
educação e homenagem. Enraizada na formação de uma cons- fascismo) precisava ser eliminada.40
ciência transnacional histórica, a religião civil do Holocaus to Na era das vítimas, o Holocausto se torna o paradigma da
advém dos esforços pedagógicos do Estado. Dentro da União memória ocidental, o pilar sobre o qual a recordação de outras
Europeia, ela tenra criar a ilusão de uma comunidade supra-. formas recentes ou mais antigas de violência e crimes deveriam
nacional erguida sobre valores éticos; uma aparência virtuosa onstruídas. Surge, assim, a tendência a reduzir a história a
ser c
que convenientemente esconde o enorme vácuo democrático .um confronto binário entre vítimas e carrascos — um movi-
de urna instituição fundada, de acordo com os termos de seu mento que não concerne apenas a lembranças de genocídios,
projeto constitucional fracassado, em uma economia de merca- mas também a eventos totalmente diferentes, como a Guerra
do «altamente competitiva», na qual a única soberania suprana- civil Éspanhcila. Passados trinta anos, depois de uma autoin-
cional efetiva é representada pelo Banco Central. flicrida transição «amnésica» para a democracia, baseada no
Assim como toda religião civil, a memória do Holocausto chamado pacto do esquecimento (pacto de olvido), os fantasmas
tem suas ambiguidades. Na Alemanha, a criação de um me- do franquismo estão de volta." O medo de recair na violência
morial dedicado aos judeus assassinados (Holocaust Maluunal) gerou a repressão do passado — urna repressão que não foi im-
no coração de Berlim corroborou urna mudança identirária de posta nem total, mas efetiva —, que acompanhou o advento da
dimensões históricas. Os crimes do nazismo sem dúvida perten- democracia. Hoje, dentro da democracia sólida em que uma
cem à identidade alemã, do mesmo modo que a Reforma ou a nova geração foi formada, a integração europeia da Espanha
Aufkbirung [Iluminismo]. A Alemanha já não se crê um corpo
tomou também uma dimensão memorial com algumas con-
coletivo étnico e se tornou uma comunidade política na qual sequências paradoxais. Nos anos recentes, historiadores se de-
o mito do sangue e do solo foi substituído por urna moderna
visão da cidadania. Ao mesmo tempo, ao «dever de lembrar» o
Holocausto seguiu-se uma sistemática destruição dos vestígios 40_ Peter 1:!.,ichei, lu De writi,w:I . Dit
da República Democrática Alemã. A demolição do Palácio da Aweinandri.:crz Flui Jur *S-Dif,...1,1(ur rol+ 19-i5 Municiu: C. H.
- Beck, 2007: Ré,, Me Ito;;.i ri. Bei Paru: Stock•
República (seguida pela reconstrução do Castelo de Hoezollern)
41_ Ver. em 'uri lar. Sabtos y de LM
contrasta claramente corri a restauração metódica das antigas si-
pasado de , werra v dictaatra-. em Álenwria uh 1.7 Gurre,r y
nagogas, dos cemitérios judeus e de todos os sítios de memórias (Org. de Santosijk. Madri: Taurus, 2(1,16). pp.
bruçaram sobre a violência cia Guerra Civil e reconstituíra m
«sequestro» que separou a Europa Central do Ocidente:" sua
suas formas, seus métodos e a ideologia da violência entre 1936
ve rdadeira «liberação» só veio em 1989. Isso explica os violentos
e 1939, identificando e quantificando as vítimas de ambos os
confrontos em Tallinn no verão de 2006, quando os estonianos
lados. Pela primeira vez, a história dos campos de concentra- se estranharam com os russos por causa de um monumento de-
ção de Franco foi investigada e descrita com rigor. No debate dicado à memória dos soldados cio Exército Vermelho. Para os
público, porém, esse trabalho importante que elucida o passado
russos, era uma homenagem à Guerra Patriótica; para a maioria
não impede que surjam interpretações nas quais a lembrança dos estonianos, simbolizava décadas de opressão."
das vítimas acaba eclipsando o significado da história. Segundo Hoje, nos países que ficaram sob a égide soviética, o passado
essa perspectiva, o conflito entre democracia e fascismo — era revisitaçlo quase exclusivamente sob o prisma do nacionalis-
assim que se percebia a Guerra Civil Espanhola na Europa nos
mo. Na Polônia, o Instituto Nacional de Lembrança foi criado
anos 1930 — se torna urna sequência de crimes contra a hu- em .1.998, e, postulando uma substancial continuidade entre a
manidade. Alguns historiadores chegam a retratá-la como um
ocupação nazista e a dominação soviética, presta tributo à his-
«genocídio» total, urna irrupção de violência onde só havia car- n,'>riã- do século xx como um longo martírio nacional e urna
rascos e vítimas."
noite totalitária. Visão similar de história nacional inspira a
Na Europa Oriental, por outro lado, o fim da Segunda Casa do Terror em Budapeste, um museu dedicado a ilustrar a
Guerra Mundial não foi celebrado como um momento de li- ,<luta contra os dois sistemas mais cruéis do século xx», que por
beração. Na União Soviética — e na Rússia de hoje —, o ani- sorte terminou com «a vitória das forças da liberdade e da in-
versário da rendição alemã foi lembrado como o triunfo da dependência». Em Kiev, em 2006 o Parlamento aprovou uma
«Grande Guerra Patriótica». Entretanto, nos países ocupados lei que definia a coletivização soviética da agricultura, assim
pelo Exército Vermelho essa data indica a transição de urna como a carestia de 1930, como «genocídio do povo ucrania-
ocupação estrangeira por outra. O fim do pesadelo nazista coin- no». Apresentando-se como representantes de nações-vítimas,
cidiu com o começo da longa noite de hibernação soviética, um
_
- -------
43_ Milan trag,fdie de l'Europe
central,. L, I): _ ,
l'resc:.mi.
Tieciana Zimi-zi • Geopolici Cs d. Mem:ir) I
(Nova Nom< 20 13). maio 2607.

.r,
conquistadores otomanos. Por outro lado, a União Europeia
os governos dos países da Europa Central reservam um papel
descobriu as virtudes de um militarismo humanitário ao qual
marginal para a memória do Holocausto, que aparece como
a memória oferecia um formidável pretexto. Bombardear ci-
um concorrente, um obstáculo ao completo reconhecimento
dades servias passou a ser um dever para redimir as vítimas dos
de seus sofrimentos. Esse contraste é paradoxal, uma vez que o
lags, para não repetir erros como o do Acordo de Munique
extermínio dos judeus se deu justo nessa região do continen- au
em setembro de 193S e similares. Segundo Jürgen Habermas, as
te: foi lá que a grande maioria das vítimas viveu, foi lá que os
bombas da Otan foram um sinal providencial do advento de um
nazistas criaram milhares de guetos- e campos de concentração.
Os novos membros da União Europeia com frequência pare- kantiano direito cosmopolita."
No norte da África, a efeméride de 9 de maio de 1945 evoca
cem considerar o Holocausto um objeto de luto diplomático.
outros eventos. Naquele dia, forças coloniais francesas abriram
Exumando uma imagem forjada por Heinrich Heine no intui-
,o contra milhares e milhares de nacionalistas argelinos, que,
to de descrever a conversão dos judeus na Alemanha do século foo-
celebrando a derrota do nazismo nas ruas de Setif, se recusaram
xix, Tony judt apresentou essa condolência tocante como um
a deixar de lado suas bandeiras. Repressões militares se espalha-
«passaporte europeu», ou seja, o preço a se pagar para ter res-
ram por cidades e vilarejos, e o conflito só foi ter fim com mais
peitabilidade e mostrar sensibilidade no que diz respeito aos
argelinos a
direitos humanos." demonstrações de força, que obrigaram os indigènes
se submeter às autoridades .coloniais, ajoelhando-se perante o
Durante os anos 1990, a guerra na Iugoslávia foi um ponto
estandarte francês. O rescaldo do massacre foi de 15 mil ou 40
de interseção entre as memórias do Ocidente e do Oriente. O
mil mortos, conforme se consultem fontes francesas ou arge-
fim da Guerra Fria, dez anos após a morte de Tito, produziu
linas» Setif foi o início de uma onda de violência e repressão
uma explosão de nacionalismos que reativaram a memória da
Segunda Guerra Mundial, com seus inúmeros massacres, e mo- militar nas colônias francesas, em especial em Madagascar, onde
bilizaram os mitos ligados à história dos Bálcãs, feita de domi- uma insurreição foi estancada brutalmente em 1947. EM maio
nação imperial. Na Croácia, os nacionalistas sérvios enfrenta-
— _
ram os fantasmas de Ante Pavelic, e em Kosovo os símbolos dos ,Dir ZA h IN. 29
4()_ Iür,:en Hht, m-fas. - BE'srializir. und 1-1unwn1rãr
.i 1999. -pp. 6-7.
c,,i,mious (Paris: LI
47_ Sobre Sáii, ver Yves tiimor., :14:rss,ures
Découverte. 2k :( )i ), pp. 9-,;5.


ç
62

de 2005, quando os representantes das potências ocidentais ce-


lebravam o aniversário do fim da Segunda Guerra Mundial, o
presidente argelino Abdel Aziz Boutlefika pediu oficialmente o
reconhecimento da carnificina de Setif, qualificando-a de «ge-
nocídio» e exigindo reparações da França.
Com isso, celebrar a vitória de 8 de maio de 1945 é condensar
memórias entremeadas. Sob o ponto de vista de um ocidental,
de um oriental ou de urna perspectiva pós-colonial, a história
do século xx assume diferentes aspectos. As narrativas históricas
.entrelaçadas por essa efeméride divergem, mesmo levando em
conta que todas suas reações são ativadas pela existência de uma
vítima do passado, o que no caso é o maior indício da globaliza-
ção das memórias no começo do século xxi. Claro, as memórias
não são monolíticas ou incompatíveis, e seu pluralismo poderia
abrir espaços fecundos de coexistência para além de identida-
des nacionais e culturais fechadas. Até agora, porém, seus focos
distintos — Holocausto, comunismo, colonialismo — ilustram a
tendência em tirar «lições da história» concorrentes, em vez de
complementares. A memória global do início do século xxi es-
boça uma paisagem de sofrimentos fragmentados. Novas espe-
ranças coletivas ainda não surgiram no horizonte. A melancolia
continua no ar como o sentimento dominante de um mundo
que carrega o pesado fardo de seu passado, e segue caminhan-
do sem um norte, sem um futuro discernível. O Ocidente, o
Oriente e o Sul: os antigos «três setores» de revolução mundial
se tornaram três certames de memórias feridas.