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CALIBÃ E A BRUXA

*Talita C. de Oliveira

 A autora inicia a introdução do seu livro por uma exposição dos motivos que a levaram
conceber o presente livro. Em primeiro lugar, chama atenção para o fato de que estudar a
gênese do capitalismo é um passo obrigatório para ativistas e acadêmicos convencidos de que
a primeira tarefa da agenda da humanidade é a construção de uma alternativa à sociedade
capitalista. Razão pela qual diferentes movimentos revolucionários vem estudando a transição
para o capitalismo a partir de um ponto de vista diverso. Em segundo lugar, devido à
necessidade de repensar o desenvolvimento capitalista, a partir de um ponto de vista
feminista, sem, contudo, deslocá-la do setor masculino da classe trabalhadora. Daí a conexão
entre, por um lado, Calibã – que é um símbolo para o proletariado mundial e, especialmente,
para o corpo proletário como terreno e instrumento de resistência à lógica do capitalismo – e,
por outro, a Bruxa – que é a encarnação de um mundo de sujeitos femininos que o
capitalismo precisou destruir. Em terceiro lugar, o retorno em escala mundial de um
conjunto de fenômenos que normalmente vinham associados com a gênese do capitalismo
como: uma nova série de cercamentos que expropriou milhões de produtores agrários de suas
terras; a pauperização massiva e a criminalização dos trabalhadores por meio de políticas de
encarceramento; movimentos de diásporas acompanhados pela perseguição de trabalhadores
migrantes; bem como a intensificação da violência contra as mulheres, inclusive o retorno da
caça às bruxas em alguns países (África do Sul e Brasil).

Nesse contexto, a autora visa analisar a transição do feudalismo para o capitalismo a partir do
ponto de vista das mulheres, do corpo e da acumulação primitiva. Conectando cada um
desses conceitos a um marco referencial: feminista, focaultiano e marxista.

 Começando a análise da transição pela acumulação primitiva cabe mencionar de que forma
Silvia Federici se distancia de Marx: 1) De um ponto de vista marxista, a acumulação
primitiva é vista como um processo histórico violento, “marcado por traços de sangue e
fogo”, a partir do qual são dadas as condições fundamentais da produção capitalista que
consistem na separação entre produtor e meio de produção. Dando origem, de um lado, à
figura dos possuidores de dinheiro, meios de produção e subsistência; e, do outro, dos
trabalhadores livres, vendedores da própria força de trabalho e, por conseguinte, vendedores
do trabalho (MARX, 2017, p.786-787). Como se vê, a expropriação violenta da terra constitui
a base de todo o processo e da consequente exploração do trabalho assalariado livre. Acontece
que essa fórmula de acumulação primitiva não leva em conta a perspectiva e o papel
ocupado pelas mulheres no processo. Razão pela qual Federici inclui em sua análise alguns
fenômenos que estão ausentes em Marx como:

“i) O desenvolvimento de uma nova divisão sexual do trabalho; ii) a construção de


uma nova ordem patriarcal, baseada na exclusão das mulheres do trabalho
assalariado e em sua subordinação aos homens; iii) a mecanização do corpo
proletário e a sua transformação, no caso das mulheres, em uma máquina de
produção de novos trabalhadores.” (FEDERICI, 2017, p.26).

Isso significa que, na medida em que a expropriação de terras, os cercamentos e, mesmo, o


clareamento1 das propriedades rurais obrigou os antigos camponeses a vender sua força de
trabalho e se submeter à exploração capitalista para garantir sua subsistência, a única
alternativa que restou às mulheres foi o trabalho doméstico, não remunerado, e visto como
improdutivo. Consequentemente as mulheres se tornaram dependentes e subordinadas
financeiramente de seus maridos. A acumulação primitiva, então, acabou por redefinir as
tarefas produtivas e reprodutivas, os parâmetros das relações homem-mulher e, em última
instância, a construção de papeis sexuais em sociedades capitalistas. Nesse contexto, a autora
chama atenção para a função central que o trabalho reprodutivo das mulheres desempenhou
na acumulação primitiva “na medida em que as mulheres foram as produtoras e reprodutoras
da mercadoria capitalista mais essencial: a força de trabalho.” (FEDERICI, 2017, p.17). Não
reconhecer a produção e a reprodução desse trabalho como uma fonte de acumulação faz com
que ele seja mistificado como mero recurso natural ou serviço pessoal.

Pode-se dizer que é partir dessa desvalorização do trabalho reprodutivo que a autora busca
transcender a dicotomia entre gênero e classe, demonstrando que a história das mulheres
também é a história das classes, na medida em que o processo capitalista de produção visa
quebrar toda a resistência dos corpos que submete. Do ponto de vista da classe, isso acontece
com o desenvolvimento de “uma classe de trabalhadores que, por educação, tradição e hábito,
reconhece as exigências desse modo de produção como leis naturais e evidentes por si
mesmas.” (MARX, 2017, p. 808); E, do ponto de vista das mulheres, isso acontece com a
construção da “feminilidade como uma função-trabalho que oculta a produção da força
de trabalho sob o disfarce de um destino biológico” (FEDERICI, 2017, p.31).

1
Segundo Marx o processo de acumulação primitiva deu-se primordialmente por meio da violência, do assalto e
do roubo. Desde a dissolução dos séquitos feudais, a expulsão dos camponeses pelos senhores feudais das terras
comunais; o roubo de terras da igreja; a apropriação fraudulenta dos bens estatais; o cercamento de terras do
povo pelos proprietários fundiários via decreto; até o seu completo clareamento - processo marcado por varrer
todos os seres humanos da terra, sem a qual o novo proletariado viu-se sem espaço para o trabalho e, inclusive,
moradia (MARX, 2017, p. 788-800).
2) Do ponto de vista do legado e da função da acumulação primitiva, Marx a concebe como
um passo necessário para a libertação humana. Tendo em vista que, apesar da violência, o
desenvolvimento capitalista acabou com a propriedade em pequena escala e incrementou a
capacidade produtiva do trabalho, criando condições materiais para liberar a humanidade da
escassez e da necessidade. (FEDERICI, 2017, p. 27). Do mesmo modo, o autor acreditava que
a violência que dominou as primeiras fases da expansão capitalista retrocederia com a
maturação das relações capitalistas. Segundo Silvia, Marx estava errado em dois sentidos.
Primeiramente, por que cada fase da globalização capitalista vem acompanhada de um
retorno aos aspectos mais violentos da acumulação primitiva, demonstrando que a
expropriação de terras, a guerra e o saque em escala global, bem como a degradação das
mulheres são condições necessárias para a existência do capitalismo em qualquer época. Em
segundo lugar, se Marx olhasse a história de um ponto de vista das mulheres, jamais suporia
que o desenvolvimento do capitalismo levaria à libertação. Vez que “as mulheres sempre
foram tratadas como seres socialmente inferiores, exploradas de modo similar às formas de
escravidão.” (FEDERICI, 2017, p. 27).

 Segundo a autora, analisar a transição do Feudalismo para o Capitalismo do ponto de vista


das mulheres implica perscrutar não somente uma história oculta que necessita se fazer
visível, mas também identificar uma forma particular de exploração, assim como assumir uma
perspectiva especial a partir da qual se deve reconsiderar a história das relações capitalistas.
(FEDERICI, 2017, p.27). Nesse ponto, a autora argumenta que o seu livro “aborda uma série
de questões históricas e metodológicas que estiveram no centro do debate sobre a história das
mulheres e da teoria feminista” (FEDERICI, 2017, p.29), dentre eles a caça as bruxas.
Segundo a autora o seu livro pretende explicar as circunstâncias históricas em que esse
processo se desenvolveu e as razões pelas quais o surgimento do capitalismo exigiu um
ataque genocida contra as mulheres (FEDERICI, 2017, p.30).

Pode-se dizer, de antemão, que a caça às bruxas emerge de um pano de fundo misógino a
partir do qual se pretende destruir o controle que as mulheres haviam exercido sobre sua
função reprodutiva, bem como preparar o terreno para o desenvolvimento de um regime
patriarcal mais opressivo (FEDERICI, 2017, p.30). Em vista disso, podemos questionar em
que medida a caça às bruxas se torna proposital para o desenvolvimento contemporâneo de
uma nova divisão sexual do trabalho que confina as mulheres ao trabalho reprodutivo.
Outro ponto importante que o livro revela é que as práticas de perseguição trouxeram a
degradação de determinadas mulheres (a herege, a curandeira, a esposa desobediente, a
mulher que ousa viver só, a mulher obeah que envenenava a comida do senhor e incitava os
escravos à rebelião) e, em contrapartida, o fomento de um ambiente de hierarquia e dicotomia
entre dois “tipos” de mulheres: por um lado, as que devem ser protegidas; e, por outro, as que
devem ser perseguidas, extirpadas ou aniquiladas.

 Por fim, cumpre analisar a transição do feudalismo para o capitalismo sob a perspectiva do
corpo. Segundo a autora, podemos tomar o conceito de ‘corpo’ como chave para compreensão
das raízes do domínio masculino e da construção da identidade social feminina (FEDERICI,
2017, p.31). Tendo em vista que “a categorização hierárquica das faculdades humanas e a
identificação das mulheres com uma concepção degradada da realidade corporal foi
historicamente instrumental para a consolidação do poder patriarcal e para exploração
masculina do poder feminino”. (FEDERICI, 2017, p.31-32). A partir daí as feministas
passaram a evidenciar e denunciar as estratégias e a violência, utilizados pelos sistemas de
exploração, para tentar disciplinar e apropriar-se do corpo feminino.
Como vimos o corpo é fonte de acumulação primitiva, na medida em que gera a força de
trabalho. Sendo que, ainda hoje, isso pode se verificar em virtude do desenvolvimento das
novas tecnologias reprodutivas que, mais do que nunca, reduzem as mulheres a meros ventres.
Silvia Federici, contudo, procura demonstrar que o corpo também é para as mulheres sua
principal fonte de resistência (FEDERICI, 2017, p. 34). Nesse sentido, ressalta a relevância
que o mesmo adquiriu em todos os seus aspectos – maternidade, parto, sexualidade – tanto
para a teoria feminista quanto para história das mulheres.

 Em suma, a autora argumenta que a lição política que podemos extrair é que o capitalismo,
enquanto sistema econômico-social, está necessariamente ligado ao racismo e ao sexismo.
Uma vez que ele precisa justificar e mistificar as contradições incrustradas em suas relações
sociais (como a promessa de liberdade frente à realidade de coação generalizada e a promessa
de prosperidade frente à realidade de pobreza generalizada) difamando a natureza daqueles a
quem explora: mulheres, sujeitos coloniais, descendentes de escravos africanos, imigrantes
deslocados pela imigração (FEDERICI, 2017, p. 37). Outro fato analisado pela autora é que o
capitalismo vem se desenvolvendo diante de nossos olhos, não pela sua “suposta” capacidade
de satisfazer as necessidades humanas, e sim pela rede de desigualdades que foi construída no
corpo do proletariado mundial e por sua capacidade de globalizar a exploração. A única
diferença, contudo, é que “a resistência ao capitalismo também atingiu uma dimensão global”.
(FEDERICI, 2017, p.38).

FEDERICI, Silvia. Calibã e a Bruxa. Mulheres, corpo e acumulação primitiva. Tradução Coletivo
Sycorax. São Paulo: Elefante, 2017.
MARX, Karl. A assim chamada acumulação primitiva. In: MARX, Karl. O Capital: Crítica da
Economia Política: livro I: O processo de Produção do Capital. 2. ed. São Paulo: Boitempo, 2017.
Cap. 24. p. 785-833. Tradução de Rubens Enderle.