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PODER JUDICIÁRIO DO ESTADO DA BAHIA

2ª TURMA RECURSAL DOS JUIZADOS ESPECIAIS

Processo nº : 0114485-44.2013.8.05.0001
Classe: RECURSO INOMINADO
Recorrente: BNI BALTICO DESENVOLVIMENTO IMOBILIARIO LTDA E PDG REALTY
EMPREENDIMENTOS E PARTICIPACOES S/A
Recorrido: CLEONICE DE SENA DIAS
Origem: 16ª VSJE DO CONSUMIDOR (UNIVERSO)
Relatora: MARIA AUXILIADORA SOBRAL LEITE

EMENTA

RECURSO INOMINADO. CONSUMIDOR. ATRASO NA ENTREGA DE


IMÓVEL. AÇÃO DE REPARAÇÃO DE DANOS. PRELIMINARES DE
INCOMPETENCIA DOS JUIZADOS ESPECIAIS e ILEGITIMIDADE
PASSIVA AFASTADAS. DANOS MATERIAIS CONSISTENTES NA
APLICAÇÃO DE JUROS E CORREÇÃO MONETÁRIA NO VALOR
FINANCIADO DURANTE O PERÍODO EM QUE A CONSTRUTORA
SE ENCONTRAVA EM MORA POR NÃO RESPEITAR O PRAZO
CONTRATUAL DE ENTREGA DO IMÓVEL. SENTENÇA MANTIDA.

ACÓRDÃO

Acordam as Senhoras Juízas da 2ª Turma Recursal dos Juizados Especiais


Cíveis e Criminais do Tribunal de Justiça do Estado da Bahia, MARIA AUXILIADORA
SOBRAL LEITE – Presidente e Relatora, CÉLIA MARIA CARDOZO DOS REIS
QUEIROZ e ISABELA KRUSCHEWSKY PEDREIRA DA SILVA em proferir a seguinte
decisão: RECURSO CONHECIDO E IMPROVIDO. UNÂNIME, de acordo com a ata do
julgamento. Custas processuais e honorários advocatícios pelos recorrentes, estes em
20% do valor da condenação, nos termos do art. 55 da lei 9.099/95.

Salvador, Sala das Sessões, 11 de junho de 2015.

BEL. MARIA AUXILIADORA SOBRAL LEITE


Juíza Relatora
PODER JUDICIÁRIO DO ESTADO DA BAHIA
2ª TURMA RECURSAL DOS JUIZADOS ESPECIAIS

Processo nº : 0114485-44.2013.8.05.0001
Classe: RECURSO INOMINADO
Recorrente: BNI BALTICO DESENVOLVIMENTO IMOBILIARIO LTDA E PDG REALTY
EMPREENDIMENTOS E PARTICIPACOES S/A
Recorrido: CLEONICE DE SENA DIAS
Origem: 16ª VSJE DO CONSUMIDOR (UNIVERSO)
Relatora: MARIA AUXILIADORA SOBRAL LEITE

EMENTA

RECURSO INOMINADO. CONSUMIDOR. ATRASO NA ENTREGA DE


IMÓVEL. AÇÃO DE REPARAÇÃO DE DANOS. PRELIMINARES DE
INCOMPETENCIA DOS JUIZADOS ESPECIAIS e ILEGITIMIDADE
PASSIVA AFASTADAS. DANOS MATERIAIS CONSISTENTES NA
APLICAÇÃO DE JUROS E CORREÇÃO MONETÁRIA NO VALOR
FINANCIADO DURANTE O PERÍODO EM QUE A CONSTRUTORA
SE ENCONTRAVA EM MORA POR NÃO RESPEITAR O PRAZO
CONTRATUAL DE ENTREGA DO IMÓVEL. SENTENÇA MANTIDA.

RELATÓRIO

Dispensado o relatório nos termos da Lei n.º 9.099/95.

Circunscrevendo a lide e a discussão recursal para efeito de registro,


saliento que a Recorrente CLEONICE DE SENA DIAS, por meio de seu patrono
devidamente constituído, pretende a reforma da sentença que julgou procedente a ação
para “condenar as empresas rés, SOLIDARIAMENTE, a restituir à autora o valor de R$
25.777,78 (vinte e cinco mil setecentos e setenta e sete reais e setenta e oito centavos), valor este
que deverá ser atualizado com juros e correção monetária a partir da citação e até a data do
pagamento”.
In casu, a parte autora alega o descumprimento, por parte das rés, das
condições do contrato firmado entre as partes, notadamente, em razão da demora na
entrega do imóvel adquirido pela acionante. Assim, alegou o autor ter adquirido imóvel de
porta nº 101 e unidade de garagem, do Edifício Jaborandi, pertencente ao “Condomínio
Tamari”, situado na unificação dos lotes 10, 11 e 12, localizados no Loteamento Vila
Anaiti, em Salvador/Ba, com previsão contratual de data de entrega em dezembro de
2010, porém, segundo a parte autora, tal prazo não foi cumprido, eis que o imóvel objeto
do contrato foi entregue em 11 de dezembro de 2012, o que significa 24 meses de atraso.
Alegou que em razão do atraso em questão, sofreu prejuízos de ordem
material uma vez que “por força da abusiva cláusula 6.2, “a”, que dispõe “todas as parcelas
referidas no item 3.2 serão corrigidas até o mês da emissão do Auto de Conclusão da Obra
(“Habite-se”), correspondente ao edifício onde se encontra a unidade autônoma objeto deste
contrato, de acordo com a variação percentual mensal acumulada do ICC/Salvador, calculado e
divulgado pela Fundação Getúlio Vargas...”, as Rés exigem que os Autores, quando da entrega
do imóvel, pague a parcela prevista na cláusula 3.2, “c” corrigido pelo ICC/Salvador inclusive
no período de atraso da obra, o que é ilegal”. (grifos)
Sem contrarrazões, os autos vieram conclusos para julgamento, cabendo-
me a função de relatora.
Presentes as condições de admissibilidade do recurso, conheço-o,
apresentando voto com a fundamentação aqui expressa, o qual submeto aos demais
membros desta Egrégia Turma.

VOTO

Preliminarmente insta afastar a incompetência do juízo uma vez que o


sistema dos juizados especiais é incompetente para processar o presente feito, eis que o
valor do pedido não extrapola o valor estabelecido no inciso I do art. 3º da Lei 9.099/95,
ou seja, 40 salários mínimos.
O parágrafo terceiro do artigo 3º da LJE disciplina que a opção pelo
procedimento dos Juizados implica em renúncia ao crédito excedente ao limite
estabelecido de 40 salários mínimos:
Art. 3º. O Juizado Especial Cível tem competência para conciliação,
processo e julgamento das causas cíveis de menor complexidade, assim
consideradas:
I - as causas cujo valor não exceda a quarenta vezes osalário mínimo; as
enumeradas no artigo 275, inciso II, do Código de Processo Civil;
§ 3º. A opção pelo procedimento previsto nesta Lei importará em renúncia
ao crédito excedente ao limite estabelecido neste artigo, excetuada a
hipótese de conciliação.
Ademais, também há que ser considerado que o valor da causa na presente
queixa não corresponde ao valor do contrato, mas sim ao valor do proveito patrimonial
pretendido pelo autor. Assim, o valor da causa deve ser fixado considerada a expressão
econômica da indenização pleiteada, porquanto representativo do benefício pretendido
pela parte através da prestação jurisdicional:
PROCESSUAL CIVIL – AGRAVO DE INSTRUMENTO –
IMPUGNAÇÃO AO VALOR DA CAUSA – AÇÃO QUE PRETENDE A
DECLARAÇÃO DE EFICÁCIA E RESGATE DE APÓLICES DA
DÍVIDA PÚBLICA – I. O valor atribuído à causa deve guardar
correspondência com o benefício econômico pretendido pelo demandante,
o qual resta evidente, na hipótese, sendo representado pelo valor
atualizado do crédito decorrente das apólices, cujo somatório, segundo o
próprio autor, atinge r$309.448,34. II. Na impugnação ao valor da causa
não há discussão em torno de ser devido (ou não) os valores que estão
sendo pleiteados, cabendo tão-somente observar a vinculação do conteúdo
econômico da demanda ao que foi postulado. III. Mesmo em ações
declaratórias, o valor da causa deve corresponder ao montante da
pretensão econômica envolvida na espécie. IV. Jurisprudência. V. Agravo
de instrumento conhecido e não provido. (TRF 2ª R. – AI
2004.02.01.013556-0 – 8ª T. – Rel. Juiz Fed. Conv. Guilherme Calmon
Nogueira da Gama – DJU 04.12.2006 – p. 407)
Assim, não há que se falar em incompetência deste Juizado pelo que deve
ser rejeitada a preliminar.

Do mesmo modo, não há ilegitimidade passiva a ser reconhecida tendo em


vista que, conforme salientado pelo juízo a quo, “a parte autora, com muita propriedade,
conseguiu demonstrar que toda a comercialização, divulgação e negociação do empreendimento
imobiliário objeto da presente demanda se deu junto à PDG REALTY EMPREENDIMENTOS E
PARTICIPACOES S/A. Portanto, os sujeitos da lide são os legitimados ao processo, isto é, os
titulares dos interesses em conflito”.

No mérito, constata-se que é incontroverso a ocorrência do atraso


injustificado na entrega do imóvel, gerando o inadimplemento contratual por parte da
empresa demandada, fato este capaz de gerar danos materiais e morais.

Inicialmente mister registrar que a situação fático jurídico em exame se


compatibiliza com uma relação consumerista, ensejando a aplicação do CDC, cujas
regras são bastante abrangentes e de eficácia imediata, havendo previsão legal para
assegurar o direito do consumidor.
A questão é de simples elucidação e diz respeito à má prestação do serviço
e a conduta abusiva da empresa ré que de forma desidiosa e em completo desrespeito ao
consumidor, causou lesão, devendo ser responsabilizada eficazmente.

O Código de Defesa do Consumidor vivencia suas ações a partir do


reconhecimento da vulnerabilidade do consumidor no mercado de consumo, procurando
proteger o consumidor de eventuais prejuízos ocasionados pelo fato do consumidor
ocupar, na relação de consumo, uma posição tão fraca e suscetível de ser lesada. Assim,
através dessa filosofia, procura igualar o consumidor, nas relações de consumo, ao
fornecedor.

Vige na relação consumerista os princípios da boa fé e qualidade do produto


e/ou serviço, a exigir dos contratantes a lealdade e a confiança. Neste particular, observe-
se que a confiança nas relações consumeristas é garantia principiológica do sistema, daí
porque mister refrear condutas que importe em lesão a direito do consumidor. Aliás, a
efetiva prevenção e reparação de danos patrimoniais e morais, individuais, coletivos e
difusos, informação adequada e clara e a efetiva reparação de danos que venha a sofrer,
constituí instrumento legal conferido ao consumidor para garantia de seus direitos.

Por outro lado, não obstante assegurado a livre iniciativa e concorrência, o


agente econômico tem, por consequência, que assumir os riscos da atividade, vale dizer,
constituí elemento essencial da atividade de consumo a responsabilidade pela prestação
do serviço, que ademais deve ser eficiente visando sempre não causar danos ao
consumidor.

Conforme assentado, trata-se de responsabilidade civil objetiva do


fornecedor em razão de vício do serviço devendo-se aplicar as regras de proteção ao
consumidor, nos termos do art. 20 do CDC e não da disciplina legal para acidente de
consumo.

Com a análise dos autos, verifica-se que a autora, de fato, firmou


Contrato Particular de Compromisso de Compra e Venda cujo prazo de entrega do
imóvel se daria em dezembro de 2010, prazo este não cumprido pela empresa ré
tendo em vista que o imóvel objeto do contrato foi entregue e 11 de dezembro de
2012, o que significa 24 meses de atraso.

Ademais, conforme se percebe da análise do contrato, a mencionada


cláusula contratual no qual prevê a possibilidade de prorrogação do prazo para a entrega
do imóvel objeto da presente ação, deve ser condicionada a ocorrência de motivos
supervenientes ou de força maior, que pelo caso em apreço não vislumbro as suas
ocorrências, na medida em que, os documentos colacionados como reportagens, índices
pluviométricos, noticias de greve, correspondem fatos alheios ao empreendimento em
questão, como também os demais tratam de fatos previsíveis, ou que não prejudicaria e
justificaria um atraso de mais de longos anos.

Ao contrário do que tenta fazer crer a empresa acionada, a prorrogação não


é automática e, para ser admitida, deve ser motivada, cabendo à construtora fazer prova
nos autos dos motivos que impediram a conclusão e entrega do imóvel no prazo
aprazado.

Nestes termos, ausente qualquer causa que autorize a prorrogação do prazo


de entrega do imóvel, prevalece aquele previsto na cláusula do contrato de promessa de
compra e venda que estipula o prazo de entrega para dezembro de 2010, deixando as
empresas recorrentes de cumprir o prazo efetivamente de entrega, sendo bastante visível
a responsabilização da acionada pelo inadimplemento da obrigação.

Portanto, compulsando-se os autos verifica-se que de fato a acionada deixou


de cumprir a sua obrigação e ao mesmo criou um ônus excessivo para a parte autora, na
medida em que continuou corrigindo monetariamente as parcelas vencidas a partir de
dezembro de 2010 até dezembro de 2012, como se tivesse cumprido a sua obrigação. Tal
prática se revela nitidamente abusiva, rompendo o equilíbrio da relação contratual e
extrapolando as normas que regem as relações de consumo.

Consoante ressaltado pelo juízo sentenciante, “trata-se, ainda, de manobra


deveras conhecida e que, pela malícia que esconde, é repudiada por nosso ordenamento jurídico,
visto que tem colocado o consumidor frequentemente em situação inesperada e prejudicial, como
é o caso dos autos”.

Assim, de fato, não há dúvida de que a aplicação da correção monetária,


após a data prevista para a entrega do imóvel, sem a sua ocorrência, é o mesmo que
garantir o enriquecimento sem causa da parte acionada, por conta do descumprimento de
sua obrigação.

Desse modo, a situação que equilibra a relação contratual exige que,


vencido o prazo de entrega do imóvel, sem a sua efetivação, seja feito o congelamento
das parcelas até a real entrega do imóvel, que, no presente caso, ocorreu apenas em
dezembro de 2012.
ISTO POSTO, voto no sentido de CONHECER e NEGAR PROVIMENTO
PARCIAL ao recurso interposto pelas Recorrentes BNI BALTICO DESENVOLVIMENTO
IMOBILIARIO LTDA E PDG REALTY EMPREENDIMENTOS E PARTICIPACOES S/A
para manter, na íntegra, a sentença objurgada pelos seus próprios fundamentos. Custas
processuais e honorários advocatícios pelos recorrentes, estes em 20% do valor da
condenação, nos termos do art. 55 da lei 9.099/95.

Salvador, Sala das Sessões, 11 de junho de 2015.

BEL. MARIA AUXILIADORA SOBRAL LEITE


Juíza Relatora