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Gr a fia a t u a l izad a s eg und o o A c ordo Ort og r áfi c o d a L í n g u a

P or tu g u es a

d e 1 990. Em v igo r n o Br asi l a p a rtir de 20 09 .

FI C H A CATA L OG R ÁF l CA ELA B OR A DA P E LO

S I S T EMA DE BI BL I O T ECAS DA UN I CA MP

D I R ET ORIA D E TRAT A ME NTO DA I NFO RM AÇ Ã O

R

552 m

B i b li o t ec á r i a :

R o bin , R é g in e,

1 9 3 9-

H e l e n a Jo a n a F li p sen - CRB- 8 ' / 5283

A m e m ó ri a sa t u r a d a / R é g in e R o bi n ; t r a d u ç ão: C r i s ti a ne Di as, Gr ec i e l y Cost a.

- Ca m pin as ,

SP : E di tora d a U n íca rnp , 2 0 1 6.

I

. H i s t ór i a

l . D i a s, C ri s ti a n e

- F i l oso fia . 2. M e m ó ri a

4 . Arq ui v os .

P e r e ir a , 1 974- 11. Co s ta, G r e c i e l y C ri s t i n a d a , 1 9 8 0-1 11 . T í tul o.

( Fil oso f i a) . 3 . H i s t o ri og r a fi a .

I S BN 978 - 8 5 -2 68- 1 339- 7

CDD - 90 1

- 1 28.3

- 90 7.2

-

0 25 . 1 7 1

índice s p a ra c a tálo go s i s tem át i c o :

I

2

3. H i s t o ri og ra f i a

4

. H i s t ó ri a

. M e m ó r i a ( Fi l os ofi a)

- Fil o s ofi a

. Ar qui vo s

Títu l o o ri g in a l: La mémoire saturée

Co p y ri gh t © 20 0 3 , fd it ion s

St oc k

Co pyr i g ht

© 20 1 6 by E d ito r a d a U ni c a m p

Co p y ri g hr © b y R é g in e R ob i n

••••

L lbItlJ . t, 4 11 , j .f , ., I , "i ll

RtpUBllQ.UE

c.·•.•" •• •• •

••

FRANÇAISE

••.

fth\~c~ls

BRASIL

"Ce r o u v r a ge, p ub l i é d a n s le c a dre du Pr og r a mm e

a bénéficié

du s o ut ie n d e I ' I n s tit u t

d

' A id e à I a Pu bli cat i o n F r a n ça i s d u Brésil,"

9

1

90

0

01

28.3

7 . 2

25. 1 7 1

20 1 5

" Es t e l i v r o, p u b li ca d o

n o â mbir o d o Pr o g r a m a d e Apo i o à P u b l i ca ç ão 20 1 5,

c

ontou co m o a p o i o d o In s titut o

Fran c ê s d o B ras il . "

Dir e it os r es erv a d o s e pr o t e gid o s

p e l a l e i 9.610 d e 1 9 .2. 1 99 8.

Ê pro ibid a a r e pr o du ção t ot a l o u p a r c i a l sem a ut o ri zação ,

por e s cr it o , d o s det e nt o re s

d o s dir e i to s .

P r im e d in B ra z il .

F o i f eit o o d e p ós it o l ega l .

Direito s re s erv a d os à

E dit or a d a U ni ca mp

R u a Ca i o G raco Pr a d o, 5 0 - Camp u s U ni c a mp

C EP 1 3 0 8 3 -8 92 - C a m p in as

- S P - B r asil

T e l . / F ax : ( 1 9 ) 3 52 1 - 77 1 8/7728

www.e di t o ra u n i c a mp. b r v e nd as@ e d i t o r a .u n ic a m p .br

Agradecimentos

Certo número de pesquisadores, de organismos de fomento, de amigos e de estudantes acompanhou-me durante a preparação e

a redação desta obra. Gostari a de destacar o Cons e lho de Pesqui-

sas em Ciências Humanas do Canadá , que me concedeu a ajuda

material de que eu precisava, em particular uma subvenção de pesquisa sobre hiperrexto d e ficção e outra s obre "o fim das gran- des esperanças': com M a rc Ang e not, meu cole ga da universidade McGill . Go s taria d e agradecer a meu s parceiro s da equipe "A memória partid a " do Fundo para Formação de P e squisadores e Amparo à Pesquisa (FCAR) do Quebec: Simon Harel, Alexis

Nouss, Micha e l Lachance, e à qu e les que, sob a direção de Pierre

Ouellet,

Pesquisa em Ci ê ncia s Human as (CRSH ), alé m daqu e les do Cen- tro lnteruniver s itário de E s tudos s obr e a s L e tra s , a s Artes e a s Tradiçõe s (Celat). Minha gratidão , tamb é m , à equipe " Memória e mídia", do Centro Canad e ns e de E s tudos Al e mãe s e Europeu s da Universidad e de Montr e al, s ob a dire ç ã o d e Walter Moser, e , particularment e à minha univ e r s id a de - a Universidade do Que- bec - em Montreal, a ssim como aos m e mb r o s do Departamento de Sociologia que me apoiaram e e ncoraja ram. Muito obrigada à Fundação Langlois d e Montr ea l e a Alain Depocas p e la ajuda na organização da s jornad as d e 2001 so br e o " hiper t ex to de ficção " em Montreal. Agradeço t a mb é m aos amigo s da s uni v ersidade s

participam da equipe do " Si e o outro " do Centro de

ntrodução:

I

Sumário

Como se o passado

nevasse s ob re nós

13

PRIME I RA PARTE

PRESENÇAS DO PASSADO

1 . Repetições

.

.

.

31

A

memória impossível

32

Contratempo

40

Marx e a lin g uagem emprestada

41

A

não contemporaneidade

50

Anacronismos

54

2. Os meandros

de uma l e nda .

O Oeste a mericano

65

3. A cor do esquecimento.

81

Da destruição de lugares ao apagamento de vestígios

81

81

82

85

o desaparecimento

de anôn i mos

A desconhecida de Modiano

A encic l opédia de Danilo Kis

93

 

.

96

.

96

.

101

o que resta do arquivo

O arquivista no romance

O historiador e o homem

de

.

10

3

103

sem qualidades

.

106

 

111

O e x emplo dos

países

 

.

111

 

.

112

 

.

116

 

.

120

 

.

12

3

.

O exemplo de Israel

12 7

144

145

1 48

1 5 1

 

156

.

162

169

169

169

173

176

184

193

194

203

4. Questão

O tempo curto da memória:

do Leste

lconoclasmos

Exposições de escárnio

Cerimônias fúnebr es

Novos museus

Memórias sob medida

O tempo médio da memória:

Uma terra sem povo para um povo sem te r ra

Uma c i dadania da memória

.

A

autoridade semântica das testemunhas

Uma

lógica da cegueira

.

Uma outra memória

tempos

.

5. Novos

Desvios, denegações, deslocamentos

O Japão e os massacr e s de Nanquim

Duas exposições americanas

Amnésias francesas

A Alemanha e a vit i mização

A reviravolta da conjuntura

A prob l emática

Novas narrativas italianas e espa n holas

do "totalitarismo " :

SEGUNDA

PARTE

UMA MEMORIA

AMEAÇADA:

1 . As evasões

da consciência

factual

A SHOAH

21 5

O

caso Wilkomirski

.

222

O

desaparecimento

das testemunhas

.

2

37

Quem é testemunha?

.

2

38

Palavras de testemunhas

.

246

 

A

trajetória jurídica de anulação das testemunhas

 

254

 

.

264

2.

O discurso

histórico

à prova

271

A his t ória como memória pulverizada

 

271

A representância

e o empobrecimento

do imaginário

278

Interrogar-se sobre sua própria escritura. Que lugar

para os outros, para os mortos?

 

291

3.

Representar,

figurar

a Shoah

Conf l itos em torno

297

das imagens de campos de

 

concentração Polêmica em torno de uma exposição no Museu

 

297

Judaico de Nova York

 

307

Pós-memórias

314

 

As sombras: Shimon Attie

 

315

O efeito de arquivo

 

316

Pa

i s e filhos

- "Você não

estava em Auschwitz.

Você

estava em Rego Park ": A história

em quadrinhos

Maus, de Art Spiegelman

 

318

As fotos nos passos do pai: A viagem de Mikael

 

Levin

3 2 0

 

O

corpo como medium

 

324

 

A presença física das cinzas: As fotos de Auschwitz

de

Marie-Ieanne

Musiol

324

O corpo-grafite

de Marina Vainshtein

326

4 · Memória-prótese

ou memória

crítica?

329

TERCEIRA

PARTE

 

DO MEMORIAL

AO VIRTUAL

1

. Memória

e mídia

367

 

A

carta e a foto

 

367

 

"Escrever cartas é despir-se diante de

367

"O domínio do intocável e do imaginário":

372

 

Nostalgias das mídias obsoletas

 

382

A exposição Hors d'usage, de Atom Egoyan

A s imagens e "o tempo que se foi c om e las"

382

3 8 5

2. O i mpério

da memória

morta

As catástrofes anunciadas

A

i materialidade do suporte

O

e t e rno presente

Um novo e spaço sem referên c ias

O

todo-imagem

O

original e a cópia

O

corpo ciborgue

A fantasia de tudo conservar Os ar tistas da armazenagem Satura ç ões patrimoniais

3 . Para uma memória

hipertexto

Novos espaços de escritura Os hipertextos de ficção Práticas de desvio Os novos flâneurs Dar outra chance ao tempo

.

C i bermigrâncias

B i bliografia

 

391

393

399

401

 

406

 

410

412

415

425

 

.

4

2 5

 

.

434

 

439

439

441

447

.

.······ 447

 

455

463

 

.

481

INTRODUÇÃO

Como se o passado nevasse sobre nós

o quê!? Você já tinha esquecido? Eu não! Voltam-me fragmentos de textos desprendidos do esquecimento, excertos de filmes aban- donados às lixeiras da história ou aos depósitos dos sonhos. Voltam- -me imagens de cor sépia , cenas, tristes de chorar, marcadas pela estranheza da r e lação entre o presente e o passado , tão distantes e

tão próximas ao mesmo tempo. Essa memória infiel, mas persistente está fixada em alguns momentos essen c iais do meu imaginário familiar. Tal como neste, das primeiras páginas de minha primeira obra de autoficção ou de metaficção sobre a história:

Foi no ano de 1920, no meio da confusão extrema. Na ida, todas as esperanças. A população judaica de Kaluszyn simpatiza com os soldados vermelhos. Vamos capturar os brancos , fomentadore s de pogrom/ Todos à Varsóvia! Em seguida, o refluxo , depois a derrota diante da Varsóvia . Uma parte da população temendo as represálias dos exércitos brancos se mistura ao exército verm e lho, incorpora-se a e le ou o segue. Comboio de fugitivos esperando ganhar a Terra Prometida . Até o rio Bug. A confusão se generaliza. Pânico dos cavalos, pois o exército branco reforça sua pres- são . Ele chega, vai massacrar tudo . Começa então a grande carnificina . As pessoas são massacradas p e lo exército branco? A população das cidades costeiras insta o batalhão errante ao Bug, sabendo que ele é formado principalmente por judeus? A memória de Kalusz y n nunca assumiu. O

13

1

Repetições

o passado não é livre. Nenhuma sociedade o deixa à mercê da

pr ópria sorte. Ele é regido , gerido, preservado, explicado, contado,

com emorado ou odiado. Quer seja c e l e brado ou ocultado, per-

m a n ece uma questão fundamental do presente. Por esse passado,

norma l mente distante, mais ou menos imaginário, estamos pron- tos p ara l u t ar, para estripar o vizinho em nome da experiência ante r i or de seus ancestrais. Embora surja uma nova conjuntura, um n ovo horizonte de expectativa, uma nova sede de fundaç ã o, nós o apagamos, esquecemos, remetemos à frente de outros epi- sódio s, vo l tamos, reescrevemos a história, inventamos, em função das e x ig ências do momento e das antigas lendas. Jan A ssmann, em r e lação a Mois é s', mostra como um trauma pode faz er o pap e l de "estabilizado r da lembrança" por séculos, pois e l e vai au t orizar todos os t ipos de disrorções do episódio re- cal c ado , e as l endas, que não puderam se inscrever na memória oficial, vão , no entanto, doravante, poder se misturar a outras história s, meio reais , meio imaginárias. Recalque, deformações, transf e r ências e novas ligações com as lendas, tudo se mistura. Subterran eame n te, as lendas, os e lemen t os de narrativas, ocultados,

J. A ss m ann.

Moise I'Égyptien. P a r is , Aubí e r, 2 0 0 I .

31

RÉG I NE ROBIN

in ter dit os, cens u r ados , se enriq u ece m com e l e ment os advin d os de

o utras épo c as , d es con ec t a d os

d e seu n ú cleo con t ex tu al, e se ar t i -

A MEMÓRIA SATURADA

lugares, p a ra n ã o dize r nada da influência das comemorações e dos

abusos d a m e m ór i a e d o esquecimento.

A ideia de u ma justa me-

cul a m co m o s p ri m e iros p ara viver u ma vida clan d estina, antes de

móri a é, n es t e contex t o , u m dos meus t emas cívicos confessos' " ,

voltar à s u perfíc i e , t ransf or m ados e irrecon h ecíveis. Israel Finke l s-

escrev e Paul R icce u r na a dvertência que abre sua obra - p rirna sobre

t

e in e N e il As h er Silberman? rev e l am como as a n ti g as lembranças

a

memó r i a, um es tu d o f enomeno l ógico das moda l idades sociais

se a m a lg a m a m com l e mb ra n ças m a i s rece nt es, d esassocia d as d e

d

o recordar co l e t ivo e do esquecimen t o, no q ual ele emp rest a

se

u c ont ex to , r ea d a pt a d as, r ec on f i g u ra d as, d a nd o origem ao q u e

c onceito s da p s i ca n á lise . Com b ase nos cé l ebres ar t i go s d e Freud

pod eríamos chama r d e qu ase l e nd as, a p oia ndo-s e parcia l men t e

" R emém o r a tio n , ré péti t ion, perlaboration"5, i , e "Deuil et

e

m f a to s, m as complet a m en t e d e f asa d os no t e mp o, an t es ai nd a

m

é l ancoli e"6, ii , e l e r eto ma o co n ceit o de Durcharb e it, a "perl abo -

qu e as n arra tivas s e jam re c o n figura d as, p a d ro ni za d as, fixadas,

r

r

ação", o pr ocesso c omplexo q u e, na cura, permite ao paciente

com o t ex to s fundador es p ara f in s p o lít icos, r e ligio s o s e nacio n ais.

ememo r a r e m vez de r epe t ir, de s u bstituir a lembr a nça e a narra-

N esse c as o , t a mbém , p resen t e i m e di a t o, passa do pr óximo, l em-

bran ç as di s tantes e lend as se t e c e m e se d est e ce m un s n os o u tros. Como a imagem de c e rt os vul cões, a memór i a, m esm o ador-

mecida , pode tornar-se explo s iva ' .

A memória impossível

" Eu fico confuso com o espet ác ulo inqui e t a nte que t r an s m i t e a qui

o

ex c es so de m e mória, e o ex c ess o do e squecimento em o ut ros

2

I . Fi nk e l s r eí n & N . A . Silberma n . La Bible dévoilée. Les nouuelles révélations de l'archéo-

logie. P ar i s, B aya rd , 2002 .

N ão e n co nt ra remo s, nest a obra , um a n ova d e f i n i ção d e " m e mória co l eti v a", d e " m e m ó ri a

co muni ca ti va " , ou "c ul t u r a l" , t a mp o uc o ler e m os n e l a um novo u s o d os " l u gares d e

m e m ó ri a " o u da s a l u s õe s às di s cu ssões e i n c o nt á veis co m e nt á r i o s qu e f ora m co n sagra d os

p or e l as. Co n s id e r o que o l e ir o r j á as co n h ece . M e u tr a b a l h o se apoia n as p es qui sas e n as

co nqui s t as hi s t ori ogr á fic as a ng l o-saxã e a l e m ã. É se m d úvi d a a v a n tagem d e t ra n s ita r p e l o s

d ois co nt i n e nt es, mas é m a i s d o qu e i sso. N a ref l exão so bre a mem ó r i a co l e tiva e m t o d as

as s u a s forma s , a pesq ui sa f r anc esa se a p o i o u so bre se u g rande c l áss i co, Mauric e H a lbw ac h s ,

e so b re a o br a c o l e tiva monum e nt a l qu e Pi erre N o r a s uper v i s ionou e es timulo u : Lieu x

de m é moire, sem le v ar em c o nt a, n a m a i or p a r te d o t e mp o , i m en s a s o b ras d e p esqu i sas, d e

re

fl exões, d e co n ce i r u ações, d e exe m p l o s d e t odo tip o q u e as p es qui sas i n g l esa , a l e m ã e

a

m e ri cana tinh a m e s tab e l e c i d o . M i n h as d ea mbu l ações a t ravés do s c o ntin en t e s, do s d e -

p

ósi t os d e a rquiv os e da s bibli o t e c as me pe rmit e m u m o utr o o l h a r e um d es l ocame nt o

de q u est ões.

3

2

t iva pa ss and o ao a t o q ue não é senão a cornpulsão d a repetição em

fu ncionam e nt o .

Em "D eu il e t m é l a nco l i e" , F re u d evoca as divers a s reações que um a pesso a pod e t er e m f ace da perda de u m en t e qu er i do . Muitas

v ezes, escrev e o auto r, oc o rre que o luto n ão se pro ce ssa. A pessoa

entra em uma f a se d e m e l a n co l ia

a a t ividade, às vezes, e m casos de

ex t rema gr a vid a d e , s uicídio . A maio r parte do t empo , n o en t an t o,

um ce r to trab a lho se concr e t iza, que é o t ra b a lh o d o luto. "O tes t e

de r ea l idad e m os trou qu e o o b jet o amado n ão ex i s te m ais e i n s t i- tui a ex i gência d e retirar tod a a l i bi do dos lugares qu e a re t êm nesse obj e t o'" , Apes a r d as múlt i pl as revo ltas d o i n d i ví du o q u e não quer de f orma alguma ab a ndon ar o ente querido perdido, a rea l idade acab a prev a l e c e ndo . E s se tra b alho demanda um grande dispêndio

d e t empo e d e e n e rg ia. O e nt e querido co nt inua p or m ui to tempo

d e estima de s i, i nibição d e t oda

e depressão. Pe rd a d o sen t imen t o

e

x i s tindo psiquic a m e nte. F re ud fala, então, de um a ativida d e de

c

ompromis s o , du r ante a qu a l o t r a b a l ho de d esape go da libi d o

d

4

7

o ser amado se concreti z a e n q u a nt o

as l emb ra n ças l i ga d as a e l e

P. Ri cceu r . La m é moire , i ' bistoire, I'oubli. Pari s , L e S e u í l , 2 000 , p. I .

S . F re ud . " R emémora t ion , r é p é tition, per l a borati o n " . La technique psychanalytique. Pari s,

P UF, 1 9 7 0.

Idem. "De uil et rn é l a n co l íe". Métapsychologie. Pari s , Ga ll imard, 1968.

Idem, p. 1 48.

33

R É GINE ROB I N

A MEMÓ RI A S ATURA DA

perman e c e m infinitam e nte doloro s a s. " Mas o fato é que o eu ,

e

d o retorno do recalc ado, es s a mesma que e ncontraremo s muitas

depois de t e r concluído o t r abalho do luto, volta a s e r livr e e sem

v

ezes no decorrer de no s sa r e fle x ão; a segu n d a design a ria a me-

inibiç õ es '" . No luto , pros s egue Freud , o mundo par e ce pobre e

m

ó ria a rti f ici a l construída p e la propaganda d e E s tados "totalitá rios':

vazio; na m e lancolia , é o próprio eu que é atacado. A a utodepr e - ciação não conhece l i mites e pode conduzir à morte. Ess a análise

a ul Ri cceur toma o exemplo de Henry Rous s o, e de seu liv r o La

P

syndrome de Vichy", para ilustr ar um trabalho de historiador re-

da

uma outra refl e xão, que é contempor â nea a essa: trata- s e da repe-

r e lação nocional trabalho do luto / m e lancolia se articula em

lati vo à memória impedida, ou s eja, sobr e o r e calque. Henr y Rousso distingu e qu a tro fase s , d a Libertaç ã o ao s no s sos

tição por oposição à rern e rnoraçâo " , Cont e ntamo - no s em diz er

di

as . A fa se do luto , entre 19 44 e 1955, no sentido de angú s tia mais

aqui que , se o passado graças à transferência,

não pode ser rememorado, prin c ipalmente , ao di s positivo e ao método da t é cnica psica-

nalítica , rememoração daquilo que foi e squecido e r ec a l c ado, esse

passado é traduzido em ato : " Não é em forma d e l e mbrança que

o fato esqu e cido reapar e c e , mas em forma d e ação . A doença r epet e evidentem e nte esse ato sem saber qu e se trata de uma repetição " 1 0. A compulsão de r e p e tiç ã o será, portanto, a man e ira específica

do sujeito se lembrar inconscientem e nte sem sab e r o que está em

jogo . A tran s ferência, na situação analítica, não é e la mesma senão um fragmento de repetição e "a repetição é a transf e r ê ncia do passado esque c ido, não s omente p e la pe s soa do médico, mas também por todos os outros domínios da situação apr e sentada"!'. Trata-se de um trabalho difícil , que não acontece s em re s istência.

O tempo é n e cessário para que o s ã j e ito chegue a conh e cer essa

resistência que antes ignorava. Ele dev e venc ê -Ia, "perlaborá-la", O

passado pe r laborado, submetido ao tr a balho do luto , não é uma lembrança revivida tal e qual , mas um passado trabalhado na e p e la transferê ncia, que p a s s a a ser "a ceitáv e l" p e lo sujeito. Em seu livro La m é moire, l'bisto i re, l'oubli, ao qual fizemos e faremo s mais de uma ve z referência nesta obra, Paul Ricceur dis- tingue um a "memória imp e dida" da simples memória m a nipulada,

ou mesmo instrumentalizada . A prim e i ra é da ord e m do recalqu e

8

Ibid em.

9

I dem. " R e m é m o r a tion , r é p é t i t i on, pe r laborario n

.".

1

0

Id em, p. 1 08.

11

I dem, p . 1 09 .

34

do qu e d e t rabalho do luto propriamente dito que, p r ecisam e nte, nã o a contece, fase marcada p e l as s equelas da guerra civil , da puri-

ficaç ã o à anistia . Depois, uma fase de recalqu e. Com o e m todos

o s g randes recalque s históric o s, o período é marcado p e l o e s t a be -

l e cim e nt o d e um mito, como o do "re sis tenc í alisrno " , discurso gauli s ta ou discurso comunis t a, se gundo o s quais todos o s france-

s es e ram resistentes. Em seguida vem, com o filme d e Marc e l

Ophuls Le chagrin et Ia piti é, e m 1971 , a fa se do " retorno do re- calc ado ' : o esp e lho quebra e o mito voa e m e s tilhaços. Enfim, o estágio da obsessão, no qual parece qu e ainda estamos. Para R o u sso, esta última fase é marcad a p e lo despertar, p e la inte nsid ade da memória judaica e p e la importância da s r eminis- cências d a Ocupação no debate político interno (como mostram as desav e n ças de Mitterrand em torno de suas r e lações com Bous- qu e r) . Co mo e s creve Paul Ricceur, "contar um drama é es quecer um outro "!' . O q u e tínham o s " esquecido ", e m um prim e iro mo- mento , e ra o e xtermínio, simplesmente . O que retom a violen - tamente n o discurso. Paul Ricceur mo s tra, a s sim, a importância da "mem ó r ia impedida" a companhada d e seus esquecimentos inconsci entes ou organizados (as leis da anistia) atr a v és desse período d a história france sa .

Como verdadeiramente lidamos com o " recalque " ou , como Benjamin Stora a evocav a a propósito da guerra da Argélia , com

1 2

1 3

H . Rou sso . L e syn d r o me de Vichy. Pa ri s. L e Seuil , 1 987 .

P. R ic c eu r . La mé moir e , p. 5 84 .

35

I'

I~

RÉGINE ROBIN

uma encenação do recalque em função de conjunturas e novas versões de grandes narrativas do passado ou da fragmentação das narrativas, com as suas decomposições, reorganização das confi - gurações e reconfigurações narrativas? Há sempre deslocamentos, deslizamentos, substituições, a invenção de novos mitos. Mas esse processo é totalmente inconsciente? Os historiadores, utilizando o conceito de forma metafórica (Henry Rousso não discorda d e les), levam a pensar que os povos não têm nenhuma responsabilidade no fato de "recal c ar", de es-

quecer no momento

o que seria no social o equivalente da perlaboração e do trabalho

do luto . A operação é muito mais d e licada, porque a história e a psica- nálise não têm a mesma concepção epísternológica do t empo.

Podemos até dizer que duas estratégias do tempo se confro n tam. Para a psicanálise, o esquecimento é ativo. Ele se insinua, e le

Para a historiografia, e essa

será sua própria dificuldade em tratar os problemas de memória, existe um corte entre o passado e o presente. Sem esse corte, nem

a história, nem o saber, nem a operação cognitiva seriam possíveis.

A história associa, quando a psicanálise desassocia. Michel de Certeau falava de "duas maneiras diferentes de distribuir o espaço da memáriaíí",

Estamos diante de uma dificuldade, já que os hi s toriadores, mesmo de maneira metafórica, têm " adotado" a noção de recalque. Pois não é possível compreender o trabalho memorial sem consi - derar as camadas do tempo, esses "esquecimentos" eficazes que permanecem como bases, essas heterogeneidades, esses recuos e

oportuno o que incomoda. Buscamos então

retoma, pode até governar o presente.

disjunções.

Paul Ricceur opõe os processos históricos "patológicos", que residem no tecido social das sociedades e seu devir, aos processos

14 M. de C erte a u. " Ps y chan a l ys e et hi s toir e" . Hi s toi re et psyc h ana ly se. P a ri s, Fo l io Histoire,

2

00 2.

36

A MEMÓRI A SATURADA

"normais"lS , que poderiam ser assimilados com a perlaboração na cura , p r o cesso que chamamos comumente de trabalho da me- mória. D a p erspectiva dos desenvolvimentos mortíferos, os "abu- sos da m e m ória'" ou, talvez, "muito pouco" ou "muito" de memó - ria, "muito pouco" ou "muito" de esquecimento. O excesso de memó ria seria da ordem da compulsão de repetição interditando toda r e con ciliação com o passado e toda distância crítica. A falta de m e m ória seria também da ordem do recalque, pronta para voltar a a t ormentar um tecido social mal estabilizado e que "acre- ditav a " p oder fazer uma economia de sua relação com o passado.

o qu e un s cultivam com d e leite moroso e o que outros abandonam com m á c o n sciênc i a é a mesma memória repetição. Uns amam se perder, os outro s t êm medo de ser engolidos nessa repetição. Mas uns e outros sofrem da m esma falta de crítica . Eles não atingem o que Freud chamava de trab a lh o d e rernernoraç ã o '".

De m i nh a parte, penso que não há memória justa, nem recon- ciliação tota l com o passado. Há sempre "muito pouco" e "muito " , em funç ão das conjunturas e das versões afetando as grandes narrativa s d o passado. Minh a reflexão cruzará mais de uma vez com a reflexão de Paul

R í coeur, mas eu não acredito na separação radical entre "dever de

memória" e "trabalho de memória". Desejo, ao contrário, mostrar que é n ecessário afastar-se dessas categorias patológicas e procurar outro s caminh os para identificar o que está em jogo nos problemas

da memó ria, de s u a história, de seus trajetos, de suas transformações-

- deform a ç ões. Porque, para as sociedades, a "escolha" quase nunca

é feita e nt re o trabalho do luto e a melancolia, os povos cedem raramente à mel anco l ia. Jamais vimos um povo se suicidar, exceto,

15

16

1

7

o term o «no r mal" é aqui empregad o por mim. O processo «normal", como o compre e n -

d emos, n ão se encontra n as s o c ied a d es r e a i s , me s mo se a visada da reconciliação d as s o-

c i edades com o s e u pa ssado perman e ce um hori z ont e de pensamento indi s pen sáve l .

V er o l iv r o de T . Todorov . L e s a bus d e Ia mé mo i r e .

P

Pari s , Arlé a, 1 995 .

. R i cceur. La m é moi r e

, p. 9 6.

37

RÉGINE ROBIN

talvez, e isso nunca foi manchete nos jornais, algumas tribos na

Amazônia, ou de vilar e jos ameríndios, ou esquimós no Norte canadense, que estão para além do próprio desespero. Mas "no ssa s " naçõ es g l orio s as não ce ssam de realizar sua "vocaç ã o ". No entanto, em todo lugar há trauma s , então, a necessidade de " lidar com i s so" . Em toda a parte , há , em funcionam e nto, princípios no trabalho de luto, em raz ã o das conjunturas históricas, do s primeiro s pas- sos de um trabalho de desinvestimento da libido s obre o obj e to perdido: grande homem , ideal , regim e no qual se e ra reconhecido em um mom e nto dado , ou, ao contrário , reencontrava-se vítima

absoluta de r e g i m e s c r iminosos

crim e s; mas , por um truqu e da razão memori a l , o trabalho é em toda a parte de s viado, retomado , travestido , t ransferido, deslocado. As responsabilidades são atribuída s a outros , ou não há culpado, ou somente alguns o são. Esquecemo s, recalcamos, mantemos long e, ou no m a is profundo, o qu e incomoda ; preenchemos os baús da história de cadáv e res, esperando abri-los e r ee ncontr á -los sem r e conhec ê -los .

Em resumo , há apena s encontros perdidos com a hi s tória. A memória baliza , precisamente, a história desses encontros perdidos, a hi s tória dos fracassos do trabalho do luto, e in s creve novas con- figurações, re a rranjos das narrativas que as soci e dades contam ou se contam sobre se u passado. Por con se guinte, pr e firo falar de "r i tmo s " da memória, d e s ua tec e lagem e de seu desfilamento, levando a séri o a me t áfora central de Walter Benjamin:

que n ã o chegaram a assumir seus

É s omente quando o desdobramento hist órico de s liza entre o s dedos do historiador, tal como um fio liso, qu e podemo s fala r de "progres so ". M as, trata- se de uma corda muit o desfi ada e desa t ada em mil mecha s , que prende assim tr a nç a s desf e itas . Nenhuma d e ssas mech as tem lugar dete r - min a do , antes d e s e r em recup era das e e ntrançadas num penreado ' ".

1 8 W. Benj a min . " P a r a lípom ênes e t va riantes d es Th ês e s s ur l e co n ce pt d ' hí s t o ir e". Éc rits

f ra n ça i s . P ar i s, Ga l l imard , 199 1 , p p. 348-349.

38

A M E MÓRIA SA T U RAD A

Se der mos uma rápida volta ao mundo, d i ficilmente encontra - remos um lu gar onde se t e nderia para uma ju sta memória. A ún ica verdadeira "boa notícia ', do ponto d e v ista m e mo r ial , em escala mundial , advém da Áfr i ca do Sul , qu e deu fim ao apar- th e id e cuja "Comissão para a verd a de e recon cil iação" estab e leceu um mec anismo original de c irculação de memórias entre carras cos e vítima s, embora as l e mbra nça s a inda e stejam viv as ". Ne sse ca s o , n e nhum ódio propagado, narrativas , o reconh e cimento d e que acontec eu, nenhuma condenação t a mpouco. E ss a mod a lidade de reconhec imento da v e rd a de dev e mu i to à personalidad e fora do comum d e N e l son Mand e la. Qu e m pode, como é meu c a so , visi- tar a c e l a na qual ele foi aprisionado durante mais de 1 7 ano s, na ilha Robb en, é imune às s implificações de discur s os conc e r n indo à memó r i a d os oprimidos. Hoj e, o problema m e morial da adap- tação da ilha Robben - seja em museu , lugar d e p e regrin a ç ão, ou em r e se rva da vida se lvagem ou o utra - mo s tra que a ilh a entra para a hi s t ória mais cedo do que o pr e visto . No enta nto , es sa me- mória q ue emerge , frágil, se m ilusão , é uma c o n struç ã o : "A v e rd a de não tem sid o medida, e la foi fabric a d a. Sendo gen e rosos, pod e mos dizer que verdade foi negociada . E s s a v erd a d e sa lvou a África do Sul do ab ismo revolu c io n ário. El a s e r á o es pectro que v e lará o futuro i n certo do pa í s '? ". Ent re o "muito" e o " muito pouco ' : n ã o encontramo s nun c a uma bo a "explicação", de s de o J a p ã o , que não chega a assumir seu papel n a Seg u nda Gu e rra Mundia l, até a Fr a nç a , onde Vich y e a

guerra d a Argélia retomam

periodic a mente com todos os cad áv eres

dos baús d e n ossa história ; desd e a impossibilidade de organizar uma exp osição sobre Hiroshima nos E s tado s Unido s ; d e sde a impossibili dade de construir um memorial ou um museu para os índios da Améric a exterminados; desde o es câ ndalo da r e v e lação

1 9 S . Nutt a ll & C . Coetzee (o r gs.). Neg ot iating the P as t o T be making of M emory

2 0

in Soutb

Afti c a. Cap e Town, Oxford U n ive r s it y Pr ess, 1 998.

A pud B . Jew s iewick i . "De I a vé rité de m é rn o i re à I a réconcili a ti o n ". L e D ébat. Mémoire s

d u X Xe siécle, n. 1 22, nov. - d ez. de 2 002 , p. 63 .

3

9

RÉ G INE ROBIN

do massacre de Jedwabne, na Polônia, às múltiplas revisões, rel e itu - ras do passado no Leste Europeu; desde a It á lia, onde um discurso muito na moda tende a reabilitar Mussolini e a desvalorizar a Resistência; desde Pinochet, que pôde, finalmente, voltar ao Chile sem muito prejuízo , apesar de suas aflições em Londres, até Vid e la

e os responsáveis da ditadura argentina (19 7 6-1983) que, de anis-

tias em processos, de denegações em meias confissões, não estão verdadeiramente preocupados etc . Dizendo is s o, não quero afirmar que um trabalho do luto, que um trabalho m e morial não tenha sido empreendido aqui e lá - às vez es fundament a l, como na Alemanha -, mas esse trabalho d e memória é difí c il; no debate, em conflito, está longe de triunfar, está sempre a retomar e s e m- pre tomado em uma conjuntura em que e le próprio e s tá em ques- tão, preenche uma função social , é mais ou menos instrumentali- zado - talvez seja impossível que seja diferente - politicamente,

culturalmente, historiograficamente. Lendas instáveis, formas diversas do esquecimento , mudanças

d e ritmo e novos tempos, muito frequentemente a memória oscila ao capricho das razões e das razões do presente.

Contratempo

Esses passados que nos esforçamos para gerir, perseguir, ou, ao contrário, para reavivar em ilusões de re s surreição, para restaurar, tran s formar, contornar, esses pass ados esburacados (o que resta dos arquivos é aleatório, seçõ e s importantes foram apagadas), dístorcidos, reescritos , reinventados, simplesm e nte esquecidos, inacessíveis; esses passados lacunares se assem e lham a camadas geológicas entr e laçadas, plissadas como depois da formação de uma cadeia de montanhas ou algum outro cata c lismo. O presente não é um tempo homogêneo, mas uma estridente articulação de temporalidades diferente s, heterogêneas, polirrítmica s . Refletir

s obre ess as articulaçõe s e rangido s s empr e fas c inou os filó s ofos ,

os pens a dores, os escritores ou os artista s . O s historiador es tiveram

40

A M E MÓRI A S A TUR AD A

muit o m ais problemas com essa heterogeneidade, com as estrati- fic ações da temporalidade e da historicidade. Todos têm lidado

c o m u m fenômeno que dá ao passado das sociedades um ar estra-

nho d e déja vu, de algo que retoma, p e lo menos aparentemente,

qu e age como uma força subterrânea, uma repetição. Repetição

d e situ ações, repetição de argume ntos, de slogans, de retóricas, de

c ita ções presas em um imenso intertexto memorial de aconteci-

m e nt os; repetição de c e nas, resultados, repetição das derrotas do s oprimidos, dos humilhados e dos ultrajados, repetição de

d ominações.

E is alguns exemplos de diferentes perspectivas e proposições

atrav és do tempo desses esforços para pensar o "contra t empo".

Mar x e a linguagem emprestada

S e qui sermos reabrir o que se pareceria com um "ve l ho livro de feitiç os", mas que poderia se rev e lar muito útil, l eremos:

H eg e l observa em uma

de su a s obras que t odos os fa t os e personagens

de gr a n de importância na história do mundo ocorrem, por assim dizer,

duas vezes. E esqueceu-se de acrescentar: a prime i ra vez como tragédia,

a segun da como farsa. Cau s sidi ê re por Danton, Luís B l anc por Robespierre ,

a Mon tanha p e lo ti o 21 .

de 1848 a 1851 p e la Montanha

de 1793-1795, o sobrinho

Hi s t ória teatral, dramática, que não chega a habitar seu tempo,

hi

s t ór i a anacrônica. A história não avança, o u só recua mascarada,

o

a contec i mento se refere somente a e le mesmo. Há repetição na

histó ria, para a qual Paul- Laurent

Rep e t ição, imitação, farsa, das quais umas são sérias e outras

g ro t escas:

Assoun dedicou um b e l o livro 22 •

21

22

K. Marx. Le J 8 Brumaire de Louis-Napoleon Bonaparte. P a ri s . É dition s S o cial es, 19 69. P : 1 S .

P .-L . A ss o un . M a rx et I a r é p é tit i on historiqu e.

P a r i s. P UF . 1 9 7 8 .

41

RÉGINE ROBIN

Assim, Lutero adotou a máscara do apóstolo Paulo, a Revolução

como a república

de

romana e como o

1789-1 7 94 vestiu-se alternadamente

império romano

antes, Cromwell e o povo inglês haviam

as paixões e as ilusões do V e lho Testamento para sua revolução burguesa 23 .

e em outro

estágio

do desenvolvimento , um século tom a do empre s tado a linguagem,

Marx acrescenta ainda que, quando os atores tinham cumprido a tarefa que a história havia exigido d e les, os costumes, as máscaras, as citações emprestadas a outras cenas históricas caíam por terra.

os

colossos antediluvianos e, com e les, a Roma ressuscitada: os Brutus, os

Gracos, os Publícolas,

ciedade b u rguesa em sua sóbria realidade tinha criado seus verdadeiros intérpretes e por t a-vozes na pessoa dos Say, dos Cousin, dos Royer-Collard, de Benjamin Constant e dos Guizot. Seus verdad e iros capitães s entavam- -se atrás dos balcões de comércio e o "c é rebro de roucinho" de Luís XVIII

da riqueza

César . A so-

Uma vez estabelecida a nova forma de sociedade, desapareceram

os tribunos,

os senadores e o próprio

era sua cabeça política . Completamente absorvida p e la produção

e pela luta pacífica da concorrência, a sociedade burgue s a havia esquecido os fantasmas da época romana que haviam v e lado seu berç0 24.

É esse caráter espectral que Pierre Nora não vê quando evoca os acontecimentos de 1968:

no que se refere à história que,

no sentido hegelíano, se escreve com letr a s de sangue, cada um se pergun-

tou, posteriormente, o que havia acontecido realmente. Nada de revolu-

ção, nem mesmo nada de tangível e de palpáv e l , mas, apesar dos a t ores

com seus corpos defendendo o retorno incoer c ív e l e o festival flamejante

do lendário sucesso abso l uto de todas as revoluções: as revoluções fran- cesas do século XIX e, também, do século XX, com os jovens das escolas,

No que se refere à ação revolucionária,

23

K . Marx. Le 18 Brumaire

pp. 15- J 7 .

2

4

Idem . p. 16.

42

A MEMÓRIA SATURADA

que lembr avam

popul a r , a l em b rança ainda viva da Resistência; as revoluções dos sovié-

poder de Lênin; a revolução do terceiro

mund o , da China a Cuba. Nunca se terminará de contabilizar a fantas-

t

1848, as barricadas da Comuna,

e a tomada de

os cortejos

do Front

i cos d e P etrograd

mago r ia h istórica da qual Maio de 68 foi a recapitulação puramente

agir, eles não fizeram mais

do qu e ce l ebrar, em um último festival e em um reavivar mim ético , o fim

da Re vo l ução . O acontecimento tem apenas um sentido cornemorativo= .

simbóli ca . Os revolucionários

de 68 queriam

P se ud orrevolução autorreferencial, verdadeira entrada da

política n o espetáculo, na sociedade que Guy Debord desprezava, Maio d e 68 t eria sido um grande simulacro.

P a r e c e - me que, apesar de seu cará t er brilhante, a análise de

Pierr e No ra não deixa clara uma parte essencial que diz respeito

ao esta t u t o da repetição na história . Pois Maio de 68 foi realmente uma rev olução, não no sentido clássico do termo, nem em função dos "mod elos", mas em termos de sintomas que anunciam trans- formaç ões r adicais e trazem o novo. O inventário das revoluções anteriores, a bricolagem memorial à disposição dos atores, é o pont o fo r t e da demonstração de Pierre Nora: serrar árvores para constru ir barricadas, atuar como Gavroches e Liberte guidant le peuple ao modo de D e lacroix, mas também deliberar como os

prim e iros

Ne s s a l oja de acessórios, contudo, há hierarquias. Maio de 68

também saiu da guerra do Vietnã, quando estava terminando, fim

triunfant e p ara o Vietminh e catastrófico para os Estados Unidos.

O ter c e iro - rnundismo dos atores, todas as t endências confundidas,

era primordial, do mesmo modo que o forte investimento ret ó rico e simbólic o sobre o marxismo , fosse ele tomado em sua variante

trotskista, l ibertária, maoista

ou outra. Nunca se ouviram tantos

slogans r epe t indo, simulando outras revoluções, mas fortemente

sovié t icos, bandeiras verme lhas e pretas em toda parte.

2S P . Nora. "L' ê re de I a C omm é rnor a tion " . L es Lieux de m é moire , m. Paris . Ca l limard , J 9 9 2 . pp. 979-980.

43

RÉGINE ROBIN

in ves tid os d e um v ocabul á ri o m arxizante. Po d e - se l e mb r a r qu e o

pr ó p r io Deb o rd , e m L a société du spectacle", fa l a co m o F e u e rb a ch

(do ponto d e vista fo r m a l) e qu e s u a cr íti ca d o esp e t ác ul o est á,

t a mbém, pr e sa ne s s a re t ó rica m a r x i za nt e. À é p oca, as r e f e r ê n ci a s

a o m a rxi s mo, compr e endid as ampl a m en t e, est ava m l o n ge d e ser

d

esv al or izada s ! De C h e a Mao, d e A l t hu sser a Trots k i , um a p a -

n

ó pli a d e te x to s, s lo gans, imagens, referên c ias, mo d e l os d e a n á l ise

es t ava m à di s p os i ç ã o d essa j u ve n t u de q u e, co m o a Fra n ça, est ava

a ind a "e nt e d ia d a" a lgun s d ias an t es d o início do mês d e m a i o .

So m e nt e o p a rtido co m un i s t a, ainda m uito po d e r oso, n ão ser v i a

d e m o d e lo, po r r a zõ es hi s t ó ri cas co m p l exas o u p or r azões d e c l asse .

A

rev olt a partiu do s m e io s estud an t is, peq u eno -bu rg u eses; o s

op

e r á rio s, c o mo já afirm a mo s aqu i , e nt raram em greve s oment e

a p ós o iní c io do movim e nt o.

ini cia tiva.

N ão fo ra m e l es qu e t o m a r a m a

P os t e riormente, com o s ublinh a P ierre N ora, n os p erg unt a mo s

A M E MÓRIA SATURADA

El es vão s e r d es m antelados " . A França verá sua p aisagem com pl e-

t amente d es e s t r utu rada e reestru t u r ada so br e n ovas b ases. A v e lh a cultu ra oper á ria t ra d ici o n a l sofrerá um a t a qu e fro nt a l . Or a, o

pa r t i d o

n ã o assumem , em s u as aná lises, essas t ra n s fo r m a ç ões fu n d ame nt ais.

El es p ermane ce m no "ca pita l ismo mon o p o lis ta do E s t a d o", noção

comuni s t a e a CGT, qu e d o minam então a c lasse o p e r á ria,

qu e lh es serviu d e b ase p a r a pe n sa r o r e torno d e D e Ga ulle

ao

p

o d er e m 195 8 e as p rofund as recon f ig ur aç õ es d o capitali s m o

na

Fr a n ça qu e e x i g i am u m pa p e l m aior do ex ecuti vo . Di an t e d esse pod er, ocorrera m lutas fro nt ais, ce nt ra lizad as e, s obr e tudo , " qu a n -

tit a t ivas": p e la jornad a d e tra balh o, p e l o aumento do s sa l ár i os,

p e l os regimes es p ec iai s d e a p os enta doria no s etor públ i c o . O r a,

no s a n os 1 960 , n asce m no vas r e i v indic açõ e s , particular m e nt e n os

Est a d os Unido s, ond e n ão ex i s t e m essas t r adiç õe s dos mo vime nt os

op erários: luta s lib e rtá rias, mais qualit a tiv a s qu e qu a nt i t a t ivas,

lutas region a i s, lo ca i s, luta d as m ulh eres

a

p or igualdad e, a pílu la,

o

qu e a con t ece u . De ve m- se p o nd e r a r o p eso e o p a p e l d e M a i o de

lib e rd ade d a vid a sex u a l , o a b or t o e tc. Tod as e ss as form as d e no v a s

6

8 em m é dio prazo . Cu r io sam e nt e, n a o casi ã o do t r ig ésimo ani-

lutas es t arão e m prim e i r o pl a n o e m mai o de 68.

v

ersá rio do s acontecimento s, e mbor a as li v r ar i as est ivesse m reple t a s

N o domínio d o sa b e r e d o e n s ino , a t ac am- se tamb é m a s formas

d

e obra s s obre Mai o de 68 , n e nhum a a n á li se séri a foi lançada,

autorit árias d a tran s missão qu e Marcu se, e m L' Ho mme unidimen -

prim e iramente porque a maioria do s liv ros era compo s t a d e " me- mória s", l e mbranças ou d escr i çõe s d o s pr ó pri os a t o r es da r e voluç ã o

sion ne l " , h avia d e nun c i a do e qu e Pi e r re Bourdieu e J ea n- C l a ud e Pas se r on mostrar a m , dize ndo qu e e l as se r v i a m apenas p a r a r epr o-

 

qu

e tinham dificuld a d e e m t omar a l g um a di s t â n c i a diant e d e s ua

du z ir o sis t ema e m es p e lh o, p ro m ove nd o unica m e nt e " h e rd eiros"

a

tu açã o, s ua v iv ê ncia , s eu f utu ro p essoa l ou d e s u a ge r a ç ão; depoi s,

vindos dos m e io s bu rg u eses' ".

p

o rqu e o r ecu r so a M arx, n esses t e m pos

d e r egressã o g e n e r a lizada ,

Tudo i ss o r es ul tará n o cé l e b re: "Era pr e cis o qu er e r ser maois t a

parece ri a ultrapa ss ad o e um sac r il ég i o, e o li v r o, b ast a nt e o u s ado para fazê-lo, n ã o con seg u iria ver d a d e ir a m en t e enco nt rar u m p ú blico

o

u um e d i tor . Em 1968 , es t amo s a c inc o a n os d a p ri m eir a g r ave cri se d e p e -

t

ró leo qu e v ai a f etar o Ocid e nt e . Se m qu e se possa ai nd a ana l isar ,

o

capita l i s mo e a t e cnol o gi a est ão mud a nd o, e ntr a ndo e m uma

n

ova er a , po u co v i s í ve l , m as, ainda assim, ava n ça n do . Já os a nti gos

po l os d a in dú s t r i a e d e tu do aq u i l o que propicio u a i mp or t â nc ia

d a s i der úr gica n o Nor t e e em Lorrai n e mostram si n ais d e fraqueza .

44

p a r a se tornar ame ric a no ?", d e R é gi s D e b r a y" . E sse a ut o r t e m ,

not a d amenre , a n a lisa d o a " l í n g u a d e ve nto " de 6 8 e, ao mes mo temp o, a rea lid a d e in s t áve l d a soc i e d a d e franc es a d a qu a l Maio d e

26

2

8

29

2

7

P r im eir o a t o d a cr i se em 1 96 2 , em Va l e n cie nn es , e um d os úl t im os , o d es m an t e l a m en t o

da b ac i a d e Lo n gwy e m 1 9 78 . E n tre e ssa s d u as d a t a s , reestr ur uraç õ es , greves e o que a ind a

s e in titul a " p l anos socia i s".

H.

M a r c u se. L'Homme unidimensionnel. Par i s , Éd it ions d e M in ui t , 1 968,na ed i ção f r a n ce s a .

P.

B o u r di e u & J. P asse r o n. Les Héritiers. P a ri s, Éditi o n s d e Minu it , 196 4 .

R.

D e br ay. Modeste c o n t ri but ion a ux d iscou r s e t c é rém o nies officielles du d ixi ê me a nn iuer -

saire. P a r is, Ma s p e ro , 19 78 , P: 37.

45

R ÉG IN E R OBIN

A M E MÓRI A SAT URAD A

68 é o sintoma . "Discurso duvido s o , se m ancoragem

na mate ria -

"

gestão " - m od e lo da empre s a e m rede, descentralizada ,

qu e r e -

lidade sensív e l ou histórica;

sintaxe s em semâ ntica

na qual os

jeitou a s a n t i gas r e laçõe s hierárquicas ,

mod e lo

?a fluidez, d a f l e -

signo s jogam entre si, no ar

"

, m as também

aquilo que s e move

xibilidad e, da mu l tiplicidade,

d a mobilidade.

E um mundo

d as

atrás dessa sintaxe s e m s e mântica:

redes, e m que

o essencial é o es tab e l e cimento

das con ex ões, dos

contato s:

Na França , t o d os os Colombos da mode rnid a de a credit ar am, depois

d

e God a rd , que est a v am d e scobrind o a China e m P ar i s, qu a ndo atrac a ram

A ge n era l ização da forma rizom á tica é re c us a da por meio d e d if e ren-

n

a Calif ó rni a . Era o v ento d o O e ste que içava

as v e l a s, p o r é m , e les s e

tes m e t áforas que s e ref e rem

s eja d e modo c lás s ico à tece dura (ret a lh o,

guiav a m p e lo Petit Livre rouge qu e dizi a o c o ntrá rio , c omo os d e scobri -

dores sobre a Géographiede Ptolom e u . O pre s id e nt e M a o nunca teve uma

a l a par ê ncia de infa l ibilid a de a os olh os d e seus di s c ípulo s europeus a não

t

s

prevalecer sobre o vento do Le s te

3 0

e r n este momento da história, no qual o ve nto do O es te come ç a va a

Tratava- se de sous les pavés, Ia pIagé V , m a s n ã o e ra s enão o do Club

M é diterranée !V

Somente n a seg u nda metade dos anos 19 7 0, o movimento, tido

como sintoma, poderá ser a nalisado e colocado em uma cadeia

complexa d e acontecimentos. Será preciso então atravessar um

grande " desarmamento da crítica", rejeitando não a penas o comu-

laço, n ós) o u ao s dispositi v o s nos qu a is circulam fluidos (fluxo , oleoduto,

canal , linh as e l étricas) ou , aind a , d e man e ira mais moderna , à biologia d o

.) . O últim o registro é usado, particul a rment e ,

para a c e ntu ar a a u to n omia

a dos ser es q u e estão merg u lhado s n e l a , em que se descrevem a s prop r i e-

cérebro (sínapses, ne u rônio s

e m es mo a v o ntade da rede, m a is forte do qu e

dade s n a l inguagem da auto-organização , da a u torregulação, da morfo -

gênese es p ont â nea " .

O c a p i t a li smo

soube se transformar , se reformar, adotando ,

adaptand o o discurso de alguns do s seus adversários. E l e so ub e

endo s s ar a "crítica art í stica " que, por todo o mundo, nos anos 1960 ,

ap e lava a "mu d ar a vida" e d e fendia

as transformações mais qu a -

nismo real, suas d e r ro t as, sua s repressões acompanhadas d e revo ltas

l

i t ativa s qu e quantit a tiva s ,

a autonomi a , a criatividade. Ele s oub e

ou t entativas de resistência (o ano húngaro de 1956, o ano tcheco

t

irar prov ei t o da aspiração à segmentação, à fragmentação, à i ndi -

11111

em 19 7 9, o esta do de sítio na

Polônia em 1981 etc. ) , mas tamb é m

e de revolução social . Os anos 19 7 0 v e e m tamb é m a inst a lação da

s o c iedad e pós-moderna da s redes e o r e cuo de um movimento

operário que perdeu sua identidade .

Luc Bolt a nski e Eve Chiapello analisam as transformações dos

último s 30 anos e as novas configur a ções id e ológi c as que nos

d e limitar a confu sã o id e ológica . Nenhuma

dispositivo s críticos v e io sub s tituir os d i s-

a lternativa aos an t igos

governam. Eles ten t am

d e 1968, a invasão do Afeganistão

a pr ó pria ideia de comunismo

cursos revolucionários, reformis tas ou mes mo o discurso do

keyne s ianismo. Essa nova conf i guraç ã o emergiu do mod e lo de

3

0

I dem . p. 3 5 - 36 .

46

viduali zação . O novo espírito do capitalismo se apoia sobr e as

crítica s qu e denunciavam ent ã o a mecanização do mundo. E le

retom o u por co n ta própria a reivindicação de autenti c idad e , a

rejeição d a rnassificação, da p a dronização , da inautenticidad e . E l e

entrou com o s dois p é s na so c iedade pós-industrial, nessa so c i e dad e

das rede s, d a in formática, do apagamento das fron t eiras, das id e n-

tidades poro sas . O s novo s mecanismos capitalis t as de organização

do trab a lh o d if u n d em, à s ua man e ira, a crítica ar t ística dos anos

de cont e st ação . A t é mesmo L ' Homm e unidimensionnel de Marcuse foi recup era d o .

3 1 L . Bo lt an s ki & É . C hi a p e ll o. L e No uve l Esprit d u ca p i ta lism e. P a ri s . Ga ll í m a rd , 1 999.p. 1 78.

47

O u t ros,

RÉGINE ROBIN

se gundo a c o mp reensão de Mich e l Foucault, pensaram

a

passagem d e um a so c ie d a d e da d isciplinarização a uma sociedade

d

o co n tro l e" . O g r an de p eríodo de acumu l ação do capi t alismo

vi u a insta u ração d e u m a re d e d e ins t i t uições ( o asilo, o hospi t al ,

a pr i são, d epo is a esc o l a, o a t e l iê, a usina), um conjunto de me c a-

ni s mo s es t r uturando o socia l , r ege nd o os comportame nt os, d e

forma a tornar dóc e i s o s i ndi v ídu os e a sancio n ar os com p or t a m e n - tos d es viant es. A s oci e dad e d e c o ntr o l e o u pós -m o d er n a o b e d ece

a out r o s mecanismos. El a é u ma socied a d e de comunicação, d e

inform a ção , em que os proc essos d e si ngul ar i zação, de su b jet ivação,

p e l os ind iv íd uos d e seu " l ugar",

r e pou s am s obre a int er ior i z ação

muito m ai s que pel as estr u t u r as de a ut ori d ade hierarquizadas. Enquan t o a modernidad e h a vi a vis t o a afir m ação do poder d o s

E s tados-nações, a sociedad e d e c o ntr o l e e d e re d e é t estem unha

d e seu de c línio. São soci e d a d es cu j as est r ut uras p ro d u ti vas são

cada v e z mais desterritorializ a d as, e q u e t e nd e m a se t ornar for mas

d e exploração e de contr o le d as estrutu ras d e t ra b a lh o.

A s difi c uldades d essa " tr a n s f e r ê n c i a', d essa p assage m , foram

p recipit a da s p e la implosão d os regi m es com un is t as.

A MEMÓRIA SATURA DA

dos ho r r ores q u e tinham acompanhado a edificação da sociedade sovié tica - q ue aliás eram conhecidos por quem quisesse v ê -los

h á 50 ano s - t ornava ao mesmo tempo hediondo, quimérico e

r idícul0 33 Fuku yama decreta o "fim da hist ó ria" a morte das ideologias,

t entação à qu a l não sucumbiremos, pois, se assistimos

dança de c o n juntu ra, a uma inversão das polaridades do discurso, na verdad e, as i deo l ogias não morreram. Assistimos, ao contrário, ao reto r no d a "mão invisível" de Adam Smith, a ideia de que o capitali smo era u m modo de produção "natural", um dado no qual

n ão se d e vi a t ocar, um pouco como a proibição do incesto no

fu ndame nto s imból i co de nossa sociedade. Vimos, também, res-

s u rgir a id e ia d e que as estru t uras de mercado e a democracia es- tav am ligada s p or na t ureza, esquecendo que a democracia tinha sid o historicam en t e uma conquista. Re t omemos a imagem de Marx que abre seu 18 Brumaire. O co s tu me romano é o arse n a l memorial das revoluções do passado, alg u mas imag en s c h ocan t es q u e se tornaram, depois de muito

t e mp o, arqu é tip os. A lin guagem emprestada é a linguagem do

a uma mu-

 

N

a se gunda met a de d os a no s 19 8 0 , com o fim d a G u erra Fr i a,

des ejo ao modo de Deleuze, a linguagem de um marxismo ra-

o

capitali s mo se viu só, sem qu e n e nhum a a l ter n a t iva c o n f iá ve l

dicali zado, a do "mudar a vida" e da reje i ção da sociedade de

p

a r e c es se poder

ser oposta a e l e. E ssa crença não se imp ôs so m e nt e

consu mo . Al guns anos depois, uma vez que todo esse simbolismo

a

o s g es tores de um capitali s m o triun fa nt e . E l a fo i a mpl a m e nt e

e

e s sa retóric a n ão t erão mais uma função social , eles se apagarão.

p

a rtilh a da p e los s impat iza nt es e milit a nt es dos a nt igos pa rtid os

Cri se do e squ er d ismo, nova filosofia, entrada na era do vazio e do

d

e es qu er da que , na s ua gr an d e mai o r i a, e mesmo q u a nd o e m er -

h

e do nismo se m freio, deslegitimação de toda ideia de revolução,

gi am de partido s comun is t as f orte m e nt e em dec l ínio, tinh a m

c omo d e s e jo , para conse r var um a l eg it imi d a d e q u e lh es e r a ca d a

ve z m e no s facilmente r e conh e cida , mo s tr a r qu e ti n h a m r e nunciad o à v i ol ê ncia revolucionári a , a o proj e to d e um a m ud a nç a s ocial radical , à proj e ção no futu ro d e um a soci e d a d e no va e d e u m hom e m novo, a um fu t uro pr o mi sso r, c u j o pl eno re c o nh ec im e nt o

32 É o caso d e M. H ar dt & A. N e gr i e m Empire (Exil s, 2000). O quadro episterno l ó gíco n ão

d e L . Bo l tansk i & E. Chiape l lo, mas um certo número d e

t em n a d a a v e r co m o qu a d ro co n s t a r açõ e s co n ve r ge .

48

publ icação d e L'Archipel du Goulag, de Soljenirsyne, apagamento do marxismo até mesmo em nível superficial , desaparecimento

d as p a l avras "id e ologia" e "a lienação" no discurso social , desapa-

r e cimen t o da s b a nd e iras verme l has ou pretas co mo símbolos co- locarão, definiti vament e, fim ao imaginário revolucionário. Entram

a ~s i m em cena os R oyer - Co llard, os Guizo t etc . "Quando o obje-

t

i vo foi ati ngido, isto é, quando foi realizada a transformação

3

3 L . Bolt a n s ki & E. Chiape ll o. L e Nouv e lE spri t

pp. 4 15-416.

49

R É G I N E RO BI N

burguesa da sociedade inglesa , Locke ex pul s a Habacuc. P' Quando ,

a pós 68 , a bandeira verm e lha e a b a ndeira pr e ta n ão r e pr ese nta v am mai s nenhuma segurança , emergiram aqu e le s qu e Gramsci chama v a de " int e lectuais orgâ n icos" d a nova era do capitalismo , em uma const e lação diversificad a : La Pensée 6 8 35 com o afastam e nto de Althusser que desaparece do horizonte do discur s o s ocial bem ant e s do ato criminoso que o retira da so c i e dad e, e de Foucault; os novo s pensadores do capit a lismo e d a re s ignaç ã o s ocial , com Alain Minc; os pensadores (não necess a r iam e nt e os b a jul a dor es) da era do vazio, da sociedad e pós-moderna , como Lipovetsky " :

os ideólogos da nova cultura li v r e da s ideia s d e revolução e do conc e ito de classe . Reconheceremos f a cilmente a cena cultural francesa dessas ú lti mas décadas. Não é surpresa encontrar um certo número de líderes do mov i mento estudantil ou de diversas igrejas

e squerdi s tas que estejam ocupando cargos de conse lho admini s -

trativo, em posições de "cons e lheiro s do prín c ipe " ou em minis- térios. Não é tão surpreendente em função de uma propensão da natureza h u mana a "pender para o lado mai s forte ': ma s porque as novas ideologias vindas deste período de t ransição dos anos 1960 e do iní c io d os anos 19 7 0 convinham p e rfeitam e nte aos que tinham pregado que era preci s o "mudar a v id a ".

A não contemporaneidade

Quando Ernst Bloch publica Héritage de ce temps, em 1935, e l e já

e s tá e x ilado e tenta a n ali s ar as c a u s a s do triunfo do fasci s mo na Alemanha , da derrota extraordinária de um pod er oso movimento oper á rio , embora dividido em dois de s d e o esm ag ament o do mo-

I~

34 K . M a r x. L e 1 8 B rumaire

35 L . F e rr y & A. Ren a ut. L a P e nsée 68 . Su r l'anti-h u m anisme c o ntempo ra in . P a r i s, Ga Ilim a r d ,

, P: 1 7 .

1 98 5 .

36 G. Lipove t s k y . L ' E r e du u id e . P a r i s , Ga l lim a rd , 1 996 .

50

A M E M Ó RIA SA T URAD A

vimento es parta qui s t a em 1919 . Ele utiliza uma noção-chav e : a

"não contemp ora n eidade " . As forma s d e p e n sar e de agir , ou de sentir, que não respondem

às contradiçõ es do p rese n te e que podem ser símbolos no passado ,

às vezes em é poc as remo t as,

de cris e, re ss ur gem formas de con s ciê n c ia pr é - industriais e pr é -

-moderna s, r omâ nt icas, r e l igiosa s, irracionais. A hostilidade e m relação ao pro g r esso e um cris tianismo muito conservador pode- rão facilme nt e i n strurnentaliz a r a nostalgia de tempos pass a do s. Os partido s d e esquerda na Alemanha, em sua divisão mortífera, deixaram o campo livre p ara todas as manipulações fascistas. Hou v e a utilizaç ã o d e: p a l avras, símbolos de bandeiras, slogans, g es tos, manifesta çõ e s, e um a f i na estra t égia de desvio de sonhos perten- centes a époc as a nt er i or e s.

não são contemporâneas. Em p er íodo

1. Se c o me ça roubando a cor vermelha, e la foi utilizada p a r a diluir . A s primeiras pr oc l amações do s n a zista s eram impressas sobre um fundo verm e lho , es p a lh ava-se e s sa cor s obre a f a l s a bandeira . Os cartaze s torn a- ram-se cad a v ez ma i s pá lid os, de maneira que não assustavam mais os doadores de fund os. A bandeira trazia t a mb é m desde o iní c io o seu s ím-

bolo torcid o

entanto, qu a nd o u m operário esperto recorta e remove a cruz suá s tic a , restam apena s m e tr os de t ecido verm e lho. Com apen a s um buraco no meio, como u m a b oca grand e aberta e totalmente vazia .

2. Em s e g uid a , se rouba a ru a , a pr ess ão que e l a exerce. O desfil e , a s

canções pe r igo sas que t in h am sido cantad a s. O que os combatentes da Frente Vermelh a h aviam inaugurado, a flore s ta da s bandeir as , entrada na sala , é o que pr ec i same n te o s nazist as imitaram

e do b rado, é e ss e símbo l o qu e lhe deu nome, e não a cor. N o

37

Houve t a mb é m a transformação d a terminologia, d e classe ope - rária para " corp o operário " , e um verdadeiro emprego de distorções.

37

E . B l oc h . H é rita g e d e c e t e mp s . P a r i s, P ayo r , 1 978, p . 64 .

51

R

ÉG INE ROB I N

A propaganda nazista s , eapropriava de uma parte dos símbolos

li!

d o mo vime nto op e rário , mas também fazia empréstimos aos

movimentos h e réticos da Idade Média. É assim qu e Joach i m de

Fiore des e nvolveu a dou t rina utópica e profética do "Terceir o

Mil ê nio " , chamado

tivo. Era a imagem do "Tercei r o Evang e lho " que acompanhava as

r e volta s da Idad e M é dia. El a impregna a guerra do s camponese s

e p e rdura no d e correr do s séculos . A e xpressão foi dest ituída de

sua s conotaçõe s utópicas e sociais e colocada a serviço da propa - gand a nazista sob o termo Drittes Reich (Terceiro Império ou, mais

para re c uperar a pure z a do cristianismo primi -

e

s p e cificamente, Terc e iro Reich). Essa noção já havia sido utilizada

e

d ist orcida por Moeller van den Bruch no sentido reacionário . D esfil e de espect r o s , d e l e mbranças pervertidas. Tudo vai ser

a

ss im d is t or cido , colonizado , deturpado pela propaganda nazista

que se in s tala em ter r as abandonadas pelo imaginário social - -d e moc ra ta ou com u nista , incapaz de pensar a não contempo- rane i dade. Em out r o lugar , e mai s perto de nosso tempo, as lutas re p re- sentam pl e nam e nte , consc iente ou inconscien t emen t e, o mapa da não contemporaneidade , como mostraJérôme Basc h e t a p ropós it o do s discur s os da revo l ta do s Chiapas ".

No s t e xto s do mo v imento EZLN , a s referên c ias ao pass ado são on i pre se ntes. É nec ess ário s alvar a mem ó ria d e lutas do e s queci- mento induzido p e la globalização. As f ó rmulas do movimento

s ão paradoxai s: " olhar para t rás para seguir em fr e nt e", " a va nçar em direção ao pas s ado". Compreende-se que não se trata de um retorno fantas i oso ao passado, mas de r econ h ecer n e le u m a cer t a positivi- dade , de promover uma al i ança i néd it a entre passado e f uturo :

Se o pr ese nt e contínuo fundamenta sua dominação no esquecimento

do passa do e n a nega ç ão do futuro , a hi s tória deve s e esforçar para resta-

38 J. Basc h e t . "La bistoire foee au présent perpetuei. Q uelques remarques su r I a r e l ati o n pa s s é/ [atur", In: F . H ar t og & J. R eve l (orgs . ). Les usages pol it iques du passé. P a ri s, É dition s d e

I 'Éco l e d es H a ur es Ê tu des e n Scien ces S oc i a l es, 2 001 , pp . 5 5 - 74.

52

A MEMÓRI A SA TURA D A

b e lecer, no m esmo m ovimento , a m e mória d o p assa do e a p oss ibilid ade

de futuro . Rejei t ar a ti rania de hoj e s upõ e uma co ns c i ê ncia hi s t ó rica , in -

di s pen sáve l p a r a qu e b rar a ilu s ão d o fim d a h is t ó ri a e r ea brir a p ers p ectiva

de um futuro qu e n ão seja a repetição do pr e senr e ' " ,

A v a loriza ç ã o d as es t r u turas sociais pr é - capiral i sra s não é um fenômeno n ovo na tradição dos dominado s, c o mpre e ndido no movim e nt o operário, mas o zap a tismo traz a lg o de in é dito . Ele joga com v ários r i tmos e articula várias temporali dad es: pr i m ei- ramente, a época indíge n a, sem confinam e nto r e acionário nos tempos antig os; o t empo frágil e ince r to da modernidade não é de forma alguma re j eit ado, mas não s aberia pensar em ter mos li- neares, continuíst as, evolucio n istas; o p r es e nte eterno do s tempos de hoje, pó s -mod ernos, época da nova dominaç ã o globaliza nte que e les rejeitam ; o t empo de esperança, enfim, aqu e le de uma outra so c ied a d e q ue a t ravessa os três primeiros. Es s e novo tempo,

nas lutas contra a nova dominação liga o

local (a reivindic ação étnica, indígena) , o na c ional e o univer s al.

Essa articulaç ã o d e escalas é especificamente adaptada às lutas contra a re es trutu raç ã o capitalista no mundo, à era da de s localí- zação gene ra l iza d a:

a vir, mas já p rese nt e

De f a to, um a lut a exc lu siva para a identidad e e a autonomi a indíg e na

recondu z iria ao e tn icisrno e à s ide a lizações que a a comp a nh a m frequ e n-

temente ; aceit ar as fr o nt ei r as do México como horizonte político fa cilmente

leva a um fech a m e nt o n acio n a l ista , ou mesmo xe nófob o; enfim, manter

somente uma p e r spectiva u niversal imporia n e gar as part ic ularidades locais, étnica s e n ac i o n a i s que sã o a base sólida de t o do o m ov imento

social . O local, o n acional e o intercontinent a l , portant o, não podem s er opostos nem se pa rados ' ",

39

0

4

Id em,

I dem,

p . 65.

p . 7 1 .

53

Ill!l!

RÉG I NE ROBIN

Utilizar, para fins de luta, as tempor a lidades em desacordo com

a históri a significa reunir tempos de s conexos

síntese s, pensar a articulação do t odo sem totalização , seri a um

encontro improváv e l, uma ilustr aç ã o do funcionamento da não

cont e mp o raneid a de.

s e m tentar novas

Anacronismos

Contr a

o remoer

e a r eutil i zaç ã o

do passado , os hi s toriadores

mantêm,

apesar d e todas as cr í tica s, os laços da c ausalidade,

da

crono l ogia, da p e r í od í zaç ã o e da con s onância crônica , no sentido

de que o p e nsamento ,

da liter a tura

o discur s o social , as produçõ e s simbólicas

e da arte são filhos de se u tempo .

É Lucien Febvre, em François Rabelais, que faz do a nacronis mo

o pecado mortal da hi s t ó ria ' ! - v i .

Não podemos f az e r de Rab e lai s , es creve o autor, um incrédulo

camuflado . Isso é to r na r con t empor â nea de R a b e lais uma id e ia

que não é de sua época. Para L ucien Febvre, essa questão não é a

única. O prob l ema não é conhecer os pensamentos íntimos de

Rabelais, mas questionar as condiçõe s de possibili dade do ateísmo

no século XVI . Na época , tudo é envolto pela religião, submisso

ao cristianismo, a o catolicismo , nesse caso. Tan t o a vida p rivad a

II

quanto a vida profi s sional , ou mes mo os pensamentos públicos

como os pensamentos íntimos são governados p e la r e ligião . A

pertença a um tempo

de existir. Há muitos

necessári o, para per s onalidade s

alavanca. Impossíve l para Rabelais en c ontrar tal alavanca: nem

nas ci ê nc i as de seu tempo, nem no pensamento crítico. Marc Bloch

não dirá outra coisa: " Os homens se parecem mais com seu tempo

condiciona para os mortais o próprio fato

precursores,

afirma Lucien Febvre, mas é

de exceção, apoiar - se

em um a

41 L . Febvre. Le Problême de l'incroyance au XV/e siêde. François Rabelais. Par i s, Albin Mi c h e l,

111

11

1 968.

54

A M EMÓ RIA SAT U RADA

do que com seus pais " . Em todo c as o , o qu e deve ser e vitado em

uma conc epção científic a da história é o a nacronismo.

des sa

Jacqu es Ranciêre, qu e e l a borou

uma crític a m a gi s tr a l

concepç ão da história 42 , vii, l e mbra qu e todo trabalho

toric i d a d e t em lidado com uma het eroge n e idade temporal , com

um at r it o de t e m poralid a des d i ver sas , ex t e mporân eas um a s em

r e lação às ou t ras, com um ra ngido , com um a incompatibilidad e

tempo ra l .

operários da primeira m e t a de do s é culo XIX s e a fi r m a m como

prolet á r ios, à medida

que e l e s tomam con sc iência d e uma desco-

nexão d o tempo do d ia, n o qual ele s tr a balham, e d o t e mpo da

des prolétaires 43 . v i ii, o autor mostr a que o s

so b r e a hi s -

Em La nuit

noite , n o q ual e les fazem out r a coisa qu e não se e s p e r a d e l es - re-

parar s ua força de trabalh o, ou, no limit e , tramar, organizar-se

o que t e r ia tranq u ilizado

chado s . Nada disso! Eles são terriv e l me nte precoces. Eles passa m

a de legacia d e políc i a na qual foram fi-

- ,

seu temp o escrevendo v e r sos ale x andrino s present es na s tra g édi as

gregas. O que leva Jacqu es Ranci ê r e a po st ula r

qu e :

N ão exis t e anacroni s mo , m as modos d e co n exã o que pod e m o s chama r

positiv a m e n te de anacronias: acontec i m e nt os, n oções, signifi ca ções qu e

rebobin am o tempo , qu e f aze m circula r o se ntido de um a o utr a maneir a

que esca pa a qu a lquer cont e mporaneidad e, a toda identid a d e do t e mpo

" consi go mesmo". U m a an a c ro ni a é uma p a l a vra , um acontec i m e nto , um a

sequê n c ia significante ext ra íd a d e " seu " temp o, dotada ao me s mo temp o

da capa cidade de definir ori e nt a ções temp o r ais inéditas, d e gar a ntir o

salto ou a conexão de uma linh a temporal co m uma outra . É gr aç a s a es sas

bifurc ações, e s ses salto s e cone x ões qu e ex i s t e um p o der d e "fazer " a história

44

4 2 ] . R a n ciére . "Le concept d 'a n ac hr o ni s me er Ia véri t é d e l ' hi s tor i en " , L'Inactuel, n . 6 , 1 9 9 6,

pp .53-6 8 .

4 3

44 Idem.

La nuit des prolétaires. P a r is, Faya rd, 19 8 1 .

. en histoire", Le Genre humain, n . 2 7 , 1 993) escreve: " I mpo rt a meno s t er co n sc i ênc i a d e s i

m esmo do que te r a aud ác i a de se r hi s t o r ia d or, o q u e t a l vez si gnif ique ass u m i r o risco do ana c r onism o ( o u pelo men os d e u ma ce rta d ose d e anac r o n is m o), co m a con di ção d e q ue

Idem. "Le con c ept d'anachr o ni s m e

.:; pp. 6 7 -6 8 . Ni co l e Lo r a u x ( em "Éloge de l'anachronisme

55

RÉGINE ROBIN

Sobre o plano estético,

uma obra recente de Georges

Didi-

- Huberman retoma essa discussão com virulênc i a, fazendo dessa

vez , deliberadamente,

Duas figuras pécie de catador

o elogio do a n a cronismo v,

simbolizam a extemporanei dade :

o trapeiro,

es -

e cole c ionador de sucata, e o espectro.

O trapeiro é uma figura recorr ente

o reconhece em B a ud e laire :

do século XIX . Benjamin

Ei s aqui um ho m em encarregado de recolher os detritos d e cada dia da capital . Tudo o que a g r ande cidade rejeitou , tudo o que e la perdeu ,

tudo o que e la desdenhou, tudo o que ela destruiu , e le cataloga e coleciona.

Ele manuseia os arquivos da devassidão, o cafarnaum dos detritos . Faz uma triagem, uma escolha inteligente; r e colhe, como um avarento um tesouro, os lixos, que, mastigados p e la divindade da indústria, torn ar - se-âo objetos de utilidade ou de prazer 4 6 .

E , a p r opósito de Employes" , de Siegfried Kracauer, Benjamin acrescenta :

Assim vemos um trapeiro que, cedo, na alvorada, junta com seu bastão

os detritos de discursos e os farrapos de linguagem e os joga em seu carri - nho, rnal-humorado , obstinado e um pouco bêbado, não sem ter deix ado,

zombeteiro, tremulando ao vento pela manhã, um o u outro desses trapos desbotados, c omo "humanidade': " intcrioridade", " contemplação': Um trapeiro, ao a manhecer , na aurora do dia da revoluçãot" ,

Nosso trapeiro vasculha as lixeiras da história,

recolhe lixo,

restos. O qu e e le vai fazer com isso? Revend ê - los em pedaços? Sua

s ej a com consciência d e causa e es c olhendo as m o dalidades de operação" . Observaçõe s prudente s, mas decisivas.

4

5 G . Didi-Huber m a n . Dev ant l e t emps . Paris, Édition s d e Min u it, 2000 .

4

6 C . Baud e lair e, a pudW. Benjamin . C h a rle s Baud e laire . Paris , Pa y ot, 19 7 9 , p . 2 7 9 , nota 51 .

4

7 S. Kracau e r . L es em ploy é s . Paris, Av inu s, 2000.

48 W. Benjamin. " Un margin a l sort d e l'ombre . À propos des E mploy é s d e Siegfried Kracauer

( texto de 1930 )" . CEuvre s , tomo 2. Paris, F olia Essais , pp. 1 7 9 - 188 .

56

A MEMÓRIA SATURADA

busca

lavras ou de coisas, ele não poderá constituí - Ias de modo coerente,

de uma ún i c a vez. Em uma de suas crôn i cas de infância em Berlim, "La boit e à ou vrage", W alter Benjamin relata como, enquanto sua

mãe lhe da va um molde de bordado, revoltado contra a costura,

contra os b or d ados de sua mãe e tudo que ele não compreendia,

e le va i olh ar do outro lado do molde: "E enquanto o molde cedia , com um leve estrondo, o caminho da agulha, eu cedia de tempo

em tempo à tentação de comparar amorosamente o traçado revés,

que, a cada p o n t o q ue me aproximava do objetivo, tornava-se mais confuso" 4 9 .

é al ea tória , ele a deixa escapar, meio bêbado. Trapos de pa -

Poder i a ser a melhor

descrição

do que o trapeiro

v a i operar:

quanto m ais temo s a se n sação de q u e nos aprox i mamos do objetivo, mais isso s e t or n a confuso a partir do momento em q u e aceitamos

comparar o s tr a ç ados do revés. Não se trata simplesmente de re- combinar os dispe r sas fragmentos, mas de d i scernir nas montagens inéditas alg o das vozes esquecidas.

É o que faz Walter Benja min quando acumula seus arquivos, coleciona seu s t e x tos em vista de constituir uma nova forma para a escritu ra d e suas Passages:

Esse traba l ho deve desenvolver em seu mais alto grau a arte de citar sem aspas . A teori a dessa ar t e es t á em correlação muito estreita com a da

montagem . [

tinha nada a d izer. Apenas para mostrar . Eu não vou roubar nada de precioso nem m e apropriar de fórmulas espirituais . Mas, os f arrapos, a

sucata : nã o quero f azer -lh es o inven t ário, mas lhes permitir o b ter justiça de uma ún i ca ma neira possív e l: utilizando - os" ,

.] O mé t odo desse t rabalho : a montagem literária . Eu não

Recusa da síntese, à maneira dos historiadores,

evidência de

documentos

significant e. Os d ejetos e sucatas serão, pela montagem do autor,

singulares, promoção

do minúsculo,

do detalhe

49

50 Idem. Sens unique. Paris, Maur i ce Nadeau , 1978 , p . 11 4 .

Idem, a p ud G . Dídi-Huberrnan. Devant l e temps

57

., P : 12 1 .

RÉGI NE ROBIN

devolvidos à sua legibilidade sem uma con s trução sintética causal.

temporal em

seu atrito, s eus próprios es tratos, seu polir ritmo. Montagem sur-

re a lista, como e scr e ve Ern s t Bloch a propósito de Walter Benjamin,

busca de um inconscie nt e

montagem como "estética " e via nela uma limitação , uma aporia,

Benjamin

e s crituras da hi s tória.

E s sa montag e m permite p e n s ar a heterog e n e idade

da época. Adorno qualificava

essa

e Kracauer, ao contrário, uma d as condiçõ es das novas

Segunda figura , o espectr o , o fantasmagórico,

o fantasma,

conotando o r e torno do recalca do, mas também todas as bifurca -

ç õ e s, as v ias n ã o falseada s p e la história, o s derrotados, as soluções

as utopias s ufocadas. O e s pectro , aqui, é o terceiro

espaço que vai p e rm i tir transmitir uma parte da herança, o pa s sado

ab

a ndonadas,

a berto naquilo que e le tem ainda a nos dizer e no q u e temos ainda

a lhe dizer. O trabalho

d a ausência contra a presença

plena , a

A MEMÓRIA SAT U RADA

passado que nu nca foi present e e um futuro ainda desconhecido

viveu somente em e por suas m ás caras . E s sa s r e gressões ori g in a m

o novo , porq ue

copiam com vis t as a p rodu z ir um original 53 :

e las não são nunca um reto rn o

ao mesmo . Elas

É por isso q ue todo retorno ao me s mo (com e m o r a ç ã o , con s er vaçã o ,

restauração) é sempre acompanhad o p o r sua sombr a qu e e le de v er á d e i xar

para tr á s ou f ora d e le para al c ançar a quilo que e s t á di a nte d e l e, como se

aquilo que fo i deixado para trá s não cessasse de puxar p e l a m a nga is s o ou

aquilo que c orre à sua frente , condenando-o a nun c a chegar 54

Nessa bu sca do he t erog ê neo

e do não contemporâneo ,

no

sentido de Ernst B l och, daquilo que range no e mergir do aconte -

cimento, en co nt ra - se a intempestividad e ni e tzschiana. P e nsa r

contra seu tem po, com as sombras escondida s n as dobras do t e mp o ,

inscrição

da perda e da ru í na, ' O traço da perda contra a memória

o

faz ser co n t emporâneo dos gr e gos, ma s n ã o apenas frequ e nta r

saturada.

os gregos qu e não eram de se u t e mpo , convo car um pass a do que

Essas descontinuidades

temporais , e s s a s incompatibilidades

passam por iluminações, tulgu r ações, e ncontros inesperados , pelo

imprevisto . E s cutemos m a i s uma vez W . Benjamin:

A autênti c a imagem do p a s sa do aparece apen a s em um lampejo . lma -

nunc a fo i p resente. Para isso , reco r reu à s forma s inédita s. M ai s

uma vez, trat a - se de pensar a h e terogeneidade do tempo e dos

retornos . N i et zsc h e recusa a h i stória antiquária , aqu e la que procura

verdadeira s fi l iações, continuidades,

passado, em suma, toda problemática da identidade. "Só um pen-

verdadeiras heranças no

g

e m que surg e a p e nas par a s e e c lipsar eternamente a partir do insta nt e

samento

que se identifica com seu tempo n e c es sita de identid a d e ," ?

s

eguinte . A v e rdade imóv e l , qu e, s ó espera o p e squisado r , não correspon d e

O outro

ret o rn o é aque l e que não aconteceu ,

de um tempo des e s-

de maneira a lguma a o conc e ito d e verdade em matéria de história . Ele se

baseia muito m a is no verso d e Dante qu e diz: Tratá - se d e um a imagem

única, í nsub s titu í vel do passado que se esvaiu com cada pr e sente

s oube se re c onh e c e r visado por e l a 5 1

que não

do mesmo ou do

outro não r e conhecido .

pec t ro do comunismo." 52 O a contecimento no cruzamento de um

Há, al é m da heterogene idade ,

os atrop e los

" Um espec t ro as s o mbra a Europa:

o es -

SI I dem . S ur le concept d'histoire. Apu d G. Dídí-Hub e rrn a n . Devant le t emps

52 K . M a r x . Le manifeste du parti communiste . Pari s, 1 0/18, 19 65, p.

19.

58

, P : 11 6 .

tabilizado n a figura do internpestivo . Prousr .

Como escreve Françoise

pr e sent e é rea l mente alguém que nunca es t á n a hora . O p ass ado

cheg a tarde d e m ai s (sua h ora p ass ou) e o futuro cedo demais ( e l e ainda

não está na h o r a), a menos que seja o inverso : o pas s ado sempre chega

o

5 3

 

Ver as m a i s b e las p ág i n as

de F . Prou s t , De Ia r é sis t ance . Par is , L e C erf 199 7 , c uj a ref l exão

54

é muito in s p ir a dor a.

55

F . P ro u s t. De / a r é sis t ance

, P: 9 5 .

dem, p. 10 4 .

I

59

1"

I111

I

RÉGINE RO BI N

ce d o d e m a i s (O t e mp o , a g e r ação, aind a n ão c h egou q u e m va i o u v i r e re-

to m a r a h e r ança) e o f utu r o se mp re ch ega t a r de d ema i s ( j á o co nh ecía m os

atua l e n ão sa b er i a

c he ga r n a h o r a , quer tivesse um ar d e déjd-vu [já v i s t o ] ( d e fa nt as m a o u

d e fi g u ra nt e), o u d e jamais vu [nunca vist o ] e q u e n ão fo sse r eco nh ec id o

c om o t a l

1 em o u tras ve r sões) . O p r ese nt e nun ca é , p ortan t o,

56

R e t or n os , re p e tições , par ó d ias , imit ações, il u sões, e m form a

de fa nt as m as e de es pect r o s, h á re to r no d o r e c a l ca do no a conte ci -

m e nto , da " hantologia " como sublinh a D er rid a. Dig a- m e qu e

c ad áve r es v oc ê e scondeu no s baú s d a hi s t ória, e e u lh e dir e i qu e

tip o d e a contecimento v o cê d e v e esp er ar.

C ontinuando sua b u sca por uma história d a art e " outr a" , G e or-

g es Didi - Huberrnan, em seu grand e liv r o sobr e Aby Warburg ,

introduz uma des t erri t orialização da imagem e do t e mpo . A hi s -

t o ri c id a d e da imag e m não é de forma a lgum a aqu e l a da hi s tória, ma s diz re s p e it o a uma hi s tóri a f a nt asma gó ri ca,

1:11

1

I

[

.] n o sentid o d e que o a rqui v o

é co n s id e r a d o co m o um ves tíg i o m a t e ria l

e s cre ve qu e se tra t a, p a r a e l e , c o m o s " d o-

cum e nt os de a rquivo s decifr a do s", d e "restitu ir o t i mbre d a qu e l as v oz es

in a udív e i s" (d en un ho r b a ren Stimm e n wi e d e r K l ang f or b e z u ver l eih e n ) -

voz es d e de s aparecidos, vozes todavi a e sco nd i d as, duplic a d as a inda n a

do rum o r d os morto s: Warburg

s impl es gra fi a ou no s e s pirai s espe c ífic os d e um di á rio d o Qua ttr o cen t o

ex um a d o n o A rqui vo " ,

É O re to r n o qu e f asc ina Wa rburg e seu hi s t or i a d or. L e mb ra mo-

- n os, f re qu e nt e mente , do A d as Mnemosyne, d e A b y Wa rbu rg, d os

p a in éis o nd e figuram não s ó a m e mória c ul t u ra l da hum a n i dad e ,

m as o s traços, ras t ros, v e stígios, g e sto s, p at h o s qu e um a é po ca

56

I d em , pp . 1 1 3- 11 4 .

57

G. Did i - Hub erma n . L ' ima ge s urviva n t e . H is t oi r e de l 'a rt e t temps d esjàn tôm es selon A by

1 # zrburg. P ar i s , Édirions d e Mi nuir, 2002 , p . 4 0.

60

A MEMÓRIA SATURADA

pod er i a t er sobr e o ut ra, a man e i ra específ i ca que um a é poc a t i n ha de se r n ão cont e mpo râ n ea d e si m esma, e m se u t emp o. Culmina em M n emosyne, esse atl as inac a b a d o, essa ob ra hi p o - téti c a! Da ime ns a co l eção d e f ot ografias e d e d ocume nt os qu e se acumulavam na s ga v e t as para f or m ar u m ar qui vo, d e i men sas fo - togra f i as i mpressas q ue tinh a m sid o ex t raíd as d e l e, e ram, p rimei- ram e nt e, colad as s ob re p ainéis esc u ros, reagrup a d as p o r t e m as e

di s po s t as umas ao l a d o d as o ut ras. D e poi s, e l as foram c olada s

sobre gr a n des t e las d e l o n a n egra, es tic ad a s ob re qu a dro s . E x punham-

-se es s a s fotos con s tituind o um qu a d r o , d e acord o com reagrup a - rnento s c omplexo s, se m cr onologia. Os e lem e ntos s ão ap r e se nt a - dos com o máximo d e h e t e rog e n e id a d e p os sív e l , constituindo configura ções perrnut á v e i s, a r ra njo s e f ê mero s , e l e mentos cornb i - natório s em d eslocam e nto , impo ss í v e l d e fixa r . O que per s i s te é a man e i ra como as ima ge n s vão e vo lta m. M u lti plic i d a de de ima g e n s dispo s t as d e modo hip er t ex tu a l , p rec ur so rame nte, nova form a d e coleção e d e exposiç ã o .

Era n ecessári o invent a r um a no va f or m a qu e n ã o fos s e nem ar r naz e -

narnent o ( q ue consi s t e em a grupar as c o i sas m e n os difer e n t es possív e i s,

sob a aut o r idad e de um p ri n c ípi o d e r a z ão t o t a litária) n e m misc e l â n ea

(que c o n s i s t e em c ol oc ar junt as as co i sas o men os d i fere nt es pos s ív e is, so b

a não aut oridade do ar bitrár i o). E r a n ecessári o m os t r ar qu e o flu x o é f e it o

apenas d e t ensõe s, que o s f e i xes re unid os aca b a m p o r ex plodir, m as tam-

bém as dif erença s d es enh a m as c o nf ig u rações e as de sse m e lhança s cri a m

junt as ord e n s d e s aperc e bid as d e c o e r ê n c i a. Nome a mos essa forma d e montagem 5 8.

Mn em o syne desdobra, a s s im, v i s u a lmente as de s co ntinuidad es do temp o . Warburg justap õe so br e a m e sma t e l a negra a agonia do antigo d erro t ado e o triunfo d o v e nc e dor r e nascente , e l e romp e com a u n id ad e t e mpo ra l d esse d es tino . D á a ve r a maneira como

" a fórmul a " só t e r á sobrev i vi d o à c u s t a d e um hi a to identific á v e l ,

58 I d e m , p . 474 .

61

R

É GI NE ROBIN

nesse caso, a "inversão din â mica " de sua significação. Temos lidado bem com a montagem de uma nova forma, como o próprio War- burg explica:

o Atlas de Mnemosyne, com seu material iconográfico , a l meja ilu strar

o processo que podemos conceber como um a tentativa de as s imilar, por

meio da representação do movimento vivo, uma b a se de va l or e s expressi- vo s pré-formados. Mnemosyne, como rev e l a m as r e produções do referido

atlas, an t es de mais nada, pretend e s er s omente um inventário de forças

a

dvind as da An t iguidade que marcaram o estilo da s obra s do Renascimento

e

m sua maneira de representar o movimento vivo . Tal aproximação com-

p

a rativa (eine solcbe vergleichende Betrachtung) devia [

.] procurar com-

preender, por um a reflexão soc i op s icológica mais aprofundada , a função

significativa q u e preenc h e o s valo r es expr es sivos na técnica espiritu al conservados na m emória 59.

É preciso , portanto, abordar a migração da s image n s, sua transmissã o por quebra - cabeça anacrônico, em um a sobrevivência que em nada segue o fio do tempo . Trata - se d e construir uma memória social descontínua. Desconstruir, escreve ainda Didi- -Huberrnan, o á l b u m de recordação histori c ista de influências d a Antiguidade para substitu í - I o por um a tlas

II!:!III

] da memória errática, regulado p e lo incon s ciente, saturado de imagens

het e r o g ê neas, invadido p o r e lemento s anacr ô nico s e imemori a is, a s s om - br a do p e lo negro da t e l a , qu e , n a m a ioria da s ve ze s , ex erc e o pap e l de

indicadores de lugares v a zio s, de e l os p e rdido s, d e bur ac os d a memória. Sendo a memória fei t a de buraco s , o novo pap e l a tribuído p o r Warburg,

ao hi s tori a dor da cultur a , é o de um inté rpret e de recalque s , de um vidente

(Seher) de buracos negros da memória 60 .

[.

59

60

Idem.

Idem.

p . 475 .

p . 483 .

62

A MEMÓR I A SATURADA

No tas

S. Fr e ud . " Record a r. r e p e tir e e l a b orar. Novas reco m e nd ações s obr e a téc n ica da p sicaná-

l i se n " Obras psicológicas completas de Sigmund F reud , vo l . X I! . E di ç ão Standard Brasileira

(ES B ) . Ri o d e J ane i ro. Im ago, 1 9 9 6 . [N. da T . ]

completas de Sigmund F reud, v. XIV. E di ção

Standard Brasil e i ra (ES B ). Ri o d e j a n e iro . Im ago, 1 976 . [N. da T . ]

i i Idem. " Lu to e m e l a n c oli a" . Obras psicológicas

iii

i

por isso a m a nti v em os e m fr a n cês. Em português. uma tradução ap r oxima d a se r ia " Sob as ca l çada s. a pr a i a" . [ N . d a T.]

v Co nh e c ido tamb é m c o m o C l u b M e d , o C lub M é d i ter ra n ée é um a e m p r es a es p ec i a l izada

e m serviço s de h o t e l a ri a e l azer, F und a d a em 1950. na Fra n ça. a em pr esa se es p a lh o u pe l o mu n do. insta l ando -se e m r eg i ões turí sti c as . [ N . da T.]

G . D e b ord . A sociedade do espetáculo. R i o d e J a ne iro. Co ntr a p onto, 1 997 . [N. da T . ]

E x pr essão r e fer e nt e a um d os i mp or t an t es slogam d o moviment o p o l í ti co d e Maio d e 68;

v

vi . Fe bv re. O problema da incredulidade no

L

século XVI: A religião de Rabelais. São Pau l o.

 

C

omp a nhi a d a s Letra s. 2009 . [ N. d a T.]

v

i i J . R a n ci ê re. " O c o nceit o d e a n ac r o ni s m o e a ver d a d e d o hi s t o r i ad o r ". In: M a rl on Sa lom on (org. ) . História, verdade e tempo. C h apec ó , A r gos, 20 11 . [N . d a T .]

v

i i i Idem. A noite dos proletários: Arquivos do sonho operário. S ã o P au lo . Co m pan hi a das Le t ra s .

1 988 . [N. d a T. ]

63

RÉGIN E RO B IN

descobrir que o p ass ado nunca esteve totalmente morto, qu e e l e

prepara s u r presas, ma s qu e, para lh e d a r s ua v irul ê ncia , é preci s o cheg a r n a h o ra, nem m a i s ce do nem mai s tarde. À s ve ze s , é m e lhor

virar a página

m u ito c e do. A meno s que e la tivess e inventado totalm e nte essa

h is t ória de 1898 e que e le, de s u a parte, lhe tivesse feito acreditar que h avia arquivos, um pa s sado que dormia, pronto para ser acor- dado; a menos a i n d a que um ci n easta tive s se e le mesmo inventado

Fio s do pass a do que não s e a rti c ulam, reai s

os dois personagens

o u in ventados, mas que devem permanecer juntos e , apesar d e tudo , se tecerem e se destecerem sem ce s sar.

Manif e stam e nte, e l a chegara muito tarde ou muito ,

No tas

ii

G e o r ge A r rn s rrong C u s t e r f o i um conh ec id o g en e r a l a meric an o qu e c hef io u a fa m osa

b a t a l ha d e Lirt l e B í g Horn , n a qua l foi d err o t a d o p e l os índio s, d e ntr e os qu a i s es t a v a o líder T o ur o Se ntado . [N . d a T )

N o Br asil , a séri e b ase a d a n o r o m a n ce intirulo u -se O homem de Virginia e es t reo u em 1 962 .

[ N.daT)

iii Opt a m os p o r manter o t e rm o imagerie t a l co m o a p a re ce na o br a d evid o ao f a r o d e q u e,

a l é m d e a p a r ece r em tex r os d e a utor es bra s ileir os g raf a d o em fr a n cês, e l e di z r es p e i to à noç ão f o rmu l a d a por A 1 a in Rénaud ( 1 98 9 ) . Esse a ut o r ob s er va as mudan ç a s a p a rtir d o

proc esso d e si mul ação inte r a tiva, n o qu a l a image m d eixa se u ca r á t e r es p ec ular p a r a ser

n

d

"

n

a ri o". / n: VV . AA. Videoculture di Fine Secolo. Nap o li, L i guori , 1 989, pp . 11- 27 . [ N . d a T )

Pen sar e I ' I m magine O gg i . Nu ove I m m a gini, N u ovo R e gime d e i V i sí bile, Nu o vo Immagi-

e i magen s . Daí o t ermo imagerie. P a r a sa b e r m a i s so bre essa n oção, ve r A . R é n a ud .

ã o a p e n as reprodu zí d a, mas m a nipu l áv e l , c on v ert e ndo -s e em um co nj u nto d e produ ção

iv é ri e de t e l ev i são america n a c ri a d a por Ale x Ha l ey. [ N. d a T )

S

80

3

A cor do esquecimento

Da destruição de lugares ao apagamento de v estígios

Demolir

Evocar ei primeirame nt e as d es trui ções pur as e s impl es . Quer s e devam a u m fenômeno natur a l (um t e rre m o to, um a ca t as tró fica inundação), ou resulte m d e gu e rra s e bomb a rd e io s, e l as d evas tam a paisag em. Ima ginem a s cid a de s p es ad a m e nt e danifi ca d as c o mo Berlirn , ou qua se e limin a d as d o map a como Dre s d e n o u Va r só - via - sem contar o vand a lis mo dos p e ríod os r e v o lu cio n ár i os ou contra rrevolu c ionári os, n o qual es t á tu as, m o num e nt os, e d i fício s simbólic os são atacad os . T a l é o cas o d a d es truição pr o g ra mad a do paláci o da R e pública d a a ntiga República Demo c r á tic a Alemã (RDA), em Berlim, qu e n ã o d e veria tard ar a ser s ub s tituíd a por uma re s t a u raç ã o "fi e l" d a f a chada do anti g o ca s t e lo de Hoh e nzol- lern. Tr a t a-se, também, d e vandalismo , do a pagame nto d e toda a memó r i a da RDA qu e es t a v a em proc esso nos prim e iro s ano s da reunific ação: mudança de nom e s d e rua s, d e molição d e e difícios, projeto d e remod e lagem d e Al e xande r Platz, d e struiçã o d e es toqu es de livr os d as antiga s bibliote ca s, di s p ersão d e obj e to s e m obíli a dos anti go s e difício s públic o s, desd e e nt ão fadado s aos m e rc a dos de pulgas ou à decoraç ã o d e bare s e c lub es noturno s

81

RÉGINE ROBIN

As dest ruições resultam t ambém de renovações ur b a n as, res-

taurações que não são unicamente reabilitações, no sentido

os urbanistas dão a esse termo. Mesmo as "rest aurações idênti c as" ,

como a da praça do V i eux-Ma r ch é , em Varsóvia, ou de certas ruas

de Buda, em Budapeste , m e smo a imitação da pátina e a cópia fiel

do antigo são destruições . Nesses dois exemplos, a reconst rução se deu sobre ruínas devido à guerra. Porém, muito fre quentemente ,

a própria res t auração começa com um a demolição. Sem se deter nas ope r ações imobiliárias parisiense s que começam no fim dos

a n os 1 950 e avançam ao longo do s anos 1960 e 1970 , é como ape-

nas comparar a "v e lha Paris" com o que os governo s , os planeja - dores e os urbanistas fizeram com Paris, com o 19 2 e 20 2 distritos,

mas, t ambém, com o 13 2 , da praç a d e Itá lia à porta d e Itália, ou de

Vitry, com o 16 2 em torno de Montparnas s e e com o 15 2 até a beira do Senna. Antes disso, o barão Haussma nn já tinha destruído uma

Paris q u e não está mais em nossa memória coletiva . No enta n to,

Viollet - le- Duc não fazia outra coisa em sua teoria da " r e stauração" .

que

tomo VIII, Violle t -le- Duc d efini a

assim o q u e c o n v i nha ser feito : " R es taurar um e difício não sig ni -

fica man t ê - l o,

completo qu e pode nunca ter existido

Paisagens rurais e urbanas s ão a s sim tota lme nte ou parcialmente reconfiguradas, suscitando nostalgias ou ilus õ es de auten t icidade .

Em seu Dictionnaire raisonné, no

repará - l o ou refaz ê - lo, é rest abelec ê - lo a um es t ado

e m um dado mome n to"

I.

Anistiar

Os esquecimentos

sis t emáticos

em forma de perdões

ou de

anistias são u ma outra maneira de reali zar o apagame nto do passado das sociedades ' . Como tes temunha o p e rturbador t e xto do Édito de Nantes promulgado por Henriqu e IV:

A pud B. Fo u cart. "V i o ller - I e - Du c e t I a res t a ur a tio n " .l n : Pi e rr e N or a (o rg . ) , Les l ieux de

m é moi re, tomo lI . Pari s, G a llima rd , 1 986 , p . 622 .

2 Sobre a an i s t ia na Franç a, v e r S . Gaco n . L amnistie: d e la Commune ti Ia Guerre d'Algerie . Pari s, Le Seuil , 2002.

82

A MEMÓR I A SATU R ADA

Artigo 1 . P ri m eiramente, q u e a memória d e t odas as coisas passadas

de urna part e e de outra parte desde o iníc i o do mês de março de 1585 até

a

nossa ad esão à coroa, e durante os transtornos an t eriores e por oc a sião

d

e les, perm a n ecerá suprimida e adormecida como a l go que não aconteceu.

Não ser á l eg ít imo , n e m permitido a nossos pro c u r adores-gerais, nem a

outras pe s s oas q u aisquer , públic a s ou pr i va d as, em algum momento, nem por qualqu er r azão que seja , fazer menção a e l a, processo ou ação judicial

em qualqu e r cor t e ou jurisdição que seja.

Arti go 2. Defend a mos todo s os nossos interesses de qualquer e s t a do

ou qualid ade qu e r se jam para renovar a memória, afrontar, r esse ntir,

abu s ar n e m provocar um outro por cen s ura daquilo que se p asso u p or qualqu e r causa e pretexto qu e s eja, disputar, con t estar, repre e nder, n e m

se insul tar ou se ofender v e rb a l ou fisicamente; mas se cont e r e vi ve r pa-

cific a m e n te juntos c o mo i rm ã os, a migos e co n cidadãos , s o b pena ao s

contra ve nt ores de serem punido s c o mo infra t ores da paz e pe r turb a do res da tr a nquilid a de pública.'.

O p assado "nulo e não ocorrido"

é, então , o que as l e is da ani s-

tia procu r a m fazer , a fim de ac e l erar os processos de reconciliação

nacional , evi t ar novas gu e rras civis, garantir a continuidade

Estado. Em p rincípio, e s sas proibições de citações não concern e m aos pesqui s ad ores e, em particular, aos historiadores. O passado não

do

é apag a d o p e la anistia; e l e simplesmen t e está fora de al c an ce dos mortais comuns e não t e m mai s existência o f icial: a anistia inibe

a ação púb l i ca , os procedimentos

conden a ç ão n ão consta mai s nos regis t ros criminai s . Às vezes , no

entanto , hi s t oriadores ou jorna l istas são perse g uidos mesmo que, em prin c í pio, fossem protegidos . Um julgamen t o de 1965 em r e- lação ao li vro de Michele Cotta sobre a Colaboração ' , cujo autor

da denú ncia perd e u , apre se nta um parágrafo sob r e o qual os histo-

em curso são interrompidos,

a

Apud P . Ri cc eur. La m é moi r e , l'histoire, l 'o ubli. P a ri s , Le Seui l , 2000 , p. 5 8 7 .

83

RÉG I NE ROBIN

riadores se apoiam : " Se o l em br e t e de um his t or i a dor d o c om porta- me n to de pessoas envo l vidas com aco n teci m e nto s qu e e l e r eco n s- trói não podia ser feito p e lo f a t o de que a con d e n ação pena l qu e

esse compor t amento tem co nd uzido se enco ntr av a

estudo h is t órico sério seria im p ossív e l ". E o come nt á r io a r esp e it o

desse julgame n to especifica : "Os historiadores, e m razão de exi- gên c ias p r ó p rias à sua discip l ina, devem , n o di r e ito p ena l , se b e- neficiar de um regime um po u co partic ul ar'" , Mas, como mos t ra Stéphane Gaco n , a legisl ação e nd ureceu no s anos 19 8 0 , est i pul a nd o que, a par t i r d a l i, era proi b i d o a q u a l quer pessoa l e mb rar do s c a sos anistiados, o que podia enge nd rar um a prá ti c a de aut o c ensur a . Em 1994, o código pena l e l a b ora uma ace p ção m e no s res t ri ti va de s sa proi b ição, mas as fórm ul as perma n ecem a mbígu as. O a ut or lembra, to d avia, q u e vários l i vros foram escritos so br e a Co l a b o- ração, a pu r ificação, a OAS ii , a g u erra da Argé lia , sem qu e seu s autores, his t oriadores o u jor n a l is t as fosse m p e r seg ui dos. Esses

h istoriadores evoc a m fatos q u e os anis t iados n ã o r e n egam : "E l es viveram muitas vezes s u a co nd enação como uma inju s ti ça e s u a

anis t ia como perdão ou reabili t ação, ou m a i s geralm e nt e, co m o recon h eci m e nt o do fato d e q u e seu com b a t e não e ra c o mpl e t a m e nt e 1 egmmo

a n is ti a d a , tod o

'1

I '

" S

A l ém d i sso, a divu l gação d e arquivos, po rt a nto, d a quilo qu e

permi t e anal i sar o passado pe r manece uma prátic a o p aca . Co ntr a-

riame n te ao q ue acon t ece u com o Les t e depois do col a p so d a U R SS

!IIllii:111111

e

o d esa p a r e c i m e nt o da RDA , quand o os ar q uivos for a m avi d a m e nt e

e

imedia t a m e n te a b er t os, a Fr a n ça

te m

o h á bito do s i g il o. O s

a

t aq u es d os qu ais a p rime i ra ed i ç ão d o liv ro de Sonia Comb e -

Arcbioes in t e r dites . Lbistoire c onf i squ éé - foi a l v o mo s tr a m muit o

em a dific uld ade de disc ut ir a qu est ão d os a rqu iv o s, s eu co ntr o l e,

b

4

5

6

de Ia Commune ti Ia guerre d'Algérie. Par i s Le Se u i l , 2 00 2. p. 42 .

Idem.p.44.

S. Co mb e . Archioes interdites. L'histoire corifisquée. P a ri s. A l b i n Miche l , 19 94 . A se gunda

e d ição d o l i vro foi publica d a e m 2 001 p e l a editor a La D é couverte ,

Apud S. Gacon.lAmnistie:

8 4

A MEMÓRIA S AT URADA

se u " m onop ó lio", s u a c om u nicação. A h ist ó r ia está muiro bem

v igia d a, como l e mbrav a M a r c Ferro h á a l guns anos - iii.

Apagar

O passado é a p aga do aind a p e l os sil ê n cios e tabus ' : iv que u ma soc i edade m a nt é m. Essa espécie de amnés i a n ão tem nada de lega l ou d e regula m e nt ar, m a s p esa so b re o co n j unt o do tecido so c ial . O s sil êncio s são d e di f e r e nt es t i pos e pro pr ied ades.

U m acontec ime nto pod e se prod u z i r se m t es t emu nh a , se m

r es t o, sem ruín a, se m n ad a q ue p ossa rev e l ar qu e houve um a c o n-

t ec imento. N e ste caso, o sil ê n cio não é n e m vo luntário n em invo -

luntá r io, e l e é. P o r é m , p o d e m os t amb ém d ecid ir agir como se o acontec i m e nt o n ã o tiv e sse aco nt ec id o . É o qu e a organização nazis t a visava. N ão só a niquil a r a po pul a ç ã o j u da i ca da E u ropa , mas, t amb é m, os vestígios d o c r i m e e da p assagem n a terra d as comun i d ad es jud a i cas, d es tru i nd o se u s v ilarejos , suas sin agogas, seus c emi t é rio s, s uprimindo a t é o n ome d a q ue l es que iam d ire t a - ment e p ara a s câ mar as d e g ás ch ega nd o em A u sc h witz ou Tre bl i n ka e qu e n ão foram se qu e r r e gi s t ra d os o u lis t a do s. U m aco nt ecimen t o

sem r astr o.

E ra t amb é m o qu e pr o cu rava fazer a damnatio m e moriae dos

roman os. O di re ito p úblic o e pena l ro man o p ermitia atacar os soberanos d ec l a r a d os inimig os públicos, in c luindo os impera d o- re s a nt eriore s, n o m o mento de u ma rev ira vo lta política como Rom a exp e rim e ntou vá rias . D ecidia-se en t ão d estruir seus retr atos, sua s e s t á t ua s , s u as efígie s e e l i min ar as i n s crições que l evavam seu nome. Os ato s jurídicos que tinh a m s i do a pr o v ados dura nt e a s u a vida er a m anul a d os. E l es se to r n avam " n ão seres" . Tra t ava-se, como r e lata S u éton e em r e l ação a D omit ien , d e "a b o lir a memória" d e su a p essoa.

7

8

M. F e rr o , L'bistoire sous surueillance. P a ri s. Ca lm a nn - L é v y , 19 8 5 . Idem. Les tabous de l'histoire. Pari s . Nil é diti o n s, 200 2 .

85

R ÉG IN E ROBIN

Há acontecimentos que não deixam traço algum nos arquivos ,

ou cujos arquivos foram destruídos ou perdidos, e mesmo se h á

seu s

qu e d e ixam t r a ç os e m cujo s

arquivos são conservados, mas nenh u ma narrativ a lh e é incorpo-

rada , porque e las não interessam a ningu é m, a nenhum historiado r,

a nenhum curioso. As pilhas e caixas de arquivo s e s t ã o à e s pera ,

ma s não há ningu é m para abri-l os ou con s ulrá -Io s . Ele s n ã o sã o

nunca abertos, nem consultados , porque ninguém apareceu par a

a lguma s tes t emunhas,

ninguém está a qui para corroborar

frágeis dizeres. Há aconte cim e ntos

tirar o s seres do anonimato

e os f atos da s ubm e r s ão ,

para faz e r a

história daquilo q u e um dia aconteceu.

Georges Perec f oi assombrado p e lo aniquilamento,

e toda a

sua obra é marca d a p e lo desapare c imento de s ua mãe em Auschwitz

A MEMÓRIA SATU R ADA

por mais qu e tud o p a r e c esse n orma l: n ão hav ia i ndica ção q u e ass in a-

lass e o d esaparecim e nt o d e um infó li o ( u ma fi c h a d e a rquivo , u m f a nt as m a

com o se diz n a N a ti o n a l Ga ll e r y); p a r ecia nã o h aver nenhu m b ra n co,

nenhum b uraco vago. N ão e x i s ti a m a i s inc ô m o do: a di s po s iç ão d o t o t a l

igno r aV a (ou pior , m as c a r ava, d iss imulava ) a omi s são: era nece s sário

percorrê- I a a t é o final par a sa be r, com a aju da d a s ubt raç ã o (v int e ci n co

com s ub scrição do " U M " ao " VI NTE E SE I S", ou se j a , vint e e seis menos

vint e e ci n co d á um) , qu e fa lt ava um i nf ólio; e ra preci s o um l o n go c á l c u l o

par a ver que s e trat a v a do "C I NCO"10 .

Ou a ind a:

F a lt a v a u m . H a vi a um e s qu e ciment o , um branco, um bura co qu e

e

p e lo certificado d e "desaparecimento"

qu e e l e recebeu em 1959 .

ningu é m ti n h a percebid o, n ão tinh a vi s to , não podi a, n ã o quer ia ver.

S

ua mãe não fo i morta em

11 d e f e ver e iro , data em qu e o comboio

Havia um desaparecid o, al go tinh a de sa p a recido.

.] Tudo p a r ece no rm a l ,

onde e la tin h a sido encarc e rada d e pois de s ua dete nção em Paris

deixa Drancy . Mas quando então? No s vagõ es s e lados com chumbo

que partiam para A u schwitz? Imediatam e nte à sua chegada ?

Depoi s ? Um c álculo macabro es t ab e lec ido p e la administraçã o

francesa supõe q ue esses tren s chegavam a Auschwitz entre três e

cinco dia s apó s sua par t ida, ou seja , C y r l a Schu l e wic s teria chegad o

em 16 de fevereiro de 1943 . Ora, o decret o ofic ial afirma que e l a

foi morta em 1 1 de f evereiro em Drancy . Portanto,

de c larados no docume n to são falso s.

a d a ta e o l ugar

Desa parecimento,

vo l atiliz a ç âo,

aus ê ncia d e r a stros. O mai s

tudo p arece são , tudo parec e sig nifica tivo, mas , s ob o abrigo in s t áve l d a