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Empoderamento para servir – João 13.

1-20

Começo citando uma frase atribuída ao professor Boaventura de Souza Santos: “Temos o
direito de ser iguais quando a diferença nos inferioriza; e temos o direito de ser diferentes quando
a igualdade nos descaracteriza. Daí a necessidade de uma igualdade que reconheça as
diferenças e de uma diferença que não produza, alimente ou reproduza as desigualdades”.

Acho que é no contexto desta igualdade que busca extirpar a diferença que inferioriza e
que busca diferenciar a igualdade que descaracteriza que a palavra empoderamento tem
ganhado força nos últimos anos. Este termo tem sido comum e frequente nos lábios dos grupos
minoritários como: negros, LGBTS, indígenas e feministas em geral.

Não é momento apropriado para discutirmos a respeito destes grupos, levantando


questões a favor ou contra as suas ações e petições, mas quero destacar que é na preocupação
consigo mesmo ou com o nicho a que faz parte que estes diferentes grupos têm lançado mão da
palavra empoderamento.

Nesta nova serie de mensagens lanço mão deste termo secular para também dizer que
somos pessoas empoderadas. O nosso empoderamento, no entanto, não nasce de nós mesmos,
não nasce apenas dos nossos desejos e anseios, mas sobretudo, da ação de Deus, o Espírito
Santo, em nós! O nosso empoderamento não é na perspectiva cristã, para militarmos em causa
própria, mas para que antes de nos enxergarmos, enxerguemos o outro.

No próximo domingo, comemoraremos o Pentecostes, mas destacando esta descida do


Espírito Santo sobre a igreja, queremos pensar durante o mês de junho sobre as implicações
desta descida do Espírito, ou em outras palavras as implicações deste empoderamento.

A primeira implicação que quero destacar, conforme o tema de hoje é que somos
empoderados para servir. E para refletir a partir deste tema o texto de João é muito oportuno,
porque ele trata deste servir, como necessidade da igreja de forma muito profunda, mas ao
mesmo tempo constrangedora. Profunda, porque Jesus ensina na pratica o cerne da sua missão,
(Ele veio para servir e dar a sua vida em resgate de muitos), mas constrangedora, porque ao
fazer o que fez, Ele o fez a partir de uma realidade cultural na qual nitidamente a diferença
inferiorizava. Pois lavar pés era coisa para servo e não para senhor!

1) Um gesto vale mais que mil palavras!

O nosso texto começa afirmando que era o tempo derradeiro de Jesus aqui na terra e que ele
estava deixando este mundo para retornar ao Pai. Hoje é celebrado o domingo da ascensão do
Senhor e percebam que o verso primeiro do nosso texto aponta para esta ascensão, ao dizer que
Jesus iria para o Pai.
No entanto a ascensão de Jesus foi precedida pelo seu doloroso martírio! E foi precedida por
este profundo ensinamento a respeito do servir. Jesus sabia que havia chegado a hora de
adentrar o mundo de Deus, mas antes um ultimo e profundo ensinamento seria necessário.

Os evangelhos nos apresentam duas mulheres que tomadas de amor por Jesus, buscaram
expressar este amor por meio de um feito que era tarefa dos empregados da casa, os doulos, que
a nossa bíblia traduz por servo. É preciso admitir que o servo lavava os pés dos convidados
importantes, não porque eles próprios desejavam fazer, mas porque era a obrigação deles
enquanto empregados da casa. Mas a mulher de má fama e Maria irmã de Lazaro, o fizeram num
gesto, não de obrigatoriedade, mas de gratidão e amor!

O evangelista João inicia o capitulo dizendo sobre o amor incondicional e imutável de Jesus. E
a exemplo das mulheres, o que Jesus estava prestes a fazer era uma demonstração clara deste
amor imutável por todos, no desejo de que este gesto fizesse sentido pratico para a vida dos seus
discípulos!

Pedro, dominado pela lógica cultural do seu tempo, no que diz respeito a relação entre senhor
e servo, não queria ver Jesus, (nunca lavarás) numa situação humilhante, mas repreendido, foi
até exagerado em suas palavras como em demonstração de que se aquele gesto era a única
forma de garantir a unidade entre ele e Jesus, até o corpo todo poderia ser lavado.

Se você estivesse diante de uma pessoa muito amada e tivesse que lhe deixar um ultimo
ensinamento, qual seria? Se pudesse deixar algo como legado a ser experimentado e
compartilhado com outros, qual seria este legado? Não apenas aos discípulos do passado, mas
também a nós, irmãos e irmãs, o legado deixado por Jesus neste gesto tão singelo, neste gesto
silencioso, foi que precisamos cuidar uns dos outros e que precisamos colocar o outro acima de
nós!

2) Fácil de compreender, mas difícil de praticar

Jesus poderia, como era costume dos grandes mestres, ensinar valores por meio das
historias, por meio das parábolas, por meio dos provérbios, mas Jesus surpreendeu a todos ao
ensinar a partir da pratica e não da teoria.

Após a realização do gesto, Ele retornou para mesa e lançou a pergunta: compreenderam o
eu fiz? Numa cultura que inferioriza os servos, Jesus propõe de modo pratico a igualdade e a
responsabilidade de uns para com os outros. Ele termina dizendo que se os discípulos seguissem
o exemplo Dele, eles seriam felizes! Mais uma vez, o caminho para a felicidade passa pelo
cuidado e pela importância que damos aos outros, aos nossos irmãos!
O que Jesus ensinou é absolutamente claro, mas difícil de colocar em pratica. Se fosse fácil,
ele teria feito como era o costume dos grandes mestres, mas ele partiu para a ação justamente
para tocar os corações e não apenas o intelecto dos seus ouvintes.

Queria propor este exercício pratico agora (dois voluntários)! Ao lavar os pés de alguém é
preciso imaginar que no contexto bíblico, devido ao ambiente, os pés estariam muito sujos e
talvez mal cheirosos. Ao lavar os pés de alguém é preciso imaginar os sentimentos que brotam
do coração de quem lava, eu não sou importante! Ao lavar os pés de alguém é preciso considerar
que a própria posição em que o gesto é feito, nos coloca numa situação de inferioridade, mas não
apenas isso, numa posição de vulnerabilidade, pois Jesus disse que um dos que estavam a
mesa, cujos pés seriam lavado por Ele, levantaria contra Ele o calcanhar! Portanto, ao lavar os
pés de alguém precisamos ter em mente não esperar um gesto recíproco, pois ainda que os pés
de muitos estejam limpos, os corações podem permanecer sujos.

O lava pés é uma atitude simbólica que diz respeito ao nosso serviço ao próximo no mundo.
Agora, desde os tempos de Jesus, as coisas não mudaram muito! Ainda hoje, prevalece a lógica
de que o mais legal é ser servido e não servir. Ainda hoje, rebaixar-se diante do outro, é uma
atitude humilhante e se pudermos evitar isso, o faremos com certeza! Isso, porque, culturalmente
servir é algo para uma classe inferior. Ainda hoje, diferentemente da gratuidade de Jesus,
podemos ser tomados pelo desejo de correspondência ao servirmos a alguém. Por isso, e por
tantas outras questões, podemos dizer que o gesto de Jesus que vale mais do que mil palavras é
fácil de compreender, mas difícil de colocar em pratica.

Conclusão

Por ocasião de sua ascensão, Jesus disse aos seus discípulos: “mas recebereis poder ao
descer sobre vós o Espírito Santo, e sereis minhas testemunhas tanto em Jerusalém como em
toda a Judeia e Samaria e até aos confins da terra” (Atos 1. 8).

Nós cantamos pedindo ao “Espírito que enchesse a nossa vida” e é preciso irmãos, que
tenhamos condições de mensurar o quão cheio do Espírito estamos. A melhor maneira de
mensurar isso, não é por meio das múltiplas tentativas de domesticar o Espírito Santo nos cultos
evangélicos, mas no tamanho da nossa sede de Deus! (Jo 7. 37-39).

Cheios do Espírito Santo, o gesto de Jesus que vale mais do que mil palavras, será
plenamente compreendido e fácil de colocar em pratica, porque recebemos empoderamento do
Espírito Santo para testemunhar (Martírio) Jesus, aonde quer que ele nos enviar, aqui no Parque
Ipê, na cidade de São Paulo e do ponto onde estamos, até aos confins a terra. Que Deus nos
ajude a colocar em pratica, aquilo que sabemos e que temos condições de fazer, para honra e
gloria do seu Nome!