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Ano XVIII boletim 05 - Abril de 2008

Edição Especial:
Villa-Lobos e os sons do
Brasil
SUMÁRIO

Edição Especial: Villa-Lobos e os sons do Brasil

PROPOSTA PEDAGÓGICA ............................................................................ 03

ANEXO 1 .......................................................................................................... 13

ANEXO 2 ........................................................................................................ 24

ANEXO 3.......................................................................................................... 27

ANEXO 4.......................................................................................................... 29

EDIÇÃO ESPECIAL: VILLA-LOBOS E OS SONS DO BRASIL 2.


PROPOSTA PEDAGÓGICA

EDIÇÃO ESPECIAL: VILLA-LOBOS E OS SONS DO BRASIL

Márcia Ladeira1 e Valdinha Barbosa2

“Heitor Villa-Lobos está entre os brasileiros que, até hoje, nas artes, mais se
salientaram, dentro e fora do país, pela contribuição de sua obra ao acervo de
nossa terra. Na sua música, não há somente a circunstância de revelar poderosa
imaginação criadora, nem o sabor de originalidade: acima de tudo isso, reflete a
música de Villa-Lobos a própria nacionalidade, a saber, o sentimento do homem
brasileiro, o espírito do povo, a terra, o tropicalismo da natureza” (Clóvis Salgado
– Ministro do Governo Juscelino Kubistchek em documento enviado ao presidente,
justificando a criação do Museu Villa-Lobos, em 13/06/1960).

A Edição Especial Villa-Lobos e os sons do Brasil, que será apresentada no programa Salto
para o Futuro/TV Escola (SEED/MEC), no dia 28 de abril de 2008, visa debater aspectos da
vida, da obra e do legado desse grande compositor e maestro e, ainda, refletir sobre a relação
Escola e Museu, por meio do trabalho realizado pela Ação Educativa do Museu Villa-
Lobos, no Rio de Janeiro.

Fundado em 1960, o Museu Villa-Lobos nasceu como instituição pública federal, com a
finalidade de preservar e difundir a obra de Heitor Villa-Lobos, esse renomado artista
brasileiro que, ainda em vida, chegou a ser considerado o maior compositor das Américas. E
não fosse já grandiosa a sua contribuição, enquanto criador identificado com as nossas raízes
culturais, Villa-Lobos dedicou quase duas décadas de sua existência a um valioso trabalho na
área da educação musical, acalentando o sonho de, através das crianças e dos jovens, iniciar
um processo de “formação de uma consciência musical brasileira” que, com o passar dos
anos, acabaria por contribuir para a transformação de nossa sociedade, no seu ideal de um
Brasil mais brasileiro.

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O Museu Villa-Lobos, desde a sua fundação, vem desenvolvendo projetos nas áreas
educativa, cultural e social, junto a um público de perfil variado, através do aprofundamento
de seus objetivos essenciais, enquanto instituição pública de cultura comprometida com temas
referentes à memória, à identidade e ao patrimônio.

Neste momento em que a nação brasileira volta a colocar em pauta suas intenções em relação
ao retorno do ensino da música às escolas, nada mais oportuno do que trazer para o centro das
discussões com educadores de todos os recantos do País este programa sobre Villa-Lobos –
sua vida e sua obra –, tendo como foco o Museu Villa-Lobos e suas ações na área da educação
musical. Antes de chegar às crianças, Villa-Lobos iniciou seu projeto educativo aliando-se aos
professores, na missão de trabalhar uma consciência musical no Brasil. O Museu, em seu
trabalho cotidiano na área de educação, difundindo a música de seu patrono e de outros
compositores brasileiros e universais, também tem encontrado em educadores de todos os
segmentos escolares importantes aliados em sua tarefa de difundir o transbordante amor deste
compositor pelo Brasil:

“Sim, sou brasileiro e bem brasileiro. A minha obra musical é conseqüência da


predestinação. Se ela é grande em quantidade, é fruto de uma terra extensa,
generosa e quente. Sou todo um reflexo de nosso povo e de nossa terra, que
conheço de ponta a ponta, e que transborda em minha obra, por isso mesmo
projetada e aplaudida em todo o mundo, como se fora o coral gigantesco de todas
as vozes que arregimentei pelo Brasil. Como se fora o canto das iaras, dos sacis,
dos nossos índios e “Cunhatãs”, de todo o lendário e de todas as lembranças da
infância saudosa, desdobrada nas cordas daquela violinha de criança do tempo
das cirandinhas.”

Autor de cerca de mil obras, dos “Choros” e das “Bachianas Brasileiras”, do


“Uirapuru”, da “Floresta do Amazonas”, do “Descobrimento do Brasil” e da “Alma
Brasileira”, apenas para citar algumas de suas composições, Villa-Lobos foi considerado, pelo
poeta Manuel Bandeira, “sinônimo de Brasil”. Porém, embora tenha transposto para as suas
obras, este profundo sentimento de pertencimento a terra em que nasceu e viveu, Villa-Lobos
não ficou limitado ao exotismo do nosso folclore ou à mera utilização dos elementos rítmicos,

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melódicos ou temáticos da cultura brasileira. Guiado por sua genialidade, transcendeu as
fronteiras do nacionalismo musical brasileiro, para ocupar um lugar de destaque entre os
grandes compositores da música universal.

“O que escrevo é conseqüência cósmica dos estudos que fiz, da síntese a que
cheguei para espelhar uma natureza como a do Brasil. Quando procurei formar a
minha cultura, guiado pelo meu próprio instinto e tirocínio, verifiquei que só
poderia chegar a uma conclusão de saber consciente, pesquisando, estudando
obras que, à primeira vista, nada tinham de musicais. Assim, o meu primeiro livro
foi o mapa do Brasil, o Brasil que eu palmilhei, cidade por cidade, estado por
estado, floresta por floresta, perscrutando a alma de uma terra. Depois, o caráter
dos homens dessa terra. Depois, as maravilhas naturais dessa terra. Prossegui,
confrontando esses meus estudos com obras estrangeiras, e procurei um ponto de
apoio para firmar o personalismo e a inalterabilidade das minhas idéias.”

Amazônico em sua essência, Villa-Lobos é uma fonte inesgotável de possibilidades:


estéticas, ambientais, históricas, políticas e culturais. Sua obra oferece um vasto e rico
material a ser utilizado para trabalhar, por exemplo, conceitos de pertencimento, auto-estima,
cidadania, brasilidade, nacionalismo, nacionalidade, dentre tantos outros. Tendo em vista que
este artista, como muitos outros criadores brasileiros, ainda é pouco conhecido entre nós, seria
também oportuno, através desta Edição Especial, propor uma reflexão sobre o papel dos
veículos de comunicação em nosso País. Villa-Lobos e o trabalho da Ação Educativa do
Museu possibilitam uma abordagem sobre o envolvimento da escola e das demais instituições
públicas com a preservação de nossa cultura, trazendo para discussão uma questão atual: o
compromisso da TV Escola, em particular, e das TVs públicas, em geral, com os valores
nacionais. Como é possível gostar do que não conhecemos?

A Ação Educativa do Museu Villa-Lobos

A utilização da música no processo educativo foi um dos ideais de Villa-Lobos. O Projeto de


Educação Musical por ele idealizado, na década de trinta, nascia num momento em que o
nosso compositor – em plena maturidade artística – despontava no cenário artístico nacional e

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internacional como um dos criadores brasileiros mais identificados com a cultura musical de
nosso País.

“Cheios de fé na força poderosa da música – professava Villa-Lobos – sentimos


que era chegado o momento de realizar uma alta e nobre missão educadora
dentro de nossa Pátria (...) Tratava-se de preparar a mentalidade infantil para
reformar, aos poucos, a mentalidade coletiva das gerações futuras. Mas de que
maneira encetar esse trabalho audacioso? Os caracteres psicológicos da nossa
raça e os processos de evolução histórica indicavam claramente o caminho a
seguir: só a implantação do ensino musical na escola, renovada por intermédio do
canto coletivo, seria capaz de iniciar a formação de uma consciência musical
brasileira.”

Hoje, passados mais de setenta anos dessa profissão de fé de nosso compositor, o que restou
desse monumental esforço de Villa-Lobos em sua tarefa de despertar o País, através das
crianças, para uma nova mentalidade quanto à valorização de nossa identidade cultural?

A Ação Educativa do Museu Villa-Lobos, em seu trabalho cotidiano junto aos mais
diversos públicos tem, nos ensinamentos de Villa-Lobos, a diretriz, e na sua música, o
caminho que permeia todos os processos.

Atualmente, a Ação Educativa desenvolve os seguintes projetos:

Projeto Mini-Concertos Didáticos: recitais didáticos apresentados por jovens músicos – em


variadas formações instrumentais – que levam a música de Villa-Lobos e de outros
compositores ao público em geral e, em especial, a estudantes da rede pública e particular de
ensino, que visitam o Museu. Desenvolvido desde 1985, este projeto caracteriza-se pela
seleção de repertório e abordagem especialmente adaptadas às diferentes faixas etárias, e pelo
atendimento personalizado, realizado por técnicos da Ação Educativa, que se empenham, a
cada visita, em aprofundar os conteúdos museológicos trabalhados pela instituição. Os
músicos que participam deste projeto são selecionados através do Concurso Museu Villa-

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Lobos de Jovens Instrumentistas e recebem orientação específica para atuar nos recitais
didáticos.

São objetivos do Projeto Mini-Concertos Didáticos:

• desenvolver as idéias de Villa-Lobos sobre Educação Musical, visando à “formação de


uma consciência musical brasileira”;

• oferecer aos estudantes uma visão ampla da música, através do contato com um tipo de
música diferente da que é apresentada pelos meios de comunicação de massa, tentando
apontar, criticamente, equívocos veiculados por esses formadores de opinião;

• apresentar, através de ilustrações musicais e de rápidos comentários, os elementos


essenciais da música, além de informações sobre compositores e instrumentos;

• complementar e enriquecer – de forma lúdica e prazerosa – os trabalhos desenvolvidos


pelos professores em sala de aula;

• integrar o Museu Villa-Lobos à comunidade escolar do Rio de Janeiro;

• favorecer aos estudantes de música a oportunidade de desenvolver um trabalho de caráter


educativo, abrindo-lhes novas perspectivas em sua iniciação profissional;

• possibilitar a esses jovens músicos a ampliação do seu mercado de trabalho.

Funcionamento: Os Mini-Concertos Didáticos são realizados nas dependências do Museu


Villa-Lobos, ao longo do ano letivo, mediante agendamento feito – com antecedência – pelo
professor. Durante o agendamento, são prestados esclarecimentos mais detalhados sobre o
projeto e recolhidas informações sobre as turmas, visando à adequação do grupo musical à

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faixa etária dos alunos a serem atendidos. Nessa ocasião, também é oferecido material
didático sobre Villa-Lobos ao professor.

Canto Coral – Curso de Capacitação para Regentes de Corais – projeto realizado em


parceria com a Secretaria de Estado de Educação do Rio de Janeiro, desde 2003, que tem
como principal objetivo favorecer o aperfeiçoamento técnico e estético dos grupos corais
desta Secretaria de Estado, através da capacitação de seus regentes, utilizando as idéias de
Villa-Lobos sobre Educação Musical:

“A música é um elemento básico e insubstituível na formação espiritual de um


povo. A sua função não se limita à importância da formação estética, mas a de
assumir um caráter eminentemente socializador. Dentro desse conceito é que foi
implantado o ensino da música e do canto orfeônico nas escolas brasileiras.
Entretanto, para corresponder à sua verdadeira finalidade educacional, o canto
orfeônico não deve limitar-se a uma simples exibição pública das qualidades
musicais mais ou menos acentuadas da infância. Mas deve participar da vida
cotidiana da escola, conferindo ao ambiente escolar uma impressão de sentimento
cívico, de solidariedade e de disciplina.”

O Canto da Nossa Terra - Encontro de corais: apresentações periódicas realizadas na


Concha Acústica do Museu. Este projeto visa resgatar o trabalho de Educação Musical
desenvolvido por Villa-Lobos, através do estímulo à prática do canto coral em escolas e
instituições afins.

Encontro Musical entre Escolas – visando incentivar os trabalhos de musicalização


desenvolvidos pelas escolas que participam das atividades da Ação Educativa do MVL
durante o ano letivo, estes encontros também são realizados na Concha Acústica do Museu,
em apresentações periódicas.

Festival Villa-Lobos – Programação Infanto-Juvenil – tradicional evento do Museu Villa-


Lobos, realizado há 44 anos, o Festival Villa-Lobos, apresenta uma programação inteiramente
dedicada ao público infanto-juvenil. Realizada em horário vespertino, esta programação busca

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atingir o público jovem, permitindo uma maior visibilidade ao trabalho de formação de
platéias cotidianamente realizado pela Ação Educativa do Museu, ao longo do ano.

Sugestão de atividade a ser desenvolvida, pelo professor, em sala de aula:

A música de Villa-Lobos, apesar de sua complexidade, apresenta grande riqueza sonora


traduzida através de variados temas, que podem ser trabalhados em sala de aula, não apenas
por professores de música, mas também por professores de qualquer disciplina.

Atividade sugerida: “Descobrindo Villa-Lobos” - audição comentada de obras do


compositor: O Trenzinho do Caipira; Cirandinhas; Uirapuru; Choros 3.

Os textos auxiliares, disponibilizados em anexo, devem ser utilizados para uma melhor
condução da audição comentada.

Antes de preparar a atividade, ouça as músicas – simplesmente ouça – tentando mergulhar no


universo de Villa-Lobos. Utilize-se de licença poética e aventure-se, com seus alunos, nesta
viagem pelos sons do Brasil.

Próximo passo:

- converse com os alunos sobre música em geral e sobre Villa-Lobos;

- fale, de forma sucinta, sobre: quem foi este compositor, sua época, sua importância para a
música e para a cultura brasileira;

- aproveite a oportunidade e promova discussões em torno da música atualmente veiculada


pela mídia, em comparação com as obras de Villa-Lobos e de outros compositores brasileiros
que se inspiraram em nossas raízes culturais;

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- conduza a conversa de maneira que os alunos se expressem livremente, convidando-os a
descobrir estas respostas ao longo da audição;

- procure encaminhar as atividades de forma lúdica;

- aproveite as temáticas do texto musical, realizando abordagens críticas sobre questões


atuais.

1. “O Trenzinho do Caipira”: 4º movimento – Tocata - de “Bachianas Brasileiras n. 2”,


para orquestra.

Esta obra descreve impressões de viagens, em trens de ferro (Maria Fumaça), realizadas por
Villa-Lobos pelo interior do Brasil.

Antes de ouvir a música, falar sobre o que Villa-Lobos aprendeu em suas viagens e transpôs
para sua música; convidar os alunos a realizar – através da imaginação – uma viagem de trem,
como fez Villa-Lobos, pedindo que eles, ao final da audição, descrevam as experiências
vivenciadas durante o passeio; conduzir a atividade de forma descontraída, propondo a
identificação de algumas imagens descritas pela música, como: o apito do trem, o trem saindo
e chegando da estação, etc.

2. “Cirandinhas” – 12 pequenas peças, para piano solo, inspiradas em canções folclóricas


infantis brasileiras.

Selecionar algumas peças da série e levar os alunos a identificá-las e a cantá-las; resgatar,


junto aos alunos, as brincadeiras infantis relacionadas a essas e outras cantigas folclóricas e,
se possível, oferecer-lhes a oportunidade de vivenciar essas brincadeiras.

3. “Uirapuru” (sugestão: utilizar apenas os dois minutos e meio iniciais)

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Nesta obra, Villa-Lobos utilizou material folclórico que ele reuniu durante suas viagens.

“Conta a lenda que o Uirapuru é um pássaro de canto noturno. Seu canto atraía
as índias da tribo que, todas as noites, se reuniam para caçá-lo, pois a feiticeira
lhes contou que este pássaro de canto atraente era, na verdade, o mais belo
cacique da terra” (Argumento de Villa-Lobos, In: Villa-Lobos, sua obra).

Falar sobre como o compositor utilizou-se de temas indígenas e de lendas para compor suas
obras; contar o resumo da lenda “O Uirapuru”, de forma expressiva, e explorar a imaginação
dos alunos através de perguntas sobre o possível desenrolar da história; desenvolver algum
trabalho sobre o tema: textos, desenhos, representações teatrais, etc.;

4. “Choros 3” (Pica-Pau)

Este “Choros” – composto para coro masculino e sete instrumentos de sopro – é consagrado
ao ambiente sonoro da música primitiva dos aborígines dos estados de Mato Grosso e Goiás.
O tema Nozani-ná é autêntico dos índios Parecis, recolhido pelo cientista brasileiro Roquette
Pinto. O texto cantado pelo coro é formado: por palavras da língua dos índios Parecis, por
uma palavra em português, insistentemente repetida, e por várias sílabas sem nexo, de efeito
onomatopaico.

Comentar sobre a influência da cultura indígena na obra de Villa-Lobos; aproveitar a


ambientação sonora, para trabalhar o imaginário dos alunos, através das diversas expressões
artísticas.

A seguir, nos Anexos, seguem textos auxiliares que trazem informações relevantes sobre a
vida, a obra e o legado de Heitor Villa-Lobos.

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Notas

Museóloga. Técnica em dinâmica educativa do Instituto do Patrimônio


Histórico e Artístico Nacional – IPHAN/MINC. Coordenadora da Ação
Educativa do MUSEU VILLA-LOBOS, desde 1986. Consultora desta Edição
Especial.

2
Pesquisadora. Técnica em dinâmica educativa do Instituto do Patrimônio
Histórico e Artístico Nacional – IPHAN/MINC. Coordenadora da Ação
Educativa do MUSEU VILLA-LOBOS, desde 1986. Consultora desta Edição
Especial.

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ANEXO 1 (TEXTO AUXILIAR)

RESUMO BIOGRÁFICO DE VILLA-LOBOS

Heitor Villa-Lobos (1887/1959)

A 05 de marco de 1887, antes de o Brasil ser uma República, nascia Heitor Villa-Lobos – na
Rua Ipiranga, bairro de Laranjeiras – no Rio de Janeiro. Seu pai, Raul Villa-Lobos, era
funcionário da Biblioteca Nacional e dedicava-se à música, como amador. Sua mãe, Noêmia
Villa-Lobos, cuidava dos filhos e da casa.

Na residência de Raul Villa-Lobos se fazia boa música. Todos os sábados, eram convidados
amigos e organizavam-se verdadeiros concertos. Nomes respeitados da época participavam e
faziam música até altas horas da madrugada.

Esse hábito, que durou anos, influiu decisivamente na formação musical de Villa-Lobos que,
logo cedo, iniciou-se na música. Aos seis anos de idade aprendeu, com o pai, a tocar
violoncelo em uma viola especialmente adaptada. No ano seguinte, já improvisava melodias
simples das cantigas de roda que cantava com seus companheiros de folguedo.

O fascínio por Bach – levando-o, mais tarde, a escrever algumas de suas mais representativas
obras, as “Bachianas Brasileiras” – data também dessa época. Criança, ainda, extasiava-se
diante dos prelúdios e fugas do “Cravo Bem Temperado” que a sua tia Fifinha executava ao
piano.

Raul Villa-Lobos foi pai rigoroso e sempre exigiu do pequeno Villa-Lobos o que jamais pedia
aos outros filhos. É o próprio Villa-Lobos, conhecido na época pelo apelido de “Tuhu”, quem
nos conta sobre o seu pai:

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“Desde a mais tenra idade me iniciei na vida musical pelas mãos de meu pai,
tocando um pequeno violoncelo. Meu pai, além de homem de aprimorada cultura
geral e excepcional inteligência, era músico prático, técnico e perfeito. Com ele,
assistia sempre a ensaios, concertos e óperas, a fim de habituar-me ao gênero do
conjunto instrumental. Aprendi, também, a tocar clarineta e era obrigado a
discernir o gênero, estilo, caráter e origem das obras, como a declarar com
presteza o nome da nota, dos sons ou ruídos que surgiam incidentalmente no
momento, como, por exemplo, o guincho da roda de um bonde, o pio de um
pássaro, a queda de um objeto de metal, etc. Pobre de mim quando não
acertava...”

Apesar da rigidez paterna, Villa-Lobos teve uma infância das mais felizes, com ricas
vivências, em cidades do interior do Estado do Rio de Janeiro e de Minas Gerais, onde chegou
a residir com a família, por um período. Nessas viagens, entrou em contato com um tipo de
música diferente da que estava acostumado a ouvir: a música rural.

Naquele tempo em que o rádio nem existia, o pequeno “Tuhu” deliciava-se com as modas
caipiras, com os tocadores de viola, enfim, com um certo tipo de música folclórica que, mais
tarde, viria a universalizar através das suas obras.

O contato com os chorões

Ao voltar ao Rio de Janeiro, a música praticada nas ruas e praças da cidade também passou a
exercer um atrativo especial sobre o menino; mas quando tentou aproximar-se dos autores
daquele gênero musical, a reação dos pais foi negativa e o pequeno “Tuhu” teve que se
conformar em apreciá-los de longe.

Esses músicos – os “chorões” – reuniam-se para tocar e alegrar os bailes nas casas de família
e festas da cidade. Tocavam também em aniversários, batizados, casamentos e durante o
carnaval, percorrendo os bairros da Cidade Nova, Praça Onze e Centro. Quando a cidade
adormecia, pelas ruas e caminhos, eles andavam, em grupos numerosos, tocando violões,

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cavaquinhos, bandurras e bandolins, de chapéu desabado e paletó, andando léguas e léguas a
tocar e a cantar, até que viesse a luz do dia.

O gosto de Villa-Lobos por essa música dos “chorões” levou-o a estudar violão, aprendendo,
às escondidas, os primeiros acordes. Com a morte de Raul Villa-Lobos, em 1899, D. Noêmia
– tendo que trabalhar duro para sustentar os filhos, lavando e engomando guardanapos para a
Confeitaria Colombo – não conseguiu conter os ímpetos do filho adolescente em seu
incontrolável desejo de conhecer, de perto, os “chorões”. Villa-Lobos, ao completar 15 anos e
pretendendo uma maior liberdade, fugiu de casa, indo encontrar refúgio na casa de sua tia
Fifinha.

Mas, apesar de todo o seu fascínio pela música, conseguiu dar prosseguimento ao Curso de
Humanidades no Mosteiro de São Bento. D. Noêmia era mãe cuidadosa e sempre incentivou
os estudos do filho, esperando vê-lo um dia médico. Atendendo aos desejos de sua mãe, Villa-
Lobos chegou a matricular-se num curso de preparação para o vestibular da Faculdade de
Medicina, até convencer D. Noêmia de que essa não era a sua inclinação.

A partir daí, passou a ter contato maior com os “chorões”, freqüentando o Cavaquinho de
Ouro, na atual Rua da Carioca, onde recebia convites de toda a espécie para tocar nos lugares
mais diversos. Inspirado neste ambiente dos “chorões”, aproveitou o que havia de original e,
anos mais tarde, compôs uma série de obras intitulada “Choros”, inovando na forma musical.

As viagens pelo Brasil

Em 1905, já com 18 anos de idade, Villa-Lobos empolgou-se em conhecer coisas novas. E


partiu em viagens pelo Brasil. Visitou os estados do Espírito Santo, Bahia e Pernambuco e
admirou-se diante da riqueza folclórica. Passou temporadas em engenhos e fazendas do
interior, em busca de aspectos curiosos do povo local.

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Essas experiências enriqueceram-lhe a personalidade e cultivaram-lhe o talento natural. A
música dos cantadores, seu jeito de cantar, seus instrumentos primitivos, o aboio dos
vaqueiros, as danças, os desafios, tudo o interessou vivamente, cristalizando, em seu íntimo, o
sentido de brasilidade.

Em 1907, estava Villa-Lobos de novo no Rio de Janeiro e, ao completar 21 anos, atingiu,


também, a maioridade artística ao escrever sua primeira obra típica, os “Cânticos Sertanejos”,
onde procurou reproduzir o ambiente musical brasileiro.

Tempos depois, seguia para a sua quarta viagem – uma ousada excursão pelo interior dos
estados do Norte e Nordeste – que se estenderia por mais de três anos. Nesta viagem, teve
como companheiro inseparável a figura interessante do músico Donizette. Em cada lugarejo a
que chegavam, Villa-Lobos tratava de arranjar concertos. Tocando violoncelo, piano, violão
ou saxofone, ganhavam dinheiro e seguiam viagem. A coleta folclórica foi bastante
proveitosa. Não puderam, no entanto, trazer tudo o que recolheram, pois muito se perdeu nas
travessias dos rios. É o próprio Villa-Lobos quem relembra:

“Abandonei a casa aos 15 anos para aliviar minha inquietude que me fez um
passeante noturno, cantando serenatas. Viajei muito. Muitíssimo. Andei por todos
os rincões de minha terra fascinante. Escutei os tambores dos índios nas noites
cheias de mistério. Vivi com aborígines, em regiões que quase escapam às cartas
geográficas. Andei em canoas primitivas. Conheci o desconhecido do Amazonas,
quando fiz parte de uma expedição científica. Naufraguei várias vezes e, sempre,
salvei meus instrumentos musicais.”

Apesar de ainda jovem e de sua pouca experiência em assuntos folclóricos, Villa-Lobos soube
aproveitar bem as suas viagens. Por onde passava ia recolhendo temas folclóricos que utilizou
não apenas em suas composições, como no seu trabalho de Educação Musical, quase 30 anos
depois, através da coleção “Guia Prático”. Assim se referiu Villa-Lobos, anos mais tarde, à
utilização do folclore em suas composições:

EDIÇÃO ESPECIAL: VILLA-LOBOS E OS SONS DO BRASIL 16 .


“Empreguei a música folclórica para formar a minha personalidade musical, mas
não tenho a pretensão de trabalhar com o folclore como um especialista no
gênero. Assimilei simplesmente a música folclórica, forjando para mim um estilo
próprio e espero que, assim, essa música constitua a melhor parte da minha
obra.”

A maioridade artística

O ano de 1915 marca o início da apresentação oficial de Villa-Lobos como compositor.


Agora, com a personalidade já formada e uma enriquecedora vivência musical, inicia uma
série de concertos no Rio de Janeiro. O compositor, na época casado com a pianista e
professora de música Lucília Guimarães, ganhava a vida tocando violoncelo nas orquestras
dos teatros e cinemas cariocas e realizava-se ao escrever sua música, cercado de amigos
intelectuais e músicos que acompanhavam a sua evolução. A sua música, porém, apresentava
características inovadoras, o que chocava os ouvintes mais conservadores.

Os jornais publicavam críticas contra a música moderna de Villa-Lobos, dizendo que “feria os
ouvidos” por ser uma música diferente. A oposição e os debates sobre sua obra foram
enormes. A pressão foi grande contra aquele homem que ousava quebrar os padrões e
costumes da época. Anos mais tarde, Villa-Lobos fez questão de explicar:

“Não escrevo dissonante para ser moderno. De maneira nenhuma. O que escrevo
é conseqüência cósmica dos estudos que fiz, da síntese a que cheguei para
espelhar uma natureza como a do Brasil. Quando procurei formar a minha
cultura, guiado pelo meu próprio instinto e tirocínio, verifiquei que só poderia
chegar a uma conclusão de saber consciente, pesquisando, estudando obras que, à
primeira vista, nada tinham de musicais. Assim, o meu primeiro livro foi o mapa
do Brasil, o Brasil que eu palmilhei, cidade por cidade, estado por estado, floresta
por floresta, perscrutando a alma de uma terra. Depois, o caráter dos homens
dessa terra. Depois, as maravilhas naturais dessa terra. Prossegui, confrontando

EDIÇÃO ESPECIAL: VILLA-LOBOS E OS SONS DO BRASIL 17 .


esses meus estudos com obras estrangeiras, e procurei um ponto de apoio para
firmar o personalismo e a inalterabilidade das minhas idéias.”

A Semana de Arte Moderna

No Brasil do início do século, a influência de uma arte importada da Europa e a permanência


do espírito conservador do “fim de século” afogavam a juventude, que começava a se debater
e a ansiar por um mundo novo. Surgiu, então, um movimento chamado Modernista que, em
1922, foi oficializado em São Paulo, através da Semana de Arte Moderna, quando atividades
de vários campos da arte foram apresentadas no Teatro Municipal daquela cidade. Os
modernistas pregavam o direito permanente à pesquisa estética, a atualização da inteligência
artística brasileira, além da estabilização de uma consciência criadora nacional, através da
valorização da natureza, da alma e das tradições brasileiras, como forma de banir o domínio
da arte estrangeira sobre nossa cultura.

Convidado por Graça Aranha para participar da “Semana”, Villa-Lobos ficou encantado com
a proposta, pois coincidia com as idéias pelas quais vinha lutando há anos como figura mais
expressiva da corrente musical nacionalista, inaugurada no Brasil, pelo compositor Alberto
Nepomuceno.

Villa-Lobos participou dos três espetáculos da “Semana” em fevereiro de 22, no Teatro


Municipal de São Paulo, apresentando no programa, dentre outras obras: “Valsa Mística”,
“Historietas”, “A Fiandeira” e “Danças Africanas”.

Como todos os outros participantes da Semana de Arte Moderna, Villa-Lobos, pela


modernidade de suas composições, não fugiu à regra: também foi honrado com vaias,
principalmente quando entrou para reger as suas obras, de casaca e chinelo. Para a platéia,
esta maneira de Villa-Lobos se apresentar naquela noite também fazia parte do inusitado das
propostas da Semana. Qual não foi o engano! Villa-Lobos apresentou-se assim, por estar
com um dos pés machucado.

EDIÇÃO ESPECIAL: VILLA-LOBOS E OS SONS DO BRASIL 18 .


A Semana de Arte Moderna teve uma grande importância para o desenvolvimento das artes
no Brasil. Como seus representantes, temos Mário e Oswald de Andrade, Anita Malfatti,
Tarsila do Amaral, entre outros.

As primeiras viagens à Europa

Por já estar bastante conhecido no meio musical brasileiro, alguns de seus amigos começaram
a animá-lo a ir à Europa. E apresentaram à Câmara dos Deputados um projeto para financiar
sua ida a Paris, com o propósito de divulgar a nossa música na Europa. O meio musical
carioca movimentou-se e mesmo os inimigos mais ferrenhos mostraram-se favoráveis à ida de
Villa-Lobos a Paris. O maestro Francisco Braga – uma das figuras mais representativas da
música, naquela época – passou em cartório um curiosíssimo documento, onde atestava a
competência artística do nosso compositor: “O senhor Villa-Lobos tem um enorme talento
musical. De uma capacidade produtora assombrosa, tem uma bagagem artística considerável,
onde existem obras de valor, algumas bem originais. Não é mais uma promessa, é uma
afirmação. Penso que a Pátria muito se orgulhará, um dia, de tal filho”.

A proposta foi aprovada, mas com a verba reduzida a um terço do valor proposto. Mesmo
assim, Villa-Lobos partiu, em 1923, rumo à Europa, em sua primeira viagem: não ia a Paris
para estudar ou aperfeiçoar-se: ia para exibir o que já havia feito.

Desejando dar uma satisfação ao público brasileiro, Villa-Lobos, antes de sua partida,
promoveu – com a ajuda de seus amigos músicos – uma série de quatro concertos sinfônicos,
apresentando as suas melhores obras, de diversos estilos, como forma de justificar o favor
recebido.

A bordo do navio francês “Croix”, o autor de “Amazonas” chegou à Europa com mentalidade
própria e se impôs em menos de um ano. Um grupo de amigos ajudou-o nas despesas e
apresentou-o aos editores Max-Eschig, enquanto o famoso pianista Artur Rubinstein – que já
o conhecia do Brasil – e a cantora Vera Janacópulus divulgavam suas obras em recitais em
vários países. Muitos concertos foram realizados para apresentar o compositor brasileiro.

EDIÇÃO ESPECIAL: VILLA-LOBOS E OS SONS DO BRASIL 19 .


Mas a verba oficial e os subsídios dos amigos em breve acabaram e, antes de findar o ano de
1924, Villa-Lobos estaria de volta ao Rio de Janeiro, sendo assim saudado pelo amigo poeta
Manuel Bandeira: “Villa-Lobos acaba de chegar de Paris. Quem chega de Paris espera-se que
chegue cheio de Paris. Entretanto Villa-Lobos chegou cheio de Villa-Lobos. Todavia uma
coisa o abalou perigosamente: a ‘Sagração da Primavera’, de Stravinsky. Foi, confessou-me
ele, a maior emoção musical da sua vida. Mas se o ambiente artístico de Paris não afeta em
essência a sua arte, influi por outro lado sobre ela com incalculáveis benefícios em efeitos
morais e sociais.”

Em 1927, Villa-Lobos retorna a Paris, dessa vez acompanhado de sua primeira esposa, a
pianista Lucília Guimarães. Era necessário aproveitar o impulso inicial do primeiro estágio,
coordenar o generoso esforço dos amigos residentes em Paris, organizar concertos e publicar
uma série de obras. Além da ajuda da família Guinle – que emprestou ao casal seu
apartamento mobiliado em Paris – Villa-Lobos procurou equilibrar melhor o seu orçamento,
dando aulas e trabalhando como revisor na Casa Max-Eschig. Fez amigos e muitos artistas de
renome freqüentaram-lhe a casa e participaram das alegres feijoadas dos domingos.

Com o nome feito em Paris e com 19 obras editadas, Villa-Lobos ganhava prestígio
internacional. Apresentou as suas composições em recitais, audições e regendo orquestras nas
principais capitais européias, causando forte impressão. A sua obra expressava uma força
nova, uma contribuição original aos caminhos da música. Ao mesmo tempo em que, também,
provocava reações diante daquelas composições ousadas demais para a época.

No segundo semestre de 1930, Villa-Lobos – a convite – retornava provisoriamente ao Brasil


para a realização de um concerto em São Paulo. Não previa, contudo, que neste seu retorno,
estaria inaugurando um novo capítulo em sua biografia.

Villa-Lobos, o educador

EDIÇÃO ESPECIAL: VILLA-LOBOS E OS SONS DO BRASIL 20 .


Espírito inquieto, Villa-Lobos não conseguiu ficar alheio ao descaso com que a música era
tratada nas escolas brasileiras e acabou por apresentar, à Secretaria de Educação do Estado de
São Paulo, um revolucionário plano de Educação Musical.

A aprovação do seu projeto pelo Governo de São Paulo o fez transferir-se definitivamente
para o Brasil e logo iniciou as suas atividades, realizando uma “tournée” artística pelo interior
dos estados de São Paulo, Minas Gerais e Paraná. Em 193l, reunindo representações de todas
as classes sociais paulistas, organizou uma Concentração Orfeônica chamada “Exortação
Cívica”, reunindo cerca de 10 mil vozes.

Após dois anos de trabalho em São Paulo, Villa-Lobos foi convidado oficialmente pelo
Secretário de Educação do Estado do Rio de Janeiro – Anísio Teixeira – para organizar e
dirigir a Superintendência de Educação Musical e Artística (SEMA), que introduzia o Ensino
da Música e o Canto Coral nas escolas.

Em sua visão revolucionária, o autor do “Uirapuru” tinha como finalidade preparar a mente
infantil para reformar, aos poucos, a mentalidade coletiva das gerações futuras. Somente a
implantação do ensino musical, renovado por intermédio do canto coletivo, seria capaz de
iniciar a “formação de uma consciência musical brasileira”. E passou a desenvolver entre as
novas gerações, através do Canto Orfeônico, o sentimento de nacionalidade:

”Quem nasceu no Brasil e formou sua consciência no âmago deste país, não
pode, embora querendo, imitar o caráter e o destino de outros países, apesar de
ser a cultura básica transportada do estrangeiro”.

Com o objetivo de apresentar ao público em geral as razões da utilidade desse ensino, para
que se entendesse a música como uma necessidade imprescindível à educação, realizou, após
cinco meses de intenso trabalho, uma demonstração pública com um coral de 13 mil vozes,
com alunos de escolas primárias e secundárias do Rio de Janeiro. Naturalmente, várias falhas
e dificuldades ocorreram, mas Villa-Lobos procurava junto com os professores, contorná-las,
lutando por seu ideal. Em 1932 promoveu, pela primeira vez no Brasil, uma série de concertos

EDIÇÃO ESPECIAL: VILLA-LOBOS E OS SONS DO BRASIL 21 .


para a juventude, nos quais foram executadas músicas simples, precedidas de comentários
explicativos. Como conseqüência do seu trabalho educativo, em 1936, viajou para a Europa –
de Zeppelin – representando o Brasil num Congresso de Educação Musical em Praga.

Combatido por alguns, mas apoiado pelo Governo Getúlio Vargas, Villa-Lobos continuava
persistente em seu trabalho na SEMA. Organizou Concentrações Orfeônicas grandiosas: em
1935, no Congresso Nacional de Educação – 30 mil vozes e mil músicos de banda – tendo
repetido o feito em l937; em 1940, reuniu 40 mil vozes escolares sob a sua batuta; em 1942,
escreveu para um coro de 35 mil vozes o “Juramento da Juventude Brasileira”; e, finalmente,
em 1943, organizou e dirigiu uma demonstração cívico-orfeônica, com 15 mil escolares,
tendo composto para este dia, a “Invocação em Defesa da Pátria”.

As atividades educacionais de Villa-Lobos, entretanto, não se restringiam às apresentações


públicas. O seu trabalho educativo incluía, sobretudo, a formação de professores. Assim, em
1942, foi criado o Conservatório Nacional de Canto Orfeônico, cujo objetivo era formar
candidatos ao magistério orfeônico nas escolas primárias e secundárias, estudar e elaborar
diretrizes para o ensino do Canto Orfeônico no Brasil, promover trabalhos de musicologia
sobre a música brasileira, realizar a gravação de discos, etc. Pelo quadro de professores do
Conservatório, sob a direção de Villa-Lobos, passaram grandes personalidades do ensino da
música no Brasil como: Oscar Lorenzo Fernandez, Andrade Muricy, Brasílio Itiberê, José
Vieira Brandão, Iberê Gomes Grosso, entre tantos outros, que formaram centenas de
professores competentes e entusiastas.

O compositor das Américas

A obra educativa de Villa-Lobos realizada no Brasil merece elogios e o respeito de todos os


brasileiros. Mas, ao lado desse grandioso feito, o nosso compositor continuou a produzir as
suas obras musicais e a divulgá-las pelo Brasil e em constantes viagens pela Europa e pela
América. A sua capacidade criativa e a genialidade de sua criação o levaram a ser
considerado, ainda em vida, o “maior compositor das Américas”. Como representante

EDIÇÃO ESPECIAL: VILLA-LOBOS E OS SONS DO BRASIL 22 .


máximo do Nacionalismo Musical Brasileiro, o autor dos “Choros” e das “Bachianas”, assim
gostava de ser identificado:

“Sou brasileiro e bem brasileiro. A minha obra musical é conseqüência da


predestinação. Se ela é em grande quantidade, é fruto de uma terra extensa,
generosa e quente. Sou todo um reflexo de nosso povo e de nossa terra, que
conheço de ponta a ponta, e que transbordam em minha obra, por isso mesmo
projetada e aplaudida em todo o mundo, como se fora o coral gigantesco de todas
as vozes que arregimentei pelo Brasil. Como se fora o canto das iaras, dos sacis,
dos nossos índios e ‘Cunhatãs’, de todo o lendário e de todas as lembranças da
infância saudosa, desdobrada nas cordas daquela violinha de criança do tempo
das cirandinhas.”

Em 17 de novembro de 1959, morreu Villa-Lobos no Rio de Janeiro. No ano seguinte, por


inspiração de sua segunda mulher, Arminda Villa-Lobos, foi criado o Museu Villa-Lobos com
a finalidade de preservar o seu acervo e divulgar a sua obra.

O Ministro da Educação e Cultura – Clóvis Salgado – assim se expressou sobre Villa-Lobos,


em documento enviado ao Presidente da República, Juscelino Kubitscheck, justificando a
criação do Museu: “Heitor Villa-Lobos está entre os brasileiros que, até hoje, nas artes, mais
se salientaram, dentro e fora do País, pela contribuição de sua obra ao acervo de nossa terra.
Na sua música não há somente a circunstância de revelar poderosa imaginação criadora, nem
o sabor da originalidade: acima de tudo isso, reflete a música de Villa-Lobos a própria
nacionalidade, a saber, o sentimento do homem brasileiro, o espírito do povo, a alma da terra,
o tropicalismo da natureza”.

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ANEXO 2 (TEXTO AUXILIAR)

Trechos dos livros As Bachianas Brasileiras de Villa-Lobos e Os choros de Villa-Lobos, de


Adhemar Nóbrega

“Autodidata, depois da severa iniciação que recebeu do pai (Raul Villa-Lobos, professor,
erudito e amador de bom gosto), com a morte deste e facilmente rompidas as amarras da
vigilância materna, entregou-se à plena expansão do seu temperamento indomável. Passou a
freqüentar as rodas boêmias dos chorões. E com esses menestréis caboclos, hauriu a essência
e o perfume de sua música, toda feita de sutilezas rítmicas, de sensualidade melódica, de
imprevistas e traiçoeiras modulações deixando-se impregnar da fecunda seiva que haveria de
nutrir-lhe a obra.

Ao lado dessa boemia seresteira, outro fator se impõe considerar na formação do autor, para
melhor compreensão de sua obra: o amplo conhecimento do folclore musical brasileiro
(conhecimento sem pretensões científicas de folclorista), que absorveu em longas, atribuladas
e romanescas viagens a diversas regiões do país, desde o sul às selvas amazônicas, até além
das fronteiras, até Barbados, numa louca aventura bem própria da mocidade do compositor. E
nessas acidentadas incursões assimilou as mais diversificadas manifestações musicais do
povo, desde as toadas e cateretês de Minas Gerais aos pontos de macumba da Bahia; da
música urbana do Rio de Janeiro aos maracatus do Recife; do modalismo dos cantos
nordestinos ao tom declamado e oratório dos çairés amazônicos.

Por outro lado, graças à providencial Tia Zizinha, que lhe tocava os prelúdios e fugas do
‘Cravo bem temperado’, muito cedo se tornou íntimo da música de Bach. A vivência do
populário brasileiro e a intimidade com a voz milagrosa do Cantor de Leipzig eram dois elos
isolados de uma corrente. Fácil lhe foi verificar a existência de identidade de inflexões
melódicas, de relações harmônicas e de combinações polifônicas entre ambos. Levado pela
fantasia do artista, Villa-Lobos explicou aquela afinidade à sua maneira:

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A música de Bach vem do infinito astral para infiltrar-se na terra como música
folclórica, e o fenômeno cósmico se reproduz, nos solos, subdividindo-se nas
várias partes do globo terrestre, com tendência a universalizar-se.

Pode-se aceitar ou não a hipótese imaginosa segundo a qual a música do grande mestre
barroco passaria, mediante um processo telúrico, a transformar-se em sedimento folclórico
universal. Isto é acessório. O que importa é que realmente o parentesco existe e dele nasceram
as ‘Bachianas Brasileiras’.”

(...)

“As Bachianas Brasileiras inscrevem-se no catálogo de Villa-Lobos abrangendo o período de


1930 a 1945, que corresponde à faixa etária dos 43 aos 58 anos do compositor. É a época da
plena maturidade de quem já escrevera (até 1930), entre muitas outras obras, os bailados
‘Uirapuru’ e ‘Amazonas’, o ‘Quatuor com vozes femininas’ e o ‘Noneto’, as duas séries de
‘Proles do Bebê’, o ‘Rudepoema’ e os ciclos das ‘Serestas’, das ‘Cirandas’ e dos ‘Choros’”
(Nóbrega, As Bachianas Brasileiras de Villa-Lobos).

(...)

“Por que Choros? É preciso recorrer ao compositor para bem situar e conceituar suas obras
assim denominadas. Um esclarecimento publicado na edição do ‘Choros No. 3’, diz que os
Choros representam uma nova forma de composição musical, na qual são sintetizadas as
diferentes modalidades da música brasileira indígena e popular, tendo por elementos
principais o ritmo e qualquer melodia típica de caráter popular que aparece vez por outra,
acidentalmente, sempre transformada segundo a personalidade do autor. Os processos
harmônicos são, igualmente, uma estilização completa do original. (...) Em explicação
posterior, os choros são construídos segundo uma forma técnica especial, baseada nas
manifestações sonoras dos hábitos e costumes dos nativos brasileiros, assim como nas
impressões psicológicas que trazem certos tipos populares extremamente marcantes e
originais. Temos, portanto, que além do propósito de sintetizar diferentes modalidades da

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música brasileira “indígena e popular”, essas obras trazem outro ingrediente muito pouco
específico, porquanto geral e subjetivo, qual seja o de retratar psicologicamente aqueles tipos
populares. Por essa via, ou a despeito dela, afirma-se a forte personalidade do compositor, que
se impõe acima do exotismo ameríndio e da grata mensagem do popular urbano” (Nóbrega:
Os Choros de Villa-Lobos).

EDIÇÃO ESPECIAL: VILLA-LOBOS E OS SONS DO BRASIL 26 .


ANEXO 3 – DISCOGRAFIA BÁSICA

“BACHIANAS BRASILEIRAS Nos. 1, 2, 5 e 9” – Orquestra de Radiodifusão Francesa –


Regente: Villa-Lobos (Emi/Angel)

“HEITOR VILLA-LOBOS - CIRANDAS E CIRANDINHAS” – Piano Solo: Roberto Szidon


(Kuarup Discos)

“HEITOR VILLA-LOBOS – Obra Completa para Violão Solo” – Sérgio e Odair Assad
(Kuarup Discos)

“OS CHOROS DE CÂMARA DE VILLA-LOBOS” (Kuarup Discos)

“HEITOR VILLA-LOBOS - Concertos para Solistas e Orquestra” – Turíbio Santos, violão /


Paulo Moura, sax soprano / Noel Devos, fagote (Kuarup Discos)

“HEITOR VILLA-LOBOS par lui même” – Orquestra de Radiodifusão Francesa – Regente:


Villa-Lobos (Caixa com 06 CDs: Bachianas Brasileiras Completas, Choros 10,
Descobrimento do Brasil, etc.)

“UIRAPURU” - Stadium Symphony Orchestra of New York – Regente: Leopold Stokowski


– (CD Imagem 1021)

“FLORESTA DO AMAZONAS” – Coro e Orquestra "Symphony of the Air" - Regente:


Villa-Lobos

GRAVADORA E LOJAS

KUARUP DISCOS: Tel. (21) 2220-1017 / 2220-1623 – www.kuarup.com.br

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MODERN SOUND: Tel. (21) 2548-5005 – www.modernsound.com.br - Rua Barata Ribeiro,
502 – Copacabana

ARLEQUIM: Tel. (21) 2220-8471 / 2524-7242 - Paço Imperial / Praça XV


www.arlequim.com.br

LIVRARIA DA TRAVESSA: (21) 3231-8015 / Centro: Travessa do Ouvidor, 11. Tel.: (21)
3205-9002 / Ipanema: Visconde de Pirajá, 462 www.livrariadatravessa.com.br

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ANEXO 4

BIBLIOGRAFIA

 HORTA, Luiz Paulo. Heitor Villa-Lobos. Rio de Janeiro: Edições Alumbramento /


Livroarte Editora, 1986.

 MARIZ, Vasco. Heitor Villa-Lobos; compositor brasileiro. 5 ed. Rio de Janeiro: Museu
Villa-Lobos, 1977.

 NÓBREGA, Ademar. As Bachianas Brasileiras de Villa-Lobos. 2ª. Ed. MVL, 1976.

 NÓBREGA, Ademar. Os Choros de Villa-Lobos. 2ª. Ed. MVL, s.d.

 “O pensamento vivo de Heitor Villa-Lobos”. São Paulo, Martin Claret Editores,


 VILLA-LOBOS, Heitor. “Educação Musical”. Presença de Villa-Lobos – 13º volume.
Rio de Janeiro, Museu Villa-Lobos, 1991.
 “Villa-Lobos, sua obra”. 2ª. Ed. MVL/MEC, 1972. (Catálogo de obras)

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Presidente da República
Luís Inácio Lula da Silva

Ministro da Educação
Fernando Haddad

Secretário de Educação a Distância


Carlos Eduardo Bielschowsky

TV ESCOLA/ SALTO PARA O FUTURO

Diretor de Produção de Conteúdos e Formação em Educação a Distância


Demerval Bruzzi

Coordenador-geral da TV Escola
Érico da Silveira

Coordenadora-geral de Capacitação e Formação em Educação a Distância


Simone Medeiros

Supervisora Pedagógica
Rosa Helena Mendonça

Acompanhamento Pedagógico
Grazielle Avelar Bragança

Coordenação de Utilização e Avaliação


Mônica Mufarrej
Fernanda Braga

Copidesque e Revisão
Magda Frediani Martins

Diagramação e Editoração
Equipe do Núcleo de Produção Gráfica de Mídia Impressa – TV Brasil
Gerência de Criação e Produção de Arte

Consultoras especialmente convidadas


Márcia Ladeira e Valdinha Barbosa

E-mail: salto@mec.gov.br
Home page: www.tvbrasil.org.br/salto
Rua da Relação, 18, 4o andar - Centro.
CEP: 20231-110 – Rio de Janeiro (RJ)
Abril de 2008

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