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organização Maria Lúcia Vissotto Paiva Diniz Jean Cristtus Portela
organização
Maria Lúcia Vissotto Paiva Diniz
Jean Cristtus Portela
SEMIÓTICA E MÍDIA textos, práticas, estratégias
SEMIÓTICA E MÍDIA
textos, práticas, estratégias

SEMIÓTICA E MÍDIA

textos, práticas, estratégias

Unesp – Universidade Estadual Paulista Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação Bauru, São Paulo, Brasil

Reitor

Marcos Macari

Vice-Reitor Herman Jacobus Cornelis Voorwald

Diretor Antônio Carlos de Jesus

Vice-Diretor

Roberto Deganutti

Organizadores Maria Lúcia Vissotto Paiva Diniz Jean Cristtus Portela

Comissão editorial Jean Cristtus Portela Loredana Limoli Maria Lúcia Vissotto Paiva Diniz Mariza Bianconcini Teixeira Mendes Matheus Nogueira Schwartzmann

Revisão Adriane Ribeiro Andaló Tenuta Fouad Camargo Abboud Matuck Mariza Bianconcini Teixeira Mendes Matheus Nogueira Schwartzmann

Normalização Dimas Alexandre Soldi Fouad Camargo Abboud Matuck Luiz Augusto Seguin Dias e Silva Tânia Ferrarin Olivatti

organização

Maria Lúcia Vissotto Paiva Diniz Jean Cristtus Portela

SEMIÓTICA E MÍDIA

textos, práticas, estratégias

Unesp/FAAC

2008

Copyright © 2008 Unesp/FAAC

Projeto gráfico e capa Diego Pontoglio Meneghetti

DIVISÃO TÉCNICA DE BIBLIOTECA E DOCUMENTAÇÃO UNESP – Campus de Bauru

302.2

S474

Semiótica e mídia: textos, práticas, estratégias / Maria Lúcia Vissotto Paiva Diniz e Jean Cristtus Portela (organizadores). -- Bauru: UNESP/FAAC, 2008. 269 p.

ISBN 978-85-99679-11-1

1. Semiótica. 2. Comunicação. 3. Mídia. 4. Práticas semióti-

cas.

I. Diniz, Maria Lúcia Vissotto Paiva. II. Portela, Jean Cristtus.

III.

Título.

Ficha catalográfica elaborada por Maristela Brichi Cintra – CRB/8 5046

ca elaborada por Maristela Brichi Cintra – CRB/8 5046 Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita

Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação Departamento de Ciências Humanas

Artes e Comunicação Departamento de Ciências Humanas Grupo de Estudos Semióticos em Comunicação (GESCom)

Grupo de Estudos Semióticos em Comunicação (GESCom) http://www.faac.unesp.br/pesquisa/gescom/ gescom@faac.unesp.br

Av. Eng. Luiz Edmundo C. Coube, 14-01 Bauru, SP, CEP 17033-360 Tel.: (14) 3103-6064 / 6036 - Fax (14) 3103-6051

SEMIÓTICA E MÍDIA

textos, práticas, estratégias

Semiótica e mídia: a proposta de integração do GESCom Maria Lúcia Vissotto Paiva Diniz

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PARTE I – NOVOS DESENVOLVIMENTOS EM SEMIÓTICA E MÍDIA

Práticas semióticas: imanência e pertinência, eficiência e otimização Jacques Fontanille

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Semiótica e comunicação José Luiz Fiorin

75

Semiótica midiática e níveis de pertinência Jean Cristtus Portela

93

PARTE II – JORNALISMO IMPRESSO E TELEVISADO

Cartas na mídia impressa: uma prática semiótica entre leitores e editores Matheus Nogueira Schwartzmann e Mariza Bianconcini Teixeira Mendes

117

Práticas de direcionamento do fluxo de atenção no telejornalismo Juliano José de Araújo

131

PARTE III – VINHETAS

Break comercial: estratégia e eficiência Jaqueline Esther Schiavoni

155

Figuralidade e semi-simbolismo na abertura da telenovela Belíssima Loredana Limoli

169

O Nu de Boubat e a Globeleza Adriane Ribeiro Andaló Tenuta

183

PARTE IV – REALITY SHOW E PROGRAMAS DE COMPORTAMENTO

Práticas enunciativas como estratégias de interação: Big Brother Brasil Maria Lúcia Vissotto Paiva Diniz e Sarah Caramaschi Degelo

201

PARTE V – NOVAS MÍDIAS

Internet, YouTube e semiótica: novas práticas do usuário/produtor Tânia Ferrarin Olivatti

237

Rádio e podcast: intersecção das práticas Djaine Damiati Rezende e Matheus Nogueira Schwartzmann

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Os organizadores

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Os autores

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Semiótica e mídia: a proposta de integração do GESCom

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SEMIÓTICA E MÍDIA

A proposta de integração do GESCom

Realizar a integração entre semiótica e mídia foi sempre o desafio, nos dez anos de atividade ininterrupta, do GESCom – Grupo de Estudos Semióticos em Comunicação. Um trabalho difícil no princípio, quando parte da academia e dos órgãos de fomento olhava ainda com desconfiança a semiótica, sobretudo a greimasiana ou francesa (SF). No entanto, nossa insistência nessa corrente tem dupla fundamentação, como veremos. De um lado, a SF tem como alicerce o projeto pioneiro da teoria científica de Ferdinand de Saussure, a Lingüística, redescoberta, de início, pela Antro- pologia, e depois utilizada pela epistemologia geral das ciências humanas. No entanto, tanto a SF standard, preconizada por Greimas, quanto a SF mais re- cente, sustentada por seus sucessores, relegam a pura descrição lingüística aos seus limites, pois nem a morfologia nem a sintaxe nem a gramática nem a le- xicologia, que embasava os estudos inaugurais de Greimas, são tratadas como tais na semiótica narrativa (ou da ação), na semiótica discursiva, na semiótica das paixões ou, ainda, na vertente tensiva. E isso realmente não é apenas uma impressão sobre a evolução da semiótica, pois o próprio Greimas, depois de ter defendido duas teses valendo-se de estudos em lexicologia, confessa “eu vi, depois de trabalhar cinco ou seis anos, que a lexicologia não leva a nada – que as unidades, lexemas ou signos não levam a nenhuma análise, não permitem a estruturação, a compreensão global dos fenômenos” e finaliza dizendo: “uma

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Maria Lúcia Vissotto Paiva Diniz

semiótica é um ‘sistema de signos’ desde que ultrapasse esses signos e olhe o que acontece sob os signos” 1 . O que resta, portanto, como a espinha dorsal da SF, é a reflexão epistemoló- gica da lingüística saussuriana, pois desde o artigo “L’actualité du saussurisme” (1956) 2 , concebido para a comemoração do 40° aniversário da publicação do Curso de lingüística geral, até Semiótica das paixões (1991), Greimas faz diversas referências àquela ciência demonstrando que os conceitos básicos de seu proje- to semiótico estão enraizados, certamente, em Saussure e Hjelmslev. Por outro lado, Greimas teve também um papel importante na fundação das ciências da informação e comunicação na França, desempenho até hoje pouco conhecido e pouco difundido. Como pesquisador de renome, foi um dos treze membros escolhidos para compor o comitê francês para o reconhecimento des- sa área de estudo pelo Ministério da Educação. E ainda participou, em outubro de 1970, em Milão, do Congresso Nacional do Instituto Gemelli, que tinha por tema, já naquela época, “Estado e tendências atuais da pesquisa em comunica- ção de massa”, discussão que resultou no livro Semiótica e ciências sociais, publi- cado em 1976, com tradução brasileira em 1981. Relendo esse livro, trinta anos depois, é notável a acuidade intelectual de Greimas ao afirmar que “a teoria da comunicação social generalizada deve colocar-se sob a égide não da informação, mas da significação”. Nas observações finais do capítulo II, descreve os atributos do que chamou de “uma disciplina difícil de nomear, de objeto vago e meto- dologia embrionária, aparece, cresce, alastra-se em todos os sentidos, quase se impõe”, evidenciando sua abrangência então crescente e hoje certamente confir- mada. Porém, Greimas indica também a fragilidade de tal teoria que, segundo suas palavras, “recobre um campo de curiosidade científica inexplorado”. Diante disso, considera que é o momento da disciplina interrogar-se sobre si mesma e de colocar em causa seus postulados e seu próprio fazer, e aponta a necessidade precípua de que se instaure “uma investigação semiótica sobre as dimensões e as articulações significativas das macrossociedades atuais” 3 . Para melhor compreender as considerações de Greimas, é importante revermos o contexto em que a semiótica surgiu. Sua pretensão era construir uma semiótica da significação, um projeto científico que permitisse chegar à

1 Resposta de Greimas ao ser interrogado por Michel Arrivé no colóquio de Cérisy-la-Salle (1983) sobre o papel da lexicologia estrutural em sua obra. A. J. Greimas, “Algirdas Julien Greimas mis à la question”, em Michel Arrivé e Jean-Claude Coquet (orgs.), Sémiotique en jeu. A partir et autour de l’œuvre d’A. J. Greimas, Paris/ Amsterdam, Hadès/Benjamins, 1987, p. 302-303.

2 Publicado em Le Français moderne, n. 24, 1956, p. 191-203, e republicado em A. J. Greimas, La mode en 1830, Paris, PUF, 2000, p. 371-382.

Semiótica e mídia: a proposta de integração do GESCom

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significação do texto, opondo-se radicalmente às teorias literárias de cunho psicossociológico da época. O que fez a semiótica ter sucesso em outros campos, além das ciências da linguagem, foi sua noção de texto, conside- rado não como substância, mas como um todo formal de significação não importando qual fosse sua forma de manifestação. Em seu projeto semiótico há lugar tanto para a semiótica geral quanto para as semióticas específicas. De um lado, estabelece-se uma perspectiva teórica englobante que dá a cada conceito um valor universal, seja qual for o campo das práticas humanas a que esteja vinculado. De outro, temos várias perspectivas teóricas engloba- das, um vasto campo de pesquisas que se efetuam por empréstimos concei- tuais. Tomando este ou aquele conceito da semiótica geral, cada semiótica específica modela-o e o redefine de acordo com seus princípios de pertinên- cia. Assim aconteceu com as semióticas visual, musical, da arquitetura, ou mesmo com a semiótica das paixões, do gosto e do olfato. E o mesmo vem acontecendo com a semiótica das mídias, que hoje é a vedete nos eventos científicos que reúnem semioticistas e especialistas da comunicação. Como vemos, a relação entre semiótica e mídia é bastante antiga: os estu- dos comunicacionais avançam e os semioticistas vêm dando sua contribuição. Entretanto, a relação entre essas áreas parece ainda autista, pois uns e outros não se entendem entre si, resultando em uma convivência difícil. Se tentarmos descrever essas duas áreas, chegamos a um paradoxo: uma infinidade de con- tatos íntimos, acompanhados de quase total desconhecimento recíproco. Mas os congressos nacionais e regionais de comunicação vêm abrindo espaço para os estudos semióticos, chegando mesmo a um fato inusitado: reunir os semio- ticistas dos três maiores ramos da semiótica (semiótica peirceana, semiótica francesa e semiótica da cultura) num mesmo espaço, em mesas de discussão e sessões temáticas, o que aponta, evidentemente, para um convívio necessário e produtivo. Assim, a investigação das semióticas das mídias, projeto que ainda apresenta pontos de vistas discordantes, revelam prismas que se encontram e, muitas vezes acabam por cooperar entre si. A herança estruturalista da semiótica francesa (SF) perde força nos anos 1980, diante de novas concepções filosóficas e científicas (ciências cognitivas, teorias das catástrofes, auto-organização de sistemas etc.), levando-a a buscar novas questões e novos centros de interesse. Tais mudanças de perspectivas não prevêem um recomeçar do zero, ao contrário, o que era proibido volta a ser questionado, o que foi excluído, é reintegrado de acordo com a necessidade da teoria. A enunciação, a percepção, que antes eram vistas como uma saída do

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Maria Lúcia Vissotto Paiva Diniz

texto em direção à referência e à representação do mundo, são agora retomadas

e,

com o tempo, a SF percebe que o texto não contém apenas os níveis enuncivo

e

enunciativo, mas abarca também os processos que acionam e “formatam” o

enunciado e a enunciação, pois para a apreensão da significação é preciso con- siderar os processos que atuam ali, processos instáveis, considerados ainda em seu devir. Dessa forma, a SF traçou seu próprio caminho nas veredas sinuosas

das paixões e nas precondições da significação, identificando, antes da significa- ção e da comunicação, um universo indiferenciado, que hoje é objeto de estudo da pesquisa semiótica que a distancia da autonomia do texto.

A partir de Semiótica das paixões de Greimas e Fontanille, traduzido para

o português em 1993, a SF abriu o texto para o “mundo natural”, sustentando

que a significação articula-se em duas direções, uma manifestada e realizada, outra manifestante e realizante. Se, para a primeira, os esquemas actanciais ou os programas narrativos são eficazes, para a segunda, os elementos pertinentes são a percepção, as sensações, o sensível, a intencionalidade, a cognição, o con- texto social. Se alguns criticam ainda o imanentismo ou o percurso gerativo do

sentido, demonstram com isso total desconhecimento sobre a evolução da SF, pois ela agora considera a significação não como dependente apenas do texto, do enunciado, mas decorrente de dados extralingüísticos, tais como as noções de precondições da significação, valências, estesia, protensividade e devir, afeto, andamento, espaço tensivo, práxis enunciativa, modos de presença, interações e níveis de pertinência, que incluem as práticas, as estratégias, as formas de vida e

a cultura, aquisições e desdobramentos introduzidos a partir dos anos 1990. Sobre esses patamares, pouco explorados nos estudos comunicacionais, é que se inscrevem os textos aqui apresentados, que refletem certa heterogenei- dade nas abordagens empreendidas pelos autores, decorrente tanto da perspec-

tiva priorizada pelo analista quanto da natureza intrínseca do objeto analisado. Os textos reunidos na presente coletânea foram distribuídos em cinco partes:

I – Novos desenvolvimentos em semiótica e mídia; II – Jornalismo impresso e

televisado; III – Vinhetas; IV – Reality show e programas de comportamento, e

finalmente, V – Novas Mídias.

A primeira parte inicia-se com um texto inédito em língua portuguesa de

Jacques Fontanille, intitulado “Práticas semióticas: imanência e pertinência, efi- ciência e otimização”, uma das leituras que embasaram os seminários do GES- Com em 2007 e 2008 e que fomentaram muitas das pesquisas dos membros do grupo. Na seqüência, ainda na primeira parte temos a reedição de um texto de José Luiz Fiorin, “Semiótica e Comunicação”, um clássico da área, que defende

Semiótica e mídia: a proposta de integração do GESCom | 13

a semiótica como proposta metodológica para o estudo da comunicação midiá-

tica. Para fechar essa primeira parte, há o texto de Jean Cristtus Portela, “Semi- ótica midiática e níveis de pertinência”, que empreende uma reflexão sobre os níveis de pertinência semiótica propostos por J. Fontanille e sua aplicação do campo da análise das mídias. As demais partes do livro trazem os textos dos membros do grupo selecio- nados para publicação e organizados segundo os objetos analisados. A parte II apresenta dois textos. O primeiro, intitulado “Cartas na mídia impressa: uma prática semiótica entre leitores e editores”, de Matheus Nogueira Schwartzmann

e Mariza Bianconcini Teixeira Mendes, analisa a troca epistolar presente na mí-

dia impressa como uma prática semiótica interativa, ressaltando a sua eficiên- cia. O segundo, “Práticas de direcionamento do fluxo de atenção no telejorna-

lismo”, de Juliano José de Araújo, apresenta a análise de um telejornal que, sob

o enfoque do sensível, busca mostrar como esse gênero faz para captar e manter

a adesão do telespectador durante a sua transmissão. A parte III reúne três arti-

gos, “Break comercial: estratégia e eficiência”, de Jaqueline Esther Schiavoni, que

trata de um estudo sobre a composição e o ordenamento do break comercial

na programação televisiva, e dois textos sobre semiótica visual, “Figuralidade

e semi-simbolismo na abertura da telenovela Belíssima” de Loredana Limoli,

em que a abertura da telenovela é tomada como um objeto estético de natureza sincrética, e “O Nu de Boubat e a Globeleza”, de Adriane Ribeiro Andaló Tenuta, em que uma análise de Jean-Marie Floch é retomada a fim de analisar o “nu artístico” da mulata brasileira na televisão. Na parte IV temos dois trabalhos também sobre televisão: “Práticas enunciativas como estratégias de interação:

Big Brother Brasil”, de Maria Lúcia Vissotto Paiva Diniz e Sarah Caramaschi Degelo, no qual as autoras buscam identificar como se dá a adesão do teles- pectador a esse tipo de programa, elegendo a enunciação e suas práticas como estratégias de interação, e “Práticas passionais na mídia televisiva: programas de comportamento”, de Dimas Alexandre Soldi, que analisa os programas Silvia Poppovic e Casos de Família, explicitando e comparando o envolvimento emo- cional dos atores e actantes. Finalmente, temos a parte V, que reúne os trabalhos sobre o YouTube e o Podcast, respectivamente “Internet, YouTube e semiótica:

novas práticas do usuário/produtor”, de Tânia Ferrarin Olivatti, e “Rádio e pod- cast: intersecção das práticas”, de Djaine Damiati Rezende e Matheus Nogueira Schwartzmann, que tentam evidenciar a pertinência e a eficiência das práticas e estratégias propostas pelos avanços midiáticos. Esta obra é, portanto, o resultado de três semestres de atividade do GES-

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Maria Lúcia Vissotto Paiva Diniz

Com (2007-2008) que tiveram como tema as “Práticas na mídia”, tomando como eixo teórico o texto de Jacques Fontanille, que, como já dissemos, inicia

este livro. A discussão desse texto inovador e de outras leituras, abordadas como desdobramentos da SF, fomentou a produção de análises de objetos midiáticos pelos membros do grupo que, conseqüentemente, redundaram na concepção deste nosso projeto. Desse modo, os textos ora apresentados foram reunidos, e mesmo concebidos, com a intenção de demonstrar ao leitor que o estudo de um determinado caso pode elucidar uma série de práticas recorrentes em diferen- tes manifestações midiáticas de natureza multimodal, sobretudo verbo-visual e audiovisual, sendo que o próprio Greimas dizia-se persuadido de que esses objetos possuem “uma linguagem comum de que se valem para nos ‘falar’, mas também – e sobretudo – de que é possível construir uma linguagem que nos

permita ‘falar’ deles

Os agradecimentos são sempre muitos no GESCom, pois foi graças à cola- boração constante de todos os membros que o grupo pôde ser continuamente impulsionado, chegando a esta primeira publicação. Entre aqueles que nos aju- daram a efetivá-la, agradeço aos membros que se apresentaram como autores dos capítulos, aceitando o desafio de investigar seus objetos na perspectiva da SF, desdobrando-se, muitas vezes, para os níveis de pertinência semiótica pro- postos por Fontanille. Agradeço aos pareceristas, aos membros que participa- ram da tradução, da normalização, da revisão e diagramação, num verdadeiro trabalho de equipe. E também à direção e vice-direção da FAAC, que financia- ram esta publicação via verba departamental e projeto de extensão. Agradeço, principalmente, ao co-organizador desta obra, pelo empenho em resolver as questões técnicas e o cuidado com a excelência dos trabalhos.

4 .

Maria Lúcia Vissotto Paiva Diniz Líder do GESCom-UNESP

Bauru, setembro de 2008

Parte I

NOVOS DESENVOLVIMENTOS EM SEMIÓTICA E MÍDIA

Práticas semióticas: imanência e pertinência, eficiência e otimização | 17

PRÁTICAS SEMIÓTICAS

Imanência e pertinência, eficiência e otimização 1

Jacques Fontanille

1. IMANÊNCIA E PERTINÊNCIA 1.1. Introdução

“Fora do texto não há salvação!” é um slogan que marcou uma época, quan-

do era preciso resistir aos cantos de sereia do contexto e às tentações de práticas hermenêuticas, especialmente no domínio literário, que procuravam “explica- ções” num conjunto de dados extratextuais e extralingüísticos. “FDTNHS!” era

o slogan de uma ascese metodológica fecunda, que permitiu levar o mais longe

possível a pesquisa dos modelos necessários a uma análise imanente e delimitar

o campo de investigação de uma disciplina e de uma teoria, a semiótica do texto

e do discurso. Mas se tais tentações permanecem atuais, hoje a questão é colocada de ma- neira diferente. De um lado, as pesquisas cognitivas convidam a semiótica a tomar uma posição sobre o estatuto das operações de “produção de sentido” que ela iden- tifica em suas análises de discurso: são operações cognitivas dos produtores ou dos intérpretes? São rotinas desenvolvidas coletivamente no interior de cada cultura? São atividades das próprias semióticas-objeto, consideradas como “má- quinas significantes” e dinâmicas?

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Jacques Fontanille

De outro lado, a própria prática semiótica ultrapassou amplamente os li- mites textuais, interessando-se, há mais de vinte anos, pela arquitetura, pelo urbanismo, pelo design de objetos, por estratégias de mercado (Floch, 1990) ou ainda pela degustação de um charuto ou de um vinho e, de um modo mais geral, pela construção de uma semiótica das situações (Landowski, 1992) e até mesmo, hoje em dia, segundo as proposições de Landowski, de uma semiótica da experiência – a partir da problemática do contágio – do ajustamento estésico e do aleatório (Idem, 2004; 2005). Parece que chegou a hora de redefinir a natureza daquilo de que a semiótica se ocupa (as “semióticas-objeto”), para, ao mesmo tempo, responder às ques- tões que lhe são colocadas a partir do exterior (às vezes também do interior) e assumir teoricamente essas múltiplas e necessárias pesquisas conduzidas fora do texto, pesquisas que se justificam na medida em que se submetem à coerção mínima de uma solidariedade entre expressão e conteúdo e não constituem es- capadas “fora da semiose”. Entretanto, o princípio da imanência revelou-se como portador de um grande potencial teórico, pois a restrição que impõe à análise é uma das condi- ções da modelização e, conseqüentemente, do enriquecimento da proposição teórica global: sem o princípio da imanência, não haveria teoria narrativa, mas uma mera lógica da ação aplicada a motivos narrativos; sem o princípio da ima- nência, não haveria a teoria das paixões, mas uma mera importação de modelos psicanalíticos; sem o princípio da imanência, não haveria a semiótica do sensí- vel, mas somente uma reprodução ou um arranjo de análises fenomenológicas. Por trás do princípio da imanência perfila-se uma hipótese forte e produtiva, segundo a qual a própria práxis semiótica (a enunciação “em ato”) desenvolve uma atividade de esquematização, uma “metassemiótica interna”, pela qual po- demos “apreender” o sentido, e que a análise tem por tarefa inventariar e expli- citar em sua metalinguagem. Todas as lingüísticas e semióticas que renunciaram ao princípio da ima- nência encontram-se hoje divididas em dois ramos: um ramo forte, quando encaram diretamente seu objeto, e um ramo fraco e difuso, quando solicitam o que chamam de “contexto” de seu objeto. Em suma, tratar-se-ia não de inserir o objeto de análise em seu contexto, mas, ao contrário, de integrar o contexto ao objeto de análise, assumindo como conseqüência o fato de que, semioticamente falando, o contexto não se situa “nem antes, nem depois, mas no âmago da lin- guagem” (Landowski, 1992: 147; 170-172). Greimas insistia, no desenvolvimento do verbete “semiótica”, no Dicionário i

Práticas semióticas: imanência e pertinência, eficiência e otimização | 19

(1983: 409-416), que as semióticas-objeto analisadas não coincidem obrigato-

riamente com as semióticas construídas que resultam da análise: estas revelam- se mais restritas ou mais amplas que aquelas. Em suma, com relação a uma dada semiótica-objeto, a semiótica construída pode ser “intensa” (concentrada

e focalizada), ou “extensa” (expandida e englobante). No que concerne à semi-

ótica dos objetos, por exemplo, encontramos tanto a versão “intensa” (o objeto como suporte de inscrições ou de vestígios) quanto a versão “extensa” (o objeto como um ator entre os demais de uma prática semiótica). A versão “intensa” diz respeito ao nível de pertinência inferior, pois focaliza as condições de inscrição do texto, enquanto a versão “extensa” diz respeito ao nível de pertinência supe- rior, o da prática englobante. Portanto é preciso se esforçar para dar conta da relação entre as semióticas construídas “intensas” e “extensas”, identificando e articulando seus respectivos níveis de pertinência. Sobre a análise imanente, devemos hoje distinguir cuidadosamente (1) o próprio princípio de imanência e (2) a fixação dos limites da imanência. Essa questão tornou-se definitivamente confusa pela maneira como esses limites,

provisórios e arbitrários, foram recentemente fixados no texto-enunciado. Se

é verdade, como diz Hjelmslev, que os dados do lingüista apresentam-se como

sendo os do “texto”, isso não é mais uma verdade para o semioticista, que tra- balha também com “objetos”, com “práticas” ou com “formas de vida” que es- truturam áreas inteiras da cultura. Assim, o slogan greimasiano deveria ser hoje reformulado: “Fora das semióticas-objeto não há salvação!”, cabendo a nós de-

finir o que são essas “semióticas-objeto”. Quanto ao recurso ao contexto, nessas condições, trata-se apenas da confissão de uma delimitação não pertinente da semiótica-objeto analisada e, mais precisamente, de uma inadequação entre o tipo de estruturação buscada e o nível de pertinência em questão.

1.2. O “NÍVEL DE PERTINÊNCIA” DAS PRÁTICAS NO PERCURSO DA EXPRESSÃO

1.2.1. Notas sobre a hierarquia dos níveis

A hierarquia – (1) signos e figuras, (2) textos-enunciados, (3) objetos e

suportes, (4) práticas e cenas, (5) situações e estratégias, (6) formas de vida

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Jacques Fontanille

como segue 2 :

20 | Jacques Fontanille como segue 2 : Essa hierarquia dos níveis de pertinência semiótica, previamente

Essa hierarquia dos níveis de pertinência semiótica, previamente definida como constitutiva do percurso gerativo do plano da expressão, leva-nos a algu- mas observações complementares. De início, e na falta de um inventário mais exaustivo, essa estruturação do mundo da expressão semiótica em seis planos de imanência 3 e de pertinência diferentes apresenta-se como uma descrição da estrutura semiótica das cultu- ras. Entre os signos e as formas de vida, ela propõe de fato que se considere o conjunto dos níveis pertinentes nos quais as significações culturais podem se exprimir. Para definir seu objeto, na verdade, a semiótica da cultura deve organizar-se ao mesmo tempo em intensão e em extensão. Em intensão, para dar uma defi- nição formal e operatória do que é uma cultura do ponto de vista semiótico e, em extensão, para especificar seus elementos e níveis pertinentes. Quando um semioticista como Iuri Lotman descreve, ao longo de sua obra, a cultura russa, ele não age de modo diferente: por um lado, começa por colocar a definição intensiva da cultura, graças ao modelo da semiosfera (Lotman, 1999), de outro,

2 No texto original, o autor faz referência a Fontanille (2007b). Optamos por apresentar ao leitor uma publica- ção equivalente em português e inserimos no corpo do texto deste trabalho o quadro dos níveis de pertinên- cia. (N.T.)

Práticas semióticas: imanência e pertinência, eficiência e otimização

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não cessa de ir e vir entre textos (em geral literários), formas de vida (coletivas

e individuais, tiradas da história russa), entre signos (arquitetônicos ou verbais, por exemplo) e estratégias (políticas ou militares). É preciso esclarecer ainda que, se para Lotman a semiosfera é objeto de uma organização precisa e siste- mática sobre as bases de uma epistemologia cibernética, os níveis de pertinência não estão explicitados e só podem ser identificados pela diversidade de seus objetos de análise e de seus exemplos. O objeto deste estudo é mais especificamente o nível das práticas, mas sem jamais perder de vista os demais níveis com os quais elas mantêm relações sem- pre significantes, segundo um princípio já definido por Émile Benveniste (1995:

127-140), o princípio de integração. É verdade que Benveniste limita volunta- riamente o estudo desse princípio ao domínio das línguas verbais (fonemas, morfemas, sintagmas, frases), mas o problema do qual ele trata é exatamente da mesma natureza daquele tratado pela semiótica das culturas, guardadas as devidas proporções. Um exemplo permitirá ilustrar concretamente como acontece a integração semiótica entre os diferentes planos de imanência. É o exemplo banal da corres- pondência postal. Um texto (o da carta) é inscrito em folhas de papel, que são colocadas dentro de um envelope, sobre o qual está o endereço do destinatário, às vezes o do destinador, assim como algumas figuras e marcas (timbre, selos etc.) pelas quais o intermediário marca sua presença e seu papel. As mesmas indicações (o nome e o endereço do destinatário) podem ser

encontradas ao mesmo tempo na carta e no envelope. Mas sua inscrição em duas partes diferentes do objeto de escrita lhe confere papéis actanciais diversos:

(1) na carta, o nome e o endereço do destinatário participam de uma estrutura de enunciação, um “endereço” que manifesta a relação enunciativa, eventual- mente implícita, do texto da carta, e determinam sua leitura; (2) no envelope,

o nome e o endereço do destinatário participam de duas práticas diferentes:

por um lado, constituem uma instrução para os intermediários postais, no mo- mento das operações de classificação, de encaminhamento, de transporte e de distribuição final, por outro, permitem triar, entre todos os receptores possíveis

da carta, o destinatário legítimo, ou seja, quem tem o direito de abrir o envelope

e ler a carta. A fronteira entre as duas configurações é o estado do envelope: se ele está fechado, somente a primeira prática está ativa; se está aberto, a segunda prá- tica pode ser realizada. Assim, encontramos aqui associados a uma morfolo- gia particular do objeto de escrita, dois tipos de prática, uma instaurada pelo

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Jacques Fontanille

gênero epistolar e outra, pelo gênero “comunicação e circulação dos objetos em sociedade”, encaixadas uma à outra. Cada uma corresponde a uma parte

e a um estado do objeto, assim como a inscrições específicas, que permitem

administrar a confrontação com outras práticas eventualmente concorrentes, provenientes de outros gêneros. Se o envelope chega aberto, por exemplo, o correio deve colocar uma outra inscrição para indicar que a “prática concor- rente” já fazia parte do processo corriqueiro de distribuição, e não de uma prá- tica externa ilegítima. Ou ainda, em uma empresa, é a própria formulação do nome do destinatário que decide o modo de abertura: se o nome é um título ou uma função, o envelope será aberto antes de chegar a seu destinatário, se é um nome próprio, ela chegará fechada. Desse modo, vemos formar-se aqui um outro nível de pertinência, que está

a meio caminho entre o dos objetos e o das situações em geral: o das práticas, aqui práticas de escrita, práticas de comunicação social e práticas de manipula- ção de objetos. Os dois modos de inscrição dos mesmos elementos textuais só aparecem no nível textual sob a forma de propriedades materiais acessórias e só

têm sentido no nível superior, o das práticas. Essa condição evoca diretamente

a regra definida por Benveniste:

Um signo é materialmente função dos seus elementos constitutivos, mas

o único meio de definir esses elementos como constitutivos consiste

em identificá-los no interior de uma unidade determinada onde pre- enchem uma função integrativa. Uma unidade será reconhecida como distintiva num determinado nível se puder identificar-se como “parte integrante” da unidade de nível superior, da qual se torna o integrante (Benveniste, 1995: 133).

E ele continua a sistematizar a distinção entre “constituintes” e “integran- tes”, para chegar a uma conclusão maior, que coincide exatamente com nosso

projeto:

Qual é finalmente a função que se pode determinar para essa distinção entre constituinte e integrante? É uma função de importância funda-

mental. Pensamos encontrar aqui o princípio racional que governa, nas unidades dos diferentes níveis, as relações entre Forma e Sentido. [ ]

A forma de uma unidade lingüística define-se como a sua capacidade de

dissociar-se em constituintes de nível inferior.

O sentido de uma unidade lingüística define-se como a sua capacidade

de integrar uma unidade de nível superior.

Práticas semióticas: imanência e pertinência, eficiência e otimização | 23

Forma e sentido aparecem assim como propriedades conjuntas, dadas necessária e simultaneamente, inseparáveis no funcionamento da língua. As suas relações mútuas revelam-se na estrutura dos níveis lingüísticos, percorridos pelas operações descendentes e ascendentes da análise e gra- ças à natureza articulada da linguagem (Ibidem: 134-136).

1.2.2. A cena predicativa das práticas

É chegado o momento de especificar a definição do nível de pertinência das

práticas, que deve obedecer ao princípio anteriormente formulado. As práticas recebem uma “forma” (constituintes) de sua confrontação com as outras práti- cas e, por isso, de um lado, integram os elementos materiais dos níveis inferiores

(signos, textos, objetos) para torná-los elementos distintivos e pertinentes e lhes dar “sentido”, e de outro lado, recebem um “sentido” de sua própria participação nos níveis superiores (estratégias e formas de vida).

A forma das práticas está ligada a sua dimensão predicativa, que designare-

mos, daqui por diante, como cena predicativa (no sentido em que, na lingüística dos anos 1960, falávamos da predicação verbal como de uma “pequena cena”) 4 . Sob esse aspecto, uma prática pode comportar um ou vários processos (um ou vários predicados), atos de enunciação que implicam papéis actanciais de- sempenhados, entre outros, pelos próprios textos ou imagens, por seus obje- tos-suportes, por elementos do ambiente, pelo transeunte, pelo usuário ou pelo observador, tudo o que forma a “cena” típica de uma prática. Do mesmo modo, ela é composta pelas relações entre esses diferentes papéis, essencialmente re- lações modais, mas também passionais. Enfim, a prática comporta geralmente uma modificação dos corpos e das figuras, que implica uma sintaxe figurativa. O conjunto (papéis, atos, modalizações, paixões e sintaxe figurativa) constitui esse primeiro dispositivo. Ele é centrado (sobre o predicado) e delimitado (pe- las “valências” actanciais e modais necessárias à atualização desse predicado) e essas duas propriedades caracterizam a forma da cena. As ferramentas e as práticas técnicas fornecem o exemplo mais simples desse tipo de cena predicativa prática: um objeto, configurado de acordo com um uso determinado, vai desempenhar um papel actancial no interior de uma prática técnica (cujo uso é a atualização enunciativa), que consiste em uma ação

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sobre um segmento figurativo do mundo natural (o “substrato” da prática). Nes- se segmento-substrato, a ferramenta e o usuário estão associados no interior de uma mesma cena predicativa, em que o conteúdo semântico do predicado é for- necido pela natureza figurativa do substrato e pela temática da própria prática

(cortar, raspar, aplainar etc.), e na qual esses diferentes atores desempenham os principais papéis actanciais (Floch, 1995: 181-213).

A integração das práticas ao nível superior, o das estratégias 5 , será feita sob

outras formas sintagmáticas, já que se trata, em suma, nesse caso, de geren- ciar as conjunturas e intersecções entre práticas: encadeamentos canônicos ou idiossincráticos, sobreposições e ajustamentos em tempo real, concorrências e alianças estratégicas entre práticas concomitantes ou paralelas. Enfim, para falar como Benveniste, a forma das práticas é predicativa (mais precisamente processual) e seu sentido é estratégico.

1.3. Contextos, instâncias pressupostas e propriedades sensíveis e materiais

1.3.1. Contextos

Na perspectiva da integração, o que aparece como “contexto”, a um nível

inferior ao das práticas, forma seu arcabouço predicativo, actancial, modal e te- mático em seu próprio nível e o que aparece como propriedades sensíveis e mate- riais não pertinentes, no nível inferior, forma a dimensão figurativa da prática.

O contexto e a substância não são, portanto, pertinentes no nível “n-1”, e

os elementos que comportam, reconfigurados em constituintes pertinentes do nível “n”, não são mais, desse modo, nem “contextuais” nem “substanciais”.

1.3.2. Instâncias pressupostas

Em outro contexto, o estatuto da enunciação e das instâncias enunciantes, intensamente discutidas por Jean-Claude Coquet (1994), obedece à mesma dis- tinção: no nível de pertinência do texto, a enunciação só é pertinente se está ali representada (enunciação enunciada), enquanto a enunciação dita “pressupos-

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ta” é um puro artefato que não pode ser observado. Mas no nível de pertinência dos objetos-suportes, e até mesmo no das práticas que os integram, a enuncia- ção encontra toda sua pertinência: os atores então ganham um corpo e uma identidade, o espaço e o tempo da enunciação lhes dão uma ancoragem dêitica e os próprios atos da enunciação podem inscrever-se figurativamente na própria materialidade dos objetos de inscrição (conforme já dissemos anteriormente sobre a carta e seu envelope colado ou rasgado).

1.3.3. Propriedades materiais

O nível do objeto-suporte, em seu movimento de integração às práticas, é um caso exemplar do tratamento das propriedades materiais. Enquanto corpo material, na verdade, o objeto entra nas práticas e os usos dessas práticas são em si mesmos “enunciações” do objeto. Sob esse aspecto, o objeto em si só pode conter traços desses usos (inscrições, desgaste, pátina etc.), ou seja, “vestígios enunciativos”. Para dar conta de sua “enunciação-uso” global, para além desses “traços” inscritos, será preciso passar ao nível superior, o da estrutura semiótica das práticas, em que encontraremos manifestações observáveis dessas enuncia- ções, elas mesmas analisáveis em conteúdos de significação. Todavia, o caráter “material” do suporte não significa que ele deva ser obri- gatoriamente tangível. “Material” deve ser entendido aqui no sentido de Hjel- mslev, ou seja, como substrato sensível das semióticas-objeto. Ao comparar, por exemplo, as práticas divinatórias dos romanos e dos dogons, vemos que elas obedecem claramente ao mesmo princípio: definir no espaço natural um su- porte de inscrição, limites e direções, e interpretar as trajetórias de animais (o pássaro para os romanos, a raposa para os dogons) no “modelo de leitura” assim constituído. No entanto, o modelo romano (o templum) é projetado no céu, enquanto o dos dogons é traçado no solo. A diferença entre os dois suportes “materiais”, um terrestre e sólido e o outro aéreo e intangível, pertence à ordem do sensível e substancial e induz até mesmo diferenças nas potencialidades ex- pressivas dos dois suportes formais: de um lado, o templum pode explorar uma terceira dimensão do espaço, a profundidade, ou ainda a velocidade e a duração da passagem, sem poder, no entanto, conservar o rastro dessas figuras, a não ser na memória visual; de outro, o modelo dos dogons só pode explorar pegadas sobre o solo, mas, nesse caso, o suporte as conserva na memória sob a forma de um vestígio durável.

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Entretanto, esses dois “objetos” de escrita têm direito ao mesmo estatuto de objeto-suporte, embora suas propriedades sensíveis sejam muito diferentes.

1.3.4. Propriedades sensíveis e passionais

No tratamento das propriedades sensíveis, podemos tomar como exemplo

o caso das paixões induzidas pelos textos-enunciados, os únicos, aliás, que cha-

maram a atenção de Aristóteles, em seu tempo. Na verdade, a semiótica teve alguma dificuldade para levar em consideração as paixões e as emoções do des- tinatário. Certamente, elas podem estar inscritas no próprio texto, graças a um simulacro proposto no enunciado, mas esse caso é muito restrito, se considerar- mos a amplitude do problema a ser tratado. Realmente, as paixões e as emoções do destinatário surgem numa prática ou situação semiótica em que o texto é um dos actantes e, por suas figuras e sua organização, pode produzir ou inspirar esta ou aquela paixão, esta ou aquela emoção. Mais tecnicamente, por exemplo, podemos dizer que o ritmo e a construção de uma frase são um meio de proporcionar ao leitor a experiência de uma emo- ção ou um percurso somático, sem afirmar, entretanto, que esse mesmo ritmo e essa mesma construção sintáxica “representam” a emoção e o percurso em ques- tão. É preciso, então, passar ao nível de pertinência da prática interpretativa, em

que o texto é um vetor de manipulação passional e, entre os esquemas motores

e emocionais “vividos” e “experimentados” pelo leitor, encontra-se aquele que é

induzido pelo ritmo e pela construção sintáxica em questão. De um modo mais geral, a introdução do sensível e do corpo na análise semiótica tem ocasionado algumas dificuldades que não foram inteiramente re- solvidas até o presente momento, e que se atêm ao fato de que esse “sensível” e esse “corpo” não estão necessariamente representados no texto ou na imagem para serem pertinentes, especialmente quando se trata de articular a enunciação em uma experiência sensível e em uma corporeidade profunda. Não basta, por exemplo, remeter as noções provenientes da “foria” e da “tensividade”, a uma camada “protossemiótica” para lhes conferir um estatuto claro e operatório. As valências perceptivas da tensividade, entre outras, foram freqüentemente criticadas em razão da ausência de qualquer ancoragem, au- sência que dá a sua utilização imprudente um caráter particularmente especu- lativo. A “percepção” semântica e axiológica de que tratam faz parte do entorno substancial (e não pertinente) da enunciação textual. Todavia, no nível superior,

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o das práticas semióticas (as práticas de produção de sentido, as práticas inter- pretativas, especialmente), elas encontram toda sua pertinência: um universo

sensível é dado à apreensão no interior de tal prática, pelas figuras de um texto,

e é então que as valências desempenham seu papel, como “filtro” práxico da construção axiológica.

A partir dessa constatação, não é mais suficiente dizer que a enunciação

de um discurso fundamenta-se sobre uma ou várias experiências, mesmo que

o objeto de análise seja a experiência enquanto tal (o sentido experimentado).

Essas mesmas experiências devem ser, por sua vez, configuradas em “práticas” ou em “situações semióticas” para se tornarem semióticas-objeto analisáveis. De fato, cada nível de pertinência está associado a um tipo de experiência que pode ser reconfigurado em constituintes pertinentes de um nível hierarquicamente superior. A experiência perceptiva e sensorial conduz às “figuras”, a experiência interpretativa conduz aos “textos-enunciados”, a experiência prática conduz às “cenas predicativas”, a experiência das conjunturas conduz às “estratégias” etc. Mas esse esboço de tipologia das experiências é por si mesmo enganoso, porque

antes de sua declinação em “semióticas-objeto” e em níveis de pertinência, a

própria experiência é indivisível e holística e, assim, é a hierarquia dos planos de imanência que induz retroativamente a uma hierarquização e a uma segmen- tação da experiência.

A proposta que fazemos coloca em questão diversas estratégias teóricas que

consistem em atribuir a conceitos e operações, necessários à construção teórica, estatutos epistemológicos ambíguos e pouco operatórios, como “pressuposição”, “contexto”, “protossemiótica”, “experiência subjacente” etc. Ela consiste em atri- buir a esses conceitos e a essas operações um nível de pertinência hierarquica- mente superior, em que são constituintes de uma semiótica-objeto cujo plano da expressão tem um modo diferente, ou pelo menos é multimodal e polis- sensorial. Certamente, não estamos ainda querendo identificar e inventariar os aspectos “observáveis” desses constituintes, mas estamos construindo os meios para fazê-lo e instalando a restrição que nos incitará a fazê-lo.

1.3.5. Sincretismos e sinestesias

Os sincretismos (conjuntos às vezes denominados “pluricódigos” ou “mul- timodais”) ou as sinestesias (conjuntos ditos “polissensoriais”) serão submeti- dos à mesma regra de integração: no nível inferior, aparecem como dispositivos

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formais, que só fazem sentido nas práticas. De fato, seus constituintes (modos semióticos diferentes, modos sensoriais distintos), no momento de sua redistri- buição nas diferentes composições predicativas, temáticas e figurativas da práti- ca, aí encontram um lugar, um papel, ambos interdefinidos. Por exemplo, no funcionamento de um pictograma como “texto-enuncia- do”, poderemos apenas observar que coexistem semióticas verbais, icônicas e objetais, e que estamos lidando com uma semiótica-objeto multimodal. Toda- via, redistribuídos em uma prática cotidiana ou técnica, cada um dos elemen- tos dessas semióticas multimodais (compreendidas aí as figuras do pictograma) desempenha um dos papéis que constituem a cena predicativa (instrumentos, objetos, agentes etc.), ou incorpora uma das modalizações (dêiticas, espaço- temporais, factuais) desses papéis. Outro exemplo: no funcionamento de um “prato” culinário, as diferentes percepções sensoriais (visuais, táteis, olfativas e gustativas, até mesmo auditivas) formarão associações polissensoriais se tratamos o “prato” como um “texto” (por uma espécie de detalhamento de todas as propriedades figurativas e sensoriais). Se esse detalhamento faz aparecer equivalências entre as ordens sensoriais, po- deríamos até mesmo chegar a uma “sinestesia”, no sentido tradicional do termo. Mas, se elevamos a análise a um nível superior, o da prática da degustação, cada um dos modos do sensível encontrará seu lugar nesse conjunto de operações colocadas em seqüência (anunciar, prometer, verificar, validar, provar etc.), de maneira que eles estabeleçam, então, não apenas relações paradigmáticas (equi- valência e diferença), mas sintagmáticas e predicativas (uns anunciam, prome- tem ou verificam os outros). Em suma, e mais particularmente na passagem dos “textos-enunciados” às “práticas” (pelo nível intermediário dos “objetos” e dos “suportes”), a hierarqui- zação dos níveis de pertinência permite opor dois modos de análise: (1) o deta- lhamento, que consiste em uma análise de tipo “distribucional” e formal, que se restringe à análise de um único nível por vez; (2) o realçamento que se apresenta como “gerativo”, (conforme o “percurso gerativo do plano da expressão”), graças

à integração entre dois ou mais níveis. Essa distinção (detalhamento/realçamento) exprime, entretanto, o fato de

que, a cada passagem ao nível superior, acrescentamos uma dimensão ao plano da expressão. Do signo ao texto-enunciado, acrescentamos a dimensão “tabular”

e a consideração da superfície (ou do volume) de inscrição: essa superfície ou

volume de inscrição é dotada de regras sintagmáticas para dispor as figuras (um

tipo de modelo virtual).

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Do texto-enunciado ao objeto (sobretudo objeto-suporte), acrescentamos a dimensão da espessura (portanto, do volume) e da complexidade morfológica do próprio objeto (envelope/estrutura material). Essa nova dimensão (a “espessu- ra” e complexidade materiais) implica principalmente, do ponto de vista semi- ótico, propriedades de “resistência” ao uso e ao tempo e, de forma mais geral, a “corporeidade” das figuras semióticas. Do texto-enunciado e do objeto à prática, acrescentamos a dimensão do es- paço tridimensional de uma cena, assim como outras propriedades temporais (“aspecto” e “ritmo” da prática, sobretudo) etc. Nesse caso, são estruturas espa- ciais e temporais independentes do texto e do objeto que acolhem, localizam e modalizam as interações entre os participantes da prática: podemos então, com propriedade, falar aqui de uma dimensão topocronológicada cena predicativa. Essa progressiva autonomização das propriedades espaço-temporais em relação às figuras pertinentes (atores, objetos etc.) conduz às estratégias, no sentido em que, nesse caso, são regimes temporais e dispositivos espaciais igualmente “abs- tratos” que determinam tipos de ajustamento entre práticas.

1.4. Retóricas ascendentes e descendentes

Até o presente momento, vimos as operações de integração na estrita ob- servância do princípio definido por Benveniste, que apenas se interessava pela análise e pela articulação das linguagens. Consideremos agora esse princípio como um modo de integração progressiva canônica e um modo de referência:

os textos integram as figuras, os objetos integram os textos, as práticas integram os objetos, etc. É assim que funciona o percurso gerativo da expressão, contanto que ninguém tente modificá-lo ou desorganizá-lo. Entretanto, como todo percurso canônico, ele está sujeito a numerosas va- riações, decorrentes das enunciações e dos usuários, sendo preciso agora, conse- qüentemente, levar em consideração a dimensão retórica desse percurso. Desse ponto de vista, a integração canônica será definida como integração ascendente. Mas encontraremos também movimentos inversos (integração descendente) e integrações irregulares, entre níveis disjuntos, que designaremos como integra- ções sincopadas ou, simplesmente, como síncopes ascendentes ou descendentes.

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1.4.1. Integrações e síncopes ascendentes

As síncopes ascendentes consistem em “saltar” um ou mais níveis no per- curso de integração canônico. Por exemplo, a “desmaterialização” do suporte

da escrita, que suprime o nível do objeto e nos faz passar diretamente do texto

à prática. Sabemos que é preciso desconfiar dos discursos sobre a “desmateria-

lização” de nossa vida cotidiana, mas as formas de pagamento eletrônico, por exemplo, se não suprimem o objeto próprio à prática (o cartão magnético, por exemplo), oferecem, no entanto, uma alternativa aos suportes de inscrição das unidades do valor monetário (dinheiro em espécie). Por outro lado, como a lingüística estrutural ignorou sistematicamente o estatuto material do discurso

verbal oral, a maior parte das análises das interações orais baseia-se nessa mes- ma síncope “desmaterializante”, que “desencarna” as práticas linguageiras, e que deve evidentemente ser recolocada em questão. A síncope ascendente pode ser ainda mais radical. Ignorando todos os ní- veis anteriores, ela permite a um dos níveis do percurso assumir sua autonomia

e parecer “originário”: assim, encontraremos objetos sem figuras-signos nem

textos aparentes, como a maioria das ferramentas ou das máquinas. Essa última possibilidade leva-nos, aparentemente, aos limites do domínio tradicionalmen- te atribuído à semiótica, já que confere um estatuto semiótico a manifestações sociais e culturais que, no limite, podem não comportar nenhuma “figura-sig- no”, nenhum “texto-enunciado” e, a fortiori, não têm relação com nenhuma ma- nifestação verbal. Do mesmo modo, poderíamos tentar reconhecer práticas sem objeto mate- rial, diretamente ancoradas em uma “topocronologia”, como a dança ou a mími- ca. Mas, além do fato de que a dança implica um texto musical, não poderíamos esquecer que essa topocronologia é uma estrutura de apoio que dá significado aos corpos. Certamente, não são “objetos” no sentido corrente, mas verdadeiros “sujeitos” que, entretanto, são suportes de inscrição: a expressão coreográfica consiste justamente em inscrever figuras nos corpos dos dançarinos, como se fossem, aliás, corpos-objeto. Enfim, tais síncopes ascendentes não invalidam a hierarquia dos níveis de pertinência na medida em que, no sentido da integração descendente (como demonstraremos a seguir), essas ferramentas ou essas práticas podem ser objeto de uma notação ou de uma representação textual, seja anterior (um texto ou uma imagens de prefiguração, o esquema gráfico de uma ferramenta, por exem- plo) ou posterior (textos e imagens de representação, por exemplo, a foto de um

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móvel pré-fabricado em um manual de instrução). Na verdade, às vezes é bem difícil, na ausência de uma investigação genética, saber se estamos diante de “prefigurações” ou “representações”, considerando que aquilo que para alguns parece uma representação a posteriori, seria para outros apenas uma prefigura- ção a priori. No entanto, ainda que seja problemática, a distinção entre inscri- ções de prefiguração e inscrições de representação conduz a uma tipologia dos modos retóricos da integração entre níveis.

1.4.2. Integrações e síncopes descendentes

Cada nível superior pode manifestar-se nos níveis inferiores, segundo o percurso de integração descendente. A integração ascendente atua por comple- xão e por acréscimo de dimensões suplementares, enquanto a integração des- cendente atua por redução do número de dimensões. Mas os dois percursos não são contrários um ao outro: na integração ascendente, um texto estará inscrito num objeto e manipulado em uma prática; na integração descendente, uma prá- tica estará emblematizada por um objeto, ou encenada num texto. A diferença entre os dois percursos baseia-se na reciprocidade dos percursos de integração:

a prática integra um texto (direção hierárquica ascendente), o texto integra uma prática (direção hierárquica descendente). O caso da dança é particularmente interessante porque, de um lado, corres- ponde perfeitamente aos critérios de uma prática, esquematizável como “cena predicativa” e, de outro lado, integra evidentemente, como insiste Landowski (2004: 155), os “ajustamentos” entre os corpos em movimento. Ora, os ajusta- mentos espaço-temporais decorrem das estratégias, e quando falamos de ajus- tamento entre corpos em movimento, seria preciso, para sermos mais claros, falarmos de ajustamento entre práticas que implicam corpos em movimento (que é o caso da maioria das situações da vida cotidiana). De fato, a dança é uma prática (de deslocamento) mais ou menos codificada que integra (na di- reção descendente) formas de ajustamento estratégico e que, a partir do que se apresenta na vida cotidiana como ajustamentos entre práticas autônomas e concorrentes, constrói uma só prática para dois ou mais corpos. Portanto, assim como as práticas podem ser “textualizadas” em tipos de textos específicos, as estratégias podem ser “praticadas”, em tipos de práticas específicas.

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1.4.3. Integrações intensivas e extensivas

1.4.3.1. Condensações e desdobramentos

O caso das prefigurações e representações textuais das práticas convida-nos

a levar em consideração uma outra dimensão dos procedimentos de integração.

A integração descendente, de fato, apresenta-se como uma condensação, devido à perda de um certo número de propriedades. De modo inverso, a integração ascen- dente produz um desdobramento, devido ao aumento do número de dimensões. Além disso, se admitimos que do ponto de vista retórico, que é o nosso, os movimentos de integração não respeitam necessariamente um procedimento canônico, então é possível considerar que essas duas operações sejam graduais, segundo a importância da perda ou do ganho. Em outras palavras, a condensa- ção e o desdobramento são modos operatórios respectivamente de integração descendente e de integração ascendente, mas, tanto numa direção como na ou- tra, o modo operatório varia entre um mínimo e um máximo. Por exemplo, na direção da integração descendente, a “prefiguração” beneficia em geral um grau de condensação superior à “representação”, como mostramos anteriormente.

1.4.3.2. Otimização e simbolização

A integração descendente não condensa portanto, necessariamente, as for-

mas de vida, as estratégias e as práticas. Ela pode ter, por exemplo, uma seg- mentação canônica, como num manual de instrução, que gerencia em extensão

a textualização de uma prática; ela pode também visar uma extensão sincrética

(multimodal, compreendendo texto verbal, imagens, emblemas, esquemas) com valor didático, como nos manuais. Ela pode até ter uma extensão explicativa”, com comentários e análises (como num relatório de uma observação etnográfi- ca ou de uma experiência científica). Nesses casos de integração descendente extensiva (especialmente quando uma estratégia ou uma prática são assumidas em um texto), “gêneros” espe- cíficos impõem suas regras de enunciação e de composição (ou seja, regras de integração descendente): esses gêneros são, por exemplo, receitas de cozinha, indicações de uso, manuais de instrução, discursos eruditos ou técnicos que funcionam, em relação às próprias situações, como discursos de instrução – so- bre a receita de cozinha, Greimas falava, mais especificamente, de “discursos de

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programação” (1973). Todos esses casos de integração descendente extensiva visam globalmente um mesmo objetivo: a otimização da representação. A oti- mização (sobretudo textual) é a versão mínima da condensação das práticas (na integração descendente), a ponto de tanger o desdobramento. Por outro lado, as síncopes aumentam a perda ou o ganho e participam dessa variação gradual. Ademais, elas suscitam uma tensão que reclama por si mesma uma compensação: esse mecanismo interpretativo revela, de fato, a soli- dariedade entre condensação e desdobramento. Por exemplo, no caso de síncope descendente, uma forma de vida (ideologia, crença, narrativas, mitos etc.) pode ser condensada e representada (ou prefigu- rada) em um só rito (uma prática particular), ou ainda, em uma só figura. De certo modo, é a essa síncope e a essa condensação que Pascal recorre, quando preconiza: colocai-vos de joelhos, rezai e crereis. Uma forma de vida completa encontra-se aí ao mesmo tempo condensada figurativamente em uma prática cotidiana, a prece – talvez mesmo no texto e seu suporte corporal –, pois essa prática pode engendrar, por si mesma, uma reorganização completa da forma de vida. Em suma, o conjunto do processo só é “eficaz” se a síncope descendente (a condensação da forma de vida em prática ou em texto) provocar uma tensão semiótica que se resolva em uma reorganização ascendente (da prática para a forma de vida). Guardadas as devidas proporções, o logotipo de uma marca obedece for- malmente aos mesmos princípios da síncope descendente e de condensação. No entanto, como se trata de um “texto”, ou até mesmo de uma simples “figura”, essa condensação é produzida por uma síncope de maior amplitude, que produz dessa vez um efeito de simbolização: o logotipo manifesta então, sem media- ção, tanto uma cena figurativa típica (um texto), uma prática (a missão da mar- ca), quanto uma forma de vida (valores, um estilo estratégico etc.). Da mesma maneira, a eficácia estratégica dessa condensação depende de sua capacidade de produzir uma tensão problemática, que leva à reorganização interpretativa ascendente. A simbolização é, portanto, a versão mais radical da condensação, com síncope descendente.

1.4.4. Movimentos combinados

O próprio princípio da integração faz com que os textos inscritos nos obje- tos, eles mesmos implicados nas práticas, não tenham o mesmo estatuto, nem

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tenham todos o mesmo “sentido”. O texto literário, inscrito em um livro, em ge- ral não diz nada sobre a maneira como é preciso organizar a prática na qual ele funcionará como texto, em contrapartida, o manual de instrução, de um kit de montar, descreve e organiza a prática da montagem. O primeiro texto está inte- grado somente na direção ascendente, de maneira canônica, enquanto o segun- do é objeto de um duplo movimento: (1) a prática está integrada ao texto como

prefiguração discursiva (na direção descendente), e (2) o texto obtido integra-se ao objeto e à prática que o constrói, como inscrição (na direção ascendente). Podemos perceber então que, além do valor metodológico e teórico da hie- rarquia dos níveis de pertinência, esse percurso do plano da expressão oferece grandes oportunidades heurísticas, graças à combinação e ao seqüenciamento dos diferentes percursos de integração ascendente e descendente.

A etnologia médica explora muito freqüentemente práticas terapêuticas

africanas que combinam, de fato, várias operações. A perturbação patológica de um indivíduo, manifestada por signos (nível 1, o das figuras), é considerada coletivamente, ao longo de uma cena codificada e quase-ritual (nível 4, o das práticas). Um dos momentos-chave dessa cena é a produção de um objeto (nível 3, objetos) que condensa ao mesmo tempo a perturbação psíquica e/ou corpo- ral e a busca coletiva de uma solução. O próprio objeto suscitará verbalizações (nível 2, textos), e outras fases rituais (nível 4, práticas) etc. Enfim, a eficácia do conjunto depende de crenças partilhadas, de uma maneira de ser conjunta, de interações habituais que se baseiam em uma mesma forma de vida (nível 6). Os movimentos de integração invertem-se e as síncopes sucedem-se nas duas dire- ções: o nível de análise pertinente é a terapia, enquanto estratégia (nível 5), mas essa terapia percorre e relaciona todos os níveis de pertinência, representando no eixo sintagmático diversos agenciamentos sincréticos. Conforme o caso, a integração é mais ou menos figurativa, mais ou menos intensiva ou extensiva, e combinada ou não a síncopes de maior ou menor am- plitude. Em certas combinações, essas integrações descendentes têm uma di- mensão incitativa ou prescritiva, em outras, simbólica ou mesmo mágica, mas em todos os casos, elas participam dos efeitos didáticos, persuasivos, conotati- vos e/ou metassemióticos.

1.4.5. O caso das Ligações Perigosas (Laclos)

A esse respeito, gostaríamos de examinar um caso muito particular de inte-

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gração descendente, tomado da literatura 6 . O romance epistolar de Choderlos de

Laclos (2008), As Ligações Perigosas, inicia-se de fato antes da apresentação das próprias cartas, por uma “Advertência do editor” e por um “Prefácio do redator”.

A Advertência do editor questiona a “autenticidade” da coletânea de cartas

e, sobretudo, na forma de uma evidente antífrase, a verossimilhança dos costu-

mes que ali estão encenados.

Já o Prefácio do redator detém-se longamente sobre os processos de com-

posição da coletânea: a seleção e a ordenação das Cartas, das proposições e das tentativas de abreviação ou de modificação estilística de algumas delas (recu- sadas por seus autores, dizem). Em seguida aborda os objetivos e as possíveis recepções dessa publicação: prevenir os leitores contra pessoas de má reputação, apresentar as estratégias de corrupção para suscitar resistências e contra-estra- tégias. Além disso, o “redator” lança-se a um curioso exame dos antileitores (aqueles a quem o livro desagradará): os depravados, os puritanos, os céticos, os sensíveis etc. Em suma, esse dispositivo mostra a hierarquia concreta (actorial) que re-

cobre o que convém chamar de “enunciação pressuposta” do romance: autores que produzem as cartas, um redator que as escolhe, retoca e ordena, e um editor que publica o conjunto. E, ao fazer isso, integra vários níveis de pertinência: (1) enunciadores dirigem-se a enunciatários por via epistolar; (2) o redator apresen- ta as cartas no interior de uma prática literária (escolha, reescrita, composição etc.) cujos parceiros são predefinidos: (a) autores que ainda têm direito sobre seus enunciados, (b) um redator, que apresenta seu ethos, revela as razões de suas escolhas e define a temática da manipulação principal e (c) uma série de tipos de leitores, que resistem a essa manipulação por razões que lhes são pró- prias; (3) o editor instala também um jogo de papéis: diante dele, não encontra- mos “leitores” (que são os parceiros habituais do redator), mas um público, ou seja, um ator coletivo suscetível de comprar a obra e de confrontá-la com outras informações e experiências, de outra natureza que não a da leitura. Seu discur- so trata essencialmente da não-concordância entre essas experiências e aquela que será proporcionada pela leitura da obra: o redator teria reunido as cartas, expressando costumes de outro lugar e/ou de outra época, para fazê-los passar por costumes atuais e franceses. Desse modo, seu discurso diz respeito ao “ajus- tamento” entre práticas distintas e entre as experiências que lhes correspondem:

o argumento da inautenticidade e do descompasso supõe que aqui mudamos de

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nível de pertinência e que nos referimos à congruência e ao ajustamento estra- tégicos. Em suma, denunciando a incongruência do quadro dos costumes que

se constituirá quando da leitura do livro, em relação às observações e às práticas cotidianas e contemporâneas dos leitores, o Editor nos faz passar para o nível das “conjunturas” e das “estratégias”.

A integração descendente, que permite “textualizar” ao mesmo tempo a es-

tratégia (editorial e comercial), a prática (redacional) e a troca epistolar, vem acompanhada de vários efeitos importantes.

A primeira conseqüência disso é uma segmentação do texto do romance em

três “gêneros” de discurso diferentes, a advertência, o prefácio e as cartas, o que coloca grandes problemas àqueles que quiserem discernir quais os limites do “texto”. Essa diferença de gêneros permite também compensar o detalhamento do dispositivo semiótico: inseridos no interior de um mesmo texto, as diferentes instâncias, que são a estratégia, a prática e o texto-enunciado, ainda são reconhe- cíveis e hierarquizáveis por seu gênero (advertência, prefácio e cartas). Formalmente, segundo a concepção tradicional dos “planos de enunciação”,

esses três gêneros fazem parte de três enunciações que se encaixam uma na ou- tra. Entretanto, as coisas parecem um pouco mais complexas, quando observa- mos que esses planos de enunciação não são “estanques” e que certo número de interações é admitido: (1) o redator propõe aos autores das cartas algumas mo- dificações, que são recusadas; (2) o redator julga o comportamento dos autores das cartas enquanto atores dos costumes relatados; (3) o redator procura per- suadir com sua boa fé e sua sinceridade o conjunto de seus leitores potenciais, inclusive o editor; (4) o editor julga inautêntico o texto proposto pelo redator e não se deixa, portanto, persuadir. Desse modo, não podemos considerar que esses diferentes planos de enun- ciação são simples “camadas” autônomas. Sob certas condições, todas essas enunciações interagem entre si: essa condição é a da integração ascendente ou descendente. É assim que, por exemplo, o redator e os autores podem corres- ponder-se, porque, nesse momento, fazem parte da mesma prática (a da revi- são/composição da coletânea). E mais, o editor e o redator só podem corres- ponder-se de maneira unilateral, na medida em que o primeiro não admitiu o segundo como parceiro no dispositivo estratégico que avalia. Em suma, somos levados a considerar que o mesmo ator pode desempenhar papéis temáticos e actanciais diferentes segundo o nível de pertinência no qual os apreendemos. Assim, os “autores” das cartas são: (1) nas cartas, enunciadores para enunciatários e protagonistas; (2) no prefácio, autores responsáveis para o

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redator e os leitores e (3) na advertência, pessoas que testemunham os costumes para o editor e o Público. Essa integração descendente produz, entretanto, uma confrontação que per- manece indeterminável, entre a “verossimilhança” e a “verdade” dessas cartas. O redator confessa ter sacrificado, contra sua vontade, a verossimilhança (compo-

sicional, estilística) em prol da verdade: ele teve que conservar as “verdadeiras” cartas escritas por seus autores. O editor denuncia a “autenticidade” (a verdade)

a partir de um erro de verossimilhança (a não-congruência entre os costumes

da atualidade e aqueles encenados). Esse confronto só se resolve (quem tem razão?) devido à integração descendente, que os situa no mesmo texto, mas se reorganizamos todos esses papéis nos níveis de pertinência superiores, não nos surpreendemos mais com o fato de que, na perspectiva ética (a do redator), a verossimilhança e a verdade confrontem-se e que, na perspectiva da estratégia editorial e comercial, a primeira determine a segunda. Essa encenação é, por si mesma, própria de uma época e de uma cultura, em que as mises en abîme e as enunciações encaixadas são particularmente preza- das, tudo o que uma crise da representação literária envolve. Ela desenvolve uma espécie de “metassemiótica” do texto de ficção, em que podemos reconhecer ao mesmo tempo uma estética, uma ética e uma ideologia da produção literária. Enfim, fazendo eco aos diversos papéis dos atores enunciadores, ela oferece ao leitor-usuário um percurso de manipulação-identificação particularmente sofisticado, encenando-lhe, em três estratos sucessivos, sua “apresentação do as-

sunto”: público da edição, leitor da obra redigida e narratário indiscreto da ficção epistolar. Esse percurso é em si mesmo inevitável, mas sua inscrição no texto problematiza-o e permite, pelo confronto indecifrável das posições, submetê-lo

a uma avaliação crítica.

1.4.6. A retórica dos níveis de pertinência

Essas inversões e síncopes do percurso de integração dos níveis de perti- nência constituem, assim, operações retóricas, que agem sobre expressões para induzir conteúdos e valores problemáticos e para suscitar tensões que deman- dam resolução. As inversões do movimento de integração e as síncopes que o afetam pro- duzem substituições, tensões e competições entre os diferentes níveis da expres- são e variações dos modos de existência (virtualização, potencialização, atuali-

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zação e realização). O conjunto – tensões e competições para chegar ao plano da expressão, resoluções e reorganizações graças às modificações dos modos de existência – constitui a base conceitual da dimensão retórica na perspectiva de uma semiótica tensiva (Bordron; Fontanille, 2000).

1.5. A argumentação e a arte retórica como “práticas”

A construção de uma semiótica das práticas conduz ao mesmo tempo a

descobrir novos domínios de investigação e a ver de uma outra maneira os do-

mínios que acreditávamos conhecer ou dominar. O discurso persuasivo faz par- te da segunda categoria.

O discurso persuasivo é apreciado no nível do texto, mas a argumentação, da

maneira como é considerada pela retórica geral, é uma prática e a pertinência de cada argumentação particular só pode ser estabelecida no âmbito de uma estra- tégia. O próprio “texto” da argumentação só nos permite levantar hipóteses acer-

ca do funcionamento das estratégias argumentativas, acerca das coerções que ele

impõe a essas estratégias (ou, inversamente, acerca das escolhas textuais que estas impõem) ou, no limite, esboçar “simulacros” dos parceiros da interação.

O silêncio persistente da teoria semiótica sobre a argumentação e a retórica

geral não se explica somente pelo caráter “pré-científico” das disciplinas que

ainda as estudavam nos anos 1970 ou 1980. De maneira significativa, o verbete

“retórica”, no Dicionário I de Greimas e Courtés, só considera como pertinentes

a dispositio (reduzindo-a à segmentação), a inventio (reduzindo-a ao estudo da

tematização) e a elocutio (reduzindo-a ao estudo da figuratividade). Mas a retó- rica como “práxis” só começa a merecer a devida atenção no fim dos anos 1990, quando a dimensão retórica da “práxis enunciativa” é levada em conta pelos semioticistas. Entretanto a “práxis” enunciativa, nesse período, ainda não faz nenhuma referência a uma teoria das “práticas”. Na verdade, para poder falar com alguma eficácia da argumentação e da retórica, é preciso poder convocar,

além do texto persuasivo, a cena do embate, a prática da influência em geral e tratá-las como semióticas-objeto completas.

Sob esse aspecto, o “texto” persuasivo é apenas um dos elementos da prática argumentativa, já que devem ser levados em conta: (1) os respectivos papéis dos parceiros, que se definem em termos actanciais e em termos de papéis temáticos

e figurativos; (2) o ethos preliminar do enunciador, tal como é percebido pelo enunciatário, que não pode reduzir-se a uma competência e que compreende

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também isotopias figurativas e temáticas, posições axiológicas e “simulacros” modais e passionais; (3) a representação preliminar do enunciatário pelo enun- ciador (de composição semelhante à do “ethos”); (4) uma cultura comum que define gêneros, topoi, modos de raciocínio, aceitáveis ou não, adaptados ou não, ou seja, um certo número de regras para a interação argumentativa, que fixam ao mesmo tempo conteúdos semânticos e processos sintagmáticos, eventual- mente em uma perspectiva normativa. Nessas condições, a própria prática argumentativa obedece ao princípio da integração:

(1) No nível “n”, ela tem uma “forma”, a da cena predicativa, que compreen- de papéis actanciais, sua identidade modal e temática relativa e os predicados típicos do ato persuasivo;

(2) No nível “n+1”, ela encontra seu “sentido” em uma estratégia, que im- plica o tempo, o espaço e os atores suplementares (já que “culturas” e “grupos sociais” são evocados). Essa “estratégia” leva principalmente em conta a memó- ria coletiva das interações argumentativas anteriores e a identidade construída e adquirida dos parceiros.

Na prática argumentativa, todos esses elementos interagem e a compreen- são do discurso persuasivo fica incompleta se não podemos apreciar, especial- mente, o efeito do ethos do orador sobre a força dos argumentos. Perelman e Olbrechts-Tyteca (2005) 7 mostraram que o ethos do orador podia enfraquecer ou reforçar os argumentos que ele utiliza e, inversamente, que o valor de seus argumentos modifica seu ethos: é o que ele chama de efeito “bola de neve”. In- vocar a “força” dos argumentos é invocar sua eficácia persuasiva, que é preciso então distinguir de sua “forma” persuasiva: esta é observável e pertinente no texto, enquanto aquela só é observável e pertinente na prática, em função das reações do auditório. Do mesmo modo, devemos levar em conta os efeitos da representação do auditório sobre a escolha dos topoi e dos modos de argumentação: o auditório “ideal” é uma construção do discurso, embora resulte da análise e da adaptação entre seu “perfil” presumido e os topoi ou tipos de argumento que convêm a esse perfil.

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Portanto, as interações podem tornar-se extremamente complexas, já que, por exemplo, se a escolha dos argumentos pode ter um efeito sobre o ethos do orador, e se a escolha dos argumentos depende de uma análise das expectati- vas do auditório, então, por fim, as construções da “imagem do auditório” e da “imagem de si mesmo” são ligadas por transitividade. Entretanto, só podemos dar conta dessa transitividade (e reciprocidade) das interações indo e vindo en-

tre o texto persuasivo e o “fora do texto”, isto é, situando-nos no nível dos ele- mentos actanciais, temáticos e modais da própria prática.

A seleção dos topoi, sobretudo, depende estritamente dessas interações prá-

xicas, já que, definitivamente, ela comprova as respectivas ideologias dos parcei- ros da argumentação e a intersecção negociável entre as ideologias dos três pa- péis identificados por Christian Plantin (1996): Proponente/Oponente/Terceiro controle. Se um dos parceiros utiliza, de preferência, topoi da quantidade (maior número vale mais que pequeno número) e se o outro apenas se sensibiliza pelos argumentos da qualidade (o brilho, a raridade e a excelência valem mais do que o grande número), então o orador tem apenas duas soluções: (1) uma estratégia

de compromisso em que ele só utilizará os topoi da quantidade na medida em que forem compatíveis com o brilho e a excelência; (2) ou uma estratégia de

distância enunciativa, em que graças a um jogo polifônico de menções e alusões, ele assumirá os topoi da quantidade por uma “voz” debreada, o que lhe permi- tirá não comprometer seu ethos aos olhos de seu parceiro.

A negociação da intersecção axiológica só pode ser descrita no nível da prá-

tica, pois no texto apenas poderemos observar argumentos de compromisso, ou eventuais descompassos entre planos de enunciação. Desde que tentemos dar conta deles em termos de tensões entre valências inversas (a valência de inten- sidade e a valência de quantidade), instauramos ipso facto a cena predicativa da

prática, já que apenas os parceiros da prática argumentativa e, não as instâncias enunciantes do texto unicamente, estão em condições de perceber essas varia- ções graduais das valências intensivas e extensivas e, portanto, assumir, entre outras, as posições axiológicas extremas, definidas por essas duas valências. Em suma, a apreciação das “valências” é um ato que está ancorado na prática, en- quanto os valores diferenciais que daí decorrem são propriedades do texto.

A questão da “presunção” é também muito complexa: na realidade, as ex-

pectativas do enunciatário, assim como a reputação do enunciador, só podem ser “presunções”. No gênero judiciário cada um dos dois parceiros pode atribuir ao outro “prejulgamentos” em relação à causa a ser estabelecida e julgada: são sempre presunções e sabemos que tais presunções enfraquecem os argumentos

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que o orador utiliza, já que parecem assim mais determinados pelos prejulga- mentos a ele atribuídos do que pelo preocupação com a verdade ou com a eficá- cia do intercâmbio em curso. No texto, as presunções podem funcionar como simples pressupostos, re- construíveis a partir de enunciados produzidos: é o caso de todo argumento, por exemplo, que “faz como se” o acusado já fosse mais ou menos considerado como culpado, ou de uma maneira mais vaga, como “condenável”. O estatuto dos pressupostos (e da maioria dos implícitos) poderia com van- tagem ser reconsiderado à luz das práticas, o que lhe permitiria desfazer-se de sua definição atualmente muito logicista (por ser indevidamente muito textual). De fato, o pressuposto resulta, no texto, de um simples cálculo semântico, cujo produto é considerado virtual. Ao contrário, na prática a presunção é uma atri- buição de crença ou de “prejulgado”, por um dos parceiros ao outro, e nada mais tem de virtual. Essa atribuição tem o caráter quer de um julgamento, quer de um simulacro passional, projetado sobre o outro, e modalizado (crer, poder ser, querer ser etc.), o que diz respeito a um ato estratégico e não mais a um cálculo semântico. Perelman observa, por outro lado, que para neutralizar antecipadamente toda presunção, aquele que quer criticar deve obrigar-se a elogiar no início, e aquele que quer elogiar deve dar espaço à crítica e à reserva. Estratégia para- doxal que, no texto, só poderíamos compreender, depois de ter constatado a coexistência de duas posições contrárias, como o efeito de uma ética da medida, do justo equilíbrio. No entanto, como esclarece Perelman, a justa medida e o sentido do equi- líbrio são apenas efeitos secundários e superficiais (no texto) de uma estratégia mais profunda e mais sofisticada (na prática): trata-se de dissuadir previamente o auditório de atribuir ao orador prejulgamentos desfavoráveis (quando ele quer criticar) ou favoráveis (quando ele quer elogiar), de inibir um tipo de contra- estratégia e rotina defensiva que todo auditório pode apresentar. Em suma, essa estratégia tem por objetivo separar, de um lado, a apreciação que o auditório fará sobre os argumentos e, de outro, a que ele já faz sobre as opiniões presumidas do orador: como diz Perelman, trata-se de “frear” a ligação entre o ato (os argumentos) e a pessoa (os prejulgamentos e o ethos). Mas, na perspectiva que definimos, trata-se também de “frear” a ligação entre o conteú- do dos argumentos (o que podemos observar no nível textual) e o ethos adqui- rido pelo orador (o que só podemos observar no nível práxico). As estratégias que tratam das presunções apóiam-se, portanto, em parte

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sobre a maior ou menor solidariedade entre o texto (seu conteúdo, sua forma, seus argumentos, sua credibilidade) e os outros elementos da prática. E, se há estratégia, é a da integração ascendente e descendente e das síncopes que podem mascarar ou suspender essa integração. Isso seria, de algum modo, uma prova particular (limitada ao domínio argumentativo) da existência e da eficiência do percurso de integração tal como o definimos, cujas modificações pertencem,

justamente, à retórica geral. As “frenagens” e “rupturas” descritas por Perelman

a respeito da prática argumentativa podem então ser aqui definidas como es-

tratégias retóricas, que consistem em fortalecer ou enfraquecer a integração as- cendente ou descendente entre o texto persuasivo e a prática argumentativa, ou ainda, a situação englobante. Também podemos dizer, como Denis Bertrand (1999), e na esteira de Aris-

tóteles, que “a argumentação está situada no tempo”, embora esse tempo seja o de uma prática discursiva e não o de um texto-enunciado. Na verdade, a adesão do ouvinte ao discurso oscila em função da rapidez ou da lentidão, da urgência ou da demora, e “leva algum tempo”, um tempo incom- primível, mas elástico. A argumentação pode ser repetida, interrompida, retoma- da: esse tempo não é o do texto, mas o da ação, isto é, o da práxis enunciativa. Além disso, cada discurso argumentativo visa uma fase que lhe é posterior:

a crença, a adesão, a decisão e a ação deveriam suceder à argumentação, se ela fosse eficiente. Mas a passagem à decisão ou à ação pode ser retardada: uma estrutura aspectual permite então estruturar o tempo argumentativo que, aqui também, ultrapassa não só o texto, mas sua enunciação prática, já que leva a um programa de ação mais amplo, em cujo âmbito ela está compreendida. Esses dois primeiros tempos podem estar eventualmente e parcialmente manifestados no texto, mas apenas sob a forma de simulacros, de representações virtuais ou projetadas: o texto, efetivamente, pode representar esses tempos da prática argumentativa, mas unicamente em razão das possíveis integrações des- cendentes que permitem a “textualização” dos níveis de pertinência superiores. Além disso, a argumentação pode a qualquer momento ser distendida no tempo, por digressões (que “ocupam” o tempo), por mudanças de nível (espe- cialmente os metacomentários). O tempo torna-se então uma “substância estra- tégica”. Na verdade, enquanto no texto essas flutuações temporais só aparecem como variantes figurativas, na cena prática elas constituem manipulações cog- nitivas e passionais do enunciatário. Do mesmo modo, quando a tática argu- mentativa organiza a ordem dos argumentos (no texto), ela age sobre o tempo da adesão, das resistências e das aceitações (na cena prática), pois se trata de

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modular não só a ordem textual, mas a força relativa dos argumentos. Todavia, os grandes gêneros da retórica também são, sobretudo, maneiras diversas de nos situar no tempo, por intermédio da seqüência narrativa, em que cada um ocupa uma etapa (Bertrand, 1999):

(1) O deliberativo é voltado para o futuro, para o que se deve realizar, para a programação de ações a praticar, ele antecipa e prevê. São muitos os gêneros de discurso que exploram essa direção do tempo: debate, sermão, discussões para “mudar o mundo”, tentativas de prospecção, utopia política, previsão do tempo;

(2) O epidítico ocupa-se do presente (eventualmente expandido) dos valo-

res: qualquer que seja a posição temporal do ato ou da pessoa que vai avaliar,

é sempre o que ele ou ela vale, no momento em que é enunciado, encenado,

atualizado, apresentado vivo a um espectador. São todos aqueles gêneros esta- belecidos sobre a axiologia do presente e “em presença”: pregação, ditirambo, apologia, cumprimento, brinde, felicitações, ofensa, elogio;

(3) O judiciário dispõe sobre o passado, mede a conclusão das coisas e, retrospectivamente, relaciona as ações a suas intenções e objetivos anteriores, assim como o conjunto dos julgamentos da mesma natureza, cuja memória a

coletividade guardou: a história, a pesquisa, o jornalismo investigativo, a defesa

e a acusação, são gêneros dele derivados 8 .

Fica bem claro que essas três orientações temporais (prospectiva, presenti- ficante e retrospectiva) só funcionam no âmbito da prática argumentativa, e se elas propõem alguma escolha temporal no próprio texto (o que não é garanti- do), sua compreensão narrativa não pode nele residir inteiramente. No texto, por exemplo, o gênero judiciário pode apresentar-se tão simplesmente como um relato (fatos a reconstituir), e é somente na prática englobante que ele assu- mirá toda sua dimensão de sanção. De uma maneira mais abrangente, se existe uma seqüência narrativa canô- nica subjacente na segmentação da arte retórica em três gêneros, ela pode dar conta somente da estrutura narrativa (actantes, modalidades, transformações) de uma prática argumentativa coletiva (uma macrocena predicativa). Cada um dos três gêneros caracteriza e especifica momentos dessa prática, que definem

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“subpráticas”, colorindo de forma diferente os papéis e relações actanciais, as- sim como os regimes temporais. Como já sugeriu Denis Bertrand, é somente no interior desses gêneros práxicos que podemos definir “gêneros textuais” (por exemplo, para o gênero práxico judiciário, os subgêneros textuais – histórico e jornalístico), sabendo que esses subgêneros textuais convocam as propriedades actanciais e narrativas do gênero práxico englobante.

2. EFICIÊNCIA E OTIMIZAÇÃO 2.1. Da explicação à prática interpretativa

A opção pelas “práticas” na economia geral da semiótica tem como efeito,

dentre outros, o de modificar o estatuto da descrição e da explicação semióticas:

a própria análise semiótica, na verdade, torna-se, por sua vez, um dos casos possíveis da prática interpretativa.

A prática semiótica por excelência, que consiste justamente em reformular

a significação numa metalinguagem construída, teve, durante longo tempo, um

estatuto ambíguo. Na verdade, a solução mais simples consiste em tratar essa reformulação como a “tradução” de um discurso de nível “n” em um discurso de nível “ n+1”, sendo o primeiro uma semiótica-objeto a ser analisada e o se- gundo, o próprio discurso da análise. Essa definição permitia definir a prática semiótica como “descrição” ou “explicação”, isto é, como “tradução metalingüís- tica” da significação imanente. Mas essa definição formal já fazia água no próprio campo das teorias da lei- tura e mesmo no da reflexão hermenêutica. Na teoria da leitura, fomos levados especialmente a distinguir as “leituras cultas” de outros tipos de leitura 9 , e assim fazendo, tropeçávamos então no fato de que umas permitiam a produção de discurso de análise, enquanto outras só podiam ser consideradas sob a forma de processos perceptivos e cognitivos (principalmente, nos anos 1960, a teoria das “fixações”, “varreduras”, “hipóteses” e “verificações de hipóteses”). Entretanto, ao mesmo tempo, e retrospectivamente, éramos levados a nos interrogar so- bre as “operações” de leitura relativas à leitura culta, anterior à produção do

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discurso de análise e, principalmente, sobre o estatuto perceptivo e cognitivo dos modelos utilizados. Assim, o “percurso gerativo da significação” passava de simulacro da produção do sentido a uma seqüência de experiências do sentido, ou seja, uma seqüência de procedimentos a serem empregados para produzir

a significação. Isso nos leva a reconhecer que, no nível “n+1”, não se trata mais apenas de uma simples reformulação, mas de uma prática complexa, pertencen- te, ela mesma, a uma gama de práticas comparáveis e suscetíveis a tratamentos variados e pluridisciplinares (cognitivo, semiótico, sociológico etc.). Na hermenêutica, a célebre crítica de Paul Ricœur (1996), que denunciava

o “direcionamento teleológico” mascarado pela explicação semiótica, remete à mesma dificuldade. Na verdade, se há “direcionamento teleológico” da explica- ção, isso significa que essa última não pode ser considerada como um procedi- mento automático e impessoal de reformulação e que seu resultado não pode ser apresentado como um “simulacro”. Segundo Ricœur, a explicação estaria submetida a um “projeto” implícito, uma visada direcionada por uma apreensão anterior do sentido da ação, uma

espécie de projeção sobre o texto, e pela intermediação dos modelos explícitos da análise, de nossas intuições forjadas pela experiência do tempo e da temporaliza- ção da ação. Projeto, visada teleológica, sentido intuitivo, experiência do tempo:

tudo já conduzia a uma outra definição da atividade metassemiótica, que produ- ziria uma semiótica-objeto completa, distinta da semiótica-objeto analisada. E a refutação de Paul Ricœur vai ainda mais longe, pois ela relativiza a práti- ca explicativa, considerando-a apenas como uma prática dentre outras. De fato, ela não difere de outras práticas de leitura a não ser pela forma de explicação, pela mediação de modelos explícitos que introduz entre o momento da visada teleológica e o momento da produção da análise. Entretanto, assemelha-se a todas as outras práticas de leitura, condição que faz dela, justamente, um certo tipo de hermenêutica: projeto, visada teleológica, sentido intuitivo, experiência do tempo. Na verdade, a explicação semiótica mudou seu estatuto muitas vezes. Uma breve retrospectiva demonstra que esse tipo de reflexão, inicialmente, foi trata- do na hierarquia dos níveis semióticos, especialmente em Greimas (1973: 22-26)

– como ele estabelece em Semântica estrutural: níveis descritivo, metodológico e

epistemológico –, sobre o modelo concebido por Hjelmslev das semióticas-ob- jeto, das metassemióticas e das semiologias. A proliferação virtual dos níveis de metalinguagem, sempre discutida na época do estruturalismo (especialmen- te por Lacan e pelo próprio Greimas), é aqui interrompida por uma decisão

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epistemológica. Essa concepção da reflexão epistemológica caracteriza-se pela recursividade do princípio de engendramento que a fundamenta, em relação ao qual toda imposição de limite parece ser uma decisão arbitrária. Em seguida, com o desenvolvimento da semiótica do discurso, essa rela- ção entre níveis metassemióticos foi implicitamente repensada e transformada graças à noção de “intertextualidade” (ou “interdiscursividade”). No discurso epistemológico, a descrição semiótica parece ser um intertexto, pois menciona, cita, comenta e reformula o texto original. E esse intertexto é, ele mesmo, cita- do, mencionado, descrito e comentado no nível epistemológico. Esse segundo período favoreceu especialmente alguns procedimentos de semiotização “de segunda mão”, pois eles permitiram que qualquer discurso descritivo, mesmo elaborado fora do campo científico da semiótica, pudesse ser assim “recupera- do” e reformulado em metalinguagem semiótica. Desde então, o discurso epis- temológico da semiótica, tomado nesse prisma retroativo e tautológico, serve apenas para justificar ulteriormente tal reformulação, sem um verdadeiro ganho heurístico: trata-se do limite crítico do princípio de reflexividade que caracteriza essa segunda concepção. Mas se o “nível n+1” é definido como o das práticas, a delimitação e a defini- ção dos planos de imanência obedecem ao menos a quatro novas coerções, que inviabilizam tanto o funcionamento recursivo quanto o funcionamento reflexivo:

(1) Cada nível é definido pelo seu próprio campo de expressão, correspon- dendo a tipos de experiência diferentes, de maneira que cada um é irredutível ao outro. A metalinguagem de nível “n+1” obedece então a regras de construção diferentes da língua natural utilizada no nível “n”. Por exemplo, a organização dos formantes sensíveis em “dimensão plástica” no nível dos textos-enunciados cons- titui um ganho de articulação irreversível em relação ao nível das figuras-signos.

(2) Cada nível atua então de maneira diferente para produzir um “plano de expressão” pertinente, do qual já se conhece a hierarquia.

(3) Cada nível é definido pela maneira como entra em relação com os ou- tros, antecedentes e subseqüentes, graças às operações de integração e/ou de sín- copes retóricas, e às semióticas-objeto intermediárias.

Por exemplo, entre o nível dos textos-enunciados e o das práticas, é preciso levar em conta os suportes e os objetos-suportes, de maneira que os textos-enun-

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ciados possam ser integrados como “objetos” nas práticas, na medida em que certos objetos implicados em uma prática são suportes de “inscrições”. Então, as “práticas de leitura” distinguem-se entre si, não somente pelos procedimentos que empregam e pelos seus produtos, mas também pela maneira como tratam o

objeto-suporte do texto (o livro, por exemplo): a leitura culta, diferentemente da leitura comum cotidiana ou, no outro extremo, da leitura da prática bibliófíla, confere pouca importância ao objeto-livro. Conseqüentemente, a maneira pela qual uma prática de leitura concebe os níveis inferiores e superiores caracteriza sua definição específica.

A título de exemplo, na direção da integração descendente, a prática da

leitura culta, como sugerimos anteriormente, “sincopa” o objeto-suporte e pro- cura ter acesso direto ao texto, enquanto a prática do bibliófilo, ao contrário, visa principalmente o objeto-suporte e considera secundário o acesso ao texto propriamente dito. Na direção da integração ascendente, a prática da análise procura situar-se estrategicamente em relação a outras práticas do mesmo tipo e/ou concorrentes

e, por isso, apresenta uma série de garantias que toma a forma de uma filiação ou de uma rede de atores, representando globalmente o actante destinador: são as “referências”, as observações de leituras anteriores e de leitores autorizados e legítimos, sob a garantia dos quais o analista apresenta-se como um actante “he- terônomo”. A prática da leitura cotidiana, ao contrário, instala um actante “au- tônomo”, ou até mesmo um simples “não-sujeito”, que obedece aos códigos ge- néricos e à experiência imediata que lhe oferece a ficção, embora nesse processo deva “ajustar-se” também às outras práticas concorrentes, mas de tipo diferente e, sobretudo, deva “proteger-se” de outras práticas cotidianas que solicitam o leitor. Portanto, ambas integram parcialmente o nível da estratégia, uma graças à integração de uma filiação crítica, outra pela adaptação ao contexto circuns- tancial da leitura. No lugar da recursividade ilimitada da primeira concepção e da reflexibilidade tautológica da segunda, propomos uma terceira via: a da tran- sitividade integrativa (e retórica).

A princípio, invertendo o raciocínio, podemos dizer, como hipótese de tra-

balho, que toda integração ascendente (isto é, quando o nível “n” integra uma representação mais ou menos completa do nível “n+1”) é de natureza metasse- miótica: quando o texto integra representações da prática de leitura ou de análi- se, ele desenvolve uma dimensão metassemiótica de tipo analítico; quando uma indicação de uso é afixada numa máquina, esta também passa a integrar em si mesma uma dimensão metassemiótica de tipo técnico e didático. Pela mesma

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razão, uma prática que exibe, por sua forma sintagmática, sua relação com ou- tras práticas, integra uma dimensão metassemiótica de tipo estratégico. Esse raciocínio leva-nos a considerar que: (1) toda prática pode, a esse res- peito, integrar estrategicamente uma prática metassemiótica ou, mais simples-

mente, uma prática interpretativa; (2) toda prática interpretativa é confrontada em razão de uma possível integração de uma dimensão estratégica, a outras práticas. De uma maneira geral, isso nos leva a concluir que o actante operador de uma prática qualquer, a partir do momento em que ela integra parcialmente

o nível da estratégia, é também um intérprete ao menos em relação a sua própria

prática. O observador e o intérprete envolvidos em sua própria prática interpre- tativa: eis um motivo bem banal em antropologia e em sociologia que, entre- tanto, ainda é preciso ser demonstrado e ter seu valor heurístico validado, para além das declarações encantadoras e das posições ideológicas infalsificáveis.

2.2. A forma sintagmática das práticas integra uma estratégia

2.2.1. A eficiência da “boa forma”

Buscamos definir agora a eficiência das práticas ou, em suma, identificar o que faz delas práticas bem sucedidas, avaliadas positivamente em seu desenvol- vimento e em seu resultado. A hipótese que nos guia é a de que essa eficiência implica uma dimensão interpretativa e a integração parcial de um nível estraté- gico em toda prática. O ritual oferece um exemplo canônico de eficiência sintagmática. Essa efici- ência, de fato, está ligada essencialmente à organização sintagmática, aspectual e rítmica da seqüência práxica. Mais precisamente, os rituais, e especialmente os ri- tuais de sacrifício, constituem globalmente um “dom”, embora seja preciso, como em todo procedimento de dom, que o destinatário saiba reconhecê-lo como tal. Nesse aspecto, o ritual assemelha-se a uma forma de comunicação persuasiva, susceptível de fazer o destinatário confiar e ser capaz de distinguir o procedimen- to desse ritual de qualquer outro. E os próprios participantes do ritual também de- vem estar persuadidos de que estão engajados em uma prática específica, isolada de toda prática concorrente e diferente de toda prática semelhante. De uma maneira geral, no detalhe da análise, o ritmo, a estrutura aspectual

e a organização sintagmática do ritual exercem uma persuasão e facilitam a in-

Práticas semióticas: imanência e pertinência, eficiência e otimização

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terpretação que concerne ao estatuto da prática em curso. Em suma, o caráter “fechado”, “rígido”, “recorrente” da seqüência é em si mesmo uma modalização explícita do ato de enunciação, uma “figura” que manifesta figurativamente e de maneira perceptível a “boa forma” sintagmática e que está destinada a suscitar um reconhecimento distintivo do caráter ritual da prática. No cotidiano, por exemplo, dentre tantas maneiras de se alimentar, existem algumas que conferem a essa prática o caráter de um quase-ritual: é o caso, es- pecificamente, da “refeição em família”, do “jantar entre amigos” ou do “almoço profissional”. Examinaremos, em seguida, exatamente a forma desse ritual mas, desde já, impõe-se uma evidência: a ritualização das práticas alimentares é a única maneira que temos de nos persuadir de que estamos enquadrados em uma prática chamada “refeição” e, de outra forma, é uma maneira de articular essa prática com outras (a vida em família, as relações de amizade, as reuniões de trabalho etc.).

2.2.2. Os tipos modais da eficiência

Pierluigi Basso (2006) propôs distinguir diversos tipos de agenciamentos sin- tagmáticos, segundo a isotopia modal dominante que lhes garante a coerência.

A práxis é regulada ao menos pelo poder, segundo uma organização sintag-

mática cujo valor reside apenas na possibilidade de uma realização e na capaci- dade de realizá-la. Trata-se, portanto, de uma forma genérica mínima. Sua ava-

liação é puramente factual: “possível” ou “impossível” a práxis realiza-se ou não.

O procedimento manifesta um saber, na medida em que pressupõe uma pro-

gramação prévia, e a aprendizagem dessa programação pelo actante operador.

Sua avaliação será, portanto, mais elaborada, já que levará em conta, além de sua capacidade de realização, a organização adequada das etapas da ação. A conduta é regida por um querer, pois a forma sintagmática adotada é interpretada nesse caso como imputável a um actante responsável, como se ma- nifestasse intenções, tendências e valores que lhe são próprios, individualmente. Assim, a avaliação poderá apoiar-se nessa imputação e tratar, sobretudo, dos valores expressos pelo comportamento do actante.

O protocolo implica um dever, já que sua eficiência é regulada do exterior da

práxis por regras e por normas que se impõem a todos os participantes. Aqui, a avaliação está preestabelecida e trata do respeito das regras e das normas, relati- vas tanto à organização, aos valores, aos papéis, quanto aos detalhes figurativos.

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Jacques Fontanille

Finalmente, o ritual supõe um crer específico (todas as práticas têm uma base fiduciária geral), partilhado por todos os participantes, e necessário ao êxito da ação. Nesse estágio de elaboração da prática, a avaliação pode tratar tanto dos níveis anteriores, quanto da intensidade e da veracidade da crença específica. Para ser operatória, essa distribuição deve ser apurada, introduzindo um princípio metodológico estabelecido em Semiótica do discurso (Fontanille, 2007a: 147-185) 10 que consiste em desdobrar os níveis de modalizações com- bináveis. De fato, se é legítimo limitar a práxis, que é o modo de agenciamento mais generalizado, apenas ao efeito do poder-fazer, o protocolo, por exemplo, não pode ser estabelecido unicamente sobre um dever, e implica também um poder-fazer e um saber-fazer. Certamente, no protocolo o dever domina, e, em alguns casos, pode até mesmo ser assumido por uma instituição ou uma função específicas, mas ele só é eficiente pela combinação com outras modalidades. O mesmo ocorre com todos os outros tipos, que não são somente definidos por uma isotopia modal dominante, mas também por sua posição hierárquica em uma combinatória modal. Propomos, então, a seguinte tipologia:

Nível M1:

poder =

práxis

Nível M2:

poder + saber =

procedimento

Nível M3a:

poder + saber + querer =

conduta

Nível M3b:

poder + saber + dever =

protocolo

Nível M4a:

poder + saber + querer + crer =

ritual “autônomo”

Nível M4b:

poder + saber + dever + crer =

ritual “heterônomo”

Não podemos ignorar que mesmo essa tipologia apurada não é sufi- ciente para dar conta, de maneira exaustiva, do conjunto de combinações possíveis. Por exemplo, certas formas de conduta associam apenas o poder e o querer (sem saber), e podem ser designadas, de forma mais corrente, como maquinações. Do mesmo modo, a participação em rituais pode ser puramente imitativa, não comportando nenhum saber prévio. Já a repeti- ção, regular ou episódica, pode modificar cada uma dessas configurações modais, para produzir: (1) rotinas (nos níveis M1 e M2: a partir da práxis e do procedimento); (2) hábitos (níveis M3 e M4: a partir das condutas e dos

Práticas semióticas: imanência e pertinência, eficiência e otimização

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rituais); (3) manias, se a simples repetição puder ser substituída pelo querer ou pelo dever e efetivar-se. Ademais, modificando alguns outros parâmetros, especialmente a extensão temporal e a natureza coletiva ou individual do actante responsável, obtemos, então, os costumes e as tradições. Tratando-se de realizações práxicas concretas, é preciso, por fim, esperar que nenhuma pertença exclusivamente a um ou a outro desses tipos, ou ainda que a maioria adote sucessivamente as propriedades de várias delas. De fato, na “prática em ato”, confrontações e ajustamentos ocorrem em todas as fases do percurso, permitindo passar de um tipo modal a outro, de uma combinação modal a outra, de uma forma aspectual a outra. A solução mais prudente e a que melhor pode conduzir a análises adequa- das, consiste em, primeiramente, identificar as variáveis, que são ao menos de três espécies: (1) as isotopias modais dominantes; (2) as combinações e os níveis de modalização aceitos; (3) as formas aspecto-temporais (especialmente singu- lativas, iterativas, originárias etc.). Ainda que a pesquisa e a definição dos tipos de seqüência canônica sejam necessárias, ela não é uma finalidade em si, menos ainda o ponto heurístico mais alto da análise. Na verdade, como tentaremos mostrar agora, o que há de específico na for- ma semiótica das práticas e que a distingue principalmente da forma semiótica dos textos-enunciados e dos signos é realmente o processo adaptativo estratégi- co da “semiose em ato”. Conseqüentemente, o objetivo é a descrição e a mode- lização das transformações entre os regimes típicos da prática, a transformação dos modos de adaptação em devir.

2.3. Eficiência, confrontações práticas e adaptação estratégica

2.3.1. A generalização do princípio de adaptação

Do ponto de vista do sentido prático, as seqüências canônicas e os regimes típicos da prática não podem ser simplesmente considerados como modelos analíticos, disponíveis a um observador ou a um intérprete que não esteja en- volvido na análise. Como já demonstramos, esse “intérprete” está, ele mesmo, envolvido em sua própria prática, mas por vezes também, e ao mesmo tempo, na prática que ele próprio interpreta. E as seqüências canônicas e os regimes

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Jacques Fontanille

típicos funcionam como horizontes de referência, de garantia, ou ainda de pres- são persuasiva, a fim de resolver problemas provocados pela própria prática.

A sintaxe intrapráxica, ou simplesmente a “práxica”, é então, por definição,

uma sintaxe de confrontação e de adaptação, eventualmente (e apenas eventu- almente) guiada pelo horizonte de uma seqüência canônica e implica sempre, ao menos implicitamente, uma atividade interpretativa, seja ela reflexiva (auto- adaptativa) ou transitiva (se ela se refere a um horizonte de referência tipológico ou canônico). Poderíamos, por exemplo, ser tentados a definir o “protocolo” como uma programação rígida e inteiramente decidida por antecipação. Mas essa concep- ção apenas diz respeito, imperfeitamente, ao caso particular das cerimônias, e mesmo neste caso, a encenação prévia mais detalhada não pode prever tudo, menos ainda excluir por antecipação todo incidente ou acidente de percurso. Portanto, vemos que esse caso extremo não pode estabelecer uma teoria da prá- tica e que, ao contrário, ele é muito específico, submetido a coerções e restrições excepcionais.

Fora desse caso ideal e marginal, o protocolo é um conjunto pré-construído de respostas à maioria de situações e de problemas que são colocados por um certo tipo de práticas institucionais. Seu uso canônico e genérico supõe então, por princípio, uma prática em curso, na qual aparecem situações-ocorrências, até mesmo ocasiões, encontros e incidentes, que deverão ser relacionados a tipos e a normas, para receber uma solução “protocolar” e simplificar eventuais negocia- ções fornecendo respostas pré-construídas.

O caso do ritual é mais delicado, já que sua eficiência, supõe-se, deriva da

estrita aplicação de um esquema e de um percurso figurativo fixo. No entanto, é sem dúvida o caso que melhor representa o princípio da adaptação estratégica. Na verdade, o percurso figurativo fixa apenas uma parte dos elementos da prá- tica: podemos observar, por exemplo, na história da missa católica, que o com-

portamento e as vestimentas dos fiéis, e mesmo o grau de participação no ritual, evoluem constantemente e, a esse respeito, a dimensão ritualizada dessa prática deve ajustar-se, segundo épocas e culturas, aos usos e tendências.

O próprio ritual constitui globalmente uma solução a um problema encon-

trado por uma comunidade. Tal problema pode ser originário e recorrente, de solução periódica (como no caso da eucaristia) ou acidental, de solução pontual (como no caso dos rituais terapêuticos africanos). Enfim, a participação indivi- dual é regulada por princípios muito variáveis: certos rituais como a missa são tão-somente ocasiões oferecidas a todos de participar segundo a intensidade de

Práticas semióticas: imanência e pertinência, eficiência e otimização

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sua fé e de seu engajamento, mas a eficiência do ritual da eucaristia não depen- de da intensidade da fé dos fiéis. Outros rituais, ao contrário, como as práticas espiritualistas, são conhecidos por exigir a crença e o engajamento de todos os presentes, sem os quais o ritual fracassa. São incontáveis as “adaptações” variá- veis e específicas. Portanto, toda prática implica, por definição, uma seqüência de resolução, de formalização significante a partir de uma situação inicial de “falta de sentido” (retomando a fórmula de Pierluigi Basso), e essa seqüência terá a seguinte forma canônica:

<

falta de sentido

esquematização

regulação

adaptação

>

A esquematização é o momento em que uma situação-ocorrência proble- mática é comparada a uma situação-tipo cuja solução conhecemos, ou reorgani- zada por auto-adaptação. A regulação é o momento em que a solução (a forma eficiente) é projetada sobre a ocorrência. Por fim, a adaptação é a formalização estratégica do percurso da prática. A prática tem, então, a forma sintagmática de uma “cena de resolução” do ponto de vista discursivo e de uma “prova” do ponto de vista narrativo. Cada um dos principais “regimes sintagmáticos” da prática, já que obedece a modalizações específicas, é portanto caracterizado por um modo de regulação próprio:

(1) Práxis (poder): a regulação atua sobre os encadeamentos entre as etapas;

(2) Procedimento (saber): a regulação baseia-se numa programação prévia das fases e de sua sucessão;

(3) Conduta (querer): a esquematização atua por iconização auto-adaptati- va e a regulação consiste em uma manifestação figurativa das motivações;

(4) Protocolo (dever): a esquematização é a cristalização dos papéis e das etapas e a regulação, uma projeção imediata desses papéis sobre a imprevisibi- lidade do percurso;

(5) Ritual (crer): a regulação baseia-se no ritmo e na gestão temporal da seqüência.

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Jacques Fontanille

2.2.2. O modelo da eficiência práxica

A questão a tratar, por meio da eficiência e da otimização das práticas, é, em

suma, a da emergência da significação na ação e, de uma maneira mais geral, da construção dos valores práticos. Esses valores, atualizados na forma sintagmática, são, conseqüentemente, controlados e engendrados por “valências”, que as análises precedentes já sugerem. Globalmente, a eficiência é apreciada em função das for- mas de um processo de adaptação e essa adaptação está submetida a duas direções concorrentes, a programação e o ajustamento (Landowski, 2004: 27-29; 2006). De um lado, de fato, a prática deve se submeter a um certo número de coer-

ções, seja pela presença de práticas concorrentes já engajadas, seja pelas normas

e regras que preexistem à construção de toda ocorrência particular: é preciso

levar em conta o fator inevitável da programação externa. Essa valência de pro- gramação é extensiva, pois é avaliada gradualmente em função do tamanho do segmento programado, de sua complexidade e de sua duração, do número de

bifurcações e de alternativas consideradas, e da capacidade de antecipação glo- bal que comporta. Por outro lado, a prática constrói-se por ajustamento progressivo e atua pela invenção de um percurso que procura sua própria estabilidade e sua significa- ção no confronto com as coerções evocadas acima. Vemos claramente que, a

esse respeito, o protocolo é muito mais coercitivo que a conduta, e que o procedi- mento é menos coercitivo que o ritual. Do mesmo modo, uma conduta singular

é necessariamente mais inovadora do que um hábito, e um procedimento, do

que uma rotina. Quanto às manias, elas impõem uma programação inevitável,

insensível ao contexto e às circunstâncias. Como já sugerimos, existem práticas auto-adaptativas que se opõem às práticas hetero-adaptativas, e essas práticas auto-adaptativas são intensivas, pois pressupõem ao mesmo tempo, do ponto de vista da responsabilidade, graus de imputação da ação ao actante, e, do ponto de vista do engajamento desse actante, uma avaliação gradual da pressão de ajustamento que ele exerce sobre sua própria prática.

O impacto e a ênfase da intensidade pertencem à valência de ajustamento e

de abertura, enquanto a coerção, a estabilidade no tempo e no espaço pertencem à valência da programação e do fechamento. É, portanto, devido à tensão entre essas duas valências que certas práticas parecem mais “abertas” e outras, mais “fechadas”. Todavia, não podemos nos ater à oposição entre as práticas auto e hete- ro-adaptativas, na medida em que cada prática está à procura de sua própria significação numa negociação permanente entre as duas valências de controle.

Práticas semióticas: imanência e pertinência, eficiência e otimização

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É preciso, portanto, considerar a existência de um modelo mais dinâmico que

o da simples oposição categorial em que os valores da prática são engendrados pelas tensões e equilíbrios variáveis entre as duas valências 11 :

equilíbrios variáveis entre as duas valências 1 1 : Esse modelo das variedades da práxis, que

Esse modelo das variedades da práxis, que ignora deliberadamente as definições modais e as hierarquias propostas anteriormente, faz surgir novas propriedades e novas diferenças: os parassinônimos como hábito e rotina, ou procedimento, protocolo e ritual tornam-se aqui antônimos, em razão de sua posição distinta em relação à valência do ajustamento. De fato, a valência intensiva permite apreciar o engajamento do actante no ajustamento de sua prática às circunstâncias e na busca de sua significação. Fica claro que, a esse respeito, existem dois tipos de práticas iterativas, aquelas que, como a rotina, só admitem um investimento fraco no ajustamento circunstan- cial, e aquelas que, como o hábito, ao contrário, implicam uma perfeita adapta- ção a todas as circunstâncias. Assumidas coletivamente, elas apresentam a mes- ma distinção: os costumes são fracamente ajustáveis, enquanto as tradições podem existir e perdurar em razão de suas capacidades auto-adaptativas. Do mesmo modo, se o procedimento permite fazer, ele o faz praticamente ignorando as circunstâncias, enquanto o protocolo, ao contrário, é inteiramente concebido para prevê-las, negociá-las, rejeitá-las ou integrá-las. Já o ritual é, no limite, um tratamento sempre disponível para os problemas propostos no nível das estratégias e das formas de vida, uma resposta possível às demandas, seja dos participantes, seja do mundo exterior.

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A conduta comporta, em razão de seu componente volitivo, um forte enga-

jamento auto-adaptativo, embora ele seja modulável, como atesta a série lexical “maquinação, comportamento, conduta”, em que, aparentemente, o grau de im- putação da ação a um actante responsável varia entre uma imputação apenas hipotética (maquinações) e uma imputação confirmada (a conduta). Quanto ao acidente, ele não implica nem ajustamento nem programação, ele é somente um hápax factual que não induz a nenhuma adaptação e por isso assemelha-se ao lapso e ao ato falho, lembrando-nos sempre de que todo actan- te engajado em uma prática é um corpo e, como tal, submete-se às interações contingentes com outros corpos, eles também engajados em outras práticas. O fato de ser contingente e inadaptável não o torna, por isso, insignificante, já que ele manifesta pelo menos, ao mesmo tempo, uma incompatibilidade provisória entre duas ou mais práticas e, no mínimo, o caráter somático e “encarnado” da imputação da ação ao actante 12 .

Enfim, o regime genérico da práxis desapareceu desse modelo, já que ele é comum a todos os outros. Além do mais, como já observamos, ele não é pro- dutor de um valor específico, não é uma qualificação particular da prática e, portanto, não pode ocupar uma posição identificável nas tensões entre as duas valências. Importa muito pouco que os lexemas da língua natural, que utilizamos por comodidade, obedeçam mais ou menos, a essa distribuição, já que se trata aqui, não de uma análise lexical, mas de posições construídas que correspondem, inegavelmente, à experiência cristalizada por esses lexemas e, perfeitamente, a nossa experiência íntima da gestão das práticas.

2.4. Entre práticas e estratégias

Já observamos que a forma sintagmática das práticas comporta uma di-

mensão metassemiótica (interpretativa), permitindo principalmente, explicitar a identidade distintiva da prática em curso, em relação às outras que lhe são concomitantes ou semelhantes. Essa dimensão metassemiótica, pela expressão de uma forma sintagmática e pelo valor que dela emana, resulta de uma adapta- ção estratégica de outras práticas. Todavia, como tentaremos mostrar a seguir, a dimensão metassemiótica é o próprio lugar onde se forja a significação da prática em curso, o lugar da “busca

12 Sobre a semiótica do acidente e a noção de co-incidência, distinta da noção de inter-ação, ver Landowski (2006:

Práticas semióticas: imanência e pertinência, eficiência e otimização | 57

do sentido” em ato. Se essa hipótese é válida, a descrição de tais processos deve conduzir à identificação de semióticas-objeto stricto sensu, constituídas pela reunião do plano da expressão e do plano do conteúdo. Em suma, o processo de adaptação seria o próprio processo semiósico da prática, aquele que constrói pouco a pouco a relação entre a expressão e o conteúdo. As duas descrições que seguem, a das práticas amorosas e a das conversas à mesa, serão consagradas à validação provisória e parcial dessa hipótese de trabalho.

2.4.1. Práticas amorosas: uma seqüência em construção

2.4.1.1. Expressão e conteúdo “em ato”

Sem pretender fazer uma descrição exaustiva das práticas amorosas, pode- mos, para começar, examinar os motivos estereotipados das “premissas” do en-

contro amoroso: (1) o olhar trocado; (2) o sorriso recíproco; (3) o contato verbal:

a palavra, o gracejo, a afronta

A ordem canônica desses quatro primeiros motivos, não necessariamen- te obedecendo à ordem cronológica, repousa sobre os graus de engajamento corporal e pessoal na troca e, conseqüentemente, na cadeia de pressupostos hierárquicos que embasam as eventuais combinações por encaixamento. Por exemplo, a “atividade” acolhe palavras, olhares e/ou sorrisos, ou ainda o “sor- riso” compreende, necessariamente, uma “troca de olhares”. São características de um processo de abertura recíproco: o olhar acolhe o olhar, o sorriso faz ver e imaginar uma emoção, a atividade partilhada dá lugar à participação do outro etc. As relações de pressuposição já conduzem aos esboços de uma seqüência que, no entanto, não é potencialmente reconhecível. Acrescentemos, agora: (5) a conivência nascente, que resulta da simples rei- teração das fases 1 a 4. A conivência, que comporta, se não uma verdadeira confiança recíproca, ao menos uma abertura e um crédito a confirmar (portan- to, uma fidúcia potencial), é analisada em várias dimensões. Do ponto de vista modal, a reiteração das fases anteriores permite verificar que elas não dependem do acaso (o que será confirmado na etapa seguinte, a dos “múltiplos encontros fortuitos”), mas como cada uma delas guarda a memória das precedentes, pa- recem resultar de uma pressão que incita à abertura recíproca. Passamos então

do poder não ser ou do não dever ser, para o querer fazer e para o não poder

(4) a primeira atividade comum.

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Jacques Fontanille

não fazer. Do ponto de vista temporal, a conivência confere um futuro à rela- ção, instalando um maior potencial de abertura, capaz de realizar-se nas trocas posteriores. Esse potencial de abertura certamente já estava presente nas fases

anteriores, mas lhe faltava pelo menos a confirmação por reiteração e, portanto, uma estabilização fiduciária, para que fosse inscrito no devir da relação. Em seguida, chegamos à etapa 6, aquela dos múltiplos encontros fortuitos, cada vez menos fortuitos. O conjunto de circunstâncias repetindo-se de forma idêntica implica um outro tipo de “explicação”, no estado latente, um tipo de questão implícita ou de problema a resolver que demanda uma resposta. O aci- dente, em suma, precisa ser convertido numa outra forma de práxis.

O ajustamento “em tempo real” é seguido, particularmente, pela generali-

zação da “pressão” de abertura a outrem, pois a convergência e a troca não se aplicam mais apenas a alguns motivos isolados, específicos da relação amorosa, mas se estendem a todas as atividades, a todas as ocasiões e à maioria das práti- cas cotidianas. Em suma, nessa etapa do percurso, todos os caminhos levam ao outro e ambos acabam por perceber isso. Assim reconhecida essa convergência,

o caráter fortuito dos encontros desaparece progressivamente, ao mesmo tempo

em que seu número aumenta e, como uma seqüência canônica pode ser reco- nhecida, daí em diante uma programação é concebível. É então que a atividade interpretativa, individual ou dual, intervém. A etapa 7, aquela da leitura retrospectiva das etapas de 1 a 6, conduzirá a uma mudança de regime práxico e ao reconhecimento da seqüência engajada. Sozinhos, cada

um por si, ou juntos, os parceiros então interpretam o conjunto das “aberturas” e das convergências, particularmente aquelas dos encontros fortuitos, como uma “sincronização compulsiva”, sendo a sincronização o resultado de uma releitura passional do caráter, ao mesmo tempo, “fortuito” e “iterativo” dos encontros.

A atividade interpretativa institui, assim, a “sincronização compulsiva” como

plano da expressão de um conteúdo afetivo que ainda deve ser especificado, mas que é desde então identificado como uma “pressão” que independe da vontade dos dois parceiros – a “pressão auto-adaptativa” para uma abertura recíproca das práticas dos dois parceiros – , graças a todos os meios de partilha e de troca. Os encontros fortuitos existiam antes das etapas de 1 a 5, mas não haviam

sido notados, e sua “falta de sentido” (a contingência, a ocasião aleatória) é agora compensada. Desse modo, as fases de 1 a 4 funcionam como memória da origem

e servirão, em seguida, de ponto de comparação e de situação de referência para

todas as fases anteriores. Se a aventura prolonga-se, elas poderão até mesmo ali-

mentar, entre outras coisas, algumas brigas amorosas ou cenas domésticas.

Práticas semióticas: imanência e pertinência, eficiência e otimização

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2.4.1.2. MARCAÇÕE S , TE NSÕE S E BUSCA DO SE NTIDO

A seqüência é composta de um certo número de motivos canônicos, que são “ícones” da relação amorosa, embora todos apresentem uma propriedade particular (a duração, a intensidade, a repetição etc.) que transforma cada um desses motivos em um elo de uma cadeia que é, ela própria, progressivamente reconhecível. A troca de olhares é marcada por uma intensidade e uma duração de fixação não habituais na interação social comum, e será ainda mais incomum se não for motivada por uma prática específica. O sorriso é também marcado por sua falta de motivação prática e aí a falta de sentido funciona como “abertu- ra” aos sentidos possíveis, à espera de preenchimento. E os múltiplos “encontros fortuitos” demandam uma explicação que só virá num futuro mais à frente. Nesse caso, a “marca” continua sendo um suplemento sensível que remete a uma falta imanente, a uma falta de sentido: um excesso de intensidade, de dura- ção ou de repetição que parece imotivado nas práticas, acasos incompreensíveis, convergências não habituais etc. O desenvolvimento da prática somente inicia e prossegue porque essa “falta de sentido” é apreendida, não como um não-senti- do cristalizado e absoluto, mas como uma falta a reparar, como uma “abertura”

e, portanto, como uma “promessa” de sentido a ser construído: uma expectati-

va (mais ou menos) partilhada, que só pode subsistir se converter a falta atual em promessa potencial, instala-se. Essas “marcas”, que parecem insignificantes

e não funcionais nas práticas em curso, esboçam uma espécie de “isotopia em

negativo” ou, mais tecnicamente, uma presunção de isotopia, uma substância da expressão que exige uma substância do conteúdo para tomar forma. E é a busca

e o reconhecimento da prática amorosa que fornecerão o conteúdo temático

dessa isotopia em construção. Conseqüentemente, é sobre essas “marcas” que a adaptação práxica traba- lha. Todas essas marcas são a “espera”, o “dentilhão”, que exige, por sua própria falta de sentido, um novo ajustamento e a construção de uma prática diferente que as faria significar de maneira adequada. Então não podemos considerar in- compatíveis ou contrários o “ajustamento” e a “programação”, já que essas duas formas de base solicitam-se reciprocamente, cada uma sendo capaz de preparar as condições de aparecimento da outra, graças a uma inversão das tensões entre ambas. Em outras palavras, seria uma grande ingenuidade, tanto em matéria de práticas amorosas quanto em qualquer outra prática, acreditar que, no próprio momento em que acreditamos “inventar” uma relação, escapemos incólumes da pressão das formas culturais e das heranças adaptativas.

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A adaptação repousa sobre dois movimentos, duas tensões, uma retrospec-

tiva e outra prospectiva, que dominam alternadamente.

A tensão retrospectiva predomina no início da seqüência, a fim de constituir

uma “memória da origem”, e após a reiteração, ela consiste, principalmente, na releitura de uma série de fatos e trocas anódinos, para transformá-los em uma

seqüência necessária de fases ligadas entre si por uma tensão que se apresenta como prospectiva. Cada motivo, graças à marca específica que reconhecemos agora retrospectivamente, parece então conter em germe (potencialmente) to- dos os motivos seguintes. Aqui o acidente deriva para uma semiprogramação.

A tensão prospectiva predomina na continuidade da seqüência, quando o

trabalho de adaptação retrospectiva está terminado, e faz de cada novo motivo uma etapa da progressão que parece então inevitável, à espera dos ajustamentos ulteriores. Como essa progressão pode ser agora assumida, ela toma então a forma de uma conduta. As tensões retrospectivas dão, de algum modo, sentido às coisas que ainda não o tinham. As tensões prospectivas funcionam como “promessas” abertas

que pedem, às vezes, uma confirmação (realiza-se uma parte das potenciali- dades), outras vezes, uma retomada de outras promessas da mesma natureza e assim por diante. A interação entre as tensões prospectivas (as promessas) e as tensões retrospectivas (as fixações de sentido e as confirmações/invalidações) permite, assim, a adaptação progressiva e a série forma, então, uma prática que é reconhecida pelos dois parceiros. Mas para isso, é preciso que a prática passe por vários “regimes” sucessivos (acidentes, semiprogramação, conduta etc.).

O desafio é, de fato, o reconhecimento de uma seqüência prática estabiliza-

da na cultura comum dos parceiros (reconhecimento sancionado pela lexicali- zação: é amor – ou por declaração: eu te amo) 13 .

apresenta-se, então, ini-

cialmente como uma práxis (algo acontece, que é possível e que os parceiros são capazes de fazer, já que acontece), e rapidamente se especifica como conduta, graças aos cálculos de intenção e de imputação (ou foi um ou foi outro quem tomou esta ou aquela iniciativa), ou até mesmo como progra- ma ou destino, se atribuímos sua responsabilidade a uma “pressão” exterior ou interior comum. E logo, sobre a base do reconhecimento parcial e in- termitente de rotinas e hábitos, a prática forma a seqüência particular que

Esse tipo de prática amorosa (existem outras

)

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pode ser identificada como aventura inter-individual coerente, cujo sentido

é agora partilhado. Cada um deles pode isolar e enfatizar este ou aquele motivo (o sorriso, o olhar sustentado, a palavra espirituosa, o toque leve etc.) e fazer disso uma “téc- nica”, um “estilo” ou um emblema identitário. Cada um pode também jogar com essa seqüência, suscitando a impaciência (por uma demora geral ou um prolon- gamento excessivo de cada fase ou de cada etapa intermediária) ou provocando, de propósito ou involuntariamente, a surpresa (ou mesmo o pânico), sincopando brutalmente essa ou aquela fase. Pouco importa o inventário dessas variações:

basta constatar que cada uma delas só faz sentido com referência à seqüência canônica da conduta amorosa e ao procedimento de adaptação em curso. Dessas múltiplas variações, contentamo-nos em lembrar apenas uma, céle- bre por sua exploração artística. Trata-se da programação protocolar dessa prá- tica na cultura familiar. Michael Corleone, no filme O poderoso chefão (1972), fica provisoriamente exilado na Sicília, onde conhece uma jovem a quem faz a corte segundo as formas impostas pela tradição familiar, que compreende o almoço, o passeio, o presente etc., tudo na presença de todas as mulheres da família. Mas esse protocolo é ainda compatível com a seqüência canônica da conduta amorosa, com os olhares, os sorrisos, as palavras etc. Entretanto, nesse caso, a dificuldade principal está na possibilidade de evi- denciar uma conduta observável apesar do protocolo, tarefa de que se encarre- gam as tomadas da câmera e a montagem do filme, intercalando nas cenas do encontro entre as famílias, os ângulos e os quadros (em geral com zoom – ou planos aproximados), que permitem captar intensivamente o nascimento da relação amorosa, ou ao menos a proposição e a aceitação inter-individuais, ex- traindo-os do desenvolvimento coletivo e convencional previsto pela tradição. Esta última não impede a conduta amorosa: ela se contenta em constrangê-la, incitando ajustamentos. Em outras palavras, o ajustamento da prática amorosa

é ao mesmo tempo uma adaptação de outra forma, imposta a partir do exterior,

que permite diferenciar essa prática legítima das que não o seriam. As paixões podem ser apreendidas e interpretadas em todos os níveis de pertinência da expressão: como figuras-signos, pela emoção pontual, como tex- tos-enunciados, na enunciação apaixonada, como práticas, estratégias e formas de vida. Por exemplo, a cólera perpassa todos os níveis de pertinência, desde o signo emocional até a forma de vida mítica, própria aos deuses indo-europeus (os deuses “cólera”), passando pela cólera-estratégia (como em De Ira, de Sê- neca). O amor e a teoria da “cristalização”, em Stendhal, provêm da evidência

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do amor-texto, enquanto, aqui, escolhemos o amor-prática, a conduta amorosa. Apenas a abordagem do nível da prática permite restituir às paixões sua verda- deira dimensão cultural, interativa e social.

2.5. A refeição e a conversa à mesa: uma seqüência canônica e uma montagem estratégica (no romance Les voyageurs de l’Impériale, de Louis Aragon) 14

2.5.1. Preâmbulo

Trataremos aqui de um gênero de prática semiótica, a conversa à mesa, e de seu agenciamento com uma outra prática, a refeição, especialmente a refeição em família. Globalmente, parece que o conjunto constitui uma única macro- prática, composta de duas subpráticas, a refeição e a conversa. Mas essa com- posição está longe de ser regulada a priori e veremos que, mesmo o valor (ou o não-valor) de uma ou outra dessas duas práticas, depende da qualidade de seu agenciamento comum. Conseqüentemente, o nível de pertinência adequado, aquele que decide o valor de montagem, é o da estratégia. Escolhemos como corpus de referência um corpus literário, onze cenas ou segmentos, dedicados às refeições no romance Les voyageurs de l’Impériale, de L. Aragon (1996) 15 . O interesse desse corpus decorre da estreita conexão que colo- ca em questão, de um lado, o desenrolar das refeições, e de outro, as conversas. Uma refeição bem-sucedida adota certamente a seqüência canônica (a ordem, a completude, o ritmo), mas aqui, esse sucesso depende, além disso, da capacida- de da conversa em respeitar, reforçar e refletir essa mesma seqüência. De fato, as perturbações e os incidentes que afetam a seqüência canônica da refeição são todos eventos conversacionais: abstrair-se da refeição e mergulhar em seus pensamentos interiores, recusar um prato, provocar um escândalo etc. No romance de Aragon, os dois extremos estão representados: a refeição bem sucedida e “cordial” e a refeição malograda e “morna”, ou o “escândalo”. Pode-

14 Esse motivo romanesco foi objeto de um primeiro estudo publicado em L’Imaginaire de la table (Boutaud,

2004).

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mos então destacar as condições de validação e de falsificação de um modelo hipotético para o agenciamento estratégico entre as duas práticas, portador dos valores de sua conexão. Nosso estudo visa destacar com mais precisão as condições axiológicas e a maneira pela qual elas estão ancoradas na estrutura figurativa das cenas de re-

feição. Ela se apóia sucessivamente: (1) no plano da expressão, nas relações entre “falar e comer” e, mais especialmente, nas condições da segmentação recíproca

e das interações entre a seqüência conversacional e a seqüência alimentar; (2)

no plano do conteúdo, nas estruturas de trocas subjacentes a essas cenas de refei- ção e no modelo que as governa.

2.5.2. Duas práticas bem ajustadas: comer e falar

2.5.2.1. Motivação e concomitância

Para começar, notamos que várias refeições só são lembradas em razão da conversa que aconteceu nessa ocasião. A refeição na Exposição Colonial (cena 1) foi exclusivamente motivada e organizada pela necessidade “inextricável” (Aragon, 1996: 40) de falar do almirante, tio de Paulette Mercadier. Essa ne- cessidade, de início, é o motivo do convite feito ao casal: ele tinha uma outra obrigação, à qual renuncia para poder desabafar. Além disso, essa necessidade é tamanha que o faz deixar de lado a cortesia, que consiste em não falar muito de política “diante de uma bela mulher”. Do mesmo modo, a única lembrança das refeições de férias em Sainteville

(cena 2) consiste em assinalar que o tio (o “conde”) falava muito pouco à mesa com seus sobrinhos(Ibidem: 83). Enfim, a última refeição no restaurante com

o “biógrafo” em Paris (cena 10), não tem outro objetivo senão a conversa, no

decorrer da qual, este último espera encontrar explicações definitivas para o comportamento de seu biografado, Mercadier. Para começar, ele diz, aliás, exa- tamente: Só conversamos bem com a barriga à mesa(Ibidem: 479). Conseqüentemente, entre as duas práticas, uma primeira conexão instala- se: uma conexão hierárquica que se apóia sobre a articulação entre um programa de base, que fornece suas condições e seu valor “descritivo”, e um programa de uso, que fornece os valores modais necessários para a realização do primeiro. Nada de muito original nesse caso, a não ser o fato de que os dois percur- sos são concomitantes, em vez de se sucederem, e de que, conseqüentemente, o

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sucesso do programa de uso não é conseguido no momento em que se inicia o programa de base. Além disso, para sermos mais precisos, o “sucesso” depende da boa forma do agenciamento entre as duas práticas. Podemos considerar que esse tipo de conexão, entre dois processos cujos desenvolvimentos são conco- mitantes e interdependentes, é característico das práticas e de seu nível de per- tinência, e as distingue dos “programas narrativos”, nos quais a dependência é de simples pressuposição. Em outros termos, o “protocolo” da refeição prevê que se fale comendo e, conseqüentemente, para poder falar, o mais eficaz é sentar-se à mesa (!).

2.5.2.2. Conexão e segmentação

O valor global do agenciamento estratégico entre as duas práticas depende

da qualidade e das propriedades da conexão. No romance, as avaliações explíci-

tas a esse respeito são notáveis: as refeições de férias em Sainteville (cena 3) são aborrecidas e sem interesse porque não há conversa; a refeição com o almirante

é enfadonha (especialmente para Paulette), porque o almirante fala sem parar,

a ponto de não permitir acompanhar as fases da refeição. A refeição feita com o

biógrafo (cena 10) é bem sucedida, porque as fases da refeição segmentam com bastante precisão as diferentes fases da conversa. Portanto, há duas maneiras de

desconectar a conversa da refeição: não falar enquanto comem, ou falar de tal modo que a conversa não respeite as fases da refeição, ocultando ou neutrali- zando-as. Nesse caso, trata-se exatamente de reunir, de um lado um protocolo e, de outro, uma conduta, tornando-os complementares, podendo ambos acolher, segundo as circunstâncias, formas acidentais ou ritualistas.

A ausência de conexão ou uma má conexão entre as duas práticas invalida

o conjunto: aborrecemo-nos enquanto comemos e não apreciamos mais a refei-

ção; não escutamos mais uma conversa que não siga o ritmo da refeição. Então

o valor reside precisamente, não apenas na qualidade da conexão, mas na capa-

cidade desse agenciamento de explicitar-se por si mesmo e de ser reconhecido pelos participantes. Ora, essa “capacidade” deve ser de tipo metassemiótico, isto é, estratégica e sensível, pois deve ser observável, se não sempre, ao menos de maneira recorrente. É a “segmentação recíproca” (ou “co-segmentação”) entre as duas práticas que cumpre esse objetivo.

Observemos atentamente as condições de uma conexão bem sucedida, por exemplo, a da refeição com o biógrafo (cena 10). Essa refeição é composta de

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cinco segmentos conversacionais cujas demarcações compreendem todas as fa- ses marcantes da refeição:

(1) do começo até o filé (Ibidem: 480), a conversa não é evocada e o texto

apenas manifesta as impressões de Mercadier, que olha para seu interlocutor: é

o retrato do Sr. Bellemine;

(2) do filé até a escolha do segundo vinho (Ibidem: 481), os dois parceiros avaliam-se mutuamente, procuram um assunto para conversar. Bellemine está inquieto a respeito do julgamento de Mercadier sobre sua biografia. Mercadier demonstra boa vontade, deixando-se levar pela conversa sobre essa biografia, mas sem compreender o que o outro espera dele;

(3) do segundo vinho até a escolha dos queijos (Ibidem: 484), sempre sem compreender o que Bellemine quer dele, Mercadier inverte os papéis, interroga seu parceiro e delimita suas motivações;

(4) do queijo até o café (Ibidem: 486), enfim, Bellemine encontrou seu tema

e interroga Mercadier sobre sua relação com o trabalho, o dinheiro e a vida em

sociedade;

(5) após o café e o digestivo, a partir de uma pergunta de Bellemine sobre seus filhos, Mercadier explica porque não retomou o contato com sua família.

Superficialmente, essa segmentação apresenta-se como uma investigação em cinco fases do tema pertinente de conversação. Em profundidade, ela es- trutura uma prova (no sentido da semiótica narrativa) em três fases canônicas:

(1) a confrontação (primeiro e segundo segmentos): os parceiros avaliam-se, no início visualmente (reconhecimento), depois verbalmente (inquietação e expec- tativa); (2) a dominação (terceiro e quarto segmentos): ora um, ora outro, os dois parceiros tomam a frente, Mercadier em primeiro lugar 16 , Bellemine em seguida; (3) a resolução (quinto segmento): Bellemine acha uma brecha e nela investe, Mercadier não resiste mais e dá a chave do enigma que o biógrafo pro- curava elucidar. A relação entre as duas práticas (comer e falar), sob o efeito dessa co-seg-

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mentação que destaca dos dois lados uma seqüência pertinente (uma refeição

ordenada e completa, uma prova narrativa conforme a norma), funciona agora como uma semiótica conotativa, em que uma dessas práticas (falar) confirma

e explicita, de modo reflexivo, a canonicidade da outra (comer). Se as duas

seqüências forem síncronas, a conduta exprime de modo reflexivo a boa forma do protocolo.

2.5.2.3. A cordialidade

Sendo a conexão entre as duas seqüências práxicas a condição geral para a

valorização da refeição, a co-segmentação seria a condição de uma valorização positiva. A co-segmentação é um fenômeno de natureza aspectual e processu-

al e manifesta tanto para o espectador quanto para os participantes – como já

havíamos sugerido –, a “boa forma” sintagmática apropriada da montagem es- tratégica. No entanto, para confirmar essa hipótese, é preciso ao menos poder demonstrar que essa co-segmentação é percebida pelos interessados, e é inter- pretável enquanto tal: daí então o papel decisivo das “paixões” da co-segmenta- ção e, particularmente, da “cordialidade”, que sanciona a conexão bem-sucedida entre as duas práticas. Dois casos extremos contrapõem-se. A última refeição em família (cena 8)

é uma refeição qualificada como “morna”, mesmo que a conversa a respeito das “mesas girantes” espíritas que a acompanha seja, entretanto, muito animada e

polêmica. No entanto, observando mais de perto, notamos que essa conversa é evo- cada sem menção alguma à refeição que a acompanha, e é somente mais tarde, graças a uma espécie de anáfora generalizada, que a frase “Um jantar morno”, que encerra a troca conversacional precedente, nos faz saber que se tratava, na verdade, de uma discussão à mesa. Esse modo de textualização manifesta, pre- cisamente nesse caso, a impossibilidade ou a insignificância da conexão entre as duas práticas. E, nesse sentido, o julgamento axiológico e a reação afetiva visam, mais precisamente, essa conexão impossível, na medida em que a ex- pressão “Um jantar morno” é, ao mesmo tempo, o modo de exprimir a ausência de conexão (enquanto anáfora generalizada) e o suporte da avaliação (enquanto predicado axiológico). Uma refeição “morna” é então, em suma, uma refeição

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na qual a conversa está totalmente desconectada da alimentação 17 , e tudo se passa como se, na ausência de co-segmentação síncrona, a refeição não fosse narrável. A comutação funciona bem: a ineficiência da conduta conversacional torna o protocolo alimentar insignificante.

A longa refeição de férias que reúne as famílias Mercadier e Pailleron em

Sainteville (cena 5), ao contrário, é qualificada como “cordial”: “A atmosfera era extremamente cordial”. Essa apreciação acontece justamente no momento em que o tio de Sainteville prepara a salada enquanto, ao mesmo tempo, conta uma história:

A atmosfera era extremamente cordial. E o conde de Sainteville não te- ria permitido que ninguém temperasse a salada em seu lugar. Ele con- tava à dama ao seu lado uma história local. Um drama na montanha (Ibidem: 177).

O encadeamento é muito claro: o “E” é aqui um conector de glosa, de enri-

quecimento e/ou de ilustração: esse momento de sincronização em que o conde reivindica o tempero da salada, e a isso se dedica enquanto conta uma história, manifesta no plano figurativo a co-segmentação dos percursos e suscita direta- mente o efeito de “cordialidade”. Algumas linhas depois, comentando uma parte da história, a Sra. Mercadier

serve-se de salada: “O senhor sempre diz isso, meu tio, e é injusto! – protestou

a Sra. Mercadier, enquanto se servia de uma folha com algumas gotas de vina-

gre” (Ibidem: 177). Contar/temperar, protestar/servir-se: a sincronização entre

a segmentação da conversa e a da refeição é perfeita. Os momentos de sincronização estabelecem nós axiológicos, sensíveis e efi- cientes, que convencem cada um dos participantes do êxito da estratégia coleti- va, e que se manifestam por um sentimento de cordialidade. Portanto, a “boa forma” da seqüência estratégica não é apenas uma estru- tura objetiva, devendo ser também percebida, o que implica, ao menos, uma competência dos participantes: eles devem estar em condições de reagir a essa boa forma, devem ser sensíveis à seqüência canônica, sensíveis ao valor que está associado à co-segmentação. Como em nosso caso a relação entre essas duas práticas é orientada, esse valor, que aparece por ocasião de uma percepção afetiva (“cordial” ou “morna”), é apenas a percepção da adaptação da conduta conversacional ao protocolo da refeição.

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2.5.3. Do plano da expressão ao plano do conteúdo

A relação entre a seqüência alimentar e a seqüência conversacional é refle-

xiva, porém dessimétrica: (1) a segunda reflete a primeira, comenta-a, reforça-a desdobrando-a de maneira redundante e síncrona; (2) a primeira proporciona à segunda um enquadramento relativamente estável. Na verdade, o estatuto semi- ótico dessas duas seqüências é bem diferente: a seqüência alimentar, enquanto protocolo, é regulada por usos culturais e não é decidida no próprio momento da refeição, mesmo que seja inovadora, ela deve ser regulada e decidida previamente. Já a seqüência conversacional, enquanto conduta, ao contrário, geralmente não é planejada e, mesmo que obedeça a algumas regras culturais, sua forma geral deve ser criada em tempo real, através de um ajustamento estratégico permanente. Essa dessimetria influi, então, sobre os efeitos da conexão, já que a seqüên- cia alimentar pode ser expressa pela conversa (salvo acidente, em caso de escân- dalo e de saída prematura), enquanto a seqüência conversacional só pode ser moldada (ou não) pelas fases da refeição. Em suma, o percurso canônico (da refeição) pode ser refletido pelo percurso “em ato” (da conversação), enquanto o percurso “em ato” só pode ser infletido pelo percurso canônico. No entanto, a partir do momento em que levamos em consideração o con- junto do processo adaptativo, em que dois percursos temáticos competem por uma mesma configuração expressiva, a da “co-segmentação síncrona”, a relação semiótica modifica-se. Na verdade, as avaliações implícitas ou explícitas indicam claramente, como já tentamos mostrar, que é essa regulação auto-adaptativa que sustenta os valores e que permite, por exemplo, decidir-se pela cordialidade. E não basta dizer que a conversação síncrona “conota” o sucesso da refeição, pois nós não saberíamos mais do que isso sobre o conteúdo desse sucesso. Na verdade, a co-segmentação síncrona só pode ser a expressão do sucesso se evidenciamos um conteúdo e se, por comutação, podemos verificar que os acidentes ou modificações de um dos dois planos desencadeiam modificações no outro plano.

2.5.3.1. A troca ritual

É chegada a hora, portanto, de dar um conteúdo a essa expressão rítmica e

aspectual, sendo que esse conteúdo será, como veremos, de natureza antropoló-

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gica. Cada cena de refeição manifesta, na verdade, uma estrutura de troca, base- ada no modelo do dom e do contra-dom, ao qual a refeição empresta sua forma sintagmática. Mas essa troca funciona aqui sob uma condição muito peculiar. Com efeito, entre todos os ritos de troca possíveis, só há um em que o contra- dom permanece indeterminado, potencial e fixado sine die. No limite, o dom não tem outro propósito senão suscitar a boa vontade do destinatário. Esse tipo de troca ritual é característico do sacrifício. Na verdade, no mo- mento do sacrifício, um bem é destruído ou consumido em benefício direto ou indireto de um terceiro. É em troca disso que esse terceiro deverá examinar favoravelmente as eventuais solicitações ou as necessidades futuras do doador. Independentemente do conteúdo religioso e figurativo desse tipo de prática ri- tual, podemos conservar as propriedades seguintes: (1) o eventual contra-dom permanece indefinido, não restrito, e não se espera que ele seja do mesmo tipo que o dom (não há jamais, por exemplo, trocas de refeição no romance); (2) a natureza específica dessa estrutura de troca (dom/boa vontade futura), para ser reconhecível e eficiente, deve obedecer a uma codificação (aspectual e rítmica) precisa, que funciona como expressão de seu caráter “quase sacrificial”; (3) esse tipo de troca, por fim, inaugura um tempo social muito particular, indefinida- mente estendido (já que não há data fixa para o contra-dom), mas suscetível de ser a todo momento decomposto, interrompido, ou reiterado (por novos sacri- fícios): a boa vontade indefinida, na verdade, deve ser “mantida”. De acordo com essa hipótese, todas as propriedades de conexão e de sin- cronização que foram anteriormente estabelecidas – especialmente os nós axiológicos da co-segmentação – decorreriam dessa condição e contribuiriam diretamente para garantir a eficácia simbólica da seqüência. É, em suma, a ritu- alização sintagmática do dom-refeição que permite aos parceiros reconhecê-lo implícita ou explicitamente como uma troca do tipo sacrificial, produtora de uma “dívida de boa vontade”.

2.5.3.2. A promessa e sua realização

Ao final da refeição na Exposição Colonial (cena 1), o almirante desculpa-se

de maneira bem curiosa: “Durante a sobremesa, o almirante lembrou-se de pro-

messas que havia feito: eu me descuidei, com uma bela mulher

Como podemos observar, o texto não traz nenhuma indicação de promes- sas. A única menção é a de um convite para jantar, imediatamente seguida da

(Ibidem: 41).