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ANÁLISE DO LIVRO DE APOCALIPSE

LIÇÃO 2

RECURSOS ESTRUTURAIS DO LIVRO DE APOCALIPSE


OS PADRÕES NUMÉRICOS

João Osmar de Freitas

INTRODUÇÃO
Todo o Livro do Apocalipse chama a atenção para seu compositor ou autor primário,
Deus. Ele é o artista divino, o principal arquiteto. Este é um volume divinamente construído
no qual Deus exibe a obra de sua mão. Quando examinamos cuidadosamente este livro,
começamos a compreender que ele não é uma mera composição humana semelhante aos
apocalipses compostos pelos autores psedônimos da apocalíptica judaica. No Apocalipse, o
Deus Triúno está revelando sua Palavra ao leitor, isto é, Deus mesmo está falando ao seu
povo. Isso se faz evidente nas palavras introdutórias:

“Revelação de Jesus Cristo, a qual Deus lhe deu, para mostrar aos seus servos as
coisas que brevemente devem acontecer; e pelo seu anjo as enviou, e as notificou a
João seu servo; O qual testificou da palavra de Deus, e do testemunho de Jesus
Cristo, e de tudo o que tem visto” (1. 1,2)1

E nas cartas às sete igrejas. Ali ouvimos a voz de Jesus, que conclui cada carta com as
palavras: “o Espírito diz às igrejas” (2.7,11,17,29; 3.6,13,22). O último capítulo registra a
voz de Jesus (2 2 .7 ,1220), a voz do Espírito (22.17) e a advertência divina para que não se
acrescente ou subtraia nada deste livro (22.18-19). Negligenciar esta mensagem seria o
mesmo que tirar parte das Escrituras. Deus nos manda respeitar Apocalipse como sua santa
Palavra, e nos instrui a lê-lo com reverência.

Entretanto, há também o compositor ou autor secundário: João. Assim, o livro de


Apocalipse é também uma série de revelações através de imagens apocalípticas,
concedidadas a João por Deus, através de seu anjo. As imagens e representações por todo o
livro, obriga necessariamente o leitor à análise cuidadosa e criteriosa. Nessas lições,
proporemos inicialmente alguns elementos necessários como pré-requisitos para se analisar
o livro, que chamaremos de padrões.

O primeiro padrão que queremos destacar, é o uso de números para representar ou significar
realidades diversas.

1 A partir de agora, textos bíblicos referidos nesse texto sem o respectivo nome do livro, referem-se ao livro de
Apocalipse.
OS PADRÕES NUMÉRICOS

Algo que salta logo de imediato à vista do leitor do livro de Apocalipse, é o uso de números,
Os número ocupam um lugar especial em todo o livro e vem carregado de significados que o
leitor precisa ter em mente.

Por exemplo, a um grau surpreendente, o número sete é predominante, tanto explícita


quanto implicitamente. Este número não deve ser tomado literalmente, mas deve ser
entendido como uma idéia que expressa totalidade ou completude. Este número ocorre
cinquenta e quatro vezes em todo o livro. Observe os detalhes da estrutura do livro:

“O livro é endereçado a sete igrejas, representadas por sete castiçais. Há sete estrelas
simbolizando sete anjos das igrejas. Há sete espíritos de Deus representados por sete
lâmpadas. Demais disto, há sete selos e um Cordeiro com sete olhos e sete chifres.
Sete anjos tocam sete trombetas. Outros sete derramam o conteúdo de sete taças
cheias das sete pragas finais. Sete trovões emitem vozes. A besta que sobe do mar
tem sete cabeças. Há sete montanhas, sete reis, e assim sucessivamente. Esse número
(sete) inica o que é pleno, o que é perfeiro, o que é completo. Harmonizam-se muito
bem com a ideia de que os símbolos referem-se a princípios de conduta e de governo
divinos que são sempre operantes, mormente através da totalidade da presente
dispensação.” (HENDRICKSEN, 2001, p.58).

Seguindo a ideia do número sete usado de forma implícita, temos os gafanhotos, descritos
como cavalos em 9.7-10, que exibem sete marcas distintas: (1) coroas de ouro em suas
cabeças;(2) rostos de homens; (3) cabelos de mulheres; (4) dentes de leões; (5) couraças de
ferro; (6) asas que emitem som de cavalos atroando e carros em batalha; (7) caldas e ferrões
de escorpiões.

A expressão “brevemente”, “breve”, “sem demora” ou depressa, com referência ao


cumprimento da profecia e do regresso de Jesus, aparece sete vezes (1.1; 2.16; 3.11; 22.6, 7,
12, 20).

As expressões “palavra de Deus” ou “palavras de Deus” aparece exatamente sete vezes (1.2,
9; 6.9; 17.17; 19.9, 13; 20.4)

Encontramos ainda mais, há sete bem-aventuranças no Apocalipse, expostas aqui na forma


abreviada:
• “Bem-aventurado é aquele que lê” (1.3)
• “Bem-aventurados são os mortos que morrem no Senhor” (14.13)
• “Bem-aventurado é aquele que vigia” (16.15)
• “Bem-aventurados os que são chamados” (19.9)
• “Bem-aventurado e santo é aquele que tem parte” (20.6)
• “Bem-aventurado é aquele que guarda as palavras” (22.7)
• “Bem-aventurados os que lavam suas vestiduras” (22.14)

Há também sete promessas aos vencedores, no conjunto das sete cartas enviadas aos anjos
das sete igrejas:
• “Ao que vencer, dar-lhe-ei de comer da árvore da vida” (2.7)
• “O que vencer não receberá o dano da segunda morte” (2.11)
• “Ao que vencer darei eu a comer do maná escondido, e dar-lhe-ei uma pedra branca”
(2.17)
• “E ao que vencer… eu lhe darei poder sobre as nações” (2.26)
• “O que vencer será vestido de vestes brancas” (3.5)
• “A quem vencer, eu o farei coluna no templo do meu Deus” (3.12)
• “Ao que vencer lhe concederei que se assente comigo no meu trono” (3.21)

De modo geral, o número sete aparece ao longo do livro de forma explícita:


• Sete espíritos (1.4; 3.1; 4.5; 5.6)
• Sete castiçais de ouro (1.12,13,20; 2.1,5; 11.4)
• Sete estrelas (1.16, 20; 2.1; 3.1)
• Sete selos (5.1; 6.1)
• Sete chifres (5.6)
• Sete olhos (5.6)
• Sete anjos (8.2,6; 15.1, 6-8; 16.1; 17.1; 21.9)
• Sete trombetas (8.2,06),
• Sete trovões (10.3),
• Sete coroas ou diademas (12.3),
• Sete cabeças (12.3; 13.1; 17.3, 7, 9),
• Sete pragas (15.1,6),
• Sete taças (15.7; 16.1),
• Sete montes (17.9)
• Sete reis (17.10).

E em m outros lugares encontramos o número sete expresso de forma implícita, como por
exemplo:

“Que com grande voz diziam: Digno é o Cordeiro, que foi morto, de receber o
poder, e riquezas, e sabedoria, e força, e honra, e glória, e ações de graças” (5.12).

“Dizendo: Amém. Louvor, e glória, e sabedoria, e ação de graças, e honra, e


poder, e força ao nosso Deus, para todo o sempre. Amém” (7.12)

Enquanto o número sete significa completude, o número quatro se refere à criação divina
tanto na terra como no mundo celestial. São quatro criaturas viventes, quatro anjos,
quatro cantos da terra, quatro ventos e quatro anjos atados junto ao Eufrates. Deus é o
governante de e em sua criação, o que é evidente à luz do uso da expressão relevante
“aquele que vive para todo o sempre”, que ocorre quatro vezes (4.9,10; 10.6; 15.7).

Categorias de quatro permeiam todo o Apocalipse, como por exemplo:


• “tribo e língua e povos e nação” (5.9)
• “louvor e honra e glória e poder” (5.13)
• “quatro cavaleiros” (6.2-8)
• “trigo, cevada, azeite e vinho” (6.6)
• “espada, fome, peste, feras” (6.8)
• “terra, sol, luz, estrelas” (6. 12,13)
• “vozes, e trovões, e relâmpagos, e terremotos” (5.8; 16.18)
• “hora, dia, mês e ano” (9.15)
• “homicídios, feitiçarias, prostituição e furtos” (9.21)
• “muitos povos e nações e línguas e reis” (10.11)
• “pragas, morte, pranto, fome” (18.8)
• “fornicaram, viveram, chorarão, pranterão” (18.9).
• “harpistas, músicos, flautistas, trombeteiros” (18.22)
• “injusto, sujo, justo, santo” (22.11)

Uma combinação interessante do número sete com o número quatro aparece no uso da
palavra grega ἀρνίον (arnion) que significa Cordeiro, referindo-se a Jesus Cristo, com uma
ocorrência de vinte e oito vezes – ou seja, o resultado da multiplicação de sete vezes
quatro – o Cordeiro pleno e perfeito de Deus representado pelo número sete, é também
plenamente humano, representado pelo número quatro.

Em claro contraste com o número sete, o número seis simboliza a luta de Satanás pela
completude, porém sempre fracassa em sua realização; daí o número da besta ser um seis
triplo (Ap 13.18). Note que nessa simbologia, o número seis é um sete incompleto, e que
nunca se completará. Por isso ser um número para representar Satanás e suas frustradas
aspirações à divindade.

O número três descreve o Deus Triúno. Deus é descrito como “aquele que era”, “que é” e
“que há de vir” (1.4).

Em 1.5, Jesus Cristo é divinamente descrito por uma tríade de qualidades como sendo a fiel
testemunha, o primogênito dos mortos e o soberano dos reis da terra.

Os quatro animais ou seres viventes diante do Trono clamam ininterruptamente: “Santo,


Santo, Santo, é o Senhor Deus, o Todo-Poderoso, que era, e que é, e que há de vir (4.8). A
série de três ocorre por todo o livro

O número dez é o número que se relaciona com os servos e atividades de Satanás. O


número dez retrata também a plenitude do sistema decimal. Encontramos esse número se
referindo a dez dias de perseguição (2.10); uma descrição do dragão com dez chifres (12.3);
a besta que sai do mar com dez chifres e dez coroas (13.1); e a besta escarlate que tinha dez
chifres (17.3,7,12, 16).

Já o número doze exemplifica o povo eleito de Deus, a completude desse povo e a


perfeição daquilo que provém de Deus para os eleitos. Descreve por exemplo os eleitos
das doze tribos (7.5-8); a mulher, simbolizando a Igreja, com doze estrelas em sua
cabeça (12.1); e a nova Jerusalém com doze portões, doze anjos, doze tribos de Israel
(21.12). Esta cidade tem doze fundamentos sobre os quais os doze nomes dos apóstolos
estão escritos (21.14); ela mede em comprimento, largura e altura doze mil estádios (21.16);
e de ambos os lados do rio, fluindo do trono de Deus, está a árvore da vida que produz doze
colheitas de fruto (22.2). No Apocalipse é claramente visível o contraste entre dez e doze: o
número doze descreve o povo de Deus; o número dez está associado a Satanás, seus
seguidores e suas ações.

Agora observe a combinação do número doze com o número três e o número quatro em
Apocalipse 21 e 22, onde é descrito a cidade vinda de Deus, a Nova Jerusalém:

• Possui doze portas, tendo um anjo em cada porta


• Nas portas os nomes das doze tribos de Israel
• As portas estão distribuidas em grupos de três pelos quatro lados da cidade – indica
uma criação perfeita de Deus
• O muro da cidade possui doze fundamentos onde estão grafados os nomes do
Apóstolos
• Possui a dimensão de doze mil estadios
• A árvore da vida produz doze colheitas

Em 21.17, a altura do muro é de cento e quarenta e quatro côvados (doze vezes doze).

E finalmente, por ora, destacamos ainda o número mil quee sugere uma multidão, ou
aquilo que é incalculável, ou ainda aquilo que é imensurável. O número mil nunca deve
ser tomado em sua literalidade, mas em sua simbologia, indicando aquilo que ele quer elevar
ao grau de inumerável ou incalculável.

Se o número doze é símbolo do povo eleito, cento e quarenta e quatro mil representa a
plenitude incalculável desse povo: doze vezes doze vezes mil.

Observem a combinação do número mil com os números doze e quatro:

Em 21.16, a cidade está em seu quadrado (um cubo possui quatro lados), Cada lado do cubo
mede 12 mil estádios. Logo, altura, comprimento e largura medem no total 144.000 estadios:
doze vezes doze vezes mil.
BIBLIOGRAFIA

HENDRICKSEN, William. Mais que Vencedores. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2001.

KISTENMAKER, Simon. Apocalipse – Coleção Comentário do Novo Testamento. São Paulo:


Editora Cultura Cristã, 2004.

SUMMERS, Ray. A Mensagem do Apocalipse – Dígno é o Cordeiro. Rio de Janeiro:


Junta de Educação Religiosa e Publicações, 1980.