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UNIVERSIDADE ANHEMBI MORUMBI

Rafael Ribeiro

DESIGN, EMOÇÃO E OBJETOLOGIA: ESTUDO CONTEMPORÂNEO SOBRE AS

RELAÇÕES DE AFETO ENTRE O HOMEM E OS OBJETOS – PRODUTOS

Orientadora: Profª Drª Kathia Castilho

SÃO PAULO

JANEIRO DE 2009
RAFAEL RIBEIRO

DESIGN, EMOÇÃO E OBJETOLOGIA: ESTUDO CONTEMPORÂNEO SOBRE AS

RELAÇÕES DE AFETO ENTRE O HOMEM E OS OBJETOS – PRODUTOS

Dissertação apresentada à Universidade Anhembi

Morumbi, como requisito parcial para a obtenção

do grau de Mestre em Design do Programa de Pós

Graduação do Departamento de Design, Arte e


Moda.

Orientadora: Profª Drª Kathia Castilho

SÃO PAULO

JANEIRO DE 2009
DESIGN, EMOÇÃO E OBJETOLOGIA: estudos contemporâneos sobre as

relações de afeto entre o Homem e os objetos – produtos1

Rafael Ribeiro

Dissertação apresentada à Universidade Anhembi Morumbi,

como requisito parcial para a obtenção do grau de Mestre em

Design do Programa de Pós Graduação do Departamento de

Design, Arte e Moda.

Orientadora: Profª Drª Kathia Castilho

Dissertação defendida em 10/02/2009 , perante a Banca Examinadora constituída

pelos seguintes professores:

__________________________________

Profª. Drª Kathia Castilho

Orientadora / Universidade Anhembi Morumbi – SP

__________________________________

Profª Drª Gisela Belluzzo de Campos

Universidade Anhembi Morumbi – SP

_________________________________

Profª Drª Cíntia SanMartin Fernandes

Pontifícia Universidade Católica de São Paulo - SP

1 Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução total ou parcial do trabalho sem autori-
zação da Universidade, do autor e do orientador.
Rafael Ribeiro

Graduou-se em Comunicação Social com ênfase em Publicidade e

Propaganda pela Escola Superior de Administração Marketing e Comunicação

(ESAMC) de Uberlândia-MG em 2005. Pós-graduou-se em Gestão de Marketing

na mesma instituição no ano de 2006. Atua como professor do curso de Design de

interiores do SENAC em São Paulo. É sócio e proprietário do ateliê “Rafael Ribeiro

Ateliê - LTDA” em São Paulo, onde atua como Designer de produto e interiores.

Participou de Congressos e Seminários na área de Design.

Ficha Catalográfica.

Ribeiro, Rafael

Design, emoção e Objetologia: Estudos contemporâneos


sobre as relações de afeto entre o Homem e os objetos-
produtos / Rafael Ribeiro; orientadora: Kathia Castilho –
2009.

Dissertação (Mestrado em Design, arte e moda) –


Universidade Anhembi Morumbi, São Paulo, 2008.
Inclui bibliografia
1- Design. 2. Emoção. 3. Objetologia. 4. Evolução.
5. Experimentação. 6. Consumo. 7. Simbologia. 8.
Contemporaneidade.
Ao meu pai Silvino
Minha mãe Ana

Meu irmão Diogo


AGRADECIMENTO
Agradeço a todas as pessoas que, de alguma forma, contribuiram para que meu

trabalho pudesse seguir em frente. Contribuições simples, como um sorriso ou palavras

otimistas que me deram força no momento exato. Não ousarei escrever o nome de todos,

pois jamais me perdoaria se me esquecesse de alguém que teve um papel fundamental neste

trabalho; dessa forma, coloco como exemplos em cada página deste trabalho um depoimento

particular de todos os que foram importantes neste processo.

Mas algumas pessoas é impossível não citar, dentre elas destaco: meu herói,

Silvino, que com humildade, ensinou-me como conseguir tudo o que busco; minha pequena

mãe, que, a cada dia me ensina que a vida não foi um presente pelo qual se possa apenas

passar, mas que deve ser vivida com dignidade e muita felicidade; meu companheiro e

cúmplice irmão, Diogo, que sempre instigou minha curiosidade para que eu pudesse refletir

sobre minhas escolhas.

Agradeço de forma especial a minha orientadora, que em alguns momentos

confundia seu verdadeiro papel neste trabalho, acumulando os papéis de mãe, amiga,

professora, companheira, mas, sem sombra de dúvida, mostrou-me que, por mais árduo que

possa ser o caminho da pesquisa, ele sempre valerá a pena. À preciosissima Rosane, que

sempre esteve pronta a nos auxiliar com seu conhecimento e suas conversas de riquíssimo

valor pessoal e intelectual, à professora Ana Paula de Miranda e ao professor Wilson Alixandrino

que tão prontamente prestaram sua contribuição durante o processo de qualificação.

A minhas amigas Mariana Roncoletta, Regina Golden, Regina Maria, Tatiana Azzi,

Mirian Levinbook e Eloize Navalon, pela força e pela companhia nas aulas do Mestrado,

sempre me questionando e me fazendo refletir sobre meu tema de pesquisa.

Enfim, agradeço a Deus por ser uma pessoa de muita sorte e poder conviver com

todos vocês.

Obrigado.
RESUMO

Este trabalho apresenta um estudo sobre a relação de afeto existente entre o Homem

e os objetos, tendo como base o estudo da Objetologia, que traz uma aproximação

entre as teorias evolucionistas das espécies, desde Lamarck até a Biologia moderna,

com a tese co-evolucionista, para compreender a evolução dos objetos. Além isso,

procura perceber a presença de aspectos e características emocionais / afetivas como

construto simbólico dos objetos, identificando no Homem contemporâneo não apenas

sua característica de usuário, mas, sim de consumidor, que transforma os objetos,

utensílios ou artefatos em produtos passíveis de serem consumidos com rapidez.

Palavras Chave:
Design, Emoção, Objetologia, Simbologia, Consumo.
ABSTRACT

This search presents a study on the relationship between human being and objects,

based on Objectology, which carries on an approximation between species evolution

theories, from Lamarck to modern Biology with the co-evolution thesis, in order to

understand objects evolution. Further, it aims to perceive the presence of aspects

and emotional and affective characteristics as a symbolic construct in objects, in

order to identify in contemporary man not only his user characteristic, but also the

consumer one, which transforms objects from utensils or artifacts in products that

have be quickly consumed.

Key words: Design — Emotion — Objectology — Simbology — Consumption.


SUMÁRIO
INTRODUÇÃO .......................................................................................................... 12

Problema de pesquisa ............................................................................................... 19

Objetivos.................................................................................................................... 19

Metodologia ............................................................................................................... 20

CAPÍTULO I O HOMEM E O OBJETO – DIÁLOGOS CONTEMPORÂNEOS COM A

OBJETOLOGIA. .............................................................................................. 21

1.1 – Objetologia – Uma aproximação conceitual entre as teorias evolucionistas das

espécies e os objetos. ................................................................................. 22

1.2– Revolução Industrial – modificações culturais e sociais na relação Homem


objeto. .......................................................................................................... 26

1.3 – O Homem/hiperconsumidor e o objeto/produto – a chegada ao

contemporâneo. ........................................................................................... 33

1.4 Consumo – Julgamentos distintos. .................................................................. 40

CAPÍTULO 2 DESIGN E EMOÇÃO – INTER-RELAÇÕES NA CONSTRUÇÃO

SIMBÓLICA DOS OBJETOS. ......................................................................... 43

2.1 – Emoção e sentimento: Sensibilidade neurocientífica. .................................. 44

2.2 – Simbologia objetual - A máquina de costura, um exemplo de apelo emocional

durante a Revolução Industrial. ................................................................... 48

CAPÍTULO III DESIGN E EMOÇÃO – OBJETOS FORMADORES DE RELAÇÕES

SOCIAS. .......................................................................................................... 53

3.1 – Objetos com “alma”- elementos formadores das relações sociais. .............. 54

3.2- Design e emoção - experimentações particulares de afetivação com os

objetos. ........................................................................................................ 59

CONSIDERAÇÕES FINAIS ...................................................................................... 64

BIBLIOGRAFIA.......................................................................................................... 69

ANEXOS DE IMAGENS ............................................................................................ 73


“Nossas
 experiências
 de
 vida
 “grudam”
 nas
 coisas
 que
 delas
 fazem
 parte.
 E
 assim
 sen‐

do,
 Fica
 diFícil
 eleger
 o
 que
 mais
 gosto...
 Mas
 gosto
 especialmente
 de
 tudo
 que
 pessoas


queridas
 me
 dão
 de
 presente
 porque
 “combina
 comigo”.
 A
 idéia
 de
 que
 nossa
 identi‐
dade,
 nossos
 valores
 e
 nosso
 jeito
 de
 ser
 e
 viver
 se
 expressam
 nas
 coisas
 que
 escol‐

hemos
 usar
 e
 que
 ganhamos
 é
 super
 bacana.
 E
 a
 idéia
 de
 que
 praticamente
 todos
 os


produtos
 são
 mediadores
 de
 ações
 sociais
 e
 podem
 ser
 usados
 para
 aproximar
 pes‐

soas
é
revolucionária!
É
com
esse
Fim
que
o
designer
dos
tempos
para
lá
de
modernos


deve
 projetar:
 aproximar
 as
 pessoas,
 faze‐las
 ver,
 respeitar
 e
 valorizar
 as
 diferenças!


Precisamos
 desenhar
 mais
 “namoradeiras”,
 “conversadeiras”
 e
 tudo
 o
 mais
 que
 pro‐

mover
o
encontro,
o
diálogo,
a
troca,
a
amizade
e
o
convívio
harmonioso
de
diferentes!”

Profa.
Dra.
Vera
Damazio
–
Puc
–
Rio
I[\)*]^_`*
13

A chegada do homem ao contemporâneo século XXI trouxe inúmeras

mudanças e implicações na sua forma de ver e entender o mundo no qual vive e

produz. Nos interessará aqui verificar como se desenvolve e orienta o consumo de

produtos ditos “simbólicos”, analisar os objetos que compõem seu entorno e que

consequentemente também sofrem alterações, adaptando-se às necessidades e

desejos do ser humano, cada um a seu tempo.

Percebendo estas mudanças nos hábitos do consumo, observamos que

o processo projetual do designer direciona os objetos a caminhos em que aspectos

emocionais são privilegiados como construtos, sua comunicação também privilegia

o discurso emocional e, nesse sentido deslocamos o olhar para a investigação das


relações de afeto entre o homem e os objetos.

Com base nessa emoção, além de o discurso comunicativo proporcionar

aos objetos uma autonomia quando projetados com intenção de seduzir ou atender

aos desejos de afeto de um usuário, o objeto, por si, é capaz de provocar reações

fisiológicas nos indivíduos, percebidas nos objetos, por meio de suas funções estética,

prática e simbólica. Essa última é a de maior importância no processo emocional entre

objeto e indivíduo.

A percepção dessas emoções por meio das funções estética, simbólica e

prática, está diretamente associada aos aspectos sociais e culturais de um indivíduo,

pois são eles que determinarão a intensidade do interesse pelo objeto e diversificarão

as formas de compreensão, de interação e de utilização do mesmo.

Para que esta pesquisa se edificasse um certo percurso foi se constituindo

paulatinamente à medida que a leitura e as relações faziam sentido e apontavam

algumas possíveis direções.

Inicialmente, observamos Gosto
da
mesa



e
das
cadeiras
da

a relação entre os indivíduos e alguns minha
sacada
pois

é
onde
recebo
meus

tipos de móveis e objetos utilizados amigos
para
um
happy

hour.
em residências como cadeiras,
Eurides
Júnior
sofás, objetos de decoração que
14

fazem parte do contexto histórico familiar 
Amo
meu
MP3



roxo
‐
nele
minhas

ou mesmo aqueles artefatos que nos foram bandas
favoritas
‘gritam’

em
segredo,
me
ajudam
a

dados como presente por alguém especial mudar
de
humor
e
a
marcar
o

passo
nos
meus
trajetos!

e que justamente por isso, criamos com Yeah.
eles vínculos emocionais e estabelecemos Marion
Velasco
determinadas relações de afeto, inserindo-os

numa relação social. Percebemos neste momento que esses objetos possuíam um

valor simbólico mais explícito que os estéticos ou mesmo práticos e que possuíam

como finalidade a materialização sentimental do usuário.

As primeiras relações e associações sobre tais questões surgiu a partir da


leitura do livro “Personalizando produtos e serviços – Customização maciça – A nova

fronteira da competição nos negócios”, de B. Joseph Pine II, que é administrador de

programas da IBM Corporation e ensina como implementar estratégias e métodos

para desenvolver, produzir e comercializar a entrega de mercadorias e serviços com

a customização de massa.

Essa leitura e questionamentos que ali tiveram origem deu início às

inquietações que impulsionaram o desenvolvimento deste trabalho: como uma

esteira de produção pode ser reconfigurada para privilegiar as particularidades, as

individualidades, os detalhes, os desejos e outras exigências do mercado de consumo

contemporâneo, se, por princípio, entendemos que deva seguir a padronização das

partes de um produto, para sua produção rápida e em grandes quantidades com o

objetivo de reduzir custos e aumentar a produção?

A partir desse questionamento, criou-se o primeiro projeto para o trabalho;

a idéia era estudar um processo de projetação de um produto que fosse, ao mesmo

tempo, industrialmente viável e customizado, seguindo as vontades do consumidor.

Após a leitura de outras bibliografias mais centradas no Design, acabamos

entendendo que um produto poderia ser feito em série e, dentro de um grupo de

opções fornecidas pelo fabricante, o usuário poderia personalizá-lo. Como exemplo,

temos celulares para os quais podemos comprar capas de cores diferentes, relógios
15

que trocam de pulseira, enfim, uma gama de produtos que atendem de certa forma às

exigências particulares do usuário.

A partir da observação desses objetos, focalizamos inicialmente o objeto

de estudo no mobiliário e começamos a perceber que o comportamento do usuário

com relação à utilização de um celular que mude de cor, por exemplo, era diferente

da utilização dos objetos que estavam contidos dentro de seu ambiente residencial,

de trabalho ou ainda de lazer. Diferentes objetos em diversas condições de uso,

necessidades de identificação, afetividade ou pertencimento. Mesmo que se entenda

que são objetos diferentes, o celular é um produto que está constantemente em

contato com o usuário; já um objeto de casa, uma cadeira, por exemplo, não possui
tanto contato (fisico) com o usuário, mas seu valor sentimental é muito maior.

Talvez o indivíduo suporte a perda do seu celular, mas nunca se perdoaria

se deixasse a cadeira que foi de seu avô sofrer um arranhão sequer. A partir dessa

observação, resolvemos investigar as relações de afeto entre os usuários e os

objetos e foi nesse momento que nos deparamos com a possibilidade de leitura sobre

Design e emoção área que está sendo estudada e mapeada nas últimas décadas

apresentando bibliografia recente e ainda escassa.

A partir das leituras feitas, percebemos então que esta dissertação estava

ganhando novos rumos e evidenciando novos interesses e curiosidades assim,

a primeira alteração de projeto e pesquisa foi proposta. Como os objetos que nos

interessavam eram inicialmente os que estavam dentro do ambiente residêncial

dos indivíduos e que alí eram tratados como verdadeiras “peças de museu”, com toda

a pompa e magnitude, essas peças carregavam simbologias, possuíam um valor

ampliado, perceptivo principalmente para os

seus respectivos donos. Gosto
do
meu



mochilão
velho,
porque

Então, a investigação passou, nele
cabem
e
couberam

minhas
mais
intensas

naquele momento, a ser então, sobre “o aventuras!

móvel como objeto de experimentação de Ana
Maria
de
Paiva

um espaço particular”, propondo que se os


16

usuários possuíssem algumas relações pessoais associadas a determinados tipos

de objetos, que poderiam estar presente na consciência simbólica emocional de cada

individuo, e se sua experiência afetiva fosse a maior responsável por esse processo

de adesão ou consumo do referido objeto, associava-se a este valor e referência de

percepção e estímulo a algum tipo de vivência por meio daquele objeto.

Nesse sentido, buscamos encontrar alguns objetos cujo valor simbólico

fosse o maior responsável por seu desenvolvimento e sucesso de mercado e

verificamos que um determinado grupo de objetos só poderia ser comercializados

se existissem a ele agregado um altíssimo valor simbólico. Era evidente esta

associação no mercado de luxo contemporâneo. Era possível verificar que os produtos


comercializados neste segmento só poderiam ser consumidos se existisse de fato,

um valor imaterial e satisfação pessoal independente de seu valor monetário. Nesta

fase então, optamos em fazer mais uma modificação na proposta deste trabalho

intitulando-o provisoriamente como “Design emocional aplicado ao mercado de luxo”.

A pesquisa foi ganhando forma e, mesmo com um tema aparentemente

muito amplo e difícil de estabelecer um recorte preciso, alguns questionamentos

estavam em alinhamento. Começamos a perceber o que havia muito em comum

em todos os temas e indagações anteriores deste trabalho que de alguma forma

sempre estiveram presente como inquietações. Percebemos, então, que as

relações simbólicas eram criadas a partir das relações de afeto que os usuários

tinha com o objeto, e mais, que essas relações de afeto eram despertadas a partir

da experimentação ou interação desse objeto dentro de uma determinada relação

social no qual o indivíduo estivesse inserido.

Com isso, veio a grande mudança de foco de apropriação geral e

entendimento do objeto de estudo

deste trabalho que ocorreu quando nos Não
troco
a
minha



cama
por
nenhum

deparamos com a palavra “Objetologia” conforto
desse
mudo,
é

nela
que
recarrego
toda

e comprendemos seu sentido de uso. energia.

Este trabalho, portanto se conclui, na sua Carla
Daminana


17

versão final, com o título: “Design, emoção Amo
meus
livros



porque
eles
me
dão

e Objetologia — Estudos contemporâneos algo
que
ninguém

me
toma
e
que
me
é

sobre as relações de afeto entre os homens muito
útil
e
prazeroso,
o

conhecimento.
e os objetos – produto”.
Luciano
Araújo
A Objetologia estuda a evolução

dos objetos em seu caráter físico, cultural e social. Assim, pudemos perceber que as

relações de afeto sempre existiram entre homens e objetos e que talvez, justamente

por isso, desenvolvemos uma quantidade gigantesca de novos produtos que são

atualizados e reinventados incessantemente. Esta produção ininterrupta se dá a

partir de sua interação (objeto) conosco onde elegemos algumas características que
prevalecem e ganham importância na ralação pessoa-objeto, ao passo que outras se

tornam escassas até desaparecerem por completo.

Contudo, o tema ainda estava amplo e necessitava de um recorte preciso,

passamos então a investigar os objetos a partir da Revolução Industrial. Esse recorte

temporal ocorreu principalmente em função de duas questões: primeiro, pela questão

do surgimento do Design como profissão e segundo, por compreendermos a existência

de um objeto que deveria então ser pensado, criada e projetada por um determinado

indivíduo (o Designer), à partir de então, para ser consumido por outras pessoas.

Percebemos, desde então, que a evolução proposta pela Objetologia

acompanha a contemporaneidade do Homem, sendo ela a responsável pela inserção

de características simbólicas interpretáveis e assimiláveis a partir de sua interação

com o indivíduo.

No primeiro capítulo, apresentamos a definição do termo Objetologia e sua

aproximação com a teoria evolucionista das espécies. Em um segundo momento, no

mesmo capítulo, fizemos um apanhado, durante o período da Revolução Industrial,

sobre alguns produtos que já desenvolviam características simbólicas e emocionais.

Finalmente, nesse primeiro capítulo, compreendemos o Homem contemporâneo sob

a perspectiva dessa relação de afeto com os objetos; ele, que não mais é visto apenas

como indivíduo e, sim, como consumidor e o objeto, passível de ser comercializado,


18

agora é tratado como produto.


Eu
tenho
muita
coisa

No segundo capítulo dentro
de
casa
que
amo,

mas
um
que
até
disfarso,

deste trabalho, apresentamos o que
é
pra
não
chamar
muita

atenção
é
um
cavalo
de
argila

conceito de emoção segundo a que
a
Ana
Cristina
fez
pra

mim
quando
ela
tinha
10
anos,

Neurociência. Percorremos os ele
é
lindo,
meu
amor
por
ele
é

sigiloso.
sentidos neurológicos apresentados












Maria
Algemira
Sugimoto
principalmente por A. Damásio visto

que para contrapor às questões de necessidades psicológicas e motivação de

mercado, gostaríamos de investigar bases fisiológicas que nos dessem embasamento

científico para, de alguma forma, apresentarmos os conceitos do design emocional de


maneira diferenciada ao que o marketing principalmente vem considerando como

tendência e estímulo do mercado consumido. A questão neurocientífica se mostra

muitas vezes contraditória aos pressuspostos de afetivação, principalmente simbólica,

aplicamos neste trabalho, como ponto essencial para o entendimento das emoções.

De qualquer modo, verificamos que os estudos desenvolvidos nessa área

de pesquisa (neurociência), apontam as emoções e sentimentos como ocorrência

e manifestação essencialmente fisiológica, o que nos faz perceber que o

tema (emoção) pode ser ampliado e aplicado múltiplas áreas de estudo incluindo

especialmente o Design devido ao seu caráter transdisciplinar.

A Neurociência então nos ampara no início destes estudos ampliando o

conceito de emoção e sentimento, conferindo autonomia de resposta aos estímulos

externos diretamente do próprio corpo humano. É o corpo que sente, manifesta suas

respostas aos estímulos e consequentemente toma as decisões pertinentes aos

desejos que são ou não despertados. Nesse sentido, descartamos as tentativas

de apropriação permanente da emoção desprovida de bases de argumentação por

outras áreas. O que defendemos é que as emoções são de origem e autonomia

neurocientífica uma vez ser impossível descartar as reações corpóreas quando

estamos emocionalmente envolvido. Estudar as emoções cabe também às demais

ciências incluindo o Design investigando seus pontos de diálogos em comum em


19

suas linhas de raciocínio.

Finalmente, no terceiro capítulo, retomamos nossa análise do objeto

emocional, aquele projetado para despertar emoções e que funciona como formador

das nossas relações sociais, objetos estes que sejam emocionalmente atrativos, criem

diálogos e convívio com as pessoas, tornando-se objetos produtores de significados

particulares e interpretáveis de acordo com cada indivíduo.

Sendo assim, este trabalho tornou-se uma janela para a investigação

das funções dos objetos, com destaque para a função simbólica responsável pelo

despertar de emoções e sentimentos nos usuários, além de compreender esse

processo associado à evolução dos objetos e do Homem, levando-nos a questionar


sobre a forma como utilizamos os produtos e qual o seu verdadeiro significado para

nós, consumidores.

Problema de pesquisa

Acreditamos que não se trata de um problema de pesquisa, mas de um

prazer de pesquisa. As indagações apontadas por este trabalho nos fornecem grandes

oportunidades de conhecer e interpretar os objetos por nossa ótica particular.

Uma primeira questão que nos fez despertar para essa pesquisa foi o fato

de objetos cotidianos serem constantemente humanizados, característica essa do

antropomorfismo que desenvolvemos com os objetos. Atribuir características humanas

a objetos faz com que aumentemos nosso processo de afetivação.

Objetivos

Os objetivos desta pesquisa são estabelecer um parâmetro entre questões

emocionais e sua aplicação no processo projetual de um produto, garantindo a sua

evolução como utensílio e objeto simbólico para o homem.

De que forma a emoção entrou no processo evolutivo dos objetos tornando-


20

os elementos de comunicação formadores das relações sociais do Homem? É certo

que não mais consumimos a maioria dos produtos que utilizamos em nossas casas,

nossos espaços particulares, por motivos práticos, consumimos ou compramos para

satisfazer nossas necessidades afetivas e simbólicas, ou, pelo menos no processo

decisório da compra, a emoção é que desempenha o papel mais importante.

Metodologia

Por meio de alguns questionamentos de ordem simples e informal,


pudemos perceber a relação de afeto que os indivíduos desenvolvem com seus

objetos pessoais.

Após isso, um levantamento bibliográfico de diversas áreas, desde

a Biologia até a arte, passando pela Neurociência, Sociologia, Antropologia e o

Marketing, encontraram diálogos parecidos para fomentar uma discussão que seja

pertinente ao Design.

Gosto
do
meu
HD

externo
de
180
GB

pois
cabe
a
minha
vida

nele.


Bruno
Oss
C"st\^%*
1
O
H&+*+
E
O
O0;*#&
–
D>?3&@&"

C&)#*+,&-.)*&"
C&+
A
O0;*#&3&@>4.
22

“A antropologia é o estudo da humanidade, a zoologia é o estudo do reino animal e a

Objetologia é o estudo das origens e do desenvolvimento físico, cultural, biológico e social dos objetos

construídos pelo Homem” (Brent White) 2

1.1 – Objetologia – Uma aproximação conceitual entre as teorias evolucionistas

das espécies e os objetos.

A evolução3 das espécies é estudada sistematicamente há, pelo menos,

dois séculos. Por volta de 1809 o naturalista francês Jean-Baptiste Pierre Antoine de
Monet Chevalier de Lamarck4 propôs, pela primeira vez, uma teoria organizada sobre

a evolução dos seres vivos. Para Lamarck, os seres vivos evoluíram de forma lenta

e segura, para se adaptarem melhor ao meio e, assim, modificar-se-iam de geração

para geração, gradual e quase imperceptivelmente, já que a adequação manifesta-se

e efetiva-se de acordo com as necessidades de ação e de adaptação impostas pelo

meio circundante. Tal teoria hoje já se encontra desacreditada, mas sua postulação

serviu como base para outros estudiosos interessados no processo de evolução como

Charles Darwin5.

Charles Robert Darwin (1809-1882), inglês, publica, em 1859, o livro “A

Evolução das Espécies”, no qual apresenta sua teoria sobre a seleção natural dos seres

vivos, dizendo que o meio ambiente seleciona os seres mais aptos, que conseguem
2 1
(fonte: www.impeti.com Acesso em 31 de outubro de 2008, às 15:50h)
3 A palavra evolução não está sujeita a julgamentos do tipo “bom ou mal”, “melhor ou pior”; en-
tendemos por evolução a transferência de características hereditárias de uma população para outra, a
fim de melhor se adaptar ãs condições do ambiente.
4 Naturalista francês do século XVIII, nascido em Bazentin, no dia 01 de agosto de 1744 e fale-
cido em Paris, no dia 28 de dezembro de 1829. Desenvolveu a teoria dos caracteres adquiridos a partir
do uso e do desuso que, conjugada com a transmissão dos caracteres adquiridos, provoca desvios na
linha evolutiva. Segundo a lei do uso e desuso, os indivíduos perdem as características de que não
precisam e desenvolvem as que utilizam. O uso contínuo de um orgão ou parte do corpo faz com que
este se desenvolva e seja apto para o correto funcionamento; e o desuso de um orgão ou parte do
corpo faz com que ele se atrofie e com o tempo perca totalmente sua função no corpo do indivíduo.
Essas mudanças são repassadas aos descendentes por intermédio da transmissão das características
adquiridas. Embora sua teoria não tenha sido aceita pelos homens de sua época, a teoria do uso e
desuso faz uma aproximação muiito importante para pensarmos a evolução nos objetos.
5 Naturalista britânico que convenceu a comunidade científica da ocorrência da evolução e pro-
pôs uma teoria para explicar como ela se dá por meio da seleção natural e sexual.
23

reproduzir-se e sobreviver, eliminando os Gosto
muito



do
meu
telefone

menos aptos às condições ambientais de pois
com
ele
eu

consigo
sempre

cada época ou geração. Assim, somente comunicar
com

meus
amigos.
as diferenças que facilitam a sobrevivência
Iaías
Neto
serão transmitidas à geração sucessiva e,

ao longo delas, essas características firmam-se e geram uma nova espécie ou, ainda,

uma espécie que se atualiza e especifica frente ao contexto, às condições de vida e

sobrevivência no qual se insere.

No século XX, a teoria darwinista foi adaptada a partir da descoberta

da genética, sendo denominada de sintética ou neodarwinista, tornando-se a base


Biologia moderna. A explicação, hoje amplamente aceita sobre a hereditariedade das

características e especificidades dos indivíduos, deve-se a Gregor Mendel6 (1822-

1884), elaborada em 1865, mas cuja divulgação só ocorreu no século XX. Darwin

desconhecia as pesquisas de Mendel. A síntese das duas teorias foi feita somente

nos anos 1930 e 1940. A teoria neodarwinista diz que mutações e recombinações

genéticas causam variações entre indivíduos sobre as quais age a seleção natural.

Esse processo faz com que as populações de organismos mudem ao longo do

tempo. Características hereditárias são a expressão genética de genes que são

transmitidos aos descendentes durante a reprodução. Mutações em genes podem

produzir características novas ou alterar características que já existiam, resultando

no aparecimento de diferenças hereditárias entre organismos. Essas novas

características também podem surgir da transferência de genes entre populações,

como resultado de migração, ou entre espécies. A evolução ocorre quando essas

diferenças hereditárias tornam-se mais comuns ou raras numa população.

Com o aprimoramento dos estudos sobre a evolução das espécies, a

Biologia moderna apresenta, hoje, uma teoria denominada de co-evolução7, pela qual

6 Foi um monge agostiniano, botânico e meteorologista austríaco, que se dedicou ao estudo do


cruzamento de muitas espécies, Gregor Mendel, “o Pai da Genética”, como é conhecido, propôs que a
existência de características (tais como a cor) das flores é devida à existência de um par de unidades
elementares de hereditariedade, agora conhecidas como genes.
7 A co-evolução pode ser definida como a evolução simultânea de duas ou mais espécies
que têm um relacionamento ecológico próximo. Por meio de pressões seletivas, a evolução de uma
24

a evolução de indivíduos de espécies

diferentes é garantida, desde que 
“Adoro”
meu



travesseiro,
por

haja a interação espontânea ou que
é
com
ele

que
divido
minhas

forçada entre ambos que garanta a conFidências.

sobrevivência recíproca. É, portanto, Diogo
Ribeiro

por meio da pressão seletiva que uma

espécie se torna parcialmente dependente da evolução da outra.

Com base no desenvolvimento das idéias contidas nas teorias

evolucionistas, chegamos a idéias co-evolucionistas, podemos aproximar-nos dos

pressupostos que têm sido formulados para a compreensão e entendimento dos


estudos realizados na área que hoje se denomina Objetologogia. Trata-se de uma

área que inaugura sua fase de estudos e ainda possui poucos registros científicos ou

mesmo pesquisas teórico-empíricas sobre o assunto. Recentemente, no dia 25 de

outubro de 2008, Brent White8, em uma palestra no Institudo Europeo de Design em

São Paulo, sugeriu a definição para o significado do termo Objetologia e analisou sua

implicação, no que se refere aos estudos específicos sobre os objetos.

A Objetologia, estudo orientado para a compreensão da evolução dos

objetos, propõe uma aproximação à teoria evolucionista dos seres vivos. Tal

pensamento inclui o desenvolvimento e a evolução dos objetos no seu aspecto

físicos, biológico, cultural e social como aponta a citação de Brent White no início do

capítulo.
espécie torna-se parcialmente dependente da evolução da outra; a característica mais importante da
co-evolução, que interessa para este trabalho, está na interatividade, ou seja as duas espécies evo-
luem juntas a partir da interação de uma com a outra e neste sentido a evolução de ambas sempre
dependerá uma da outra nao podendo retrosceder.
8 Brent White é um “objetologista” sistematicamente observando o caminho evolutivo dos nos-
sos objetos e experimentando os limites do desenho por meio de móveis e artefatos domésticos. Suas
criações são programadas para perseguir a sua própria feliz existência e, ao mesmo tempo, perseguir
a troca simbólica de servidão e de energia com os seus homólogos humanos (também conhecida por
seus “donos”). Ele honra a vida secreta de objetos e explora essas peculiaridades como robôs muta-
ção, voluntário de vigilância e inanimada espiritualidade. Brent White tem um MFA em Design 3D na
Cranbrook Academy of Art and Design, e um BFA em Design na Universidade do Texas. As experiên-
cias profissionais de Brent incluem experiências com o público em larga escala para uma variedade
de museus e corporações expressando temas como espiritualidade, genética, ecologia e exploração.
Seus objetos foram mostrados localmente e internacionalmente, e ele foi selecionado como um dos
quinze mais procurados Designers da Wallpaper (revista 2004). Ele atualmente vive e trabalha em San
Francisco, praticando Necromancia em seu estúdio e lecionando Design de Interiores na Academia de
Arte da Universidade.
25

De fato, o Homem se
O
que
toca
minha
emoção,
ao

relaciona com os objetos que projeta ponto
de
mudar
completamente

meu
humor
são
perfumes...
tenho

e fabrica manipulando-os, adequando- uma
memória
olfativa
prodigiosa

e
cada
período
da
minha
vida
foi

os ou manuseando-os. Quando essa marcado
por
algum
perfume
(positiva

ou
negativamente)
que
eu
ou
outra

relação de interatividade é ativada pessoa
o
tenha
usando.
Inclusive
recordo

a
embalagem,
o
frasco,
a
cor
de
cada
um

ou encontra-se nesse processo quando
sinto
o
perfume.

de interação as características Adriano
Antunes

dos artefatos, atualizam-se ou

reconfiguram-se. Aqueles que não estiverem de acordo com o desejo estético do

usuário, ou necessidade funcional e que, portanto, não estejam adequados a esse


processo interativo (Homem-objeto) são aprimorados, repensados, na maioria das

vezes, em suas especificidades ou, ainda, descartados. Assim, o objeto torna-se apto

a atender as vontades, potencias e as novas utilizações propostas ou necessárias ao

indivíduo. Essas manipulações e o acelerado processo de investimento no projeto,

Design e re-Design do objeto está diretamente ligada ao estado contemporâneo

cultural e social de ambos (Homem-objeto) e é nesse sentido que a Objetologia

propõe a evolução dos objetos, possibilitando ao Design adaptar os artefatos à sua

necessidades ou desejos contemporâneos.

Para Henry Petroski9 os objetos evoluem de acordo com o momento

contemporâneo do Homem, modificam-se de acordo com seus “fracassos”

momentâneos:

[...] a forma dos artefatos está sempre sujeita a mudanças em resposta às

suas deficiências reais ou imaginadas, à incapacidade de funcionar de modo

adequado. Esse princípio impulsiona invenções, inovações e engenho. É

isso que move todos os inventores, inovadores e engenheiros, e segue um

corolário: uma vez que nada é perfeito e que, na verdade, nossas idéias sobre

perfeição também são estáticas, tudo está sujeiro a mudanças ao longo do

9 Henry Petroski é professor de Engenharia Civil na Duke University e autor de diversos livros de
sucesso como: The Pencil, To Engineer Is Human. Pushing the Limits e Sucesso através do fracasso.
Escreve uma coluna mensal na American Scientist e é consultor eventual de programas da BBC. Estu-
dioso da evolução dos objetos.
26

tempo (PETROSKY, 2007, p. 33).

Seguindo esse raciocínio, conseguimos entender que a evolução dos

objetos está associada às suas possíveis “falhas”, que garantem sua reestruturação,

para adequar-se ao momento presente no qual o Homem se encontra e, por isso,

Petrosky ainda pontua que:

A forma, a natureza e o uso de todos os artefatos são influenciados pela

política, pelos costumes e preferências pessoais [...]. E a evolução dos

utensílios também interfere de maneira decisiva nos costumes e na interação

social (PETROSKY, 2007, p. 30 e 31).

Pensar no objeto como um artefato que co-evolui com o indivíduo de acordo

com o seu tempo nos faz entender diversos utensílios que conhecemos hoje, mas que

sofreram alterações ao longo do tempo. Nesse sentido, é importante compreender

o surgimento do Design como profissão, pois o processo projetual eliminará

características ditas “negativas” e acrescentará soluções para as novas “espécies de

objetos” que surgem a partir de então.

1.2– Revolução Industrial – modificações culturais e sociais na relação Homem

objeto.

Em meio a descobertas e publicações sobre a evolução dos seres vivos,

a Europa do século XVIII mergulhou em mudanças de ordem não só científicas, mas

também econômica, tecnológica, social e cultural. Em meados do mesmo século,

surge na Inglaterra um movimento que mudaria por completo a história do Homem, o

seu modo de produção, trabalho e subsistência, este movimento foi denominado de

Revolução Industrial.

Antes da Revolução Industrial, a atividade produtiva manufatureira10 utilizava

esporadicamente algum maquinário simples ou desenvolvia seus produtos por meio


10 Produção artesanal ou feita a mão
27

da organização entre grupos de artesãos que

dividiam a realização do trabalho em etapas



Gosto
da
estante

dependendo da escala a ser produzida. Na de
livros
do
meu

quarto,
eu
mesma

maioria das vezes, era apenas um indivíduo a
pintei
e
nela
estão

outros
tantos
objetos

(artesão) que cuidava de todo o processo que
eu
sempre

preciso.
produtivo, desde a obtenção da matéria-prima






Regina
Dias
até a comercialização final do produto. Esses

trabalhos eram realizados em oficinas que se

localizavam no interior das casas dos próprios

artesãos, pois, como se sabe, não havia distinção de espaços e diferenciação de


endereços para a residência e trabalho. É importante ressaltar que os profissionais

da época dominavam muitas (se não todas) as etapas do processo de fabricação de

objetos.

De acordo com Cardoso (2004), a Revolução Industrial foi um conjunto

de mudanças referentes ao modo de produção fabril que contempla a execução e o

aprimoramento produtivo em série, garantindo a redução de custos com esse processo.

Bem mais que isso, a Revolução Industrial não só causou efervescência e alterações

no sistema econômico da época, uma vez que a produção agora é desenvolvida de

forma mais ágil e rápida pelas máquinas, garantindo, assim, um acúmulo de produtos.

Tais influências são de fato promovidas pela Revolução Industrial e inserem-se no

cotidiano do indivíduo da época. Pode ser observada como processo de concepção e

ou execução na construção de um produto.

Esse processo produtivo durante a Revolução Industrial sofreu uma divisão

que auxiliaria ainda mais a redução dos custos com mão-de-obra técnica, garantindo,

consequentemente, também a redução do custo de produção como aponta Cardoso

(2004), ao explicar a teoria do economista escocês Adam Smith, criada em 1776:

Separando os processos de concepção e execução, e desdobrando essa

última em uma multidão de pequenas etapas de alcance extremamente

restrito, eliminava-se a necessidade de empregar trabalhadores com um alto


28

grau de capacitação técnica. Em vez de contratar muitos artesãos habilitados,

bastava um bom Designer para gerar o projeto, um bom gerente para

supervisionar a produção e um grande número de operários sem qualificação

nenhuma para executar as etapas, de preferência como meros operadores

de máquinas. “(CARDOSO, 2004, pp.25/26)

Nesse sentido, o processo de produção, que antes era feito por um único

artesão, agora é pensado de forma detalhada por outro sujeito que conheça e que

domine as técnicas projetuais, facilitando, assim, a produção em larga escala pelas

máquinas. Tal habilidade e competência no conhecimento do processo de produção


é característica, segundo Burdek (2006) da atividade do Designer conforme

conhecemos hoje.

Notamos que, com a divisão do processo produtivo de um produto fabricado

por máquinas, o artesão não consegue acompanhar a velocidade produtiva e

encontra-se forçado a assumir o papel de operário dentro das indústrias, manuseando

máquinas que produzem quantidade em dobro e na metade do tempo. Submete-se a

uma baixa valorização de sua mão-de-obra e assume uma ocupação de assalariado

pelo qual recebe quantias muito inferiores às recebidas como artesão.

Como operário, o Homem não consegue comprar suas próprias máquinas

devido à exploração do trabalho e o baixo preço dos salários, colocando-o então em

situação de dependência do novo sistema produtivo dominante. A indústria conta

ainda com o consumo dos indivíduos que deverão absorver os excessos produtivos

a fim de gerar lucro e manter a engrenagem do sistema em funcionamento e

ascensão.

Essas modificações

repercutiram também no contexto



Amo
meu
album
de

social e cultural do Homem desta fotograFias,
porque
consigo
reviver

vários
momentos
inesquecíveis
com

época. Segundo Adrian Forty, essa pessoas
que
marcaram
minha
vida!

alteração ocorreu nos espaços 















Cristiane
Vassiliades


29

de trabalho e no lar dos indivíduos. Antes da Revolução Industrial, os artesãos

trabalhavam e moravam em um mesmo local e, a partir da introdução da indústria,

houve uma divisão desse espaço.

Forty diz, ainda, que o espaço que hoje entendemos como lar é uma criação

da Revolução Industrial. Para ele:

É óbvio que as fábricas são resultado da Revolução Industrial, mas raramente

pensamos que os lares, tal como os conhecemos hoje, são uma criação

da mesma revolução. Antes, a maior parte da produção e do comércio era

realizadas nas residências dos artesãos, comerciantes ou profissionais

envolvidos, e compreendia-se a casa como um lugar que incorporava o

trabalho às atividades habituais de morar, comer, dormir e assim por diante.

Porém quando o trabalho produtivo foi removido para as fábricas, escritórios

ou lojas, o lar tornou-se um lugar exclusivamente para comer, dormir, criar

filhos e desfrutar o ócio. A casa adquiriu um caráter novo e diferenciado,

que foi vivamente representado em sua decoração com o Design de objetos

(FORTY, 2007, p. 137-138).

Dessa forma, os móveis e objetos que compunham esse espaço

denominado de lar, foram projetados e criados para atender as necessidades que

fossem diferentes daquelas exigidas no local de trabalho e, por isso, as mudanças

empreendidas na economia, na cultura e na sociedade durante a Revolução Industrial

influenciaram o Homem, seu entorno e refletiram-se também nos objetos com os

quais esse se relaciona.

A análise dos objetos seguindo sua

evolução é o tema principal deste trabalho.


Eu
adoro
o
meu

De forma notória, percebemos que os objetos secador,
pois
carrego

em
todas
as
viagens
e
ele

que substituem o corpo humano nas suas esta
sempre
deixando
meu

cabelo
bem
lisinho.
atividades diárias nos fornecem um campo
Kênia
Amaral
amplo de observação devido ao seu alto grau
30

de interatividade com o Homem e, por isso, são os nossos objetos de estudo.

Henry Petroski estuda e analisa a evolução de artefatos ao longo da História

humana; entre tantos exemplos curiosamente pesquisados por ele os talheres

(anexo I) são os que mais se assemelham às nossas mãos e dedos e que nos são

corriqueiros, tão comuns e usuais no dia-a-dia que raramente nos daríamos conta da

história de sua evolução e desenvolvimento no Ocidente.

Os utensílios que usamos diariamente para comer nos são tão familiares

quanto nossas mãos. Podemos manipular facas, garfos e colheres de maneira

automáticas, assim como fazemos com nossos próprio dedos. Muitas vezes

só nos tornamos conscientes dos talheres quando os cotovelos dos destros e

canhotos esbarram em um jantar (PETROSKI, 2007, p. 11).

Os talheres à mesa de fato são um bom exemplo para elucidar a evolução

dos objetos. Nossos ancestrais primitivos se alimentavam utilizando os dedos, unhas

e dentes, que apresentavam algumas restrições, não permitindo, em alguns casos, a

redução do alimento a tamanhos suficientemente pequenos para serem mastigados.

Para essa finalidade, então, utilizavam pedras para cortar, rasgar, amassar, enfim

reduzir os alimentos a tamanhos menores.

Para Petrosky, as facas se originam a partir de peças talhadas em sílex ou

obsidiana, que eram uma espécie de rocha muito dura e cujas pontas fragmentadas

eram altamente cortantes. Logo em seguida foi descoberta do fogo e por mais que

os alimentos pudessem ser cortados e reduzidos em pedaços menores não poderiam

ser segurados pelas mãos no momento do cozimento. Assim, começaram a utilizar

gravetos e varetas para segurar o alimento em contato com o fogo tempo suficiente

para aquecê-lo e cozinhá-lo11. A partir desses dois instrumentos (a faca de sílex e

as varetas), é que podemos entender a ancestralidade dos objetos que utilizamos a


11 Neste sentido é importante ressaltar o avanço cultural na história do Homem analisado e am-
plamente estudado pelo antropólogo Claude Levi-Strauss em seu livro Cru e Cozido publicado original-
mente em 1964, onde pontua as diferenças que se estabelecem no modo de vida e produção histórico,
simbólica e cultural à partir do cozimento dos alimentos (Levi-Strauss Claude; O CRU E O COZI-
DO.São Paulo, Cosac Naif, 2004).
31

mesa; o garfo e a faca.


Meu
Fio
dental:
não

Estes objetos foram tomando viveria
sem
essa
Fitinha,

acho
que
simplesmente

diferentes formas e fabricados com deixaria
de
comer
porque
me

dá
uma
terrível
aFlição
Ficar

materiais diferentes, de acordo com com
pedaços
de
coisas
entre
os

dentes,
sobretudo
“couve”.
as disponibilidades de matéria-prima
Marina
Machain
Franco
encontrados ou pesquisados pelos

homens. Em tempos antigos, os metais

como o bronze e o ferro eram utilizados para construir tais artefatos; hoje, coexistem

inúmeros materiais naturais e sintéticos para a fabricação. É interessante lembrar que

frente à necessidade de um instrumento que firmasse os alimentos enquanto eram


cortados pelas facas, desenvolveu-se também uma segunda faca que, com o passar

dos tempos, ganhou dentes e possivelmente tornou-se o garfo que conhecemos

hoje. Essa seria uma segunda hipótese que conta sobre a história e necessidade

de invenção do corpo que seria advindo do uso sistemático de gravetos ou de uma

segunda faca para o apoio de alimentos.

É a partir da Revolução Industrial que esses objetos começaram a ser

fabricados tornando-se de uso mais amplo no cotidiano de um número maior de

pessoas e desenvolvidos com base no pensamento projetual, com referências

fornecidas a partir da observação do manuseio estabelecido pelo Homem. Segundo

Petrosky, certamente:

Analisar os talheres que utilizamos todo dia, e sobre os quais pouco sabemos,

fornece um dos melhores pontos de partida para o exame das relações

que existem entre a natureza da invenção, da inovação, do Design e da

engenharia.”(PETROSKI, 2007, p.12)

À medida que o Homem aumenta o seu entendimento do mundo,

imprime na natureza valores culturais. Sua atuação e interação com o mesmo se

desenvolve e atualiza, demandando, consequentemente, novas habilidades

que tanto biologicamente (o próprio Homem) como os próprios objetos precisam


32

manifestar para adequarem–


Eu
amo
demais
meu

se às necessidades PC,
é
por
ele
que
eu

vivo
minhas
emoçoes

iminentes e também para mais
fortes,
meu
namoro

não
existiría
sem
ele,

que desempenhem seus não
começaria
nem

continuaria,
por
ele
eu
vivo

determinados papéis e meu
namoro
a
distância.

funções. É com base na Aureliano
Severino
Neto

experimentação e na

eliminação de possíveis desvios ou erros e constantes ajustes que conseguimos

proferir ao objeto a sua autonomia histórica e evolutiva.

A solução encontrada para o aprimoramento de um objeto depende, então,


de experimentações, manuseio, uso e consequente eliminação de fatores “negativos”

que limitem ou inibam a utilização desses objetos. É curioso pensar que tais fatores

estão diretamente ligado ao contexto cultural e social dos indivíduos, a exemplo disso,

temos os talheres orientais (japoneses) como objetos que são absolutamente

diferente dos ocidentais, embora a função (levar o alimento até a boca) seja a

mesma.

Na relação de interatividade e evolução proposta pelo Homem e objetos

fica claro, então, que não somente os homens e suas diversidades culturais e sociais

interferem na concepção dos objetos como os objetos de forma direta também

interferem na evolução dos homens.

A forma, a natureza e o uso de todos os artefatos são influenciados pela

política, pelos costumes e preferências pessoais, assim como por essa

entidade nebulosa, a tecnologia. E a evolução dos utensílios também interfere

de maneira decisiva nos costumes e na interação social.”(PETROSKI, 2007,

pp. 30/31)

Os objetos desenvolvidos durante todo o período pós-Revolução Industrial,

baseados nas necessidades e desejos apresentados pelos homens a partir desse

momento, documentam as escolhas, o tipo de vida e a organização sociocultural,


33

temporal e espacial dessa relação interativa

e criativa. O objeto guarda, pois, em si Gosto
de
uma



mesinha
de
apoio

mesmo, importantes informações sobre com
rodízios
que
Fiz

na
faculdade.
Me
trás

a cultura e a história humanas, no seu lembranças
daquela

época.
fazer interativo relacional e produtivo. De
Sandra
Escridelli
fato, trata-se de documentos de um certo

saber fazer, de competências, preferências que a História da cultura material tem

sistematicamente organizado em pressupostos teóricos para esse estudo.

1.3 – O Homem/hiperconsumidor e o objeto/produto – a chegada ao

contemporâneo.

A chegada do Homem ao século XXI, modificou a sua forma de interação

e relação com os objetos: entendemos agora o indivíduo não mais como um usuário

mas, sim, como consumidor e o objeto, de utensílio, passa a caracterizar-se como

produto.

Clemente Nobrega, estudioso do antropomarketing12, acredita na eficiência

para a permanência e evolução das espécies:

[...] maximizar a eficiência é maximizar as chances de ficar vivo. É como

na natureza: as espécies que estão presentes hoje são aqulas que

“aprenderam”formas mais eficientes de ficarem vivas durante o processo

evolucionário (NOBREGA, 2002, p. 40).

Na contemporaneidade, o Homem encontra-se inserido em um contexto

cultural que o transforma em um indivíduo ávido por inovações e consumo. Essa avidez

12 Conceito criado por Clemente Nobrega cuja teoria propõe a revisão dos fundamentos do ma-
rketing, considerando o fato de que os desafios mercadológicos propostos na era digital remetem à
dinâmica das relações humanas e à própria evolução das espécies. (FERNANDES, Adolpho In NO-
BREGA, Clemente. 2002, p. 8)
34

exige que os objetos sejam caracterizados como produtos13, ou seja, que estejam à

sua disposição, para que possam ser consumidos a qualquer momento.

Para Lipovetsky, esse consumidor adquire uma formação específica, que o

autor denomina de hiperconsumidor.

A essa ordem econômica, em que o consumidor se impõe como senhor

do tempo, corresponde uma profunda revolução dos comportamentos e do

imaginário de consumo. Um Homoconsumericus de terceiro tipo vem à luz,

uma espécie de turboconsumidor desajustado, instável e flexível, amplamente

liberto das antigas culturas de classe, imprevisível em seus gostos e em suas

compras. De um consumidor sujeito às coerções sociais da posição, passou-

se a um hiperconsumidor à espreita de experiências emocionais e de maior

bem-estar, de qualidade de vida e de saúde, de marcas e de autenticidade,

de imediatismo e de comunicação (LIPOVETSKY, 2007, p.14)

Esse “turboconsumidor” ou “homoconsumericus” como descreve Lipovetsky,

é o senhor do tempo atual e diferencia-se no que se relaciona às coerções sociais,

levando-o a buscar determinadas emoções nos objetos de seu consumo.

As emoções são empregadas hoje na criação de várias estratégias

mercadológicas com o objetivo de tornar o produto mais “significativo”para o usuário.

Segundo Donald Norman, as emoções são fáceis de ser interpretadas por nós porque

é devido à evolução do nosso sistema emocional que aprendemos a compreender,

entender e até interpretar qualquer estado emocional de outra pessoa, animal ou

mesmo objeto. Para ele:

Somos criaturas sociais, biologicamente preparadas para interagir com

outras, e a natureza dessa interação depende muito de nossa capacidade de

compreender o estado de espírito dos outros. Expressões faciais e linguagem

corporal são automáticas, resultados indiretos de nosso estado afetivo, em

13 Entendemos por produto o resultado da produção manufatureira ou maquinofatureira, de in-


dustrialização física ou intelectual, cuja resultante no processo de produção baseia-se na alteração da
natureza ou substância de elementos, portanto, o produto pode ser físico ou acabado. Nesse sentido
damos ao produto seu caráter de comercialização.
35

parte por que o afeto está intimamente ligado ao comportamento. Uma vez

que o sistema emocional instrui nossos músculos preparando-os para a ação,

outras pessoas podem interpretar nossos estados internos ao observar como

estamos tensos ou relaxados, como nossa face se modifica, como membros

de nosso corpo se movem (NORMAN, 2008, p161)

A busca pela emoção está associada a um constante desejo de bem-estar,

de formas de vida que privilegiam sua ação individual dentro de seu grupo e, por

esse motivo, o indivíduo torna-se um consumidor de produtos que cada vez mais

lhe tragam um bem-estar emocional. Essa busca por um bem-estar faz com que ele
deixe, cada vez mais, seus padrões antigos à procura de outros novos, o que antes

lhe servia hoje já não significa mais, é necessária uma nova construção cultural quase

que imediata.

Para Bauman,

A cultura consumista é marcada por uma pressão constante para que sejamos

alguém mais. Os mercados de consumo se concentram na desvalorização

imediata de suas antigas ofertas, a fim de limpar a área da demanda pública

para que novas ofertas a preencham [...] Mudar de indentidade, descartar

o passado e procurar novos começos, lutando para renascer – tudo isso é

estimulado por essa cultura como um dever disfaçado de privilégio (BAUMAN,

2008, p. 128)

É nesse sentido que tentamos atender nossos desejos e buscamos sempre

compreender nosso estado emocional



Gosto
do
meu

para então satisfazê-lo no consumo do terço
de
pérolas,

porque
ganhei
da

objeto. Para Clemente Nobrega, essa minha
mãe...
Que

saudades...
busca pela satisfação dos seus desejos Maristela
Severino

é o que movimenta a tecnologia, mas

ele também ressalta que todo o avanço


36

tecnológico está sujeito ao desenvolvimento

cultural e social do Homem. Nobrega diz

que “existir tecnologia disponível para fazer



Gosto
muito
de
minha
bicicleta,
que

“melhor” velhas tarefas não significa que as ganhei
aos
10
anos
de
idade,
e
hoje
ela
me

acompanha
até
as
minhas
últimas
idas
à

pessoas vão desenraizar-se imediantamente faculdade.

de seus velhos hábitos.” (NOBREGA, 2002, p. Marcelo
Rezende

30). Entendemos que os objetos só poderão

evoluir de acordo com o desejo dos homens, e mais, esse desenvolvimento não

necessariamente se caracteriza como “melhor” ou “pior” mas, sim, como aquele capaz

de adequar-se ao momento contemporâneo do indivíduo.


Os avanços tecnológicos são de fato uma característica contemporânea da

sociedade e da cultura na qual o Homem se encontra inserido. Novas tecnologias não

criam novas necessidades, mas despertam novos desejos que estão associados ao

comodismo, ao conforto, às novas formas de reutilização de um mesmo produto, ou,

quem sabe, um mesmo produto com diversas funções diferentes umas das outras.

O fato de o Homem evoluir seu estado emocional, modifica também seu

entorno objetual, fá-lo adquirir novos comportamentos socioculturais, buscando, hoje,

novas formas de utilização mais subjetiva e emocional para interagir e dar novos

sentidos aos objetos, segundo Guilles Lipovetsky:

O hiperconsumidor não está mais ávido de bem-bem estar material, ele

aparece como um solicitante exponencial de conforto psíquico, de harmonia

interior e de desabrochamento subjetivo, demonstrados pelo florescimento

das técnicas derivadas do desenvolvimento pessoa bem como pelo sucesso

das sabedorias orientais, das novas espiritualidades, dos guias de felicidade

e da sabedoria. O materialismo da primeira sociedade de consumo passou de

moda: assistimos à expansão do mercado da alma e de sua transformação,

do equilíbrio e da auto-estima, enquanto proliferam as farmácias da felicidade

(LIPOVETSLY, 2007, p. 15)


37

A histeria de produção fabril, hoje,

concentra-se em desenvolver objetos que Adoro
meu
macacão



preto,
ele
é
prático,

sejam consumidos rapidamente, criando eu
não
preciso

Ficar
escolhendo

uma grande pressão sobre o sistema outras
peças
pra
usar,

combina
com
tudo,

produtivo, acelerando, consequentemente, chinelo,
rasteirinha,

brincos,
pulseiras
e
ainda

um consumo mais efêmero. Os indivíduos por
cima
me
deixa
mais

magra!

buscam na sua associação com objetos
Rosana
Massaro
consumíveis não apenas saciar seus

desejos na aquisição de bens, mas

apresentar-se e afirmar-se como membros


de um determinado grupo social e identidade pessoal baseado em suas escolhas.

Andrea Semprini fala sobre o consumo desde o pós-industrialismo e mostra-

nos algumas alterações no modo de obtermos e utilizarmos os produtos, talvez mais

obtê-los do que utilizá-los, uma vez que estamos em um novo tempo em que os

aspectos simbólicos são os verdadeiros motivos de consumo.

Isso aconteceu, segundo o autor, devido à desmaterialização e à

dessemantização do consumo. A desmaterialização apresenta dois aspectos

principais: a miniaturização do produto, ou seja, a redução do tamanho dos produtos,

sua miniaturização que, segundo o autor, é considerada em todos os setores. Nos

eletrônicos, essa característica é mais visível e a busca sempre pelo menor tamanho

chega a esbarrar nos limites do corpo, como, por exemplo, teclas de celular muito

pequenas, incapazes de serem acionadas pelo polegar. (SEMPRINI, 2006).

Já o segundo aspecto da desmaterialização seria a falta de sustentação

do consumo:

Por esse termo, entende-se a tendência das práticas de consumo de se

orientar para produtos que tenha menor densidade fenomenológica, menor

presença física, mas em compensação, quase sempre, uma densidade

simbólica e imaginária muito mais importante (SEMPRINI, 2006, p.49).


38

Para Semprini, percebemos que não há uma base substancial, algo

material para se consumir e é por isso que o aumento dos serviços, viagens, lazer,

produtos audivisuais etc. tem sido significativo. Certamente, essa desmaterialização

não significa a desintegração total dos produtos/objetos de consumo, uma vez que

mesmo no consumo de lazeres, prazeres, emoções, acabamos adquirindo objetos

que nos façam recordar essa experiência.

A dessematização, por sua vez, é o termo utilizado: “para invocar o

aparecimento de muitos produtos completamente novos para os consumidores, e

que necessitavam de um aprendizado e de um esforço para introduzi-los em suas

rotinas de consumo” (SEMPRINI, 2006, p. 50).


Segundo o autor, os microondas, por exemplo, ditaram novas técnicas de

cozimento e novas regras de funcionamento da cozinha e do preparo das refeições,

o que caracteriza a dessematização. Também nesse contexto percebemos que o

consumo se tornou uma prática indispensável para o indivíduo. Dessa forma:

[...] É preciso agora interrogar as razões de seu desenvolvimento

irresistível nas sociedades contemporâneas, desde há algum tempo

ditas “de consumo”. Por que, apesar de seus momentos de crise ou

de decadência, o consumo parece ser uma prática que acompanha

estruturalmente a vida moderna, quase uma condição “natural” inerente

ao modo de funcionamento das sociedades contemporânea?”(SEMPRINI,

2006, p.60)

Semprini ainda apresenta algumas pressuposições pós-modernas para

entendermos o consumo contemporâneo, que asseguraram um olhar diferenciado

e complexo sobre ele. Dentre esses pressupostos, temos uma nova noção de

individualismo, de corpo, de imaterialidade, de mobilidade e de imaginário.

O individualismo representa a busca pela felicidade privada, suas

escolhas pessoais fazem com que o consumo se torne algo individual e particular,
39

dependente das vontades de cada indivíduo.

A relação com o corpo requer mais atenção, Adoro meus livros de


literatura, pois ao lê-
como a busca por um corpo saudável, em los me transporto para
um mundo de magias.
forma, esculpido e um instrumento de sedução,
Maria Odete Mundim
erótico, musculoso ou gracioso, corpo como

fonte de prazer para si e para o outro, em cujo

contexto se podem explorar as sensações como forma de contato emocional com

o indivíduo.

O terceiro pressuposto pós-moderno relacionado ao consumo é

o imaterial, que faz com que os indivíduos cada vez mais valorizem os aspectos
abstratos, conceituais, virtuais, o que, segundo Semprini, contraria a teoria de Maslow

nos anos 1940, com as escalas das necessidades, porque há uma interpretação

e uma submissão crescentes a esses aspectos que propriamente preocupações de

ordem material.

O penúltimo argumento analítico do consumo pós-moderno está na

mobilidade, que é representada pela facilidade e pela busca constante de deslocar-

se tanto física como geograficamente, o que caracteriza uma busca prazerosa por

viagens: é a liberdade adquirida pelo Homem após as prisões domiciliares no período

industrial. Finalmente, o imaginário, que é a presença maior das noções de fantasia,

de criatividade, de expressão pessoal, de procura de sentido.

Essas definições apresentadas por Semprini nos colocam diante de

algumas observações, no que diz respeito à construção e à projeção de novos produtos

para o consumidor contemporâneo. De fato, com base nessas observações,

conseguimos entender quais são as buscas, os desejos que os usuários almejam nos

produtos e de que forma poderemos, como Desiginers, atendê-las.


40

1.4 Consumo – Julgamentos distintos.

O consumo14 é passível de julgamentos e, com isso, ele se torna vulnerável,

quando uma confusão interpretativa o coloca na mesma instância de entendimento

que o consumismo. Para Mary Douglas e Baron Isherwood (2006), o consumo é um

fator cultural e deve justamente ser pensado sob esse prisma. Eles nos explicam que

existe uma real distinção entre o desejo que move o consumo e a necessidade, que

move o nosso comportamento de consumidores.

Muitas vezes, o consumo de bens e produtos é impulsionado por

necessidades biológicas e físicas, ou seja, obedecem a ordem fisiológica. Outras


vezes. somos impulsionados em relação à aquisição de bens de consumo pelo desejo

que se orienta e compõe-se de elementos culturais.

Na contemporaneidade, para o estudo do comportamento e motivação dos

consumidores, segundo Mary Douglas e Baron Isherwood, somente o estudo dos

aspectos culturais interessam, apresentando questões que auxiliam no entendimento

das perspectivas do consumo com base em três justificativas: consumo hedonista,

consumo moralista e consumo naturalista.

O consumo hedonista faz parte da maioria das estratégias de marketing e

comunicação e privilegia o discurso repetitivo e enfático, centralizado nas qualidades

subjetivas do produto e suas possíveis interferências no cotidiano do indivíduo. Por

exemplo, o consumo hedonista explicita a si mesmo quando relaciona consumo com

sucesso ou felicidade, pois a vontade de atingir o sucesso, ou a felicidade, é que

torna o ser humano vulnerável e refém dos discursos e das artimanhas publicitárias e

apontam para a visão moralista.

A visão moralista possui ideologias conservadoras que discursam sobre um

consumo responsável em respeito à pobreza iminente da sociedade, critica a busca

desenfreada por lucros exorbitantes e o individualismo que propõe a aquisição de

bens como forma de suprir relações sociais. Buscar satisfação pessoal em consumir

14 Principalmente depois da analise de K. Marx sobre a apropriação de força de trabalho e mais


valia.
41

algum tipo de bem, principalmente se estiver

inserido no campo dos desejos e dos prazeres,


Gosto
de
um

faz com que a “moral” de um indivíduo se torne mini
manequim

que
ganhei
na

questionável. Euroshop
porque

resume
minha
vida

A visão naturalista critica o julgamento de
vitrinista.

das necessidades e dos desejos sob o mesmo Syliva
Demetresco

prisma, uma vez que possuem naturezas

diferentes: as necessidades devem ser entendidas

como biológicas, naturais e físicas, enquanto o

desejo é uma manifestação cultural, portanto não se deve observar o consumo sem
fazer essa dissociação.

Hoje, a busca despertada pelas características do desejo hedonista causa

uma dependência emocional em relação ao consumo, muitas vezes descontrolado e

voraz e cria um hiperconsumidor, definido por Gilles Lipovetsk (2007).

É justamente esse novo consumidor que revela uma interface diferenciada

entre usuário e objeto, que pode ser melhor trabalhada pelo Design na criação de

produtos que despertem o interesse emocional, por características tangíveis do objeto

e não apenas como um discurso comunicativo que surge a posteriori em relação à

criação desse objeto.

Para Everardo Rocha, antropólogo da UFRJ, que se dedica ao estudo do

consumo responsável, na apresentação do livro “O mundo dos bens”, o consumo

deve ser entendido como sistema de significação que supre nossas necessidades

simbólicas, visto que evidenciam e estabilizam categorias culturais cuja função é

promover o sentido, estabelecer códigos, traduzir nossas relações sociais, classificando

coisas e pessoas, produtos e serviços, indivíduos e grupos. Nessa perspectiva

consumir é:

[...] exercitar um sistema de classificação do mundo que nos cerca a partir de

si mesmo e, assim como é próprio dos códigos, pode ser sempre inclusivo.

Nesse caso, inclusivo tem dois sentidos. De um lado, dos novos bens que a
42

eles se agregam e são por ele articulado aos demais e do outro, inclusivo de

identidade e relações sociais que são elaboradas, em larga medida na nossa

vida cotidiana, a partir dele. Não é por outra razao que Mary Douglas ensina

que “os bens são neutros, seu uso são sociais; podem ser usados como

cercas ou como pontes ( ROCHA in DOUGLAS, 2006. p. 16-17).

Pensar no consumo como elemento da cultura nos faz refletir sobre

suas possíveis formas e desdobramentos junto à emoção. Sob o olhar atento do

Design, essas características podem ser aprimoradas e transportadas para espaços

particulares e simbólicos por meio de suas formas estéticas e funcionais, podendo ser
experimentadas de várias maneiras, intensificando as relações de afeto entre objeto

e usuário.

Gostamos

do
nosso
gazebo

(quiosque),
pois
nele

vivemos
momentos

felizes
entre
nós
e
nossos

Filhos,
também
com
amigos.

Família
Severino
Almeida
C"st\^%*
2
D"#$%&
E
E+&5B&
–
I)#*--*3456*"
N4

C&)"#-$5B&
S>+0E3>F4
D&"
O0;*#&".
44

2.1 – Emoção e sentimento: Sensibilidade neurocientífica.

A palavra emoção, segundo dicionário Houaiss, deriva-se do Francês

émotion (1475), identificada como perturbação moral. É também classificada como

substantivo feminino, o que significa o ato de deslocar, movimentar, agitar sentimentos,

abalo afetivo ou moral, turbação, comoção. Segundo a definição proposta pela

Psicologia, no mesmo dicionário, emoção é uma reação orgânica de intensidade e

duração variáveis, geralmente acompanhada de alterações respiratórias, circulatórias

etc., de grande excitação mental.

Entre as várias ciências que estudam a emoção, buscamos fundamentação

para a elaboração deste trabalho na Neurociência, já que estudos nesta área têm
substituído e contribuído de forma contundente com algumas visões mais clássicas

utilizadas principalmente pela Psicologia, que procuram explicar as emoções. É,

portanto, sob as explicações do professor António Damásio, neurocientista estudioso

das emoções, que serão apresentados os conceitos sobre emoção e sentimento,

pertinentes à fundamentação deste trabalho.

Para Damásio, sentimentos e emoções constituem o elo comunicativo

entre a Natureza e as circunstâncias; eles servem como guias para uma resposta

corpórea, uma vez que, nosso organismo se envolve com os sentimentos e responde a

estímulos como a felicidade, a tristeza, o ódio, independentemente de nossa vontade,

projetando uma resposta compreendida e assimiliada de forma positiva ou negativa

por todo o organismo.

[...] o amor, o ódio e a angústia, as qualidades de bondade e crueldade,

a solução planificada de um problema cientifico ou a criação de um novo

artefato, todos eles têm por base os acontecimentos neurais que ocorrem

dentro de um cérebro, desde que esse cérebro tenha estado e esteja nesse

momento interagindo com o seu corpo. A alma respira por meio do corpo, e

o sofrimento, quer comece no corpo ou numa imagem mental, acontece na

carne (DAMÁSIO, 2006, p. 18).


45

O corpo é o local onde 



Pensando
no
meu

as emoções e os sentimentos se dia‐dia
em
relação
aos

objetos
não
Fico
sem
um

manifestarão fisicamente, causando par
de
chinelos.
Não
sei

Ficar
de
pé‐no‐chão,
mas

modificações como a mudança de não
tenho
nenhum
em

especial,
basta
apenas
não

cor, por exemplo, no caso de sermos Ficar
descalçada.

submetidos a algum tipo de situação 







Eliana
Tencredi

de constrangimento em que ficamos

ruborizados ou mesmo de susto, quando empalidecemos. Além disso, essas

emoções e sentimentos nos permitem entrar em contato com a Natureza, é o elo que

permite a comunicação entre o organismo e o ambiente que o cerca. Contudo, os


objetos artificiais que compõem esse entorno nos permitem comunicar-nos com um

ambiente ou senti-lo, seja ele em sua totalidade ou parcialmente.

Willian James, médico que deu início ao estudo das emoções há cerca de

um século, propunha, em uma de suas teorias, a existência de mudanças corporais

físicas diante de uma emoção. António Damásio cita essa experiência em uma

passagem em seu livro:

[...] em suma, James postulou a existência de um mecanismo básico em

que determinados estímulos no meio ambiente, excitam por meio de um

mecanismo inflexível e congênito, um padrão específico de reações do corpo.

Não havia necessidade de avaliar a importância dos estímulos para que a

ação tivesse lugar. Na sua própria afirmação lapidar: “Cada objeto que excita

um instinto excita também uma emoção (DAMÁSIO, 2006, p. 159).

Nesse contexto, entendemos que, ao sermos estimulados de diferentes

formas, produzimos respostas instintivas, independentes de nossa vontade, seja essa

vontade racional ou não. Damásio conclui que as emoções são mudanças corpóreas

que podem ser apenas sentidas ou assimiladas mentalmente pelo cérebro.

[...] a emoção é a combinação de um processo avaliatório mental, simples

ou complexo, com respostas dispositivas a esse processo, em sua maioria


46

dirigidas ao corpo propriamente dito, resultando num estado emocional do

corpo, mas também dirigidas ao próprio cérebro (núcleos neurotransmissores

no tronco cerebral), resultando em alterações mentais adicionais (DAMASIO,

2006, p. 168/169).

As emoções, para Damásio, dividem-se em duas categorias diferentes:

primárias e secundárias; as primárias são as que sentimos quando crianças, de

caráter natural, cognitivo e sinestésico, como a fuga de uma situação de perigo;

as secundárias só poderão ser vivenciadas após termos passado primeiro pelas

emoções primárias, manifestam-se em nossa fase adulta.

[...] Começo, numa perspectiva de história individual, por esclarecer as

diferenças entre as emoções que experienciamos na infância, para as quais

um “mecanismo pré-organizado” de tipo jamesiano será suficiente, e as

emoções que experienciamos em adulto, cujos andaimes foram gradualmente

construídos sobre as fundações daquelas emoções “iniciais”. Proponho

chamar às emoções “iniciais” primárias e às emoções “adultas” secundárias

(DAMÁSIO, 2006, p. 160).

O importante das emoções secundárias é que elas estão ligadas com o

universo particular de cada indivíduo e são criadas a partir de experiências que foram

vivenciadas por ele em algum momento de sua formação cultural e social.

Nesse sentido, encontramos

subsídios que podem ser pensados durante

a prática projetual e explorados pelo


Minha
cama

Designer. Buscar referências emocionais por
que
é
meu

local
de
descanso
e

para compor o construto de um objeto, para reposição
de
energias.

dar características que despertem algum Rosana
Garbelotti


47

tipo de emoção e compreender mais


Bem
a
maioria
dos

sobre essas emoções secundárias objetos
que
eu
gostava

meu
cachorro
comeu,
mas

possibilitam a criação de objetos um
que
eu
gosto
muito
e

consegui
salvar
foi
o
meu

que contenham representações Playstation,
pois
com
ele

consigo
me
esquecer
um

simbólicas adquiridas pelo pouco
dos
meus
problemas

cotidianos.
indivíduo por meio de sua cultura












Marcel
Melo
e, consequentemente, empregadas

nas suas relações sociais, criando produtos que sejam emocionalmente atrativos.

Outra definição importante para compreender essa relação entre objetos

e usuários por meio das emoções está no significado do sentimento que, para
Damásio, é um processo de acompanhamento contínuo das experiências e que

acabam formando no organismo uma paisagem corporal capaz de ser interpretada

pelo nosso sistema neural e também se classificam como primários e secundários.

Os sentimentos primários ligados a emoções primárias e o secundário

ligado as emoções secundárias, sendo esse segundo grupo de sentimentos também

mais elaborados que os primeiros e necessitam ser racionalizados para se tornarem

existentes.

[...] Essa segunda variedade de sentimentos é sintonizada pela experiência

quando gradações mais sutis do estado cognitivo são conectadas a variações

mais sutis de um estado emocional do corpo. É a ligação entre um conteúdo

cognitivo intricado a uma variação num perfil pré-organizado do estado do

corpo que nos permite sentir gradações de remorso, vergonha, vingança...

(DAMÁSIO, 2006, p.175/180)

Dessa forma, percebemos que, para um sentimento iniciar sua formação

na mente do indivíduo, ele deve ter sido apontado primeiro por uma emoção e, com isso,

a emoção humana, é caracterizada pelo fato de tornar-se consciente na mente do

indivíduo. Nesse aspecto, conseguimos detectar o tipo de emoção que sentimos e qual

sentimento nos será despertado pois “ [...] o impacto humano de todas essas causas
48

de emoções, refinadas e não refinadas, Gosto
de
uma



mochila
de
nylon

e de todas as nuances de emoções sutis verde,
do
exército,

comprada
há
mais
de
10

ou não sutis que elas induzem depende anos
na
galeria
do
rock,

tendo
vivido
com
ela
muitas

dos sentimentos engendrados por essas boas
histórias
no
decorrer
de

minha
vida.
emoções.”(DAMÁSIO, 2005, p. 56).
Mario
Candido
As emoções e os sentimentos,

sob o olhar da Neurociência, representam, então, um ponto de partida para que o

Design possa repensar a relação entre usuário e objeto, tentando buscar outras

alternativas para o entendimento do contato entre o ser humano e o objeto, auxiliando

o Homem na sua história material.

2.2 – Simbologia objetual - A máquina de costura, um exemplo de apelo emocional

durante a Revolução Industrial.

O consumo contemporâneo propõe aos objetos característicos que vão

além das determinadas como práticas. Seu foco maior concentra-se nas funções

estética e simbólica. Segundo Löbach, os objetos possuem três funções baseadas

na forma como os indivíduos se relacionam com eles. Tais características são por ele

denominadas de estética, prática e simbólica. Para ele:

[...] são funções práticas de produtos todos os aspectos fisiológicos do uso.

(LÖBACH, 2000 p 58)

[...] A função estética dos produtos é um aspecto psicológico do processo de

percepção sensorial durante o uso. (LÖBACH, 2000 p 59 e 60)

[...] a função simbólica dos produtos é determinada por todos os aspectos

espirituais, psíquicos e sociais do uso (LÖBACH, 2000 p 64).

Essa definição apresenta classificações associadas à interação entre

usuário e objeto, sendo as simbólicas as mais importantes para a contemplação da


49

emoção no construto projetual dos objetos, pois será

ela que definirá a função prática do objeto, pois, pelo

simbolismo desenvolvido em um objeto é que o indivíduo

definirá de que forma utilizará determinado produto.


De acordo com Miranda (2008), os objetos Adoro
meu
cheirinho
ele
é

rosa
e
não
durmo
sem
ele,
ai
ai

são passíveis de consumo simbólico, uma vez que são que
“soninho”.

elementos de comunicação entre o indivíduo e o meio em Tatieh
Fonseca

que ele se instala. Para ela:

Os objetos funcionam como sistemas de informação estabelecendo relações,

reproduzindo mensagens, definindo hierarquias (quem tem mais dinheiro,

quem sabe mais, quem tem melhor desempenho, quem é mais talentoso)

(MIRANDA, 2008 p 22)

Percebemos, portanto, que devemos compreender primeiro os fundamentos

da comunicação, para entendermos o que vem a ser o consumo desses símbolos

e os significados desenvolvidos nos objetos e interpretados pelo Homem. Miranda

estabelece a definição de comunicação segundo Damshorst et al (2000) como:

(1) Processo interativo entre duas ou mais pessoas [...] e (2) Processo que

envolve o envio de mensagem para pelo menos um receptor e, para que o ato

de comunicação seja completo, o receptor deve enviar o feedback (retorno)

para o emissor. [...] (3) Processo dinâmico no qual significados compartilhados

são negociados e criados para o entendimento comum.”(DAMHORST et al.

,2000, In MIRANDA, 2008 p 23).

Para compreendermos a Objetologia, a primeira definição de Damshorst

é a mais importante, pois garante ao ato de comunicação a interatividade entre duas

pessoas; dessa forma, os objetos são utilizados como mensagem dentro desse
50

processo de comunicação.
Agradeço
meu

travesseiro
que
é
quem

Aconstrução simbólica dos objetos utiliza a emoção me
escuta
todas
as
noites.

como fator determinante e fundamental para a construção Giuliano
Muller

de um produto; estes atributos simbólicos emocionais são,

muitas vezes, particulares e pessoais e garantem uma

representação individual e uma comunicação estabelecida

de forma significativa. Por isso, compreendemos que

muitos produtos estão sujeitos a julgamentos de acordo com as vontades de cada

consumidor, sendo atraentes para uns e completamente sem importância para

outros.

A utilização da emoção na construção simbólica dos objetos teve sua

origem na Revolução Industrial, o que existiu antes disso estava sujeito a análise e

julgamento sob os olhares da obra de arte e não do Design.

Segundo Adrian Forty, durante a Revolução Industrial, houve a separação

dos espaços cotidianos do Homem; esse autor os classifica como um local para o

“trabalho” e o outro para o “não-trabalho”. O “local para trabalho” eram as indústrias, as

fábricas, que continham máquinas, barulho e sucessivos problemas de ordem social

como o estresse, a monotonia, além das relações sociais entre patrões e empregados.

Já no local do “não-trabalho” eram realizadas quaisquer outras atividades diferentes

do trabalho. Era nesses locais que o indivíduo podia descansar, fazer suas refeições,

dormir e recuperar-se depois de um longo dia de trabalho, além de estabelecer e

desenvolver suas relações sociais de caráter familiar; esse local foi denominado de

lar.

O lar era o espaço no qual o indivíduo poderia manifestar toda a sua

intimidade sem que fosse criticado, julgado e até mesmo condenado pela sociedade

por estar submetido a um sistema de produção industrial ao qual ele era praticamente

escravizado, pois, embora recebesse salários pelo seu trabalho, muitas vezes
51

submetia-se a excessivas horas de trabalho extra, e

era no lar, então, que ele poderia “indignar-se” com



Meu
objeto
é

a sua posição de assalariado e explorado, contra o
celular,
que

me
deixa
sempre

todo o sistema industrial. ligado
no
meu
amor.

Alíbio
Garbeloti
Sendo assim, o lar tornou-se um “refúgio”

e, por isso, todos os produtos que deveriam ser

utilizados nesse espaço eram projetados para manter a maior distância possível entre

o indivíduo e seu ambiente de trabalho. Dessa forma, muitas empresas resolveram

investir na fabricação de objetos para o lar, objetos esses que deveriam ter uma

familiaridade maior com o íntimo das pessoas e que perdessem seu caráter industrial.
As empresas fabricantes de máquinas de costuram como a Singer & Co., por exemplo,

começaram a fabricar máquinas com algumas características mais “afetivas”, tentando

superar sua maior fabricante da época, a Wheller e Wilson, que já fabricavam máquinas

que poderiam ser usadas em indústrias ou mesmo nos lares, devido ao seu caráter

mais simples e por serem menores e mais leves.

Com isso, a Singer criou algumas estratégias de mercado, como a redução

dos preços, ou mesmo a divisão parcelada dos produtos. Logo depois, utilizaram a

propaganda para mostrar que as máquinas podem estar nos ambientes residenciais

modernos, mas, mesmo assim os fabricantes não estavam suficientemente seguros de

que apenas campanhas publicitárias garantiriam o sucesso das vendas e precisavam

adequar os modelos de máquinas domésticas para o lar. Então, em 1858, a Singer

criou o primeiro modelo de máquina de costura com características que a fizessem

ser utilizada no lar. Desde então, diversas modificações e aprimoramentos foram

incorporados às máquinas de costura como mostram os exemplos constantes no

Anexo II)

As características emocionais, nessa época, eram apresentadas de forma

alegórica e apenas nas funções estéticas, ou seja, as máquinas possuíam formas

e imagens que seriam entendidas como afetivas e possuíam um apelo sensorial,


52

intimo, hedonista capaz de seduzir o indivíduo.

A prática projetual com apelo emocional é bastante difundida hoje no

mundo contemporâneo. Criar objetos que sejam capazes de nos fazer sentir bem

tornou-se, hoje, uma vertente bastante promissora para os Designers: criar objetos

que despertem uma emoção no usuário é considerado um filão muito precioso para

o setor industrial.

Entretanto, bem mais que isso, esses objetos não devem ser projetados

apenas para despertar uma simples emoção — devem ser configurados para tornarem-

se mensagens de comunicação e atuarem diretamente na formação das relações


sociais do indivíduo.


Eu
tenho
apego

a
uma
saia
comprida

azul

marinho
que

ganhei
de

uma
grande
amiga
nos
anos

de
1996
por
aí.
De
vez
em

quando
eu
uso,
outros
anos

guardo,
mas
não
consigo
e

nem
quero
me
desvencilhar

dela.
Me
trás
boas
lembranças,

e
o
sentimento
de
que
algumas

coisas
mudam,
menos
a

amizade,
e
minha
saia
azul

marinho!









Mirian
Levinbook
C"st\^%*
3 


DESIGN
E
EMOÇÃO
–
OBJETOS
FORMADORES

DE
RELAÇÕES
SOCIAS.
54

3.1 – Objetos com “alma”- elementos formadores das relações sociais.

“[...] Nesses lugares buscavam produtos, que elas denominam “objetos

com alma”, ou seja, bens que “transmitem emoção”. (Carol Garcia ,

2006, p. 28).

A citação acima faz parte do texto de Carol Garcia (2006, p. 28), referindo-

se à história das fundadoras da loja “Casa 15”, na qual se comercializam produtos e

objetos colhidos pelas proprietárias15 em viagens e que permeiam o espaço imaginário


simbólico e afetivo das pessoas.

A preocupação com o valor emocional dos objetos tem sido dialogada

no mundo contemporâneo. Embora não se tenha uma definição formada para o

termo “objetos com alma”, entendemos como sendo aqueles objetos que possuam

elementos simbólicos muito bem empregados e constituídos não apenas de aspectos

estéticos, mas principalmente como características que os diferenciem de forma

particular dos demais objetos cotidianos comuns.

O Homem demonstra interesse pela construção de objetos desde os

mais remotos tempos. Nós, hominídeos, ao deixarmos o nomadismo, começamos a

construção de objetos que passaram a fazer parte de nosso cotidiano e a nos auxiliar

no cumprimento de diversas atividades rotineiras ou ocasionais. Dessa forma, o

desenvolvimento desses objetos torna-se cada vez mais complexo e sofisticado. Tais

objetos são considerados ideais, por conterem elementos que vão além das funções

práticas, como aponta Coelho apud Cunha (2006), o que torna um objeto “ideal” é

o fato de ele conter elementos simbólicos e relacionar-se com o espaço afetivo do

usuário, então objeto ideal “[...] vem a ser um objeto particularizado, que satisfaça aos

anseios, das mais variadas naturezas, do usuário. E nesses anseios são equacionados
15 Tatiana Leite e Andrea Simone, proprietárias da loja “Casa 15”em são Paulo - http:// www.ca-
sa15.com/
55

aspectos simbólicos, em particular


Gosto
muito
do
meu

os afetivos.”(Cunha, 2006, p. 155). painel
de
fotos
pois
nele

posso
guardar
momentos

e
lembranças
que
durarão

A esse respeito, para
sempre.

buscamos entender o que vem a Paula
Machain

ser um objeto cujas características

emocionais e afetivas serão a base para a projeção contemporânea de artefatos,

para que estes sejam elementos de comunicação na formação de nossas relações

sociais.

Para Moles: “Etimologicamente objectum significa atirar contra, coisas


existentes fora de nós mesmos, coisas colocadas adiante, com um caráter material:

tudo o que se oferece à vista e afeta os sentidos”. (Larousse in MOLES, 1981, p.25).

Ainda segundo esse autor, a definição de objeto vai além da definição etimológica,

ele se configura como tal dentro de nossa sociedade, a partir do momento em que

se insere nas referências sociais:

O objeto, dentro de nossa civilização, é artificial. Não se falará de uma pedra,

de uma rã ou de uma árvore como um objeto, mas como uma coisa. A pedra

só se tornará objeto quando promovido a peso de papéis, e quando munida

de uma etiqueta: preço..., qualidade..., inserindo-a no universo de referências

sociais (MOLES, 1981, p. 26).

Isto faz com que o objeto seja destituído de seu caráter natural, relacionado

à Natureza e se configure como produto. Mas o objeto também possui outras

características que o tornam ainda mais importante para o ser humano; o objeto é :

[...] mediador universal, revelador da sociedade na progressiva

desnaturalização desta, construtor do ambiente cotidiano, sistema de

comunicação social, carregado de valores como nunca no passado, apesar

do anonimato da fabricação industrial (MOLES, 1981, p. 8).


56

O autor ainda afiança


Não
vivo
sem
meu

que “esse visivelmente surge – travesseiro.
Ele
me

acompanha
sempre!
é um primeiro sentido – como






Simone
Garcia
mediador entre Homem e o mundo.

O objeto inicialmente é um prolongamento do ato do ser humano.”( MOLES, 1981,

pp. 10/11).

Para o Design, pensar nas relações de afeto com os objetos é enxergar além

da produção industrial, é perceber o sentido social, cultural e comunicativo dos objetos,

pois em cada uma dessas configurações, os artefatos ganham novas simbologias

condensadas em um espaço interno dele próprio. Os objetos ganham, então, uma


característica particular de acordo com seu usuário já que são portadores de signos

interpretáveis. (MOLES, 1981)

Para Baudrillard (2006), a relação de comunicação apresentada no objeto

tem um caráter mais importante por representar a comunicação do Homem com

o meio, por meio da relação de interno e externo. Nesse sentido, objeto seria

entendido como:

[...] figurante humilde e receptivo, essa espécie de escravo psicológico e de

confidente tal como foi vivido na cotidianidade tradicional e ilustrado em toda

a arte ocidental até os nossos dias, tal objeto refletiu uma ordem total ligada a

uma concepção bem definida do cenário e da perspectiva, da substância e da

forma. Segundo essa concepção, sua forma é a demarcação absoluta entre

interior e exterior, é continente fixo, o interior é substância (BAUDRILLARD,

2006. p. 33).

Os objetos possuem uma relação com os indivíduos que tal autor

caracteriza como uma relação visceral, pois possuem a capacidade de conter dentro

de si várias informações sobre o sujeito.


57

O Homem acha-se então ligado aos objetos ambientes pela mesma

intimidade visceral (guardadas as devidas proporções) que aos

órgãos do próprio corpo e a “característica” do objeto tende sempre

virtualmente à recuperação desta substância por anexação oral e

“assimilação” (BAUDRILLARD, 2006, p. 34).

Baudrillard ainda relaciona, por exemplo, o objeto “vaso” com a simbologia

poética de receptáculo, útero, armazenamento, retenção, para expor sua visão sobre

a relação dos objetos com os seus usuários e diferentes significados simbólicos e


funcionais.

Um objeto armazena, recebe, gera diversas características do indivíduo, do

tempo, da sociedade, dentre outras. Essas características são inseridas no momento

da criação e concepção desse objeto, por isso Baudrillard diz que:

[...] Assim, sendo o sentido e o valor provenientes da transmissão hereditária

das substâncias sob jurisdição da forma, o mundo é vivido como dado

(é sempre assim no inconsciente e na infância), e o projeto é revelá-lo e

perpetuá-lo. Também a forma ao circunscrever o objeto faz com que uma

parcela da natureza fique incluída nele tal como no corpo humano: o objeto

é fundamentalmente antropomórfico.”(BAUDRILLARD, 2006, p. 34)

Gosto
de
um
coração

O objeto é capaz
de
pelúcia,
pois
ele
já
me

fez
dormir
bem
em
várias

de evidenciar a natureza e a
situações
complicadas
da

vida
e
é
meu
Fiel
amigo.
O

cultura dentro de seus espaços,
levo
para
qualquer
lugar
e
já

viajou
o
mundo
ao
meu
lado.
considerado, assim, um elemento








Rodrigo
Fonseca
que consegue ultrapassar a
58

barreira do tempo e que carrega consigo


Gosto
de
minha

a história da cultura material humana. bolsa
pois
é
nela
tem

tudo
o
que
preciso
em

Baudrillard também não se deixa levar meu
dia
a
dia.
pelas “fantasias” da gênese no criar Daniella
Severino
objetos considerados “perfeitos” e “ideais”,

e entende que essas características

idealizadas quando atribuídas aos objetos são construídas pelo Homem.

O projeto vivido de uma sociedade técnica é o questionamento da própria

idéia de Gênese, é a omissão das origens, do sentido dado e das “essências”

cujos símbolos concretos foram os bons velhos móveis: é uma computação

e uma conceitualização práticas sobre a base de uma abstração total, a

idéia de um mundo não mais dado, mas produzido: dominado, manipulado,

inventariado e controlado: adquirido (BAUDRILLARD, 2006, pp. 34/35).

Podemos entender os objetos como diferentes manifestações culturais

desenvolvidas de forma simbólica; é a apresentação de seu universo particular que

permite que o Homem possa comunicar-se e formar suas relações sociais.

Com isso, conseguimos compreender que a história particular de um

sujeito pode ser representada por meio de suas relações com os objetos e mais,

observamos como esse simbolismo pode atuar sobre o objeto a ponto de torná-

lo quase um ser animado. Assim, entendemos que considerar a perspectiva que

referencia, na criação do objeto, a emoção e o sentimento é um fator fundamental

para a manifestação dessa simbologia nos produtos.


59

3.2- Design e emoção - experimentações particulares de afetivação com os

objetos.

A utilização das emoções e do sentimento no Design é responsável pela

evocação da memória do usuário. Os objetos ditos emocionais tentam relembrar

algumas experiências ou experimentações do usuário por meio de sua utilização, sua

forma ou mesmo de sua simbologia.

Para Ferrara, a memória particulariza um espaço.

“[...] uma memória que transforma o lugar na institucionalização do

acontecimento e dos flagrantes passados que tiveram o lugar como

cenário ou que o tornaram notável. Ou podemos ter a memória criadora

do lugar ficcional onde a referência do fato real é dispensável, por que

a lembrança do lugar dá origem àquela apropriação, responsável pela

identidade do pertencer. Consiste em recolher as marcas/signos do

passado que fazem sentido na vivêncai do presente, ou seja, a questão

não está em justificar ou ilustrar a história passada do lugar, mas se

resume no prazer de recuperá-la em palavras, imagens, visões, gestos,

nomes índices (FERRARA, 2002, p. 17).

Para a autora, é por meio da memória que construímos nossos “lugares”,

heterogêneos, que, por sua vez, constituem a homogeneidade do espaço. O lugar,

portanto, está na ordem da memória particular, individualizada que condivide o

espaço com outras tantas singularidades, ou seja, locais da memória de cada sujeito.

Cada local particular, em conjunto ou

multiplicidade, coletivo constitui o espaço. Gosto
da
minha



camisa
do
Flamengo

por
que
foi
meu
pai
que

Não se trata de uma discussão me
deu.

sobre espaço, mas, de antemão, podemos Joelton
Rezende

remetê-lo à idéia cartesiana de construções


60

e delimitações arquitetônicas como um vazio


Pode
parecer
“piegas”

a ser preenchido. Brandão (2002) apresenta mas
não
vivo
mais
sem

meu
ipod,
pois
é
dele
que

uma evolução do pensamento teórico da extraio
uma
trilha
sonora

para
todos
os
momentos
do

idéia de espaço evocando três pensadores: meu
dia.
Merleau-Ponty, para quem o espaço é o 









Felipe
Rolim
meio que possibilita o posicionamento das

coisas; Lima de Freitas, que considera o espaço como a relação entre seres e objetos,

sendo essa a mais importante para este trabalho, porque trata da interatividade; e

finalmente Guattari, que advoga a inseparabilidade dos elementos na relação corpo

e espaço. Assim, criar um objeto, em termos de concepção e planejamento, requer,


hoje, uma identificação permanente de “lugares” diante dos “espaços”.

Esses “lugares” são reconhecidos por causa das experiências emocionais

e sensoriais estabelecidas pelo indivíduo; compreendemos a presença dos objetos

artificiais, que garantem a fixação da experiência na memória do indivíduo, para que

seja relembrada em momentos futuros. As experiências são vivenciadas de forma

singular pelos consumidores e propondo a existência de particularidades diante de um

conjunto homogêneos é que Ferrara diz que o mundo se encontra em funcionamento

por haver divisão entre coisas aparentemente distintas (locais) que se unem e formam

uma fusão adequada (espaço): “ O mundo funciona e se torna possível porque admite,

no seu projeto homogêneo, faixas heterogêneas que constroem a organicidade do

todo ao se produzirem como particulares e diferentes” (FERRARA, 2002, p. 30).

A presença de particularidades em determinados objetos é responsável pelo

desenvolvimento de novas formas afetivas com o usuário, diferentes das estratégias

motivacionais de compra apresentadas pelo discurso mercadológico.

Para refletirmos sobre a projeção dessas características emocionais

incorporadas nos espaços dos objetos, retomamos Ferrara (2002), que analisa

o desenho e o Design sob a ótica de projeto. A autora afirma que a comunicação

dos objetos está muito além do simples ato de desenhá-los ou projetá-los, pois
61

sua significação encontra-se sob o foco das vivências e experimentações sociais e

culturais.

Relacionam-se ver, saber fazer e fazer e dessa correlação emerge aquele

Desenho Industrial onde o que se desenha não é apenas um objeto, mas

uma informação que interfere no cotidiano, no modo de vida, nas relações

socioculturais (FERRARA, 2002, p. 51).

Compreendemos, então, que os objetos são dotados de interpretações

particulares e individuais. Outro autor que cabe ser lembrado é Roland Barthes16

que, a partir de uma análise sobre a fotografia, elabora dois importantes conceitos

que podem ser aplicados para estabelecer uma ligação entre o universal, por ele
denominado de Studium17 e o particular chamado de Punctum18.

Para Barthes, o Studium está associado ao que podemos definir como bom

ou ruim, mas que, de alguma forma, está em contato com o todo; seria aquilo com que

concordamos ou não; e o Punctum está destinado a cada indivíduo de forma diferente

de acordo com sua observação particular.

Nesse sentido, o podemos fazer uma associação com o Design emocional

em relação aos aspectos que chamam a atenção em determinados produtos, dando

ênfase para as particularidades, ou seja, todos os objetos criados para serem

emocionalmente atrativos vão tocar qualquer indivíduo, no entanto alguns serão

atingidos de forma menos direta que outros, de acordo com suas expectativas e suas

experiências emocionais anteriores.

Criar em um objeto, formas emocionais que remetem a simbologia dos

indivíduos requer um conhecimento maior sobre as particularidades de um indivíduo;


16 Roland Barthes (1915 – 1980) apresenta em seu livro “a câmara clara” alguns argumentos de
ordem filosofica sobre o reconhecimento de particularidades dentro de um contexto social.
17 Características que são universais em uma fotografia, ou seja aquelas observadas por qual-
quer individuo, essas características sao as mais visiveis, as que chamam a atenção em primeira
instância.
18 Características mais particulares de uma fotografia, estas por sua vez depende de outras vari-
áveis como por exemplo a posição do observador em relaçao a foto e principalmente está associada à
cultura particular e ancestral do individuo/observador.
62

é necessário compreender um
Gosto
de
um
conjunto
de

pouco sobre o que desperta potinhos
de
porcelana
que

ganhei
da
minha
madrinha.

tal emoção em uma pessoa, Gosto
muito
deles
porque
é
um

prensente
de
uma
pessoa
que
não

por isso a experimentação se vejo
com
muita
frequencia
e
que

eu
amo
muito,
também
porque
são

faz como elemento decisor no pequenininhos,
meigos
onde
eu

posso
guardar
com
segurança
coisas

processo de afetivação dos especiais
fácil
de
se
perder.
objetos e na criação de vínculos Lorena
Ribeiro
emocionais particulares, uma

vez que experiências são de caráter individual.

A experimentação pode ocorrer de duas formas: objetos que são criados


a partir de experiências dos usuários o usuário como co-autor do produto , e objetos

que são criados para gerar experiências nos usuários objetos que geram experiências

. Os primeiros são entendidos como Design experimental e os segundos ainda não

possuem uma nomenclatura específica. Com isso o Design emocional encontra duas

grandes oportunidades de se firmar com as questões da experimentação.

A participação de um indivíduo no processo de projeção e construção de

um objeto faz com que laços afetivos comecem a ser criados durante esse contato;

essa categoria de Design pode ser compreendida como Design de parceira, pois

o indivíduo não apenas é usuário como também co-autor do projeto, adquire uma

autonomia diante do objeto e reconhece-o como propriedade particular.

Segundo Frascara, designer argentino, a essência do Design está nas

pessoas e não na forma como foi produzido tal produto; o autor sugere que o público-

alvo deve participar junto com o Designer no processo de produção de um objeto:

São nas situações de associação onde as relações são éticas, onde os

melhores talentos rendem seus frutos, onde se pode realizar projetos

complexos e ambiciosos e onde os Designers podem desempenhar o papel

de catalisadores e colaboradores na criação de um ambiente cultural e


63

conceitual em constante desenvolvimento (FRASCARA, 1998. p. 50).

A experiência pode ser analisada de outra forma, com a criação de

objetos que despertem o desejo de experimentá-lo; a esse respeito, encontramos na

sensorialidade um caminho bastante eficaz para a exploração dos cinco sentidos do

corpo humano como ferramentas para a construção de produtos que despertem tal

interesse emocional pelo usuário.

Para essa categoria de objetos, os efeitos do simbolismo também são

bem explorados, uma vez que o contato sensorial do indivíduo com o produto pode

conduzi-lo a várias reações fisiológicas e de caráter particular, de acordo com as

emoções ativadas pela memória; essas associações podem estar vinculadas tanto ao
objeto em si como à marca dos produtos.

O Design emocional utiliza da experimentação para a criação de produtos

que possam garantir a interação com o usuário, mas esse fato se acentua de forma

significativa, quando um indivíduo se relaciona com outro por meio de um objeto. Ou

a partir da própria interação do indivíduo com o objeto. Nesse sentido, entendemos a

formação das relações sociais por meio de um objeto que passa a ser o significante

e o representante de tal relação e, por isso, é impregnado por um sentimento de

emoção desperto no usuário a recordação de momentos bons e felizes por meio do

toque, do cheiro e até mesmo do gosto de um produto.

Sinto
orgulho
de
minha

mesa
e
banquinhos
da

sala
por
que
são
únicos

e
eu
mesma
projetei
e

comprei
a
madeira,
gosto

tambem
de
mapas
e
espalhei

alguns
pelas
paredes.

Lara
Barbosa
C&)">%*-456*"
F>)4>"
65

As considerações finais deste trabalho, refaz o mesmo percurso

apresentado na introdução a fim de verificarmos os possíveis encontros e

objetivos concluídos. Algumas respostas à questões, que surgiram durante o

processo desta pesquisa, conseguiram nos aproximar de forma satisfatória

à bibliografia e autores que auxiliaram na apreensão de novos significados e

valores que subsistem nos objetos contemporâneos. Frente a alguns outros

questionamentos como a objetologia por exemplo, tivemos muito maior dificuldade

de nos aproximarmos à discussões satisfatórias o que parece dever-se à novidade

do assunto e possivelmente a ausência de publicações nesta área onde nos

foi possível apenas leituras simples, pouco elaboradas e que se não ofereceu-
nos respostas convincente despertou-nos para novos questionamentos trazendo

novas perguntas que iam se estabelecendo e impondo-se no estudo e edição

deste trabalho.

Podemos entender que o homem, sempre foi visto como usuário de

um determinado objeto, que se interessava principalmente pelo desempenho

prático e funcional dos utensílios para que estes o auxiliasse na realização

das mais variadas tarefas cotidianas. Tal relação homem-objeto se efetiva ao

longo da história por fatores sociais e culturais promovidos e intensificados

sobremaneira pela revolução industrial onde ocorre o excesso na oferta de

produtos, o aumento da concorrência e o surgimento da classe assalariada ávida

por consumo de produtos.

Desde a Revolução industrial, mudanças como a aceleração na fabricação

e o desejo de aquisição, deram, paulatinamente ao homem a autonomia na escolha

de seus produtos, principalmente se considerarmos o aumento da oferta e da

concorrência. Assim, as empresas buscarão não só atender como também antecipar

e também criar novos tipos de necessidades e desejos de um indivíduo e de um

determinado grupo. O simples usuário passou então a se destacar cada vez mais

como consumidor e como público-alvo da maioria das empresas sendo considerado


66

assim como responsável por diversas adaptações, adequações e modificações no

sistema de produção fabril. Suas necessidades, seus anseios, gostos e principalmente

desejos tornaram-se o maior mercado exploratório das fábricas de produtos.

A cultura do homem na contemporaneidade foi decisivamente atingida,

modificou-se. O consumidor agora mergulhado nesse mar de ofertas a sua disposição

acabou por tornar-se ávido por novos produtos, lançamentos, o que imprime ao

mercado um consumo exagerado que busca incessantemente atender a novos desejos

e caprichos como também investir no provocar e despertar novas necessidades até

então inimagináveis consideradas então necessárias para garantir e proporcionar

novos padrões de bem estar, de convivência, de relacionamento entre o sujeito e


seus produtos os que falam sobre sua identidade, gostos, preferências, adesões, seu

estilo de vida, sua forma de crer e pertencer à sua contemporaneidade. Neste sentido

esse novo sujeito – Hiperconsumidor, assim denominado por Guilles Lipovetsky na

contemporaneidade, está buscando sempre alguma coisa na esperança de saciar sua

ânsia frente a curiosidade, ao desejo de incorporação de novidades ao seu universo

de significação. É justamente neste sentido que aspectos emocionais são acionados

e incorporados nos objetos contemporâneos para que estes possam representar

algo mais significativo para um determinado indivíduo ou grupo, atendendo mesmo

que momentaneamente esta lacuna de pertencimento e adesão, reconhecimento e

identificação emocional do homem contemporâneo.

Para acompanhar a evolução social e cultural, alguns objetos tiveram que

se adequar a este novo cenário para atender ao homem em seus anseios, vontades

e caprichos o que significou então uma certa incorporação de características

emocionais que tocassem o homem de algum modo e justamente por isso suas

funções estética, simbólica e prática estão sempre se reconfigurando dentro de um

mesmo objeto de acordo com o olhar do consumidor.

Neste sentido conseguimos encontrar inúmeros objetos que para uns

possuem um significado extraordinariamente grandioso e para outro pode não


67

representar absolutamente nada, conseguimos entender também que alguns objetos

possuem um significado estético para uma cultura e outro para outra, como é o caso

dos hashis (palitos japoneses) e dos talheres.

As funções estética e simbólica ganham a cena neste contemporâneo e são

justamente as mesmas que devem ganhar a atenção dos designers contemporâneos

que pensam em tratar a emoção nos produtos a serem criados. Simbologias que

despertem nos usuários sensações que foram ou que desejam ser vivenciadas ou

experenciadas em algum momento de suas vidas, que tragam recordações que podem

estar refletidas e incorporadas no objeto pela forma, na cor, na textura ou mesmo

na estrutura de um determinado objeto. É nela, na possibilidade de recuperação e


identificação/compreensão dos processos simbólicos que as emoções e sensações

serão incorporados para que possam despertar um sentimento agradável no seu

usuário.

Mesmo que dependam das vontades e desejos dos homens os objetos

são passíveis de serem pensados no que diz respeito a sua evolução e neste sentido

procuramos compreender a objetologia e todo o seu repertório evolucionista de

estudo do ambiente objetual artificial e dos caminhos que os objetos percorreram

até tornarem-se complexamente o que são hoje, adquirindo neste percurso, diversa

características que garantiram sua adaptação ao tempo contemporâneo do homem.

A aproximação com a teoria da co-evolução entre o homem e os objetos

é um ponto importante para este trabalho, pois é nela que buscamos compreender

que nem o homem nem o objeto consegue sobreviver sem a interação entre ambos.

Tal interação, desde a revolução industrial até meados do século XX, era assegurada

apenas pela função prática dos objetos que certamente possibilitavam uma certa

facilidade para que o indivíduo realizasse suas tarefas cotidians, das mais simples

até as mais complexas. Hoje esta função prática se torna multipla com os objetos

multifuncionais de certa forma.


68

O que realmente faz sentido no contemporâneo são os significados que

damos aos objetos, e por isso muitos são utilizados para outras funções práticas

totalmente diferentes a qual ele foi inicialmente proposto. Neste sentido os objetos são

utilizados conforme vontade e desejo de seus usuários.

A função simbólica se torna responsável tambem no processo de interação

entre homem e objeto, ganhando um espaço cada vez maior no projeto de criação de

um produto. Além do uso ou não uso, o “interpretar”, “ler”, “assimiliar”, “perceber”,

“sentir”, etc, são fatores fundamentais para se pensar um objeto e para que este co-

evolua junto com o consumidor.

A simbologia é a maior responsável pela criação de objetos com significado

afetivo relevante para o usuário, objetos hoje são compreendidos como formadores de

nossas relações sociais que estão cada vez mais escassas e distantes, por isso os

objetos precisam se configurar também com tais características. Devemos portanto

entender os artefatos como senhores de nossos tempo, talvez agora o homem não

mais seja o grande senhor da contemporaneidade, ela esteja diretamente ligada ao

objeto que documenta e conta as histórias de seus desejos, carências e paixões.

Entender os aspectos simbólicos que garantem a interação homem/ objeto

nos coloca diante de um amplo campo de pesquisa empirico-teórico, dando chance a

uma nova visõ sobre o comportamento humano e suas relações sociais e culturais a

partir da interação com os objetos.


69

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73

ANEXOS DE IMAGENS
Anexos I

Anexo I

Essa lâmina ornamentada de uma scramasax (um tipo de adaga medieval) saxônica de mil
anos atrás apresenta uma inscrição que diz: “Gebereht é meu dono.”As primeiras facas eram posses
pessoais estimadas e serviam para muitas coisas. A ponta afiada pode não apenas perfurar a carne de
um inimigo, mas fatiar pedaços de comida e levá-los à boca. O cabo desta faca, há muito desaparecido,
provavelmente era feito de madeira ou osso. (Petroski, 2007, p. 13).

Ao longo do tempo, as facas, como qualquer outro artefato, estavam sujeitas aos caprichos
de estilo e moda, em espcial no que diz respeito aos aspectos mais decorativos dos cabos. Esses
exemplares ingleses datam ( da esquerda para a direita) de aproximadamente 1530, 1530, 1580, 1580,
1630 e 1633. Mostram que, sob várias formas, a extremindade funcional da faca permaneceu constante
até que a introdução do garfo passasse a ser uma alternativa para espetar os alimentos. (Petroski,
2007 p. 16).
74

Os primeiros garfos de duas pontas funcionavam bem para segurar a carne a ser cortada,
mas não eram úteis para juntar ervilhas e outros alimentos pequenos. A ponta arredondada e grossa
da lâmina da faca evoluiu para levar comida à boca. A lâmina recurvada era um modo de minorar a
contorção do pulso nesse uso específico do utensílio. Os conjuntos de talheres ingleses acima datam (
da esquerda para a direita), aproximadamente, de 1670 e 1740. (Petroski, 2007. P. 23)

Com a introdução de garfos de três e quatro dentes – o último algumas vezes chamado
de “colheres com fendas”- não era mais necessário, e tampouco elegante, usar a faca para juntar
a comida. Assim, a lâmina recurva, com formato balboso, passou a ser fabricada em um feitio mais
simples. Contudo, hábitos e costumes persistiram à mesa de refeições, e a nova faca, ineficaz para
exercer a antiga função, continuou a ser usada por pessoas menos requintadas para levar comida à
boca durante todo o século XIX. Da esquerda para a direita: esses conjuntos foram produzindos por
volta de 1805, 1853 e 1880. (Petroski, 2007. P.24).
75

Anexos II

( máquina de costura “Familia”Singer, 1858. A primeira máquina doméstica Singer, para

competir com a Wheeler & Wilson. Fonte: FORTY, 2004 p. 134)


76

( Máquina de costura Willcox e Bibbs, 1857. A primeira máquina de costura de baixo custo

para o mercado doméstico. Fonte: Forty, 2004, p. 134)

( Gravura de setembro de 1867, que ilustra a máquina de Wheeler & Wilson, sugerindo

que era apropriada para o lar. Fonte: FORTY, 2004, p. 134)


77

( Máquina de costura “Nova Família”Singer, 1858. Após o fracasso da máquina “Família”,

a Singer apresentou rapidamente um novo modelo para o mercado doméstico. Fonte: FORTY, 2004,

p. 135)

( Máquina de costura Esquilo, 1858. Outra tentativa, mais fantasiosa, de tornar a máquina

de costura um objeto doméstico. O esquilo foi escolhido devido a sua frugalidade e prudência. Fonte:

FORTY, 2004, p. 134)


78

(Máquina de costura com Querubim, 1858. No final da década de 1850, na corrida para

criar máquinas de costura domésticas, surgiu no mercado grande varideade de máquinas ornamentais

como essa. Fonte: FORTY, 2004, p.135)