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ETERNO RETORNO E VONTADE DE POTÊNCIA

Eterno Retorno e Vontade de Potência são os dois principais conceitos da


filosofia de Nietzsche, e eu resolvi tentar escrever sobre eles, talvez porque é
preciso escrever sobre aquilo que se busca, e não sobre aquilo que se sabe.

Deleuze diz mais ou menos isso, e antes de ler Deleuze, meu entendimento
desses dois conceitos se baseava mais na interpretação de Heidegger. De
estudos sérios e rigorosos que aproximem ou afastem essas duas
interpretações a academia deve estar cheia. Minha intenção aqui é outra.

Quero tentar escrever sobre o Eterno Retorno e a Vontade de Potência de


modo que mesmo quem nunca teve nenhum contato com Filosofia consiga
entender. Não digo entender de fato o que significam, pois isso eu também não
sei, eu busco, mas entender o que eu compreendi e tentarei dizer do modo
mais claro que me for possível, num texto com o tamanho médio de um artigo
de jornal.

É óbvio não ser possível explicar os conceitos fundamentais de Nietzsche ou


de qualquer grande filósofo em tão pouco espaço, mas se servir para causar
algum sentimento como curiosidade já tá valendo.

Acho importante tentativas de aproximar a Filosofia das pessoas. Olavo de


Carvalho é a prova de que muita gente tem interesse por essas questões e não
sabe onde buscar, ficando a mercê de astrólogos terraplanistas autointitulados
filósofos.

Não digo que eu seja filósofo, mas a PUC me deu um título de especialista em
Filosofia Contemporânea, que eu decidi usar no jornalismo, numa coluna
chamada Van Filosofia, publicada por quatro anos no Diário do Centro do
Mundo. Deixei o jornalismo ano passado pra me dedicar à Filosofia com todo o
rigor exigido pela academia, que se afasta de não iniciados ou de textos como
esse, destinado a qualquer pessoa, a todos e a ninguém.

Enfim… é uma experiência e uma alegria.


Mas vamos a Nietzsche, à Vontade de Potência e ao Eterno Retorno.
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A vida é Vontade de Potência, diz Nietzsche, mas isso por si não diz nada.

Eterno Retorno é o revir da Vontade de Potência.


Não há como compreender um desses conceitos sem o outro, mas me parece
melhor começar então pela Vontade de Potência.

A vida é Vontade de Potência porque a natureza, ou tudo o que existe, são


forças. Forças que se aliam, que combatem, que são extintas, que reproduzem,
forças às quais a conservação não é suficiente, forças que sempre podem
aumentar ou diminuir de potência.

Spinoza nos ajuda a entender isso melhor. Ele diz que num segundo gênero de
conhecimento, compreendemos as causas do que aumenta ou diminui nossa
potência, ao contrário do primeiro gênero de conhecimento, em que
conhecemos apenas os efeitos. Um exemplo do primeiro gênero é quando
percebemos que o sol afeta o nosso corpo, mas não fazemos ideia do porquê
isso acontece. No segundo gênero, podemos entender a constituição das
camadas da pele, assim como a influência dos raios ultravioletas a enriquecer
nossa melanina ou destruir tecidos, causar desidratação, e assim conseguimos
calcular um tempo seguro e programar melhor nossos encontros com o sol.

Spinoza chama o aumento da potência de alegria, e a diminuição de tristeza. E


diz que a razão pode nos auxiliar a evitar o máximo possível os maus
encontros ou as paixões tristes que diminuem nossa potência, abrindo espaço
para os encontros que a expandem.

Já Nietzsche ensina numa das mais célebres explicações sobre o Eterno


Retorno:

“Se em tudo o que você quer fazer começar a se perguntar: ‘será que quero
mesmo fazê-lo um número infinito de vezes?’, isso será para você o centro de
gravidade mais sólido. Minha doutrina ensina: viva de tal maneira que deva
desejar reviver. É o dever. Aquele cujo esforço é a alegria suprema, que se
esforce. Aquele que ama antes de tudo o repouso, que repouse. Aquele que
ama submeter-se, obedecer e seguir, que obedeça. Mas que saiba bem aonde
vai sua preferência. E não recue ante nenhum meio. É a eternidade que está
em jogo. Essa doutrina é amável para com aqueles que não acreditam nela.
Ela não possui nem inferno, nem ameaças. Aquele que não acredita sentirá em
si apenas uma vida fugaz”

Vontade de Potência e Etorno Retorno se encontram aqui. Num ponto que


Nietzsche gostaria de marcar como o fim da metafísica, de todo o niilismo,
como uma afirmação gloriosa da vida, o dizer Sim de Zaratustra. Heidegger
acha que Nietzsche fecha a porta da metafísica, mas fica preso do lado de
dentro. Deleuze discorda. Não discutiremos.

Nilismo é a constatação de que os valores supremos se desvalorizam, ou a


própria história da metafísica ocidental, desde Platão. Implantação,
degeneração, decadência e substituição de valores supremos.
Nietzsche defende a transvaloração de todos os valores, tendo como centro de
gravidade o Eterno Retorno e a Vontade de Potência.

Uma doutrina que afirma uma forma de frear todo o devir reativo niilista, que
nega o mundo, que entristece em função dos maus encontros, de potências
reativas limitadoras, que bloqueiam a livre expansão do devir criador da
vontade livre.

Eterno Retorno é assim o revir da Vontade de Potência, em constante devir,


que em si é criação da diferença. Da multiplicidade da diferença, que não
encontra identidades. O Platonismo invertido, subvertido, diferenças de um
pensamento sem imagem. Forças que encontram sentido em si mesmas, que
criam sentidos na alegria, sem pontos de partida ou chegada, sem paraísos.
Forças trágicas, máquinas desejantes, de um desejo que não é uma falta, mas
um dizer sim à vida, a vida que se deseja a si mesma como é. Eternamente.