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ILUSTRAÇÃO A PARTIR DE UMA HISTÓRIA CRIADA PELOS ALUNOS.

A revista «Ciência Jovem» pediu-lhe um artigo de divulgação sobre os vários tipos de


borboletas. Redija-o.

Uma herança inesperada vai permitir-lhe concretizar o seu sonho: ter uma casa de férias.
Como será a sua casa ideal? Dê ao arquitecto todas as instruções necessárias para o projecto.

O planeta Marte enviou um emissário à Terra. Invisível, a sua tarefa consiste em observar o
comportamento dos habitantes deste planeta quase desconhecido e enviar relatórios periódicos
da sua missão. Escreva um desses relatórios.

Amanhã é o dia do seu aniversário e vai fazer um jantar original em sua casa. Redija um
convite engraçado para enviar aos seus amigos.

Tem de convencer um correspondente seu, que vive em Portugal, a vir passar uma semana ao
local onde vive. Descreva essa localidade de forma a entusiasmá-lo com a viagem.

Imagine que a mãe do seu melhor amigo está doente. Escreva-lhe a demonstrar a sua
solidariedade.

Estamos no Inverno. Escreva um texto sobre o espírito que os dias chuvosos e escuros lhe
despertam.

Hoje é astrólogo(a). Escolha um signo e redija as previsões que os astros reservam para o ano
de 2003.

Chegou um novo ano! Escreva numa página do seu diário tudo o que gostaria que lhe
acontecesse neste ano que agora entra.

De repente, lembrou-se daquele ano em que o Natal foi um dia muito feliz. Recorde essa
época, relatando o que se passou e por que se tornou um dia inesquecível.

O Ministério da Cultura lançou um concurso de ideias para um anúncio de televisão. O


objectivo é fomentar a utilização das bibliotecas públicas. Crie uma ideia original, indicando o
slogan, o argumento (a história) e a sequência de cenas.

A sua rubrica sobre cinema na revista «Actual» é muito apreciada. Redija a crítica a publicar na
próxima edição.

Um jornal diário publicou uma notícia sobre o alegado mau funcionamento do Museu das
Árvores e dos Frutos. No seu papel de director do Museu, responda ao jornal demonstrando
que a notícia é falsa.

O serviço de turismo pediu a sua colaboração na elaboração de um desdobrável sobre a sua


cidade/região. Escreva um roteiro destinado às crianças.

São oito e meia da manhã. Os ouvintes da sua crónica diária na rádio já estão à espera de o
ouvir. É sexta-feira, dia 13: dirija os seus conselhos aos ouvintes mais supersticiosos.

Quando um bebė nascia, tinha que ficar pelo menos três a quatro semanas dentro de casa e a mãe
desse bebé não podia falar com pessoas de fora. Também a própria mãe tinha que ficar escondida,
assim, dentro da cubata.
Até esta altura, o bebé estava sem nome. Só quando a ponta do umbigo do bebé tivesse secado e
tivesse caído é que se podia atribuir o nome ao bebé. E esta atribuição do nome ao bebé era especial,
porque geralmente tinha que se fazer uma festa, a "Pita pondje".
No dia de "pita pondje", o pai do bebé tinha que ter pelo menos um cabrito, e a família materna do
bebé tinha que preparar bebidas fermentáveis, para servir como alimentação no momento do festejo.
Quando a família do marido e da mulher tivessem chegado, o pai do bebé ia para dentro da cubata,
saía com o bebé, punha-o por cima da cubata e dizia o nome completo do bebé - Mekondjo Mwetjihanga
Mbutu.
Entretanto, este nome era divulgado em voz alta para que toda gente o ouvisse.
Finalmente , depois do anúncio do nome, era servida às pessoas a festa que se tinha preparado.

Mbutu Tjipena
Estudante da Universidade da Namíbia
Era uma vez...

Era uma vez.... Numa aldeia havia uma senhora com duas filhas, uma chamada Kissanga e outra
Binga. Ela era uma senhora que fazia o papel de pai e mãe.
Nesta mesma região havia certos "Maquícis". Maquícis é uma palavra que em Kimbundo significa
homens canibais ou seres gigantescos. As pessoas da aldeia, por vezes, eram presas por estes mesmos
"Maquícis".
A mãe, não tendo nenhum meio de sobrevivência a não ser lavrar, arriscava-se a ir lavrar e colher a
alimentação para as suas filhas, que eram pequenas.
Certo dia, quando ela caminhava para a lavra, deu de encontro com estes seres que a raptaram e a
levaram para o local onde eles viviam, com o objectivo de a comer.
As filhas, vendo que a mãe não aparecia, decidiram seguir pelo mesmo caminho para ir ao encontro da
mãe.
Durante a caminhada, elas deram de encontro com várias pessoas da aldeia, que não foram capazes
de dizer se haviam visto a mãe delas.
As meninas, desesperadas por não encontrarem a mãe, perguntavam por ela até mesmo aos animais.
Até que uma pomba lhes disse onde estava a mãe delas. Sendo assim, pediram à pomba para salvar a
mãe e a pomba assim fez .
A mãe e as filhas voltaram a ser muito felizes.

Augusto Jacinto Kihunga


Estudante da Universidade da Namíbia
Saber casar - Um conto popular kimbundu

Este conto fala-nos de um senhor que quase provocou a morte do seu irmão mais novo por se ter
apaixonado por uma mulher desconhecida. Ė preciso sabermos que quando casamos nem todo o tipo de
mulher serve.

Era uma vez um senhor caçador e um irmão pequeno que viviam numa pequena povoação. Quando ia
para a caça, o caçador deixava o irmão em casa. Certa altura, o caçador resolveu casar, porque estava
cansado de viver solteiro. Mas ele não quis casar com nenhuma mulher da povoação em que vivia. Numa
manhã de cacimbo, no Inverno, enquanto caçava, encontrou uma mulher muito bonita a tremer por causa
do frio que assolava aquela floresta. Sem mais olhar para trás, apaixonou-se pela menina. E a menina,
também sem mais hesitar, aceita o pedido de casamento, e caminharam para casa para viverem
maritalmente.
Passados alguns meses, a mulher fazia «espetados» estranhos que ameaçavam o menino. Quando
ambos ficavam sozinhos, devorava toda a carne sem deixar nada. O menino explicava o que se passava
ao irmão, mas ele não «dava de nada». A situação tornava-se mesmo alarmante e a caça já não era
suficiente para a menina carnívora.
Certa manhã, depois de o marido partir para a caça, ela transformou-se em leoa e tentou apanhar o
menino. O menino, sem mais demora, deu um pulo para fora de casa e pôs-se a correr em direcção ao
local de caça onde o irmão estava, enquanto chorava «de gritos».
Quando deu conta que estavam próximo do local de caça (porque o marido dizia sempre para onde ia
caçar), voltou a transformar-se em pessoa e chamou o cunhado, enquanto dizia que brincava com ele.
Depois do regresso do irmão a casa, o menino contou tudo ao irmão, mas ele fez-se surdo. Temendo
pelo perigo em que a sua vida se encontrava, o menino resolveu viver fora de casa, porque aquele
episódio repetiu-se frequentemente. Mas o irmão caçador, depois de ouvir tantas lamentações do irmão
pequeno e de alguns vizinhos, deu ouvidos ao irmão e disse:
- Vou-me esconder próximo da aldeia e se ela tornar a fazer o mesmo corres para a direcção para onde
me dirijo.
O mesmo voltou a acontecer e o menino fez o que foi combinado. Correu em direcção ao local onde
estava escondido o seu irmão. Escutando os gritos e choros do irmão que vinha a ser perseguido por uma
leoa, o caçador preparou a espingarda em posição de fogo.
Quando o menino e a leoa chegaram próximo dele, sem mais hesitar, atingiu a leoa na cabeça com um
tiro e a leoa acabou por morrer.

O caçador pegou no irmão e regressou a casa, enquanto chorava, porque tinha posto em perigo a vida
de seu irmão. Aprendeu que quando procuramos casar ou arranjamos uma mulher ou um homem para
casar, primeiro devemos procurar saber que tipo de ser humano é.

Esta é uma história que nos vem ensinar que quando pensamos casar, devemos ter cautelas, para não
pormos em perigo as nossas vidas, as nossas relações de amizade com a família, amigos e pessoas
chegadas.

Carlos Kakulu
Estudante da Universidade da Namíbia
feiticeiro e o inteligente

A «Estória» que vos vou contar reflecte a inteligência dos povos há muitos anos atrás.
Era uma vez, numa aldeia que se chamava Punjo Ndongo, no Norte de Angola, uma população que era
muito simples e tinha um grande feiticeiro. A vida em Punjo a Ndongo tinha por base a agricultura. As
pessoas trabalhavam nas lavras dia e noite. O Velho Saraiva, o feiticeiro, tinha uma filha, a Belita, de
quem gostava e que tinha como sua esposa e ajudante nos feitiços. Belita queria casar-se com Pedrito,
filho do velho Gasuza.
Havia na aldeia Mana Minga, que era viúva e tinha uma lavra que se chamava Maiombala, para onde
eram enviados todos aqueles que fossem mortos pelo velho Saraiva, para trabalharem na sua lavra
depois de mortos. E ela era a sua comadre.
Um belo dia, Pedrito, acompanhado do velho Gasuza, seu pai, foi a casa de Belita pedir a sua mão em
casamento, mas teve um grande espanto quando lá chegou: o feiticeiro não queria concordar com o
casamento de maneira nenhuma.
Mas a insistência foi tanta que o Velho Saraiva, calculista como sempre, armou uma tramóia para
impedir o casamento de Belita. Virou-se para Pedrito e disse-lhe:
- Menino Pedrito, para te casares com a minha filha terás de pagar «alombamento», porque Belita é
filha do sacrifício e minha única companheira.
Pedrito concordou e perguntou qual era o «alombamento» por Belita.
- Nenhum preço é demais, pois ela vale ouro – disse o menino Pedrito.
- Quero que me tragas um peixe que não vive na água doce nem na água salgada. Quero um peixe
nem cru nem cozido, estamos entendidos? - disse o feiticeiro.
Pedrito perguntou ao velho Saraiva:
- Mas existe tal peixe?
- Sim, existe - disse Saraiva. - E se até amanhã não me trouxeres o peixe, não terás a minha filha.
Pedrito, desesperado e triste, foi procurar o velho mais inteligente da aldeia, o velho Ngunga, para lhe
pedir ajuda. O velho Ngunga pensou, pensou e disse:
- Não te preocupes, meu filho. Passa aqui amanhã e terás o teu «alombamento» pronto.
Pedrito ficou todo feliz e despediu-se.
Na manhã seguinte, foi ter com o velho Ngunga para ir buscar o peixe e recebeu a resposta para o seu
problema. Foram juntos ter com o velho Saraiva.
- Velho Saraiva - disse Pedrito - já tenho o seu pedido.
- Ė impossível! - disse o velho Saraiva - Como foi que conseguiste? Dá-me então o peixe, menino Pedrito!
E Pedrito disse:
- A pessoa que me deu o peixe disse-me que o devo entregar, mas não pode ser de noite, nem de dia.
O velho Saraiva ficou furioso e entregou a filha a Pedrito com a ameaça de que se haveria de vingar dos
dois. E então, a partir daquele momento, todas as noites, ele fazia Pedrito dormir e deitava-se com a
própria filha.
Conversando com sua mulher, Pedrito pergunta-lhe um belo dia por que é que sempre que ele chega à
cama fica morrendo de sono, tão pesado, que nada acontece. Belita dá uma bofetada a Pedrito, pois
alguém se serve dela todas as noites.
Os dois reflectem e chegam à conclusão que é o velho Saraiva e desejam matá-lo. Apanham as
pegadas do velho Saraiva, que guardam bem, vão ter com o velho e dizem-lhe que estão a ser assaltados
e que querem matar o gatuno que tem ido à lavra deles. O Velho Saraiva, bem enganado, faz o feitiço
para ele mesmo com as suas próprias pegadas e acaba por morrer ali, e eles ficam felizes para sempre.

Elisabeth Paihoma
Estudante da Universidade da Namíbia

A
António Ponce de Leão
…assim éramos nós obscuramente dois, nenhum de nós sabendo
bem se o outro não era ele-próprio, se o incerto outro viveria…

Fernando Pessoa
Na Floresta do Alheamento

Cumpridos dez anos de prisão por um crime que não pratiquei e do qual, entanto, nunca me defendi,
morto para a vida e para os sonho: nada podendo já esperar e coisa alguma desejando - eu venho fazer
enfim a minha confissão: isto é, demonstrar a minha inocência.
Talvez não me acreditem. Decerto que não me acreditam. Mas pouco importa. O meu interesse hoje em
gritar que não assassinei Ricardo de Loureiro é nulo. Não tenho família; não preciso que me reabilitem.
Mesmo, quem esteve dez anos preso, nunca se reabilita. A verdade simples é esta.
E àqueles que, lendo o que fica exposto, me perguntarem: « Mas por que não fez a sua confissão quando
era tempo? Por que não demonstrou a sua inocência ao tribunal?», a esses responderei: - A minha
defesa era impossível. Ninguém me acreditaria. E fora inútil fazer-me passar por um embusteiro ou por
um doido… Demais, devo confessar, após os acontecimentos em que me vira envolvido nessa época,
ficara tão despedaçado que a prisão se me afigurava uma coisa sorridente. Era o esquecimento, a
tranquilidade, o sono. Era um fim como qualquer outro - um termo para a minha vida devastada. Toda a
minha ânsia foi pois de ver o processo terminado e começar cumprindo a minha sentença.
De resto, o meu processo foi rápido. Oh! o caso parecia bem claro… Eu nem negava nem confessava.
Mas quem cala consente… E todas as simpatias estavam do meu lado.
O crime era, como devem ter dito os jornais do tempo, um «crime passional». Cherchez la femme.
Depois, a vítima um poeta - um artista. A mulher romantizara-se desaparecendo. Eu era um herói, no fim
de contas. E um herói com seus laivos de mistério, o que mais me aureolava. Por tudo isso,
independentemente do belo discurso de defesa, o júri concedeu-me circunstâncias atenuantes. E a minha
pena foi curta.
Ah! foi bem curta - sobretudo para mim… Esses dez anos esvoaram-se-me como dez meses. É que, em
realidade, as horas não podem mais ter acção sobre aqueles que viveram um instante que focou toda a
sua vida. Atingido o sofrimento máximo, nada já nos faz sofrer. Vibradas as sensações máximas, nada já
nos fará oscilar. Simplesmente, este momento culminante raras são as criaturas que o vivem. As que o
viveram ou são, como eu, os mortos-vivos, ou - apenas - os desencantados que, muita vez, acabam no
suicídio.
Contudo, ignoro se é felicidade maior não se existir tamanho instante. Os que o não vivem, têm a paz -
pode ser. Entretanto, não sei. E a verdade é que todos esperam esse momento luminoso. Logo, todos são
infelizes. Eis pelo que, apesar de tudo, eu me orgulho de o ter vivido.
Mas ponhamos termos aos devaneios. Não estou escrevendo uma novela. Apenas desejo fazer uma
exposição clara de factos. E, para a clareza, vou-me lançando em mau caminho - parece-me. Aliás, por
muito lúcido que queira ser, a minha confissão resultará - estou certo - a mais incoerente, a mais
perturbadora, a menos lúcida.
Uma coisa garanto porém: durante ela não deixarei escapar um pormenor, por mínimo que seja, ou
aparentemente incaracterístico. Em casos como o que tento explanar, a luz só pode nascer de uma
grande soma de factos. E são apenas fatos que eu relatarei. Desses factos, quem quiser, tire as
conclusões. Por mim, declaro que nunca experimentei. Endoideceria, seguramente.
Mas o que ainda uma vez, sob minha palavra de honra, afirmo é que só digo a verdade. Não importa que
me acreditem, mas só digo a verdade - mesmo quando ela é inverosímil.
A minha confissão é um mero documento.

Mário de Sá Carneiro, A Confissão de Lúcio, Publicações Europa-América, Lisboa, 2ª. edição, 1989.

Mário de Sá Carneiro (1890-1916)

Nasceu em Lisboa e suicidou-se em Paris. Foi um dos principais animadores da publicação modernista intitulada
Orpheu. Conviveu com Fernando Pessoa e, ao nível das artes plásticas e pintura, com Santa-Rita Pintor. Escreveu
poesia e prosa e a sua obra apresenta elementos herdados do simbolismo e decadentismo do final do século XIX.

A Confissão de Lúcio mostra como as diferentes imagens do «fogo» correspondem às diferentes expressões de dizer
a Arte e a Vida. Neste sentido, o fogo condensa simbolicamente a novidade defendida pela estrangeira: a
voluptuosidade é uma arte e a vida é voluptuosa. Nesta novela, tal como noutras obras de Sá-Carneiro, a imagem do
fogo aparece sob múltiplas variantes: de alucinação, de quase loucura, do excesso de sofrimento; mas também
corresponde à chama do amor espiritual e erótico. Com efeito, o fogo está associado à ideia da rápida transformação
do material ao (quase) imaterial.

Neste contexto, importa lembrar o ensaio* de David Mourão-Ferreira, que fixou a figura poética de Mário de Sá-
Carneiro ao mito de Ícaro, realçando a imagem do poeta como o herói que sobe ao céu para desafiar perigosamente o
sol, e que, quando se aproxima do fogo, cai morto.

* David Mourão-Ferreira, "Ícaro e Dédalo: Mário de Sá-Carneiro e Fernando Pessoa", in Hospital das Letras, Lisboa,
IN-CM, 1981.
Ver: http://www.instituto-camoes.pt/bases/literatura/davidlit.htm

Obras Principais de Mário de Sá-Carneiro:


Poesia: Dispersão,1914; Indícios de Oiro, 1937; Poesias, 1946.
Ficção: Princípio, 1912; A Confissão de Lúcio, 1914; Céu em Fogo, 1915.
RETRATO DE MÓNICA

Mónica é uma pessoa tão extraordinária que consegue simultaneamente: ser boa mãe de família, ser
chiquíssima, ser dirigente da «Liga Internacional das Mulheres Inúteis», ajudar o marido nos negócios, fazer
ginástica todas as manhãs, ser pontual, ter imensos amigos, dar muitos jantares, ir a muitos jantares, não
fumar, não envelhecer, gostar de toda a gente, gostar dela, dizer bem de toda a gente, toda a gente dizer bem
dela, coleccionar colheres do séc. XVII, jogar golfe, deitar-se tarde, levantar-se cedo, comer iogurte, fazer ioga,
gostar de pintura abstracta, ser sócia de todas as sociedades musicais, estar sempre divertida, ser um belo
exemplo de virtudes, ter muito sucesso e ser muito séria.

Tenho conhecido na vida muitas pessoas parecidas com a Mónica. Mas são só a sua caricatura. Esquecem-se
sempre ou do ioga ou da pintura abstracta.

Por trás de tudo isto há um trabalho severo e sem tréguas e uma disciplina rigorosa e constante. Pode-se dizer
que Mónica trabalha de sol a sol.

De facto, para conquistar todo o sucesso e todos os gloriosos bens que possui, Mónica teve que renunciar a
três coisas: à poesia, ao amor e à santidade.

A poesia é oferecida a cada pessoa só uma vez e o efeito da negação é irreversível. O amor é oferecido
raramente e aquele que o nega algumas vezes depois não o encontra mais. Mas a santidade é oferecida a
cada pessoa de novo cada dia, e por isso aqueles que renunciam à santidade são obrigados a repetir a
negação todos os dias.

Isto obriga Mónica a observar uma disciplina severa. Como se diz no circo, «qualquer distracção pode causar a
morte do artista». Mónica nunca tem uma distracção. Todos os seus vestidos são bem escolhidos e todos os
seus amigos são úteis. Como um instrumento de precisão, ela mede o grau de utilidade de todas as situações
e de todas as pessoas. E como um cavalo bem ensinado, ela salta sem tocar os obstáculos e limpa todos os
percursos. Por isso tudo lhe corre bem, até os desgostos.

Os jantares de Mónica também correm sempre muito bem. Cada lugar é um emprego de capital. A comida é
óptima e na conversa toda a gente está sempre de acordo, porque Mónica nunca convida pessoas que
possam ter opiniões inoportunas. Ela põe a sua inteligência ao serviço da estupidez. Ou, mais exactamente: a
sua inteligência é feita da estupidez dos outros. Esta é a forma de inteligência que garante o domínio. Por isso
o reino de Mónica é sólido e grande.

Ela é íntima de mandarins e de banqueiros e é também íntima de manicuras, caixeiros e cabeleireiros. Quando
ela chega a um cabeleireiro ou a uma loja, fala sempre com a voz num tom mais elevado para que todos
compreendam que ela chegou. E precipitam-se manicuras e caixeiros. A chegada de Mónica é, em toda a
parte, sempre um sucesso. Quando ela está na praia, o próprio Sol se enerva.

O marido de Mónica é um pobre diabo que Mónica transformou num homem importantíssimo. Deste marido
maçador Mónica tem tirado o máximo rendimento. Ela ajuda-o, aconselha-o, governa-o. Quando ele é
nomeado administrador de mais alguma coisa, é Mónica que é nomeada. Eles não são o homem e a mulher.
Não são o casamento. São, antes, dois sócios trabalhando para o triunfo da mesma firma. O contrato que os
une é indissolúvel, pois o divórcio arruína as situações mundanas. O mundo dos negócios é bem-pensante.

É por isso que Mónica, tendo renunciado à santidade, se dedica com grande dinamismo a obras de caridade.
Ela faz casacos de tricot para as crianças que os seus amigos condenam à fome. Às vezes, quando os
casacos estão prontos, as crianças já morreram de fome. Mas a vida continua. E o sucesso de Mónica
também. Ela todos os anos parece mais nova. A miséria, a humilhação, a ruína não roçam sequer a fímbria dos
seus vestidos. Entre ela e os humilhados e ofendidos não há nada de comum.

E por isso Mónica está nas melhores relações com o Príncipe deste Mundo. Ela é sua partidária fiel, cantora
das suas virtudes, admiradora de seus silêncios e de seus discursos. Admiradora da sua obra, que está ao
serviço dela, admiradora do seu espírito, que ela serve.

Pode-se dizer que em cada edifício construído neste tempo houve sempre uma pedra trazida por Mónica.
Há vários meses que não vejo Mónica. Ultimamente contaram-me que em certa festa ela estivera muito tempo
conversando com o Príncipe deste Mundo. Falavam os dois com grande intimidade. Nisto não há
evidentemente, nenhum mal. Toda a gente sabe que Mónica é seriíssima toda a gente sabe que o Príncipe
deste Mundo é um homem austero e casto.

Não é o desejo do amor que os une. O que os une e justamente uma vontade sem amor.

E é natural que ele mostre publicamente a sua gratidão por Mónica. Todos sabemos que ela é o seu maior
apoio; mais firme fundamento do seu poder. Sophia de Mello Breyner Andresen Contos Exemplares Porto, Figueirinhas, 1996 (29ª
ed.).