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As falcatruas do clã Bolsonaro


Nas profundezas das operações irregulares do clã estão desde o
pagamento de viagem de lua de mel com dinheiro público até carro
blindado bancado pelo fundo partidário. O lho Eduardo teria
montado um esquema de “rachadinha” com a advogada paga pelo
PSL

A FAMÍLIA IMPERIAL Da esquerda para a direita: Carlos, Jair, Flávio e Eduardo Bolsonaro (Crédito:
Divulgação)

/
Germano Oliveira

25/10/19 - 09h30 - Atualizado em 25/10/19 - 19h03

A teia de interesses e arranjos que move o governo Bolsonaro cou exposta em meio
à brigalhada que o presidente, pessoalmente, seus lhos e partidários armaram em
público nos últimos dias – houve trocas de acusações, xingamentos e chantagens,
que, em alguns momentos, beiraram a infantilidade de alunos de jardim de infância.
De lado a lado, existiu de tudo. Gravações em situações no mínimo constrangedoras.
Numa delas, o presidente Jair Bolsonaro foi pilhado em agrante pedindo a um
parlamentar do PSL que apoiasse o nome do lho à liderança do partido. Do
contrário, tal parlamentar sentiria a vingança presidencial, puro estelionato: “Assina,
senão é meu inimigo”.

Aos que assinaram, foram distribuídos cargos públicos e promessas de ganho de


recursos do fundo partidário. Depois dessa operação, Bolsonaro foi chamado de
“vagabundo” pelo correligionário Delegado Waldir, que ameaçou “implodir” o governo.
No submundo dessas tramóias, surgiram ameaças, denúncias e demonstrações
explícitas de que muitos podres restavam escondidos ou não estavam devidamente
protegidos, vindo à tona em debates acalorados. Em determinado momento, a ex-
líder do governo Joice Hasselmann, remetendo-se à clássica obra de Lois Duncan, “Eu
sei o que vocês zeram no verão passado”, consagrou a rinha: ela a rmou, letra por
letra, saber o que “eles zeram no verão passado”. A cabeça de Joice rolou, adeus
cargo de líder.

Lua de mel com dinheiro público


ISTOÉ mergulhou nos últimos dias
nos subterrâneos dessas disputas
e negociatas bolsonaristas, ouviu
diversos interlocutores, checou
inúmeros dados e descobriu uma
assombrosa malha de práticas
criminosas que já levaram no
Brasil, legal e legitimamente, à
abertura de processos de
BAIXARIA Os deputados Joice Hasselmann (foto) e
impeachment do mais alto Delegado Waldir, tradicionais aliados, foram
mandatário da Nação – e, a se transformados em inimigos (Crédito:Reprodução)
fazer valer a Constituição, poderia
também encaminhar o atual /
presidente para idêntico destino. São situações e práticas que ferem o decoro de
forma clara. Nesse campo, estão em jogo no clã bolsonarista circunstâncias
aterradoras, como o pagamento das passagens da lua de mel do deputado Eduardo
com dinheiro público do fundo partidário – na quarta-feira 23, ele declarou que no
partido as pessoas têm de ter lealdade ao seu pai, não lealdade ao fundo.
Convenhamos que isso tem uma lógica torta, mas é lógica: Eduardo, ao lançar mão do
dinheiro do povo para a lua de mel, exerceu a deslealdade. Mas tem mais: ISTOÉ
descobriu a manutenção de uma poderosa rede de milicianos digitais operados
diretamente pelo Planalto, promíscuo fato que joga na marginalidade a República
brasileira, transformando-a em republiqueta de fundo de quintal. Ou, melhor: fazendo
da República uma associação criminosa de milicianos. Há também a revelação de que
até o carro blindado do deputado Eduardo é pago com os recursos públicos do fundo
partidário e que ele teria feito “rachadinha” com os salários da advogada do PSL.

A história da advogada expõe cruamente as vísceras do modus operandi de uma


república administrada por personagens pouco escrupulosos. Relatos obtidos por
ISTOÉ dão conta de que a advogada em questão, Karina Kufa, contratada pelo partido
a pedido de Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), teria sido a responsável por acertar os
detalhes da viagem de lua de mel do deputado. Eduardo se casou com Heloísa Wolf
no dia 25 de maio, no Rio de Janeiro, com as despesas pagas por amigos, mas faltava
comprar as passagens da viagem de núpcias rumo as paradisíacas Ilhas Maldivas.
Falando em nome de Eduardo, a advogada teria ligado para Antonio Rueda, vice-
presidente nacional do PSL, pedindo dinheiro do fundo partidário.

Rueda, ex-aliado do Messias e agora próximo ao deputado Luciano Bivar, presidente


nacional da legenda, chegou a con denciar: “Não agüento mais essa mulher me
telefonando para pedir dinheiro para o Eduardo”. Mas acabou liberando a grana. As
mesmas fontes, checadas com dois deputados do PSL ligados a Rueda, con rmaram a
informação já citada acima de que até carro blindado de Eduardo é pago com o
erário. Hoje, ele é o presidente estadual do PSL paulista, depois de pressionar o
senador Major Olímpio a desistir do cargo, e atualmente domina o caixa da legenda
em todo o Estado, incluindo os diretórios municipais. Na quarta-feira, Olímpio
manifestou sua intenção de pedir a dissolução do diretório.

Karina Kufa, conforme parlamentares ouvidos por ISTOÉ, era conhecida defensora
dos interesses de Eduardo dentro do partido. Ela recebia salário de R$ 40 mil
mensais, também pagos com dinheiro do contribuinte, mas dividiria o valor com o
deputado, na proporção de R$ 20 mil para cada um. Eduardo também caria com
parte do dinheiro que a advogada recebia do PSL a título de consultorias extras. Em
/
pouco mais de oito meses de
contrato com o partido, ela
recebeu R$ 340 mil. Desse total,
cobrou R$ 100 mil por seu
trabalho na defesa da senadora
Selma Arruda, ameaçada de
cassação de mandato (a
senadora trocou o PSL pelo
Podemos depois de uma briga
com o senador Flávio
Bolsonaro, que berrou com ela
ao telefone).

A defesa não teria cado boa,


obrigando o partido a contratar
o advogado Gustavo Bonin de
Guedes para substituí-la. Em
razão disso, o PSL está exigindo
o dinheiro de volta. Como Kufa
queria determinar como o
partido usaria os recursos do fundo partidário, a pedido do presidente Bolsonaro –
para quem também advoga -, Luciano Bivar decidiu demiti-la há 15 dias, em meio à
guerra pelo poder no partido. O domínio de Eduardo no PSL paulista é replicado por
Flávio Bolsonaro no PSL do Rio de Janeiro, onde ele também é presidente. Aliás, o
desdém da família em relação à ética é extensivo aos três lhos. Carlos, porém, é o
mais desbocado. Diante do anúncio de que a CPMI das Fakes News quer ouvi-lo, o
vereador fez um comentário digno da conduta daqueles que operam nos porões:
“Vamos falar umas verdades a esses porcarias”. Detalhe: “porcarias”, em sua visão, são
deputados e senadores.

As chaves do cofre
Os Bolsonaro não se dão por satisfeitos com o domínio territorial que já conseguiram.
Querem agora controlar todo o PSL nacional, dono de um fundo partidário de R$ 150
milhões anuais e de um fundo eleitoral estimado em R$ 500 milhões para os pleitos
de 2020 e de 2022, quando o “Mito” pretende ser candidato à reeleição. Na estratégia
de “tomar o partido na mão grande”, nas palavras do deputado Delegado Waldir ditas
à ISTOÉ, Bolsonaro decidiu que deveria afastar o deputado Luciano Bivar da
presidência nacional. “Primeiro, disse que ele estava queimado para caramba e uma
/
semana depois autorizou uma operação da PF em sua casa para desgastá-lo
publicamente.

A operação teve como justi cativa a investigação sobre o laranjal de Pernambuco,


mas estranhamente não faz o mesmo com o ministro do Turismo, Álvaro Antônio, em
Minas Gerais”, diz Waldir. Ainda segundo ele, os policiais “reviraram até as calcinhas da
esposa do Bivar em busca de provas e nada encontraram. Foi apenas um circo”. O
deputado entende que deveria haver uma investigação no Congresso para colocar a
limpo o envolvimento do presidente na operação policial. “Foi uma ação abusiva por
parte de Bolsonaro”, a rma ele. Waldir tem claro que o presidente quer “tão somente
a chave do cofre” do partido. Membros da Executiva do PSL não acreditam que
Bolsonaro terá sucesso em afastar Bivar da sigla.

Compra de cargos
Dando sequência ao projeto de tomar o PSL de assalto, o capitão reformado deu
início ao processo de substituir os líderes na Câmara e no Congresso, que
demonstravam estar alinhados a Bivar. O primeiro a ser fustigado foi o próprio Waldir.
Ele, por exemplo, cou contra a mudança do Coaf, defendeu a criação das CPIs da
Lava Toga e Fake News, apoiou as medidas anticrime de Sergio Moro e a prisão após
a segunda instância, contrariando o presidente. Dançou. O Planalto articulou para
colocar Eduardo no cargo. Bolsonaro foi gravado por um correligionário dizendo:
“quem car com a gente vai ter cargos no governo” – dá para lembrar Getúlio Vargas
quando pregrava “aos amigos tudo, aos inimigos a lei”. Waldir perdeu, de fato, o posto
para Eduardo. Waldir disse à ISTOÉ que o presidente autorizara o deputado Major
Vitor Hugo e o ministro da Secretaria de Governo, general Luiz Eduardo Ramos, a
oferecerem cargos e dinheiro do fundo partidário a parlamentares do PSL que
apoiassem Eduardo.

A farra por cargos na atual gestão atingiu um ponto tão descarado que até o ex-
motorista do senador Flávio Bolsonaro, Fabrício Queiroz, saiu de seu esconderijo para
gravar um áudio divulgado por grupos de Whatasapp, no qual indica que continua
in uente na divisão de empregos públicos, com direito à “rachadinhas”. “Tem mais de
500 cargos lá, cara, na Câmara, no Senado… Pode indicar para qualquer comissão,
alguma coisa, sem vincular a eles (família Bolsonaro) em nada. Vinte continho pra
gente caía bem pra c…”. E mais adiante insinua que Flávio continua distribuindo
cargos. “Pô, cara, o gabinete do Flávio faz la de deputados pra conversar com ele. Faz
la. É só chegar, meu irmão: nomeia fulano aí, para trabalhar contigo. Salariozinho
bom desse aí, cara, pra gente que é pai de família, p…, cai como uma uva”, diz um /
debochado Queiroz, que
desviou R$ 1,2 milhão dos
funcionários do gabinete de
Flávio quando ele era deputado
estadual no Rio de Janeiro. A
dupla está sendo investigada
pelo MP, mas o STF de Dias
To oli mandou suspender as
apurações, no que é chamado
no Congresso de “acordão” com
o presidente.

Con gurada a derrota do


Delegado Waldir, ele adotou o
discurso de oposição: “Isso
caracteriza um desrespeito à
Constituição. O Executivo não
pode interferir no Legislativo”.
Waldir entende que da compra
de votos pode até decorrer o
impeachment, “mas isso quem
pode analisar são entidades
como a OAB”. Waldir até foi
pego numa gravação chamando
Bolsonaro de “vagabundo”:
“Sempre fui el a ele. Quando
foi candidato a presidente da
Câmara, teve quatro votos. Um
deles foi meu. Por isso,
con rmo: chamei mesmo de vagabundo”. A rasteira que lhe foi dada por Eduardo
trouxe ótimas conseqüências à diplomacia brasileira: após ter se tornado líder na
Câmara, Eduardo desistiu de ser indicado pelo pai para a Embaixada em Washington.
“Preciso car aqui para construir um Brasil conservador”, discursou Eduardo (Edmund
Burke revirou no túmulo). O presidente já indicou para a embaixada o nome de
Nestor Forster, ligado ao lósofo Olavo de Carvalho. Engana-se, porém, quem acha
que a situação está resolvida. “Eduardo não tem condições de paci car o PSL. Se
houver uma eleição secreta para a liderança, ele perde”, disse o senador Major
Olímpio (PSL-SP), líder da sigla no Senado.

/
Milicianos
Joice Hasselmann, quando está calma, parece furiosa; quando se enfurece, vira um
tsunami. Alijada da liderança, ela a rmou ter sido retirada do cargo pelo simples fato
de ter assinado a lista em favor do Delegado Waldir, em detrimento de Eduardo, e
sentiu-se “traída”. Foi execrada publicamente pelos lhos do presidente, e Eduardo foi
o primeiro a detoná-la com a divulgação de um post em que colocava o rosto da
deputada em uma nota de R$ 3 – querendo dizer que ela é falsa. Em um dos memes,
ela aparece obesa, com mais de 200 quilos, de forma chocante. Eduardo fez também
posts relacionando-a a uma porca e uma vaca – como se vê, ele é de um
cavalheirismo incrível. Ela contra-atacou: refereriu-se aos lhos como “moleques” e
usando imagens de “viadinhos”, mas depois se arrependeu e apagou a postagem.
Joice investigou de onde partiam os memes, e descobriu que os três lhos do
presidente usam assessores parlamentares, “pagos com dinheiro público”, que agem
como “milicianos digitais” para alimentar pelo menos 21 per s no Instagram, 1.500
páginas no Facebook e centenas de contas no Twitter. De acordo com ela, a maioria é
de per s falsos que utilizam fake news para atacar quem ideologicamente não
concorda com o bolsonarismo (leia entrevista com a deputada aqui).

ISTOÉ descobriu que essa


quadrilha digital é integrada por
diversos membros, espalha-se
pelo País e o seu chefão atende
pelo nome de Dudu Guimarães
– ele é assessor parlamentar…
adivinha de quem… de Eduardo.
Dudu é o responsável pelo falso
per l Snapnaro, e há outros
per s, igualmente falsos,
comandados pelos Bolsonaros
– como Bolsofeios, Bolsonéas e
Pavão Misterioso. Joice conta
que um esquema similar é
mantido pelos lhos numa sala
instalada no quarto andar do
Palácio do Planalto, conhecida
como “gabinete do ódio” ou
“gabinete das maldades”. Esse
grupo, coordenado pelo
/
vereador Carlos Bolsonaro e pelo assessor internacional da Presidência do Brasil,
Filipe Martins, é composto por três funcionários públicos que operam na criação de
notícias favoráveis ao presidente, mas também produzem fake news e dossiês contra
desafetos, estejam eles dentro ou fora do governo. Isso aconteceu com o vice-
presidente Hamilton Mourão e o ex-ministro Santos Cruz. Esses assessores têm nome
e sobrenome: Tércio Arnaud Tomaz, José Mateus Salles Gomes e Mateus Matos.

Depois que passou a denunciar os lhos do presidente, Joice sente medo de ser alvo
de pesadas represálias e, por isso, passou a “morar” na casa de uma amiga que lhe
ofereceu segurança privada. Outros deputados do PSL, que desa aram Eduardo,
como Junior Bozela (PSL-SP), também temem pela própria vida. Bozela a rma que
funcionários do gabinete de Eduardo ameaçaram-no de morte. Ele chegou a registrar
boletim de ocorrência na Polícia Legislativa e denunciou à ISTOÉ: “Eduardo usa como
seguranças pessoais policiais ligados à milícia carioca”. Agora cou bastante claro o
que a deputada quis dizer quando sabia o “que eles zeram no verão passado”.

Atualizações

Em nota enviada à direção de ISTOÉ, Antonio Rueda, vice-presidente nacional do PSL,


contesta informações publicadas na reportagem “As falcatruas do clã Bolsonaro”, das
páginas 22 a 26. Ele nega ter pago as passagens da viagem de lua de mel do
deputado Eduardo Bolsonaro. “Como vice-presidente do partido não tenho a
prerrogativa de ordenar despesas. E o PSL jamais utilizou ilegalmente recursos
públicos para ns privados”. diz Rueda.

NOTA DE REDAÇÃO – A ISTOÉ mantém as informações publicadas. Elas foram


reveladas aos repórteres da revista por quatro parlamentares do PSL, dois deles
ligados a Rueda.

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